BuscaLegis.ccj.ufsc.Br As Medidas de Segurança (Inconstitucionais?) e o dever de amparar do Estado Eduardo Baqueiro Rios* Antes mais nada são necessárias breves considerações acerca de pena e das medidas de segurança. A reforma penal de 1984 abandonou o que a doutrina costuma chamar de sistema duplo binário, em que se aplicava a pena e as medidas de segurança para os imputáveis e os semi-imputáveis e adotou o sistema vicariante ou unitário, ou seja, não mais se aplicam as medidas de segurança e pena, conjuntamente, mas tão-somente uma ou outra, conforme a situação pessoal do infrator. Na lição do insigne Cezar Roberto Bitencourt (Código Penal Comentado, 2ª. ed. Saraiva: São Paulo, 2004, p. 315) O fundamento da pena passa a ser exclusivamente a culpabilidade, enquanto a medida de segurança encontra justificativa somente na periculosidade, aliada à incapacidade penal do agente (grifo do autor). Nesse diapasão, o imputável (cf. o art. 26 do CP, é o agente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento) que praticar conduta punível somente se sujeitará à pena cominada; ao inimputável, a medida de segurança e ao
semi-imputável (as circunstâncias pessoais determinarão se a resposta penal será pena com a redução prevista no art. 26, parágrafo único do CP - ou medida de segurança. Afora a regra ao semi-imputável seja a pena se o juiz constatar a presença de periculosidade (real) aquele será submetido à medida de segurança. As medidas de seguranças são impostas, então, aos que praticam crimes e que, por serem portadores de doenças mentais, não podem ser considerados responsáveis pelos seus atos e, portanto, devem ser tratados e não punidos. Conquanto as diferenças entre a pena e as medidas de segurança sejam marcantes, a pena tem caráter retributivo-preventivo e as medidas de segurança têm natureza somente preventiva, entre outras, a mais contundente refere-se ao prazo do cumprimento. Enquanto a pena possui prazo determinado as medidas de segurança são por prazo indeterminado e seu término somente ocorrerá se cessar a periculosidade. (art. 97, 1º., do CP). Persistem as medidas de segurança até que se comprove por laudo médico a cessação da periculosidade. O difícil será o sujeito tratado em manicômios judiciários (a lei apelida de Hospitais de custódia e tratamento psiquiátrico) deixar de ser perigoso. Se não o era ao tempo do internamento, certamente será após. No ensinamento do festejado professor Luiz Flávio Gomes (O Louco deve cumprir medida de segurança perpetuamente?- Artigo publicado em: http://www.mundolegal.com.br/?fuseaction=doutrina_detalhar&did=15888. Acesso: 02ago2007), Isso significa, na prática, que a medida de segurança no Brasil pode ter caráter perpétuo.
Ocorre que a CF/88 proíbe a pena perpétua (CF, art. 5º, inc.xlvii, b ). Além disso, o art. 75 do CP determina um prazo máximo de 30 (trinta) anos para o cumprimento da pena. Na mesma direção, o ínclito Luiz Regis Prado (Curso de Direito Penal Brasileiro, 5ª. ed. RT: São Paulo, 2004, p. 745) Não há dúvida de que, a exemplo das penas, as medidas de segurança também estão submetidas ao princípio da legalidade. Mesmo nas medidas de segurança existe diferença também quanto ao imputável e ao semiimputável (quando for o caso de aplicação de medida de segurança) no que se refere ao modo do tratamento. Enquanto o primeiro será internado naqueles hospitais logo acima mencionados o segundo está sujeito ao tratamento ambulatorial naqueles hospitais ou outro local com dependência médica adequada (LEP, ar. 101). Ensina o ilustre Eduardo Reale Ferrari, (Medidas de segurança e direito penal no estado democrático de direito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001 (...) a socialização não justifica a medida de segurança, o que justifica sua aplicação é o fato de se tentar evitar a prática de crimes futuros. Periculosidade não é ensejo a uma socialização forçada". No julgamento pela Primeira Turma do STF do HC 84.219, j. de 09.11.04, ainda em fase de conclusão falta o voto do ministro Sepúlveda Pertence cujo relator é o Ministro Marco Aurélio, houve especial destaque a que, Sustenta-se, na espécie, com base no disposto nos artigos 75 do CP e 183 da LEP, estar a medida de segurança limitada à duração da pena imposta ao réu, e que, mesmo persistindo
a doença mental e havendo necessidade de tratamento, após a declaração da extinção da punibilidade, este deve ocorrer em hospital psiquiátrico, cessada a custódia". Concluíram os Ministros que, não obstante o teor do 1º do art. 97 do CP informe que o prazo seja indeterminado da aplicação de medida de segurança, o significado a ser buscado deve ter em conta o exame teleológico, sistemático, que não se choquem com as citadas disposições legal e constitucional que proíbem a prisão perpétua. Se persistir, por outro lado, o distúrbio mental, afirma o renomado professor Luiz Flávio Gomes (ob. Cit.) (...) deve o paciente ser transferido para hospital da rede pública, eliminando-se a intervenção da Justiça penal. Resta o voto do Ministro Sepúlveda Pertence, que pediu vistas. Abstraindo-se do sentido que a CF/88 abraça com o termo igualdade, já que tratar os desiguais de forma desigual tem sentido de igualdade, perpetuar a pena por meio de medidas de segurança não parece o que se poderia dizer de justiça, e nem parece condizente com o sentido do texto constitucional quando determina que não heverá prisão de caráter perpétuo. Haverá quem se contraponha a tal posição sob a alegação de que o débil já seria assunto do Estado antes mesmo de delinqüir, ou que seria uma tarefa da família protegê-lo e por conseqüência à própria sociedade dos males que aquele poderia perpetrar. E não seria absurdo esse pensamento.
Entretanto, não invalidaria a percepção de injustiça quando se mantém alguém em tratamento em lugares que, mais das vezes, pioram a situação do internado que melhoram. O inimputável ou semi-imputável seriam condenados, isto sim, a passar o resto de suas vidas sob um suposto tratamento até que findasse sua periculosidade. Há pessoas que pelo estado de debilidade já tornaria a tarefa de integrá-lo à sociedade de forma normal um grande desafio. Imagine-se, então, naqueles manicômios patrocinados pelo Estado. Ao contrário dos demais presos que são livres após o cumprimento de suas penas e ainda podem ser liberados antes de seu final, por questões de política criminal, estando, em princípio, aptos a se reintegrarem à sociedade e, até, há o incentivo estatal para tal fim, o sujeito às medidas de segurança não tem essas oportunidades. Ao contrário, poderão passar seus dias em locais, como já dito alhures, normalmente inadequados para sua recuperação. A sugestão de aplicação de tempo em consonância com o prazo de duração, mínimo ou máximo, da pena, talvez possa abrandar tal situação, mas ainda assim não seria totalmente justo, pois haveria, para o inimputável, a valoração de sua conduta, isto é, em condições normais sua conduta seria apenada com tal prazo. Há, dessa forma, o próprio julgamento. Ainda que não exista, entre os exemplos apresentados pelos autores situações sem a valorização do fato delitivo, parece que atenderiam mais adequadamente que a situação atual quanto à duração das medidas de segurança.
Referências Bibliográficas BITENCOURT, Cezar Roberto. (Código Penal Comentado, 2ª. ed. Saraiva: São Paulo, 2004. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. FEDERAL, Supremo Tribunal. Boletim Informativo n 369. Brasília. http://www.stf.gov.br - Acesso: 02 de agosto de 2007. FERRARI, Eduardo Reale. Medidas de segurança e direito penal no estado democrático de direito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001. GOMES, Luiz Flávio (O Louco deve cumprir medida de segurança perpetuamente?- Artigo publicado em: http://www.mundolegal.com.br/?fuseaction=doutrina_detalhar&did=15888. Acesso: 02ago2007). PRADO, Luiz Regis. (Curso de Direito Penal Brasileiro, 5ª. ed. RT: São Paulo, 2004 *Articulista do Viajus, Executivo da àrea Comercial, Administrador de Empresas e Acadêmico do 9º. Semestre do curso de Direito das Faculdades Jorge Amado. Disponível em: < http://www.viajus.com.br/viajus.php?pagina=artigos&id=970&idareasel=4&seeart=ye s>. Acesso em: 01 nov. 2007.