ADVOCACIA-GERAL DA UNIÃO PROCURADORIA-GERAL FEDERAL PROCURADORIA FEDERAL JUNTO AO INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA Ref. Processo nº 23326.000580/2011-29 PARECER PF-IFPB Nº 02/2011 Interessado IFPB Pró-Reitoria de Ensino EDUCAÇÃO. Certificação de ensino médio via ENEM. Aluno estrangeiro residente. Definição de exigências legais aplicáveis apenas aos brasileiros nato ou naturalizados. 1. Cuida-se de consulta jurídica solicitada pela Pró-Reitoria de Ensino, relativamente aos documentos que devem ser apresentados para o deferimento de certificação do ensino médio, via Enem, efetuado por Florian Grote, de nacionalidade alemã. 2. Em suma, o requerimento de certificação do ensino médio via Enem prevê a entrega de variada documentação a fim de que o Instituto Federal da Paraíba proceda à certificação. Considerando a situação de estrangeiro residente do peticionante, é que se questiona se: a) O requerente tem direito à certificação solicitada. b) Necessita apresentar identidade civil ou pode substituí-la por cédula de identidade de estrangeiro. c) Necessita apresentar título de eleitor e documento de quitação com a justiça eleitoral. d) Necessidade apresentar certificado de reservista ou certificado de dispensa de incorporação CDI. 3. A questão é de fácil exame, se não vejamos. 4. Antes de mais nada, o art. 5º da Constituição Federal, em seu caput, define os titulares dos direitos fundamentais, de estatura constitucional, entre os quais o direito à educação (art. 205, CF/88), mencionando que todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País (...). 5. Fica claro, portanto, que o direito social à educação dirige-se aos brasileiros e aos residentes estrangeiros no País. 6. Tanto é assim que o art. 95 do Estatuto do Estrangeiro Lei nº 6815/1982 é expressa ao definir o gozo dos direitos pelo estrangeiro, não havendo qualquer impedimento mas sim regramento ao exercício do seu direito à educação, veja-se: Art. 95. O estrangeiro residente no Brasil goza de todos os direitos reconhecidos aos brasileiros, nos termos da Constituição e das leis. 7. Por outro lado, o procedimento de certificação do ensino médio, via Enem, tem por objetivo certificar pessoas que não cursaram ou não concluíram o Ensino Médio e que, tendo no mínimo 18 anos completos e uma vez atingida a pontuação mínima necessária no exame nacional do ensino médio, receberão seu certificado de conclusão do ensino médio, habilitando-o ao prosseguimento dos estudos. 8. Encontra respaldo legal, no art. 24, II, c da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, in verbis: Art. 24. A educação básica, nos níveis fundamental e médio, será organizada de acordo com as seguintes regras comuns: I - a carga horária mínima anual será de oitocentas horas, distribuídas por um mínimo de duzentos dias de efetivo trabalho escolar, excluído o tempo reservado aos exames finais, quando houver; II - a classificação em qualquer série ou etapa, exceto a primeira do ensino fundamental, pode ser feita: a) por promoção, para alunos que cursaram, com aproveitamento, a série ou fase anterior, na própria escola; b) por transferência, para candidatos procedentes de outras escolas; c) independentemente de escolarização anterior, mediante avaliação feita pela escola, que defina o grau de desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua inscrição na série ou etapa adequada, conforme regulamentação do respectivo sistema de ensino; 9. Especificamente, em relação ao Exame Nacional de Cursos, a Portaria MEC nº 807/2010, é expressa ao determinar a utilização do ENEM como instrumento de certificação do ensino médio: Art. 2 Os resultados do ENEM possibilitam: I - a constituição de parâmetros para auto-avaliação do participante, com vistas à continuidade de sua formação e à sua inserção no mercado de trabalho; II - a certificação no nível de conclusão do ensino médio, pelo sistema estadual e federal de ensino, de acordo com a legislação vigente;
10. O ENEM, portanto, substitui o Exame Nacional para Certificação de Competência de Jovens e Adultos ENCCEJA, a qual passou a certificar o aluno no nível de conclusão do Ensino Fundamental, em cumprimento ao disposto no inciso VII, do artigo 24, da Lei nº 9.394/96. 11. Com estas considerações preliminares, passa-se à análise dos questionamentos suscitados pela Pró-Reitoria de Ensino do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba. 12. A identidade civil (RG) é regulada pela Lei nº 9454/97, estabelecendo que o registro de identidade civil é documento de identificação de cidadão brasileiro, nato ou naturalizado: Art. 1º É instituído o número único de Registro de Identidade Civil, pelo qual cada cidadão brasileiro, nato ou naturalizado, será identificado em suas relações com a sociedade e com os organismos governamentais e privados. 13. Assim sendo, o estrangeiro residente, por não se tratar de brasileiro nato ou naturalizado (art. 12, Constituição Federal), não é obrigado a deter documento de identidade civil. 14. Contudo, o Estatuto do Estrangeiro determina que o registro do estrangeiro perante o Ministério da Justiça é válido como documento de identidade, de modo que este deverá ser exigido do requerente, veja-se: Art. 30. O estrangeiro admitido na condição de permanente, de temporário (incisos I e de IV a VI do art. 13) ou de asilado é obrigado a registrar-se no Ministério da Justiça, dentro dos trinta dias seguintes à entrada ou à concessão do asilo, e a identificar-se pelo sistema datiloscópico, observadas as disposições regulamentares. (Redação dada pela Lei nº 6.964, de 09/12/81) Art. 96. Sempre que lhe for exigido por qualquer autoridade ou seu agente, o estrangeiro deverá exibir documento comprobatório de sua estada legal no território nacional. 15. No mesmo sentido, expõe o Decreto nº 86715/81: Art. 58 - O estrangeiro admitido na condição de permanente, de temporário (artigo 22, I e de IV a VII), ou de asilado, é obrigado a registrar-se no Departamento de Polícia Federal, dentro dos trinta dias seguintes à entrada ou à concessão do asilo e a identificar-se pelo sistema datiloscópico, observado o disposto neste Regulamento. 16. Relativamente à apresentação de título de eleitor e de certidão de quitação eleitoral, não há qualquer dúvida de que é inaplicável ao estrangeiro residente.
17. É que o art. 12 da Constituição Federal é claríssimo ao não conferir capacidade eleitoral ativa os estrangeiros, de modo que, se são inalistáveis, obviamente, não podem apresentar título eleitoral e/ou certidão de quitação eleitoral: Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I - plebiscito; II - referendo; III - iniciativa popular. 1º - O alistamento eleitoral e o voto são: I - obrigatórios para os maiores de dezoito anos; II - facultativos para: a) os analfabetos; b) os maiores de setenta anos; c) os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos. 2º - Não podem alistar-se como eleitores os estrangeiros e, durante o período do serviço militar obrigatório, os conscritos. 18. A assertiva é confirmada pelo art. 4º do Código Eleitoral que preceitua que são eleitores os brasileiros maiores de 18 anos que se alistarem na forma da lei, bem como o art. 7º do mesmo diploma, ao definir quais as situações em que é necessária a apresentação da certidão de quitação eleitoral, sempre, por parte de eleitores, o que exclui de seu âmbito de incidência o estrangeiro residente. 19. No que tange ao documento de cadastro de pessoa física CPF, observa-se que no Regulamento do Imposto de Renda, o qual consolida a legislação tributária e rege o mencionado cadastro, não há qualquer limitação que discrimine a situação do estrangeiro, inclusive porque, para fins de sujeição tributária a condição de estrangeiro não possui qualquer relevância jurídica (art. 121 do Código Tributário Nacional): Art. 33. Estão obrigados a inscrever-se no Cadastro de Pessoas Físicas - CPF (Lei nº 4.862, de 29 de novembro de 1965, art. 11, e Decreto-Lei nº 401, de 30 de dezembro de 1968, arts. 1º e 2º): I - as pessoas físicas sujeitas à apresentação de declaração de rendimentos; II - as pessoas físicas cujos rendimentos estejam sujeitos ao desconto do imposto na fonte, ou estejam obrigadas ao pagamento do imposto; III - os profissionais liberais, assim entendidos aqueles que exerçam, sem vínculo de emprego, atividades que os sujeitem a registro perante órgão de fiscalização profissional; IV - as pessoas físicas locadoras de bens imóveis; V - os participantes de operações imobiliárias, inclusive a constituição de garantia real sobre imóvel; VI - as pessoas físicas obrigadas a reter imposto na fonte; VII - as pessoas físicas titulares de contas bancárias, de contas de poupança ou de aplicações financeiras; VIII - as pessoas físicas que operam em bolsas de valores, de mercadorias, de futuros e assemelhadas;
IX - as pessoas físicas inscritas como contribuinte individual ou requerentes de benefícios de qualquer espécie no Instituto Nacional do Seguro Social - INSS. 20. Desta forma, o cadastro de pessoa física CPF é de exibição necessária pelo requerente, a fim de que se proceda à certificação do ensino médio, via ENEM. 21. Por último, o serviço militar obrigatório, regido pela Lei nº 4375/64, determina o cumprimento deste dever cívico apenas aos brasileiros: Art 1º O Serviço Militar consiste no exercício de atividades específicas desempenhadas nas Fôrças Armadas - Exército, Marinha e Aeronáutica - e compreenderá, na mobilização, todos os encargos relacionados com a defesa nacional. Art 2º Todos os brasileiros são obrigados ao Serviço Militar, na forma da presente Lei e sua regulamentação. 22. Do mesmo modo, se a apresentação ao serviço militar obrigatório não é dever do estrangeiro residente, todos os certificados regulados nos arts. 37-43 da Lei nº 4375/64 não podem ser dele exigidos como condição para o exercício de direitos, tais como o direito a educação. 23. Especificamente ao certidicado de reservista ou de dispensa de incorporação, perceba-se que a legislação é clara ao definir o seu porte ao brasileiro, excluindo, repita-se, a figura do estrangeiro residente: Art 38. O Certificado de Reservista é o documento comprovante de inclusão do cidadão na Reserva do Exército da Marinha ou da Aeronáutica e será de formato único para as três Fôrças Armadas. [...] Art 40. Aos brasileiros dispensados de incorporação, será fornecido, pela autoridade militar competente, um Certificado de Dispensa de Incorporação. 24. À vista de todo o exposto, a PF-IFPB manifesta-se no sentido de que, para fins de certificação de ensino médio via exame nacional do ensino médio ENEM, objeto da consulta, do estrangeiro residente deve-se exigir o Cadastro de Pessoa Física CPF (Regulamento do Imposto de renda) e o documento comprobatório e válido do registro de estrangeiro perante o Ministério da Justiça (Lei nº 6815/80). Os documentos de identificação civil (RG), de título de eleitor, de certidão de quitação eleitoral, de certificado de reservista ou de dispensa de incorporação são inexigíveis do aluno estrangeiro residente. É o parecer, salvo melhor juízo. Diego Fernandes Guimarães Procurador Federal Mat. 1553445