Seminário de Direito Administrativo Regulatório O Instituto do Reformatio In Pejus no Processo Administrativo Sancionador Letícia Queiroz de Andrade leticia@queirozmaluf.com.br
Conferência de Conceitos Reformatio in pejus = reforma de decisão que resulta em agravamento da situação de quem a impugnou. Há 4 mecanismos de reforma de decisões passíveis de ocorrer no âmbito de um processo administrativo, que se sujeitam a condições e possuem efeitos jurídicos diversos, razão pela qual os apelidamos com nomes distintos, a saber: Reforma -reconsideração Reforma -recursal Reforma - rescisória Reforma - auto-tutela
Reforma-reconsideração Art. 56. Das decisões administrativas cabe recurso, em face de razões de legalidade e de mérito. 1 o O recurso será dirigido à autoridade que proferiu a decisão, a qual, se não a reconsiderar no prazo de cinco dias, o encaminhará à autoridade superior.
Reforma-recursal Art. 64. O órgão competente para decidir o recurso poderá confirmar, modificar, anular ou revogar, total ou parcialmente, a decisão recorrida, se a matéria for de sua competência. Parágrafo único. Se da aplicação do disposto neste artigo puder decorrer gravame à situação do recorrente, este deverá ser cientificado para que formule suas alegações antes da decisão.
Reforma-rescisória Art. 65. Os processos administrativos de que resultem sanções poderão ser revistos, a qualquer tempo, a pedido ou de ofício, quando surgirem fatos novos ou circunstâncias relevantes suscetíveis de justificar a inadequação da sanção aplicada. Parágrafo único. Da revisão do processo não poderá resultar agravamento da sanção. (d/n)
Reforma-autotutela Art. 53. A Administração deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de legalidade, e pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos adquiridos. Art. 54. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados, salvo comprovada má-fé.
Discussão 1. O parágrafo único do art. 64, que alude à possibilidade de agravamento da situação do recorrente fere o princípio do devido processo legal previsto na Constituição?
Discussão 2. A prerrogativa da auto-tutela prevista nos arts. 53 e 54 autoriza a reforma de decisão mesmo após a configuração da coisa julgada?
Jurisprudência AgReg no RE 641.054, Primeira Turma do STF, Ministro Relator Luiz Fux, 22/05/2012: Dessarte, a possibilidade da anulação dos atos administrativos, ainda que de ofício ou quando implique sanção ao administrado, decorre do princípio da autotutela da administração pública, em nome do interesse público, sendo observado em todo o caso os prazos prescricionais. (d/n)
Jurisprudência MS 15.459/DF, 14/03/2012, Primeira Seção do STJ, Ministro Relator Benedito Gonçalves: Assim, a meu ver, não pode agora a Administração, sob o pretexto de que tomou conhecimento do arquivamento do inquérito policial, reabrir o procedimento administrativo já homologado e, mediante uma releitura dos fatos já devidamente analisados, rever a decisão atinente à habilitação da concorrente, adjudicando, inclusive, o objeto da licitação a ela, sob pena de violar a coisa julgada administrativa.
Jurisprudência RMS 21981, 10 /04 /2007, Segunda Turma do STJ, Ministra Relatora Eliana Calmon, Voto Ministro Carlos Meira: Embora não haja um posicionamento uniforme acerca do assunto, a possibilidade de agravamento da pena em grau recursal nos processos administrativos, no plano federal, decorre da interpretação do parágrafo único, do artigo 64, da Lei nº 9.784/99.
Questões interpretativas RMS 21981, 10 /04 /2007, Segunda Turma do STJ, Ministra Relatora Eliana Calmon: De referência a não observância do Princípio da non reformatio in pejus na esfera administrativa, não tem razão o recorrente. O poder de auto-tutela da administração permite que ela própria anule os seus atos quando reconhecer que houve ilegalidade, ou os revogue por razões de conveniência e oportunidade, a qualquer tempo, antes de consolidado o prazo prescricional
Questões interpretativas Art. 63, 2 o O não conhecimento do recurso não impede a Administração de rever de ofício o ato ilegal, desde que não ocorrida preclusão administrativa.
Conclusão A reformatio in pejus só é admissível no âmbito recursal, é vedada na reforma-rescisória, assim como na reforma autotutela, salvo se não houver ainda a constituição de coisa julgada. O art. 54 trata da anulação fora do âmbito de processos sancionatórios, sob pena de que o art. 63, 2º, e 65 não façam sentido.