Lição 4 A transmissão do Evangelho (poder e convicção) Texto bíblico: 1Tessalonicenses 1.4,5 É muito comum, nos momentos que antecedem a pregação, ouvir a seguinte oração: Que as palavras deste pregador não sejam dele, mas venham de Ti, ó Senhor. Ela reflete o desejo de o ouvinte ser instruído por Deus, mas esconde uma realidade bem mais complexa do que se imagina. O discurso do Evangelho não passa por nós como a energia passa pelos cabos elétricos. Nossa cultura, nossa educação, nossa espiritualidade e mesmo nosso entendimento subjetivo servem de filtros, na hora de pregar. Portanto, podemos dizer que a pregação é um discurso divino-humano. Por isso que Paulo usa expressões como nosso evangelho (1Ts 1.5) ou meu evangelho (2Tm 2.8) não para se referir a uma apropriação da mensagem, mas para designar a relação íntima e verdadeira que o mensageiro tem com a mensagem cristã que proclama. Neste estudo, entenderemos que o poder da pregação compete a Deus, enquanto que a convicção da veracidade da mensagem compete ao mensageiro, pois ele é alguém aprovado por Deus para transmitir a mensagem de salvação (1Ts 2.4). A natureza da mensagem a ser pregada Em sua descrição da natureza do Evangelho a ser proclamado (a boa nova da salvação, em Cristo Jesus), Paulo utiliza alguns complementos importantes: Quando Paulo quer falar da origem do Evangelho, seus complementos prediletos são: evangelho "de Deus, de seu Filho, de Cristo". Ao falar do propósito do Evangelho, descreve-o como "de paz ou reconciliação" (Rm 10.15; Ef 6.15) e "da salvação" (Ef 1.13). E quando fala do direcionamento do Evangelho, na sua missão, descreve-o como "da incircuncisão", ou seja, dirigido ao mundo gentílico (Gl 2.7).
O difícil contexto social da pregação No primeiro século da era cristã, a transmissão do Evangelho era feita com muita dificuldade. Paulo descreve, em 1Tessalonicenses, que precisou superar muitos obstáculos e de muita coragem para pregar o evangelho naquela cidade idólatra. Sua viagem pela província romana da Macedônia deu seu primeiro fruto na cidade de Filipos. A narrativa de Atos 16 fala de sua prisão por causa da exposição do Evangelho. A acusação foi a de propagar...costumes ilícitos aos romanos (16.21). Desse modo, entendemos que pregar a conversão ao Senhor Jesus Cristo era uma afronta direta ao regime romano, cujo elemento principal, naquela época, era o imperador Cláudio. Em 1Tessalonicenses 2.2, Paulo afirma que ele e Silas foram agravados em Filipos, mas, ainda assim, não recuaram diante da batalha que estava por enfrentar:...tornamo-nos ousados em nosso Deus, para vos falar o evangelho de Deus com grande combate ele diz. Em Atos, o evangelista Lucas descreve, com detalhes, a missão apostólica na Macedônia: cidadãos de Filipos rasgaram as vestes do apóstolo e deram-lhe chicotadas, antes de o colocarem na prisão (At 16.22,23). Na ocasião, um terremoto aconteceu na região em que Paulo e Silas estavam, de modo que as estruturas da prisão foram abaladas. Então, Deus usou Paulo e Silas para pregarem ao carcereiro, trazendo a salvação para ele e sua família. Os magistrados locais ficaram receosos de represálias por terem aprisionado cidadãos romanos e foram obrigados a soltar Paulo e Silas, os quais viajaram cerca de 150km em direção sudeste, até Tessalônica, onde enfrentaram também a perseguição dos judeus helenistas. Não há como discordar que o enfrentamento das perseguições movidas pelos ímpios contra o Evangelho é mais fácil na companhia de amigos e irmãos na fé. Assim, é possível entender que a expressão nosso evangelho (1Ts 1.5) indica esse esforço conjunto e de cooperação. Entre os Tessalonicenses, Paulo não trabalhou sozinho: E enviamos Timóteo, nosso irmão, e ministro de Deus, e nosso cooperador no evangelho de Cristo (1Ts 3.2).
Pregar, hoje, é tão difícil quanto era àquela época? Por quê? Qual o valor de uma companhia, nesse momento? Pregação: palavra de poder, acompanhada do testemunho pessoal Algumas bicicletas antigas tinham uma espécie de farol no guidão, que era alimentado por um dínamo que ficava na roda dianteira. Este dínamo é um gerador de eletricidade, um aparelho que transforma energia mecânica em energia elétrica. Ele é constituído por um ímã fixo em um eixo móvel, ao redor deste eixo existe uma bobina (fio condutor enrolado, constituindo um conjunto de espiras). Quanto maior a velocidade da bicicleta, maior era a luminosidade produzida na estrada. Naquela época, em que não havia iluminação pública em todas as ruas, o farol era essencial para enxergar o caminho. No texto áureo sobre o Evangelho, Romanos 1.16, ele é chamado de o dínamo (palavra grega traduzida por poder ) de Deus, e significa a eficácia de Deus em salvar, por meio da obra de Cristo. Essa ideia é retomada, aqui, na afirmação paulina de 1Tessalonicenses 1.5. Logo, chegamos à conclusão de que ao discurso religioso não pode faltar o poder que advém do Espírito de Deus, o qual é a vida e obra de Cristo Jesus (1Co 1.24). A poderosa mensagem do Evangelho comunica a vontade divina ao pregador e aos ouvintes, com vistas à sua salvação. O pregador do Evangelho discursa em poder, e no Espírito Santo (1Ts 1.5b). Em outras palavras, Deus discursa através de nós, usando-nos, como vasos de barro: Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não da nossa parte (2Co 4.7). O que Romanos 15.3,19 tem a nos ensinar sobre o poder da mensagem que produz a fé? A plena convicção do pregador: atestado da veracidade da mensagem
Paulo ensina que àquele que transmite o evangelho da salvação não pode faltar plena convicção (do grego pleroforia, convicção, certeza absoluta ). Tal certeza envolve três aspectos, a saber: 1) A convicção de ter sido chamado por Deus para a tarefa a ser realizada, e a competência para fazê-lo (2Ts 1.11,12). 2) A certeza de que a mensagem a ser apresentada é a verdade sobre a pessoa e a obra do Salvador (2Pe 1.16,17). 3) A convicção plena de que Deus é poderoso para cumprir cabalmente suas promessas (Ef 1.17-21; 3.20,21). Em 1Tessalonicenses 2.7, Paulo fala da transmissão do Evangelho com brandura (2), ou seja, sem aterrorizar nem forçar o pecador. Tudo indica que Paulo usava da conversação coloquial e da intimidade familiar. Indica, também, sabedoria para apresentar o Evangelho num ambiente de oposição. No versículo 8, Paulo faz um comentário interessante. Junto com o Evangelho que pregava, desejava comunicar sua alma: Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade desejávamos comunicar-vos não somente o evangelho de Deus, mas ainda as nossas próprias almas. Isso mostra claramente a conexão profunda entre a mensagem pregada e a mensagem vivida. A afirmação divina a Paulo, a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza (2Co 2.19) sugere que o poder e a convicção ministerial superam os limites da condição humana? Em que sentido? Quais as consequências disso? Conclusão Paulo nos deixou uma lição preciosa para que saibamos enfrentar os obstáculos à pregação do verdadeiro Evangelho: a pregação é um discurso divino (de onde provém o poder) e humano (de onde provém a convicção).
Nesse sentido, podemos pensar em três maneiras de transmitir o Evangelho: primeiro, sejamos companheiros dos que pelejam pelo Evangelho, e isso significa apoiar física, emocional e espiritualmente; segundo, preguemos para encorajar e consolar, oferecendo com o ensino evangélico alívio para a alma consumida pelo pecado; e, por fim, com ternura e plena convicção do poder de Deus, preguemos para transformar o pecador, pela fé no Cristo de Deu. Para pensar e agir De que maneira poderíamos ressignificar a oração que ilustra o primeiro parágrafo deste estudo? Primeiro, pedindo a Deus que ilumine o entendimento do pregador para que ele não vá além do que diz a Palavra e acabe, assim, adulterando-a (2Co 4.2). Segundo, pedindo a Deus que o pregador discurse sobre o Evangelho com coragem e ousadia (2Tm 1.7). Por fim, que a mensagem tenha guarida nos corações, sendo aceita pela fé e praticada no dia a dia. ------- (1) EADIE, John. A commentary of the greek text of the epistles of Paul to the Tessalonians. London: Macmillan. Texto clássico, em versão digital. (2) Algumas versões trazem a palavra grega nepioi, traduzindo: tornei-me criança no meio de vós, mas brandura, do grego epioi, harmoniza melhor com o contexto.