CISNE BRANCO 1
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JOSÉ ARAÚJO CISNE BRANCO 3
Copyright 2011 José Araújo Título: Cisne Branco Editoração e Edição José Araújo Revisão e diagramação José Araújo Capa José Araújo Classificação: 1- Literatura brasileira - 2 Contos 3 Autoajuda 1ª Edição 2013 A reprodução de qualquer parte desta obra é vedada sem a prévia autorização do autor. 4
Dedicatória: Dedico esta obra a todos os pais e filhos, pois sejam eles biológicos ou não, o que vale mesmo, é o amor que carregam em seus corações uns pelos outros e o sentimento único de que juntos, fazem parte de uma verdadeira família. José Araújo 5
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INTRODUÇÃO Caro leitor, Adoção, palavra sagrada que pode significar tantas coisas diferentes para as pessoas envolvidas nesta situação e serem encaradas de formas totalmente diversas por elas, o que acaba por criar clima perfeito para mais sofrimento e tensão, quando na verdade, tudo poderia ser tão mais fácil, sem dor, sem sofrimentos desnecessários. Tudo que é preciso numa adoção é adotar junto com a criança, o amor. Refletindo sobre o assunto, minha inspiração trouxe à tona o conto CISNE BRANCO que você irá ler nas próximas paginas, num misto de ficção, fantasia e parábola, na mais pura intenção de tocar o seu coração. 7 José Araújo
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CISNE BRANCO Dois pequenos olhinhos observavam atentos e ansiosos, através de uma das janelas do segundo andar de um velho casarão assobradado na Baía dos Anjos, um recanto quase desconhecido e escondido, nos confins do litoral sul do Estado de São Paulo. Era muito cedo ainda, mas o sol já havia mais uma vez proporcionado a Dorinha o seu espetáculo diário, quando surgia no meio da Baía como se emergisse do fundo do oceano, lá longe, num horizonte lindo e tranquilo, delineado ao fundo pelo infinito azul do mar. Era mais uma manhã de sábado e ela costumava ficar no quarto que dividia com suas pequenas colegas, ela não tinha vontade de descer e juntar-se aos outros, sabia que seria mais um final de semana como todos os outros, onde de vez em quando aparecia alguém para adotar uma 9
das crianças, que ganharia uma casa, um lar e o mais importante, um pai e uma mãe. Dorinha, como sempre, seria deixada para trás, ninguém se interessaria em adotá-la, exatamente como acontecia desde que ela se conhecia como gente no Orfanato Sagrado Coração. Aos nove anos de idade, ela era uma menina linda, tinha uma pele morena da cor de jambo, cabelos castanhos e cacheados, com olhos de um verde que chamava a atenção de todos que a viam, mas mesmo assim, todos os interessados em adotar uma criança, preferiam os de pele clara, os brancos e de preferência, loiros, de olhos azuis. Quando ainda era muito pequena, ela não ligava muito para as idas e vindas daqueles homens e mulheres que visitavam o orfanato todos os sábados. Afinal, ela nem conhecia o significado das palavras pai e mãe. 10
Contudo, o tempo passou, ela foi à escola, aprendeu a ler e a escrever, conheceu o mundo através dos livros que amava ler e quanto mais lia estórias de romances ou aventuras, onde os personagens de pais e mães tinham destaque, quanto mais via os pais dos outros alunos virem buscá-los no final das aulas, mais queria compreender por que ela mesma não tinha neste mundo um pai e uma mãe. Aos poucos, vendo seus coleguinhas sendo levados para seus novos lares e sentindo-se rejeitada, já começava a achar que só era permitido às crianças brancas ter um lar, uma família e seu pequeno mundo, se é que se poderia chamar assim, parecia querer sufocá-la de uma forma angustiante, pois seu pequeno coração doía e muitas vezes quando chorava, parecia que seu peito estava sendo dilacerado, sem dó nem compaixão. Dorinha sempre foi uma boa menina, atenta, obediente, estudiosa e executava todas as 11
tarefas que lhe eram conferidas no orfanato, com presteza e perfeição. Contudo, aquela coisa de não ser escolhida por ninguém, já a fazia encarar este fato há muito tempo como uma rejeição e assim, sábado após sábado, ela preferia ficar em seu quarto, olhando pela janela para a Baía dos Anjos, cuja entrada era ladeada por dois morros, cobertos o ano todo pela exuberante vegetação da mata atlântica da região. Para única alegria de seu coração, todos os sábados, um enorme veleiro passava em frente à entrada da baía, seguindo seu caminho num cruzeiro litorâneo semanal, mas quando ele surgia, era uma visão celestial. Ele era todo branco e suas velas enfunadas ao vento o faziam parecer ao longe um cisne branco, flutuando devagar. Era tanto, que às vezes, ela achava que ele havia parado em frente à entrada da Baía, mas era ilusão e aos poucos, ele desaparecia lentamente por detrás de um dos montes. 12
Durante o período que durava a passagem do veleiro em frente à Baía dos Anjos, parecia que Dorinha se desligava de tudo, de todas as suas dores, de todos os seus dissabores, era como se aquela linda embarcação, que agora ela já chamava de Cisne Branco, soubesse que ela estava ali, triste e solitária, que precisava de alguma alegria na vida e assim, ele nunca falhava em vir ao encontro de seu coraçãozinho, que disparava quando ele surgia por detrás do morro. Primeiro a ponta do mastro da proa, suas velas e em seguida os mastros principais, que um a um, com todas as suas velas enfunadas e tremulando ao vento, iam completando sobre um casco branco, uma visão que, para ela, só poderia ser parte de algum paraíso, igual aos que ela conhecia somente através de livros de romances e aventuras. Final de semana após final de semana era sempre a mesma coisa, muitos outros amiguinhos partiam e ela sempre ficava, mas de alguma forma, bem lá no fundo de sua alma, ela sabia da 13
existência de um poder maior, que a tudo sabe e tudo vê e que este poder tinha um nome, ele se chamava Deus e todas as noites, ela rezava pedindo a ele que protegesse a todos os seus amiguinhos e amiguinhas que foram adotados, para que nunca mais ficassem órfãos, sem pai, nem mãe. Certo sábado, ela esperava seu Cisne Branco com a mesma ansiedade de sempre e ele não falhou, majestoso e imponente como um cisne imperial, ele surgiu por detrás de um dos morros, mas quando chegou ao meio da travessia que fazia em frente à Baía dos Anjos, foi virando lentamente, em direção ao horizonte tão distante e sem fim. Dos olhos de Dorinha, uma lágrima solitária rolou lentamente, porque naquele momento, vendo seu único amigo fiel e verdadeiro partir para longe, ela acreditou que ele não era diferente das pessoas que a discriminavam pela sua cor, que ele, com toda sua brancura celestial, também 14
a estava abandonando, indo para o outro lado do mundo, talvez até, para nunca mais voltar. A pequena menina virou-se lentamente como fez o veleiro, reviu sua própria rota, definiu seu rumo e seguiu em direção à sua caminha, onde mergulhou em prantos até adormecer, exausta de tanto chorar. Contudo, naquele dia que havia se iniciado lindo e com céu limpo, quando já eram umas três horas da tarde, o veleiro já estava muito longe da costa brasileira e ele, com sua beleza e imponência, singrava altos mares, rumo ao destino traçado pelo maior de todos os capitães do universo. O céu que tinha estado azul e limpo durante mais da metade do dia, começou a ser salpicado por pequenas nuvens brancas e que para quem estava no convés e olhava para cima, pareciam flocos de algodão, flutuando aleatoriamente entre as velas que tremulavam ao vento. 15