Hidratação e Choque hipovolêmico



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Hidratação e Choque hipovolêmico Dr. Marcelo Ruiz Lucchetti Médico da Enfermaria de Pediatria do HUAP Médico do Centro de Tratamento de Queimados Infantil do HMSA

Líquidos Corporais Fisiologia Composição Dinâmica Balanço Necessidades energéticas e hídricas

Fisiologia Água intracelular extracelular intravascular intersticial transcelular ex.: LCR, humores do olho

Correlação entre o crescimento e os fluidos orgânicos Prétermo RN 1 ano 3 anos 9 anos Adulto Peso corpóreo (kg) 1,5 3 10 15 30 70 Área corpórea (m2) 0,15 0,2 0,5 0,6 1,0 1,7 Área corpórea/peso 0,1 0,07 0,05 0,04 0,03 0,02 % água do peso 80 75 65 60 LEC (% peso) 50 45 25 20 LIC (% peso) 30 33 40 40 Adaptado de Casartelli C, Brugger E. Distúrbios hidroeletrolíticos. I n Piva J, et al Terapia Intensiva em Pediatria e Yoshioka T, Iitaka K., et al. Body fluid compartments In: Ichikawa I. Pediatric Textbook of Fluids and Electrolytes.

Desidratação na criança Susceptibilidade > quantidade % H 2 O corporal ASC relativamente > adulto > PI Imaturidade renal (> necessidade de H 2 O p/ excreção de solutos) Incapacidade de ingestão de água sem auxílio perdas em processos infecciosos

Balanço da Água Corpórea Ganho Perda Ingestão de líquidos Oxidação de alimentos x TGI Urina Perdas Insensíveis: Pulmão Pele Perdas anormais: febre, poliúria, sudorese, transpiração, vômitos, diarréia

Perdas pelo metabolismo basal Proporção por Sítio Metabolismo calor solutos Pele T. Resp. Urina Líquidos ~ 50% ~ 50%

Desidratação Classificação Gravidade Desidratação 1o Grau ou Leve Até 5% 2o Grau ou Moderada Até 10% 3o Grau (>10%) choque hipovolêmico hipotensão sensório deprimido acidose metabólica alteração de perfusão

Desidratação Tonicidade DESIDRATAÇÃO HIPOTÔNICA Na < 130 meq/l (hiponatrêmica) ISOTÔNICA Na = 130 a 150 (isonatrêmica) HIPERTÔNICA Na > 150 meq/l (hipernatrêmica) > PERDA SOLUTOS/ ÁGUA PERDA DE SOLUTOS ~ ÁGUA > PERDA ÁGUA/ SOLUTOS

Reidratação Oral: desidratação 1o e 2o graus Parenteral: 2o e 3o graus fase de expansão 2o grau Velocidade de infusão de líquidos 3o grau fase de recuperação desidratação iso, hipo ou hipernatrêmica

Reidratação oral Desidratação leve (até 5% perda) 50 ml/kg peso em 4h + reposição das perdas (10 ml/kg/cada evacuação diarreica ou vômito) Desidratação moderada (até 9% perda) 100m ml/kg peso em 4h + reposição das perdas (10 ml/kg/cada evacuação diarreica ou vômito)

Reidratação Parenteral Fase de expansão: SF ou RL 20 a 30ml/kg em 1 hora ou de 20/20 minutos (grave) Fase de recuperação: deficit, manutenção, reposição de perdas progressivas tempo = 24 - tempo fase de expansão (h) composição na dependência da osmolaridade, perdas estimadas de eletrólitos (K+), condições de base (desnutrição, insuficiência renal, etc)

Reidratação Parenteral Deficit (perdas anteriores) Manutenção Perdas posteriores

Deficit (estimativa) Desidratação 1o Grau ou Leve Até 5% 2o Grau ou Moderada Até 10% 3o Grau (>10%) choque hipovolêmico hipotensão sensório deprimido acidose metabólica alteração de perfusão Deficit: Até 50 ml/kg Até 100ml/kg > 100 ml/kg Obs.: ideal seria peso antes do quadro

Manutenção Fórmula de Holliday-Segar Peso (kg) kcal/d ou ml/d 3 a 10 kg 100/kg por dia 11 a 20 kg 1000 + (50/kg por dia)* >20 kg 1500 + (20/kg por dia)# * Para cada kg > 10 # Para cada kg > 20 Holliday MG, Segar WE. Pediatrics, 1957;19:823-832

Na+ Sérico > 150mEq/l 130-150 120-130 <120mEq/l CONCENTRAÇÃO DE SÓDIO NA SOLUÇÃO FINAL 30-40mEq/l 50-60mEq/l 70-80mEq/l 80-100mEq/l ~1:4 ~1:2 ~1:1 2:1

Perdas posteriores Perdas anormais após a determinação do deficit diarréia vômito secreção de cateter nasogástrico, ileo ou jejunostomia poliúria (diurese osmótica) perdas não mensuráveis (3 o espaço)

Perdas gastrintestinais Origem Perdas (meq/l) Na + K + Cl - Gástrica 20-80 5-20 100-150 I. delgado 100-140 5-15 90-130 Ileostomia 45-135 3-15 20-115 Diarréia 10-90 10-80 10-110

Caso Clínico: Lactente com 5kg, eutrófico, com diarréia e vômitos com sinais de desidratação de 2o grau, com perda hídrica estimada em 10%. (Sódio não mensurável no local de atendimento) Deficit total: 100 ml/kg = 500ml Manutenção: 100 ml/kg/dia = 500 ml/ 24 h Bolus: 20ml/kg de SF 0,9% em 1h Total: 100 ml Melhora Clínica Restam: Deficit: 500-100 ml = 400 ml em 24 h Manutenção: 500 ml em 24 h

Restam: Deficit: 500-100 ml = 400 ml em 24 h Manutenção: 500 ml em 24 h 1 as 8 horas 16 horas seguintes 1/2 deficit (200ml) * + 1/3 NHD (~170ml)# Total = 370ml Vel. Infusão = 46,2 ml/h 1/2 deficit (200ml)* + 2/3 NHD (333ml)# Total = 533ml Vel. Infusão = 33,3 ml/h * solução GF 1:1 (150 mosm/l) # solução GF 1:4 (60 mosm/l) associar K+: 2 meq/100ml em cada solução

Desidratação em desnutridos Criança desnutrida > água corporal total pp// extracelular > dificuldade diagnóstico do grau desidratação Na+ plasmático e Na+ intracelular K+ intracelular e corporal e N ou plasmático! Risco de intoxicação hídrica

Desidratação em desnutridos Sinais de desidratação confiáveis história de diarréia aquosa sede olhos encovados de início recente oligúria pulso radial fraco extremidades frias Sinais de desidratação não confiáveis estado mental (apatia natural do desnutrido) boca seca e lágrimas ausentes (atrofia) elasticidade da pele

Reidratação oral em desnutridos Menor risco de hiperidratação do que parenteral SRO com menos sódio e mais potássio Solução acrescida de Mg, Zn e Cu Volume = 70 a 100 ml/kg em 12 horas Início com 5 ml/kg a cada 30 min VO ou NG Repor perdas fecais

Reidratação intravenosa desnutridos Choque hipovolêmico Solução glicofisiológica (1:1) Volume = 15 ml/kg em 1 hora Reavaliação freqüente Iniciar reidratação por CNG concomitante

Hidratação na Insuf. Renal Aguda Objetivo: manter o volume circulante eficaz normal monitoração clínica e hemodinâmica cuidado com líquidos infundidos para desobstrução de cateteres exigência de líquidos na IRA = fluxo urinário + perdas extra-renais óbvias + perdas insensíveis (± 400ml/m 2 SC)

Choque hipovolêmico Introdução Etiologia Fisiopatologia Sinais clínicos Monitoração Ressuscitação volumétrica

Choque Definição Técnica: Inadequação do organismo em suprir os tecidos com uma quantidade adequada de sangue saturado em O 2 Filosófica: O choque pode ser visto como a transição entre a vida e a morte (Jeffrey Kline 2002)

Choque hipovolêmico Perda real de volume sangue plasma líquidos Perda do Tônus vascular anafilaxia sepsis drogas

Choque Quadro clínico letargia taquicardia taquipnéia extremidades frias pulso filiforme hipotensão oligúria pele fria, pálida e/ou moteada reenchimento capilar > 3s sonolência ou irritabilidade hipotonia muscular respiração acidótica

Choque Monitoração Parâmetros clínicos freqüência pulso diurese perfusão periférica padrão respiratório pressão arterial cor da pele nível de consciência Monitoração hemodinâmica invasiva* PVC Cateter de termodiluição de Swan-Ganz *geralmente desnecessária em pacientes sem comprometimento de bomba cardíaca ou sepsis

Ressuscitação volumétrica SF 0,9% - 20 a 30 ml/kg a cada 20 a 30 minutos até 3 vezes Sem reversão clínica Verificação da PVC Furosemida (fluxo plasm. renal) < 6,5 cm H 2 O Novas infusões 6,5 cmh 2 0 + sinais clínicos Outra etiologia (contratilidade?)

Choque hipovolêmico Soluções hipertônicas Soluções colóides - albumina Aminas simpaticomiméticas