Ordem Ephemeroptera (Arthropoda: Insecta)

Documentos relacionados
CARACTERIZAÇÃO MORFOLÓGICA DE NÁIADES DE EPHEMEROPTERA, COM CHAVE PARA FAMÍLIAS OCORRENTES NO RIO GRANDE DO SUL, BRASIL

BOLETIM DO MUSEU NACIONAL NOVA SÉRIE RIO DE JANEIRO - BRASIL

Universidade de São Paulo Instituto de Física de São Carlos Licenciatura em Ciências Exatas Biologia

ESCOLA SUPERIOR DE AGRICULTURA LUIZ DE QUEIROZ - USP DEPARTAMENTO DE ENTOMOLOGIA E ACAROLOGIA

Morfologia Externa Tórax e Abdome

Biota Neotropica ISSN: Instituto Virtual da Biodiversidade Brasil

ORDEM EPHEMEROPTERA grego: Ephemeros = de um dia; pteron = asa

Crustáceos (crusta= crosta ou pele grossa)

Ephemerelloidea (Insecta: Ephemeroptera) do Brasil

CHAVE PARA DETERMINAR AS ORDENS DA CLASSE INSECTA, ATRAVÉS DE INSETOS ADULTOS.

Os insetos distinguem-se dos demais invertebrados (como aranhas ou crustáceos) especialmente pelas seguintes características:

EPHEMEROPTERA (INSECTA) DO LESTE MATOGROSSENSE, BRASIL: DIVERSIDADE, DISTRIBUIÇÃO FUNCIONAL E ESTUDOS ECOLÓGICOS DA TEORIA NEUTRA E TEORIA DE NICHO

Universidade de São Paulo Instituto de Física de São Carlos Licenciatura em Ciências Exatas Biologia II 2017 Nome: N USP: Nota:

CAPÍTULO XVII. Ordem ZORAPTERA 117

FILO ARTHROPODA - INTRODUÇÃO

Universidade Federal do Espírito Santo, BR 101 km 60, Bairro Litorâneo, São Mateus-ES, Brasil. 3

Reino Animalia 0 (Metazoa) Filo Arthropoda. Natália A. Paludetto nataliaapaludetto@gmail.com

Subfilo Uniramia. Superclasse Myriapoda Superclasse Hexapoda. Subfilo Myriapoda Subfilo Hexapoda

ARTRÓPODES INSETOS, CRUSTÁCEOS, ARACNÍDEOS, QUILÓPODES E DIPLÓPODES. Profa. Monyke Lucena

MORFOLOGIA EXTERNA DOS INSETOS ENTOMOLOGIA GERAL

GOIÂNIA, / / PROFESSOR: FreD. ALUNO(a): Antes de iniciar a lista de exercícios leia atentamente as seguintes orientações:

Oi pessoal dos 8 os anos, estão com saudade das atividades escolares? Pois bem, precisamos dar seqüência aos estudos e, na volta às aulas, no dia 17,

CRUSTACEA. classes. Carapaça (dobra do tegumento; origem cefálica) Abdômen com menos de 9 segmentos

PRINCIPAIS ORDENS DE INSETOS

Artrópodes. Filo Arthropoda (arthron = articulações e podos = pés)

LISTA DE ESPÉCIES DA ORDEM EPHEMEROPTERA (INSECTA) OCORRENTES NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, BRASIL 1

Roteiro Aula Prática Biologia dos Crustáceos. Prof.Dr. Alvaro Luiz Diogo Reigada

MORFOLOGIA EXTERNA TEGUMENTO - CABEÇA. Eng. Agr. Luiz Paulo

Ciências 2016 Professor: Danilo Lessa Materiais: Livro e PPT

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO UFPE CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM BIOLOGIA ANIMAL LUCAS RAMOS COSTA LIMA

FILO ARTRÓPODE PROFESSOR :ÉDER

CLASSE MALACOSTRACA SUBCLASSE EUMALACOSTRACA SUPERORDEM EUCARIDA

Ciclo de Vida do Cupim

DENDOGRAMA DE FORMIGAS DO GÊNERO CAMPONOTUS

F. Chave ilustrada para ordens

Material de Estudo. Prof. Dr. Marcello Sampaio - UNIRIO

Percevejos predadores: o estado taxonômico e sistemático atual e perspectivas (Heteroptera: Pentatomidae: Asopinae)

Estágios imaturos e bionomia de Cyclomia mopsaria Guenée (Lepidoptera, Geometridae) 1

Características gerais

Ordem Trichoptera Kirby 1813 (Arthropoda: Insecta)

COLÉGIO 7 DE SETEMBRO ALUNO(A): TURMA: Ciências

Larva de quinto estádio e pupa de Caligo martia ~Godart) (Lepidoptera, Nymphalidae, Brassolinae)

Fazem troca do exoesqueleto Simetria Bilateral O nome deriva-se do fato de terem patas articuladas

O reino animal. Ao redor da boca existem peças bucais, que ajudam na alimentação do animal e variam muito entre os insetos.

15/03/2016 ESQUELETO APENDICULAR OSTEOLOGIA DO ESQUELETO APENDICULAR MEMBRO TORÁCICO. Constituído por ossos dos membros torácico e pélvico

Reprodução e desenvolvimento. Prof. Jucelaine Haas

Ciências Naturais, 5º Ano. Ciências Naturais, 5º Ano FICHA DE TRABALHO 1. Escola: Nome: Turma: N.º:

Ordem Orthoptera e Ortopteroides

Guia on-line: Identificação de larvas de Insetos Aquáticos do Estado de São Paulo: Plecoptera. Ordem Plecoptera Burmeister 1839 (Arthropoda: Insecta)

Filo Arthropoda. Capítulo 11 aulas 40 a 44. Page 1

3/3/2017 FACULDADE EDUCACIONAL DE MEDIANEIRA. Principais funções da cabeça dos insetos: Olhos compostos e ocelos. Antenas.

Ordem Lepidoptera. Ordem Lepidoptera. Ordem Lepidoptera. Borboletas e mariposas

BIOMONITORAMENTO DO CORREGO SÃO LUIZ EM CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA-PA

Filo Artropoda Subfilo Uniramia. Classe Insecta (Hexapoda) (+ de espécies descritas)

DANÚNCIA URBAN 2. Acta Biol. Par., Curitiba, 31 (1, 2, 3, 4):

Lista da Fauna de Leptohyphidae (Insecta: Ephemeroptera) do Espírito Santo. E. M. Rozario1*, E. A. Raimundi² & F. F. Salles³

Anatomia Interna e Fisiologia dos Insetos

ANOPLURA PIOLHO. LMBragazza. Aula Prática

56) Rhinelepis strigosa Valenciennes, 1840

Relação entre os grande grupos de artrópodes

Abril Educação Seres vivos Aluno(a): Número: Ano: Professor(a): Data: Nota:

GUATUBESIA, NOVO GÊNERO DE GONYLEPTIDAE

Ecologia e funcionamento de ecossistemas de água doce: ênfase em macroinvertebrados bioindicadores e decomposição de matéria orgânica

8/23/2017. Apêndices locomotores: FACULDADE EDUCACIONAL DE MEDIANEIRA. Principais funções do tórax dos insetos: Pernas. Asas MORFOLOGIA DOS INSETOS

CESAR NASCIMENTO FRANCISCHETTI EPHEMEROPTERA (INSECTA) DO PARQUE ESTADUAL DO RIO DOCE, MINAS GERAIS, BRASIL: BIODIVERSIDADE E DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL

FAUNA DE BAETIDAE (INSECTA: EPHEMEROPTERA) DO PARQUE ESTADUAL DO RIO DOCE, MINAS GERAIS, BRASIL

OBJETIVO ELEMENTOS DO JOGO

1. Três: cabeça, tórax e abdômen (insetos) 2. Dois: cefalotórax e abdômen (aracnídeos)

Prostheceraeus roseus Planária terrestre. Planária (classe Turbelária) Fasciola hepatica (Classe Trematoda) Schistosoma mansoni (classe Trematoda)

ARTRÓPODES & EQUINODERMAS. Prof.: Carolina Bossle

Formigas: a vida abaixo de nossos pés. Paulo Eduardo Bueno de Camargo*, Sérgio Nascimento Stampar

Superclasse HEXAPODA. BIZ0213 Invertebrados - Prof. Silvio Nihei USP 1

Desenvolvimento de Insetos. BAN 160 Entomologia Geral. Desenvolvimento de Insetos. Sam Elliot. O que está acontecendo?

Transcrição:

Ordem Ephemeroptera (Arthropoda: Insecta) Rodolfo Mariano Lopes da Silva Laboratório de Entomologia Aquática, FFCLRP, USP rodolfo@usp.br Introdução A ordem compreende insetos com adultos de hábitos terrestres e imaturos aquáticos. A maior parte das ninfas de Ephemeroptera se alimenta basicamente de material vegetal (algas unicelulares e coloniais do biofilme), além de detritos, incluindo material vegetal alóctone. São importantes dentro da cadeia trófica por servirem como alimento para outros invertebrados e vertebrados aquáticos, constituindo um componente importante na fauna dos rios tropicais. Já os adultos chamados também de imagos, possuem aparelho bucal atrofiado e vivem um curto período de vida que se restringe basicamente à reprodução, onde formam revoadas de acasalamento sobre ou próximos dos ambientes aquáticos. Dentre os insetos são os únicos a possuírem um estágio (que não a pupa) entre a ninfa e o adulto, os chamados subimagos. Apesar de serem alados e conseguirem voar, não são sexualmente maduros. Por isso passam por mais uma muda até o adulto. São facilmente reconhecidos pela cor leitosa da asa que posteriormente ficam translúcidas no imago. Os Ephemeroptera ocorrem em ambientes aquáticos lênticos e lóticos, sendo a maior diversidade encontrada em rios de cabeceira, de segunda e terceira ordens, com fundo rochoso e água oligotrófica a mesotrófica. Os Ephemeroptera são encontrados em todos os continentes, exceto na Antártida, no extremo Ártico e em algumas ilhas oceânicas. Estão distribuídos em diversos mesohabitats, tais como remansos, pedras, corredeiras, pacotes de folhas, ambiente higropétrico, etc. demonstrando grande diversidade em ambientes lóticos. A ordem Ephemeroptera está composta atualmente por cerca de 4000 espécies. Na América do Sul são conhecidas 14 famílias e aproximadamente 450 espécies de Ephemeroptera (Domínguez et al. 2006). Para o Brasil há um total de 63 gêneros e 166 espécies representando 10 famílias: Leptophlebiidae, Baetidae, Leptohyphidae, 1

Polymitarcyidae, Euthyplociidae, Ephemeridae, Caenidae, Oligoneuriidae, Coryphoridae e Melanemerellidae. Dentre as famílias mais numerosas, Baetidae e Leptophlebiidae se destacam, comportando ao todo mais de 60% dos gêneros e 50% das espécies brasileiras. Das cerca de 70 espécies de Ephemeroptera registradas para o Brasil a partir da década de 80, 45 pertencem a essas duas famílias (Salles et al. 2004). Morfologia Para uma boa identificação das ninfas dos efêmeros é importante conhecer algumas estruturas morfológicas. Neste capítulo serão citadas as estruturas usadas na chave para diferenciação das famílias. O primeiro passo da chave separa três famílias das demais devido à presença de colmilhos mandibulares, que são expansões das mandíbulas que sobressaem do plano geral da cabeça. As famílias que possuem estes colmilhos são: Euthyplociidae, Ephemeridae e Polymitarcyidae. Para diferenciar estas três famílias são observados o comprimento, forma e direcionamento dos colmilhos, assim como as extremidades das tíbias posteriores podendo possuir, ou não, uma projeção aguda distinta. Caenidae, Coryphoridae, Leptohyphidae e Melanemerellidae formam um grupo que se é possível separar pela presença de brânquias operculares (recobre as demais brânquias) no segundo segmento. Estas brânquias podem ser de diversas formas, ovais, retangulares, triangulares, quadrangulares, etc. Estas ainda podem tocar-se ou não sobre o abdômen. As outras famílias restantes que não possuem nenhum dos caracteres acima citado são: Leptophlebiidae, Baetidae e Oligoneuriidae. As duas primeiras podem ser diferenciadas principalmente pela presença ou não da sutura entre o clípeo e o labro. Uma Família muito particular de Ephemeroptera são os Oligoneuriidae por serem os únicos a possuírem um tufo de brânquias na base da maxila e brânquias ventrais no segmento abdominal I. 2

Figura 1. Vista dorsal de uma ninfa de Ephemeroptera (modificado Edmunds, 1976) 3

Chave para as famílias de Ephemeroptera ocorrentes no Estado de São Paulo NINFAS (Esquema Geral de Ephemeroptera Figuras 1) (Modificado Pitágoras 2006) 1. Mandíbulas com projeções que se dirigem para frente, visível em vista dorsal da cabeça (Fig. 1-3)...2 1. Mandíbulas sem tais projeções...4 2(1). Mandíbulas mais compridas que a cabeça (Fig. 1) tíbia e tarso cilíndricos; brânquias do segmento abdominal I vestigiais...euthyplociidae Fig. 1. Euthyplociidae 2. Mandíbulas mais curtas que a cabeça; pernas anteriores cavadoras, tíbias achatadas; brânquias dorsais...3 3(2). Extremidade das tíbias posteriores projetando-se em ponta aguda distinta; projeções mandibulares em vista lateral curvadas para cima (Fig. 2)...Ephemeridae 4

Fig. 2. Ephemeridae 3. Extremidades das tíbias posteriores não se projetando; projeções mandibulares em vista lateral retas ou curvadas apicalmente para baixo (Fig. 3)...Polymitarcyidae Fig. 3. Polymitarcyidae 4(1 ). Pernas anteriores com fileira de cerdas longas; tufo de brânquias presentes na base das maxilas; brânquias ventrais no segmento abdominal I (Fig. 4)...Oligoneuriidae Fig. 4. Oligoneuriidae 5

4. Pernas anteriores com distribuição de cerdas diferente das anteriores; tufo de brânquias ausentes na base das maxilas...5 5(4 ). Brânquias do segmento abdominal II operculares cobrindo os pares de brânquias seguintes (fig. 6, 7)...6 Fig 6. Leptohyphidae 5. Brânquias do segmento abdominal II não operculares...9 6(5). Brânquias do segmento II triangulares, semitriangulares ou ovais, nunca se encontrando na linha média dorsal do abdômen (Fig. 6)...7 6. Brânquias do segmento II quadradas tocando-se na linha média dorsal do abdômen; brânquias do segmento I reduzidas ou filiformes (Fig 7)...Caenidae Fig. 7. Caenidae 6

7(6). Tergos abdominais com tubérculos...8 7. Tergos abdominais sem tubérculos (Fig. 6)...Leptohyphidae 8(7). Tubérculos presentes na cabeça (Fig. 8); expansões dorsais dos tergos abdominais (segmentos III-VI) formado uma câmara branquial...coryphoridae Fig. 8 Coryphoridae 8. Sem tubérculos na cabeça; sem expansões dorsais dos tergos...melanemerellidae 9(5 ). Clípeo fundido com a fronte; cabeça geralmente prognata (Fig. 9); brânquias abdominais variáveis, composta de uma lâmina ventral e outra dorsal...leptophlebiidae Fig. 9. Leptophlebiidae 9. Clípeo não fundido com a fronte; cabeça hipognata (Fig. 10); brânquias abdominais freqüentemente ovais, com uma lâmina às vezes dobrada sobre si mesma na base..baetidae 7

Fig. 10. Baetidae 8

Referências Domínguez, E.; C. Molineri, M. Pescador, M.D. Hubbard, & C. Nieto. 2006. Aquatic Biodiversity in Latin America, Vol. 1: Ephemeroptera of South America. Pensoft. Edmunds, G.F., Jensen, S.L. & Bberner, L. 1976. The Mayflies of North and Central America. University of Minnesota Press, Minneapolis, x+330 pp. Salles, F.F., E.R. Da-Silva, M.D. Hubbard & J.E. Serrão. 2004. As espécies de Ephemeroptera (Insecta) registradas para o Brasil. Biota Neotrop. 4: 1-34. Sites interessantes Ephemeroptera Galactica: http://www.famu.org/mayfly/index.asp Tree of Life Web Project Ephemeroptera: http://www.tolweb.org/ephemeroptera TROUTNUT (Fotos): http://www.troutnut.com/hatch/4/insect-ephemeroptera-mayflies 9