CURSO BIBLICO ONLINE I MODULO: ENTENDENDO O LIVRO DO GENESIS 1-11 1ª AULA - INTRODUÇÃO GERAL



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Transcrição:

CURSO BIBLICO ONLINE I MODULO: ENTENDENDO O LIVRO DO GENESIS 1-11 1ª AULA - INTRODUÇÃO GERAL Os relatos sobre a criação do mundo e da humanidade não são exclusividades de Israel. Cada povo procura responder, a seu modo, às questões existenciais do ser humano sobre a origem do universo, da vida e da morte, do bem e do mal. As respostas construídas ao longo de várias gerações nós chamamos mito. Nos tempos atuais, a palavra mito é entendida como mentira, ilusão ou uma compreensão equivocada sobre determinado assunto. Porém, o sentido do mito é mais profundo. O mito nasce da necessidade de explicar os mistérios da vida e os fenômenos da natureza. A sua origem está nas narrativas orais, que procuram explicar como e por que as coisas acontecem. Há mitos semelhantes em culturas diferentes e distantes geograficamente, pois a experiência humana é comum, independentemente da época e da região. Os seres humanos, de todos os tempos e de todos os lugares, produziram seus mitos com linguagem simbólica, situando os acontecimentos no tempo das origens, no começo de tudo. Inclusive aqui no Brasil há muitas histórias indígenas da criação do mundo: De boca em boca corre a história de que os Karajás foram criados pelo ser supremo Kananciué e, no princípio, eram imortais, Viviam como peixes, no fundo das águas do rio Araguaia. Eles não conheciam o sol, a lua, as plantas nem os animais. No lugar onde eles viviam existia um buraco luminoso em que o Criador lhes havia proibido de entrar; se eles desobedecessem, perderiam a imortalidade. Apesar da tentação, eles obedeciam fielmente. Mas, certo dia, um Karajá mais ousado desobedeceu. Entrou pelo buraco adentro e chegou até as praias do rio Araguaia. A paisagem que ele viu era deslumbrante. Maravilhado, o índio Karajá ficou apreciando aquele paraíso terrestre até o entardecer. Quando ia retomar; viu outro cenário fascinante: a lua e as estrelas no céu. Quando amanheceu, ele voltou aos seus irmãos e falou sobre o mundo maravilhoso que ele havia encontrado. O povo resolveu pedir a Kananciué, o Criador; que permitisse que eles morassem naquele mundo. O Criador permitiu, mas, se fossem, eles perderiam a imortalidade. Todos os Karajás passaram entusiasmados pelo buraco luminoso do fundo do rio. Vivem ainda hoje naquele paraíso, às margens do Araguaia.Eles preferiram a mortalidade, para que pudessem nascer integralmente como seres livres, o que continuam sendo até os dias de hoje. 1 Os indígenas do povo Karajás vivem há milênios às margens do rio Araguaia, no Tocantins. De acordo com a tradição, esse povo nasceu das águas desse rio. Para eles, a origem da morte é a transgressão, pois, entre a liberdade e a imortalidade, os indígenas preferiram a liberdade, desobedecendo à ordem do seu Criador. Os relatos de Gênesis 1-11 não fogem à regra. Eles são escritos que procuram explicar as origens do universo e da humanidade. A história de Adão e Eva, Caim e Abel, do Dilúvio e da Torre de Babel possuem estruturas e expressões próprias de um mito. Os autores dos capítulos iniciais do livro do Gênesis tiveram como fonte de inspiração as tradições do Antigo Oriente Próximo, especialmente da Mesopotâmia, do Egito e de Canaã, com as quais o povo de Israel conviveu. O povo de Israel e a criação do mundo Vamos agora nos situar no chão da terra de Israel. Essa terra está em uma região chamada Crescente Fértil ou Meia-lua Fértil, junto com o Egito e a Mesopotâmia. Israel era é um importante corredor de passagem muito disputado entre os grandes impérios do Egito e da Mesopotâmia. 1

A região recebeu o nome de Crescente Fértil por causa dos grandes rios: Nilo, no Egito; Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia; e Jordão, em Israel. Hoje o Crescente Fértil se estende sobre o Iraque, a Síria, o Líbano, a Jordânia, o Egito e o Estado de Israel. Devido à sua localiz ação, Israel (Palestina) é alvo de sucessivas dominações dos impérios da época. A terra de Israel está rodeada por vários povos dos quais recebe influência cultural, religiosa, social e política. Por exemplo, a cosmovisão do Antigo Oriente está muito presente nos relatos da 2

criação e do dilúvio. Em Gn 1,7 lemos: "Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou ao firmamento de céu" (cf. 7,11). Vamos olhar para o desenho e procurar entender a cosmovisão dos povos do Antigo Oriente. Naquela época, as pessoas acreditavam que a terra tinha a forma de um disco plano na forma de um círculo (cf. Is 40,22; Pr 8,27; Jó 26,10). Ela se encontrava no centro do Universo criado por Deus e estava rodeada por águas inferiores e superiores (Gn 1,7; Jó 38,4). As águas inferiores do Firmamento são formadas pelos oceanos, rios e fontes (Sl 24,1-2) e as superiores são formadas por nuvens, chuva, orvalho, granizo e neve. Tanto o Firmamento quanto a terra são sustentados por solidas colunas (Sl 104,5; Pr 8,29; Mq 6,2; Is 24,18; 2Sm 22,8) entre as quais estava localizado o xeol a morada dos mortos (Nm 16,33; Dt 32,22; Jó 38,17). Sobre a terra se estendia o firmamento, como uma tigela emborcada, na qual estavam pendurados o sol, a lua e as estrelas, quais luminares da terra (Gn 1,16-17). E, acima do firmamento, ficavam as águas superiores, que saíam através de pequenas aberturas, e, mais acima, ficava a morada dos deuses. O Universo é formado por quatro elementos essenciais: terra, fogo, ar e água e por três níveis: Firmamento, Terra e Xeol. A soma desses quatro elementos e dos três níveis forma o número 7, que na Bíblia indica plenitude, perfeição, totalidade2. O relato de Gênesis 1 a 11 surge a partir dessa compreensão do universo. Os autores usaram a linguagem, a cultura, os símbolos e a ciência daquela época, mas adaptaram conforme a sua realidade e a sua crença religiosa. Algumas diferenças no relato de Gênesis 1-11 O livro do Gênesis apresenta dois relatos sobre a criação: Gn 1,1 a 2,4a e 2,4b a 24. O primeiro relato da criação do mundo e da humanidade é completo: luz, céu, terra, mar, luzeiros, seres vivos, homem e mulher, num esquema de seis dias, reservando o sétimo para o descanso. E Deus cria por meio de sua palavra. O segundo relato não fala da criação do céu, do mar, nem mesmo dos astros, mas começa com Javé Deus modelando o homem a partir da terra; e da terra ele faz nascer às plantas, modela os seres vivos e, por fim, da costela do homem constrói a mulher. Compare essas duas narrativas lendo Gn 1,1 a 2,4a e 2,4b a 24 observando e anotando as semelhanças e diferenças. 3

Um detalhe que podemos observar é o nome de Deus. Em Gênesis 1,1-2,4a, a palavra elohim, em hebraico, é utilizada 35 vezes. Em Gênesis 2,4b-24, a divindade é chamada de Javé Deus, YHWH 'elohim, repetido 11 vezes. O termo 'elohim é aplicado para todas as divindades enquanto o nome YHWH é a identidade Israel. Mas a diferença vai além do nome: no primeiro relato, a divindade está acima de tudo. Um Deus transcendente, que não se mistura com os seres criados. No segundo relato, há um relacionamento de proximidade entre a divindade e o ser humano. Javé Deus modela o ser humano a partir da argila e insufla o de vida em suas narinas; planta um jardim e aí coloca o ser humano. Um Deus que se preocupa com as necessidades do homem: "Não é bom que o homem esteja só" (2,18). Parece que Javé Deus também não gosta de solidão! As repetições, as diferenças e as contradições se tornam mais evidentes no relato do Dilúvio (6-9). Podemos dizer que existem duas histórias do dilúvio que foram unificadas num relato, costuradas com um fio quase invisível, que somente uma visão perspicaz consegue enxergar: Eis alguns exemplos: 1. Em Gn 6,5 o motivo do Dilúvio é a maldade do coração humano, mas, em Gn 6,11-13, é a corrupção da terra, de toda carne e a violência. 2. Noé recebe duas ordens de Deus. Conforme 6,19-20, é preciso que Noé faça entrar um casal de cada espécie na arca; em 7,2 a ordem é outra: sete casais de animais puros e um casal de impuros. 3. Quanto tempo durou o Dilúvio? Em 7, 4.12 a duração é de quarenta dias e quarenta noites; em 7, 6.11; 8, 13.14: um ano inteiro! 4. Causas do Dilúvio. Em 7,12; 8,2b uma chuva forte; em 7,11; 8,1-2a: o rompimento das barreiras que separavam as águas do abismo e as águas do céu. 5. A divindade aparece com o nome YHWH e 'elohin. A história do Dilúvio é uma só, mas com uma série de acréscimos posteriores com o objetivo de atualizar e reler a narrativa anterior. Olhando a história A partir das diferenças apresentadas fica evidente que o relato do Gênesis 1-11 é fruto de um longo processo histórico e recolhe histórias de várias gerações. A redação final do livro do Gênesis aconteceu por volta dos anos 400 a.c. As histórias narradas nesse livro passaram por um longo processo, foram contadas, escritas, reescritas e relidas durante as diferentes etapas da história de Israel. Vamos recordar os vários períodos dessa história? O período entre os anos 1250 e 1030 a.c. é conhecido como o período das aldeias comunitárias. O período das tribos época dos juízes. Nesse tempo em que não havia rei, o poder era descentralizado e as decisões eram tomadas em assembleias. A maioria da terra era propriedade coletiva. Nos primeiros tempos, o trabalho e seu fruto eram partilhados entre todos. Um tempo marcado pela igualdade e solidariedade. Algumas memórias desse período, por exemplo, a integração com a terra, foram preservadas em Gênesis 2. A passagem do período tribal para a monarquia acontece por volta do ano 1030 a.c. Israel passa a ter uma corte, um exército e um templo, centralizando o poder nas mãos de uma única pessoa. Novamente, o povo experimenta opressão e escravidão, a ponto de surgirem revoltas. Podemos ver alguns resquícios da realidade do trabalho duro em Gênesis 3. Em torno de 931 a.c., acontece a divisão do reino: o Norte, conhecido como Israel, e o Sul, como Judá. A monarquia dividida dura até 722 a.c., quando o império assírio invade a capital do reino do Norte, Samaria, deportando parte de sua população (2Rs 17,24). Nesse período, o reino de Judá, no sul, torna-se vassalo da Assíria, Mas o Reino do Sul, com a capital em Jerusalém, chega ao seu fim em torno de 586 a.c., quando os babilônios destroem o templo e a cidade de Jerusalém. 4

Depois da monarquia, veio o exílio da Babilônia (586-538 a.c). Um momento de profunda crise na história de Israel, mas também de grande criatividade, tanto para quem ficou nos arredores da cidade de Jerusalém e nas cidades do interior como para quem foi deportado. É um momento em que as lideranças religiosas refletem o sofrimento, do exílio e castigo. Nesse período, a história e as outras tradições de Israel que já haviam sido escritas foram revistas e ampliadas, tanto em Israel como na 4 Babilônia. No exílio nascem muitos escritos que fazem parte da Bíblia, exemplo, o poema da criação (1,1-2,4a) que reflete a situação de sofrimento do povo no Exílio da Babilônia e a tradição da Torre de Babel (11,1-9). Em 539 a.c., os persas dominam a Babilônia. O novo império favorece a reorganização dos povos dominados a partir da religião, exigindo em troca submissão política e pesados tributos. O apoio e o incentivo do império, alguns grupos de judeus exilados voltam para Jerusalém e reorganizam o povo a partir do Templo, da Lei e da concepção de povo santo, sob o governo dos sacerdotes oficiais. Para pagar os tributos, multiplicam-se os sacrifícios e as exigências da Lei, especialmente das leis referentes à pureza e ao sábado (8,20-21). É nesse período entre os anos 538 a.c. e 333 a.c., conhecido como Teocracia, que se dá a redação final dos livros que fazem parte da Torá, Lei: Gn, Ex, Lv, Nm e Dt. A partir dessa época, essa coleção de livros ficou conhecida como Pentateuco. Assim, podemos sintetizar a história de Israel nas seguintes fases: 1250 a 1030 a.c.: Período das tribos. 1030 a 930 a.c.: Monarquia unida (tempo de Saul, Davi, Salomão). 930 a 586 a.c.: Monarquia do Sul, com capital em Jerusalém. 586 a 538 a.c.: Exílio na Babilônia. 538 a 333 a.c.: Período Persa. A partir de sua história e de sua cultura, os autores de Gênesis 1 a 11 deram suas respostas às necessidades de sua época, em contextos e lugares diferentes. Porém, essa história é tecida com a sabedoria acumulada geração em geração. É preciso ler, deixar-se envolver por essas narrativas e descobrir a riqueza dessa história. No II Módulo, do nosso Curso, iremos estudar e aprofundar esses períodos da história de Israel, de modo que você terá neste primeiro ano, uma visão completa da Formação do Antigo Testamento. Então, coragem... seja perseverante. Gênesis 1-11: gotas de sabedoria Os relatos de Gênesis 1-11 nos falam ao coração e procuram nos dar uma resposta sobre as origens e os mistérios vida. É preciso pisar nesse chão e, junto com o povo judeu, encontrar nesses textos respostas às nossas inquietações de hoje. Para isso, apresentamos algumas chaves de leitura e as mensagens principais para auxiliar a sua caminhada: 1. Os relatos sobre a criação do mundo e da humanidade não são exclusividades de Israel, do Egito e do Oriente Próximo. Povos de regiões mais distantes, como Índia, China, África, também os indígenas no Brasil, produziram suas histórias sobre a origem do universo. No Egito, um papiro do século XIII a.c. narra a criação da cidade Tebas a partir do relato sobre a criação do sol. Na Babilônia, Marduk é considerada a divindade principal por ter vencido Tiamat, a divindade do abismo e do caos, e do seu corpo ter criado o céu e a terra. 5

2. Gênesis 1-11 afirma que o Deus de Israel é o Criador. Na região da Mesopotâmia, Canaã e Egito havia a crença na existência de várias divindades criadoras. Os relatos de Gênesis 1-11, mesmo de épocas diferentes e utilizando diversos nomes para Deus, reafirmam a crença em um único Deus, criador do céu e da terra (Gn 1; SI 121,2; 124,8; 134,3). 3. Um Deus humano e próximo. Algumas narrativas do livro do Gênesis apresentam a imagem de um Deus presente na vida do ser humano. Um Deus que modela o homem e os animais a partir do solo. Um Deus oleiro e agricultor: ele planta um jardim (2,7-8.19). Deus modela e cuida. Mesmo depois da transgressão, Javé Deus não interrompe o diálogo com o ser humano (3,9; 4,9). Um Deus que não abandona o ser humano à sua própria sorte (4,15). Um Deus que faz justiça aos fracos e oprimidos. Um Deus que desce e acaba com o projeto opressor (11,1-9). 4. Autossuficiência do ser humano. No jardim, mulher e homem têm liberdade e se relacionam com Deus e com todos os seres criados. Há uma única proibição: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. A serpente não convida à desobediência, mas sua argumentação atinge o ponto central do ser humano: "Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal" (3,4-5). A autossuficiência do ser humano provoca ruptura no relacionamento com Deus e com o irmão. 5. A autossuficiência gera violência. "Onde está teu irmão Abel? Não sei. Acaso sou guarda de meu irmão?" (4,9). À pergunta de Javé, Caim responde com ironia. A história de Caim e Abel é a primeira de uma série de conflitos entre irmãos: Ismael e Isaac, Jacó e Esaú, José e seus irmãos. Abel é pastor, e Caim é agricultor. A história retrata os conflitos entre pastores e agricultores. Na história transparece a impossibilidade de aceitar a fraternidade: a recusa do irmão a ponto de assassiná-lo. A fraternidade é uma constante aprendizagem. 6. A realidade de injustiça provoca a destruição da natureza. Os relatos de Gênesis apresentam uma situação crescente de violência: Caim, Lamec e os filhos de Deus. A maldade do ser humano é tão grande que atinge toda a natureza: "Chegou o fim de toda carne, eu o decidi, pois a terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da superfície da terra" (6,13). Javé encontra-se aflito diante da maldade do ser humano, porém existe uma esperança: "Noé encontrou graça aos olhos de Javé" (6,8). 7. Graça de Deus. À medida que aumenta a violência e a maldade do ser humano, cresce a graça de Deus. A pessoa se distancia, mas Deus continua se aproximando e cuidando amorosamente de sua criação. Essa atitude de Deus que se abre para o relacionamento com o ser humano pode ser observada no relato de Adão e Eva, na história de Caim e Abel, no Dilúvio e no episódio da Torre de Babel. A opção de Javé é pela vida: "Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do homem, porque os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância; nunca mais destruirei todos os viventes, como fiz" (8,21). Deus faz uma aliança com Noé: Tudo o que existe não será mais destruído pelas águas dilúvio; não haverá mais dilúvio para devastar a terra" (9,11). A aliança de Deus com Noé inclui toda a humanidade. 8. Identidade do clã e solidariedade entre os povos. Nos relatos de Gênesis 1-11 encontramos quatro listagens genealógicas. Antes do dilúvio, que começa com Adão e chega até Noé e seus filhos (5,1-32), e depois do dilúvio: a listagem dos descendentes dos filhos de Noé: Sem, Cam e Jafé (10, 1-32) e, em seguida, descendência de Sem até Taré e seus filhos, entre os quais Abraão (1,10-32). A intenção teológica é assegurar que todos os povos são descendentes de Noé. As listas garantem a identidade do povo de Israel e a importância de desenvolver relações solidárias com todos os povos. 9. A dispersão é graça de Deus. "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra" (9,1). Adão e Eva transgrediram a ordem de Deus e Caim assassinou seu irmão. Diante da crescente maldade humana, Deus intervém com o dilúvio. Depois da destruição, novamente volta o projeto de construir 6

um império opressor. Deus intervém como no Êxodo, Deus desce e impede o plano dos dominadores: "Javé confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra e que os dispersou sobre toda a face da terra" (11,9). A dispersão e a diversidade de linguagens é a concretização da bênção de Deus. A Torre de Babel é o último relato da história em seguida inicia a história de Israel. 10. Introdução à história de Israel. A lista dos descendentes, Sem nos faz chegar a Taré e seus filhos, entre os quais está Abraão. Dessa forma, a lista faz a passagem da história das origens para o tempo dos patriarcas. A bênção, renovada com Noé (9,1), terá continuidade com Abrão (12,1-3). Deus lhe fez a promessa de que, por meio dele, todas as nações serão abençoadas. 11. Pecado, castigo e Nova Aliança. Nos relatos de Gênesis 1-11 é possível perceber o esquema teológico de pecado, castigo e nova aliança. Primeiro, o ser humano rompe suas relações com Deus e com os irmãos. A maldade humana atinge toda a natureza: "a terra está cheia de violência por causa dos homens, e eu os farei desaparecer da terra" (6,13). A situação de pecado provoca o castigo: o Dilúvio e a morte "de toda a carne que se move sobre a terra: aves, animais domésticos, feras, tudo o que fervilha sobre a terra e todos os homens" (7,21). Então, Deus faz uma nova aliança com Noé, com a humanidade e com as criaturas (9,9-10). Posteriormente, essa aliança será renovada com o povo de Israel e, a partir de Jesus, chegará a todos os povos. Deus continua renovando sua aliança com cada pessoa. É preciso ler com a mente e o coração. E você poderá fazer a sua descoberta pessoal. Apresentamos o mapa de um caminho possível para ler e compreender a história da criação do universo, de sua destruição e recriação. Responder e enviar para: padreray@padreray.com.br 1- O que é e para que serve um Mito? 2. Israel está localizada em um importante corredor estratégico. Quais as regiões que compõe esse corredor? 3. Ao longo da história Israel sempre foi cobiçado por nações estrangeiras que se sucederam no domino da região uma após a outra. Qual o nome dessas nações e em que época elas estiveram na região? 4. O relato do Gênesis 1 a 11 surge a partir de qual compreensão do universo? 5. Cite algumas diferenças que aparecem no relato do Genesis 1 a 11. 6. A redação final do livro do Gênesis aconteceu por volta de que ano? 7. A importância de Gênesis 1-11 é apresentar qual teologia 7