TRIBUNAL ARBITRAL DE CONSUMO
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- Valdomiro de Sintra Martinho
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Transcrição
1 Processo n.º 1252/2015 Requerente: Micaela Requerida: SA 1. Relatório 1.1. A requerente, alegando que o telemóvel que comprou à requerida (marca S, modelox), como sendo à prova de água, deixou de funcionar, pede que esta seja condenada a substituí-lo por outro igual, sem encargos, ou, subsidiariamente, a reparálo A requerida apresentou contestação, onde, depois de confirmar a venda do telemóvel à requerente e a sua característica de ser à prova de água, remetendo para o relatório da assistência técnica do fabricante do telemóvel, alega que a causa da avaria do aparelho a existência de humidade e oxidação da placa do circuito electrónico se deve a manuseamento indevido por parte da requerente. 2. O objecto do litígio O objecto do litígio (ou o thema decidendum)1 consiste na questão de saber se assiste ou não à requerente o direito à substituição do telemóvel electrodomésticos comprados à requerida, ou, subsidiariamente, o direito à sua resolução direitos que a requerente considera fundados na ocorrência dos pressupostos das correspondentes normas, cuja aplicabilidade defende, do Decreto-Lei n.º 67/2003, de 08/04. 1 Sobre as noções de litígio, material e formal, questões, thema decidendum, questões fundamentais e questões instrumentais, ver João de Castro Mendes, Do Conceito de Prova em Processo Civil, Edições Ática, 1961, pp 131 e ss. 3. As questões de direito a solucionar Considerando o objecto do litígio, o pedido deduzido pela requerente e a defesa apresentada pela requerida, são duas as questões a solucionar: a questão da aplicabilidade do regime jurídico da compra e venda de consumo, estabelecido no Decreto-Lei n.º 67/2003, de 08/04; a questão da
2 verificação dos pressupostos constitutivos do direito à substituição do telemóvel, ou, subsidiariamente, à sua reparação. 4. Fundamentos da sentença 4.1. Os factos Factos admitidos por acordo Com relevo para a decisão da causa, porque, tendo sido alegados pela requerente, foram aceites pela requerida, considero admitidos por acordo os seguintes factos: a) para uso pessoal, a requerente, em 05/03/2015, comprou à requerida um telemóvel marca S, modelo, pelo preço de 153,00 (acrescido de 249 pontos ), que pagou; b) uma das características do telemóvel é a sua resistência à água e ao pó Factos provados Julgo provados os factos seguintes: a) o telemóvel deixou de funcionar, bloqueando no arranque, depois de a requerente, uma vez fechadas as tampas das portas USB e cartão de memória, o ter imerso, a baixa profundidade, numa piscina, para tirar uma fotografia facto que julgo provado com base nas declarações prestadas pela requerente na audiência de julgamento, cuja veracidade baseio no conhecimento directo que resulta da sua participação pessoal nos factos e na verosimilhança e consistência do relato que apresentou; b) a avaria do telemóvel tem como causa próxima a existência de humidade e oxidação da placa do circuito electrónico facto que julgo provado com base no documento de fls 23 (relatório da assistência técnica) e no depoimento testemunhal de Manuel Fernando Silva Ribeiro, funcionário da requerida (coordenador de logística no serviço pós-venda).
3 Factos não provados TRIBUNAL ARBITRAL DE CONSUMO Julgo não provado o facto de a humidade e a oxidação existentes no circuito electrónico serem causados por manuseamento indevido do telemóvel por parte da requerente, designadamente das instruções de uso em caso de contacto com a água. A requerida, nas declarações que prestou, mostrou ter observado, com preocupação de cuidado, as instruções de uso do telemóvel em caso de submersão do aparelho, em particular o cerramento das portas USB e do cartão de memória. É certo que o relatório da assistência técnica (documento de fls. 23) se refere ao facto de o aparelho ter superado o teste de estanquicidade. Sem pôr em causa tal facto, o desconhecimento das circunstâncias concretas da sua execução e, sobretudo, do grau de comparabilidade entre as condições laboratoriais de execução do teste e as condições reais de uso do telemóvel não permitem, com um grau mínimo de segurança probatória, fundar a convicção de que a requerente não seguiu as instruções de uso do telemóvel Resolução das questões de direito A situação concretizada nos factos apurados nos autos integra, sem nenhuma dúvida, o âmbito de aplicação do Decreto-Lei n.º 67/2003, de 08/042. Cabe, desde logo, no seu âmbito objectivo de aplicação, uma vez que se trata de um contrato de compra e venda que tem por objecto um bem de consumo (art. 1.º-A/1). E também, em segundo lugar, no respectivo âmbito subjectivo, dado que se trata de um contrato celebrado entre, por um lado, um consumidor [arts. 1.ºA-/1 e 1.º-B-a)] e, por outro lado, um profissional [arts. 1.ºA-/1 e 1.º-B-c)]. A requerente, porque comprou o telemóvel para uso pessoal, é um consumidor. A requerida, porque o vendeu no exercício da sua actividade empresarial, é um profissional. 2 Pertencem a este diploma as normas que, sem indicação de proveniência, adiante se mencionarem Qualquer um dos específicos remédios que o legislador concede ao comprador no n.º 1 do art. 4.º do Decreto-Lei n.º 67/2003, de 08/04 (direito à substituição, direito à reparação, direito à redução do preço e direito à resolução do contrato) depende da verificação de dois pressupostos essenciais: (i) a existência de uma falta de conformidade entre, por um lado, o bem entregue (inicialmente ou em substituição) pelo vendedor e, por outro lado, o contrato; (ii) anterioridade da falta de conformidade em relação ao momento da entrega (inicial ou de substituição) do bem.
4 A conformidade é uma relação deôntica entre duas entidades, a relação que se estabelece entre algo como é e algo como deve ser 3. A inexistência dessa relação de conformidade, ou seja a existência de uma desconformidade entre a coisa e os parâmetros do contrato (entre a coisa como é e a coisa como deve ser), corresponde à violação do dever principal do vendedor: o dever de entregar ao consumidor bens que sejam conformes com o contrato de compra e venda (art. 2.º/1). 3 Carlos Ferreira de Almeida, Direito do Consumo, Almedina, 2005, p Segundo o art. 5.º/6, Havendo substituição do bem, o bem sucedâneo goza de um prazo de garantia de dois ou de cinco anos a contar da data da sua entrega, conforme se trate, respectivamente, de bem móvel ou imóvel. 4 Segundo o art. 5.º/6, Havendo substituição do bem, o bem sucedâneo goza de um prazo de garantia de dois ou de cinco anos a contar da data da sua entrega, conforme se trate, respectivamente, de bem móvel ou imóvel. O absoluto não funcionamento de um telemóvel (que se manifesta no facto de nem sequer arrancar ) consiste, seguramente numa anomalia que priva o equipamento de uma daquelas qualidades ( ) habituais nos bens do mesmo tipo e que o consumidor pode razoavelmente esperar, atendendo à natureza do bem [art. 2.º/2-d)]. A falta dessa qualidade falta que, no caso, se acha provada permite presumir, nos termos do art. 2.º/2-d), a falta de conformidade dos electrodomésticos ao contrato de compra e venda Como vimos, além da falta de conformidade, os remédios que a lei concede ao comprador-consumidor (entre os quais se conta o direito à resolução do contrato) dependem de um outro pressuposto: a anterioridade da falta de conformidade em relação à entrega (inicial ou de substituição4). É o que resulta da norma do art. 3.º/1: O vendedor responde perante o consumidor por qualquer falta de conformidade que exista no momento em que o bem lhe é entregue. O que implica esta outra proposição normativa: o vendedor não responde pela falta de conformidade que surja depois da entrega. Facilitando a prova da anterioridade, o legislador no n.º2 do mesmo art. 3.º estabelece uma presunção: As faltas de conformidade que se manifestem num prazo de dois ou de cinco anos a contar da data de entrega de coisa móvel corpórea ou de coisa imóvel, respectivamente, presumem-se existentes já nessa data, salvo quando tal for incompatível com a natureza da coisa ou com as características da falta de conformidade. No caso, a falta de conformidade manifestou-se dentro do período temporal da garantia (2 anos). É, pois, de presumir a sua anterioridade em relação ao momento da entrega. Se se provasse o facto de a anomalia se dever a manuseamento indevido do telemóvel por parte da requerente, tal presunção afastar-se-ia. Tal facto foi, porém, julgado não provado (ver, supra, em ).
5 Procede, em suma, a pretensão da requerente. 5. Decisão Nestes termos, com base nos fundamentos expostos, julgo a acção totalmente procedente, condenando a requerida a substituir por outro, igual, o telemóvel que vendeu à requerente. Notifique-se Porto, 25 de Janeiro de 2016 O Juiz-árbitro (Paulo Duarte)
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