LECTIO DIVINA DAS BODAS DE CANÁ

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Transcrição:

1 LECTIO DIVINA DAS BODAS DE CANÁ 1 Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. 2 Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a boda. 3 Como viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: «Não têm vinho!» 4 Jesus respondeu-lhe: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora.» 5 Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!» 6 Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma. 7 Disse-lhes Jesus: «Enchei as vasilhas de água.» 8 Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa.» 9 E eles assim fizeram. O chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era - se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o noivo 10 e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!» 11 Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele.

2 Nota histórica e cultural: Naquele tempo, as bodas não se celebravam numa única refeição como costumamos fazer nós hoje (uma ceia ou um almoço). Os judeus deste tempo festejavam as bodas num espaço de três, quatro, ou mais dias. Assim era necessário prover-se de muita coisa, para atender os convidados. Por outro lado, há que levar em conta alguns elementos da simbologia do Antigo Testamento. Em vários textos, particularmente proféticos, descreve-se o Céu como um banquete e mais especificamente um banquete de bodas, onde há bom e abundante vinho. Não esqueçamos que, em sentido estrito, no Evangelho segundo São João, os milagres de Jesus não são chamados milagres como nos outros evangelhos, mas sinais. Isto é, sinais milagrosos que, justamente, marcam ou significam que Jesus é realmente o Messias que devia vir ao mundo. Perguntas para a leitura. Quando acontece esta cena?. Onde acontece? Aonde se dirige Maria? Para que vai e com quem vai? O que acontece nessa festa? O que faz então Maria?. Quais os títulos de Maria? O que lhe responde Jesus? Por que o Senhor lhe responde desta forma? Como reage Maria ante a atitude de Jesus? O que diz aos serventes? O que pede o Senhor aos que estão trabalhando no serviço das bodas? O que aconteceu com a água que tinha nas talhas? Como é o novo vinho que transforma Jesus? O que diz o encarregado da festa ao noivo? Que significado tem o que fez o Senhor? Como reagem seus discípulos ao contemplar o poder que tem seu Mestre?

3 Notas de leitura: 1) Este texto só aparece em São João e numa clara persepectiva de manifestação : «manifestou a sua glória» (Jo.2,11). 2) Há uma leitura simbólica inevitável de um texto como este em que aparecem símbolos, como os da água, do vinho, do banquete, do casamento... 3) Trata-se, não apenas de mais um milagre, mas do primeiro dos seus sinais (Jo.2,11). Funciona como primícia, prelúdio ou antecipação de tudo o que vem a seguir. Aparecem aqui os temas fundamentais do evangelho de João: os sinais, a hora, a glória... 4) O acontecimento tem lugar, três dias depois... Tendo em conta os dias anteriores, trata-se do 7º dia. Veja-se a nota da Bíblia: Ao terceiro dia, depois da chamada de Filipe; numa alusão ao início do Génesis, seria o 7. dia da semana inaugural (v.1-11; 1,19-28.29-34.35-40.41-42.43-44.45-51), símbolo da nova Criação. Esta semana é paradigmática: precedendo a 1.ª Páscoa (v.13), desemboca no sinal das bodas, antecipando a glória (v.11) da Ressurreição (ao terceiro dia) na semana da última Páscoa; por outro lado, esta inaugura o 1. ciclo entre Caná e Caná (2,1-4,54), em que Jesus se revela a todos: aos discípulos (v.1-11), ao povo (v.13-23), a um mestre da lei (3,1-21), aos samaritanos (4,1-42) e aos pagãos (4,43-54). Caná. 5) Acontece em Caná. Só São João fala desta terra (4,46; 21,2). Habitualmente, é identificada com Kefr-Kenna, a 7 km a NE de Nazaré; mas as indicações de F. Josefo levam a pensar nas ruínas de Hirbet-Qaná, a 14 km a N de Nazaré. 6) Acontece num ambiente público (festa) e familiar (casamento) e no contexto de um banquete. Vê-se aqui a antecipação do banquete messiânico e das núpcias de Cristo com a humanidade. O evangelho de João termina com banquete e declaração de amor. Jesus veio para

conduzir a natureza humana, a própria pessoa humana, à comunhão nupcial com Deus. 7) Maria não é citada pelo nome, mas aparece como Mãe de Jesus e mulher... interessa aqui o seu papel. A expressão Mulher não implica menos respeito (4,21; 8,10; 20,13.15; Mt 15,28; Lc 13,12; 22,57); e o paralelo com 19,26 pode fazer pensar numa alusão à nova Eva, a "mãe de todos os viventes"(19,25-27; Gn 3,20), junto ao novo Adão. 8) Não têm vinho (Jo.2,3). É mais confissão de impotência perante o drama. Maria coloca o problema na mão de quem o pode resolver. Maria não pede ao Senhor um milagre. De facto ainda não era claro, se o fazer milagres pertencia à Sua missão. Ela simplesmente apresenta ao Senhor a dificuldade, na qual os amigos se encontravam. Maria coloca tudo nas mãos de Jesus e abandona se a Ele e ao Seu operar. Nem sequer a aparente recusa a desanima. A sua confiança em Jesus e a unidade com a vontade do seu Filho permanecem ilesas. 9) Malibelaká: que há entre mim e ti (Jo.2,4) uma frase de difícil interpretação. Tendo em conta o uso desta expressão noutros lugares bíblicos e tendo em conta a resposta efectiva de Jesus, Maria de facto não pede nada. Simplesmente expõe e se expõe assumindo como sua a dificuldade dos outros e confiando-se à vontade de Jesus. 10) Ainda não chegou a minha hora (Jo.2,4): a expressão aponta para a Páscoa; é claro o significado pascal deste episódio. A Hora de Jesus, de que Ele fala na resposta a Sua Mãe, é a Hora das Núpcias. Ele aproxima se desta Hora, para ela é que Ele está aqui. Essa Hora começa, como dissemos, com a concepção no seio de Maria e atinge o seu ponto mais alto na Cruz, que João, ao mesmo tempo, designa sempre, como o momento da glorificação de Jesus. Na Cruz, Jesus dá se completamente: A Cruz é o acto, no qual Ele completa e definitivamente se dá e, deste modo, a todos nos atrai para os Seus braços. Porque se trata do último e mais alto grau do amor, por isso, é que a Cruz é, em toda a sua humilhação, a Hora da Glorificação: pois, em nenhuma parte, o amor de 4

Deus aparece tão poderosamente visível, como no momento em que o Filho nos amou "até ao fim" (Jo.13,1). 11) Fazei o que Ele vos disser (Jo.2,5). Nas palavras simples da Mãe de Jesus identificamos dois elementos: Por um lado, a sua solicitude carinhosa pelos homens, a atenção materna com que sente a dificuldade do próximo; vemos a sua bondade cordial e a sua disponibilidade a ajudar. Confiamos-lhes as nossas preocupações, as necessidades e as situações de dificuldade. É aqui na Sagrada Escritura que vemos pela primeira vez a bondade da Mãe pronta a ajudar, em quem temos confiança. Por outro lado, Maria remete tudo ao juízo do Senhor. Em Nazaré, entregou a sua vontade, infundindo-a na vontade de Deus: "Eis a serva do Senhor, façame em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38). Esta é a sua atitude fundamental permanente. 12) Jesus pede colaboração humana, como na multiplicação dos pães! 13) Há muito vinho. Seiscentos litros de vinho novo e saboroso, é qualquer coisa de extraordinário. Uma incompreensível abundância. Tal é o excesso da dádiva, que ela se constitui como o sinal que provoca o milagre da fé dos discípulos. 14) Na verdade esta abundância, esta extravagância é o grande sinal de Deus na Sua Criação: Ele esbanja, Ele cria todo o universo, para dar espaço ao Homem. Ele dá-nos a vida, a vida numa incrível abundância! 15) O vinho é o símbolo da superabundância, da qual também temos necessidade. O vinho é o sinal da alegria, da transfiguração da criação. Tira-nos da tristeza e do cansaço do dia-a-dia, e faz do estarmos juntos uma festa. Alarga os sentidos e a alma, solta a língua e abre o coração; e transpõe as barreiras que limitam a nossa existência. Não por acaso, na Tradição da Igreja, o vinho se tornou símbolo da abundância dos dons do Espírito Santo 16) Tudo se destina a conduzir à fé: os discípulos acreditaram nele. O milagre mais profundo de Caná é a fé dos discípulos, os quais, para além do 5

acontecimento exterior, começam a reconhecer uma coisa maior: a presença sacrossanta de Deus no meio de nós. 2 MEDITAÇÃO: O que me diz o texto? Perguntas para a meditação: Estou atento às necessidades dos irmãos como Maria está neste texto? Tenho a humildade de Maria que confia plenamente em Jesus e no que vai fazer? Deixo-me inundar por tanta confiança? O que implica para mim hoje que Maria me diga e nos diga: Fazei tudo o que Jesus vos disser? Obedeço à palavra de Jesus? Deixo que o Senhor transforme a água de minha vida no vinho novo do Reino de Deus? Quais situações de minha vida o Senhor deve transformar hoje para estar na dinâmica do Reino? O Senhor quer-me dar a alegria nova do Reino: que atitude tenho perante isto? Procuro descobrir os sinais e manifestações de Deus em minha vida? Percebo o poder do Senhor? Procuro crer e ser um autêntico discípulo de Jesus? Para os casais: Há uma necessária transformação no amor, sugerida na transformação da água em vinho. Também o amor humano precisa de ser tomado, elevado e transformado, pela graça do Amor de Deus. Todo o amor verdadeiro, se encaminha e se eleva, para a Hora da Cruz, para o dom supremo, como o de Jesus, o Esposo, que nos amou "até ao fim" (Jo.13,1). Trata-se aí do último e mais alto grau do amor: Pois ninguém tem maior amor do que Aquele que dá a Vida! Como o vinho que inebria, o amor coloca a pessoa em «êxtase»: mas não no sentido de um instante de inebriamento, mas como saída permanente do coração fechado em si, para a sua libertação, no dom total e definitivo de si mesmo (DCE 6). 6

.Temos consciência de quanto pode ser frágil e instável e esgotável o amor, se ele apenas se baseia no vinho de casa?. Pomos à disposição de Deus o pequeno tesouro do nosso amor, para que Deus o possa transformar e multiplicar? 3 - ORAÇÃO É assim que Maria nos ensina a rezar: não desejar afirmar diante de Deus a nossa vontade e os nossos desejos, por mais importantes que sejam, por mais razoáveis que nos possam parecer, mas levá-los até à sua presença e deixar que Ele decida o que tenciona fazer. De Maria aprendemos a bondade pronta a ajudar, mas também a humildade e a generosidade de aceitar a vontade de Deus, dando-lhe confiança na convicção de que a sua resposta, qualquer que ela venha a ser, será o nosso, o meu verdadeiro bem. Faça-se em mim, segundo a tua Palavra! 4 CONTEMPLAÇÃO: Como interiorizo a mensagem? Para o momento de interiorizar a Palavra pode-se usar a frase de Maria aos servidores, como tal a todos e a cada um de nós. Nós a repetimos no plural e no singular, para a gravar em nosso coração: Fazei tudo o que Jesus vos disser... Faz tudo o que Jesus te disser....conformai a vossa vontade à vontade de Deus..Escutai e estai prontos para o Seu chamamento..reconhecei O como o Senhor, que vos indica o caminho e vos conduz rectamente. 7

8 5 ACÇÃO: Com que me comprometo? Fazei o que Ele vos disser! - Acreditai em Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo. - Acreditai com uma fé, que é amor; crede com uma fé que não é pura teoria, mas vida; - Crede com uma fé que aceita a vontade de Deus, mesmo se a não conhecemos e se vai contra a nossa vontade. - Acreditai e, no meio das coisas terrenas, vereis a glória de Deus, a superabundância e o brilho do Seu amor. - Acreditai e vereis: onde os outros só vêem a cruz, uma existência falhada e um fim vergonhoso, vereis vós a desmedida do superabundante amor de Deus, a Sua glória que nos salva. - Acreditai e recebereis o saboroso vinho da presença de Deus na vossa vida. - Acreditai em Deus e então as águas mesquinhas do dia-a-dia, os mesquinhos dons que oferecemos, hão-de transformar se no vinho da Sua santa proximidade.