Considerações finais



Documentos relacionados
Apresentação. Rosana Aparecida Albuquerque Bonadio Nerli Nonato Ribeiro Mori

Front Matter / Elementos Pré-textuais / Páginas Iniciales

CAPITALISMO AUTORITÁRIO E CAMPESINATO

Fontes manuscritas. Dilton Oliveira de Araújo

A voz confirmada. Para quê?

O papel dos pais e dos educadores na educação sexual da pessoa com deficiência intelectual

Parte II Inferência estatística

Introdução. Patrícia Olga Camargo

Front Matter / Elementos Pré-textuais / Páginas Iniciales

Apêndices. Rosana Aparecida Albuquerque Bonadio Nerli Nonato Ribeiro Mori

BIODIESEL O ÓLEO FILOSOFAL. Jozimar Paes de Almeida BIBLIOTECA VIRTUAL DE CIÊNCIAS HUMANAS

II - Lesões elementares no exame dermatológico

Técnicas malacológicas coleção malacológica

Circo Washington. Mario Fernando Bolognesi

Considerações finais

Apresentações. Luiz Tarcísio Mossato Pinto Manoel Arlindo Zaroni Torres Lindolfo Zimmer

Introdução. Antonio Carlos de Melo Magalhães Eli Brandão Salma Ferraz Raphael Novaresi Leopoldo (orgs.)

Front Matter / Elementos Pré-textuais / Páginas Iniciales

Parte I. Breve histórico da anatomia. Ana Carolina Biscalquini Talamoni

Apresentação do livro

Sobre os autores. Carmen Fontes Teixeira Jorge Pereira Solla

A educação sexual como ação inclusiva

Front Matter / Elementos Pré-textuais / Páginas Iniciales

Sobre os autores. Maria Couto Cunha (org.)

Ordem Syngnathiformes

Front Matter / Elementos Pré-textuais / Páginas Iniciales

Apresentação. Ucy Soto Mônica Ferreira Mayrink Isadora Valencise Gregolin

Front Matter / Elementos Pré-textuais / Páginas Iniciales

Autores. Gilmar Baumgartner Carla Simone Pavanelli Dirceu Baumgartner Alessandro Gasparetto Bifi Tiago Debona Vitor André Frana

Parte I Estatística descritiva

47 - Evaristo de Paula, um nome esquecido na história da descoberta da doença de Chagas

Front Matter / Elementos Pré-textuais / Páginas Iniciales

4 Conclusões. políticas públicas e inclusão digital. Bernardo Sorj Luís Eduardo Guedes

Circo Real Bandeirantes

Sobre os autores. Olival Freire Jr. Osvaldo Pessoa Jr. Joan Lisa Bromberg orgs.

VIII - Doenças alérgicas

Prefácio. Eduardo Silva

Transcrição:

Considerações finais Ana Raquel Portugal SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros PORTUGAL, AR. O ayllu andino nas crônicas quinhentistas [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 208 p. ISBN 978-85-7983-000-6. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. All the contents of this chapter, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution-Non Commercial-ShareAlike 3.0 Unported. Todo o conteúdo deste capítulo, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribuição - Uso Não Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não adaptada. Todo el contenido de este capítulo, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento-NoComercial-CompartirIgual 3.0 Unported.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho tentamos mostrar as representações de ayllu encontradas em algumas crônicas do século XVI e início do XVII, percebendo que, nas suas fronteiras discursivas conjuntamente com as práticas culturais quinhentistas, nasceu o ayllu colonial que de sistema de parentesco foi transformado em espaço territorial. Analisamos, então, o mundo andino antes e durante as reduções toledanas, momento de consolidação de tais mudanças. Começamos por esboçar nosso quadro teórico, sem o qual não seria possível analisar as crônicas, pois o conceito de fronteiras discursivas criado à luz da história cultural serviu de norteador nessas leituras. O jogo de alteridade vivido por espanhóis e indígenas está explícito nas páginas de suas obras, cabendo a nós pesquisadores interpretar e reinterpretar essas representações culturais. Sendo nosso objeto de estudo o ayllu representado nas crônicas quinhentistas, fez-se necessário conhecer um pouco da história da Espanha medieval e moderna e do Tahuantinsuyu. Por isso, apresentamos algumas características da Espanha durante o século XV e retrocedemos no tempo para compreender a evolução da comunidade camponesa que serviu de modelo aos espanhóis nas suas representações do ayllu. Desenvolvemos ainda uma sintética história dos incas para facilitar a compreensão do conteúdo das crônicas e perce-

158 ANA RAQUEL PORTUGAL ber de que modo os espanhóis se apropriaram das estruturas incas para facilitar o seu sistema de colonização. Um exemplo disso foi a reutilização da mita incaica, que antes era o tributo pago em forma de trabalho para o Estado e que os espanhóis transformaram em tributo pago ao encomendero não só em trabalho pessoal, mas também em espécie e dinheiro. A maior diferença é que no tempo dos incas todos que participavam da mita estatal eram recompensados pela redistribuição de produtos armazenados em depósitos estatais, o que significa que ninguém passava por dificuldades. No período colonial isso mudou, pois os índios passaram a ser explorados de forma desumana e não viam nenhum retorno de seu trabalho, o que levou ao descontentamento geral que não apenas originou movimentos de resistência, mas também levou a atos de desespero como as bebedeiras e o suicídio de muitos. Os estudos atuais sobre o ayllu pouco utilizaram as crônicas, e, por isso, estas são a base de construção de nosso trabalho. Embora tenhamos utilizado seus conteúdos ao longo de todo o nosso estudo, o objetivo principal foi mostrar as representações das características do ayllu que aparecem nessas obras. Percebemos, no entanto, o quanto é difícil conjugar discursos com práticas culturais, visto que nem sempre sabemos quando um corresponde ao outro ou vice-versa. As crônicas são um aglomerado de informações que podem ser intencionais ou simples constatações, podem ser relatos etnográficos ou ainda fruto de total incompreensão do novo. Por isso, para interpretá-las, foi necessário ter em mente que elas expressam apenas representações de um cotidiano vivido por homens com concepções de mundo distintas. As mudanças ocorridas com o ayllu foram engendradas ao longo das primeiras décadas de colonização espanhola para satisfazer ao mecanismo colonial. Primeiro, houve uma certa dificuldade em se entender o significado dessa estrutura indígena, o que mostramos por meio da análise de alguns dicionários da época. Essa confusão inicial misturada ao desinteresse em compreender essa estrutura originou representações cronísticas diversas, resultantes das adaptações do ayllu às necessidades dos conquistadores. Assim, comprovamos

O AYLLU ANDINO NAS CRÔNICAS QUINHENTISTAS 159 que nas crônicas destacou-se a importância da divisão espacial, embora os nossos cronistas tenham sabido descrever a forma como os incas dividiam e administravam o Tahuantinsuyu por meio do sistema decimal analisado anteriormente. Porém, essa divisão era pautada na principal característica de organização dos povos andinos, que se dava pela consanguinidade, algo relevado pelos espanhóis, que perceberam que esse sistema traria problemas para o seu modo de administrar o trabalho indígena. A estes interessava que os índios estivessem reunidos num só local para atender às necessidades produtivas dos encomenderos e da coroa. Por meio das reduções toledanas, isso se tornou possível. Os índios passaram a habitar nas terras a serem plantadas ou nas regiões de exploração mineira, dois grandes setores de produção necessários aos colonizadores e à metrópole. Percebemos então que os cronistas representaram esse conjunto de práticas culturais, aclarando a forma como o ayllu foi sendo adaptado às necessidades coloniais. A influência do modelo europeu de comunidade camponesa nos primeiros escritos sobre o ayllu e as dificuldades linguísticas foram fundamentais para que as representações iniciais dessa estrutura estivessem vinculadas à ideia de que um grupo de pessoas se articula de acordo com o espaço territorial em que habita e do qual tira o seu sustento. Com o tempo, os cronistas se deram conta de que a organização dos grupos étnicos andinos não correspondia a esse modelo. Embora tenham entendido posteriormente a vinculação por laços de parentesco desses grupos, o sistema colonial exigia a organização espacial da mão de obra disponível. Então, as crônicas passaram a representar o ayllu com características incaicas, ou seja, com base no sistema de parentesco, mesclado à nova roupagem adquirida no conjunto das práticas culturais coloniais, em que o território passa a ser o principal ponto de coesão dos grupos étnicos inseridos no sistema de reduções toledanas, capaz de satisfazer a todas as necessidades de espanhóis e também de alguns indígenas, como é o caso dos curacas que passaram a usufruir da mão de obra indígena para benefício pessoal. Na confluência dos discursos dos cronistas, visualizamos essas mudanças que são oriundas de um fenômeno discursivo em conjun-

160 ANA RAQUEL PORTUGAL to com práticas culturais ocorridas durante todo o século XVI. Esse entrecruzamento de discursos e práticas quinhentistas deu origem ao ayllu colonial.