Avaliação do Risco de Perda Auditiva em Músicos

Documentos relacionados
Análise do Risco de Perda Auditiva em Protéticos

ORIENTAÇÃO PARA OS CUIDADOS COM A SAÚDE AUDITIVA EM PROFISSIONAIS DA MÚSICA

AVALIAÇÃO DOS NÍVEIS DE RUÍDO NAS OPERAÇÕES DE CORTE E POLIMENTO DE GRANITO NATURAL E DO RISCO AUDITIVO DOS TRABALHADORES

Avaliação do Ruído em Consultórios Dentários

Perda de audição pode gerar indenização por acidente de trabalho. por Kendra Chihaya Qua, 11 de Janeiro de :44

PROCEDIMENTO DE MEDIÇÃO DE RUIDO EM AMBIENTES INTERNOS.

Efeitos sobre a saúde devido à exposição aos agentes físicos: ruído

Prof. Ricardo Ferreira Bento

Procedimentos de avaliação audiológica conforme Portaria 19 de 09 de abril de 1998 do Ministério do Trabalho e Emprego.

Pesquisa realizada pela UFPR revela que poluição sonora não causa danos somente à audição, mas principalmente a qualidade de vida das pessoas

DDS - PAIR Perda Auditiva Induzida pelo Ruído

II SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE CIÊNCIAS INTEGRADAS DA UNAERP CAMPUS GUARUJÁ. Poluição sonora e meio ambiente

ANÁLISE DE RUÍDO UTILIZANDO DOSÍMETRO DOS 500 EM UM AMBIENTE DE ESCRITÓRIO

PERDA DE AUDIÇÃO INDUZIDA POR RUÍDO (PAIR) Prof. João M. Bernardes

TEMAS DAS AULAS TESTES Edital 014/2018

AVALIAÇÃO DOS NÍVEIS DE RUÍDO EM CAMINHÕES DE COLETA DE LIXO E O RISCO DE PERDA AUDITIVA EM SEUS OPERADORES

AVALIAÇÃO DO RUÍDO NO SETOR DE MANUTENÇÃO E CONSERVAÇÃO DA FEIS

EXPOSIÇÃO AO RUÍDO AMBIENTAL EM UMA FÁBRICA DE ARTEFATOS DE CONCRETOS DA REGIÃO DE CAMPO MOURÃO - PARANÁ

Saúde auditiva de músicos: estudo de casos

AVALIAÇÃO DO RUÍDO NA SEÇÃO TÉCNICA DE SAÚDE DA FEIS

Avaliação dos Efeitos do Ruído sobre o Homem

NBR 10151/00 Avaliação de ruídos em áreas habitadas visando o conforto da comunidade

C A R T I L H A E D U C AT I VA MINISTÉRIO PÚBLICO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

Avaliação do Ruído em Zona Habitacional causado por Serralheria no Jardim Aeroporto em Ilha Solteira - SP

ESTUDO PREVIO DE IMPACTO DE VIZINHANÇA (EIV) DURANTE A CONSTRUÇÃO E INSTALAÇÃO DA FACULDADE DE TECNOLOGIA DE JABOTICABAL NILO DE STÉFANI.

As projeções de dose devem levam em consideração o tempo de permanência dos clientes e a jornada de trabalho no local.

SEG72 - SEGURANÇA DO TRABALHO. Professor: Gleison Renan Inácio Tecnólogo Mecatônica

INICIAÇÃO À MÚSICA E AO VIOLÃO

Avaliação do conforto acústico em uma unidade hospitalar no município de Rio Verde GO¹

Introdução. Utilização de uma escala logarítmica. Entre o limiar inferior e o superior da audição (sensação dolorosa) existe uma diferença de 130 db.

Programa de Redução do Ruído Ambiental e Proteção Auditiva

UM ESTUDO EXPLORATÓRIO SOBRE A SAÚDE AUDITIVA DAS COSTUREIRAS QUE ATUAM EM CONFECÇÕES NOS ESTADO DO RJ E MG

Introdução. Utilização de uma escala logarítmica. Entre o limiar inferior e o superior da audição (sensação dolorosa) existe uma diferença de 130 db.

RUÍDO OCUPACIONAL NA CONSTRUÇÃO CIVIL

AVALIAÇÃO DOS NÍVEIS DE PRESSÃO SONORA NAS ÁREAS LIMÍTROFES

ANÁLISE DE RUÍDO NA ATIVIDADE DE OPERADORES DE BATE-ESTACAS NA CONSTRUÇÃO CIVIL

SDE0183 TEORIA E PRÁTICA DA EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA Aula 5: Atividade Motora Adaptada as PcD s Auditivas

PRESSÃO SONORA MOLÉCULAS DE AR AR P5. P at. = S n Pi i=1 PRESSÃO ATMOSFÉRICA PRESSÃO SONORA P.S. (ESTIMULO) (EFEITO) + ΔP. P.S. = P at GERAÇÃO DO SOM

"LTCAT" LAUDO TÉCNICO DAS CONDIÇÕES AMBIENTAIS DO TRABALHO MARÍTIMO LAUDO TÉCNICO DAS CONDIÇÕES AMBIENTAIS DE TRABALHO LTCAT - MARÍTIMO

Como a poluição sonora influencia até na obesidade

Faculdade de Ciências Humanas de Olinda. Acadêmica de Enfermagem: Laicy Albuquerque

Março 1999 Projeto 02:

Estudo Comparativo entre os Fatores de Duplicação da Dose de Ruído Q5 e Q3

Vendrame Consultoress Associados

PLANO DE DISCIPLINA CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

ACÚSTICA DA EDIFICAÇÃO

Padronização das condições acústicas para salas de aula

ENSAIO DE RUÍDO E CONSUMO DE COMBUSTÍVEL DE UM TRATOR AGRÍCOLA

RUÍDO EM SALAS DE AULA: UM ESTUDO SOBRE OS PROBLEMAS DE INTELIGIBILIDADE 1 NOISE IN CLASSROOMS: A STUDY OF PROBLEMS OF INTELLIGIBILITY

A PREVALÊNCIA DE PERDA AUDITIVA INDUZIDA PELO RUÍDO EM MÚSICOS DE BANDA INSTRUMENTAL*

Revista Música Hodie, Goiânia - V.16, 209p., n.1, Primeira Impressão

Ruído Parte 1. Maria Beatriz de Freitas Lanza

RUÍDO. Engº Marcelo Fontanella Webster

Posto de Trabalho n.º 1:

Ana Gonçalves. Curso: TSHT- Técnico de Segurança e Higiene no trabalho UFCD: Unidade de Formação de Curta Duração

Os danos causados pelo Fone de Ouvido

Anais do V Simpósio de Engenharia de Produção - SIMEP ISSN:

Aprendendo sobre o Zumbido

Qualidade de vida. Sustentabilidade. Tecnologia. Trabalhando a favor do bem-estar. Conforto acústico é saúde para todos.

PREFEITURA MUNICIPAL DE SARZEDO Estado de Minas Gerais

Métodos Longo (ML) e Nível de Redução de Ruído (NRR): Uma Avaliação Experimental em Campo

Ondas sonoras. Qualidades fisiológicas de uma onda sonora

RELATÓRIO TÉCNICO 104/14-A

Audição e Trabalho. Marcelo Madureira

Descobrindo a Teoria Musical

RELATÓRIO TÉCNICO AVALIAÇÃO AMBIENTAL DE RUÍDO

Sistema Sensorial. Biofísica da Audição

MANUAL DE INSTRUÇÕES DO DECIBELÍMETRO MODELO DL-4020

Sistema Sensorial. Biofísica da Audição. Biofísica Vet FCAV/UNESP

UTILIZAÇÃO DE FOSFOGESSO COMO ISOLAMENTO ACÚSTICO NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL

PROTETORES AUDITIVOS MODELOS 1260, 1270 E 1271 C.A. 9584

Transcrição:

Avaliação do Risco de Perda Auditiva em Músicos João Candido Fernandes (UNESP) jcandido@feb.unesp.br Carla Soleman (USP) fonouspbauru1@grupos.com.br Elizabeth Emi Watanabe (USP) fonouspbauru1@grupos.com.br Fabiana Cristina Carlino (USP) fonouspbauru1@grupos.com.br Fabiane Kayamori (USP) fonouspbauru1@grupos.com.br Fernanda Batista Ferreira (USP) fonouspbauru1@grupos.com.br Gessyka Gomes Marcandal (USP) fonouspbauru1@grupos.com.br Giovanna Castilho Davatz (USP) fonouspbauru1@grupos.com.br Paula Roberta Rocha Dellisa (USP) fonouspbauru1@grupos.com.br Resumo O objetivo desta pesquisa foi avaliar o nível de intensidade de som a que estão submetidos os músicos de orquestras e o tempo de exposição a este som, para verificar se existe risco de perda auditiva. Mediu-se o nível de som próximo ao ouvido dos músicos de duas orquestras (ou bandas) da cidade de Bauru. Os resultados foram comparados com os níveis de conforto estipulados pela norma NBR 10152 da ABNT e com os limites de exposição fixados pela Portaria 3.214/78 do Ministério do Trabalho. O níveis de som acusaram uma média de 90 db(a), com picos que atingiram 110 db(a). A análise dos dados indicaram um ambiente de grande desconforto acústico com risco de perda auditiva dos músicos. Palavras chave: Ruído, Músico, Orquestra, Banda, Conforto Acústico, Perda de Audição. 1. Introdução Dentre as inúmeras profissões e funções exercidas pelo homem em seu trabalho estão os músicos, que também sofrem com os efeitos da exposição aos altos níveis de intensidade sonora. Embora o som gerado por seus instrumentos não se caracterize como ruído, a exposição a ele causa a perda auditiva e outras alterações importantes que interferem na sua qualidade de vida. A incapacidade auditiva se refere aos problemas auditivos sentidos pelo indivíduo com relação à percepção da fala em ambientes ruidosos, e as outras alterações relacionam-se às conseqüências não auditivas da perda, influenciada por fatores psicossociais e ambientais, tais como estresse e ansiedade. Ward (2003) afirma que os músicos de orquestras devem ser treinados para proteger seus ouvidos do barulho de seus próprios instrumentos e de outros músicos. O nível sonoro de exposição permitido é de 90dB; mas o nível medido em uma apresentação de uma peça clássica tocada em triplo forte foi de 98dB. Uma pesquisa da Associação de Orquestras Britânicas mostrou que assim como a surdez, músicos podem apresentar danos na discriminação de freqüência, e zumbido nos ouvidos. Toppila e Laitinen () afirmam que a diferença entre trabalhadores industriais e músicos está no número de fatores de risco. Assim, este estudo sugere que a baixa perda auditiva observada nos músicos é devido ao menor número de fatores de risco e não pelo fato de a música ser menos perigosa para o ouvido que o barulho nas indústrias. Strauss (1996) pesquisa a audição de músicos afirma que enquanto a moderna mitologia tem demonizado a ensurdecedora natureza do rock n roll, pesquisas sugerem que membros de

orquestras podem terminar com mais problemas auditivos que seus irmãos roqueiros pesadamente amplificados. Currie e Kennedy (2002) afirmam que os músicos não se dão conta que danos irreversíveis foram causados em seus ouvidos, pois este tipo de lesão é invisível e cumulativa. Audição musical é naturalmente vital à performance profissional. Assim, muitos músicos preferem correr os riscos de danos auditivos a comprometer a qualidade de sua música usando protetores auditivos. Vinson () afirma que os músicos estão sob grandes riscos de perda auditiva porque eles normalmente começam com poucos anos de idade e estão expostos ao longo de suas carreiras. Se eles não se conscientizarem desde cedo que estão propensos a ter perda auditiva, eles podem acabar tendo mais danos quando ficarem mais velhos. 2. Material e Métodos 2.1. Avaliações Foram realizadas medições de nível sonoro em duas orquestras (bandas) da cidade de Bauru: - Orquestra Véritas da Universidade do Sagrado Coração de Bauru orquestra com 25 componentes sob a coordenação do Maestro Fernando Pascoal, que executa sucessos populares, principalmente o som das Big Bands. A Figura 1 apresenta a posição dos músicos da orquestra. - Banda da Polícia Militar de Bauru formada por 27 músicos, executa músicas populares e militares. Figura 1 Posição dos instrumentos da Orquestra Véritas

2.2. Materiais e equipamentos Foram utilizados os seguintes materiais e equipamentos: - um medidor de nível sonoro marca ENTELBRA, modelo ETB 142A, devidamente calibrado, usado na curva A, resposta slow; - um calibrador marca ENTELBRA modelo 130B; - Ficha de coleta de dados (figura 2). 2.3. Método Figura 2 - Ficha de coleta de dados Durante as medições, o medidor de ruídos foi posicionado próximo ao pavilhão auricular dos músicos, mostrando o nível de ruído ao qual está exposto. Também foi feita medição em vários pontos do local onde estava sendo realizado o ensaio. Essa medição possibilitou perceber quais músicos recebem maior quantidade de som, e quais teriam maior probabilidade de adquirir um problema de audição. 3. Resultados e Discussão 3.1 Resultados das medições de som da Orquestra Véritas Os níveis de som medidos na Orquestra Véritas estão apresentados na Tabela 1.

Instrumentos Níveis de som [db(a)] Mínimo Máximo Saxofone 90 102 Trompete 100 110 Trombone 104 106 Clarinete 85 90 Guitarra 90 100 Bateria 90 106 Percussão 96 98 Teclado 90 100 Tabela 1 Níveis de som da Orquestra Véritas Durante a afinação dos instrumentos a variação foi de 87 a 94 db(a). Quando todos os instrumentos foram tocados juntos, essa variação subiu para 89 a 100 decibels. Também foi medido o nível sonoro nos seguintes pontos: - na frente de todos os músicos: 92 db(a); - onde se posiciona o maestro: 96 db(a); - e em frente aos trombones: 106 db(a). Comparando com os valores permitidos, considerando que o tempo de ensaio é de 2horas, duas vezes por semana e no último domingo do mês, pela norma NR-15, foi observado que os músicos correm o risco de perderem a audição, uma vez que os valores adquiridos estão muito acima dos limites permitidos pela norma. 3.1 Resultados das medições de som da Banda da Polícia Militar Durante a afinação dos instrumentos o nível de ruído foi de 106 db. Com a orquestra toda tocando harmoniosamente houve uma variação de 100 a 110 db. Os pontos medidos foram os seguintes: - em frente à banda: 98 a 110 db(a); - em frente aos trombones: 102 a 110 db(a); - em frente aos trompetes: 108 a 110 db(a). Comparando com os valores permitidos pela norma NR-15 e considerando que o período de ensaio é diário e com duração de 3 horas diárias, foi observado que segundo esta norma, os músicos correm o risco de perderem a audição. 4. Conclusões Em vista das medições efetuadas nas duas orquestras concluiu-se que: - Os níveis de intensidade sonora média medidos na Orquestra Véritas são muito elevados (entre 85 e 110 db(a)), estando acima do limite permitido pela NR-15, sugerindo que os profissionais correm risco grave e iminente de adquirirem a Perda de Audição Induzida por Ruído. - Quanto a Banda da Polícia Militar, os valores de nível de intensidade sonora medidos também foram muito altos (entre 98 e 110 db(a)), indicando que os seus músicos também podem ter PAIR. - Quanto ao conforto auditivo dos músicos, os altos níveis de ruído apresentaram valores muito acima do estipulado pela NBR 10152. Esta situação pode causar diversas alterações na saúde e no bem-estar das pessoas, como estresse, diminuição do rendimento,

falta de atenção, desconcentração, irritação etc. Após o trabalho, os músicos podem sentir zumbido nos ouvidos, sensação de oclusão nos ouvidos, dificuldade em dormirm dificuldade em relaxar etc. Referências Bibliográficas WARD, D. Orchestral musicians to be protected from decibels. The Guardian, sábado 23 de augusto, 2003. Disponível em: <http://www.guardian.co.uk/arts/news/story/ 0%2C11711%2C102 8088%2C00.html>. Acesso em: 18 abr. SHERMAN, B.D. Losing your ears to music: the hearing loss epidemic and musicians. In: EARLY music Americ, spring 2000. Disponível em: <http://homepages.kdsi.net/ ~sherman/hearingloss.html>. Acesso em: 18 abr. STRAUSS, S. Piccolo peril. In: ARTICLE from the globe mail. Toronto, sábado 18 de maio, 1996. Disponível em: <http://www.larrykrantz.com/hearing.htm>. Acesso em: 08 maio, VINSON, J.K. A proposed study: the hearing effects of playing in a high school marching band. Stephen F. Austin State University. Disponível em: <http://hubel.sfasu.edu/courseinfo/sl02/ jv2hearingloss.htm>. Acesso em: 09 maio, CURRIE, Q; KENNEDY, J. Musicians and the risk of noise induced hearing loss. The measure online. Celebrating CBC issue. Music industry association of Newfoundland & Labrador, agosto, 2002. Disponível em: <http://www.mia.nf.ca/themeasure.php?aid=126>. Acesso em: 08 maio,. TOPPILA, E.; LAITINEN, H., Finnish institute of occupational health e KUISMA, K., Finnish National Opera. Hearing loss among classical music players. Podium 109.Helsinki, Finlândia. Risk assessment and management. P. 56-65. Disponível em: <http://www.aiha.org/abs04/ po109.htm>. Acesso em: 03 maio,.