v. 17, n. 2, 2015 psicanálise Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre

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1 v. 17, n. 2, 2015 psicanálise Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre Filiada à Associação Psicanalítica Internacional desde 1992, à FEPAL e à Federação Brasileira de Psicanálise

2 A revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre é uma publicação semestral editada regularmente desde Encontra-se indexada na Base de Dados INDEX PSI Periódicos. Tem como finalidade publicar trabalhos selecionados de psicanalistas brasileiros das Sociedades Psicanalíticas e Grupos de Estudos filiados à Associação Psicanalítica Internacional e de autores de notório saber, visando aprofundar, divulgar, ampliar e atualizar conhecimentos na área da psicanálise. A Revista publica também artigos originais ou traduções de trabalhos de analistas estrangeiros, ainda de candidatos em formação do Instituto de Psicanálise. São aceitos artigos de profissionais ligados a Universidades e articulistas de comprovado saber, ligados de alguma forma à psicanálise e às ciências humanas. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Psicanálise Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre. - Vol. 1, n. 1 (jan/dez. 1999). Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 1999 v. ; 25 cm. Revista indexada na base de dados INDEX PSI Periódicos. Periodicidade: semestral a partir de ISSN x 1. Psicanálise I. Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre. CDU CDU Bibliotecária Responsável: Adriana Clô Lopes CRB10/1951 Tiragem: 200 exemplares Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre Praça Dr. Maurício Cardoso, nº 07 / 2º andar CEP Porto Alegre RS Brasil Tel./Fax s: [email protected] [email protected]

3 EDITORA Mara Horta Barbosa CONSELHO EDITORIAL Alicia Beatriz Dorado de Lisondo Ana Rosa C. Trachtenberg André Green (in memoriam) Antonino Ferro Carmen Médici de Steiner Cesar Botella Didier Lauru Elfriede Susana Lustig de Ferrer (in memoriam) Ester Malque Litvin Franco Borgogno François Marty Gildo Katz Gley Silva de Pacheco Costa Helena Ardaiz Surreaux Heloísa Helena Poester Fetter João Baptista Novaes Ferreira França Laura Ward da Rosa Leopold Nosek Leonardo Wender Marcelo Viñar Marco Aurélio Rosa Maria Aparecida Quesado Nicoletti Marta Petricciani Miguel Leivi Nilde Parada Franch Raquel Zak de Goldstein Rómulo Lander Samuel Zysman Sara Botella Sara Zac de Filc Sebastião Abrão Salim Stefano Bolognini Suad Haddad de Andrade COMISSÃO EDITORIAL Carmen Lúcia M. Moussalle Maria Isabel Ribas Pacheco Patrícia R. Menelli Goldfeld Ramon Castro Reis Rosa Beatriz Santoro Squeff ORGANIZADORA DESTA EDIÇÃO Rosa Beatriz Santoro Squeff ASSISTENTE EDITORIAL E NORMATIZAÇÃO Adriana Clô Lopes REVISÃO Débora Jael Rodrigues DIAGRAMAÇÃO Alex Barreto CAPA E PROJETO GRÁFICO Marcelo Spalding

4 SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DE PORTO ALEGRE Filiada à Associação Psicanalítica Internacional DIRETORIA Presidente Helena Ardaiz Surreaux Secretário Lores Pedro Meller Tesoureira Ane Marlise Port Rodrigues Diretora Científica Silvia Brandão Skowronsky Diretora de Comunicação Mara Horta Barbosa Diretora de Relações com a Comunidade Patrícia Rivoire Menelli Goldfeld Diretora Centro de Atendimento Psicanalítico Denise Zimpek Pereira INSTITUTO DE PSICANÁLISE Diretor Fernando Linei Kunzler Secretário Leonardo Adalberto Francischelli Coordenadora da Subcomissão de Formação Augusta Gerchmann Coordenadora da Subcomissão de Seminários Laura Ward da Rosa ASSOCIAÇÃO DE MEMBROS DO INSTITUTO Presidente Magda Regina Barbieri Walz Vice-Presidente Kellen Gurgel Anchieta Secretário Fábio Martins Pereira Tesoureira Tamara Barcellos Jansen Ferreira

5 NÚCLEOS Núcleo de Infância e Adolescência Eluza Maria Nardino Enck Núcleo de Vínculos e Transmissão Geracional Vera Maria Pereira Homrich de Mello Núcleo Psicanalítico de Florianópolis Márcio José Dal-Bó MEMBROS FUNDADORES Alberto Abuchaim Ana Rosa Chait Trachtenberg Antonio Luiz Bento Mostardeiro David Zimmermann Gildo Katz Gley Silva de Pacheco Costa Izolina Fanzeres José Facundo Passos de Oliveira José Luiz Freda Petrucci Júlio Roesch de Campos Leonardo Adalberto Francischelli Lores Pedro Meller Luiz Gonzaga Brancher Marco Aurélio Rosa Newton Maltchik Aronis Renato Trachtenberg Sérgio Dornelles Messias MEMBRO HONORÁRIO Dr. David Zimmermann

6 sumário Trabalhos Temáticos Corpo, Pulsão e Figurabilidade O inconciliável: desligamento e destrutividade 17 André Beetschen Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas 29 David Maldavsky Quando o corpo é quem fala: a importância da contratransferência na análise de pacientes com manifestações somáticas 48 Eliana Nazareth Enfermidade psicossomática e relacionamento conjugal 58 Gley P. Costa Lo que no fue y siempre vuelve. Pasajes a la transferência 65 Laura Verissimo de Posadas Y por qué siguen juntos? El psicosomático y su vínculo de pareja 76 Liliana Alvarez Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização 85 Marina Fibe de Cicco e Eva Maria Migliavacca Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial 104 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro

7 El cuerpo no es una unidad: una vuelta a los casos de Freud 124 Sebastián Plut O trabalho sobre o arcaico: a história oficial do trauma como risco 136 Silvia Leguizamón La escucha sensorial y estetica del analista: desde J. Keats a la clinica in-fantil 154 Victor Guerra Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea 178 Victoria Regina Béjar Outras contribuições Escuta e enquadre analítico 201 Altamirando Andrade Interfaces A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência 213 Renata Lisbôa Seção por que ler Por que ler Pierre Marty? 231 Karina Soldati

8 contents Thematic Works The irreconcilable: unbinding and destructiveness 17 André Beetschen Study of some determining factors in the development of psychosomatic disorders 29 David Maldavsky When body speaks: the importance of counter-transference in somatic patients analysis 48 Eliana Nazareth Psychosomatic disease and couple relationship 58 Gley P. Costa What has never gone away and always comes back. Passages to transference 65 Laura Verissimo de Posadas And why are they still together? Psychosomatic partnership and couples bonding 76 Liliana Alvarez Borderline cases in analysis: about the body, the actions and the symbolization 85 Marina Fibe de Cicco e Eva Maria Migliavacca Morbid obesity, compulsion; when life is sensory 104 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro

9 The body is not a unit: returning to Freud s cases 124 Sebastián Plut The work on archaic. The official story of trauma as a risk 136 Silvia Leguizamón The analyst s sensory and aesthetic listening: from J. Keats to children s treatment 154 Victor Guerra Contributions of the psychoanalytic psychosomatic to the contemporary clinic 178 Victoria Regina Béjar Other Contributions Listening and analytic setting 201 Altamirando Andrade Interfaces Psychoanalysis dialogues with poetry: dimensions of the experience 213 Renata Lisbôa Why read session Why Read Pierre Marty? 231 Karina Soldati

10 10 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015 editorial

11 Palavras da Editora Queridos leitores! Finalizamos este ano com o volume 17, número 2 / 2015 de Psicanálise: Revista da SBPdePA. Corpo, Pulsão e Figurabilidade é o eixo temático que marca esta edição, apresentada a seguir nas palavras da colega Rosa Squeff, organizadora deste número. Este foi também o tema da Jornada anual / 2015 da Brasileira, encerrando as atividades científicas do ano e desta Diretoria, presidida pela colega Helena Surreaux. O tema abre um leque de abordagens, e chama atenção para a não dualidade entre Corpo e Mente. Mente esta, que para habitar o Corpo, deve ser construída. Corpo este que é fonte e alicerce da pulsão, matéria - prima para a Figurabilidade, e veículo de expressão do figurado e não figurado. O Corpo é a casa que nos abrigará até o final da vida, e dele dependemos para viver. Da Mente dependemos para sentir e existir. Somos produto da integração de ambos, que nos confere identidade e que vai determinar a quantidade e qualidade da existência de cada um de nós. Dentro desta temática, estão as Patologias Psicossomáticas e as chamadas Patologias do Vazio ou Patologias da Clínica Contemporânea, que marcam o século atual, diferente da neurose, psicose e perversão que marcaram os tempos de Freud. É responsabilidade do Psicanalista chamar atenção para este adoecimento contemporâneo, que expressa um Corpo sem Mente, e necessita abordagem diferente da Psicanálise clássica. Psicanálise, medicina e outras áreas da saúde necessitam estar afinados neste saber. Estas enfermidades, são abordadas nesta edição por autores que trazem os aportes da escola psicossomática de Paris, centrando-se sobretudo na figura de Pierre Marty, e autores oriundos da escola Argentina, que se desenvolve em torno de David Maldavisky e seus colegas. Com esta edição, me despeço como Editora de Psicanálise, após dois anos de trabalho. Iniciaram comigo na equipe editorial da Revista os colegas Maria Isabel Pacheco e Ariel Roitman. Ariel não pode prosseguir, quando então vieram Patri- Psicanálise v. 17 nº 2,

12 cia Godfield e Ramon Castro. Nos unimos à Carmem Mussalem e Rosa Squeff, colegas já experientes na editoria, e compomos assim uma equipe diversificada, que tem funcionado de modo muito afinado. Conosco também estreou Adriana Clô, atual bibliotecária e assistente editorial. Neste período, trabalhamos para que Psicanálise tivesse uma produção profissional, sem perder sua característica artesanal. Buscamos revisar e adequar as Normas de Publicação, com vistas a qualificar mais a Revista, e buscar novos indexadores científicos (pelo menos mais dois) que irão lhe conferir maior crédito e visibilidade na comunidade científica (de nada adianta uma boa publicação ser for pouco lida). Conseguimos também apresentar a Revista em versão online, o que aumenta seu alcance em divulgação. E trocamos a parceria editorial e gráfica, mantendo a qualidade com considerável redução de custo na sua produção. Finalizo agradecendo à esta Diretoria pela oportunidade da rica experiência como Editora de Psicanálise...muito me honrou! Foi uma vivência de crescimento pessoal, troca de conhecimentos, novos contatos e novos amigos. Sou grata a minha querida equipe editorial, me orgulha ter trabalhado com vocês e termos contribuído para o crescimento de nossa Revista. Da mesma forma deixo meu reconhecimento, com muito carinho, à equipe de nossa secretaria, cujo apoio técnico foi permanente e inestimável. E como vocês queridos leitores... que dão sentido ao nosso trabalho...sigo como leitora e apreciadora de Psicanálise. Boa leitura! Grande abraço. Mara Horta Barbosa Editora de Psicanálise: Revista da SBPdePA 12 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

13 Palavras da Organizadora É com muita honra e satisfação que há mais de dez anos faço parte da Comissão Editorial da Psicanálise Revista da SBPdePA. Os ganhos obtidos como conhecimento científico e enriquecimento cultural e psíquico, por participar de um grupo coeso, eficiente e comprometido, são imensamente maiores que o tempo e a dedicação dispensados nessa tarefa. Neste número, como organizadora, a convite da Editora Mara Barbosa, pretendo assinalar os artigos do tema da nossa Revista, que está relacionado com o da Jornada da Brasileira de 2015: Pulsão, Corpo e Figurabilidade. Recebemos muitas contribuições de psicanalistas brasileiros e estrangeiros, confirmando a ideia de que a conexão entre as três propostas escolhidas pela Comissão Científica realmente tem despertado, atualmente, muito interesse no âmbito psicanalítico. Não enxergamos o homem cindido em psíquico e físico, mas sim como um ser unificado, com manifestações somáticas e emocionais. Nesta edição, contamos com doze trabalhos que constituem o eixo temático, dispostos em ordem alfabética de autor. Um incluído em Outras contribuições, outro na seção Interfaces e por último, e não menos importante, o que consta em Por que ler. Iniciamos com: Altamirando de Andrade, psicanalista do Rio de Janeiro, desenvolve, no seu artigo Escuta e enquadre analítico, a ideia de que todo analista deveria introjetar as recomendações de Freud sem entendê-las como regras fixas, e assim, construir um enquadre de seu trabalho de acordo com suas características pessoais, respeitando seu próprio estilo. Um dos convidados da nossa Jornada (2015), André Beetschen, psicanalista francês, analisa no seu texto O inconciliável: desligamento e destrutividade as ideias de Laplanche sobre a teoria das pulsões, dedicando-se a aprofundar seus pensamentos em relação, especialmente, à pulsão sexual de morte. Para integrar o eixo temático da Revista, recebemos um artigo inédito de David Maldawsky, doutor e professor de psicologia da Universidade de Salvador, o que significou para todos nós uma grande honra. No trabalho, intitulado Estudo Psicanálise v. 17 nº 2,

14 de alguns fatores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicossomáticas, o autor faz uma síntese de suas recentes ideias sobre os desejos e as defesas em pacientes psicossomáticos, avaliando suas expressões na linguagem e suas relações com os traços de caráter. Eliana Riberti Nazareth, psicanalista da SBPSP, nos brinda com Quando o corpo é quem fala: a importância da contratransferência na análise de pacientes com manifestações somáticas. Através de vinhetas esco lhidas da sua experiência analítica, demonstra como os conflitos pré-verbais ou infra-verbais não simbolizados, dos pacientes com manifestações somáticas, só podem ser compreendidos através da contratransferência, na sessão de análise. Enfermidade psicossomática e relacionamento conjugal é a produção científica de Gley Costa, psicanalista da SBPdePA. O autor nos traz constatações de que, nos casais onde um membro apresenta afecções psicossomáticas, predomina um funcionamento narcisista e que no lugar de intersubjetividade, observa-se uma transubjetividade. Gley baseia-se no entendimento freudiano das neuroses atuais e traumáticas, cuja manifestação clínica é a angústia automática. Karina Soldati, membro da Sociedade Psicanalítica de Paris e de Buenos Aires, enriqueceu significativamente nossa Revista, na secão Por que ler, com suas contribuições acerca da teoria de Pierre Marty e dos conceitos da Escola de Psicossomática de Paris. Sua escrita complementou o tema desta edição, salientando que, segundo Marty, a enfermidade não é vista somente como uma calamidade, mas como uma oportunidade que tem o organismo para reorganizar-se. Laura Veríssimo de Posadas, psicanalista do Uruguai, apresenta-nos o trabalho Lo que no fue y siempre vulve. Passajes a la transferência, onde propõe uma reflexão acerca do que aparece no corpo do analista e do analisando, nas sessões de análise. Completa, ainda, que gestos, ações, modos de expressão ou inflexão de voz podem estar presentes e representar uma linguagem, não sendo necessariamente um ataque ao setting. Y por qué siguen juntos? é um conteúdo imperdível. Liliana Alvarez, Máster em Patologias del Desvalimiento, da Argentina, faz um link entre as concepções freudianas e as teorias de autores contemporâneos em relação a manifestações psicossomáticas, no âmbito dos vínculos conjugais. O texto Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial de Marina French de Oliveira (psicanalista) e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro (psicóloga clínica), propõe uma análise minuciosa da obesidade relacionada às defesas utilizadas por esses paciente, determinando o tipo de relação que existe entre eles e os alimentos, a equipe médica envolvida e a possibilidade de cirurgia bariátrica. 14 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

15 Marina Fibe de Cicco e Eva Maria Migliavacca (psicanalistas de SP) trazem o artigo Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização. Examinam o papel das ações na construção de imagens mentais, demonstrando que as trocas que se dão no registro da ação e do corpo podem propiciar as bases do processo de simbolização. No artigo A psicanálise em diálogo com a poesia, na seção Interfaces, Renata Lisbôa, psicóloga e mestre em Psicologia Social, nos seduz com a beleza de seu texto e com a visita ao Museu de Freud, em Londres, permitindo que nos transportássemos para o lugar e vislumbrássemos, através de suas palavras, cada obra, cada objeto e cada recanto percorrido. Teremos uma leitura audaciosa com o artigo de Sebastián Plut (psicanalista): El cuerpo no es una unidade: una vuelta a los casos de Freud. Escreve sobre as histéricas de Freud, salientando as correntes psíquicas que são observadas nos pacientes neuróticos, narcisistas e com manifestações psicossomáticas. A contribuição de Silvia Elena Leguizamón, psicanalista da Argentina, com O trabalho sobre o arcaico. A história oficial do trauma como risco, explora as ideias de Freud sobre o afeto, as representações e as pulsões, propondo uma noção de um aparelho psíquico que retoma a organização econômica da primeira tópica, como base de cura nas patologias limite, sendo um déficit pulsional. Articula com a concepção de Marucco sobre o arcaico, como algo soterrado, que retorna privado de palavras. Victor Guerra, psicólogo e psicanalista uruguaio, nos contempla com um belo trabalho inédito: La escucha sensorial y estetica del analista: desde J. Keats a la clínica infantil, escrito especialmente para a Jornada (2015), onde aborda os assuntos da escuta analítica, a capacidade negativa e a sensorialidade. É uma explanação de grande sensibilidade e poesia que busca relacionar a capacidade de atenção flutuante do analista com a do poeta. Esta leitura irá fascinar o leitor intensamente. Victoria Regina Béjar, psicanalista da SBPSP, apresenta uma atual explanação, com Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea, sobre a visão homem/corpo/mente. Enfatiza, em suas palavras, a função materna como fundamental para a organização psíquica do bebê, acrescentando que as patologias ditas atuais ou mesmo as afecções psicossomáticas sempre existiram, mas não eram analisáveis. Hoje, essa possibilidade é aceita, porém, salienta, que exige algumas modificações na técnica. A todos, uma excelente leitura. Psicanálise v. 17 nº 2,

16 trabalhos temáticos corpo, pulsão e figurabilidade 16 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

17 O inconciliável: desligamento e destrutividade André Beetschen 1 Resumo: O presente trabalho visa trazer uma reflexão sobre as ideias de Jean Laplanche acerca das teorias das pulsões: seus fundamentos e sua gênese. No texto, o autor aborda o posicionamento de Laplanche principalmente, no contexto da pulsão sexual de morte, que tem o sentido de uma força de desligamento, demoníaca, indomada e hostil ao ego. Palavras-chave: Conflito psíquico. Desligamento. Pulsão. Desde 1970, com Vida e morte em psicanálise 2, Jean Laplanche expõe o objeto de sua pesquisa e de seu método: Tentativa de liberar, por meio de uma abordagem histórico-estrutural da obra de Freud, uma problemática do objeto da psicanálise. Certamente, a dimensão estrutural vai perder depois sua importância primária, mas o método de interpretação e de leitura, ligado intimamente ao método analítico, se imporá até os últimos textos onde ele dirá que interpretar Freud e encontrar nele as linhas de forças inconscientes, é uma abordagem comandada por seu próprio objeto: o objeto inconsciente, a sexualidade pulsional, as forças em jogo no conflito psíquico 3. Manter aberto o enigma do sexual seu crescimento e sua gênese infantil no humano, isso é o que nós devemos ao posicionamento resoluto de Laplanche dentre todos os leitores e seguidores de Freud. 1 Psicanalista. Membro da Associação Psicanalítica da França. 2 LAPLANCHE, J. Vie et mort en psychanalyse. Paris: Quadrige/ PUF, LAPLANCHE, J. Les forces en jeu dans le conflit psychique: entre séduction et inspiration, l homme. Paris: Quadrige/PUF, Psicanálise v. 17 nº 2,

18 O inconciliável: desligamento e destrutividade Assim, o retorno às invariantes fundamentais da descoberta freudiana anima seu percurso: fundamentos e teoria da pulsão, forças que atravessam a psique com a descoberta do inconsciente e da repressão, princípios que dirigem o aparelho psíquico. A questão colocada pela irrupção na teoria freudiana, em 1920, da pulsão de morte, com o que ela implica de modificação do dualismo pulsional anterior, será um objeto de pensamento constante para Laplanche: desde Vida e morte em psicanálise com seu último capítulo, Por que a pulsão de morte?, depois dos capítulos precedentes terem explorado os domínios do ego e do narcisismo e o do masoquismo, cruzamento essencial para a análise da pulsão de morte, que Laplanche reabordará em vários textos posteriores. Nesse primeiro momento de sua obra, Laplanche esclarece o paradoxo econômico da pulsão de morte: ele especifica o que, no princípio de prazer cujo fracasso inaugura, lembremos, Além do princípio de prazer diz respeito à constância e à inércia-descarga. No prolongamento do Projeto para uma psicologia científica, ele mostra que o que se afirma novamente com a pulsão de morte é, paralelamente, à prioridade conferida ao autotempo, a prioridade do zero sobre a constância. Dimensão essencial de uma sexualidade hostil à ligação, princípio, escreveu ele, de des-ligamento ou de desencadeamento (Entbindung), que só encontra ligação pela intervenção do ego. Este momento originário, que será sempre evocado nos textos posteriores, dará lugar a vários desenvolvimentos: assim, pode-se dizer que o pensamento de Laplanche sobre a pulsão de morte se inscreve verdadeiramente nessa espiral desenrolada da qual ele deu o modelo a propósito da transferência. Por um lado, com o retorno para os fundamentos metapsicológicos que sustentam a pulsionalidade infantil um debate vivo será engajado com Freud e alguns psicanalistas que adotaram a pulsão de morte, Melanie Klein será aqui uma interlocutora privilegiada; por outro lado, com as orientações dadas pelas novas proposições teóricas feitas por Laplanche para a gênese inconsciente da pulsão sexual - aquelas sobre a sedução originária e a situação antropológica fundamental, aquelas sobre a teoria tradutora da repressão: hipóteses referidas à primazia do outro. Ao longo de sua obra teórica, percebemos que o tom e a crítica de Laplanche tornam-se mais vigorosos. Este vigor é perceptível nos próprios títulos dados aos seus textos: se Além do princípio de prazer é reconhecido, em Vida e morte em psicanálise, como o texto mais fascinante e mais desconcertante de toda a obra freudiana, é invocado em 1997, em A suposta pulsão de morte: uma pulsão sexual 4 (e 4 LAPLANCHE, J. La soi-disant pulsion de mort: une pulsion sexuelle: entre séduction et inspiration: l homme. Paris: Quadrige/ PUF, Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

19 André Beetschen após o artigo de 1984, A pulsão de morte na teoria da pulsão sexual 5 ), como um texto altamente especulativo e em alguns aspectos um texto em ruínas [...]. Mesma evolução com a leitura bastante crítica do Problema econômico do masoquismo, sem falar do levantamento dos descaminhos dos quais Freud, aos olhos de Laplanche, se tornou responsável, notadamente seu descaminho biologisante da sexualidade 6. Descaminhos que deverão ser redirecionados. Do que se tratará, na posição firmemente sustentada por Laplanche? Antes de tudo, situar corretamente na metapsicologia freudiana o surgimento da pulsão de morte, mantendo-a resolutamente no interior de uma pulsão sexual que é preciso de alguma forma salvar, reafirmando o inconciliável do sexual ao ego, tomando também distâncias de tudo o que é chamado mercadorias de contrabando, filosóficas, psicoterápicas ou românticas, onde a pulsão de morte perde o seu significado original, auto, de um ataque de morte dirigido inicialmente contra si. Será necessário assim passar pelo significado de morte, essencialmente para o ego, e na dimensão da economia psíquica. Mas a questão da destrutividade, ou da hostilidade profunda inscrita tragicamente no humano, será então resolvida? E a exploração de seu fundamento será evitada? Pulsão sexual de morte, hostil ao ego, inconciliável com o ego: é, portanto, a forte proposição de Laplanche que instaura o dualismo no interior da pulsão sexual, mantendo a oposição pulsões sexuais/funções de autoconservação. Ele sempre viu o nascimento e as características essenciais desta pulsão sexual na sexualidade infantil, a origem na repressão, a força de crescimento como o que deve ser trabalhado pelo aparelho psíquico. É necessário, então, retornar rapidamente a algumas das definições que Laplanche deu da pulsão: A pulsão não é, portanto, nem um ser mítico, nem uma força biológica, nem um conceito limite. Ela é o impacto sobre o indivíduo e sobre o ego da estimulação constante exercida, do interior, pelas representações-coisas reprimidas, que podemos designar como objetos-fontes da pulsão 7. E ainda: Seu objeto-fonte (e poderíamos mesmo dizer: seu objeto-fonte-meta) é o que resta da mensagem enigmática do outro veiculada na autoconservação. Pulsão Trieb: pulsão sexual, e não instinto, o qual pertence às funções de autoconservação. A distinção será retomada e afirmada constantemente até as discussões sobre o apego e a ternura. 5 LAPLANCHE, J. La pulsion de mort dans le théorie de la pulsion sexuelle: la révolution copernicienne inachevée. Paris: Aubier, LAPLANCHE, J. Le fourvoiement biologisant de la sexualité chez Freud. Problématiques VII. Paris: PUF, Quadrige, LAPLANCHE, J. La pulsion et son objet-source: la révolution copernicienne inachevée. Paris: Aubier, p Psicanálise v. 17 nº 2,

20 O inconciliável: desligamento e destrutividade Contestando o novo dualismo freudiano, Eros-pulsões de vida / pulsões de morte e de destruição, - dualismo ao qual Freud nunca pôde conferir o estatuto de schibboleth - Laplanche recusa a ideia de uma emergência da pulsão de morte como uma força animada pelo retorno ao estado anterior, e que encontraria um apoio no biológico. Ele critica as especulações metabiológicas de Freud, mas sem referir o que, nelas, pertence à fantasia da atividade especulativa e ao uso das metáforas. Crítica justa, entretanto, e não é o recurso atual à apoptose, qualificada de forma bastante estranha de suicídio celular, que permite salvar o jogo! Além do princípio de prazer, esse texto do cruzamento de fronteiras, não ajuda de fato em nada a pensar o que é a vida psíquica, nem as condições infantis que geram a pulsão de morte. Se não, talvez por metáfora, como por exemplo essa frase de Freud quando da elaboração da para - excitação: o pequeno pedaço de substância viva suspenso no mundo exterior que sofre então a ameaça de excitações muito fortes. Retomada em Além do princípio de prazer da questão traumática, que Laplanche ignorará. Mas Freud não confunde as pistas quando escreve que a hipótese das duas pulsões em luta nas origens permite resolver o enigma da vida? A posição defendida claramente por Laplanche oferece um ponto de referência que, se podemos certamente discutir, decodifica a leitura de um texto tão complexo quanto a Nova Lição de introdução consagrada à Angústia e vida pulsional 8, onde Freud retorna ao seu último dualismo pulsional. Porque na gênese metapsicológica da pulsão de morte, tal como aparece em Freud em 1920, Laplanche vê ao mesmo tempo uma ocultação e um reequilíbrio. Para ele uma recuperação ligada estreitamente à grande descoberta que, na economia pulsional, precede Além do princípio de prazer: a do investimento libidinal e narcísico do ego. Um investimento unificante e totalizante que coloca em perigo, ao risco do monismo um risco tornado evidente pelas teorias de Jung a própria natureza da pulsão sexual desligada, perversa polimorfa desde sua pertença à sexualidade infantil e, portanto, o dualismo pulsões do ego/pulsões sexuais que estrutura a vida psíquica. Observa-se que este tempo narcísico, determinante para pensar a ocorrência da pulsão de morte em Freud, é salientado, com diferentes inflexões, por Laplanche e por Green: cada um deles irá instaurar a oposição vida/morte em uma renovação teórica (pulsões sexuais de vida/pulsões sexuais de morte; narcisismo de vida/narcisismo de morte). À força de ligação e totalizante de Eros, que pode absorver o indomado do sexual no amor pelo ego ou pelo objeto, é necessário, para Laplanche, continuar 8 FREUD, S. (1933). Angoisse et vie pulsionnelle. Nouvelle suite des leçons d introduction à la psychanalyse, OCF XIX. 20 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

21 André Beetschen opondo uma força de desligamento demoníaca, indomada, fundamentalmente hostil ao ego: a parte inconciliável da pulsão sexual inconsciente, cuja fonte reside na sexualidade infantil. Uma força de desligamento conduzindo à extinção da excitação por uma descarga econômica que utiliza o caminho mais curto para sua realização, contrariamente às complicações e desvios que Eros organiza para manter a vida psíquica. A pulsão sexual de morte trai assim, para Laplanche, o impulso irreprimível e inconsciente do id: processo primário e energia não-ligada. E sua gênese só pode ser buscada na repressão: Uma pulsão de morte sem repressão, sem que ela encontre sua origem no processo de repressão, carece do essencial do que nos parece ser a gênese do pulsional no homem, um pulsional demoníaco que ela pretendia, no entanto, reafirmar 9. Mas se a repressão é concebida na dimensão tradutora dada por Laplanche, como esta concepção da gênese do pulsional permitiria conservar um papel determinante na dinâmica do prazer/desprazer? Além do princípio de prazer começa e continua com o questionamento sobre o retorno inexorável das experiências de desprazer onde a compulsão da repetição está também associada ao pavor traumático face ao excesso incontrolável de uma excitação desqualificada. O incontrolável seria outra denominação para o inconciliável? O que poderia, então, especificar a pulsão sexual de morte em uma concepção generalizada da pulsão sexual e de sua gênese? Laplanche especifica em sua entrevista com Patrick Froté: Para mim, a pulsão sexual de morte é o próprio coração da pulsão. Nesse sentido, poderíamos mesmo dizer que a pulsão sexual é pulsão de morte em sua essência 10. Ou ainda, e mais radicalmente: A pulsão sexual trabalha no fundo para a morte 11. Aqui, não é tanto o retorno ao estado anterior que é solicitado, mas a manutenção do excesso, da satisfação obtida até a morte, da dimensão perversa de um alívio pulsional que, se ele afirma a absoluta contingência do objeto, assinala também a ameaça que ele representa e a necessidade de distanciá-lo ou de negar a sua existência. A neurose, negativo da perversão: mais que a morte, a perversão não seria para Laplanche, apoiando-se constantemente sobre o momento fundador que é a descoberta da sexualidade infantil perversa-polimorfa em Três ensaios sobre a teoria sexual, a própria figura do inconciliável? Ainda para Patrick Froté, que o questiona bastante justamente se o dualismo interno à pulsão sexual não corre o risco de se apresentar como o 9 LAPLANCHE, J. Le fourvoiement biologisant de la sexualité chez Freud. Problématiques VII, op.cit., p FROTÉ, P. Cent après, Réponse de Jean Laplanche :à: pulsion de mort encore - connaissance de l inconscient, Paris: Gallimard, p Ibid., p.198 Psicanálise v. 17 nº 2,

22 O inconciliável: desligamento e destrutividade retorno a um tipo de monismo, Laplanche responde com um não, pois, aos seus olhos, o que funda e específica um dualismo mantido é a oposição, no que deve tratar o aparelho psíquico frente ao pulsional, dos processos de ligação e desligamento. O desligamento testemunha para ele, de fato, a atividade das camadas mais profundas do id, lá onde a repressão destruiu toda e qualquer ligação, substituindo as representações do objeto total pelo parcial, reduzindo o objeto-fonte a indício. A palavra mestra é desligamento, afirmada nos últimos textos, notadamente em As forças em jogo no conflito psíquico. Aqui poderia iniciar uma discussão sobre as posições de Laplanche: a insistência colocada sobre os processos de desligamento, associados de início à repressão, esclareceria realmente o enigma e a ação da destrutividade na vida psíquica? Então, uma discussão sobre a lacuna entre desligamento e destruição, na qual seria necessário convocar, mais do que é possível aqui, André Green, Nathalie Zaltzman ou Michel de M Uzan, entre outros. Discussão difícil na medida em que a construção metapsicológica de Laplanche é firmemente construída, e que o fundamento clínico sobre o qual ela poderia se estabelecer é difícil de perceber. De fato, existe aqui um tipo de paradoxo: se Laplanche não evoca, de fato, quase nunca situações clínicas, ele não cessa de fazer referência à tarefa prática como experiência e realização necessária do método analítico. Para ele, a experiência da coisa teórica assim como a da coisa inconsciente e do conflito psíquico apoiam-se constantemente sobre o método: assim, suas proposições sobre a transferência (transferência plena/transferência oca) têm por finalidade definir uma prática do tratamento onde o desligado do sexual infantil, o enigmático, devem ser acolhidos e liberados dos encobrimentos de uma atividade egoica provedora de significados e de mitos. Não impede que a leitura que Laplanche faz de Além do princípio de prazer considera pouco as dificuldades clínicas com as quais a prática de Freud se deparou: a mudança da natureza de uma compulsão à repetição não mais submetida somente ao agieren transferencial mas ao retorno demoníaco do desprazer, o pavor do traumático e de seus efeitos (as neuroses de guerra), os impasses da perda melancólica, o sentimento de culpa inconsciente com o enfrentamento, no tratamento, das resistências da reação terapêutica negativa e das análises intermináveis [...]. Sem mencionar este outro campo que, com Reflexões para os tempos de guerra e morte 12, abre a possibilidade de pensar a destrutividade no âmago do humano cultural e de massa. Para nós hoje, Além do princípio de prazer não cessa de reconduzir a uma compulsão de repetição deletéria: às situações de impasse encontradas no manejo da 12 FREUD, S. (1915). Actuelles sur la guerre et la mort, OCF XIII, p Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

23 André Beetschen transferência, uma vez que a destruição visa a própria prática analítica - com os pacientes que colocam regularmente sua vida em perigo por tentativas de suicídio, condutas aditivas ou momentos de angústia extrema. Pacientes nos quais a infernal repetição da destrutividade se manifesta ora por uma excitação feroz, ora por estados de vazio e de desinvestimento nos quais, com uma espécie de rejeição e de ódio a qualquer excitação, o desespero revoga todo recurso a um ego que sustenta todo investimento de um objeto de socorro. Pacientes que nos obrigam à tentativa de reconstrução de experiências infantis precoces. Certamente, privilegiar no trabalho analítico a referência à destrutividade arrisca sempre reforçar a repressão do sexual pulsional que deveria então se render diante da gravidade do perigo vital [...]. Particularmente, tal é o risco ligado à insistência colocada sobre os sofrimentos narcísicos, um risco prevenido pelo pensamento de Laplanche! Mas a atividade de ligação, seja ela associada, como ele diz, à forma continente ou à simbolização, é sempre atividade totalizante a serviço do ego? E, sobretudo, como ela opera, quando Freud a apresenta como tarefa preliminar onde há falhas da representação pulsional ou da preparação do ego pela angústia? A complicação e o desvio, estes ganhos da vida psíquica quando o erótico encontra o suporte da plasticidade pulsional, os caminhos da sublimação também, ambos sustentam processos de ligação que se afastam de uma simples alienação narcísica. Permanecendo entretanto na apreensão dos processos de desligamento e de autodestruição e de seus efeitos, é necessário se perguntar como podem ser mantidos juntos, de um lado a realização alucinatória da representação-coisa inconsciente em um conflito vivido pelo ego nem que fosse pela produção da angústia -, e, por outro lado, um impulso à extinção pulsional um retorno ao vazio, ao zero de excitação, a um estado anterior para o qual não é necessário solicitar o inorgânico que visa dissipar na repetição do ato a inscrição psíquica de uma representação pulsional. Por essa destrutividade, a morte na ou pela sexualidade diria tudo sobre a morte na vida psíquica ou sobre a morte contra a vida? Dito de outra forma: a destrutividade humana seria, em sua essência, sádica? Tal é, me parece, a posição de Laplanche, o que explica sem dúvida a razão pela qual ele discute tão intensamente com Melanie Klein. Mas o apoio colocado sobre a sexualidade infantil perversa-polimorfa do Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, esclarece de forma definitiva a possível irrupção de uma destrutividade que se mantém fora do crime sexual? Ainda em sua entrevista com Patrick Froté, e criticando a pseudoliberdade sexual afirmada por um sadomasoquismo militante e complacente, Laplanche evoca de forma surpreendente a verdadeira perversão como figura do inconciliável: Estes famosos grupos Psicanálise v. 17 nº 2,

24 O inconciliável: desligamento e destrutividade sadomasoquistas, eu gostaria de vê-los aplicar o que deveria ser seu breviário: Os cento e vinte dias de Sodoma. O que desfila na rua é um sadomasoquismo de pantomima. O verdadeiro sadomasoquismo é a exterminação à maneira de Pol Pot 13. Encontramos o tema em A dita pulsão de morte: uma pulsão sexual quando, examinando a retomada por Freud do adágio Homo homini lupus, Laplanche retoma a questão da crueldade no homem submetendo-a ao sexual inconsciente e à oposição sexualidade não ligada (erótica) / sexualidade ligada (narcísica e/ ou objetal): Oposição puramente humana, escreve ele, ou seja, completamente informada e orientada pela vida fantasmática ; porque implica em marcar de uma vez por todas a absoluta heterogeneidade da agressão sádica do homem em relação à toda animalidade 14. Por tudo isso, Laplanche, que se ocupará sempre de precisar no final de seus textos críticos sobre a pulsão de morte freudiana o estatuto que ele concede às paixões de ódio e às formas humanas da agressividade, não considerará a reflexão que Freud segue em Mal-estar na cultura, notadamente quando ele evoca a tendência ao mal e que ele escreve: Eu não compreendo que nós pudemos omitir de ver a ubiquidade da agressão e da destruição não eróticas e negligenciar de lhe dar o lugar que lhe cabe na interpretação da vida 15. Do ponto de vista do humano, demasiado humano do sadismo sexual, o cultural parece ser antes de mais nada, para Laplanche, o campo que oferece ao ego, através do mito-simbólico, os códigos de simbolização e de apropriação que se propõem como tentativas de ligação do sexual desligado. Mas retornemos à tarefa prática, lendo particularmente Análise terminável e interminável, onde na experiência de enfrentamento às resistências, Freud vê uma pulsão de morte em toda parte presente no conflito psíquico. O que ele diz também de outra maneira: Nosso esforço terapêutico, escreve Freud, oscila constantemente durante o tratamento entre um pequeno fragmento de análise do id e um pequeno fragmento da análise do ego 16. E o que Laplanche especifica: Ligação e desligamento devem ser concebidos como dois princípios tipos de processos, modos de funcionamento em ação em todos os níveis tópicos FROTÉ, P. Cent ans après, op.cit., p LAPLANCHE, J. La soi-disant pulsion de mort : une pulsion sexuelle. Entre séduction et inspiration : l homme, op.cit., p FREUD, S. (1930). Le malaise dans la culture. OCF XVIII, p FREUD, S. L analyse avec fin et l analyse sans fin. Résultats, idées, problèmes, II, PUF 1985, p LAPLANCHE, J. Les forces en jeu dans le conflit psychique. Entre séduction et inspiration : l homme, op.cit., p Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

25 André Beetschen Essa dupla solicitação tópica é necessário destacar o quanto para Laplanche a questão tópica é insistente: tópica do ego com a importância reconhecida dos trabalhos de Federn, esquemas do aparelho psíquico convida a levar novamente a atenção para Eros e sua complicação. Para o ego-estrutura tanto quanto para o ego-instância. Para o que mistura as forças opostas e que Freud designou de fusão-desfusão das pulsões de vida e de morte o que não abrange exatamente o que podemos denominar ligação/desligamento. A Eros, então, certamente, não pode ser atribuído somente a função de ligação, de tipo narcísico egoico. Eros impõe desvios, complica tanto quanto reúne. Eros impõe sobretudo um trabalho da perda dos objetos que a pulsão sexual investe, ele desliga por sua vez quando submete o prazer e a satisfação certamente às custas da angústia à plasticidade da libido e à contingência dos objetos. Ao contrário, Eros narcísico certamente pode capturar e imobilizar a vida psíquica a ponto de destruir toda vitalidade dela. Em se tratando do ego, Além do princípio de prazer proporá diversas representações das efrações que ele sofre: efeitos dos traumatismos até a aniquilação, defesa contra as excitações excessivas com a para-excitação e sua camada superficial tornada inorgânica. Se as pulsões de morte ou de destruição objetivam o ego, resta a explorar os modos de resistência, até nas enigmáticas pulsões do ego, que este opõe à irrupção pulsional: essa foi todo o sentido do diálogo ocorrido entre Jean Laplanche e Didier Anzieu, durante as Entrevistas da APF, consagradas à A Pulsão para quê? Como, de fato, um fragmento da análise do ego pode ter lugar na perspectiva de Laplanche sobre a pulsão sexual de morte e o desligamento que lhe é associado? Sua concepção de um Eros narcísico como instância totalizante e totalitária autorizaria um trabalho de decomposição da instância? Uma tal decomposição do ego é exatamente o que ocupa Freud no período de , entre Para introduzir o narcisismo e Além do princípio de prazer. O investimento libidinal do ego não permite explorar suas falhas, como os estados de dependência, descritos em O ego e o id? O ego, de fato, é uma instância clivável o ideal do ego e o superego são originados dele que comporta partes inconscientes: assim ele pode ser colapsado, com a melancolia, por uma perda cuja natureza ele desconhece. O próprio amor, quando é de transferência, o perde na reivindicação sexual. O ego se divide ainda nas neuroses de guerra, e vê seus limites se borrarem na angústia do Estranho 18 onde se revela, talvez pela primeira vez no texto freudiano, a manifestação da pulsão de morte. 18 FREUD, S. (1919). L inquiétant. OCF XV, p Psicanálise v. 17 nº 2,

26 O inconciliável: desligamento e destrutividade Os efeitos de desligamento da pulsão sexual de morte dizem respeito, portanto, tanto, ao inconciliável do id e aos processos primários quanto às capacidades ausentes ou falhas do ego. Como, então, pensar a partir daí esta dupla determinação psíquica do ponto de vista da situação antropológica fundamental que Laplanche propõe? Dito de outra forma, como aproximar de sua concepção do primado do outro e da origem inconsciente da pulsão sexual, a gênese infantil dessa pulsão sexual de morte? Como conceber, nas mensagens comprometidas e por traduzir que a criança recebe, passivamente excitada, a implantação de uma destrutividade conscientemente agida ou deformada pela repressão, uma implantação onde as mensagens comprometidas carregam também as falhas do ego do outro? Que a pulsão sexual de morte irrompa mais em certas configurações clínicas que em outras, Laplanche não a invoca se não lembrando que o desligamento está sob a dependência de uma repressão trabalhando sempre de forma altamente individual onde a fixação de significantes-dessignificados, de objetos-fontes parciais, de objetos-fontes indicadores da pulsão sexual se produz nas camadas mais profundas do Id, no núcleo do Id. Existia aí uma obscuridade metapsicológica, que situava o objeto-fonte da pulsão sexual de morte na tópica inconsciente do mais profundamente reprimido, sem que pudéssemos compreender as razões desta solicitação do mais profundo do inconsciente. Um dos últimos textos de Laplanche aprofunda o questionamento, retomando a natureza da mensagem comprometida e a tópica de sua implantação. Três significados da palavra inconsciente 19 propõe de fato no seguimento de um trabalho realizado em comum com Christophe Dejours a complexificação da implantação-tradução das mensagens na tópica psíquica. O que tinha sido invocado antes como implantação sob a pele, ou como o espinho na carne, torna-se em outro lugar à flor da consciência: sem dúvida essas imagens, tanto tópicas quanto metafóricas e que interessam à estrutura de envelope do ego, não podem sozinhas assentar um fundamento metapsicológico. Em todo caso, é notável que a seu propósito Laplanche considerou uma diferença, até aqui não considerada por ele na tópica psíquica, entre clivagem e repressão. Pois se associam agora indicações clínicas que descrevem um inconsciente encravado que seria testemunho na psicose de um fracasso radical da tradução, ao passo que um fracasso parcial da tradução daria conta da estrutura da neurose. Pode então haver aí um 19 LAPLANCHE, J. Trois acceptions du mot «inconscient»dans le cadre de la théorie de la séduction généralisée», Sexual. La sexualité élargie au sens freudien, Quadrige, PUF, 2007, p Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

27 André Beetschen radicalmente intraduzível, radicalmente ou em latência, na mensagem do outro: assim se abriria um questionamento sobre a parte transmitida de não-vida, de melancolia ou de morte. E esse não metabolizável e sua implantação, que não diz respeito mais somente à repressão, mas à clivagem e, sem dúvida, ao traumático, permitem talvez articular novamente o desligamento e a destrutividade. É notável ver Laplanche evocar aqui novamente, a propósito destas mensagens não traduzidas ou intraduzíveis, a natureza enigmática das mensagens super-egoicas; isso depois do que ele havia proposto em Novos fundamentos para a psicanálise e em Problemáticas consagradas à Angústia moral 20. Eu defendi com frequência, escreveu ele, que o imperativo categórico é por natureza intraduzível em outra coisa que não ele-mesmo, impossível de metabolizar: tu deves porque tu deves 21. Ele havia escrito um pouco antes: [...] que essas mensagens sejam com frequência imutáveis em um indivíduo, categóricas, ou seja, não suscetíveis de serem metabolizadas, isso nos leva a suspeitar uma origem nas mensagens parentais que não sofreram a repressão originária 22. Estranho é aliás a solicitação regular que Laplanche faz, como talvez em um reencontro, de sua filiação filosófica por isso a evocação regular de Kant quando é questão da gênese e da composição pulsional do superego, enquanto que toma uma distância real do Freud, que em Mal-estar na cultura faz da instância super-egoica um lugar de expressão e de ligação da pulsão de morte. Também regularmente Laplanche confia àqueles que virão depois dele o cuidado de continuar a reflexão sobre o superego [...]. Podemos sustentar que com o não metabolizável da mensagem super-egoica, o desligamento e o inconciliável da pulsão sexual de morte determinam uma das raízes da gênese do superego, fixando aí sua crueldade, a que Freud examina em O ego e o id? Notemos aqui a estranha aproximação de duas fórmulas: a pura cultura de alteridade da qual Laplanche fala em relação à pulsão sexual de morte não deixa de evocar esta pura cultura de pulsão de morte, que, para Freud, reina no superego melancólico [...]. Em todo caso, o superego, por um lado, efeito de um corte, de uma clivagem operados no ego pela pulsão de morte, reúne absolutamente os efeitos de ligação e de desligamento, de fusão e de desfusão pulsional: humanização da culpa/ crueldade do ataque destrutivo do julgamento. Todo o desenvolvimento que lhe dará por Freud aprofundará este conflito psíquico entre forças de ligação e de 20 LAPLANCHE, J. L angoisse. Problématiques I, Paris: PUF, LAPLANCHE, J. Trois acceptions du mot «inconscient», Sexual. La sexualité élargie au sens freudien, op.cit., p LAPLANCHE, J. Les forces en jeu dans le conflit psychique. Entre séduction et inspiration: l homme, op.cit., p.143. Psicanálise v. 17 nº 2,

28 O inconciliável: desligamento e destrutividade desligamento, abrindo assim a instância a suas origens identificatórias e à parte que ela ocupa no trabalho de cultura. Forças que animam esse conflito desde Vida e morte em psicanálise, Jean Laplanche ofereceu então, com sua proposição de um dualismo pulsão sexual de vida/pulsão sexual de morte uma visão forte que, retornando à descoberta freudiana da sexualidade infantil, enfatizou a exigência metapsicológica. Esta visão continua nos colocando a trabalhar, mas também a debater com ele. Ou seja, se nossa dívida é grande. The irreconcilable: unbinding and destructiveness Abstract: This paper presents a reflection on Jean Laplanche s ideas about the theories of drives: foundation and genesis. The author covers Laplanche s position particularly in the context of sexual death drive, which has the sense of an unbinding strength which is demoniacal, untamed and hostile to the self. Keywords: Psychic conflict. Unbinding. Drive. André Beetschen 5 place Croix-Pâquet, Lyon France [email protected] 28 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

29 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas David Maldavsky 1 Resumen: El autor sintetiza algunas propuestas recientes sobre los deseos y las defensas en pacientes psicosomáticos, sus expresiones en el lenguaje y sus relaciones con los rasgos de carácter. Luego presta atención al contagio de determinados estados afectivo-orgánicos y categoriza cuatro de ellos: de somnolencia, de furia, de angustia, de excitación. A continuación el autor establece nexos entre estos contagios afectivo-orgánicos y las manifestaciones contratransferenciales. Con posterioridad presenta ejemplos de situaciones clínicas en que se despliegan contagios afectivo-orgánicos y manifestaciones contratransferenciales en pacientes psicosomáticos. El trabajo concluye con breves notas sobre algunas otras formas de la contratransferencia inducida, sobre la clínica y la investigación y sobre unos comentarios finales. Palabras-clave: Contagio afectivo y orgánico. Contratransferencia. Defensas. Estudios recientes En un trabajo previo (MALDAVSKY, 2008) me referí a las defensas que parecen tener eficacia en la producción de las perturbaciones psicosomáticas. Destaqué 1 Doutor em Letras e Filosofia. Professor titular da Faculdade de Psicologia da Universidade de Salvador. Diretor do Doutorado em Psicologia da Universidade de Ciências Empresariais (UCES). Diretor do Instituto de Estudos Aplicados em Psicologia e Ciências Sociais (UCES). Diretor de Ensino em Problemas e Patologia do Desvalimento (UCES). Psicanálise v. 17 nº 2,

30 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas que estas defensas son propias de un yo inicial, al que Freud denominó yo realidad primitiva, que ha sido poco estudiado. Este yo tiene defensas funcionales y otras que son patológicas. Estas defensas pretenden procesar una exigencia pulsional poco considerada, en que la libido inviste los órganos (la he denominado libido intrasomática, a falta de un nombre ya existente), como Freud (1926) lo propuso, siendo esta investidura anterior a la constitución de las zonas erógenas periféricas, abiertas al intercambio con el mundo. Entre las defensas funcionales centrales figuran la fuga de los estímulos externos, y la proyección orgánica, que arroja afuera los estímulos nocivos existentes en el cuerpo y una desestimación del afecto funcional. Otra defensa importante es el contagio afectivo de la vitalidad ambiental. Las defensas patológicas surgen sobre todo ante el fracaso de las funcionales. Estas defensas patológicas pueden diferenciarse en centrales y complementarias, del mismo modo que Freud sostenía que la represión es la defensa central en las neurosis de transferencia, y que a ella se agregan defensas complementarias cuando dicho mecanismo fracasa, como ser la anulación y el aislamiento en las neurosis obsesivas, y la identificación y la condensación en las histerias de conversión. Pues bien, en las afecciones psicosomáticas la defensa central es la desestimación del afecto. Freud (1919) sostuvo que la desestimación es una defensa que se opone a lo nuevo y que el matiz afectivo es la primera cualidad en constituirse en la vida psíquica, lo primero nuevo (FREUD, 1895). La desestimación del afecto se combina con una fuga patológica, hipertrófica. Estas dos defensas patológicas centrales a su vez pueden fracasar y dejar paso a defensas patológicas secundarias, que son estrategias para procesar el retorno de lo desestimado, estrategias estas que corresponden a modos diferentes de las manifestaciones en que sobrevienen alteraciones orgánicas, como las adicciones y las perturbaciones psicosomáticas. En las adicciones, el fracaso de la desestimación del afecto y la fuga patológica es procesado mediante la incorporación, mientras en las manifestaciones psicosomáticas el fracaso de los mecanismos patológicos centrales es procesado mediante la introyección orgánica. Mientras que la incorporación involucra una decisión, un acto que puede ser inhibido, la introyección orgánica cae por fuera de una acción motriz voluntaria, y por lo tanto la inermidad yoica es algo mayor. Más allá de estas diferencias, es posible encontrar situaciones mixtas, como cuando el tabaquismo favorece un cáncer de pulmón, o como cuando el comer demás contribuye al surgimiento de un pico de hipertensión. Estas defensas secundarias a las centrales constituyen caminos por los cuales lo desestimado retorna, del mismo modo como cuando fracasa la represión hay un retorno de lo reprimido. A su vez, Alvarez (2013), en su tesis de doctorado, estudió una muestra de respuestas ante la lámina en blanco del TRO (Test de Relaciones Objetales) 30 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

31 David Maldavsky producidos por 12 sujetos en tratamiento médico, 6 asmáticos y otros tantos psoriásicos, en quienes había fracasado el enfoque medicamentoso en forma más o menos radical. El objetivo de esta investigación era estudiar los deseos y las defensas en la muestra, para lo cual la autora aplicó instrumentos del algoritmo David Liberman (ADL), que he desarrollado solo (MALDAVSKY, 2001, 2004, 2013) o con colaboradores (MALDAVSKY et al., 2000, 2005, 2007). Entre estos instrumentos, el ADL-R permite estudiar relatos, el ADL-AH, los actos de habla y el ADL-P, las palabras. Al recoger la muestra, la autora comprobó que solo algunos de los sujetos estudiados habían respondido a la consigna (consistente en la formulación de un relato). Se configuraron entonces dos grupos, según hubieran respondido o no a la consigna. En 4 de los sujetos que no se atuvieron a la consigna predominó una respuesta que podríamos denominar impacto al blanco y en otros 2 prevaleció la banalización. Al estudiar los informes médicos, la autora comprobó que en estos 6 sujetos el fracaso de los clínicos en cuanto a la estabilización de los síntomas era mayor. Las respuestas de estos 6 sujetos eran las más escasas en cuanto a cantidad de palabras empleadas, y también era más reducido el conjunto de deseos detectables en su discurso. La autora agregó luego nuevas complejizaciones en su análisis al incluir los estudios de los actos de habla y de palabras. El estudio de los actos de habla contribuyó a aclarar un problema que se presentaba con una séptima integrante de la muestra, que había formulado relatos y en quien también había fracasado el tratamiento medicamentoso. En efecto, en los 7 casos en que había fracasado la medicación solo uno manifestó un deseo hostil, vengativo, expresión de una pulsión sádico-anal primaria, que tuvo alguna relevancia, aunque en todos predominó la libido intrasomática, combinada con la desestimación del afecto en estado mixto. En cambio, en el otro grupo de sujetos predominó un deseo sádico-anal secundario, que aspira al control de la realidad mediante la motricidad y el pensamiento, combinado con defensas funcionales. La autora propuso entonces que para diferenciar entre los dos grupos de enfermos resulta decisivo el predominio del deseo sádico-anal secundario en los actos de habla. A su vez, el análisis de las palabras permitió sugerir que en aquellos sujetos en que prevalecía la banalización y aquellos en que predominaba el impacto al blanco se manifestó una combinación entre los deseos de carácter diferencial. La autora destacó la relación entre estas manifestaciones y un trastorno de la percepción/conciencia, que interfiere en la captación de matices, de cualidades tanto afectivas como sensoriales, con el predominio de un deseo correspondiente a la libido intrasomática combinado con defensas como la desestimación del afecto con un estado exitoso o exitoso-fracasado. Psicanálise v. 17 nº 2,

32 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas Este estudio constituye una investigación empírica con la aplicación de instrumentos del ADL. A su vez, Truscello de Manson (2014) describió varios casos clínicos en los que prevalecen rasgos patológicos de carácter de tipo neurótico, y observó que en ellos aparece un componente tóxico, algunos de los cuales corresponden a las afecciones psicosomáticas, que muestran los efectos de la desestimación del afecto fracasada. En lo que a nuestro enfoque concierne, el mérito de esta investigación consistió en establecer que las neurosis caracterológicas suelen acompañarse de patologías tóxicas, entre ellas las psicosomáticas. Además, en trabajos recientes (MALDAVSKY, 2015a, 2015b) he añadido algunos complementos al enfoque de casos como los recién mencionados. Tales complementos consisten en destacar que las defensas intrapsíquicas se enlazan con algunos nexos vinculares, sobre todo el de la dependencia de un personaje en el cual se combinan dos rasgos: uno de ellos consiste en la especulación y el otro consiste en un componente cognitivo: es falso, absurdo o necio, banal. El rasgo especulador es propio de un sujeto que tiene como ideal la ganancia de dinero o de un goce orgánico a costa del otro, y se combina con la desestimación del afecto. En cuanto al componente cognitivo antes mencionado toma en cuenta la relación entre palabras y hechos, y se combina más bien con la desmentida o la desestimación de la realidad y la instancia paterna. Ello supone complejizar el enfoque de las defensas, ya que el componente especulador corresponde a la desestimación del afecto, la fuga patológica, etc., pero no el componente cognitivo, que, como acabamos de exponerlo, corresponde más bien a una desmentida (para la falsedad o la necedad) o a una desestimación de la realidad y la instancia paterna (para el rasgo absurdo). De modo tal que las defensas en juego combinan, por un lado, la desmentida o la desestimación de la realidad y la instancia paterna y, por otro lado, la desestimación del afecto y la fuga patológica. Entre ellas, la más específica en el desarrollo de la manifestación psicosomática es la desestimación del afecto combinada con la fuga patológica. Contagio orgánico-afectivo Se habrá advertido que, entre las defensas funcionales centrales, mencioné un contagio afectivo de la vitalidad ambiental, pero luego no me referí a las situaciones en que esta defensa se vuelve patológica. El contagio afectivo, funcional o patológico, constituye en realidad una combinación entre dos defensas, una introyección orgánica y una introyección psíquica, identificatoria. La primera de ellas se expresa en la manifestación somática y la segunda en el estado afectivo. En el contagio afectivo y orgánico patológico puede darse, por ejemplo, un 32 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

33 David Maldavsky vínculo entre una persona deteriorada por los efectos de una diabetes o de una afección respiratoria severa, y otra que puede estar pendiente del estado somato-afectivo de la primera. Suele ocurrir entonces que quien sufre el contagio se encuentre ante la tarea de elaborar los pensamientos y los afectos del primero, que este no logra dar cabida en sus propios procesos psíquicos. En quien se halla contagiado se desarrollan también procesos orgánico-afectivos que le resultan extraños, determinados por el intercambio con el otro. Recordemos que Freud (1895) distinguía entre una atención reflectoria, pasiva, generada sobre todo por el estímulo, y otra activa, psíquica, derivada de las propias investiduras pulsionales. Los contenidos derivados de uno y otro tipo de atención son diferentes. En trabajos previos he aludido a la atención reflectoria, pero más bien a aquella derivada de estímulos sensoriales, y no tanto de la vida afectiva. Cuando predomina la atención reflectoria, el sujeto es pasivo ante el mundo. Estos contenidos están en el límite entre los afectos y los procesos orgánicos, como los contenidos sensoriales desmesurados (ruidos en el límite de la sensibilidad neuronal, sabores excesivamente intensos, contactos táctiles que generan dolor orgánico), y tanto unos como otros no armonizan con la economía pulsional, en la cual crean un desorden, del mismo modo que ocurre en las situaciones traumáticas, con el consiguiente desarrollo de una memoria de más difícil acceso a los procesos psíquicos. En estos casos los afectos no derivan del procesamiento de los propios procesos pulsionales sino de una fuente exógena, la cual por otra parte también parece carecer de recursos para procesar las desmesuras de las propias exigencias pulsionales y exógenas. En el sujeto que sufre el contagio, surgen afectos y respuestas orgánicas inéditas hasta ese momento, del mismo modo que ocurre en las vivencias de satisfacción o de dolor descritas por Freud, mientras que en otras ocasiones más bien estas situaciones se potencian con disposiciones pre-existentes, de mayor o menor peso en la vida psíquica. En consecuencia, puede darse luego una mayor o menor disposición al contagio, que pasa a tener peso en alguna de las corrientes psíquicas que constituyen el conjunto de la totalidad compleja de un sujeto. Estos procesos ponen en evidencia la eficacia de ciertas desmesuras en cuanto a las capacidades del procesamiento de alguna vivencia, que se van transmitiendo a lo largo de varias generaciones, y que pueden incidir para dejar al sujeto más carente de recursos psíquicos y por lo tanto más expuestos al desarrollo o el incremento de una perturbación psicosomática. Podemos diferenciar al menos algunos tipos de contagio afectivo que implican al mismo tiempo un fuerte compromiso orgánico: contagio de erotización, contagio de cólera, contagio de apatía, contagio de angustia. En todos ellos, el contagio tiene un carácter tóxico. Psicanálise v. 17 nº 2,

34 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas El primero suele despertar en el destinatario una excitación extraña a sí mismo, de carácter hipertrófico, que tiende a poner el énfasis en algunos factores que operan como multiplicadores de la sensualidad, a veces a través de los celos, el poder institucional, los músculos del torso, las pantorrillas, etc., que se apodera de las mucosas erógenas del sujeto y que se suele tramitar mediante la masturbación y dejar un resto no elaborable. El segundo genera en el destinatario una furia ingobernable, ciega, que se apodera de la motilidad voluntaria a través de algunos estímulos incitantes, como las provocaciones, las injurias, y que se suele tramitar mediante algún estallido que compromete a la musculatura, sobre todo de las extremidades y de la fonación, y deja un resto intramitable de insatisfacción. El tercero promueve en el destinatario un estado de somnolencia y desgano que se apodera de la capacidad de concentración y de la motilidad de los párpados (que tienden a cerrarse, junto con los ataques de bostezos), a través de algunos estímulos incitantes, como las luces mortecinas, ciertos timbres de voz y modulaciones tonales graves, y que suele tramitar mediante alguna entrega al dormir, que deja un resto de abulia insomne. El cuarto induce en el destinatario un estado de sobresalto que se apodera de la motricidad de las vísceras (como la frecuencia cardíaca, las dificultades respiratorias, la cerrazón de algún sector del sistema digestivo), a través de estímulos incitantes como los ojos muy abiertos y con lágrimas, el temblor de las manos, algún tic, y que se suele tramitar mediante un llanto como descarga que deja un resto de ansiedad. Por lo tanto, el enfoque de estos problemas en el contexto de un tratamiento individual implica tomar en cuenta los procesos intrapsíquicos y también los vinculares, entendidos estos últimos en términos de intercambios correspondientes a ese yo que Freud denomina yo real primitivo, en el cual se da, según el creador del psicoanálisis, también la comunicación telepática. Se habrá observado que en las contribuciones que he realizado recientemente hay una secuencia. En la primera me centré sobre todo en los procesos intrapsíquicos, en particular las defensas. En la segunda, puse más el énfasis en la exterioridad cognitiva que el paciente supone tener y su eficacia en la generación de las manifestaciones psicosomáticas. En la tercera presté atención sobre todo a la exterioridad económico-afectiva que el paciente supone tener y su eficacia en la generación de alteraciones corporales. En realidad, no se trata de perspectivas contradictorias, sino articuladas. El modo de acceso a los procesos propios de este yo requiere tomar en cuenta no solo el mundo representacional sino también los nexos entre las manifesta- 34 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

35 David Maldavsky ciones orgánico-afectivas y los procesos de pensamiento. Recordemos que para Freud la identificación constituye uno de estos procesos de pensamiento, y tales procesos endopsíquicos se vuelven accesibles al yo actual gracias a otros tantos procesos de pensamiento, al establecer correlaciones entre determinadas disposiciones al contagio afectivo como el que acabo de describir, los episodios que pudieron promoverlo en la vida infantil de un sujeto y las situaciones recientes que despiertan o refuerzan su vigencia actual. Contagio afectivo-orgánico y contratransferencia: desvitalizada, hostil, angustiada, erótica Uno de los terrenos en que puede desplegarse el conjunto de escenas recién mencionadas que involucran los vínculos es el de las sesiones mismas, y en particular el contagio afectivo, que incluye también al terapeuta y se desarrolla como manifestaciones contratransferenciales. Diferentes autores muy sensibles, como Racker (1953), Heimann (1950) y Green (2002), han puesto en evidencia el valor de estas manifestaciones contratransferenciales. Algunos de ellos tienden a considerar sobre todo su carácter de perturbación derivada de alguna falla en el terapeuta, mientras que otros aluden a su carácter objetivo, es decir, como expresión de la subjetividad del paciente. Respecto del contagio afectivo antes mencionado, es posible que ambas posturas respecto a la contratransferencia puedan articularse al tomar en cuenta la intersubjetividad, incluyendo una potenciación entre la fragilidad del paciente y la del terapeuta. El terapeuta cuenta con diferentes recursos para procesar el problema que se le presenta, de modo de recuperar una postura apta para su trabajo clínico. Puede apelar a su propia terapia, al auto-análisis, a la supervisión, al intercambio con colegas. Precisamente, esta es la situación que se presenta en los casos que voy a exponer a continuación, cada uno de los cuales muestra el predominio de determinado tipo de contagio y de contratransferencia, en este orden: somnolencia, hostilidad, angustia, erotismo. Todos los casos son de un mismo terapeuta residente en una ciudad de provincia, que tiene conmigo un largo período de intercambio de tres décadas (iniciado cuando él estaba por cumplir 40 años), a veces vía electrónica, a veces de manera telefónica, a veces de modo personal. Durante este tiempo se ha cimentado una creciente confianza y cada uno de nosotros incrementó su sensibilidad para captar matices complejos de la vida psíquica. Luciano consultó a los 55 años por crisis de angustia ligadas con sus preocupaciones corporales, sobre todo la hipertensión. Era dueño de unas tierras que Psicanálise v. 17 nº 2,

36 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas explotaba en una ciudad vecina a la de su terapeuta y pasaba por períodos de prosperidad y otros de hundimiento. En estos últimos momentos la esposa lo hostigaba con frases insensatas y coléricas, y lo presionaba para que resolviera la situación con soluciones descabelladas. Llegó a acusar al paciente de mentiroso, como si este le hubiera prometido soluciones milagrosas que luego no cumplió, sin que el paciente atinara a imaginar cuál había sido la promesa que él había incumplido. Progresivamente pudo establecerse una relación entre los períodos de hundimiento económico y los estados de astenia del paciente, como los que había padecido de pequeño, luego de sus crisis de espasmo de sollozo. Estas crisis aparecían regularmente cuando su abuelo trataba de hacerlo conciliar el sueño y lo hamacaba en su cuna en estado de desconexión, de manera mecánica. En el tratamiento el paciente terminó infiriendo que en esos momentos el abuelo tenía la mente poseída por los familiares muertos en las guerras fratricidas en Italia. A medida que el tratamiento avanzaba, el paciente pasó a relatar más frecuentemente escenas en que él se adormilaba al volver del trabajo o en los fines de semana y la esposa montaba en cólera y lo dejaba sobresaltado. Simultáneamente, en las sesiones el clima se fue volviendo más monótono, centrado en anécdotas ligadas a los impuestos, los atrasos de los clientes en sus pagos, las deudas contraídas con un banco que tenía que cubrir, el pago a los peones, o los resultados de los estudios de sangre, de corazón, etc., que tanto su esposa como él mismo se hacían periódicamente. El terapeuta pasó a quedar envuelto en ese clima y empezó a tener una extraña vivencia de hallarse distendido y carente de atención, y le costaba tener algún tipo de iniciativa clínica, como si hubiera optado por la postura del dolce far niente, en que tenía que ahogar los bostezos que lo iban invadiendo a medida que transcurría la hora. El terapeuta comentó que a veces se sentía tocado por la preocupación cardíaca del paciente, que le recordaba la prematura muerte de su propio padre, y los espasmos de sollozo que el paciente relataba le evocaba sus propios espasmos en sus crisis de asma. En la esposa del paciente el terapeuta veía algo de la violencia de su propia madre con su padre, por lo cual él supuso durante años que ella había matado a su cónyuge, padre del terapeuta, como consecuencia de los disgustos que le generaba. Delmira tenía 58 años cuando consultó por sus continuas reyertas con dos hijas de las cuales estaba muy pendiente y que le amargaban la existencia con sus reclamos, acusaciones y reproches. Era una paciente que había conquistado una sólida posición económica como eficiente administradora de estancias, en su mayoría de la vecindad, que contaba con varias personas bajo su dirección, y que en la sesión tenía una voz dura, crispada, carente de matices, con la cual solía 36 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

37 David Maldavsky arremeter cuando el terapeuta intentaba formular algún comentario. La paciente decía haber tratado con cariño a sus hijas pese a que había luchado para abrirse camino en el trabajo, con el objetivo de solventar los gastos de la casa, ya que el padre de estas era un hombre despreocupado que viajaba por diferentes países, a menudo alcoholizado. La paciente había tenido diferentes parejas, y tendía a mantener una actitud desafiante respecto de la sexualidad, aceptaba a veces los requerimientos que le hacían los dueños de las estancias y manifestaba una gran libertad en sus prácticas eróticas, todas ellas sostenidas por una postura erguida y al mismo tiempo seductora. Sin embargo, estas posiciones activas se quebraban cuando se centraba en el problema con sus hijas, se largaba a llorar y reconocía no saber qué hacer para salir de esas escenas en que sufría ante el rechazo de estas. Con el correr de las sesiones pudo precisar qué tipo de situación la dejaba más desguarnecida. Era una situación en la cual alguna de sus hijas le decía con una certeza irreductible que ella había sido mala madre, egoísta y fría, que las había descuidado y abandonado, mientras que ella tenía de sí una imagen inversa, de madre cariñosa con sus hijas. El terapeuta le sugirió primero que la paciente atenuara su actitud de dependencia de las hijas, pese a que la paciente temía que ellas se hicieran daño a sí mismas si ella se alejaba. La paciente puso en marcha esta sugerencia del terapeuta, con lo cual se alivió algo su malestar, pero el terapeuta no podía casi tener alguna iniciativa en las sesiones, la paciente lo interrumpía con su voz tensa y carente de matices. Pese a ello la paciente pudo relatar que le parecía que tenía influencia la historia de una abuela que fue madre soltera y que luchó toda su vida por criar a su familia, y que le había impuesto a ella una enseñanza dura y despótica. En las sesiones llegaron a la conclusión de que la paciente veía en sus hijas a esta abuela despótica que veía en ella a otra persona y quería forjarla en una postura estereotipada y guerrera. Por fin la paciente pasó a contar que el inicio del tratamiento también fue consecuencia de la preocupación que le había despertado la aparición de unas irritaciones en la piel cercana a sus genitales y que progresivamente se extendió por su pelvis hasta llegar a la cintura, y que los médicos no pudieron ni diagnosticar ni explicar. En el curso del tratamiento esta irritación de la piel se continuó extendiendo. Cuando el terapeuta intentó insinuarle que ella parecía necesitada de un contacto tierno y de ubicarse en una postura menos activa, la paciente volvió a interferir su discurso. Con esta paciente el terapeuta tenía a menudo momentos de irritación que parecía producto del contagio, y en una oportunidad llegó a superponer su voz con la de la paciente cuando esta lo interfirió en un comentario, y se detuvo cuando, ante la elevación del volumen de la voz que había realizado la paciente, él estuvo a punto de hacer otro tanto. El terapeuta comentó en la supervisión Psicanálise v. 17 nº 2,

38 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas que él encontraba similitudes entre su malestar en las sesiones y el que había tenido en la niñez y la adolescencia con una hermana que competía ciegamente con él, empujada a su vez por su madre y una tía materna que tenía mucha ascendencia sobre la madre. Eustaquio consultó a los 50 años, luego de una terapia de 25 años con un terapeuta con otra orientación, debido a sus crisis de angustia que tenía neutralizadas con dificultad y su hipertensión, controlada con algo más de éxito, y que padecía desde hacía también 25 años. Cuando el terapeuta anterior se mudó al exterior, el paciente pasó a tratarse con el nuevo. El paciente vivía en una ciudad cercana con su familia, y a poco de empezar envió a su hijo, de 24 años, a terapia, con un profesional recomendado por el nuevo terapeuta, y que también supervisaba conmigo, aunque desde hacía menos tiempo. Durante un tiempo largo Eustaquio se centró en temas ligados con conflictos de su empresa con sus proveedores, con el gobierno, con los sindicatos, etc., en los que mostraba un espíritu conciliador, poco beligerante. También hablaba de su familia, en especial sus hijos, que lo preocupaban. En particular le preocupaba su hijo varón, quien no le resultaba fácil de descifrar. Era hermético, rehuía el diálogo con él, o se refería a sus aspiraciones de ser un multimillonario. El hijo en cambio tenía un diálogo muy fluido con su esposa, que al paciente le resultaba igualmente difícil de descifrar. Tanto en la esposa como en este hijo el paciente invertía fuertes sumas, sea para que su esposa tuviera la ropa, el auto, el perro o la vivienda que le pedía, sea para que el hijo tuviera un departamento en una zona muy cara de su ciudad, un auto y una moto, así como ropas y zapatos de lujo. A las pocas semanas de empezado el tratamiento, Eustaquio compró un departamento muy ostentoso y puso a la venta su propia casa, que quería dejar porque habían ocurrido asaltos a mano armada en el barrio. La esposa, a su vez, parecía expuesta diariamente a las intrusiones de la propia madre, que la invadía con una postura delirante en la cual combinaba argumentos absurdos, reproches y acusaciones contra el marido, padre de la esposa de Eustaquio. El suegro de Eustaquio se ausentaba de la casa durante todo el día y solo volvía a la noche. La suegra del paciente sostenía que el marido tenía relaciones con mujeres que eran empleadas de un negocio del cual su suegro era propietario. El paciente tenía una actitud amistosa hacia el terapeuta, hablaba fluidamente de los problemas con su esposa y su hijo, pero al mismo tiempo rehuía hablar de las relaciones que estos problemas tenían con sus crisis de angustia. Parecía tener una fuerte dependencia del estado de su esposa y de su hijo, quienes hablaban entre sí y se cerraban en el diálogo con él. Estos podían tener una relación amable con él, pero él no podía avanzar más allá de la superficie. En otros momentos 38 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

39 David Maldavsky la esposa tenía estallidos con él, sobre todo cuando lo acusaba por sus relaciones extra-matrimoniales con empleadas de su empresa, y el paciente tenía cuidado de no despertar sospechas que incrementaran la furia de la mujer. Riendo, el paciente comentó que el terapeuta anterior siempre le recomendaba no discutir con la esposa, callar y esperar a que ella atenuara la tormenta de su furia. Esta situación se mantuvo en equilibrio durante los dos primeros años de tratamiento. Dicho equilibrio basado en la evitación tanto fuera del tratamiento como con el terapeuta se vio favorecido por los periódicos viajes que hacía el paciente, algunos de los cuales le servían como excusa para pasar unos días en algún paraje aislado, en una hostería de lujo, tiempo que dedicaba a la pesca deportiva. El paciente parecía crearle al terapeuta las mismas incertidumbres que este tenía respecto de su esposa y su hijo. En cuanto al hijo, mantenía con el propio terapeuta el mismo hermetismo y la misma tendencia evitativa que su padre con el propio. Al cabo de un tiempo el paciente aludió a sus intereses por la filosofía política, ya que le interesaba cómo funciona la mente de los poderosos. También se refirió a una novia con la cual había tenido un fracaso sentimental, lo cual había desatado una crisis que fue el motivo de su consulta, y que era hija de un empresario extranjero que él consideraba muy poderoso. Con el curso del tratamiento describió una estrategia para reconquistarla, consistente en enviarle costosos regalos anónimos como para trastornarla con la intriga acerca del nombre de quien se los hacía. Todo ello implicaba además gastos considerables con la tarjeta de crédito que el padre le había extendido. El propósito del joven era revelarse como el autor de esos regalos como un modo de reconquistar a la novia que lo había dejado. Con ello al mismo tiempo se mostraba como si estuviera a una altura similar a la de ella desde el punto de vista económico. En cuanto al padre, en una ocasión en que no concurrió a la sesión sin que hubiera un viaje programado, y el terapeuta le dejó un mensaje en el contestador telefónico. Al tiempo, escuchó a su vez un mensaje de la esposa del paciente, que le decía que él había tenido súbitamente un ataque de hipertensión. Agregó en su mensaje que él se había descuidado en los últimos días, había comido alimentos que estaban contraindicados, y en consecuencia se desmayó en la calle y fue internado para tenerlo en observación. El terapeuta tuvo entonces un cambio, del habitual estado de incertidumbre a uno de fuerte angustia. A partir de ese momento el terapeuta se orientó por su propia angustia y su vivencia de incertidumbre. Se enteró entonces de que el paciente pasaba por un período de dificultades económicas relacionadas con que tenía que pagar unas cuotas del lujoso piso que había comprado y con que corría el riesgo de Psicanálise v. 17 nº 2,

40 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas frustrarse la venta de su propia casa, y por lo tanto el dinero con el que suponía que contaría no estaría disponible. La dificultad para la venta derivaba de que había descubierto que parte del terreno de su propia casa había sido inscripto de manera fraudulenta como propia por los dueños de una empresa aledaña, para lo cual falsificaron documentos públicos. Contó que estos dueños lo habían saludado siempre con mucha amabilidad, a la cual él respondía del mismo modo, y que ahora debería hacer un juicio que podía llevar bastante tiempo. El paciente contó que antes del ataque hipertensivo tuvo una fuerte crisis de angustia rabiosa e impotente por el fraude, y sobre todo por haber sido ingenuo y haber creído en la amabilidad de sus vecinos de la empresa. También se sentía expuesto a no tener forma de equilibrar el estado de ánimo de su esposa y de su hijo, que solo parecían aquietarse a costa de que él hiciera grandes gastos. Fue entonces que comió alimentos salados durante varios días, lo cual era una expresión de su tendencia a auto-destruirse. En cuanto al contagio de angustia en el terapeuta, parecía derivado del carácter sorpresivo de la situación, del aporte de su propia ingenuidad ante el paciente así como de lo sorpresivo del ataque hipertensivo del paciente y de su angustia. El terapeuta también equiparaba a su propio padre, con su accidente cardíaco y su inermidad frente a la violencia de su esposa y el influjo que tenía una mujer poderosa en ella. En particular, el terapeuta comentó que en determinado momento su padre tuvo una descompensación y se acostó en el piso, y el terapeuta estuvo permanentemente a su lado durante un largo período de tiempo, lo oía gemir y respirar dificultosamente, hasta que llegó un médico para atenderlo. Como el paciente, su padre había intentado aplacar el permanente enojo de la esposa con regalos ostentosos y cambios a una vivienda cada vez más cara. El paciente, como el padre del paciente, intentaba de este modo mantener el equilibrio afectivo-orgánico de su esposa, y por momentos fracasaba en ello y él mismo quedaba anegado por su angustia, y algo similar le ocurría al hijo, en relación con la madre y con la novia que lo había dejado, una joven que había tenido intentos de suicidio que él se sentía llamado a conjurar. En el fondo padre e hijo parecían haber realizado una elección de objeto que combinaba encantos femeninos y desamparo, ya que uno y otro decían que habían tenido varias oportunidades de elegir mujeres agradables y atractivas, y solo habían elegido a aquella que al mismo tiempo mostraba una situación de desvalimiento ante sus propias exigencias internas y ante la realidad, por lo cual sufría desbordes de angustia. Sabrina conoció a su terapeuta cuando este brindaba unas conferencias sobre problemas de pareja y familia en una institución, momento en el cual tuvo oportunidad de establecer una relación cordial, en la cual inclusive compartieron una 40 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

41 David Maldavsky mesa de café, junto con otros docentes y alumnos. Luego, poco antes de cumplir los 60 años, la paciente le solicitó orientación para encarar sus conflictos de pareja. En ese tiempo la paciente estaba en tratamiento con otro terapeuta, que vivía en su misma ciudad, a una hora de distancia de la del terapeuta orientador en los problemas de pareja. En estos conflictos de pareja resaltaba su aburrimiento y el sentirse atrapada y sofocada por la cotidianeidad laboral (era abogada especializada en familias, en particular en litigios por divisiones de campos y bienes entre herederos, discusiones por deudas entre parientes basadas en el crédito de la palabra empeñada, etc.) y conyugal, situación que matizaba con sus aventuras extramatrimoniales esporádicas con un amante en la misma ciudad en que residía el terapeuta orientador. En las entrevistas de orientación la paciente mostraba una disposición alegre y ocurrente. También se refirió a la relación con un padre que estaba muy enfermo. Al cumplirse alrededor de un año de estas entrevistas, Sabrina le dijo al terapeuta orientador que había suspendido el tratamiento con su terapeuta individual previo hacía un tiempo y le solicitó que se hiciera cargo de su terapia. Estaba en medio de una situación crítica porque le habían detectado un tumor en la mama izquierda que ella estaba decidida a extraer de manera radical, sin aguardar un diagnóstico más preciso. Para ese entonces su padre estaba ingresando en la fase terminal del largo proceso de deterioro corporal con varios órganos afectados por diferentes enfermedades. Todo ello fue el tema de la primera y la segunda sesión, al final de la cual, al saludarse con un beso en la mejilla, la paciente deslizó su rostro hacia el cuello del terapeuta, que besó de manera breve por dos veces. Luego desapareció por varios meses, y al volver contó que el padre había muerto en su lecho, en su propia vivienda rural y ella a su vez se había operado el pecho. Parecía dispersa y desorientada y lloraba a menudo, sobre todo por angustia. Contó que en la adolescencia había perdido un año de sus estudios porque no podía pensar, y durante varios meses sufrió una ceguera parcial por una fuerte erupción mal tratada. Le costaba irse de las sesiones y solía ponerse especialmente seductora en esos momentos, por ejemplo retenía al terapeuta de un brazo. La paciente contó que había sufrido una tentativa de abuso de pequeña por parte del abuelo materno, y que la madre había desechado sus reclamos cuando ella intentó narrarle lo ocurrido. Años más tarde, cuando ella volvió a hablarle del tema, la madre le dio a leer unos textos en que ella relataba que el abuelo abusó de su suegra, de la tía, de una sobrina y de ella misma. Los relatos eran abundantes en detalles que a ella le resultaron desmesurados y que olvidó casi por completo. Luego de ello cayó en una fuerte depresión, perdió el año en el colegio y tuvo una ceguera, que he mencionado poco más arriba. En cuanto a su abuela, fue una mujer adoptada, de la cual se rumoreaba que había Psicanálise v. 17 nº 2,

42 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas sido una hija extramatrimonial de su bisabuelo con una empleada de la casa, bastante menor que ella. El terapeuta se hallaba en una situación paradójica, porque por un lado se notaba excitado con la paciente y por otro podía concentrarse en lo que la paciente le decía, se sentía en conexión empática con ella y podía formular intervenciones pertinentes, la paciente parecía aprovechar lo que el terapeuta le decía y manifestaba que entre una sesión y la siguiente había utilizado lo que habían intercambiado para aclarar aspectos que sentía confusos en su historia y su presente. Es decir que el terapeuta y la paciente habían establecido una alianza de trabajo bastante provechosa. Sin embargo, al terapeuta le costaba intervenir respecto de la tendencia de la paciente a seducirlo. Por ejemplo, a veces le guiñaba un ojo al final de la sesión, y cuando el terapeuta le preguntó qué significaba ese gesto, la paciente respondió que quería seducirlo. En otras oportunidades, hacía el final de la hora Sabrina enrojecía y miraba al terapeuta a los ojos de manera interrogativa, como si esperara que este dijera algo en particular. El terapeuta le preguntaba entonces qué pensaba y la paciente le respondía que quería conocer el pensamiento que el terapeuta tenía en lo más íntimo, aunque rehuía aclarar más qué pensaba ella que el terapeuta pensaba. Estaban entonces dadas las condiciones para que el terapeuta se centrara en la tendencia de la paciente a seducir al terapeuta como modo de retenerlo y de asegurarse de que este siguiera pensando en ella luego del término de la sesión. Pero en una ocasión la paciente se refirió a unas consultas por estudios médicos que había realizado siendo joven con un profesional primerizo, quien solía decirle que ella dependía afectivamente de él y que fuera de las consultas ella seguiría pensando en él. Ella le replicaba que esos comentarios no la ayudaban. Al tiempo el profesional le comunicó que se trasladaría a otra ciudad y por lo tanto dejaría de atenderla, y la remitió a un clínico general más experto, quien en las consultas subsiguientes, cuando la paciente le expuso sus desencuentros con el clínico más joven, le dijo que le parecía que dicho profesional estaba enamorado de ella. Este comentario fue decisivo para el terapeuta que la estaba tratando en la actualidad. El terapeuta temió que, si interpretaba la tendencia de la paciente a retenerlo con el erotismo, ella podría llegar a responder, como con el clínico anterior, que a ella no le era útil lo que él le decía, y entonces este podría quedar expuesto a su propia contratransferencia erótica en soledad. Ante esta situación de parálisis parcial en el tratamiento, el terapeuta aguzó aún más su atención y su lucidez para comprender los problemas que la paciente traía. En ese contexto la paciente contó que ella había sido criada por la abuela adoptada, y entonces se volvió algo más clara la situación. El terapeuta pudo encontrar afinidades entre la escena que se desarrollaba en la sesión y la 42 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

43 David Maldavsky relación con sus propias hermanas menores, a quienes seducía intelectualmente con una postura sádica que ponía un fuerte énfasis en la actividad cognitiva. Esta exacerbación de la actividad intelectual era una transacción entre la excitación que ellas le generaban, las restricciones morales y la vivencia de vergüenza por ser vulnerable a los encantos de sus hermanas. La situación se repitió en la adolescencia con otras mujeres, cuando su propia excitación lo dejaba frágil, ya que al mismo tiempo se frenaba invocando argumentos morales, y el enojo que esta trampa en la que se encontraba se le transformaba en un incremento de su sadismo hiper-lúcido, como respuesta ante el poder de la joven con sus encantos. En cuanto a la paciente, parecía seducir al terapeuta de manera automática, quizá desplegando una escena como la que había generado su abuela, esperando que un hombre ejerciera sobre ella un poder de manera hipnótica, y quizá fuera esto lo que la paciente esperaba que ocurriera cuando miraba al terapeuta de manera interrogativa, a la búsqueda de su pensamiento íntimo. Este último tipo de contratransferencia fue el que más le deparó al terapeuta sentimientos de vergüenza, sobre todo por la vulnerabilidad que ello le generaba y porque tenía la permanente vivencia de que entonces la paciente podía dejarlo en soledad con su propio estado, sin que hubiera en ella un correlato con su propio sentir. Entonces el terapeuta desarrollaba un sadismo inverso, en que dejaba a solas a la paciente con su sentir sin respuesta ni afectiva ni clínica, y expuesta tal vez a su propia vergüenza. La cuestión de la vergüenza parece formar parte del problema de la contratransferencia erótica, como se puede inferir también en el tratamiento de María, una paciente de rasgos histriónicos que hemos estudiado en otra oportunidad (MALDAVSKY et al., 2005). El terapeuta ponía el énfasis en la ternura, y esto no parecía acorde con las manifestaciones de la paciente. A partir del estudio de las primeras sesiones inferimos entonces que el terapeuta procuraba neutralizar con sus intervenciones los efectos de la contratransferencia erótica. Al final de una sesión de un momento más avanzado del tratamiento, luego de que finalizara la sesión, el terapeuta grabó a solas que en esa sesión había sentido menos contratransferencia erótica. Otras variedades de contratransferencia inducida, problemas de clínica y de investigación, comentarios finales Es posible que existan otros tipos de contratransferencia con un carácter prototípico que merezcan nuestra atención. Entre ellos, puedo mencionar la hostilidad que generan los pacientes apáticos, como el Hombre de los Lobos. En Psicanálise v. 17 nº 2,

44 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas efecto, Freud (1919) sostuvo que la principal resistencia del paciente consistió en la dócil apatía, por la cual aceptaba lo que Freud le decía pero no producía cambio alguno. La secuencia en la estrategia de Freud (primero despertar un fuerte apego en el paciente y luego interrumpir el tratamiento) puede entenderse como una expresión de la hostilidad del terapeuta. Se trata de pacientes ante los cuales existen dos riesgos: o bien perder el control sobre la propia hostilidad, o bien la parálisis por la lástima que el paciente puede inducir. Es posible que una estrategia del mismo tipo de la de Freud, sin que haya un corte drástico, sea recomendable con pacientes que poseen esta estrategia vital, que requiere de una mayor dosis de hostilidad en las intervenciones que les permitan rescatarse de sus propios estados de desvitalización. Más allá de todo ello, puede ser que el tipo de hostilidad sin control en el terapeuta tenga también un carácter automático, inducido por el paciente por algún tipo de mecanismo similar al contagio afectivo, pero no tanto del mismo estado sino de uno complementario, que puede dejar a paciente y terapeuta tan atrapados en una situación de estancamiento clínico como la creada por el contagio afectivo. Es posible que en estas circunstancias, participen los mismos mecanismos que en el contagio del mismo estado afectivo, pero tal vez se les agregue una hostilidad reactiva como protección en el terapeuta ante el riesgo de quedar preso en el clima apático del paciente. Algo similar puede ocurrir cuando un terapeuta tiene una crisis de angustia o se le despierta una excitación sexual inmotivada ante la apatía del paciente. Otro tipo de contratransferencia, que es una variedad de las descriptas antes, consiste en aquellas situaciones en que el paciente no reconoce en sí mismo un estado afectivo-orgánico que en cambio sí registra el terapeuta, como contagio de un afecto que capta en su paciente de manera anticipatoria, como ocurre a veces con los estados de somnolencia del terapeuta que no parecen motivados por situaciones propias. Por ejemplo, el mismo terapeuta de los cuatro casos precedentes comentó que con un paciente sentía somnolencia durante la primera mitad de cada sesión, y que mucho tiempo después pudo ligar esta situación de la sesión con un relato realizado por el paciente acerca de una masturbación cotidiana que le permitía a este conciliar el sueño luego de duros días de trabajo. Sea cual fuere el estado que se genera en el terapeuta que incluye contratransferencias como las descritas poco más arriba, los modos de procesamiento de la situación son los mismos: la terapia del terapeuta, su auto-análisis (en lo posible por escrito), la supervisión, los comentarios con colegas, y la situación se vuelve más perturbadora cuando el terapeuta se mantiene en el mutismo y procura desechar o minimizar el problema. En este sentido, parece conveniente diferenciar 44 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

45 David Maldavsky entre una contratransferencia explicitada por el terapeuta y una inferida por un supervisor o investigador (y quizá por el mismo paciente), inclusive en discordancia con la opinión del terapeuta implicado. También cabe preguntarse por los caminos propicios para investigar estos problemas. Cuando la contratransferencia es explícita, la investigación puede quedar facilitada al contar con los testimonios del terapeuta. Sin embargo, el estudio de las sesiones parece ser la clave, y en particular el modo en que el terapeuta interviene en determinados momentos de la sesión, en particular si sus intervenciones resultan clínicamente poco pertinentes y el tratamiento está estereotipado o se ha producido un cambio desfavorable en el paciente con estados como los de pacientes con perturbaciones psicosomáticas. Como la contratransferencia de este tipo es solo uno de los factores que puede incidir para que el terapeuta tenga respuestas clínicamente no pertinentes de manera estereotipada e insistente (otros factores podrían ser las limitaciones en la formación del terapeuta derivados de sus estudios, su propia terapia, una supervisión deficiente, etc.), también en este punto es conveniente ser cauto. Los dos estudios que hemos realizado (MALDAVSKY, 1988, MALDAVSKY et al, 2005) corresponden a contratransferencias no explicitadas, que debimos inferir, y que en un caso, el del terapeuta de María, fue luego explicitada por este, mientras que en el otro caso sigue siendo solo una conjetura. Sin embargo, solo el primero de estos casos muestra que la contratransferencia deriva de un contagio, mientras que el segundo, el de Freud, parecería corresponder a una respuesta reactiva frente a la vulnerabilidad ante dicho contagio. Para estudios de este tipo contamos con instrumentos de análisis de las manifestaciones (en el nivel verbal como no verbal) con un enfoque psicoanalítico freudiano (es decir, los deseos y las defensas) que parecen ser un recurso de elección. Tengo también la impresión de que las descripciones que he realizado de los cuatro tipos de contratransferencia por contagio afectivo en pacientes con perturbaciones psicosomáticas tienen un rédito adicional, consistente en presentar, de manera inesperada, diferentes facetas de la mente de un terapeuta y en particular de sus aspectos más frágiles. Además, respecto de los factores que conducen al desarrollo del contagio afectivo, los ejemplos presentados tienden a sugerir que las situaciones transmitidas de este modo han tenido un carácter intolerable para los padres de los pacientes, a menudo en relación con las vivencias de sus propios progenitores. Es posible que el contagio afectivo sea uno de los caminos de los que el paciente dispone para tratar de procesar dichas vivencias casi impensables e intransmisibles. Solo puedo hacer ahora una breve referencia a la vía para el abordaje clínico de estas Psicanálise v. 17 nº 2,

46 Estudio de algunos factores contribuyentes al desarrollo de perturbaciones psicosomáticas situaciones, ya que este no constituye el tema del presente trabajo: consiste en que el paciente despliegue los pensamientos que tiene en amago, que suelen tener un carácter sensato y hostil, que le pueden permitir un cambio en la posición en que se ubica en situaciones en que ocurren pérdidas crecientes de los matices y un mayor encierro en vínculos cada vez más estereotipados, como pueden ser las relaciones de pareja o de amistad, caracterizadas por elegir en el otro a aquel que porta un potencial de muerte, pese a su apariencia sensual y/o tierna. Study of some determining factors in the development of psychosomatic disorders Abstract: The author summarizes some recent proposals on the wishes and defenses in psycho-somatic patients, their expressions in language and its relationship with character traits. Then pay attention to the contagion of certain affective and organic states and categorizes four of them: somnolence, rage, anxiety, excitement. The author then establishes links between these affective and organic contagion and the counter-transference manifestations. Following presents examples of clinical situations where emotional and organic contagion and counter-transference manifestations in psychosomatic patients are deployed. The paper concludes with brief notes on some other forms of induced countertransference, on the clinical situation and the research, and on some concluding remarks Keywords: Countertransference. Defenses. Emotional and organic contagion. Referencias ALVAREZ, L. Investigación psicoanalítica de los deseos y las defensas en pacientes psicosomáticos crónicos con diferente evolución clínica, tesis de doctorado en psicología. UCES FREUD, S. (1895). Proyecto de psicología para neurólogos. In: Obras completas. v. 1. Buenos Aires: Amorrortu, (1919). De la historia de una neurosis infantil. In: Obras completas. v. 17. Buenos Aires: Amorrortu, (1926). Inhibición, síntoma y angustia. In: Obras completas. v. 20. Buenos Aires: Amorrortu, GREEN, A. El pensamiento clínico. Buenos Aires: Amorrortu, Publicado originalmente em Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

47 David Maldavsky HEIMANN, P. On counter-transference. International Journal of Psycho-Analysis, v. 31, p , MALDAVSKY, D. Estructuras narcisistas: constitución y transformaciones. Buenos Aires: Amorrortu, Análisis computacional del lenguaje desde la perspectiva psicoanalítica. CD ROM La investigación psicoanalítica del lenguaje: Algoritmo David Liberman. Buenos Aires, Lugar Editorial, Yo realidad inicial: conceptos e investigaciones sistemáticas, Subjetividad y procesos cognitivos, 11, ADL: Algoritmo David Liberman: un instrumento para la evaluación de los deseos y las defensas en el discurso, Buenos Aires: Paidós, Propuestas clínicas para el tratamiento de las crisis de angustia: desvalimiento psicosocial. 2015a.. Crisis de angustia e ideaciones suicidas, Actualidad Psicológica. 2015b. en prensa.. et al. Investigaciones en procesos psicoanalíticos. Teoría y método: secuencias narrativas, Buenos Aires, Nueva Visión, et al. Systematic research on psychoanalytic concepts and clinical practice, Buenos Aires, UCES, et al. La intersubjetividad en la clínica psicoanalítica. Investigación sistemática con el algoritmo David Liberman (ADL). Buenos Aires: Editorial Lugar, RACKER, H. A contribution to the problem of counter-transference. International Journal of Psycho-Analysis, v. 34, p , TRUSCELLO DE MANSON, M. Los duelos. Huellas en el carácter y registro corporal. Buenos Aires: Ediciones Biebel, David Maldavsky República Arabe Siria, Piso 5º B (1425) - Ciudad de Buenos Aires - Argentina [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

48 Quando o corpo é quem fala: a importância da contratransferência na análise de pacientes com manifes Quando o corpo é quem fala: a importância da contratransferência na análise de pacientes com manifestações somáticas 1 Eliana Riberti Nazareth 2 Resumo: A partir do exame de vinhetas extraídas do trabalho analítico com um paciente com manifestações somáticas, a autora traz algumas reflexões sobre a importância da contratransferência como instrumento essencial, e às vezes único, de acesso a ansiedades silenciosas e não-visíveis da análise desses pacientes. O trabalho procura demonstrar como os conflitos pré-verbais ou infra-verbais desses pacientes, não simbolizados e, não raro, não simbolizáveis por estarem inscritos na memória implícita, só podem ser compreendidos na sessão analítica pela bússola da contratransferência do analista. Palavras-chave: Memória implícita. Psicanálise. Simbolização. Somatização. It matters not how strait the gate, How charged with punishments the scroll, I am the master of my fate, I am the captain of my soul William Ernest Henley, Invictus, Trabalho apresentado na I Jornada de Psicossomática Psicanalítica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, 30 de outubro e 01 de novembro de Membro Efetivo da SBPSP. Coordenadora do Grupo de Estudos das Relações Corpo Mente da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP. 48 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

49 Eliana Riberti Nazareth Introdução Neste trabalho procurarei abordar alguns aspectos da contratransferência na análise de pacientes com manifestações somáticas. Apesar da diferença que há entre somatização e doença psicossomática, observo que a contratransferência despertada por ambas costuma ser muito ruidosa, às vezes incômoda, por ser expressa por impressões e sensações localizadas no corpo do analista, a qual requer, dependendo se se trata de somatização, ou de doença psicossomática, maior ou menor decodificação, ou mesmo codificação. Ohki (2002), aponta diferenças importantes entre esses dois tipos de manifestações, as quais auxiliam o analista na busca de compreensão. O que diferencia aquelas (somatizações) da doença psicossomática é que as outras envolvem um conflito psíquico enquanto a doença psicossomática, um déficit psíquico por uma incapacidade de simbolizar, anterior mesmo à equação simbólica. No conflito psíquico a angústia decorrente da regressão desintegrativa é de aniquilamento (fragmentos des-integrados), enquanto que na doença psicossomática, a angústia é de vazamento, de derramamento (fragmentos não-integrados). Por esta diferença de estrutura psíquica, reservamos o termo Somatização para os quadros regressivos, enquanto o termo Doença Psicossomática destinamos para aqueles que apresentam uma parada do desenvolvimento em níveis pré-verbal, présimbólico e pré-conceitual (p. 3). Tais diferenças provocam reações contratransferenciais diversas e implicam um uso diferente do instrumento mesmo da contratransferência, como também tipos diferentes de interpretação. No meu trabalho com tais pacientes, observo ainda que, quanto maior o número de fragmentos não-integrados, mais construção exigirá do trabalho analítico. Ilustração clínica O paciente a quem chamarei de Maurício procurou análise porque passava por grande sofrimento devido aos percalços de uma separação conjugal muito difícil. Porém, seu sofrimento não se traduzia em palavras. Ao contrário, uma de suas queixas era não conseguir expressar o que sentia. Só conseguia falar de sensações, não de pensamentos e só muito raramente de sentimentos, e ainda assim, sentimentos vagos e dispersos não associados a fantasias ou a situações da sua Psicanálise v. 17 nº 2,

50 Quando o corpo é quem fala: a importância da contratransferência na análise de pacientes com manifes vida, como se essas impressões não pertencessem a ele. Quase uma alexitimia. No início de sua análise, as sensações e sintomas que mais reportava eram dor no peito, enjoo, tontura, diarreia e uma enorme dificuldade para sair da cama ao acordar todas as manhãs. Dizia sentir-se muito mal dentro do próprio corpo. Profissional destacado em sua área, quando o assunto era sua separação, tornava-se um menino assustado e medroso. Ficava perplexo frente à própria indecisão, ao mesmo tempo que esperava de mim respostas e soluções. Dizia ter medo, muito medo, sem saber a razão, ou de onde vinha. No entanto, eu também me via muitas vezes sem palavras. Momentos de paralisia analítica, uma sensação de que, ou minhas palavras eram inúteis e estéreis, ou que eu simplesmente não tinha o que falar, algo estranho para mim, pois usualmente me vejo como uma analista atuante nas sessões. E era mais uma sensação do que uma ideia ou um pensamento. Deparava-me constantemente intrigada sobre o que aquele corpo estava querendo dizer que a mente não podia pensar. O que a separação poderia estar ativando, ou reativando, naquele ser mais corpóreo que mental? Parecia óbvio que a separação estimulava fantasias de perda e abandono, mas por que não podiam ser mentalizadas? Fui convidando-o a pensar sobre os seus sintomas e sensações, coisa que para ele não fazia o menor sentido o que, aliás, parece ser uma das características do paciente com manifestações somáticas. Para esse tipo de paciente, o corpo é uma verdadeira incógnita e suas expressões são absolutamente desvinculadas dos pensamentos. Corpo e mente são dois universos distintos que não conversam entre si. O pensamento de cunho operatório (MARTY et al., 2003) é dirigido somente à dimensão da ação, do agir e do fazer. Nisso Maurício era ótimo. Quando se tratava de coisas concretas e objetivas surgia a sua inteligência brilhante. Era um homem arguto de conclusões rápidas e precisas. Mas esse homem tão inteligente, culto e de pensamento lógico fácil, não sonhava e não devaneava. Parecia ter um mundo de fantasia pobre, árido e frio. Não que ele fosse frio e distante. Era afetuoso comigo e com as pessoas em geral, mas, no entanto, algo me anunciava um congelamento. Havia um não-sei-oque, como que uma região ilhada no seu psiquismo, à qual não se tinha acesso, não existia estrada construída, ou sequer pavimentada. Inúmeras vezes, durante as sessões, uma imagem ocupava minha mente. Surgia do nada, sem eu saber a razão, ou de onde vinha. Impressão similar à do meu paciente em relação a seus medos Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

51 Eliana Riberti Nazareth A imagem era do Mont Saint-Michel na França. Há muitos anos estive em Mont Saint-Michel, um santuário construído na Normandia no séc. XIII, local de encontro dos Cruzados. Vários elementos estão presentes nessa minha associação. Estive lá com pessoas muito queridas na época e que por essas coisas do destino ou fado precisei me afastar. Pessoas que desfrutaram da minha amizade e lealdade, mas que se provaram, com o tempo, não merecedoras do meu afeto. Ocorreram várias situações que fizeram me sentir traída e desconsiderada. Com muita dor no coração acabei por ter de me submeter a um luto lento e sofrido. Quais seriam a traição e o luto que Maurício não podia pensar, mas apenas sentir no seu corpo e que me fazia pensar por ele? Dada a miríade de sintomas e sintomas primitivos principalmente da ordem do oral e pré-oral não podia ser algo recente, mas apenas reativado pela separação pela qual passava. Outro elemento presente na minha imagem dizia respeito ao fato que com Maurício eu me sentia às vezes numa verdadeira Cruzada. Os analistas que tratam de pacientes somáticos sabem o que isso quer dizer e se sentem muitas vezes dessa maneira. Parece que temos de fazer uma verdadeira pregação. Como se tivéssemos de convencê-los que eles têm mente, psiquismo e, por conseguinte, dor psíquica. E que, na verdade, a dor física ocupa o lugar da dor psíquica ainda não constituída como tal, ou alijada no corpo. Há nesses pacientes uma resistência feroz e velada às interpretações mais profundas. Faz-se necessário todo um trabalho preliminar de sensibilização ao psicoemocional. Ademais, as interpretações são sentidas como algo perigoso, pois encerram uma necessidade de mudança. McDougall (1996), resume a forte resistência encontrada no trabalho com esses pacientes: A resistência à mudança psíquica é muito forte porque esses analisandos estão convencidos de que a mudança só pode ser-lhes desfavorável. Sua força de inércia é a única proteção de que dispõem contra um retorno traumático insuportável e inexprimível (p. 103). Maurício não via a ligação entre o material trazido por ele, constituído principalmente por sintomas e sensações, e as interpretações. Não podia enxergar porque não tinha lente adequada e porque lhe era perigoso se aventurar por sítios emocionais. O terceiro elemento presente na minha associação tinha a ver com algo peculiar e que é o que atrai as pessoas ao Mont Saint-Michel. Psicanálise v. 17 nº 2,

52 Quando o corpo é quem fala: a importância da contratransferência na análise de pacientes com manifes Uma vez por mês, na lua cheia, durante a maré alta, as águas cobrem totalmente o acesso ao santuário. É uma visão impressionante, a maré subindo rapidamente mais de treze metros, deixando todo o monte completamente inacessível por horas. A força das águas e a velocidade com que sobem é tão grande que, por momentos, temos a impressão de que ficaremos ilhados para sempre. Ao baixar da maré tudo volta ao normal, quando então é possível sair do Monte a pé. Não raro, eu me sentia assim na sessão com esse meu paciente. De repente, não havia mais acesso e, ou não chegávamos, ou não conseguíamos sair. Frequentemente ficávamos ilhados nas palavras: ou nada significavam, e não chegavam a lugar algum, ou provocavam uma inundação. Nessas ocasiões, Maurício ficava tonto, não conseguia pensar, absorver minhas palavras, ou fazer uso produtivo delas. Sentia-me sempre no fio da navalha. Se eu interpretasse pouco, corria o risco de ficar no concreto, se interpretasse muito podia provocar uma inundação, ou uma invasão. Contudo, seu corpo enunciava uma profusão de palavras não ditas e não pensadas e, à medida que a análise avançava, mais e mais sensações e sintomas apareciam na sala. Pernas agitadas, tiques no rosto, sobretudo na boca, mãos que suavam e tamborilavam. Toda uma história parecia estar sendo encenada. Maurício não se deitava no divã, o que me trazia mais dificuldades para pensar analiticamente e manter a minha atenção flutuando. À maneira de outros pacientes somáticos, o meu paciente precisava de contato visual. Esses pacientes se sentem desconfortáveis deitados. Não tanto por sentirem não poder controlar o analista, mas porque sentem que perdem a referência do olhar e de nossas reações. Se eu não enxergo fico surdo e me perco, me dizia um paciente; se não te vejo fico desnorteado me dizia outro. Diferentemente do paciente psicótico que requisita da mente do analista o preenchimento de verdadeiras lacunas estruturais do seu psiquismo, quer por falta de registros mnêmicos, quer pela preponderância do processo primário esvaziador, o paciente somático requer sucessivas elaborações e traduções de seus registros emocionais em direção a construções mentais. Na verdade, talvez o mais adequado seria dizer registros corporais em vez de registros emocionais. A memória dos pacientes somáticos é corporal. Para Maurício poder ter contato visual era fundamental. Manter-me no seu horizonte era sentido como garantia de que eu estava lá e não iria desaparecer. Gradativamente, o paciente começa a falar de si e de sua trágica história. Começa por falar de algo sabido racionalmente, mas não lembrado. 52 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

53 Eliana Riberti Nazareth Conta que perdeu a mãe e um irmão num acidente de carro quando tinha 4 anos. Era o mais novo de todos. Ele e outros dois irmãos mais velhos também estavam no carro no momento do acidente. A partir daí sua vida mudou radicalmente. Até então morava com a mãe e os irmãos filhos do primeiro casamento da mãe que, na época, já estava separada do segundo marido, pai de Maurício. Devido à morte da mãe, os irmãos foram morar com o pai (primeiro marido da mãe) e ele foi morar com seu próprio pai. Tripla perda: perde a mãe e um irmão no acidente, e também os outros dois irmãos ficando anos sem vê-los. Além das perdas, o paciente viu-se de uma hora para outra à mercê do pai e de suas agressões. Homem violento, não aceitava ser contrariado e submetia o filho a várias humilhações na frente dos amigos. Parece que quem o salvou foi a segunda esposa do pai a quem chama de mãe que o acolheu com carinho e amor. Quando Mauricio já na idade adulta, ela acabou por se separar do marido violento. Todavia, no início da análise, todo esse material era apenas uma construção intelectual, sem âncora emocional. Ele o sabia, mas não o sentia. E não se lembrava de absolutamente nada. Sua vida no começo da análise estava um caos. Estava se esforçando para se separar de uma mulher totalmente desequilibrada, que tinha repentes de fúria e descontrole. Durante anos tentou se adaptar aos seus excessos, abdicando da vida própria, de amigos, parentes, e de todo e qualquer relacionamento social, para não arrumar confusão e não irritá-la. Esse casamento havia começado com uma promessa: a de que iriam curar as feridas um do outro e que jamais passariam, outra vez, por uma situação de perda, abandono e transbordamento de angústia. Um pacto silencioso, encriptado em suas mentes. Maurício queria salvar e ser salvo. A esposa também havia vivido situações extremamente penosas de perda e abandono. Tiveram uma filha que enquanto era bebê confirmava a fantasia de fusão familiar. Com o tempo, com o crescimento da filha e com as demandas da realidade, o equilíbrio narcísico e idealizado passou a ruir. O pacto de sangue transformouse de claustrofilia em claustrofobia. Quanto mais tentava se afastar dessa relação violenta, mais violência provocava na então esposa, o que estimulava no paciente sentimentos de dúvida, culpa e de derrota sobre se deveria ou não prosseguir no seu intento de se separar. O conflito e as surpresas desagradáveis, como ser ameaçado e perseguido, eram tão grandes que, em poucos meses, Mauricio perdeu mais de dez quilos e adoeceu várias vezes. Psicanálise v. 17 nº 2,

54 Quando o corpo é quem fala: a importância da contratransferência na análise de pacientes com manifes A culpa advinha, sobretudo, por sentir-se abandonando a filha. Transformava querer se separar em estar abandonando. Fazia análise todos os dias e várias vezes me dizia não querer ir embora. Dizia se sentir protegido e acolhido no meu consultório, e que tinha vontade de ficar parado e que o mundo também parasse. Essas falas eram acompanhadas de uma postura encolhida, fetal, muitas vezes acompanhada de dor de estômago. Contudo, Maurício, apesar de sufocado, sentia-se submetido e paralisado, fadado a repetir um passado desconhecido para ele. Submetia-se à violência de uma relação desde que não corresse o risco de nova perda. Subjugado pelas Moiras 3, Mauricio não conseguia fazer seu destino. Sujeitavase ao fado. Assim McDougall (1997), expandindo Bollas (1992), diferencia fado de destino: O fado é definido pela maioria dos dicionários como aquilo que é inexorável ou irrevogável. Frequentemente, revela-se por intermédio de oráculos e declarações proféticas em outras palavras, o fado depende, em larga medida, de pronunciamentos verbais. O destino, por outro lado, implica um potencial, sugerindo ação iniciada pelo indivíduo mais do que palavras impostas de fora. Como diz Bollas (1992) quem for afortunado pode cumprir seu destino. [...] Mauriac (1950), em Vie de Racine, escreve que todos nós tecemos o nosso próprio destino; puxamo-lo de dentro de nós como a aranha faz com sua teia (p. 129). Eu sentia, mais do que percebia, que a análise naquele momento se assemelhava ao jogo ligue os pontos e precisava ser voltada, sobretudo, a construir elos e reconstruir outros perdidos, sem o que Mauricio não construiria seu destino, ficando fadado a repetições. Durante as crises explosivas e destrutivas da esposa, Mauricio descrevia sensações como se entrasse num estado hipnótico. Um terror se apoderava dele, daí a inércia e paralisia. Aos poucos foi ficando claro que o seu temor se relacionava ao medo de que ocorresse uma grande tragédia caso, não só reagisse, mas se se mexesse; sentia que não podia esboçar o menor movimento. À medida que vamos trabalhando suas sensações e sintomas, sonhos começam a ser sonhados e lembranças passam a surgir, porém, ainda desvinculadas de sentimentos. 3 Na literatura grega as três Moiras determinavam o destino de todos os homens, fixando desde o nascimento a duração da vida e seu curso mediante um fio que uma delas fiava, outra enrolava e a terceira cortava quando chegava a hora pré-fixada para a morte (KURY, 1999, p. 270). 54 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

55 Eliana Riberti Nazareth Uma primeira lembrança diz respeito à casa em que morou depois que a mãe morreu. Descreve a sala, a janela e os móveis. A maneira como o faz na sessão, me faz pensar em alguém estranho que entra num ambiente pela primeira vez. Digo isso a ele, e Mauricio, surpreso, me responde: Mas é mesmo, até os móveis parecem grandes! Sabe quando uma criança pequena entra numa casa desconhecida e é uma mesona, cadeiras grandes, tudo parece maior do que é na realidade, tudo chama a atenção? E lembrar disso, não sei porque, me dá um tremendo alívio, diz colocando a mão no peito. Digo a ele que ele estava podendo começar a entrar na sua morada a interna como quem entra numa casa pela primeira vez. Tudo parece grande e desconhecido, mas lá ele encontra lembranças, sensações, afetos, experiências, seu passado... E é isso que traz alívio, o poder conhecer e reconhecer. Poder construir-se e resgatar-se. Numa outra sessão, diz ter se lembrado do cachorro que tinha quando pequeno. Era um cachorro que adorava tendo-o ganhado da nova mãe, em relação a quem foi aparecendo muita gratidão durante o trabalho analítico. Num outro momento traz um sonho: havia uma menina pequena como a sua filha andando pela casa. A casa era a que morou com sua mãe antes do acidente. A menina passeava, olhando as coisas, reconhecendo objetos. Muito lentamente as sensações do corpo passam a ser mentalizadas. Mauricio não só começa a descrevê-las, como elas passam a dar lugar a sentimentos e pensamentos que podem ser verbalizados. A meu ver tais conteúdos não são propriamente conteúdos reprimidos que, com a análise, passam a ser passíveis de conscientização. São significantes que passam a ser construídos, construção essa solicitada em grande parte via contratransferência. O colapso da capacidade de simbolização de Maurício devido à situação extremamente estressante que vivia separação conjugal traumática de um casamento também traumático e que naufragava fazia com que fossem reativadas outras situações traumáticas que havia experenciado em tenra idade. A morte da mãe, as várias perdas posteriores, a violência revivida com o pai pareciam não ter representações. Tudo isso, aliado ao inopinado e à intensidade de suas manifestações somáticas, me fez levantar a hipótese de que outras situações graves, mais primitivas ainda, também não estavam representadas. Sua mãe havia se separado, devido à violência do pai. Era mais uma história sabida e não lembrada. Mas o que não está na memória explícita não pode ser simbolizado, não está inscrito em palavras e, portanto, não pode ser lembrado. Citando novamente McDougall (1997), Psicanálise v. 17 nº 2,

56 Quando o corpo é quem fala: a importância da contratransferência na análise de pacientes com manifes É também importante reconhecer que esses significantes iniciais (os pré-verbais) não podem ser recalcados do modo como o recalque é definido por Freud (1915c): isto é, um mecanismo psíquico que mantém no inconsciente representações que estão ligadas a pulsões por meio dos pensamentos e das recordações verbais. Uma vez que as recordações pré-verbais não podem ser manejadas da mesma maneira, sua força dinâmica corre o risco perpétuo de encontrar saída pela repentina irrupção, sob a forma de vivências alucinatórias ou de explosão somática (p. 173). Suas explosões somáticas eram seu corpo expressando o que sua mente não podia, ou ao menos, não sabia pensar. E, dramático, mesmo quando ameaçado, seu corpo só podia reagir com o mecanismo de fuga. Qualquer movimento, ou mudança, era perigoso. Com isso, oferecia-se a manipulações e tortura. Com o desenrolar da análise, foram ficando claros também os conteúdos associados à culpa. Sentia-se abandonando e capitulando, e o extremo desconforto que chegava a lhe provocar enjoos quando conversávamos sobre isso estava localizado principalmente na filha. A filha tinha na época a mesma idade que ele quando sua mãe morreu. Ele se identificava projetivamente na filha: colocava na filha seus sentimentos de abandono e traição que havia sentido em relação à própria mãe com a morte desta. Agora era a filha que se sentiria abandonada e traída por ele. Porém, níveis mais profundos da culpa surgiram: ele se sentia culpado porque não conseguiu salvar a mãe. Culpado por ter sobrevivido. E culpado por ter raiva dela por ela ter morrido e tê-lo, assim, traído e abandonado. Considerações finais Com pacientes com manifestações somáticas, a contratransferência é, muitas vezes, o nosso fio de Ariadne. Percorremos seus labirintos, sem saber os segredos da sua comunicação nãoverbal encerrada num tempo mítico no qual não há representações, símbolos ou palavras. O que nos resta, não raro, é ouvir a nós mesmos, utilizar as nossas sensações, impressões e associações despertadas por um corpo que fala por meio do seu sofrimento, e que ao longo de toda uma vida só encontrou ecos no desconhecido. A contratransferência utilizada de modo ativo pelo pensamento do analista representa às vezes o único acesso a ansiedades silenciosas e não-visíveis. 56 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

57 Eliana Riberti Nazareth When body speaks: the importance of counter-transference in somatic patients analysis Abstract: From the examination of a patient with somatic manifestations vignettes, the author reflects on the importance of counter-transference as an essential tool, and sometimes the only one to access silent and non- visible anxieties. The paper aims to show how the pre -verbal or infra-verbal conflicts, that are not symbolized and often, that cannot be ever symbolized, because they are stored in implicit memory, can only be understood in the analytic session by the compass of counter-transference. Keywords: Implicit memory. Psychoanalysis. Somatization. Symbolization. Referências BOLLAS, C. Forças do destino: psicanálise e idioma humano. Rio de Janeiro: Imago, KURY, M. G. Dicionário de mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, MARTY, P. et al. L Investigation psychosomatique. Paris: Presses Universitaires de France, MCDOUGALL, J. Teatros do corpo: o psicossoma em psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, As múltiplas faces de Eros: uma exploração psicanalítica da sexualidade humana. São Paulo: Martins Fontes, OHKI, Y. Somatização e doença psicossomática: parte I um ponto de vista psicanalítico. Revista da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, v. 6, n. 1/ 2, Eliana Riberti Nazareth Rua Pedroso Alvarenga, 1255 / 65 São Paulo SP Cep [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

58 Enfermidade psicossomática e relacionamento conjugal Enfermidade psicossomática e relacionamento conjugal Gley Silva de Pacheco Costa 1 Resumo: O autor destaca que nos relacionamentos conjugais em que um dos membros apresenta manifestações psicossomáticas, predomina um funcionamento narcisista fundamental que gera interações fusionais e adesivas, nas quais as individualidades se tornam indefinidas e, no lugar de uma intersubjetividade, observa-se uma transubjetividade. O enfoque teórico dessas patologias é o das neuroses atuais e traumáticas nas quais predomina uma condição tóxica, cuja manifestação clínica é a angústia automática. Para dar conta dessas patologias, impõe-se a necessidade de um referencial que permita ampliar a psicanálise para uma mente cuja lógica não é a do prazer-desprazer de uma erogeneidade representada, mas a da tensão-alívio de descargas, obviamente, muito mais primitiva. Palavras-chave: Angústia automática. Apego desconectado. Desvalimento. Enfermidade psicossomática. Falhas subjetivas. Relacionamento conjugal. Sentimento de identidade. Transubjetividade. Para abordar psicanaliticamente a enfermidade psicossomática no âmbito do relacionamento conjugal, faz-se necessário estabelecer de início uma diferença muito importante entre os conceitos de intersubjetividade e transubjetividade. A intersubjetividade faz referência à transcrição subjetiva do que se intercambia entre os sujeitos. Implica um espaço de transformação e, ao mesmo tempo, o reconhecimento de uma barreira que sustenta a diferença entre os indivíduos. Em troca, no caso da transubjetividade, o que se produz é uma abertura máxima das subjetividades, de modo tal que ficam parcialmente abolidos os limites que as diferenciam. Assim sucede, por exemplo, nos casos de pânico ou de histeria cole- 1 Membro fundador, Titular e Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (SBPdePA). 58 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

59 Gley Silva de Pacheco Costa tiva, quando se produz um atravessamento que borra os limites do self e do objeto. A transubjetividade corresponde a um funcionamento narcisista fundamental que gera relacionamentos fusionais e adesivos, nos quais as individualidades se tornam indefinidas. Esses relacionamentos se caracterizam por um verdadeiro aferramento ao outro, sendo esse outro aquele do qual não se pode separar, porque permite sustentar uma frágil ilusão de existência. Essa situação denuncia um sentimento de identidade falho e opera como uma tentativa de substituição do sentimento de si, anterior ao sentimento de ter. Trata-se de uma forma de aderência a um corpo alheio, no qual são captados seus ritmos pulsionais, entre os quais a respiração e os batimentos cardíacos, configurando um vínculo visceral. Nos casos mais regressivos, o indivíduo se liga ao outro como se fosse uma ventosa (de acordo com o modelo orgânico respiratório) ou como uma sanguessuga (de acordo com modelo orgânico cardiocirculatório), representando um apego mediante o qual o indivíduo procura apropriar-se da vitalidade do outro. Deve-se chamar a atenção para o fato de que esse modelo de vinculação se relaciona com uma forma da percepção que não discrimina traços qualitativos diferenciais, constituindo, de acordo com Freud (1895), uma percepção sem consciência. Quando essa forma de apego se desestrutura, é frequente aparecer um estado hemorrágico libidinal extremo que mergulha o anímico do indivíduo em uma situação de dor não qualificável, sem fim, que pode se evidenciar como um estado de apatia duradoura. Esse quadro se afigura muito tipicamente nos casais em que um dos membros apresenta manifestações psicossomáticas. Por meio das histórias que esses casais nos contam, tomamos conhecimento de que o membro que apresenta um componente psicossomático mantém em relação ao outro condutas servis, de quase ou verdadeira submissão, mas caracteristicamente sem o registro subjetivo dessas ações. Simultaneamente, o outro é descrito como uma pessoa egoísta e voltada integralmente para as suas necessidades e para os seus desejos. Esse padrão de relacionamento costuma gerar no psicossomático uma mistura de cansaço, impotência, sensação de se encontrar sem saída e profundo incômodo. No entanto, não se observam juízos críticos sobre esses fatos, apenas a descrição de realidades cotidianas, nas quais a parte do indivíduo que sente parece ter desaparecido. Isso ocorre porque o apego, nesses casos, encontra-se acompanhado de uma falta de registro daquilo que remete ao subjetivo: o mundo dos afetos. Não obstante, essas cenas carentes de afeto podem repercutir no registro transferencial, produzindo no analista respostas anímicas que os pacientes não registram em si mesmos, como raiva, sentimento de humilhação, angústia, etc. Psicanálise v. 17 nº 2,

60 Enfermidade psicossomática e relacionamento conjugal Quando nos questionamos sobre quem é o outro para o paciente psicossomático, nos damos conta de que se trata de um personagem idealizado, com características tirânicas e irracionais que Maldavsky (1995), que estuda as enfermidades psicossomáticas no marco das patologias do desvalimento, denomina de déspota louco. Enquanto isso, o lugar que ocupa no vínculo aquele que sofre a patologia orgânica é o de quem carece em seu mundo interno de um objeto empático. Parece ser a partir dessa posição que ele mesmo se sustenta e sustenta o lugar do outro, a quem nos apresenta como um objeto que, não obstante, não o satisfaz. A pergunta que, então, se impõe é a seguinte: Por que o psicossomático segue mantendo a relação com o seu cônjuge, se parece não haver possibilidade de obter uma satisfação nesse vínculo? Devemos levar em conta que são casais que procuram estabelecer um nível de equilíbrio mediante o qual buscam restaurar as falhas subjetivas de cada um dos integrantes. No caso do psicossomático, a manutenção desse equilíbrio implica que tais vínculos estejam marcados por um apego desafetivado que Maldavsky (1995) chama de apego desconectado, ou seja, uma relação em que os afetos não são tolerados porque ultrapassam as capacidades de integração do ego, tornando-se, por conta disso, traumáticos. Aquele a quem o psicossomático se adere encontra-se colocado no lugar de um duplo, com o qual ele consegue manter uma imagem ilusória de onipotência na medida em que sustenta o vínculo com ele. Na clínica, é indispensável reconhecer esse aspecto, pois ele representa um ponto de risco a ser levado em consideração, uma vez que, afirmados nesse estado, os pacientes psicossomáticos podem ultrapassar seus limites orgânicos, tendo em vista se adequar a uma posição passiva, na qual o ego, aferrado a uma dor não sentida, oferece-se às descargas pulsionais do outro. Complementarmente, o cônjuge do psicossomático é alguém que não pôde se constituir como sujeito para a sua própria vida pulsional e, portanto, tem comprometidos a sua própria subjetividade e o lugar do outro como objeto. O enfoque teórico dessas patologias é o das neuroses atuais e traumáticas, nas quais predomina uma condição tóxica, cujo indício clínico é a angústia automática, diferente da angústia sinal, típica das neuroses e psicoses. Como resultado, a abordagem clínica desses pacientes não deve se centrar na interpretação dos derivados dos desejos reprimidos e também não deve ser coincidente com a análise das patologias narcísicas, como a depressão e as psicoses, embora se aproxime mais dessas últimas. Em outras palavras, precisamos modificar a técnica analítica no que diz respeito à associação livre por parte do paciente e à atenção flutuante por parte do 60 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

61 Gley Silva de Pacheco Costa analista. Quem sabe caiba aqui o conceito de atenção flutuante perceptiva, de Botella (1997). Esses pacientes carecem de vida simbólica e nos chamam a atenção pela ausência de afeto em seus relacionamentos e pelo apego a um mundo no qual as frequências e quantidades encontram-se no lugar das qualidades afetivas diferenciais. Nas palavras de De M Uzan (1994), são verdadeiros escravos da quantidade. Como decorrência disso, apresentam-se com um pensamento desprovido de valor libidinal e que não permite a exteriorização da agressividade. Podemos considerar tal pensamento uma modalidade do processo secundário em virtude de sua orientação para a realidade objetiva e do afã da casualidade, da lógica e da continuidade. No entanto, essa forma de pensamento secundário, que se aferra a coisas e não a conceitos abstratos nem a produtos da imaginação, sugere a precariedade da conexão com as palavras desses pacientes em função do isolamento do inconsciente, assim como a existência de fixações em níveis arcaicos de desenvolvimento. Nossa hipótese é que o problema remonta às primeiras semanas de vida do indivíduo, durante as quais não pode contar com a ajuda de um contexto empático para dar conta dos estímulos internos e externos, correspondendo a uma falha da função materna propiciadora de trocas libidinizantes que dão vida a um corpo erótico a partir do corpo biológico do recém-nascido. O que desejamos enfatizar é que, do ponto de vista teórico, as patologias psicossomáticas diferem das neuroses, psicoses e perversões, e, para dar conta delas, impõe-se a necessidade de um referencial que permita ampliar a psicanálise para uma mente cuja lógica não é a do prazer-desprazer de uma erogeneidade representada, mas da tensão-alívio de descargas, destituída de subjetividade, configurando uma clínica da excitação, nas palavras de Tabacof (2014). Por esse motivo, interpretações que procuram conferir um sentido simbólico ao material apresentado na sessão não surtem qualquer efeito ou até mesmo soam como algo estranho ao paciente. Diante disso, seria necessário complexizar a questão da técnica a ser empregada, uma vez que tais pacientes não se beneficiam com o modelo tradicional, baseado no eixo transferencial-contratransferencial. De fato, nesses casos não há o que interpretar, porque não se tratam de representações que sucumbiram à repressão, mas de representações rompidas, destruídas, sem qualquer compensação ou simplesmente ausentes. Em vez de interpretar, pedimos ao paciente que dê nome ao que experimenta em relação ao seu corpo e à sua relação com os outros, que descreva reiteradamente o evento tóxico ou traumático, além de elementos da sua história, da atividade profissional, e assim por diante. Como propôs Marty (1990), é preciso desenvolver a arte da conversa. Psicanálise v. 17 nº 2,

62 Enfermidade psicossomática e relacionamento conjugal Com isso, busca-se servir de complemento para aquilo que o paciente não dispõe: um aparelho para sentir os sentimentos ou, dito de outra forma, dar sentido às suas percepções e, dessa forma, fazer circular a libido, origem da representação e da subjetividade. Isso significa que o indivíduo dominado pela pulsão de morte necessita de alguém que o auxilie empaticamente a processar o excesso de energia que arrasou a sua subjetividade e a quebrar o ciclo de tensão-alívio. O objetivo, portanto, é modificar a situação econômica, a fim de restaurar o predomínio de Eros e da pulsão de autoconservação, para que o paciente acumule energia de reserva para realizar ações específicas, e a libido, a vida, possa tramitar em seu interior. Freud (1933[1932]) deu o nome a uma manifestação de Eros de pulsão de cura, a qual funciona como o principal aliado dos esforços do analista durante o tratamento de qualquer paciente. Ele consignou que a pulsão de curar pode ser complementada pelas intervenções oportunas do analista dirigidas ao consciente do paciente, a fim de favorecer o desenvolvimento desse processo que ocorre no domínio da repetição. Isso será possível nos quadros que estamos enfocando, porque tanto as patologias somáticas como as traumáticas não estão constituídas apenas de um elemento, mas de um conjunto deles, como são exemplos o complexo traumático, nas patologias traumáticas, e o excesso de investidura nos órgãos resultantes da falta de um contexto acolhedor nas primeiras semanas de vida que, nas patologias tóxicas, leva à desvitalização. O trabalho analítico nessas patologias consiste, portanto, na substituição de alguns desses elementos por outras modalidades de intercâmbio cujo modelo é a própria relação terapêutica que estabelece. O que muitas vezes surpreende o analista é descobrir que suas intervenções, de alguma maneira, são do conhecimento do paciente, mas se encontram desarticuladas. Por isso, a meta não é fazer consciente o inconsciente, mas valorizar os pensamentos conscientes e pré-conscientes existentes. Esse incremento do pensamento constitui parte da pulsão de curar do paciente, aliada ao trabalho do analista. Desse modo, pelo caminho do pensamento, o paciente pode dispor de recursos para destinar a atenção para aquelas situações nas quais não leva em conta suas manifestações corporais ou para determinados eventos que desencadeiam uma vivência traumática, que determinam comportamentos repetitivos a serviço da pulsão de morte, os quais Szwek (1998) denominou de procedimentos autocalmantes. Um desses recursos é a antecipação de problemas futuros, que o levarão, por exemplo, a uma crise hipertensiva ou a um ataque de pânico. O corpo, a vida somática e o trauma interessam à análise, particularmente na medida em que são capazes de se fazerem representar enquanto objeto psíquico. 62 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

63 Gley Silva de Pacheco Costa Um mundo que se pode explicar, ainda que com maus argumentos, diz Camus, pelo menos é um mundo familiar. Pode ser que o analista reaja ao inexplicável soma dos pacientes psicossomáticos como uma afronta à sua onipotência interpretativa, o que o expõe ao perigo de subestimar o psicossoma quando o soma se comporta de maneira a colocar-se fora da influência do processo analítico, ou do seu domínio, dando a impressão de que é inacessível a métodos tão bem-sucedidos em relações a outras patologias de características neurótica, psicóticas ou perversas. Resulta dessa situação, o perigo de o analista apresentar uma surdez empática. Pois, como pergunta McDougall (1978), por que procurar no escuro um gato que não está aí? É ela mesma que responde: Se o analista mantiver a função clássica de superfície refletora diante das dimensões falhas ou ausentes da experiência psíquica e das vivências somáticas e traumáticas de seus pacientes isto é, se ele se obstinar em manter o espelho sempre no mesmo lugar e ângulo -, não poderá refletir senão o nada constituído pela representação ausente e pelo afeto sufocado (p. 142). Convém, portanto, distinguirmos a falta capaz de significação, que induz ao desejo e à criatividade desse nada irrepresentável, indizível, metáfora da morte, terreno do limite do analisável, para o qual De M Uzan propõe um cuidado de beira do abismo e Marty a prudência de um desarmardor de minas, como lembrou Tabacof. Como ponto final, queremos alertar que essas características vinculares observadas nas patologias psicossomáticas não se restringem ao paciente e ao seu cônjuge; elas incluem as relações familiares e profissionais, além, obviamente, a relação com o analista. Como resultado, no atendimento desses pacientes, podemos observar em nós mesmos uma série de manifestações, tais como sonolência durante a sessão, insônia noturna, taquicardia, manifestações alérgicas, estados de esgotamento, tonturas e sentimentos de fúria contra o paciente ou, opostamente, indiferença incrédula quando ele descreve situações penosas, o que corresponde a deixar o paciente à sua própria sorte. Psychosomatic disease and couple relationship Abstract: The author points out that in marital relationships in which one member has psychosomatic manifestations, dominates a fundamental narcissistic operation that generates fusional and adhesive interactions, in which the individuality become undefined and in place of a intersubjectivity, there has been a transubjectivity. The theoretical fo- Psicanálise v. 17 nº 2,

64 Enfermidade psicossomática e relacionamento conjugal cus of these pathologies is the current and traumatic neuroses, in which predominates a toxic condition, whose clinical manifestation is automatic anxiety. To account for these diseases, it must be the need for a reference so as to increase psychoanalysis for a mind whose logic is not the pleasure-displeasure of a represented erogeneity, but the tension- -relief discharges, obviously, much more primitive. Keywords: Attachment disconnected. Automatic anxiety. Helplessness. Identity feeling. Marital relationship. Psychosomatic illness. Subjective failures. Transubjectivity. Referências BOTELLA, C.; BOTELLA S. Más allá de la representación. Valencia: Promolibro, FREUD, S. (1895). Projeto para uma psicologia científica. In: Obras completas. v. 1. Rio de Janeiro: Imago, (1933[1932]). Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. In: Obras completas. v. 22. Rio de Janeiro: Imago, MARTY, P. A psicossomática do adulto. Porto Alegre: Artes Médicas, Originalmente publicado em MCDOUGALL, J. Em defesa de uma certa anormalidade: teoria e clínica psicanalítica. Porto Alegre: Artes Médicas, Originalmente publicado em MALDAVSKY, D. Pesadillas en vigília: sobre neuroses tóxicas y traumáticas. Buenos Aires: Amorrortu, M UZAN, M. La bouche de l inconscient: essais sur l interprétation. Paris: Gallimand, SZWEC, G. Les galéries volontaires: essais sur les procedes autocalmants. Paris: Presses Universitaires de France, TABACOF, D. Psicossomática psicanalítica hoje: o modelo pulsional da Escola de Paris. Palestra apresentada I Jornada de Psicossomática Psicanalítica da SBPSP. São Paulo, Gley Silva de Pacheco Costa Rua Mariante, Porto Alegre - RS - Brasil [email protected] 64 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

65 Lo que no fue y siempre vuelve. Pasajes a la transferencia Laura Verissimo de Posadas 1 Resumen: El trabajo intenta una aproximación a la práctica analítica poniendo de relieve las distintas maneras en que el cuerpo, del analizando o del analista, aparece directamente involucrado. Se plantea que, desde el punto de vista teórico, ellas dan cuenta de modos diversos de relación entre el cuerpo y el inconsciente. En la sesión se los considera momentos privilegiados de producción de lo inconsciente y se propone que su destino ulterior dependerá de que el trabajo analítico habilite lo que la autora llama pasajes a la transferencia. Se trabaja en torno a dos viñetas a fin de explorar estas propuestas en la trama y movimientos transferenciales desde la perspectiva teórica elegida. Palabras-clave: Acto. Cuerpo. Transferencia. Descubrimos así nosotros, observando simplemente el rigor de la experiencia analítica, que la referencia fundamental al cuerpo nos remite inevitablemente a ese baño de lenguaje en el que este se encuentra sumergido tan necesariamente por lo mismo que es cuerpo de hombre- como lo está un pez en el agua (LECLAIRE, 2000). El lenguaje es el cuerpo, sutil pero cuerpo [...] la voz, cuerpo sutil pero cuerpo. Es necesario que exista un deseo que sostenga esa carne, un deseo apuntalado en la mirada, la voz [...] (LACAN, 1953). 1 Psicoanalista (Asociación Psicoanalítica del Uruguay. MT) Psicanálise v. 17 nº 2,

66 Lo que no fue y siempre vuelve. Pasajes a la transferencia Esas palabras de Lacan, no por tan citadas, dejan de producir efectos de reconocimiento de la dimensión de puesta en escena del cuerpo en la sesión. Ante la demanda de quien lo hace tal el analista se involucra con su deseo advertido pero pulsante y esto hace a la textura peculiar del intercambio entre ambos. Pero hay momentos en que gestos, acciones, prosodia u otros modos de participación de uno u otro hacen más presente la encarnadura del lenguaje. Esta dimensión de la práctica me había impulsado a la escritura de un trabajo anterior (VERISSIMO DE POSADAS, 2000) en el que destacaba el lugar otorgado a las acciones en la enseñanza freudiana (FREUD, 1901, 1905). Me preguntaba si el modelo del sueño, con el que solemos pensar la sesión, podría haber operado como obstáculo a la recepción de lo motor como elementos discursivos en el trabajo con pacientes adultos, obstáculo que no opera en el análisis de niños y adolescentes con quienes el agieren es valorizado en su poder convocante a la respuesta del otro (CASAS DE PEREDA, 1987, 1992). Intercambios de saludos, miradas, a veces regalos del paciente, aceptación o no de nuestra parte, torpezas motoras, un suspiro, una sonrisa o una inflexión de la voz, expresiones de pésame o asombro o el uso del humor son parte de nuestra práctica cotidiana y ya no las resolvemos con el rápido expediente de ataques al encuadre. La producción reciente -al menos en nuestra región como la encontramos en Calibán- muestra un analista menos circunspecto, liberado de una ritualización distanciadora y que no se priva de poner en común con los colegas situaciones que antes parecían silenciarse. Lo vital para nuestra práctica es no perder nuestra brújula: la escucha del deseo inconsciente de cada sujeto singular que nos demanda y que, por ese acto, nos constituye como analistas. El propósito de retomar hoy este tema se apoya no solo en el permanente cuestionamiento al que, para mantener viva nuestra práctica nos debemos, sino en el intento de poner en juego referentes teóricos de los que no disponía en aquellos años. 1 Lo que importa soltar respecto al cuerpo en psicoanálisis: El enraizamiento de la psiquis en el cuerpo es una idea presente en Freud, en El yo y el ello (1923), por ejemplo, pero en abierta contradicción con algo que él mismo propone en el Proyecto de Psicología (1895), texto a veces llamado pre-psicoanalítico y al que Freud quiso eliminar. Me refiero al apartado 11 sobre la Vivencia de satisfacción. Debemos a Lacan el haber hecho trabajar - según expresión de Laplanche - este modelo del complejo del prójimo, destacando de tal modo el lugar del otro humano que asiste al niño - en la situación de inermidad inicial - que hace caer 66 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

67 Laura Verissimo de Posadas cualquier idea de una emergencia directa de lo psíquico desde el cuerpo propio. Porque es solo a través de las experiencias con y desde el cuerpo de la madre que la pulsión, en su vaivén, en su circuito (LACAN, 1987, Capítulo 14) que abarca lo infans de ambos partenaires, deja marcas de la diferencia (entre aumento de la tensión y su disminución), marcas de los predicados, así como restos de lo inasimilable (la Cosa). Desde esta perspectiva nada hay de orden psíquico que no sea producto de la mediación de otro humano. La presencia del cuerpo propio, lugar de la experiencia de la angustia, de la excitación, el placer y el goce, es tributaria de los significantes in-corporados, restos traducibles o no (hechos cuerpo real y siempre actual), de la experiencia con los otros significativos de la historia. Su incidencia en la dinámica subjetiva no se produce por relación directa de una psiquis enraizada en el cuerpo, sino por la mediación del fantasma, baño de lenguaje en el que cada uno se encuentra necesariamente sumergido, como dice Leclaire en el párrafo que elegimos como acápite. Podemos así entender que Leclaire diga que la fuente pulsional no es el cuerpo sino las marcas de las experiencias con el Otro/otro. El apuntalamiento no es en la necesidad sino en el lenguaje. Los mecanismos proyectivos como explicación última, en algunas viejas escuelas, conducen a impasses para el psicoanálisis, ya que llevan a poner tal énfasis en la disposición que se desemboca en hacer de la pulsión de muerte sustancializada la causalidad última del padecimiento del sujeto. El otro extremo, al que se llega por el movimiento pendular tan frecuente en tantos asuntos humanos, puede conducir a quedar tan prendidos de las figuras de la historia del sujeto como agentes traumáticos, que se pierden de vista los aspectos más singulares y más tenaces de quien nos consulta, su modo particular de fijarse al lugar de víctima, con las satisfacciones masoquistas que conlleva y al goce del síntoma. Es como si el analista quedara más atento a quien ha secuestrado a su analizante, que a la identificación de éste con el agresor, a su síndrome de Estocolmo, podríamos decir. Este énfasis lleva a darle a la persona del analista, a su presencia, como a veces se dice, un carácter tal que los momentos de transferencia y trabajo en lo imaginario, sin duda insoslayables, obstaculizan la escucha de lo que a-cosa (LACAN, 2006) de la insistencia de lo que comanda la cadena significante pero se sustrae a ella. De ese modo podría quedar obstaculizada también la apertura a la necesaria contra identificación por la que debe pasar la experiencia de análisis. F. Coblence reubica la noción de empatía en psicoanálisis. Considera que hay que entenderla a la vez como la toma, en el otro de lo que es extranjero a mi yo y de lo que es Psicanálise v. 17 nº 2,

68 Lo que no fue y siempre vuelve. Pasajes a la transferencia extranjero al suyo 2 (citado por SCARFONE, 2014), lo que me parece protege de una aproximación psicológica - bastante habitual y relacionada con afectos compartidos- para dar mayor lugar a las representaciones inconscientes a lo que entra en escena y lo que queda por fuera de ella, representaciones por las que circulan cargas que cuando acceden al Yo son registradas como afectos con su cuota de engaño, en virtud de desplazamientos y transformaciones de las que solo es excepción la angustia, la que no engaña (LACAN, 2006). 2 Apuntes y rastros de lo real El agieren en Freud, traducido al español (LAPLANCHE; PONTALIS, 1994) por actuar y en francés por mise en acte toma distintos matices según las traducciones entre las que parece imponerse el acting out aunque esta es solo una entre el abanico de figuras que aparecen en la obra freudiana. Recientemente el enactement parece haber tomado su relevo en la literatura psicoanalítica, sin que quede clara su delimitación. No me detendré en ello sino que tomaré de Assoun (1985) la propuesta de entender mejor el proceso de la puesta en acto en cada expresión singular. Me parecen momentos privilegiados de producción de lo inconsciente cuyos efectos de retorno sobre el sujeto dependerán de que sean escuchados/mirados por el analista y de que, a través del trabajo (Arbeit) con el analizante, constituyan aperturas a lo que llamo nuevos pasajes a la transferencia. Uso a propósito la expresión que evoca esa otra modalidad del acto (el pasaje al acto) que implica una salida de la escena transferencial y el desmantelamiento de la misma. La apuesta del análisis, a veces en los límites, es que el pasaje lleve a nuevos destinos vitales y creativos así como a caminos inéditos en la transferencia. Assoun (1985) parece sugerir que los actos, al dar cuerpo de diversas maneras a algo del sujeto, constituyen lo real a pensar (p. 157) de nuestra práctica. Este desafío contiene, en sí mismo, el fracaso, en virtud de la castración fundante del deseo. Ya que Real en Lacan, Cosa en Freud -si bien no asimilables ya que en contextos teóricos diferentes- evocan, en mi lectura, la concepción freudiana del objeto en tanto objeto perdido que nunca se tuvo. Concepción profundamente psicoanalítica por el lugar concedido a la falta y que es retomada por Leclaire (2012) quien subraya que los que aparecen en escena son los lugartenientes, los soportes de ese objeto perdido que nunca se tuvo al que considera el organizador de todo el movimiento deseante. 2 Original: à la fois comme la saisie, en l autre de que qui est étranger a mon moi et de ce qui est étranger au sien, traducción del autor. 68 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

69 Laura Verissimo de Posadas Lo Real es un concepto inasible que da cuenta justamente de eso, de lo imposible, porque es afásico, fuera de la cronología, es decir siempre actual y fuera de escena (SCARFONE, 2012, p. 72). En las actuaciones logra transitoriamente entrar en escena, por fuera de las redes de lo imaginario, como algo actual/ actuado, algo que se vive como presente, con un sentimiento de actualidad. En su trabajo L impassé, actualité de l inconcient 3 Scarfone (2014) se refiere a la presentación actual como algo que no ofrece un acceso directo a lo que habría que conocer, sino que marca, al contrario los límites de la representación [...] señala que hay un núcleo opaco o vacío en el corazón de toda representación como de toda producción psíquica. Presentación en un presente sumergido en un tiempo otro 4, un tiempo que no pasa. Scarfone se inspira en Lyotard para insistir en la etimología de infantia como incapacidad de hablar, lo infans no queda superado por la adquisición del lenguaje sino que por la represión originaria la infantia no hace más que invaginarse y quedar hundida en el corazón del sujeto de la palabra en tanto que disposición y exposición a nuevos impactos, a traumas, grandes o pequeños, que sacudirán el alma y volverán a poner en marcha procesos originarios, compañeros de una experiencia imposible de decir integralmente (SCARFONE, 2014). Lo infantil, siempre actual y sexual, articulación inseparable en psicoanálisis, en una temporalidad y espacialidad que implican el desprendimiento de las imposiciones del Yo tanto en términos de interno/externo como de tiempos sucesivos o etapas que se superan. Esta es la materia de lo que no cesa de no inscribirse (LACAN, 1981). En el trabajo anterior (VERISSIMO DE POSADAS, 2000) decía que lo que involucra directamente al cuerpo nos aproxima a algo más cercano a las marcas de cada uno que, al desplegarse en la intimidad de la sesión, pueden encontrar sus transformaciones (en lo imaginario) así como su límite (en lo simbólico) habilitando nuevos cercamientos de lo real. 3 Sueño en transferencia Desde una ventana veía un pato en la planta baja, sobre el césped, con una soga al cuello. Alguien lo rescataba enlazándolo y subiéndolo a donde yo estaba con M (la hija). M se acerca al pato, lo quiere proteger, lo mira amorosamente 3 Trabajo presentado en 74 Congrès des Psychanalystes de Langue Française de la Société Psychanalytique de Paris y la Société Psychanalytique de Montréal, Montréal, QC. 4 Pontalis 1994, citado por Scarfone (2014). Psicanálise v. 17 nº 2,

70 Lo que no fue y siempre vuelve. Pasajes a la transferencia La paciente ha venido hablando, en las sesiones previas, de su incapacidad de sentirse atraída por alguno de los que la llaman, se vuelve a preguntar por su anestesia, por esa tranca de toda su vida de mujer de la que solo se sintió liberada con aquel que la hizo excitarse, esperar deseosa sus llamadas pero al que veía tan arrogante y desconsiderado como ve a su padre. También ha hablado de su hija a quien no logra acercarse por más que lo intente, de la que recibe permanentes destratos y desaires, que le habla lo imprescindible, que parece expresar siempre un rechazo cargado de odio. Parece realizar en el sueño su deseo de encontrar una mirada amorosa en la hija, en mí, mirada que la rescate de ese lugar de padecimiento en el que se vive. Le pregunto: por qué un pato? Luego de un breve silencio dice: No sé si tendrá que ver, ayer me escribió uno de estos [...] (parece no saber cómo nombrar a uno de los galanes que, ultimamente, aparecen sin cesar y debo decir que no solo a ella la sorprende, también a mí). Parece que a un milico de la época de la dictadura le preguntaron cómo solucionaría el conflicto del Medio Oriente y contestó que con un patoconejito. Y me decía que una mente avezada descubrió que se refería a un pacto con Egipto. Nos reímos de esta anécdota que me faltaba en la colección de burradas de los voceros del gobierno de facto que los uruguayos comentábamos en aquella época. Época del terror y la reducción del otro al lugar del no-humano, del desaparecido, al que no se le reconoce un lugar propio ni en la vida ni en la muerte. Ella se siente mirada/reconocida en su análisis, muchas veces expresa una sorpresa risueña por las cosas suyas que, en mis intervenciones, revelo recordar. Pero a la vez que lo vive como una respuesta a su deseo de reconocimiento, del que se ha sentido privada por sus padres, corremos el riesgo de la captura en una figura idealizada que todo lo recuerda, que todo lo puede respecto a la cual quedaría dependiente e inferiorizada. El sueño es también un pasaje a la transferencia. Con el sueño la mirada/palabra de la analista es buscada como quien puede sacarla del lugar de la que hace todo mal, como el pato de quien se dice a cada paso una c... y así se vuelve alguien incapaz de ser querida. Aun reconociendo cambios, a través de los años de análisis, que le han permitido soltarse en muchos aspectos hay algo fijo e inamovible, que hace cuerpo en ella, para lo que me vuelve a pedir rescate. Como si solo pudiera moverse apenas (como se ve a sí misma en otro sueño).vuelve a evocar confidencias del padre que hubiera preferido no oír. Evoca también que cuando él le dijo que ella siempre fue su preferida, al preguntarle ella la razón, él le había contestado: Porque eras tan, tan...desgraciadita. Dice M de Montrelay (1977): Porque la secuencia de discurso que una vez nos ha marcado no cesa de reproducirse. Y podemos definir el 70 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

71 Laura Verissimo de Posadas inconsciente como el lugar donde, indefinidamente, esas re-presentaciones son puestas en escena 5 (p. 64). Secuencia de un discurso transindividual (LACAN, 1953), que, a veces, entra en escena como en el sueño y otras queda fuera de ella pero asoma en su gestualidad y su postura como en eclosiones somáticas. Algunas han desaparecido en el curso de su análisis como aquel gusto amargo en la boca, del que oía quejarse a su abuela. Pero aparecen otras, en general como preámbulo de situaciones gratificantes (viajes, festejos), cuadros dolorosos de distintas localizaciones que frenan su movimiento hacia una vida propia y que a pesar de los intentos de hacerlos entrar en conversación parecen refractarios. Ella tiende a aplicarles el sentido de castigo. Al menos, logra pelearlos y no ceder a ellos. Como si no pudiera dejar ese lugar, asignado en su familia, de la que paga el pato de la preferencia de un padre transgresor y exhibicionista, cuya crueldad -en alianza con la indiferencia materna- la dejan en lugar de la pobrecita, la que nunca da una alegría, la de la mala suerte. Sus primeras asociaciones al sueño giraron en torno a un lucha sin fin como el conflicto en el Medio Oriente. Desde mi lugar lo pienso como lucha con su propio sometimiento gozoso a ese padre terrible de su imaginario que le cierra la posibilidad de ser separada -del padre y su deseo- y constituye lo más rebelde al cambio, en tanto es un lugar del que dice querer salir y le resultan impensables las trampas de su deseo de permanecer allí. Analizar es separar y el analista es un agente de separación, de simbolización del lado oscuro, cristalizado, resto de toda experiencia significativa, busca introducir la metáfora que implica sustitución pero también pérdida. Implica que no-todo puede ser representado, no todo puede ser dicho, no todo puede ser dado ni mostrado [...] que no todo puede ser poseído. Que hay un real no apalabrado, un enigma, un imponderable, que no se sabe ni se sabrá jamás, pero siempre vuelve. Que estamos en falta [...] que somos en falta. La declinación de la metáfora, de la función simbólica no deja lugar al nacimiento al deseo, expresión de Leclaire solidaria con otra suya asegurar la castración lo que vale para cada ser hablante. Esto me recuerda la sucesión de actos fallidos por los que se pregunta otra paciente, mujer exitosa y fálica que parece conminarme a que le dé sentido a cada uno de ellos. De golpe me doy cuenta de que si algo dicen, en ese momento transferencial, es de su rechazo a aceptar su división subjetiva, lo que no puede entender ni saber de sí, lo que no puede ubicar bajo su control como ha logrado hacerlo con tantas cosas de su vida, sobre todo en el plano profesional y como 5 Original: Car la sequence de discours qui une fois nous a marqué ne cese pas de se reproduire. Et nous pouvons definir l inconcient comme le lieu oú, indefinement ces re-présentations sont mises en scénes (traducción del autor). Psicanálise v. 17 nº 2,

72 Lo que no fue y siempre vuelve. Pasajes a la transferencia quiere hacer con su analista, dicen de su rechazo de asumir su castración para conservar su completud imaginaria. 4 Cuerpo(s) y transcripciones El paciente, un hombre joven, se muestra algo desarmado en sus movimientos al caminar. Sus dilemas parecen contextuarse siempre en situaciones en las que se siente rechazado, como si se sintiera sin lugar propio, solo pudiera reivindicar por ello y provocar reacciones con las que logra sentirse alguien pero por la negativa: chivo expiatorio, salvador crucificado. Como si todo lo activo y viril estuviera desde siempre jaqueado por el destino de volver hacia él transformado en alguna forma de descalificación o de ataque. Entre sus resistencias, su pobreza libidinal y lo que parecen satisfacciones de metas pasivas masoquistas, algo se venía gestando y me sorprende. Al terminar la última sesión de la semana se acerca a mi escritorio, mete su cabeza en un ramito de jazmines, huele, me mira, se ríe. Al comienzo de la sesión del lunes vuelve a reírse ante su ocurrencia de que en mi casa a todos se les obliga a rasquetear o rasquetearse (ha visto una persona trabajando en una puerta). Le señalo que se ríe como en la sesión anterior cuando olió las flores. Esteee [...] se me ocurre [...] como que sos casi humana [...] que sos capaz de poner una flor en tu escritorio, que son cosas que aterrizan [...]. En este caso lo actual se presenta como aquello que logra entrar en escena en un acting en lo que podemos considerar como un (bienvenido) momento histérico en un paciente depresivo y pasivizado. Mi señalamiento, al establecer conexiones que por represión parecían bloqueadas, despeja el camino a una sucesión de producciones del inconsciente, entre ellas un sueño que había olvidado: Soñé que empezaba a pintar un cuadro. Yo le pedía una cartulina a alguien, alguien me ofrecía: tomá de las mías. Y me daba una hoja grande de color verde. Me pregunta: querés otra? Yo le decía que sí. Y las engomé de modo que quedaba una superficie grande para pintar. Y recuerdo que me froté las manos...como qué rico!, como aprontarse. Tanto el sueño como sus palabras tan erógenamente impregnadas (rasquetear, engomar, frotar, aprontarse) traen a primer plano un cuerpo libidinal y deseante que fantasea y sueña. Aquel cuerpo desarmado y apático, que impactaba mi mirada -y no entraba en conversación- deja paso a este que aparece armándose a partir de parcialidades (tacto, olfato, mirada) investidas y pulsantes que producen una nueva posición subjetiva. El sujeto del inconsciente -que se produce por su acting en la sesión- ausculta en la analista un sentido y demanda respuesta. Momento especular en que algo 72 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

73 Laura Verissimo de Posadas originario se reedita y en el que su acto provoca uno mío del que pude saber mucho tiempo después. Al señalarle, en la sesión siguiente, su risa y ligarla con la anterior hago entrar en escena y en proceso no solo su acting sino también el mío. En ellos, ninguno de los dos sabe lo que dice, ni siquiera sabe cada uno que está diciendo algo, el acting-out habla pero lo hace tan bien en impersonal que el sujeto desconoce que eso tenga sentido (SOLER, 2011, p. 98). Coincidimos con Soler en que el acting es interpretable pero no se debe interpretar porque su interpretación no es recibida por el analizante. Sin embargo el analista tiene que responderle porque mientras el analizante está en acting-out no está en posición analizante (p. 99). Durante la sesión cuyo epílogo es el acting el paciente ha hablado de sueños que no recuerda, de los que solo puede decir que trataban de robos. Con su acting el paciente pone en escena un movimiento de acercamiento a la mujer -en conflicto con la prohibición en tanto implican robar la mujer del padre- que no había podido circular en la esfera de sus recuerdos y sus palabras. O habrá estado diciendo de ellos y no he podido escucharlo? No lo he reconocido en sus deseos pasivizándolo, repitiendo en transferencia la respuesta que dice recibía de su madre? Si es así, el su acting sería expresión de ese desfallecimiento del analista en su función de interpretante y una invocación, un llamado con el que me roba una sonrisa y una mirada cómplice, que solo après coup y en otro contexto, pude reconocer. Damos así razón a Chauvelot (1976) quien sostiene que un elemento simbólico rechazado a nivel del lenguaje aparece transitoriamente en lo real en forma de comportamiento inquietante, escénico. Luego de cumplido ese rol transitorio deja la escena de lo real, donde ha trepado por necesidad (por la sordera del analista) y se reintegra a su campo propio, el de lo simbólico. Chauvelot considera que el acting-out está atado del mismo nudo que la transferencia, de la que no es más que un aspecto. Sigue a Lacan en la propuesta de que la transferencia sin análisis -por ausencia o desfallecimiento del analista- da lugar al acting-out que así, festonea el borde de la situación analítica (CHAUVELOT, p. 111). Añade que no es un síntoma del analizando o del analista sino un signo de la conducción de la cura y que, significando lo que allí ocurre, dice la verdad. En relación al fading del analista Chauvelot sostiene que da cuenta de que al deslizarse de tiempo en tiempo de su sillón, el analista testimonia que es, él también, efecto de lenguaje. Y concluye diciendo: Que la frontera del campo analítico esté festoneada de mostraciones a interpretar, que lo real venga, ni prohibido ni obligado a hacer marca sobre el sentido, deja al analista la libertad de no ser un robot de escucha y al analizando la (libertad) de, de tiempo en tiempo, inaugurar (CHAUVELOT, 1976, p. 125). Psicanálise v. 17 nº 2,

74 Lo que no fue y siempre vuelve. Pasajes a la transferencia Ese momento de confrontación imaginaria, de especularidad y desanudamiento de sus trampas, ofrece al paciente un pasaje hacia otra escena en la que el cuerpo erógeno puede hacerse sueño y relato. La asimetría estructural, condición necesaria al establecimiento de la situación analizante, compromete al analista en cuanto sometido a lo que lo excede, a lo extranjero de sí mismo -y no solo del analizante- tanto de aquello que puede producir nuevos sentidos como lo que se sustrae en virtud de la falta radical que nos constituye. Doble dimensión que es la clave de la relación humana con el lenguaje. Frente al aumento de las tendencias psicologizantes nos parece que la delimitación de nuestro campo y nuestra práctica como analistas no puede sostenerse sino por la escucha del deseo inconsciente, siempre actual y sexual, y por nuestro oído atento tanto a lo que podrá advenir como a lo que insiste y asoma pero no se deja atrapar. Posición incómoda, precaria y singular que nos ubica a contracorriente de la tendencia humana natural - y sus múltiples estrategias - para negar la castración. What has never gone away and always comes back. Passages to transference Abstract: This paper offers a view of the analytical practice that underlines the different ways in wich the body - be it of the analyst or the patient - appears directly involved. From a theoretical point of view this involvement accounts for different relations betwenn the body and the inconcious. They are considered in the sesion as privileged moments of the inconcious production and it is proposed that their final destination will depend on the analytical work opening up to what the author calls passages or tickets to transference. The work is undertaken on two clinical cases in order to explore these proposals in the transference from the theoretical perspective selected by the author. Keywords: Act. Body. Transfer. Referencias ASSOUN, P. L. De l acte chez Freud: L équivoque métapsychologique. Nouvelle Revue de Psychanalyse, v. 31, p , CASAS DE PEREDA, M. Confrontaciones: Acerca del gesto y la palabra. Revista Uruguaya de Psicoanálisis, v. 65, p , Acto, acting out y discurso infantil. Montevideo: EPPAL, CHAUVELOT, D. L acting out: Réalisation d une réponse, production de l inconscient. Scilicet, v. 6/7, p , Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

75 Laura Verissimo de Posadas FREUD, S. (1901). Psicopatología de la vida cotidiana. In: Obras completas. v. 6. Buenos Aires: Amorrortu, (1905). Fragmento de análisis de un caso de histeria. In: Obras completas. v. 7. Buenos Aires: Amorrortu, LACAN, J. Función y campo de la palabra y del lenguaje en psicoanálisis. In: Escritos 1. México: Siglo XXI, Originalmente publicado em El seminario de Jacques Lacan, libro 20: Aun Buenos Aires: Paidós, El seminario de Jacques Lacan, libro 11: Los cuatro conceptos fundamentales del psicoanálisis. Buenos Aires: Paidós, El seminario de Jacques Lacan, libro 10: La angustia. Buenos Aires: Paidós, LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Diccionario de psicoanálisis. Barcelona: Labor, LECLAIRE, S. Escritos para el psicoanálisis: moradas de otra parte. v. 1. Buenos Aires: Amorrortu, Seminarios en Montevideo, Montevideo: Asociación Psicoanalítica del Uruguay, MONTRELAY, M. L ombre et le nom: sur la féminité. Paris: Editions de Minuit, SCARFONE, D. Quartiers aux rue sans nom. Paris: Éditions de l Olivier, L impassé, actualité de l inconscient. Trabajo presentado en el Congreso de la Société Psychanalytique de Paris y la Société Psychanalytique de Montréal, Montréal, QC, SOLER, C. Finales de análisis. Buenos Aires: Manantial, VERISSIMO DE POSADAS, L. Actuaciones: cuerpo y transcripciones en transferencia. Revista Uruguaya de Psicoanálisis, v. 91, p , Laura Veríssimo de Posadas Marti Avda Brasil 2574 / 501 CP Montevídeo - Uruguay [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

76 Y por qué siguen juntos? El psicosomático y su vínculo de pareja Y por qué siguen juntos? El psicosomático y su vínculo de pareja Liliana Haydee Alvarez 1 Resumen: El trabajo introduce la comprensión de las perturbaciones psicosomáticas desde las conceptualizaciones freudianas y los desarrollos posteriores aportados por autores contemporáneos. A partir de allí, busca profundizar en las particularidades del tipo de vínculo que estos pacientes construyen en sus relaciones de pareja y los desafíos conceptuales, técnicos y subjetivos a lo que ello nos enfrenta en nuestro hacer terapéutico. Palabras-clave: Apego desconectado. Equilibrio defensivo interpulsional. Toxicidad pulsional. Introducción En este trabajo procuro compartir algunas reflexiones sobre la clínica vincular poniendo el foco en los desafíos que enfrentamos como analistas cuando se nos presentan algunas problemáticas vinculares que nos resultan retos teóricos, técnicos y especialmente subjetivos. El abordaje psicoanalítico del vínculo de pareja implica considerar que ella constituye una situación clínica compleja, ya que supone tomar en cuenta tanto los fenómenos intrapsíquicos de cada paciente y el terapeuta incluido en la sesión, así como la característica que alcanzan los intercambios que surgen entre 1 Dra. En psicología. Master en Patologías del desvalimiento. Docente titular Doctorado en Psicología. Coordinadora académica de IAEPCIS: Instituto de Altos Estudios en Psicología y Ciencias Sociales de Universidad UCES. 76 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

77 Liliana Haydee Alvarez ellos, capaces llegar a constituir estereotipias esterilizantes en el vínculo terapéutico. En estas situaciones es cuando resulta relevante revisar cómo se organizan las alianzas ofensivo-defensivas que allí se establecen, así como también encontrar movimientos técnicos a partir de los cuales pueda surgir la posibilidad de pensar en soluciones creativas para los conflictos que vayan surgiendo. A través de los años y a partir del trabajo clínico, primero en pacientes con afecciones dermatológicas y más adelante portadores de otras manifestaciones con compromiso orgánico, escuchando las descripciones que hacían de su acontecer cotidiano referidas a sus vínculos y en particular a aquellos que conformaban con sus parejas, me encontré preguntándome, Por qué siguen juntos? Desarrollaré algunas reflexiones que han ido encaminando mi estrategia clínica, surgidas al investigar en los procesos anímicos y especialmente intersubjetivos de los pacientes con afecciones psicosomáticas. Me refiero a estos pacientes entendidos como aquellos que son portadores de una corriente psíquica que sostiene un estado de desvalimiento psíquico, que es resultado de un déficit particular en el funcionamiento yoico y libidinal y que podrá llevarlos al compromiso orgánico. El psicoanálisis es el marco conceptual donde encuentro los fundamentos para pensar los trastornos psicosomáticos y es en las consideraciones freudianas referidas a las neurosis actuales y a la teoría de las pulsiones como representantes psíquicos de los procesos que tienen su origen en el interior orgánico, donde se sitúan las bases teóricas que me permiten la comprensión de manifestaciones que, comprometiendo al cuerpo, carecen de representación psíquica eficaz. Me interesa discriminar entre la concepción de los dos enfoques teóricos que llegan a nuestros días acerca de cómo entender el fenómeno somático. Uno de ellos lo considera el resultante de un universo simbólico, al modo de un mensaje corporal que podrá entonces interpretarse a la manera de un síntoma neurótico (conversivo), como es pensado por autores cercanos a la teoría kleiniana (GAR- MA, 1954; CHIOZZA, 1980). La otra orientación lo piensa como el resultante de una carencia de trabajo psíquico en el procesamiento de la pulsión, sin sostén simbólico y por lo tanto incapaz de remitir a contenidos reprimidos. Esta última es la perspectiva teórica desde donde sitúo el presente trabajo. Es verdad que en la obra de Freud (1895) el estudio pormenorizado de los síntomas que comprometen el cuerpo está especialmente desarrollado y referido a las conversiones histéricas. Sin embargo, en las consideraciones freudianas referidas a las neurosis actuales y a la teoría de las pulsiones como representantes psíquicos de los procesos que tienen su origen en el interior orgánico, es donde se sitúan Psicanálise v. 17 nº 2,

78 Y por qué siguen juntos? El psicosomático y su vínculo de pareja aquellos conceptos que permiten la comprensión de estas otras manifestaciones que, implicando al cuerpo, no poseen valor simbólico. En la mencionada obra se encuentran ya los fundamentos que permiten entender uno de los puntos fundamentales que hacen a la manifestación: el síntoma orgánico, que a diferencia de aquel de la psiconeurosis (especialmente la conversión histérica), no responde a un contenido inconciente reprimido, no posee valor simbólico, no es resultado ni de una substitución ni de la transacción entre deseo y defensa, sino que está ligado a una forma de angustia, automática, tóxica. Es por esta carencia de trabajo psíquico, por el no cumplimiento de la premisa freudiana que define a la pulsión como exigencia de trabajo para el aparato psíquico, que se produce entonces un estancamiento libidinal que se vuelve tóxico y que permite entender gran parte de las características que encontramos en los pacientes psicosomáticos. El autor argentino Maldavsky (1992) ha hecho aportes fundamentales en este sentido. Sostiene que en la producción de las perturbaciones psicosomáticas se pone de manifiesto un estancamiento libidinal que se vuelve tóxico, que se articula con el modo de funcionamiento defensivo propio de un Yo primitivo que opera desestimando el afecto, dando como resultado la sofocación de aquel que es el primer representante psíquico de la pulsión, el afecto. Se trata de un estancamiento libidinal tóxico que resulta de fijaciones tempranas a una forma de erotismo intrasomático y a fallas en el funcionamiento del Yo Real Primitivo que alcanzan a afectar la constitución de la conciencia originaria. Se suma una organización defensiva comandada por la desestimación del afecto como defensa central. Me refiero al erotismo intrasomático aludiendo al que impera en los primeros momentos de la vida, cuando grandes montos de energía libidinal sobre invisten, en un movimiento acorde con la autoconservación, a los órganos vitales: corazón y pulmones, antes de dirigirse proyectivamente desde el interior orgánico hacia la superficie de las mucosas donde irán a constituir las zonas erógenas (FREUD, 1926). Se trata de un momento inicial, coincidente con el nacimiento, que Freud refiere a un estado pre psíquico, allí donde encontramos sistema nervioso y exigencias pulsionales. Este no es aún el territorio donde impera el Principio de placer sino aquel otro, primario, donde debe imponerse el Principio de constancia, cuya aspiración es mantener un nivel de tensión compatible con el sostenimiento de la vida. Nos sitúa en el campo de las cantidades circulantes, de las pulsiones de autoconservación con libido en apoyatura. 78 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

79 Liliana Haydee Alvarez En cuanto a la defensa dominante, destaco el valor de la desestimación del afecto, defensa que tiende a la abolición de realidades elementales tales como el matiz del afecto y pudiendo afectar la constitución del sentimiento de estar vivo. Estas marcas tempranas cuando además se articulan, en el proceso de complejización psíquica, con alteración en la constitución de las identificaciones primarias comprometen el proceso de subjetivación, la constitución del Yo/no Yo y desde allí, a la intersubjetividad. Vínculo de pareja: o apego desconectado La pregunta que suele ser objeto de preocupación entre quienes atendemos pacientes psicosomáticos está referida a las condiciones de aparición de la sintomatología orgánica. La experiencia indica que la claudicación de las defensas que sostienen el carácter psicosomático, a saber: el fracaso de la desestimación del afecto como defensa central, acompañada de la caída de defensas complementarias como son la desmentida de ciertas alertas psíquicas, una identificación restitutiva, y ciertas introyecciones patógenas, parecen ser factores determinantes desde donde se producirá el pasaje a la manifestación orgánica, la cual requiere además considerar aún otras defensas como la desestimación del sector del Superyó que impone freno a las irrupciones voluptuosas y las dictamina nocivas, la introyección orgánica como inverso a la proyección normal, y la regresión del Yo al momento inicial de fijación en el Yo Real Primitivo y de la libido procesándose por el mecanismo de la alteración orgánica. Entre aquellos factores que impulsan la caída de este andamiaje defensivo, cobra relevancia en mi experiencia, la ruptura de cierto equilibrio interpulsional que estos pacientes sostienen a partir de sus vínculos. En ocasiones, la herida narcisista que ella reactiva, toma un carácter insoportable que los precipita en un efecto regrediente. Su valor no corresponde al de la pérdida de un objeto, sino al de la caída de una frágil identidad sostenida substitutivamente desde el vínculo con el otro. Es este el punto en que deseo detenerme: la modalidad que toman sus relaciones interpersonales., para retomar la pregunta inicial por qué están juntos? Al recibir una consulta de pareja en la que uno de sus miembros es un paciente psicosomático, suelo encontrar que se despliegan ante mí algunas escenas casi prototípicas. Escucho relatos y veo desplegarse escenas donde aquel miembro de la pareja que tiene un componente somático desarrolla con su partenaire conductas ser- Psicanálise v. 17 nº 2,

80 Y por qué siguen juntos? El psicosomático y su vínculo de pareja viles, de cuasi sometimiento, aunque sin el registro subjetivo de estar llevando adelante ese accionar. La sobreadaptación, que sólo toma en cuenta los deseos y necesidades del otro al precio de desconocer lo propio, se les impone, y el único deseo reconocible es el deseo que suponen en el otro y es a él al que no pueden dejar de responder. El partenaire aparece como un sujeto egoísta, que no lo toma en cuenta pero frente al cual sin embargo, el psicosomático le entrega su actividad, su tiempo, toda su atención. Se trata de una manera de vincularse que está marcada por una forma de adhesividad que se caracteriza porque se produce un aferramiento al otro. Ese otro está representando por una parte, aquello de lo que no se puede fugar pero por otra, es lo que permite sostener una frágil garantía acerca del propio ser. Esta forma de relación suele denunciar un sentimiento de identidad fallido y opera como un intento de sustitución del sentimiento de sí. El clima que se destaca en estas parejas suele ser de apatía o abulia y puede instalarse por mucho tiempo o alternarse con estallidos pasionales, descargas afectivas intensas de violencia o erotismo, donde falta la ternura. Los relatos que suelen reproducirse reiterativamente en el consultorio, casi sin ser objeto de reflexión ni de queja por parte del psicosomático, suelen generar una mezcla de hartazgo, impotencia, sensación de sin salida y profunda incomodidad. Son escenas carentes de afecto que repercuten en mi registro transferencial produciendo las respuestas anímicas que ellos no reconocen en sí mismos (enojo, sentimiento de humillación, angustia). No hay quejas, no aparecen juicios críticos, solo se escucha la descripción de realidades cotidianas, despliegue de conductas tributarias de automatismos, donde el sujeto que siente parece haber desaparecido. Y es que el apego en estos casos, está acompañado de una falta de registro de aquello que remite a lo subjetivo, al mundo de los afectos. Los vínculos del paciente psicosomático están marcados por una forma de adhesividad desconectada, (que reconoce su origen en una simbiosis patológica). Se trata de una forma de aferramiento al otro, que de alguna manera está representando aquello de lo que no se puede fugar y que además les permite sostener una frágil garantía acerca del propio ser. Cuando me pregunto quién es el otro para el paciente psicosomático, suelo encontrar que se lo ha construido como un personaje muchas veces idealizado, pero con características tiránicas y hasta irracionales. Ese otro podemos reconocerlo como un fragmento propio proyectado. En ocasiones: desvalido (por desmentida de la función de autoobservación super- 80 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

81 Liliana Haydee Alvarez yoica) y al que entonces hay que proteger de la realidad recurriendo entre otros mecanismos, a la mentira ingenua que los proteja de supuestos desarrollo de afecto desbordantes. En otros casos, será un otro despótico: (proyección de un fragmento psicótico propio) al que se lo constituye con el poder de eliminarlos de su registro psíquico, de decretar su muerte psíquica. El lugar que ocupa el paciente con patología orgánica en sus vínculos parece ser el de quien es objeto de un desinvestimiento amoroso. Sin embargo, es desde esa posición, que él mismo se sostiene y sostiene el lugar del otro al que nos lo muestra como un objeto que no lo satisface. En ocasiones, el psicosomático me recuerda el lugar de alguien que se siente bajo una amenaza muda. Entiendo que se trata de la amenaza de ser expulsado de la vida psíquica de su pareja. Desde una posición ingenua podría surgir esta pregunta: por qué sigue sosteniendo esa pareja siendo que no parece haber un lugar para el registro de ninguna satisfacción a partir de ese vínculo? El aporte de algunos autores puede orientar algunas reflexiones. Me resulta de gran valor tomar en cuenta las conceptualizaciones de Maldavsky (1992) quien considera que se trata de parejas que han logrado establecer un tipo de equilibrio que parece restañar las fallas subjetivas de cada uno de los integrantes a partir de un apego desafectivo. Aquel a quien se adhiere el paciente psicosomático, ha sido ubicado en el lugar del modelo y en la medida que logra sostener ese vínculo, cree alcanzar una identificación restitutiva y junto con ella, muchas veces también pueden mantener una imagen ilusoria de omnipotencia. Vale la pena tomar en cuenta este punto como una zona de riesgo, porque asentados en esta ilusión creen que todo lo pueden, aún llevándose por delante los límites orgánicos, poniendo así en peligro las pulsiones de autoconservación. Ubicado en una posición pasiva el Yo se ofrece vulnerable a las descargas pulsionales ajenas, aferrado a un dolor no sentido. Fallas en identificaciones primarias comprometen la propia subjetividad así como la constitución psíquica del lugar del otro como objeto que no se ha podido establecer como un otro diferente en la medida que el Yo del paciente no logra constituirse como sujeto para su propia vida pulsional. Este empecinamiento que aparece con la función de mantener el apego a un otro, puede también vincularse con aquel tipo de masoquismo que opera como guardián de la vida, a diferencia de aquel otro masoquismo que tendiendo a la desvitalización y a la muerte de la pulsión opera como masoquismo mortífero al decir de Rosemberg (1991). En resonancia con esta manera de evaluar el apego a un objeto que no proporciona satisfacción, incluyo el concepto de apego al negativo del objeto (ANZIEU, 1996) y de Roussillon (2001), que nos permite Psicanálise v. 17 nº 2,

82 Y por qué siguen juntos? El psicosomático y su vínculo de pareja imaginar el momento en que alguien sobrevivió al desvalimiento inicial, aferrado al dolor como testimonio pre subjetivo del objeto no habido. Considerar su valor implica reconocer la dimensión del apego como una corriente necesaria, vital, en los inicios de la vida. La línea traumática que se refiere a estos pacientes es la que conduce, en el desarrollo pulsional, a una estructura distorsionada (pervertida). El narcisismo primario lleva entonces la marca de la falla de la función maternante como medio de lograr un apego suficientemente bueno. Se daría en cambio un apego al negativo, tal como describe Anzieu (1996) refiriéndose a una alianza de la pulsión de apego a la pulsión de muerte más que a la de auto conservación. Es interesante incluir en estas reflexiones la referencia que hace Denis (2007) acerca de los dos componentes de la pulsión: el componente de dominio y el componente de satisfacción, cuando expresa que tanto la corriente erógena como la de dominio son consideradas por él como libidinales, en el sentido de entender que existe un componente libidinal de dominio en la pulsión. Este autor parte de la conceptualización que hizo Freud (1905) en su caracterización de la pulsión, cuando señaló que la satisfacción no puede ser obtenida plenamente más que por una acción ejercida sobre el objeto, que como tal está vinculada con los esfuerzos de dominio sobre él. Mientras los investimentos sexuales están en relación directa con las zonas erógenas, el componente de dominio inviste aquellos elementos que permiten el apoderamiento del objeto: los órganos de los sentidos y la motricidad. Es el conjunto de ambos el que encontramos anudado en el objeto, promoviendo la experiencia de satisfacción y dando así lugar al registro de la representación. Estas reflexiones permiten suponer la posibilidad de que en algún momento del funcionamiento psíquico los componentes pulsionales se desmezclen, se desliguen. El apego del psicosomático en ocasiones parece tener más relación con una investidura hacia el objeto desde el componente de dominio que desde el de satisfacción, resultando entonces un déficit en su campo representacional que permite entender el vacío que sobreviene luego (traumáticamente) ante la posibilidad de ruptura del vínculo así constituido. Cuando esta ruptura sucede o se esboza, se inicia el camino regresivo que puede alcanzar un punto de fijación en aquel momento que es previo a la inscripción de la experiencia de satisfacción, es decir, aún antes de que se logre el pasaje de la libido intrasomática a la erogeneidad oral, y que, desde Freud (1924), es posible referir al sadomasoquismo intracorporal. Allí es donde opera la lógica de la alteración interna como forma primordial de resolver la exigencia de Eros, y que a posteriori puede hallarse en la base de aparición del síntoma orgánico. 82 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

83 Liliana Haydee Alvarez Conclusiones En los vínculos de pareja donde se incluye un paciente con patología orgánica, antes de pensar en una meta clínica que incluya alguna forma de disolución de esa relación, considero trabajar previamente los aspectos referidos a la identidad y el sentimiento de existencia que ese paciente sostiene frágilmente a partir del vínculo. Entiendo que el despliegue que puede realizar cuando describe una relación de pareja marcada por la insatisfacción, nos tiene como destinatario. Somos necesario testigo y testimonio de un dolor no sentido, que parece ser el único registro subjetivo donde se asienta su existencia y que reedita lo que fue una experiencia traumática primaria. En este tipo de transferencia, el psicosomático demanda que, por medio de nuestro propio sentir, se pueda registrar lo que no ha podido ser sentido, visto, o comprendido de sí mismo. Entiendo que en la medida que podamos hacernos cargo de ello, comprometiendo nuestro propio aparato para sentir desde la capacidad empática, es que hay alguna posibilidad de reformular sus vínculos de apego y posibilitar el procesamiento intrapsíquico que les permita ir saliendo del estado de retracción en que viven, aferrados a un núcleo tóxico que solo tiene una fachada de relación interpersonal, y donde lo que se privilegia es más la calma que la satisfacción (MALDAVSKY, 1991, 1992, 1996, 2000, 2007). Es necesario entender y respetar su aferramiento al objeto hasta tanto la terapia haya alcanzado alguna posibilidad de recorte subjetivo y cambio en el andamiaje defensivo, que evite que una separación sea vivida a la manera de un desgarro, trayendo entre sus posibles consecuencias, el daño orgánico. And why are still together? The psychosomatic and relationship with partner Abstract: This paper approaches psychosomatic disorders based on Freudian concepts and on later developments provided by contemporary authors, delving into the particular characteristics of the bonding formed by these patients in their couple relationships and into the conceptual, technical, and subjective challenges faced in clinical practice. Keywords: Disconnected attachment. Defensive balance between drives. Drive toxicity. Psicanálise v. 17 nº 2,

84 Y por qué siguen juntos? El psicosomático y su vínculo de pareja Referencias ANZIEU D. Créer détruire. Paris: Dunod, CHIOZZA, L. Trama y figura del enfermar y el psicoanalizar. Buenos Aires: Paidós, DENIS, P. La cuestión del dominio en psicoanálisis. Disponible en: <www. uces.edu.ar/institutos/iaepcis/foro.php> FREUD, S. (1895). Estudios sobre la histeria. In: Obras completas. v. 2. Buenos Aires: Amorrortu, (1905). Tres ensayos de teoría sexual. In: Obras completas. v. 7. Buenos Aires, Amorrortu, (1924). El problema económico del masoquismo. In: Obras completas. v. 19. Buenos Aires: Amorrortu, (1926). Inhibición, síntoma y angustia. In: Obras completas. v. 20. Buenos Aires: Amorrortu, GARMA, A. Génesis psicosomática y tratamiento de las úlceras gástricas y duodenales. Buenos Aires: Nova, MALDAVSKY, D. Procesos y estructuras vinculares. Buenos Aires: Nueva Visión, Teoría y clínica de los procesos tóxicos. Buenos Aires: Amorrortu, Linajes abúlicos. Buenos Aires: Paidós, Lenguaje, pulsiones y defensas. Buenos Aires: Nueva Visión, La intersubjetividad en la clínica psicoanalítica. Buenos Aires: Lugar Editorial, ROSEMBERG, B. Masochisme mortifére et masochisme gardien de la vie. Paris: Presse Universitaires de France, ROUSSILLON, R. Agonie, clivage et symbolization. 2. ed. Paris: Presses Universitaires de France, Liliana Haydee Alvarez José Bonifacio, Piso 5 - (1406) Ciudad de Buenos Aires - Argentina [email protected] 84 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

85 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização Marina Fibe De Cicco 1 Eva Maria Migliavacca 2 Resumo: Os casos-limite têm sido considerados um novo paradigma, pois representariam para a psicanálise atual o que a histeria foi no começo do século XX. Para ampliar a compreensão sobre os casos difíceis é fundamental investigar a função e significado das manifestações motoras e corporais na clínica. O artigo mostra que, além de resgatar a importância das experiências corporais na constituição dos afetos e pensamentos, é essencial reconhecer, no trabalho clínico, o que pode ser comunicado pela via da sensorialidade. Partindo da hipótese de que a sintomatologia dos casos-limite manifesta, em ação ou no corpo, as tentativas frustradas de comunicação com os primeiros objetos, destaca-se a importância que a parte agida ou atuada do intercâmbio analista-analisando assume na experiência transferencial. Examina-se o papel das ações na construção de imagens mentais, demonstrando-se que as trocas que se dão no registro da ação e do corpo podem propiciar as bases do processo de simbolização. Palavras-chave: Ato. Casos-limite. Clínica psicanalítica. Corpo. Simbolização. 1 Mestre em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Formação em Psicanálise - Instituto Sedes Sapientiae.Trainee Parent Infant Program Columbia University (NY). 2 Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Professora Titular do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Psicanálise v. 17 nº 2,

86 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização Sobre o corpo, o agir e a simbolização na clínica dos casos-limite Em 1960 seria possível concordar com Winnicott quando dizia: não posso ressaltar o suficiente o fato de que a maioria das pessoas, ao serem analisadas, necessita de técnica psicanalítica clássica (p. 150). Atualmente, porém, os casos- -limite são considerados um novo paradigma, com diferentes autores destacando que tais casos representam para a psicanálise atual o que a histeria foi no começo do século XX (CHAGNON, 2009, p. 4). Green (1988b) comenta que desde a primeira descrição clínica do paciente fronteiriço, feita em 1938 por Stern, acumulou-se na literatura psicanalítica grande quantidade de material clínico, variações técnicas e conceitos relativos a estes casos. Citando Knight (1953), vê-se que se o histérico era o paciente típico do tempo de Freud, o fronteiriço é o paciente problemático de nosso tempo (p. 66). Em minha experiência clínica tenho me deparado com pacientes que não se encaixam nos diagnósticos de neurose ou psicose. Algumas particularidades que me faziam, de início, colocá-los numa mesma categoria, eram a turbulência e impacto emocional característicos das sessões; a total inoperância das interpretações, mais nítida nestes casos do que em outros; uma tendência dos pacientes à ação e compulsão e uma exacerbação da sensorialidade em detrimento do domínio representacional, com frequentes descargas motoras e no corpo. Kristeva (2002) assinala que as dimensões do ato e do corpo ocupam cada vez mais espaço na clínica atual, e ressalta que, apesar da variedade de novas sintomatologias, haveria, unindo-as, um denominador comum: a dificuldade de representar (p. 16). Marucco (2007) confirma que o ato e o soma constituem categorias de fronteira cujas manifestações são cada vez mais presentes na clínica contemporânea (p. 132). O ato e corpo são considerados categorias de fronteira porque, quanto mais sua realidade se apresenta, mais próximos estamos do campo das intensidades e mais distantes do registro da representação. Para ampliar a compreensão sobre os casos difíceis em especial é fundamental investigar a função e significado das manifestações clínicas em ato e no corpo. Green (1988a) descreve o paciente fronteiriço como aquele cujas estruturas de significado estão fora de ação, e afirma que a exclusão somática e a expulsão via ação, que empurram o conflito para fora da esfera psíquica, são duas importantes defesas utilizadas nestes casos. De acordo com Green, a exclusão somática seria o oposto da conversão, porque promove uma separação corpo-psique, restringindo o conflito psíquico ao soma, e não ao corpo libidinal. A energia libidinal, neutralizada em energia puramente somática, produziria manifestações somáticas assimbólicas capazes inclusive de pôr em perigo a vida do sujeito. O ego se 86 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

87 Marina Fibe De Cicco e Eva Maria Migliavacca defende da desintegração mediante uma exclusão que se assemelha a uma atuação-fora 3, mas que agora está dirigida para o ego corporal não libidinal (p. 45). Sensorialidade, representação e trauma Visando investigar os desdobramentos clínicos destes aportes teóricos, é essencial, em primeiro lugar, lembrar que ao mesmo tempo em que são entendidas como telas protetoras contra a desorganização psíquica, a motricidade e as sensações corporais são a matriz de toda possibilidade de integração corporal, representação e pensamento. Freud, em O ego e o id (1923), apontou o papel do corpo e das sensações na formação do eu: Um outro fator, além da influência do sistema Pcpt. parece ter desempenhado papel em ocasionar a formação do ego e sua diferenciação a partir do id. O próprio corpo de uma pessoa e, acima de tudo, a sua superfície, constitui um lugar de onde podem originar-se sensações tanto externas quanto internas. Ele é visto como qualquer outro objeto, mas, ao tato, produz percepção interna. A psicofisiologia examinou plenamente a maneira pela qual o próprio corpo de uma pessoa chega à sua posição especial entre outros objetos no mundo da percepção. Também a dor parece desempenhar um papel no processo, e a maneira pela qual obtemos novo conhecimento de nossos órgãos durante as doenças dolorosas constitui talvez um modelo da maneira pela qual em geral chegamos à ideia do nosso corpo. O ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal (p. 39). Fontes (2010) afirma que no psiquismo há uma caverna sensorial onde se reúnem impressões ainda não transformadas pela experiência cognitiva, e frequentemente rebeldes a esta. Essa seria a matéria-prima de nossos pensamentos e de nossa criatividade. A autora retoma a obra de Frances Tustin e Didier Anzieu, que se ocuparam dos primórdios da constituição psíquica e do papel do corpo e das sensações na origem do afeto. Tustin (citada por FONTES, 2010), por exemplo, salienta que 70% de nosso organismo é constituído por fluídos, por isso o corpo é, a princípio, sentido como líquido ou mesmo gasoso pelo bebê. Somente nesta perspectiva corporal o terror de não possuir um envelope psíquico ficando sujeito às experiências 3 Parece-me que o termo atuação-fora poderia ser traduzido também como acting-out. Psicanálise v. 17 nº 2,

88 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização de esvaziamento, derramamento e dissolução adquire pleno sentido. O risco de aniquilamento existencial seria baseado na sensação de esvair-se (p. 40). Para Tustin, através da constituição psíquica de formas, o fluxo primitivo de sensações não-coordenadas dá lugar à experiência de um corpo integrado. O processo de separar-se do corpo da mãe é decisivo aqui. Também para Tustin, a ilusão da qual fala Winnicott, de continuidade com o corpo da mãe, parece ser a de um fluxo e refluxo contínuo rítmico. Os bebês que vivem a separação como catastrófica experimentam-na como quebra da continuidade corporal. Uma separação prematura, que ocorre antes de a mãe ter sido internalizada e antes que o sentido de continuar a ser tenha se estabelecido firmemente, pode trazer a sensação de perda de partes do corpo, em especial a boca. A partir daí será preciso defender-se de toda experiência não-eu, que se torna aterrorizante (citado por FONTES, 2010, p. 51). Anzieu (1988) também mostrou que a possibilidade de se sentir inteiro nasce da experiência corporal dos diversos sentidos tátil, olfativo, visual, gustativo e muscular, ligado à motricidade e do desenvolvimento de envelopes psíquicos que os contenham (citado por FONTES, 2010, p. 65). A sensorialidade é fundamental para possibilitar a experiência do corpo, a apreensão do mundo e a constituição dos pensamentos. Safra (2005) chama atenção para as dimensões sensoriais e materiais da existência, mostrando a importância do resgate do sensorial e do estético pela psicanálise e lembrando que a origem dos sentidos é o sentir: Os objetos em sua materialidade e em suas formas, os corpos, os gestos, as dimensões do mundo: tempos, espaços, sons, cores, movimentos, ritmos são tratados como raízes e os ingredientes básicos dos processos de constituição do self. As implicações clínicas dessa materialização, dessa des-espiritualização dos processos subjetivos, são imensas. As linguagens, e, em particular, a linguagem verbal e conceitual, são redimensionadas quando vêm à luz as dimensões estéticas da fala, e, mais ainda, das outras modalidades de comunicação. As dimensões e os recursos do encontro terapêutico psicanalítico ganham complexidade, relevos novos, novas perspectivas (p. 10 grifos meus). O trecho acima confirma que, além de resgatar a importância das experiências sensorial e corporal na constituição do ego, dos afetos e pensamentos, é essencial reconhecer, no trabalho clínico, o que pode ser comunicado pela via da sensorialidade. Para Botella e Botella (2002), quando estamos diante de fenômenos de grande carga sensorial em análise, a saída seria usar a figurabilidade, ou apresentação 88 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

89 Marina Fibe De Cicco e Eva Maria Migliavacca de imagens que surgem no psiquismo do analista e devem ser transmitidas ao analisando, como intermediário entre o superinvestimento do sensorial-corporal e a emergência dos afetos que estão sendo evitados porque podem desorganizar o psiquismo. Ao falar do paciente Thomas, que passou por diversas intervenções médicas em seus primeiros meses de vida, e apresentava condutas de tipo autista (como repetir o barulho mencionado na citação abaixo crra...crra), os autores explicam: Efetivamente, acreditamos na existência de pedaços de realidade material o odor, o brilho da luz, o barulho da respiração -, mas duvidamos muito que tenham alcançado a qualidade de representação psíquica. Eles continuam sendo, possivelmente, puros elementos sensoriais. Se há uma tentativa de elaboração no brinquedo crra...crra ou no fato de se embriagar respirando fundo o cheiro da cola, ou de se ofuscar expondo-se aos brilhos da luz, estas são, antes de mais nada, condutas autísticas buscando sensações de atordoamento próximas da perda de consciência. Entretanto, podemos sempre nos perguntar se houve um começo de representação psíquica, que teria rapidamente se dispersado em seus elementos sensoriais, dessas primeiras experiências no hospital. Nunca saberemos. Em contrapartida, conhecemos o efeito desorganizador, no psiquismo da criança, de tais elementos sensoriais não-representados, como conhecemos o efeito infalivelmente benéfico da retomada desses elementos pelo analista numa construção sob formas figuradas, tal como uma lembrança (BOTELLA; BOTELLA, 2002, p. 29). É sempre controverso tentar definir se o que é da ordem sensorial tem ou não qualidade psíquica. Em certos fragmentos clínicos, como o apresentado acima, os elementos sensoriais parecem invadir o espaço interno de forma desconectada do psiquismo, como corpos estranhos que se infiltram na experiência do sujeito com o mundo, comprometendo-a. Os autores consideram que os fragmentos sensoriais, apesar de inscritos, não atingiram nenhum grau de figurabilidade, isto é, não chegaram a organizar-se como representações de coisa (e muito menos como palavras), por isso exploram o que chamam de não-representado na constituição do trauma, definindo-o como experiência não inscrita psiquicamente. Penso que a inscrição do trauma está sempre presente, mas, como sugerem os autores, ela é extremamente rudimentar. Para Botella e Botella (2002) como vimos, trata-se de inscrições que não puderam organizar-se nem como representações de coisa, por isso em análise o que se apresenta não seriam propriamente representações psíquicas, mas diversas dimensões afetivas, sensoriais, motoras, Psicanálise v. 17 nº 2,

90 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização intensidades e conteúdos arcaicos segundo Bion, elementos-beta. A dificuldade de processar esses traços em formas psíquicas mais complexas, até poder significá-las, dever-se-ia tanto ao excesso de carga associado a essas inscrições quanto à fragilidade egoica, isto é, à presença de um ego incapaz de realizar ligações. Garcia (1998), em um breve levantamento sobre o tema da simbolização em Freud, lembra que, no caso Lucy R., apresentado nos Estudos sobre Histeria (1893), eram as sensações do olfato que simbolizavam o trauma. A paciente se queixava de sentir cheiro de pudim queimado, o que fez Freud pensar que este cheiro estivesse presente na situação traumática, e que tenha se tornado o símbolo do trauma por sua relação de contiguidade temporal com a experiência traumática. Freud comenta ainda que é incomum as sensações olfativas serem usadas como símbolos mnêmicos, mas que neste caso foi o que ocorreu. Por isso Garcia parece atribuir a estas inscrições, mesmo que elementares, o status de representação, esclarecendo que, quando falamos em representação, já estamos no registro psíquico, e que o potencial para a simbolização surge a partir da representação. Para ele, tanto no processo primário quanto no secundário estamos lidando com representações, mesmo que se trate de rudimentos de simbolização. De acordo com Garcia (1998), o que está aquém da possibilidade de qualquer ligação ou assujeitamento psíquico (da energia aos traços psíquicos) é da ordem da pulsão: pulsão sem inscrição, pulsão de morte ou, como prefiro, simplesmente pulsão (p. 48). Para o autor, a dualidade pulsão de vida pulsão de morte não é conceitualmente necessária, pois o campo pulsional fica fora do psíquico e seria equivalente ao que diz respeito ao conceito de pulsão de morte. Daí se depreende que a pulsão enquanto tal não é da ordem do psíquico e só se submete ao psíquico por intermédio das representações (p. 48). O autor conclui que o que se apresenta como fenômeno sem representação, aquém do processo primário, é a pulsão (de morte) em busca de inscrição. Propõe então uma visão ampliada da transferência, que incluiria não só a atualização dos conflitos edípicos, mas também a incidência da sobra pulsional não inscrita. Nesta perspectiva, o analista continua não devendo oferecer-se como aquele que pode gratificar os desejos de seus pacientes, neuróticos ou não, mas precisa repensar-se levando em conta esta outra demanda, de inscrição do não-representado para Garcia, pulsão de morte - ainda não domada pela vinculação a representantes psíquicos. Tal demanda reservaria ao analista não a condição de objeto de desejo, mas antes, a de objeto de necessidade, na medida em que o paciente o 90 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

91 Marina Fibe De Cicco e Eva Maria Migliavacca solicita lá onde seus recursos psíquicos não encontraram possibilidades de simbolização. Estamos falando de experiências não realizadas, e não de conteúdos reprimidos (2007, p. 31). Gostaria de complementar a perspectiva de Garcia lembrando novamente a importância do trauma, entendido como efeito devastador de uma não-adaptação da família ou do ambiente às necessidades da criança. O trauma se constitui na relação com o outro, sendo o traumático definido pela resposta inadequada, ou ausência de resposta do objeto. Na economia psíquica de alguns pacientes de fato prevalece o que se entende ser o regime da pulsão de morte, das intensidades desligadas que pressionam no sentido da descarga imediata e total, porém nas origens seu drama não remetia à esfera intrapsíquica, mas sim, fundamentalmente, à experiência com um outro traumatizante. Não privilegio o conceito de pulsão de morte em minhas reflexões, mas entendo sua intensificação como resultado de experiências traumáticas com os objetos primários, como propõe Ferenczi em A criança mal acolhida e sua pulsão de morte (1929), pois em minha clínica parecia claro que o quantum pulsional não inscrito relacionava-se à incidência de traumas ocorridos no ambiente original. Souza (2012) concorda com esta perspectiva quando afirma que pacientes difíceis são difíceis porque devido a situações traumáticas primeiras têm déficits/ problemas nos seus processos de simbolização. Isto significa que pacientes difíceis ou não são capazes de transformar o movimento motor em metáfora visual, ou não conseguem transformar em palavras as imagens que aparecem em seu psiquismo. Segundo Roussillon (2005), pacientes neuróticos em geral conseguem transpor os diferentes tipos de representantes pulsionais para a linguagem verbal. Em muitos casos essa transposição se dá de forma suficiente para que a forma de falar do sujeito em análise, seu estilo, tom de voz e recursos retóricos veiculem mensagens não-verbais e pré-verbais: aí a matéria-prima do psíquico está encarnada e engajada na palavra. Mas quando este trabalho de transposição do não-verbal para o verbal fracassa é comum que o paciente recorra ao agir ou às manifestações corporais para tentar endereçar ao analista àquilo que não pôde ser transmitido verbalmente (p. 374). Por não conseguirem fazer transformações sucessivas, esses pacientes podem também expressar diretamente no plano motor o que se passa. Eles não dizem eu desabei, eles mostram o desabamento. Isto ocorria com um paciente de 7 anos, que sem poder representar o que vivia, corria por toda sala. Não representava, mas mostrava, agia o turbilhão. Psicanálise v. 17 nº 2,

92 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização Simbolização primária através do outro O processo de simbolização primária não diz respeito somente ao primeiro trabalho de metabolização da pulsão, mas também ao processo pelo qual os traços perceptivos e a experiência com o outro e o mundo são transformados em representações de coisa. Adoto a perspectiva de Roussillon (2008), para quem o paradigma metapsicológico é o par pulsão-objeto. Não mais o paradigma de pulsão e defesa contra a pulsão, e também não apenas o objeto, mas o impacto da presença do objeto sobre o sujeito pulsional. Para superar os impasses de uma teoria do intercâmbio e da comunicação intersubjetiva que desconsidera o pulsional, por um lado, e de uma teoria da pulsão que não leva em conta o objeto a que ela se endereça, por outro, é preciso, ainda segundo Roussillon (2008), reconhecer o valor mensageiro da vida pulsional. Só enfatizando o valor mensageiro da pulsão podemos abordar metapsicologicamente a intersubjetividade e, portanto, os processos em jogo numa análise (p. 5). É possível encontrar já no início da obra de Freud (1896) uma concepção das expressões do bebê como mensagens endereçadas ao outro. Freud tem em mente o princípio do prazer, por isso afirma que o sentido original das ações da criança é reproduzir experiências prazerosas. Mas vejamos como, na passagem a seguir, ele deixa claro que as ações de um paciente têm como alvo uma pessoa pré-histórica, inesquecível, e que seu choramingo, que ocorria antes de seus 22 meses de idade, tinha o objetivo de afetar sua mãe e fazê-la responder - ouvi-lo, reconhecer sua mensagem e levá-lo para cama: O ataque histérico não é uma descarga, mas uma ação; e conserva a característica original de toda ação ser um meio de reprodução do prazer. (...) Assim, os pacientes aos quais foi feito algo de sexual no sono têm ataques de sono. Irão dormir novamente a fim de experimentar a mesma coisa e, muitas vezes, provocam dessa maneira um desmaio histérico. Os ataques de vertigem e acessos de choro tudo isso tem como alvo uma outra pessoa mas, na sua maior parte, uma pessoa pré-histórica, inesquecível, que nunca é igualada por nenhuma outra posterior. Até o sintoma crônico de o indivíduo ser um dorminhoco preguiçoso é explicado da mesma forma. Um dos meus pacientes ainda choraminga durante o sono, como costumava fazer para ser levado para a cama por sua mãe, que morreu quando ele tinha 22 meses de idade (p. 287 grifos do autor). São também bastante conhecidas as descrições da experiência de satisfação feitas por Freud no Projeto para uma Psicologia Científica (1895), no cap. VII de A In- 92 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

93 Marina Fibe De Cicco e Eva Maria Migliavacca terpretação dos sonhos (1900) e no artigo Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (1911). Nestes artigos vemos que, para Freud, a descarga de energia via mecanismos musculares, ou descarga motora, representa a função primária do sistema nervoso (1895, p. 348). A descarga motora, porém, não é eficiente na resolução ou apaziguamento dos estímulos endógenos que criam as grandes necessidades: fome, respiração, sexualidade etc. Estes estímulos só cessam mediante outro tipo de ação, que requer a alteração do mundo externo e, por isso, merece ser qualificada de específica (FREUD, 1895, p. 349; 1911, p. 239). O bebê, porém, é a princípio incapaz de realizar esta ação específica, por isso Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via de alteração interna [por exemplo, pelo grito da criança]. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação (1895, p. 370 grifos do autor). Vemos claramente como, para Freud, a via de alteração interna (grito, choro, mímica, gesto) adquire valor de comunicação quando o objeto dá atenção a ela. Em outros textos de Freud há mais ideias que embasam a tese de que é através do objeto que a ação se torna comunicação (cf. GODFRIND-HABER; HA- BER, 2002). Embora no Projeto a referência ao papel dos cuidados maternos seja mais explícita, em Formulações há a famosa nota de rodapé onde Freud deixa claro que a etapa necessária de vigência do princípio de prazer se realiza desde que se inclua o cuidado que o bebê recebe da mãe. Quando Freud aponta que, havendo os cuidados maternos adequados, um pouco mais tarde a criança aprende a empregar intencionalmente estas manifestações de descarga como métodos de expressar suas emoções (p. 238), a intervenção do objeto no processo ganha toda sua importância. É pela resposta do objeto que a descarga adquire valor de pressão sobre o entorno, passando muito precocemente de sinal de angústia a meio de comunicação. Ao tornar-se meio de expressão ao qual a mãe responde, a ação do bebê instaura uma troca fundadora de sentido baseada nas manifestações agidas da criança. Aqui a importância do agir e da interação nas formas primárias de simbolização é explícita (GODFRIND-HABER; HABER, 2002). As experiências subjetivas primitivas só adquirem valor de mensagem quando a resposta do ambiente reconhece seu sentido como tal; a partir daí as expressões, gestos, movimentos e gritos variados do bebê são definidos como mensagem significante, modo de narrativa ou significante endereçado. Se não for assim, se não Psicanálise v. 17 nº 2,

94 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização houver um outro disposto e apto a ler o esboço de sentido embutido no comportamento do bebê, este sentido degenera, perde seu valor protossimbólico potencial, é ameaçado de não ser mais que evacuação insignificante, é anulado em seu valor expressivo e proto-narrativo (ROUSSILLON, 2010, p. 29, tradução livre 4 ). A hipótese clínica é que a sintomatologia dos casos-limite manifesta, em ação ou psicossomática manifestação corporal, as tentativas frustradas de comunicação. O não-reconhecimento e não-qualificação das comunicações corporais e afetivas da criança constituem ataques narcísicos repetidos que fragilizam globalmente o ego do indivíduo, e as mensagens degeneradas vão se manifestar nos quadros psicopatológicos da criança, do adolescente ou do adulto. Sobre a importância da interação atuada na clínica os casos-limite Nos casos-limite, o drama não se deve à luta entre o recalcado inconsciente e o ego, e sim à uma incapacidade estrutural para articular uma tópica que permita simbolizações com um grau maior de ligação (BLEICHMAR, 2005, p. 173). A impossibilidade de vincular as cargas afetivas às representações torna a análise um campo fértil para as manifestações no corpo, atuações e enactments, graças aos quais a referida parte agida ou atuada do intercâmbio analista-analisando assume lugar de destaque na experiência transferencial. Entre os psicanalistas que investigam a questão do manejo e da técnica na clínica dos pacientes difíceis, destaco Ferenczi, Balint e Winnicott. Segundo o último, os casos-limite obrigariam o analista a mudar completamente sua atitude (WINNICOTT, 1960/1983). Winnicott relata uma situação clínica em que não interpretou o paciente, mas reagiu a um evento, e sublinha que quando os pacientes realizam testes e exigências especiais, forçando a passagem do limite profissional, é preciso tomar o tema a partir das respostas do analista (p. 149). Sugere então que os terapeutas investiguem a resposta total do analista às necessidades do paciente, conforme sugerido por Margaret little, e escreve: Sob este título ou outro similar há muito para se dizer sobre o uso que o analista pode fazer de suas próprias reações conscientes ou inconscientes diante do impacto do paciente psicótico ou da parte psicótica de seu paciente no self do analista, e do efeito disto na atitude profissional do analista. (...) Isto poderia formar, e na verdade deveria formar, a base de futuras discussões (p. 150). 4 Perd sa valeur proto-symbolique potentielle, est menacé de n être plus qu évacuation insignificante, il est annulé dans sa valeur expressive et proto-narrative. 94 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

95 Marina Fibe De Cicco e Eva Maria Migliavacca Winnicott elabora suas formulações dentro de um referencial teórico específico, mas parece anunciar o tema que analistas contemporâneos vêm investigando, relacionado às respostas ou ações do analista frente a analisandos que não dispõem de recursos de simbolização suficientes para que se desenvolva uma neurose de transferência interpretável. As ocasiões em que o analista age de forma involuntária e inédita podem ser imprescindíveis para desestabilizar arranjos relacionais enrijecidos, introduzindo no campo analítico um fator com poder suficiente para interceptar a compulsão à repetição (ZYGOURIS, 2011; BORAKS, 2012; GODFRIND-HABER; HABER, 2002). Em geral este tipo de troca entre paciente e analista prescinde da interpretação. Seu potencial transformador deriva da novidade e da força mobilizadora da ação, pois certamente as palavras tocam, emocionam, irritam. Mas o poder do agir é mais radical, mais imediato; é mais difícil escapar a seu efeito. (GODFRIND, 2010, p. 42, tradução livre 5 ). Na análise de casos-limite delineiam-se então uma outra dimensão da transferência e a necessidade de o analista ir além da interpretação. Admitindo que as ações têm um sentido protossimbólico à espera de um outro que lhe dê seu sentido acabado, podemos supor que os movimentos, atos, expressões corporais e gestos do analista em reação às mensagens emitidas pelos pacientes sejam sustentáculos do processo de simbolização. Ao deixar-se atingir e mostrar-se afetado o analista impede que as mensagens emitidas na linguagem do corpo e dos afetos degenerem. Desta forma o processo de simbolização posto em marcha pela comunicação incipiente não se interrompe nem cai no vazio; segue as trilhas protossimbólicas até que os encadeamentos gerados pelos movimentos da dupla sejam suficientes para levar a um novo grau de simbolização. Roussillon (1999) sublinha a importância do gesto e da interação atuada na constituição de formas primarias de simbolização. Para ele graças à percepção a matéria psíquica ganha forma, graças à alucinação a matéria psíquica ganha vida, graças à motricidade ela será transformável (citado por GODFRIND-HABER; HABER, 2002, p. 1431). O conceito de experiência agida compartilhada que os psicanalistas belgas Godfrind-Haber e Haber (2002) apresentam no texto L expérience agie partagée designa outro aspecto da transferência, correspondente a um período em que a interação atuada proporciona a experiência de novos moldes de relação, funcionando como momento de preparação indispensável para se chegar às trans- 5 Certes, les mots touchent, émeuvent, irritent. Mais le pouvouir de l agir est plus radical, plus immédiat; il est plus difficile d échapper à son effet. Psicanálise v. 17 nº 2,

96 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização formações esperadas do tratamento. Os autores não nomeiam diretamente de enactment o fenômeno que se dá quando o analista entra em conluio com o paciente, mas descrevem uma forma infeliz de experiência agida compartilhada que corresponde em todos os aspectos ao conceito de enactment. A experiência agida compartilhada designa um período de intercâmbio analista-analisando que se dá no registro primordial da transferência, transferência de base onde se deposita o material mais primitivo presente no campo analítico. Trata-se de conteúdos pré-simbólicos que se expressam via movimentos, gestos, ações e reações corporais de analista e paciente. Estas formas de agir e reagir podem permanecer imperceptíveis por algum tempo, integrando um campo de comunicação por identificação projetiva onde a ação tem papel central. O período em que ocorre a experiência agida compartilhada pode ser caracterizado por um mal-estar, no analista, derivado da impressão de não captar o sentido do que está se passando. Godfrind-Haber e Haber (2002) lembram que reações ou movimentos inconscientes do analista ocorrem de variadas formas. Em primeiro lugar, mais evidente, estão os atos falhos que todo analista é suscetível de cometer em sua prática e cuja presença se impõe: os quinze minutos que sem querer subtrai da sessão de um paciente, os honorários mal contados para um outro, o esquecimento de sessão ou confusão de horários com um terceiro, esquecer a chave do consultório, sem falar nos lapsos e atos falhos inesperados proferidos no meio de uma fala. Além disso pode surgir uma tonalidade inabitual da voz, um estado de espírito esquisito, e mesmo a interpretação clássica pode ser um desses atos do analista que lhe escapam. Estas ações são mais próximas a actings, mas Godfrind-Haber e Haber não entendem que sejam patológicas, e sim que favorecem o processo analítico ao revelar dimensões da transferência que não se anunciam pelas vias verbais. Os autores observam que também pode acontecer de o analista assumir um padrão de comportamento ao longo do tempo, sem se dar conta: ser meticulosamente pontual com um paciente, mas não com outro, ou ser muito mais consciencioso e caprichoso em suas falas quando está com um paciente, mas não com outro. Há também os movimentos mais discretos que podem ocorrer no analista, mensagens muito pouco evidentes enviadas por seu corpo, que se manifestam na melodia, ritmo, intensidade das intervenções, no gestual corporal, em sua forma de receber o paciente e se despedir; há variações que têm a ver com o estilo e personalidade do analista, moduladas, porém, segundo as solicitações de cada analisando (GODFRIND-HABER; HABER, 2002, p. 1438). Quando há uma forma de se comportar com determinado com paciente que se cristaliza ao longo do tempo, há experiência agida compartilhada. 96 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

97 Marina Fibe De Cicco e Eva Maria Migliavacca Neste caso o padrão de interação inconscientemente estabelecido funciona como tubo de ensaio ou lugar de experimentação de novas formas de relação de objeto. A subjetividade involuntária do analista imprimiria originalidade à experiência agida compartilhada, instaurando uma primeira distinção entre as respostas do analista e as conhecidas reações dos objetos primários, mesmo que o terapeuta não esteja plenamente consciente de suas ações (Ibid,. p. 1447). O enactment, em oposição à experiência agida compartilhada, obstrui a simbolização, ao invés de favorecê-la, mas nos dois fenômenos há um período de interação caracterizado pela impossibilidade de se reconhecer haver nesta troca clandestina importante material circulando em busca de simbolização. Godfrind-Haber e Haber (2002) mostram que o desfecho do período da troca agida em geral é um ato-interpretação, que pode ter a característica de romper o enquadre. Neste caso o ciclo de ações cruzadas é interrompido por um evento pontual que desata a situação, pondo fim ao período de suspensão em que os dois participantes da dupla estavam inconscientemente engajados. No ato-interpretação o agir funciona como agente de ruptura que pode ser veiculado por analista ou analisando, quando se quebra a estabilidade do campo. Os diversos aspectos da interação atuada - experiência agida compartilhada, enactments, comunicação via corpo, gestos e atos - têm lugar quando está em jogo uma qualidade fusional da transferência. Godfrind-Haber e Haber (2002), como vimos, sublinham a importância do que chamam de transferência de base para a instauração da experiência agida compartilhada. Cassorla (2007), por sua vez, escreve a respeito do enactment: Por vezes, verifica-se que o enactment crônico se constitui numa espécie de interação simbiótica. Que coloca em cena fases da evolução: a simbiose necessária como pré-condição para a tomada de consciência da individuação (p. 60). No período de interação atuada, à medida que o analista responde ao paciente, ele está oferecendo continuidade e favorecendo o que Winnicott chama de experiência de ilusão, porque acolhe e legitima os gestos e movimentos do paciente. Ao mesmo tempo, está propiciando uma experiência de alteridade, porque graças à sua subjetividade involuntária, não responde exatamente nos moldes esperados pelo analisando. O analista vai aos poucos se descolando do objeto que ocupa o espaço psíquico do paciente e propicia, assim, uma experiência de continuidade e, ao mesmo tempo, de diferenciação. Além disso, o ato-interpretação, quando ocorre, permite um primeiro esboço de discriminação eu-outro. Godfrind-Haber e Haber (2002) apresentam uma situação clínica em que o analista se via, involuntariamente, respondendo com excesso de ações às solicitações de um paciente extremamente atuador. As reações do analista iam desde Psicanálise v. 17 nº 2,

98 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização falar demais até atender imediatamente a pedidos concretos do paciente, como o de lhe passar uma caixa de fósforos ou de lhe dar um trocado para pegar o ônibus. O analista não podia escapar a uma espécie de imperativo interno de agir assim, e esta curiosa reação se manteve até o dia em que o analista foi pego de surpresa por sua atitude de finalmente fazer oposição a um pedido do paciente. Para os autores, a permanência, por certo período, das respostas agidas do analista, seria resultado da potência projetiva associada às ações do paciente. Essa forma de agir do analista, ainda que desrespeitando a regra de abstinência, talvez na tenha sido um erro, mas sim representado benefício para o analisando. Inconscientemente, o analista teria se adaptado às necessidades primordiais do paciente; a troca agida seria essencial para a constituição de uma segurança ou confiança de base, instaurando um intercâmbio propício ao desenvolvimento da simbolização (GO DFRIND-HABER; HABER, 2002). Godfrind-Haber e Haber (2002) recorrem também às ideias de J.-L. Donnet para relembrar que em certos momentos das análises ocorre um salto mutativo que transforma quantidades em qualidades, salto que continua misterioso à nossa compreensão. Mesmo assim seria possível supor que quando o agir do analista alcança valor de interpretação, ocorre uma passagem, uma travessia de fronteiras intrapsíquicas ligada à diminuição dessa diferença econômicosimbólica que jamais será completamente anulada, uma vez que corresponde à uma exigência estrutural do psiquismo. O fosso econômico-simbólico corresponde a uma defasagem intrapsíquica entre diferentes regimes de funcionamento, objetos ou instâncias; mas embora disjuntas, as dimensões econômica e simbólica se articulam dialeticamente à medida que se desenvolve a transferência. Godfrind-Haber e Haber (2002) sugerem que o período de interações propicia uma experiência de ilusão que promove a confiança necessária ao trabalho de ligação psíquica, favorecendo o processo de simbolização. Creditam ainda outro importante efeito à troca agida: o de participar da constituição de imagens mentais, formas de representação da interação com os objetos que surgem antes do advento da palavra. Alguns conceitos permitem compreender o lugar das interações no processo de simbolização primária. No Projeto para uma Psicologia científica (1895), Freud fala sobre como a descarga e cada movimento nela envolvido produzem uma imagem motora (cinestésica) (p. 370). Fontes (2010) lembra as ideias do biólogo J. D Vincent, em texto escrito com Ferry (2000): as representações do mundo não podem ser consideradas independentemente das ações do sujeito sobre esse 98 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

99 Marina Fibe De Cicco e Eva Maria Migliavacca mesmo mundo. Ele propõe um neologismo: as représenctations ou, em português: as representa-ações (FONTES, 2010, p. 39) Godfrind-Haber e Haber (2002), por sua vez, mostram que antes da aquisição da linguagem, as relações com o ambiente, vividas por meio de interações reiteradas, se fixam em imagens mentais. Os traços ou inscrições das trocas agidas manteriam a aptidão de veicular um sentido relacionado à forma de relação com os objetos, revelando um modo de relação amplamente experimentado no passado. Essas imagens mentais, dizem os autores, remetem ao conceito de representação de ação desenvolvido por Michèle Perron-Borelli (2006). Para esta autora, a representação de ação é sucedânea das ações, exatamente como ocorre quando as representações de objeto substituem sua presença real, e constitui a matriz das fantasias (citada por GODFRIND-HABER; HABER, 2002, p. 1432). Ao favorecer a construção deste tipo de representação imagética, a troca agida propiciaria as bases do processo de simbolização primária. Considerações finais Com a elaboração do conceito de transferência, Freud pôs em evidência a um só tempo as dimensões da relação, do afeto e do agir. Mas foram os analistas que vieram depois dele, em especial os que se depararam com os casos-limite, como Ferenczi, Balint e Winnicott, que sublinharam o potencial transformador das trocas que ocorrem entre analista e analisando sem passar pelo registro interpretativo, mostrando a importância da experiência afetiva e das ações não só do paciente, mas também do analista. Esses aspectos da transferência foram investigados partindo da hipótese de Roussillon (1995 citado por GODFRIN- D-HARBER, 2002) segundo qual na análise dos casos-limite haveria uma fase em que predomina a interação atuada analista-analisando, cujo objetivo seria a reconstituição da pele psíquica. Com base nestas concepções procurei demonstrar que a transferência, nas análises dos casos-limite, se caracteriza por uma outra forma de resgate, que não se dá, ao menos não desde o início, pela interpretação da neurose de transferência como projeção de imagos infantis. Mesmo o campo clínico das neuroses tem mais a comunicar do que a palavra reprimida, como ressalta Garcia (1998, p. 3), mas o objetivo do artigo foi ampliar a compreensão do que se passa nas análises em que a tarefa principal é atrair o trauma para o sistema de representações e constituir os limites do eu. Nestes casos somente a presença inteira, corporal, do analista, poderá fazer face às maciças projeções presentes no campo analítico. Psicanálise v. 17 nº 2,

100 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização O terapeuta erige-se em suporte para a transferência e reordenação não só dos arranjos pulsionais, mas de modalidades de relação marcadas pela ausência ou presença excessiva do objeto traumáticas, portanto. Lembrando que as marcas e impressões dos diferentes registros do aparelho psíquico aos poucos são transcritas para registros mais próximos da palavra e da significação, sugerimos que, quando os pacientes têm déficits importantes em sua capacidade simbólica, são necessárias intervenções que atinjam também os primeiros registros, isto é, formas de intervir/conversar/interagir que não se atenham ao registro da linguagem verbal. Na análise dos casos-limite, como mencionado anteriormente, há uma fase em que o intercâmbio analista-analisando se dá essencialmente nos registros do agir e do corpo, e tentei demonstrar que esse fenômeno pode ser trabalhado psicanaliticamente. A descrição e compreensão das diversas formas de interação atuada que podem ocorrer em análise permite refletir sobre a função que as respostas ou ações do analista assumem em certos tratamentos. A interação atuada pode ser considerada em seu aspecto repetitivo e obstrutivo (enactment), mas também no que tem de potencialmente transformador (experiência agida compartilhada) e no que comporta de disruptivo, constituindo um momento mutativo da análise, sob a forma do gesto ou ato do analista que têm valor de interpretação. Nos dois primeiros casos trata-se de um padrão de interação que se instala ao longo do tempo e que precisa ser analisado para tornar-se transformador; no terceiro caso trata-se de um momento pontual, um episódio de permitir-se levar do analista, deixando-se agir pelo analisando, que desobstrui, via ação ou gesto, um circuito mortífero e estéril repetido em análise. Discutir as peculiaridades da transferência-contratransferência, as modalidades de interação atuada e os caminhos por onde passa a ampliação dos recursos simbólicos dos pacientes permite ainda deslocar a interpretação do lugar de ferramenta privilegiada em certas análises. A transformação de traços e impressões em pensamento só pode acontecer se o analista for receptivo ao retorno, na transferência, de material não-verbal. Isto supõe, em termos contratransferenciais, que ele abra canais de escuta de seu próprio corpo, e que se permita uma abertura em que seus movimentos, internos e externos suas somatizações e ações sejam admitidos como veículos privilegiados de expressão do material primitivo do paciente. É a atividade psíquica do analista que permitirá a apreensão, compreensão e metabolização desta experiência. 100 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

101 Marina Fibe De Cicco e Eva Maria Migliavacca Borderline cases in analysis: about the body, the actions and the symbolization Abstract: The borderline cases have been considered a new paradigm, since they would represent to the current psychoanalysis what hysteria was in the early twentieth century. To broaden the understanding of the borderline cases it is essential to investigate the function and meaning of the motor and bodily manifestations in the clinic. The paper shows that, besides highlighting the importance of the bodily experiences in the constitution of affects and thoughts, it is essential to acknowledge, in the clinical work, what can be communicated by sensorial activity. Assuming that the symptoms of the borderline cases manifest in actions or via body the frustrated attempts of communicating with the first objects, the article highlights the importance that the acted part of the analyst-analysand exchange takes in the transference experience. It examines the role of the actions in the construction of mental images, demonstrating that the interactions that take place in the realm of the action and the body in analysis can provide the basis for the symbolization process. Keywords: Act. Body. Borderline states. Psychoanalytic clinic. Symbolization. Referências BLEICHMAR, S. Clínica psicanalítica e neogênese. São Paulo: Annablume, BORAKS, R. Psicossomática: comunicação deformada. Reverie: Revista de Psicanálise, v.5, n.1, p , BOTELLA, C.; BOTELLA, S. Irrepresentável: mais além da representação. Porto Alegre: Criação Humana, CASSORLA, R. M. S. Do baluarte ao enactment: o não-sonho no teatro da análise. In: Revista Brasileira de Psicanálise, v. 41. n. 3, p , CHAGNON, J. Y. Os estados-limite nos trabalhos psicanalíticos franceses. Psicologia USP, v. 20, n. 2, p FERENCZI, S. A criança mal acolhida e sua pulsão de morte. Psicanálise IV. São Paulo: WMF Martins Fontes, Originalmente publicado em FONTES, I. Psicanálise do sensível: fundamentos e clínica. Aparecida, SP: Ideias & Letras, Psicanálise v. 17 nº 2,

102 Casos-limite em análise: sobre o corpo, o agir e a simbolização FREUD, S. (1893). Estudos sobre a histeria. In: Obras completas. v. 2. Rio de Janeiro: Imago, (1895). Projeto para uma psicologia científica. In: Obras completas. v. 1. Rio de Janeiro: Imago, (1896). Carta 52. In: Obras completas. v. 1. Rio de Janeiro: Imago, (1900). A interpretação dos sonhos. In: Obras Completas. v. 4. Rio de Janeiro: Imago, (1911). Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. In: Obras completas. v. 12. Rio de Janeiro: Imago, (1923) O ego e o id. In: Obras completas. v. 19. Rio de Janeiro: Imago, GARCIA, J.C. O ato analítico e seu potencial de simbolização. São Paulo, Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Desafios para a técnica psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo, GODFRIND, J. L acte, allié ou enemi de la symbolisation. In: CHOUVIER, B.; ROUSSILLON, R. (orgs.) Corps, acte et symbolization. Psychanalyse aux frontières. Bruxelas: Groupe De Boeck, GODFRIND-HABER, J.; HABER, M. L expérience agie partagée. Revue française de psychanalyse, v. 66, n. 5, p , GREEN, A. O analista, a simbolização e a ausência no contexto analítico. In: Sobre a loucura pessoal. Rio de Janeiro: Imago, 1988a.. O conceito do fronteiriço. In: Sobre a loucura pessoal. Rio de Janeiro: Imago, 1988b. KNIGHT, R. P. Borderlines states. Bulletin of the Menninger Clinic, v. 17, p. 1-12, KRISTEVA, J. As novas doenças da alma. Rio de Janeiro: Rocco, MARUCCO, N. C. Entre a recordação e o destino: a repetição. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 41, n. 1, p , ROUSSILLON, R. La conversation psychanalytique: un divan en latence. Revue française de Psychanalyse, 5/2, 692, p , Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

103 Marina Fibe De Cicco e Eva Maria Migliavacca. Le jeu et l entre je(u). Paris: Presses Universitaires de France, Corps et actes messagers. In: CHOUVIER, B.; ROUSSILLON, R. Corps, acte et symbolisation: Psychanalyse aux frontières. Bruxelas: Groupe De Boeck, SAFRA, G. A face estética do self: teoria e clínica. Aparecida, SP: Ideias & Letras: São Paulo: Unimarco Editora, SOUZA, O. Comentário realizado na conferência Por um pensamento clínico complexo, realizada em 25/05/12 no Instituto de Psicologia da USP. Anotações pessoais WINNICOTT, D. W. Contratransferência. In : O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, Originalmente publicado em ZYGOURIS, R. Conferência Simbiose e Interpretação, promovida pelo Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP) no Cine Livraria Cultura (SP). Anotações pessoais Marina Fibe De Cicco [email protected] Eva Maria Migliavacca Av. Prof. Mello Moraes, São Paulo - SP - Brasil [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

104 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial 1 Marina Trench de Oliveira 2 Yvogmar Godoy Rossilho Palauro 3 [...] estados primordiais da mente [...] Nestes estados prevalecem sensações corporais no lugar de fantasias e emoções. Korbivcher, C. F. Transformações Autísticas Resumo: Observando-se o material dos pacientes obesos que procuram pela cirurgia bariátrica verificou-se a existência de um funcionamento mental extremamente primitivo, em que a ingestão constante de alimentos é usada como defesa contra sensações de um terror inominável. O levantamento dos trabalhos dos autores que privilegiaram o estudo das etapas iniciais do desenvolvimento e a correlação de seus achados com os dados observados evidenciaram que as sensações: de mastigação, movimentos da língua e dos maxilares, textura, sabor dos alimentos e sons produzidos, são utilizadas por eles como defesas autistas, sensoriais, frente ao terror da perda de partes do self. Obesos grau II privilegiam o uso das defesas da posição esquizo-paranóide, Obesos grau III o das defesas sensoriais. Inveja e voracidade são fatores-chave dessas personalidades, determinando a forma como ocorre o relacionamento com alimentos, profissionais e cirurgia. Levando-se em conta sua primitividade, são propostas algumas adaptações da técnica no trabalho psicoterápico. Palavras-chave: Adaptação da técnica. Defesas autistas. Depressão. Inveja. Obesidade. Obesidade mórbida. Voracidade. 1 Um primeiro trabalho foi apresentado em reunião científica Um Estudo das Questões Mentais no Quadro Clínico da Obesidade Mórbida, na SBPSP, em 01/09/ Membro Efetivo da SBPSP. 3 Psicóloga Clínica, integrante da Equipe Multidisciplinar da Clínica de Cirurgia Bariátrica de Piracicaba, de 1995 a Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

105 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro À guisa de introdução Por 12 anos uma das autoras fez parte da Equipe Multidisciplinar da Clínica de Cirurgia Bariátrica de Piracicaba, fazendo contato com o universo mental das pessoas que procuram por essa cirurgia, indicada em casos extremos de obesidade. Como não há controle para a ingestão de alimentos, este é obtido através da drástica redução do estômago e parte do intestino; instala-se um controle externo, realizado pelo cirurgião. Participar da Equipe Multidisciplinar da Clínica de Cirurgia Bariátrica remetia ao desconhecido e a se estar lidando com uma população de alto risco; curiosas, e para fazer frente a esses desafios, as autoras decidiram unir-se, mantendo um contato regular, debruçando-se sobre o material levantado nas entrevistas psicológicas iniciais, nas observações realizadas pelos profissionais da equipe - levadas às reuniões clínicas, e no acompanhamento psicoterápico de muitos destes pacientes. Nossas primeiras conclusões foram apresentadas em reunião científica em 2007, na SBPSP, as discussões servindo de estímulo para que continuássemos nossas investigações; posteriormente, o trabalho psicoterápico com muitos desses pacientes permitiu uma visão mais apurada dos fenômenos em jogo e novos desdobramentos. Informações preliminares A obesidade é uma doença crônica, caracterizada por acúmulo excessivo da gordura corporal que pode chegar a graus altíssimos, kg. Segundo a OMS, considera-se Obesidade grau I IMC = 30,0 a 34,9 Obesidade Obesidade grau II IMC = 35 a 39,9 Obesidade severa Obesidade grau III IMC > = 40 Obesidade mórbida. Considerada epidêmica, a obesidade ainda demanda muita investigação. A maioria dos que buscam a cirurgia bariátrica são pessoas comuns, geralmente com uma vida familiar, social e de trabalho organizadas; têm uma doença desencadeada por múltiplos fatores inter-relacionados: hormonais, hereditários, psíquicos, nutricionais e sociais; o aumento desmedido da gordura propicia que surjam várias doenças associadas, levando ao risco de morte. Com os órgãos, envoltos por uma espessa capa de gordura, sob pressão constante, estas pessoas vivem num extremo desconforto: grande dificuldade para respirar, locomover-se, realizar as atividades de vida diária; qualquer movimento requer um esforço enorme. Conforme aumentam de peso e volume, perdem Psicanálise v. 17 nº 2,

106 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial a autonomia, ficando impedidos de se vestir e fazer a própria higiene, transformando-se em bebês gigantes, totalmente dependentes de receber cuidados básicos. Eles são lentos, não conseguem subir degraus, precisam se apoiar num corrimão mesmo utilizando rampas, e parar para se refazer de tanto esforço; tudo isto exige das outras pessoas uma tolerância nem sempre possível. Ocupam todo o espaço disponível, física e mentalmente, derramando-se sobre o balcão de atendimento, sobre os móveis, atravancando as áreas de circulação, reclamando e fazendo exigências, não respeitando regras, pessoas, espaços, provocando muita irritação em quem tem contato com eles. Para estas pessoas, todas as tentativas de perder peso e ganhar saúde fracassaram. Após obterem um diagnóstico de doença associada e o esclarecimento: precisam, sim, diminuir radicalmente de peso e aperceberem-se em risco, vivendo num extremo desconforto, em um momento de contato com a realidade, podem buscar pelo cirurgião; ainda assim, a consulta com os profissionais clínicos: endocrinologista, psicóloga, nutricionista, educadora física, não faz nenhum sentido, sendo vista apenas como mais uma exigência do cirurgião, que, se acatada, poderá levar à cirurgia almejada. Método de investigação Como método de investigação, as autoras basearam-se em sua experiência clínica, desenvolvendo capacidade negativa (BION, 1970) e aguardando até que algo se configurasse e uma imagem ou ideia surgisse, dando forma às experiências vividas. Inicialmente, chamava a atenção se estar lidando com pessoas muito pouco colaboradoras, que esperavam do cirurgião uma ação mágica que atenderia ao seu desejo: tornarem-se magros. Após alguns anos, as características mentais comuns a esses pacientes começaram a tomar forma, sobrepondo-se ao que dizia respeito à individualidade de cada um. Um funcionamento extremamente primitivo remetia as autoras às crianças com quadros de autismo e pós-autismo com que haviam tido contato, levando-as a se debruçar sobre os primórdios da formação do psiquismo. Mente primitiva e nossas observações Tustin (1972), estudando os quadros de autismo psicogênico infantil, chegou à descrição dos primórdios do desenvolvimento mental, numa etapa tão remota que os fenômenos físicos e psíquicos ainda não se distinguem uns dos outros. 106 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

107 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro Em seu trabalho clínico, ela observou ainda que muitos pacientes comuns se utilizavam de defesas semelhantes às das crianças autistas como forma de se proteger de angústias primitivas; geralmente eram pessoas moderadamente neuróticas, inteligentes, bem-sucedidas social e profissionalmente, cordiais e simpáticas, mas que mantinham áreas da personalidade isoladas que não podiam se desenvolver, levando a uma terrível sensação de vazio. Elas se utilizavam de defesas centradas em sensações físicas, que visam evitar o terror a predadores, próprio da época pré e peri-natal, de origem filogenética (TUSTIN, 1986). O que encontramos na maioria dos obesos que procuram a cirurgia bariátrica foram essas características: pessoas que tinham uma vida comum, trabalhavam, constituíam família, mas eram dominadas pela necessidade de comer compulsivamente e assim obter a sensação física tranqüilizante. No início da vida pós-natal, as sensações de desamparo do bebê são amenizadas pelos cuidados e atenção maternos. Uma intensa troca afetiva pode ocorrer quando a mãe desenvolve um quadro mental próprio que permite a ela estar de acordo com as necessidades do seu bebê, e que Winnicott (1956) chamou Preocupação materna primária. Esta condição mental permite que mãe e bebê formem uma unidade simbiótica; um estado essencial para que, posteriormente, a individuação possa vir a ocorrer e o bebê e a mãe existirem separadamente. Nesta condição, a mãe está apta a receber as comunicações, via identificação projetiva realista (BION, 1962), que seu bebê faz, e de responder a ele pela mesma via, uma comunicação não verbal através do tom de voz, tônus muscular, postura, olhar, e expressão facial. É uma experiência baseada nas sensações físicas, uma forma muito primitiva de comunicação empática, que possibilita ao bebê ter a ilusão de estar fundido à mãe, protegendo-o da percepção intolerável por remeter à sua inermidade, de ter existência própria. Será a partir destas vivências iniciais que irá se formar o núcleo do self do bebê, permitindo que o desenvolvimento venha a ocorrer. No processo de projeção-introjeção entre o bebê e sua mãe, ele introjeta também a própria função alfa materna, sua capacidade de receber sensações assustadoras e de digeri-las, passando a ter a possibilidade de desenvolver a capacidade de tolerar a frustração e vir a pensar (BION, 1962). A mãe, ao cuidar do bebê, atendendo às suas necessidades físicas e ao ampará-lo em suas angústias o auxilia a sentir que sua matéria corporal amorfa, agora contida por ela, pode adquirir forma (TUSTIN, 1972, p. 70); ele começa a ter algum contorno. No entanto, muitas vezes isto não ocorre, havendo somente a incorporação do alimento, e não a introjeção da experiência da contenção, mantendo-se o estado de indiferenciação. Psicanálise v. 17 nº 2,

108 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial Para o bebê, a espera excessiva por quem cuida dele leva à quebra da sensação de fusão; como nesta época não há pensamento, pois o espaço mental ainda não se desenvolveu, estas vivências são experimentadas de forma concreta; a separação é sentida como algo físico, como ter algo quebrado ou enterrado no corpo; em consequencia, a criança permanece presa a um mundo informe, sem continente ou significados; presa a um mundo de sensações, não haverá o desenvolvimento da capacidade de sonhar e criar um mundo de fantasia (TUSTIN, 1972). A função de conter o bebê (Função-Mãe) será possível de ser realizada se alguém exercer o papel complementar (Função-Pai), contendo as angústias de morte que ameaçam a díade, caso contrário, mãe e bebê serão invadidos por elas (COLUCCI, 1984). Em Korbivcher (2008), aludindo a uma revisão de sua teoria, Tustin afirma que um sentido de fusão e não diferenciação entre mãe e criança é anormal: as mães das crianças autistas precisam senti-las como parte do seu corpo, e estas aceitam o conluio tamponando o buraco da sua mãe deprimida; numa relação por identificação adesiva (BICK, 1967; MELTZER, 1986), não há espaço para os objetos internos se formarem. Mães deprimidas, que não contam com quem as ampare, não têm libido disponível para se ligar ao seu bebê; podem oferecer cuidados físicos formais, mas não contato afetivo. Para o desenvolvimento é fundamental a capacidade da mãe de, tomando o bebê como objeto, libidinizá-lo, chamando-o ao contato, atraindo-o a um relacionamento que substituirá a autosensorialidade. Nishikawa, citando Bleichmar, refere que quando a criança não pode ingressar na cadeia de significante materna, a narcisação primária fracassará, estando na origem psicogênica do autismo. Haveria uma complementaridade entre os conceitos de reverie de Bion, quando a mãe pode sonhar o sonho do bebê dando-lhe significado, e sua atitude ativa de narcisar o bebê, [...] a cadeia de significante materna seria o próprio sonho e desejo da mãe em relação ao filho, criando uma via de mão dupla onde o bebê alcança o sonho da mãe e a mãe o sonho do bebê; isto irá permitir a criação de um mundo de significados (NISHIKAWA, 2007, p. 14). Será o processo de narcisar o bebê que irá tornar possível a ele, tomando a mãe como objeto e identificando-se com ela, vir a tomar-se como objeto e, posteriormente, a cuidar da própria saúde, aparência e desenvolvimento. No entanto, em geral, os obesos mórbidos não podem olhar para si e muito menos olhar-se de forma amorosa. Vestem-se sem cuidado, expressando a desvalorização; as roupas, jogadas sobre o corpo, não são vistas como algo que poderia auxiliá-los a amenizar e melhorar a aparência. Não têm percepção do seu estado, captam sensorialmente o asco e a rejeição que provocam, a deformação é 108 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

109 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro sentida, mas não percebida, apontando para um estar preso à autosensorialidade anterior ao narcisismo. Na Clínica, antes da entrevista psicológica, os candidatos à cirurgia recebem todas as informações sobre seu estado de saúde, que procedimentos serão realizados, como será o período anterior e posterior à cirurgia e nos meses subseqüentes, mas a maioria deles não chega a assimilar estas informações; elas não fazem o menor sentido. Maria... o Nada Maria chega para a entrevista com a psicóloga auxiliada pelo marido, está com 45 anos, 140 kg, 1,70m, IMC 48 e tem comorbidades: diabetes e pressão alta. Sobe a rampa com dificuldade, a respiração é ofegante e para de quando em quando para descansar apoiada ao corrimão; levantar uma perna significa levantar cerca de 60 kg, cada passo, carregar 200. As roupas, jogadas por sobre o corpo, apontam para sua falta de forma. Entra devagar; o olhar vaga pela sala sem se fixar; senta-se, suspira. Ao ser inquirida sobre suas condições de saúde, e sobre o que entendeu das informações do cirurgião, não sabe o que dizer, nem porque resolveu procurar a cirurgia. Refere: - Não sei... acho que está tudo bem... não sei... os exames? Acho que estão bons... Acho que vai ser bom... meu marido apoia... minha filha falou que é bom... - O Doutor orientou como você vai ter que fazer, antes e depois da cirurgia, para obter sucesso na perda de peso? - Ah... não sei... acho que minha filha vai ver... - Como é o seu dia, o que costuma comer? _ Ah!...eu como lanche... coca... refrigerante... porcaria...- O que faz? - Trabalhava no treiller... com meu marido, mas... agora fico em casa; não agüento fazer o serviço..., tenho que sentar... fico cansada... - Como se sente com isso? - Cansada... Quero deitar... - Você lembra quando isso começou? - Ah! Eu acho que sempre fui.., mas quando fiquei mocinha acho... e quando casei... Para Maria tudo é vago, impreciso, sem referências, como numa neblina. Da mesma forma como não sabe informar sobre seu dia a dia, a não ser que cansa e não agüenta fazer nada, ignora a gravidade do seu estado de saúde, como será a cirurgia, o período posterior e como irá lidar com tudo isto; só percebe seu enorme desconforto. Não pode tomar decisões, alguém diz que é bom operar, marido, filha, cirurgião, mas ao se dar conta de que a cirurgia poderá tirar seu desconforto, aceita a sugestão. As experiências da necessidade e do prazer da sucção e o conter o bico do seio na boca e na língua fornecem o primeiro modelo de contensão e fusão; Psicanálise v. 17 nº 2,

110 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial estas zonas são o centro das vivências do recém-nascido, o bebê está centrado na região bucal. Tustin (1972) nos lembra que a língua é o primeiro grande explorador e será a sensação de tê-la dentro da boca que permitirá vivenciar a noção de espaço e de um interior. Dentro da boca é a primeira experiência, sem isto a vida interior não tem como se desenvolver, e mais, o sentimento de corporalidade e ocupar lugar no espaço são inseparáveis, assim como a sensação de dentro e fora; quando estas primeiras experiências não são vivenciadas de forma adequada, não há como desenvolver vida interior, restando uma impressão de vazio e de coisas vagas encontradas nas crianças autistas e nos pacientes neuróticos que utilizam defesas autistas. Encontramos estas características nos pacientes que desenvolveram o quadro de obesidade mórbida. Como não construíram uma boa noção de si mesmo não sabem o corpo que têm, alucinam que são magros; literalmente, não sabem o espaço que ocupam. Nas entrevistas médicas após a cirurgia, é freqüente obesos mórbidos que já emagreceram significativamente (20% do peso em 3 meses), perguntarem incomodados se os móveis da sala foram trocados, ou porque sua cadeira está colocada tão distante da mesa de consultas, não se apercebendo que as cadeiras especiais para obesos, e sua distância da mesa, são as mesmas e que eles é que diminuíram de volume. No estado fusional, a ansiedade se deve ao terror de que a limitação da superfície de si mesmo desapareça e de se cair num espaço infinito e informe; ao terror de queda incorporam-se outros: ser derrubado, cair infinitamente, liquefazer-se, derramar-se, dissolver-se (TUSTIN, 1972). Em Brunch (1974) temos o relato feito por um jovem de 14 anos, com 225 lbs (180 kg), do seu medo de derramar-se perdendo a gordura que o sustentava. Tenho medo de me machucar, pensei que meu corpo era como uma fina camada de pele sobre um monte de gelatina, se me machucasse a gelatina sairia pra fora. [...] veria uma poça de geleia ou sopa de ervilhas e um balão de pele solta em volta dos meus ossos e músculos [...] pensei que tudo iria fluir pra fora e eu ficaria vazio. Tinha tanto medo desse vazio que isso levou a me empanturrar de verdade (tradução livre) (p. 91). Em praticamente todas as entrevistas pré-cirúrgicas, realizadas em 12 anos de trabalho, encontramos referência à sensação de derramamento e de terror descritos. 110 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

111 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro As impressões sensoriais constituem uma vivência primária normal, e a construção de um self rudimentar se fará no ritmo das sensações sobre a pele e as mucosas, pela contiguidade sensorial. Quando a percepção precoce de individuação surge antes que um senso seguro de continuar a ser (TUSTIN, 1986, p. 26) tenha se estabelecido, a criança se protege, procurando alguma segurança principalmente nas sensações superficiais da pele e das mucosas, na tentativa de manter alguma integração. Para alcançar algum senso de definição, busca se aderir às superfícies, ser contínua a elas; busca sensações que permitam vivências tranquilizadoras em substâncias macias tanto do próprio corpo como externas a ele, e, através de substâncias e objetos duros, a de ter uma concha protetora. Assim, fica presa a atividades sensoriais quase constantes para se proteger de algo insuportável, perceber-se separada, frágil, quebrada; são ações como morder a língua ou a bochecha e que, geralmente, passam despercebidas aos adultos (Formas e objetos autistas, TUSTIN, 1972, 1986). Em nossas observações, encontramos pessoas com áreas da personalidade fixadas nos primeiros estágios do desenvolvimento, presas a um mundo sensorial, sendo, as sensações oferecidas pela boca, fonte de segurança. Para evitar sentir que perderam partes de si mesmo, partes da boca, procuram mantê-la sempre cheia e em movimento; a mastigação, deglutição e movimentos da língua e dos maxilares, assim como os sons produzidos, garantem por alguns instantes a volta à sensação de inteireza. É uma tentativa desesperada de reencontrar a fusão, de tamponar a boca estragada, mas a cada deglutição as angústias retornam, obrigando a reiniciar todo o processo, num comer sem fim, que tem como conseqüência o quadro de obesidade mórbida. O prazer associado à satisfação da fome, com os correlatos de satisfação olfativa, gustativa e visual, de se sentir saciado, com o interior preenchido, associado a uma imagem materna afetiva, é perdido ou não se desenvolveu. No comer compulsivo, os alimentos são utilizados como objetos e formas autistas (TUSTIN, 1972, 1986), alimentos duros e crocantes oferecendo a sensação física do duro e a ilusão de uma concha protetora; alimentos macios e cremosos, de conforto e bem-estar. Sendo a busca exclusivamente por sensações tranquilizadoras, não podem permanecer dentro das quantidades alimentares adequadas. Para manter a sensação de existência, empanturram-se, visando alcançar a experiência concreta da presença do estômago. Como a capacidade de discriminação não se desenvolveu, ou foi atacada, não podem levar em conta a realidade: o estômago tem tal capacidade para receber alimentos, ou gordura demais põe a vida em risco. Vivem como se limitações não houvessem, ingerem quantidades inacreditáveis de alimento, Psicanálise v. 17 nº 2,

112 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial criando distorções em seu corpo semelhantes às do seu mundo mental, gerando quadros clínicos cada vez mais graves. Para se protegerem dos seus terrores, correm o risco de vir a morrer. Cláudio, centrado em si mesmo Cláudio está sempre mastigando, mesmo quando vai para as consultas: bolacha, batatinha, sanduíche, chicletes. Embora converse bem, trabalhe, tenha família, está sempre centrado em si mesmo. Na ocasião da entrevista estava com 56 anos, 1,75m de altura, 135 kg, IMC 44. Mostra-se sempre irritado, queixando-se dos profissionais. _ Não sei para que tudo isso! Tanto exame! Vir aqui... e agora o doutor disse que vou ter que emagrecer mais! A cirurgia não é para isso?! Que saco! A Dra X quer que eu pare de comer batatinha! Só se eu morrer! A Dra Y quer que eu faça mais exercício, como se eu pudesse... Numa das ocasiões em que foi à clínica, dirigiu-se ao elevador, sendo visto pela psicóloga que aguardava na fila. Ele não a vê, assim como não vê as outras pessoas ou a fila. Passa direto, vai até a porta fechada do elevador e, quando este chega, fica ali parado, tamponando a porta com todo o seu corpo, de tal maneira que ninguém pode sair. Cláudio olha perplexo, sem saber o que está acontecendo, o que aquelas pessoas fazem ali; também não percebe que se não se afastar, ninguém vai poder deixar o elevador e liberá-lo para que entre. O elevador deveria estar esperando por ele; não tem noção do que é uma fila, nem de que, se aquele está cheio, será necessário esperar que esvazie para poder entrar; também não há registro de um estômago que precisa ser esvaziado para poder receber mais alimento; existe a necessidade de mastigação, mas não a percepção de um estômago com uma determinada capacidade. Não tendo construído os conceitos de ocupar lugar no espaço, dentro e fora, continente-contido, não há noção de um interior físico ou mental, vive num mundo bidimensional, a tridimensionalidade não tendo sido ainda alcançada (MELTZER et al.; 1975). Obesos mórbidos comem sem parar, procurando desesperadamente tamponar o que está quebrado, e retornar a um tempo em que as necessidades eram automaticamente atendidas pelo organismo materno. Para isso, freqüentemente se utilizam também da televisão e da internet, que se prestam a envolvê-los num mundo de sons e imagens sem significado; comendo com a boca, os olhos, os ouvidos, procuram desesperadamente regredir a um universo de sensações que os envolve como uma bolha de segurança, evitando o terror de perder a pele que 112 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

113 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro mantêm unidas as partes do corpo e do self, do sentir derramar-se. Posteriormente, a capa de gordura, decorrente da alimentação desenfreada, passa a ter a função de segunda pele (BICK, 1967), pois, quando a primeira é sentida como muito frágil, será necessário reforçá-la, construir um escudo protetor. Como vimos, a quantidade de gordura atinge tais proporções que os obesos mórbidos ficam praticamente engessados por ela. Ao buscar a cirurgia bariátrica, eles procuram obter concretamente o controle alimentar através de um agente externo; estando presos num universo onde a ingestão de alimentos é uma proteção sensorial contra um estado indescritível de terror, é extremamente difícil para eles cooperarem com a equipe. O que se pretende, que eles diminuam drasticamente o que ingerem, é tudo o que não podem fazer, a sensação de impotência é absoluta; são ainda assolados por sentimentos de ódio pelos que se propõem a auxiliá-los a conseguir realizar esta missão impossível. Quando funcionando num registro esquizo-paranóide, os pacientes obesos veem os profissionais da equipe como críticos frente ao seu estado; projetam neles um superego sádico, acreditando que julgam seu comportamento vergonhoso, que não emagrecem por que não se esforçam e não porque não são capazes. O cirurgião fica com a parte idealizada, vai salvá-los com sua cirurgia restauradora, instalando o controle e a discriminação que lhes falta, tamponando o que está estragado, levando à sensação de inteireza. Com sua atitude auto-centrada, hostil a qualquer realidade, estas pessoas provocam reações de agressividade, via identificação projetiva, em todos os que têm contato com eles; nos casos mais graves, a violência das manifestações protomentais determina nos profissionais reações de evasão contra estes estados desorganisadores. Isto faz com que este seja um trabalho penoso, que poucos suportam realizar; para entender estes mecanismos e não se deixar levar por atuações contratransferenciais, a equipe necessita do auxílio do psicólogo. Klein (1957) descreveu a inveja como o grande fator constitucional que leva às dificuldades emocionais, e que surge já no início da vida. Existe sempre em algum grau como um sentimento de ira por outra pessoa possuir ou desfrutar algo; o impulso é tirar do outro o que é invejado e inutilizá-lo, e, principalmente, destruir a criatividade da mãe (p. 212), sua possibilidade de gerar vida; no caso, a capacidade da equipe. É uma manifestação dos impulsos destrutivos, e quando excessiva dificulta a formação do bom objeto já que este é imediatamente atacado e destruído tornando-se mau. Assim, a pessoa está sempre insatisfeita, seus objetos tornam-se instáveis e indiscriminados, e ela, impedida de confiar nos profissionais, que passam de parceiros a perseguidores. Psicanálise v. 17 nº 2,

114 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial Muitos pacientes ouvem as orientações aparentando aceitar e conhecer o que devem fazer para que a cirurgia tenha sucesso, mas não têm nenhuma intenção de colaborar. Sabendo que sem a avaliação da equipe multidisciplinar a cirurgia não será realizada, simulam uma aceitação que de fato não têm. Acreditam que existe uma mágica que lhes dará o que desejam, um corpo magro, sem que precisem fazer nada para isso; basta desejar e atender ao desejo do cirurgião. A equipe é vista como aquela que deteria o poder sobre esta mágica, e suas orientações, uma forma de exercer um poder perverso e dificultar a vida de quem depende dela. Os mais invejosos são francamente hostis, denigrem os profissionais, afirmando que tudo o que lhes é oferecido não presta, que já fizeram tudo o que lhes é recomendado sem resultados. Procuram jogar uns contra os outros, e principalmente a equipe contra o cirurgião, atacando qualquer possibilidade de fazer vínculo e trabalhar em dupla. Atacam o casal parental, que cria vida. Ana, o triunfo. Ana deseja muito ser magra embora considere muito difícil seguir as recomendações da nutricionista e realizar o que a educadora física propõe. Acredita que com a cirurgia sua vida estaria resolvida. Estava com 49 anos, 89 kg, 1,63 de altura, IMC 34, sem comorbidades; não havendo indicação cirúrgica, deveria prosseguir com o tratamento clínico. Após 2 anos retornou com IMC 36 e diabetes. Chega mostrando-se exigente, reclamando: - Não chega falar com o médico e fazer um monte de exames, ainda tenho que vir aqui, falar com a nutricionista, com a educadora física, com você! Arre! Não sei pra que tudo isso. Da outra vez fiz tudo isso e não quiseram me operar. Disseram que não precisava, que era só fazer o regime e exercício. Não adiantou nada! Agora estou com diabetes e resolveram operar. O que a gente tem que passar. Saco! Eu queria fazer a cirurgia e pronto, emagrecia. Após a cirurgia, ficou-se sabendo que a paciente havia ingerido uma bandeja de cocadas antes de realizar o exame para avaliação glicêmica, provocando um falso positivo. Triunfante por ter enganado a equipe e obtido a satisfação do seu desejo, a cirurgia salvadora, vangloriava-se diante dos familiares. O reconhecimento de haver critérios para indicação cirúrgica ou o cuidado com a saúde eram inexistentes; importante era a satisfação do desejo, e, melhor ainda, triunfar sobre os opositores, vencê-los, humilhá-los, vingar-se dos objetos internos maus. 114 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

115 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro Características mentais dos obesos I, II e III - semelhanças e diferenças Todos os pacientes entrevistados responsabilizaram os remédios, que tomaram para perder peso, pelo fato de voltarem a engordar após a interrupção do tratamento. Como não se dão conta da interrupção ter sido feita por conta própria, sem orientação médica ou nutricional, de não terem seguido a dieta prescrita, nem a orientação para desenvolver atividade física, pouco podem fazer por si. Associam à ansiedade o ganho peso, mas não consideram significativa a quantidade de alimento que ingerem quando estão ansiosos, seja por cisão, negação ou falta de discriminação. Nos adultos com áreas da mente desenvolvidas, mas com núcleos autistas encapsulados, os terrores perinatais são revividos sempre que há uma expectativa muito elevada não alcançada; pode ocorrer após a lua de mel, quando nasce um filho, na meia-idade, etc. Por sentirem ter partes danificadas, ao entrar em contato com a realidade das limitações a experiência de desilusão destruidora é reeditada (TUSTIN, 1986, p. 28). Encontramos que a maioria dos obesos relaciona o ganho excessivo de peso com situações de marcada mudança, em que há passagem de uma fase da vida para outra. Existem nuances diferentes conforme a época em que a obesidade se desenvolveu, mas está sempre relacionada a uma crise de identidade. As épocas de passagem: entrada para o ensino fundamental, adolescência, casamento, filhos, envelhecimento, são de desequilíbrio psíquico; quando o ego não está bem estruturado podem ocorrer rupturas e o surgimento de ansiedades perinatais, a regressão levando ao uso de defesas muito primitivas. Com a perda da identidade adulta retorna-se a um estado de indiferenciação, posteriormente, o peso excessivo estende isto para o corpo físico: a pessoa perde as formas, torna-se física e mentalmente amorfa. Embora tenham aspectos desenvolvidos, vivem sob a imposição de atender a essas demandas sensoriais que lhes oferecem proteção. Quando entram em contato consigo e com a realidade, apresentam uma insatisfação constante, um desconforto físico e mental, sentindo muita vergonha e raiva por estarem nessa condição. Nos três grupos de obesos, grau I, II e III (embora com características diferentes), a depressão está sempre presente, assim como a dificuldade em discriminar, o que leva a uma redução da sensibilidade para os sinais que indicam saciedade, mas, existem diferenças significativas quanto aos fatores mentais atuantes. Quanto mais primitivas as defesas privilegiadas, mais grave o quadro clínico, maior o grau de obesidade; somente para os que já nasceram obesos, tendo um ou ambos os pais e familiares obesos, o fator genético é mais significativo do que os mentais. Psicanálise v. 17 nº 2,

116 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial Importância do contexto familiar Deparamos-nos frequentemente com uma dinâmica familiar onde o obeso mórbido tem a função de oferecer a ilusão de ser um bebê necessitando de cuidados constantes, revivendo a situação de fusão e de tamponamento do buraco da família deprimida. Repete-se a falha na capacidade familiar para receber, conter e nomear as angústias do bebê, hoje obeso mórbido, permanece a dificuldade em discriminar necessidade e desejo e aceitar diferenciação e individuação, a patologia familiar levando ao desenvolvimento e manutenção do quadro clínico e ao boicote do tratamento. Obesos grau III (IMC > 40) não fazem a discriminação eu-outro, pois vivem a ilusão de fusão; consequentemente, é a própria capacidade de discriminar que é atacada ou não se desenvolveu; possuem áreas do funcionamento mental onde a noção de objeto e de um interior não foram alcançadas, assim, a questão mais importante não é a voracidade e as ansiedades persecutórias decorrentes, mas o terror de perder partes de si mesmo e o uso de defesas autistas privilegiando as sensações ligadas à superfície das mucosas, e sons produzidos; sua sensação é de coisas vagas e não de um vazio interno. Nestes casos, estamos diante da depressão psicótica (TUSTIN, 1972), por quebra da ilusão de fusão, com perda de partes do self, e não da depressão por perda ou destruição do objeto, própria de etapas mais evoluídas, que nos remeteria às questões do luto. Nos casos mais graves, com IMC = > 50, encontramos pessoas que vivem um extremo desconforto e enfrentam muitas restrições sociais e físicas: não cabem em cadeiras ou poltronas nos lugares públicos, não conseguem se vestir, amarrar os sapatos, fazer a própria higiene. Quando é a família que procura pela cirurgia, mas o obeso ainda não se apercebeu de quão desconfortavelmente vive, tem-se que avaliar melhor sua capacidade de colaboração; geralmente estão aquém disto. Já, se eles têm a experiência concreta do desconforto e se dão conta de que estão encarcerados dentro da gordura, buscam pela cirurgia. Neste momento, são mais receptivos às orientações, porque necessitam mudar a forma de viver e têm muito medo de não conseguir sair deste quadro ou de retornar a ele; a cirurgia é a única chance de se obter alguma melhora das condições de vida; aceitam ter uma doença crônica e necessitar da colocação concreta de um limite para a ingestão alimentar. Obesos grau II (IMC 35 39,9) podem suportar ter existência própria, mesmo não distinguindo a sensação de fome fisiológica da sensação psíquica de um vazio interno. Desenvolveram a noção de tridimensionalidade e, consequentemente, a noção de um interior; sentem a existência de um vazio dificilmente 116 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

117 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro preenchível que gera grande ansiedade, mas não perderam partes de si mesmos. Apesar de terem núcleos autistas, contam também com o funcionamento próprio da posição esquizo-paranóide. Aqui estamos diante das questões do luto e sua não-elaboração, a obesidade sendo a contrapartida da depressão, a negação levando ao estado maníaco tão frequente entre eles. Neste quadro, a voracidade terá especial importância. João: voraz e competitivo João é um comerciante bem-sucedido. Agressivo, ativo, competitivo, quer sempre expandir seus negócios. Tem amigos que realizaram a cirurgia bariátrica e conseguiram emagrecer; ele já chega bem informado. Tem 58 anos, 1,80m de altura, 130 kg, IMC 40. Na entrevista, mostra-se simpático, mas exigente; quer sempre estar no controle da situação. Entra na sala com desenvoltura. _Ah! Estou cansado! Já não sou mais o mesmo! Por isso quero a cirurgia. Quero voltar a ser o que era. O Dr. X me falou da cirurgia e do pós-imediato, e também como será depois. Vai ser uma barra, mas eu preciso conseguir, tenho que ser vitorioso! Meus amigos conseguiram! Não posso ficar por baixo.... O que como? Bom, eu sempre prefiro coisas crocantes como batatinha, o tempo todo; é engraçado, tenho amigos que vivem de leite condensado, e para mim é batatinha! (e rindo) Acho que gosto de morder! E carne, muita carne. Este peso eu estou conseguindo porque tenho uma cozinheira que já fez a cirurgia e sabe o que eu posso comer. É como um negócio, para dar certo você precisa ter uma porção de gente para te ajudar. Vai ser difícil, eu sei, eu sempre quero mais e mais em tudo, mas meu orgulho vai me ajudar a vencer. Seu orgulho e competitividade podem ajudá-lo, difícil será vencer a voracidade, mas ele tem a capacidade de reconhecer seu ponto fraco, a dificuldade de se conter, e pode se associar a pessoas que realmente o auxiliam. Klein e Riviere (1937) apontam que a voracidade é o desejo da posse de toda bondade que possa ser retirada do objeto, mesmo que isto possa resultar em sua destruição; é um desejo insaciável que ultrapassa as necessidades do sujeito e a vontade ou capacidade de dar do objeto, visando secar e devorar o seio nutridor. Em algum grau, sempre existe no inconsciente; representa o desejo de viver mesclado aos aspectos agressivos e passa a se expressar pelo desejo de se obter diferentes coisas: bens, dinheiro, poder, posição social, comida. O significado inconsciente, porém, é sempre o de incorporar o bom objeto, neutralizando o medo de nos percebermos cheios de maldade; quando a necessidade de ingerir = adquirir todo o bom está associada a uma grande destrutividade, leva à sensação de nunca estar preenchido, pois o que é ingerido é imediatamente destruído. Psicanálise v. 17 nº 2,

118 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial A obesidade está, portanto, relacionada à agressividade oral; os obesos grau II negam a ausência, perda ou destruição do objeto, procurando superar a depressão através da incorporação repetida do alimento que o representa - estamos no campo da equação simbólica (SEGAL, 1981). Procuram introjetar concretamente um objeto bom que preencha o vazio deixado pelas fantasias de destruição (para acalmar a culpa depressiva), para neutralizar a presença de um objeto mau (perseguidor) ou para reforçar um ego frágil; no entanto, como o que é introjetado é atacado a seguir (a própria mastigação levantando essas fantasias), será preciso ingeri-lo = introjetá-lo novamente. No entanto, estas são pessoas que, apesar de toda a ansiedade, mantêm acesa a esperança de readquirir (reparar) o bom objeto, diferentemente das que diante de situações de grande ansiedade não conseguem se alimentar, pois vêem alimento = veneno, por projeção da destrutividade. Obesos grau I (IMC 30 34,9) frequentemente têm um discurso baseado na busca da saúde, mas na realidade se preocupam com a questão estética; não consideram a obesidade uma doença, para eles doentes são os com IMC > 50. Desejam emagrecer porque serão vistos como magros: magro = bonito = bom; a percepção da necessidade da cirurgia como forma de ganhar saúde fica com a equipe. Com frequência, tal como Ana, obesos que não atingiram as condições para indicação da cirurgia procuram engordar ainda mais visando alcançar seu objetivo, a mágica cirúrgica. Muitas das pessoas que têm condições para arcar com os custos da cirurgia partiram de condições socioeconômicas difíceis e alcançaram sucesso; sentem que, sendo vencedores, não precisam mais viver dentro de limitações, acreditam que podem comprar tudo o que desejarem, conseguir tudo que almejarem. Querem a cirurgia, e, como resultado, a perda de peso, mas como algo que pode ser adquirido imediatamente e não como o primeiro passo de um longo e contínuo esforço. Nestes casos encontramos, com freqüência, a inveja como fator significativo. Fenômenos observados posteriormente à cirurgia 1. Após a cirurgia os pacientes sentem que alcançaram tudo o que desejavam. O fato de não haver queixa quanto a dores pós-cirúrgicas sugere que só percebem mal-estares difusos, não discriminando as sensações. 2. A cirurgia bariátrica possibilita uma vivência de renascimento. Para pessoas que utilizam defesas próprias de etapas perinatais, a dieta líquida, e posteriormente pastosa, confirmam a fantasia inconsciente de ser um bebê que mama. Os que podem usar este momento para transformar suas vivências, apoiados pela equipe multidisciplinar continente, reelaborando conflitos e ampliando as áreas 118 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

119 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro evoluídas da personalidade, têm uma boa evolução: lutam ao lado da equipe, conseguem se adaptar ao tipo de dieta e às quantidades indicadas; caso contrário, as dificuldades terão início. 3. Para a criança em desenvolvimento, o aparecimento dos dentes leva à possibilidade de realizar ou não as fantasias de agressão oral, mas para a criança autista ou com áreas da personalidade fixadas nestas vivências, dispara fantasias atávicas do tipo predação-predador associadas a toda experiência não-eu e à experiência de depressão psicótica (TUSTIN, 1972). Assim, para muitos, as fantasias predatórias tornam impossível a mastigação, dificultando a readaptação à dieta sólida. 4. Após a perda de peso, o obeso mórbido deverá passar por muitas cirurgias reparadoras: abdômen, braços, pernas. A vivência da reparação dos objetos internos é alcançada e concretizada na reparação do corpo, sendo transmitida às outras pessoas, desta forma, mesmo com as marcas das cicatrizes, sentem-se lindos e são vistos como tal. Os que, cheios de inveja, desejam alcançar a perfeição, estarão sempre insatisfeitos, não há reparação possível, tudo está destruído: seus objetos internos, seu corpo, seus relacionamentos. Irão para a cirurgia plástica com o intuito de denegrir o próprio corpo e, frequentemente, o médico que os assiste. 5. Nas consultas após a cirurgia, uma queixa freqüente é a de uma intensa perda dos cabelos; a hipótese médica seria de avitaminose decorrente da dificuldade de absorção dos nutrientes, no entanto, aumentar a ingestão dos mesmos não atenua o quadro. Isto nos leva a pensar: Qual a função de cabelos para o psiquismo? Oliveira (2007) aponta que a função biológica de proteção dos pelos-cabelos se estende às questões mentais. Presente no recém-nascido humano, [...] o reflexo de preensão... evidencia um fator filogenético para um agarrar-se a uma mãe-pelos, que nos protegeria de um cair sem fim.... uma pré-concepção quanto a cabelos como defesa contra o terror de cair, algo que oferece segurança e continência (p. 149). No caso dos obesos, a queda dos cabelos expressa a perda deste objeto contensor primitivo, o paciente sente que está prestes a se liquefazer, a cair. Num funcionamento por identificação adesiva (BICK, 1967; MELTZER, 1986) a queda dos cabelos é a queda do sujeito; um primeiro sinal de que está sem defesas, em sério risco. 6. Após cinco anos, muitos obesos estão acima do peso e com doenças associadas. Com o estômago drasticamente reduzido, não podem utilizar a ingestão continuada como defesa, e emagrecendo, perdem a capa de gordura, a segunda pele. Como a retirada das defesas se deu por uma ação concreta, cirúrgica, e não por desenvolvimento do ego, não se constituíram maneiras evoluídas para fazer frente às angústias; muitos deles surtam, ou lançam mão de substitutos sensoriais tornando-se adidos ao álcool, às drogas ou promíscuos. Outros continuam lutando bravamente, mas o sofrimento é de tal ordem, que acabam preferindo a Psicanálise v. 17 nº 2,

120 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial morte, assim o número de suicídios alguns anos após a cirurgia não é pequeno; com todas estas dificuldades, o número dos que realmente conseguem manter-se organizados acaba não sendo tão alto quanto se desejaria. Com a cirurgia, obtêm alguma sobrevida, mas Tânatos está sempre à espreita. Considerações sobre o trabalho psicoterápico com obesos mórbidos Apenas uma minoria dos pacientes operados busca por este auxílio; são os que têm aspectos mais saudáveis e amorosos e capacidade para fazer uma dupla produtiva; mesmo assim, um psiquismo tão primitivo exige do profissional tal disponibilidade, e adaptação do setting, que nem todos estamos dispostos a fazer. Muitos são como prematuros; precisam ser atendidos sempre que necessitam, sem esperar, pois não toleram a não fusão, não podendo se adaptar à realidade de um intervalo regular entre as sessões. Para não ter a sensação de estar se liquefazendo, necessitam de um terapeuta disponível, num estado semelhante ao da preocupação materna primária, voltado para eles e que possa atendê-los quando e se solicitarem. Sentem-se facilmente desconsiderados, desfazendo-se, quando tentamos trabalhar com dias e horários fixos, pré-marcados, várias vezes por semana, como consideramos que seria indicado (afinal são casos graves). Para eles o tempo, como o conhecemos, não existe; vivendo na bidimensionalidade, o tempo é oscilante, e na tridimensionalidade, circular, portanto, nunca passa (MELTZER, 1986); assim, para eles, apenas suas necessidades são reais, não havendo possibilidade de realizar adaptações. Baseando-se nestes dados, a terapeuta que os atendeu se dispôs a realizar a experiência e trabalhar permitindo que os pacientes agendassem seus horários sempre que necessitassem. Estando-se diante de um psiquismo perinatal, decidiu-se respeitar a fusão e a indiscriminação. O terapeuta, proporcionando um ambiente que se adapta ao paciente, ofereceria a possibilidade do mesmo ter a vivência de não ter perturbado seu senso de existir, de continuar a ser, sem precisar reagir, como aponta Winnicott (1949), e, talvez assim, alcançar algum desenvolvimento. Estamos propondo que aceitar estas condições não é uma atuação do analista, mas uma adaptação da técnica que se faz necessária diante da impossibilidade destes pacientes se aterem às nossas propostas quanto à forma de trabalho, caso contrário, eles não ficarão conosco, pois estaremos pedindo algo que eles não podem oferecer. Esta experiência mostrou-se exitosa: muitos têm podido manter o trabalho psicoterápico por muitos anos, assim como a perda de peso, e posteriormente sua estabilização; têm evoluído, conseguido comparecer às sessões, mesmo sendo de outras cidades, chegando a fixar um horário semanal, embora possam 120 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

121 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro pedir trocas com certa frequencia; têm se mantido relativamente integrados, sem fazer uso de objetos autistas (alimento) e da concha protetora da capa de gordura. Nestes casos existe a presença de dois fatores da maior importância: Gratidão, pelos profissionais e amigos que os acompanham, e a possibilidade de fazer aliança com pessoas amorosas que os auxiliam na luta para manterem-se vivos física e mentalmente. Eros está presente. Depois de algum tempo, cerca de dois anos, surgem referências a lembrar do que o terapeuta lhes disse, e aferram-se a essas comunicações para fazer frente aos pensamentos destrutivos do tipo: não adianta, você não vai conseguir ou, vai lá e coma!; começam a introjetar um objeto contensor amoroso, que não faz retaliações e pode tolerar deslizes. Alguns relatam que, ao serem atacados pelo desejo de assaltar geladeira, colocam um tênis e saem para caminhar; com isto afastam-se do alimento = veneno que os seduz, e, fazendo exercício, não somente queimam calorias, como atendem à premente necessidade de estimulação sensorial: não só produzem endorfina, como sentem a musculatura trabalhando, o suor escorrendo (e não eles se liquefazendo), o coração acelerando (estão vivos!); essas vivências concretas, sensoriais, levam à integração e afastam o desespero de perder partes de si mesmo. Mostram-se ainda extremamente aliviados e gratos quando se consegue oferecer a eles a descrição de um estado para o qual não têm imagens ou palavras, e que sentem que ninguém pode compreender; deixam de estar em completa solidão. O acompanhamento destes pacientes mostra, no entanto, que o equilíbrio alcançado é extremamente delicado, podendo ser rompido por qualquer fato da realidade que os toque. A simples menção de que outro pós-operado voltou a ganhar peso é suficiente para desestruturá-los; identificam-se com o outro a tal ponto que ficam fusionados a ele, já não sabendo mais quem engordou. A frágil rede que conseguiram tecer, e que os contém, rompe-se; a consequência é o voltar a comer desenfreadamente, retornando às defesas autistas. Sentir-se repleto evita o sentir-se cheio de buracos, o que ameaçaria seu senso de existir. Nestes momentos não há discriminação entre sensações e sentimentos. Além disso, para manter a identidade, mesmo tendo alcançado algum desenvolvimento, buscam desesperadamente pelo olhar do analista; como bebês que precisam ter a vivência de serem refletidos pelo olhar da mãe para iniciar o processo de formação da identidade (WINNICOTT, 1967), estão na dependência de que o terapeuta seja realmente capaz de vê-los e refletí-los para que este processo seja retomado, e sua frágil pele psíquica restaurada. Apesar destes pacientes evoluírem, adquirirem consciência do seu estado, lutarem para permanecer organizados física e mentalmente, são presas fáceis de qualquer situação que remeta à possibilidade de viver de forma fusional: pode ser um relacionamento, álcool, drogas, alimento; é algo que se lhes apresenta Psicanálise v. 17 nº 2,

122 Obesidade mórbida, com-pulsão: quando a vida é sensorial com uma atração avassaladora e, por mais que tenham clareza das conseqüências, não podem frear-se. Sofrem demais com isso, lutam contra essa atração, mas, quando expostos a essas situações, podem ser facilmente dragados por esse redemoinho sensorial. Continuam a ser pacientes de risco. Morbid obesity, compulsion; when life is sensory Abstract: Observing material from obese patients seeking for bariatric surgery, an extremely primitive mental functioning was seen, where constant food ingestion is used as a defence mechanism against extreme unnamable terror. Investigating works by authors which have focused on studying the initial stages of development and correlating their findings with observed data, show that the sensations: chewing, tongue and jaw movements, texture, food flavour, and the sounds produced, are used by them as autistic defences, sensory, when faced with the terror of loosing parts of the self. Grade III obese individuals favour functioning from the sensory defense, grade II obese individuals also use defences of the paranoid-schizoid position. Envy and voracity have been seen as key factors of these personalities; the way the relationship occurs with foods, professionals, and surgery, will be determined by these characteristics. Taking into account their primitiveness, some changes in psychotherapy work technique are proposed. Keyword: Autistics defences. Depression obesity. Envy. Morbid obesity. Technical adaptation. Voracity. Referências BICK, E. A experiência da pele em relações de objeto arcaicas. In: Melanie Klein hoje. v. 1. Rio de Janeiro: Imago, Originalmente publicado em BION, W. R. Aprendiendo de la experiencia. Barcelona/Buenos Aires: Paidos, Originalmente publicado em Atenção e interpretação. Rio de Janeiro: Imago, Originalmente publicado em BRUNCH, H. Body imege and self-awareness. In: Eating disorders: obesity, anorexia nervosa and the person within. London: Routledge & Kegan Paul, COLUCCI, A. M. Função-pai e função-mãe: continentes de vida e morte. Apresentado em reunião científica na SBPSP, KLEIN, M. Inveja e gratidão. In: Inveja e gratidão e outros trabalhos Rio de Janeiro: Imago, Originalmente publicado em Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

123 Marina Trench de Oliveira e Yvogmar Godoy Rossilho Palauro KLEIN, M.; RIVIERE, J. Amor ódio e reparação. São Paulo: Imago, Originalmente publicado em KORBIVCHER, C. F. Transformações autísticas, o referencial de Bion e os fenômenos autísticos, Rio de Janeiro: Imago, MELTZER, D. Identificação adesiva. Jornal de Psicanálise, v. 19, n. 38, p , et al. Exploración del autismo. Buenos Aires: Paidós, Originalmente publicado em NISHIKAWA, E. Outro olhar: o espelho como projetor. Apresentado em reunião científica na SBPSP, OLIVEIRA, M. T. Cabelos, da etologia ao imaginário. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 41, n. 3, p , SEGAL, H. Notas sobre a formação de símbolos. In: A obra de Hanna Segal. Rio de Janeiro: Imago, Originalmente publicado em TUSTIN, F. Autismo e psicose infantil. Rio de Janeiro: Imago, Originalmente publicado em Barreiras autistas em pacientes neuróticos. Porto Alegre: Artes Médicas, Originalmente publicado em WINNICOTT, D. W. A mente e sua relação com o psique-soma. In: Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, Originalmente publicado em Preocupação materna primária. In: Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, Originalmente publicado em O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil. In: O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, Originalmente publicado em Marina Trench de Oliveira Av. Cássio Paschoal Padovani, Piracicaba São Paulo Brasil [email protected] Yvogmar Godoy Rossilho Palauro [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

124 El cuerpo no es una unidad: una vuelta a los casos de Freud El cuerpo no es una unidad: una vuelta a los casos de Freud Sebastián Plut 1 Resumen: El autor propone una discusión sobre tres casos freudianos con el objeto de examinar en ellos corrientes psíquicas diferentes a las estudiadas por el creador del psicoanálisis. Por este camino, entonces, se cumplen dos objetivos: por un lado, poner en cuestión la categoría patologías actuales; por otro lado, mostrar que las pacientes freudianas no eran solo histéricas sino que, simultáneamente, presentaban componentes psicosomáticos y/o propios de las patologías narcisistas. Palabras clave: Corrientes psíquicas. Cuerpo. Diagnóstico. Patologías actuales. Psicosomática. Introducción Pero en la realidad la regla es la complicación de los motivos, la sumación y combinación de mociones anímicas (S. Freud) Confieso que desde el principio vi en ese «progreso» una adaptación excesiva a los reclamos de la actualidad (S. Freud) Suele decirse que ya no hay pacientes neuróticos como los que atendía Freud, que hoy nos consultan sujetos con patologías narcisistas, borderline, etc. y, de modo más impreciso, se habla de patologías actuales. 1 Doctor en Psicología. Psicoanalista. Profesor Titular del Doctorado en Psicología y de la Maestría en Problemas y Patologías del Desvalimiento (UCES). Miembro del Comité Editor de la Revista Subjetividad y procesos cognitivos. 124 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

125 Sebastián Plut Los dos rasgos esenciales que suelen atribuirse a las llamadas patologías actuales son: su gravedad (se trataría de pacientes con un alto nivel de desvalimiento psíquico) y su actualidad, es decir, estarían en correspondencia con situaciones de deterioro social. Dicho de otro modo, las actuales circunstancias vitales, la complejidad social, darían lugar al desarrollo de problemáticas psíquicas severas y, a la vez, novedosas. En otro artículo (PLUT, 2008) discutí esta categoría pues si resulta cierto que la realidad cambia (la realidad social por un lado y la realidad clínica por otro) conviene ser cuidadosos al definir esos cambios: corresponden a transformaciones en la subjetividad o a desarrollos teóricos que permiten identificar corrientes psíquicas no neuróticas en los pacientes? Nuestro interrogante, pues, consiste en averiguar si el estado psíquico de los pacientes en la actualidad es diferente del que tenían en la época de Freud o, más bien, es que los desarrollos teóricos hoy nos permiten advertir rasgos anímicos con un mayor nivel de sofisticación. Cabe advertir que cuando se afirma que en la actualidad los pacientes presentan otras configuraciones clínicas, diferentes a las que exhibían hace un siglo, las comparaciones no se hacen entre pacientes sino entre lo que se decía de ellos en la época de Freud y lo que se dice hoy. Diríamos, entonces, que un primer aspecto es que se comparan teorías y no casos. La frase no creo más en mi neurótica ha quedado como emblema de las transformaciones que Freud hizo en sus hipótesis, una marca de esos fracasos científicos que se tornan fecundos (PLUT, 2014). Freud mismo lo vivió como el resultado de un trabajo intelectual honesto y vigoroso [ ] ser todavía capaz de semejante crítica después de semejante profundización (1986, p. 285). Vemos aquí, pues, que Freud se vio llevado a modificar sus hipótesis en lugar de suponer que los pacientes habían cambiado. Esta perspectiva, creemos, no solo es más acorde con la realidad y los requerimientos científicos, sino que también evidencia la necesaria modestia del científico. Los argumentos para no creer más en su neurótica fueron clínicos (escaso éxito terapéutico o improbabilidad de la ubicuidad de padres perversos), metapsicológicos (dificultad de distinguir en lo inconciente la verdad de la ficción) y psicopatológicos (vicisitudes de la recuperación de recuerdos en las psicosis). Insistimos, Freud no pensó que cambió la realidad clínica sino que modificó la teoría para una mejor comprensión de aquélla. En lo que sigue haré una breve revisión de tres casos (Anna O., Dora y Elisabeth) con el objeto de averiguar si en ellos encontramos o no fragmentos no neuróticos. Para Dora recurrimos también al informe de un terapeuta que la vio Psicanálise v. 17 nº 2,

126 El cuerpo no es una unidad: una vuelta a los casos de Freud años después, mientras que para Elisabeth aplico el algoritmo David Liberman (ADL) (MALDAVSKY, 2013). Por último, cuando hacemos un diagnóstico seguimos la premisa de Freud: un sujeto no se reduce a una única organización psicopatológica. En efecto, debemos estar preparados para reconocer un conjunto variado de pulsiones y defensas. A cada sector (deseos, destinos y conflictos) Freud lo llamaba corrientes psíquicas, y en cada una predomina una defensa específica, es decir, una forma de tramitar los conflictos entre deseos, realidad y superyó. Tenemos en cuenta que cuando hablamos de psicopatología (fobia, depresión, etc.) estamos en el nivel general de las hipótesis, mientras que cuando hablamos de un paciente, de un caso, las hipótesis corresponden al nivel de lo particular y de lo singular. Es así que sostenemos que ningún paciente es una unidad y, en ese mismo sentido, el cuerpo tampoco lo es. Un paciente, entonces, podrá presentar, por un lado, el cuerpo histérico, esto es, un cuerpo representacional pero, por otro lado, podrá presentar una corriente psíquica tóxica en la cual cobran importancia las patologías orgánicas. Si Anna O. viviera La pregunta que proponemos, a modo de ejercicio, es: si usted recibiera a Anna O., la diagnosticaría como hicieron Breuer y Freud? Aquí solo presentamos una breve parte del historial, no obstante sugerimos al lector recurrir al caso tal como fue publicado en Estudios sobre la histeria. La joven (con algunas psicosis sobrevenidas en su familia) tenía un espíritu muy crítico que la tornaba insugestionable. Tenía también una bondad compasiva y una tendencia a la desmesura en sus alegrías y tristezas. Con una sexualidad asombrosamente no desarrollada [ ] no había conocido el amor, y en las masivas alucinaciones de su enfermedad no afloró nunca ese elemento de la vida anímica. Su vida exhibía simultáneamente una extrema monotonía y una tendencia al embellecimiento. Los relatos de la paciente perdieron progresivamente su carácter poético y se trocaron en alucinaciones terroríficas: lo fantástico consistía más en fórmulas estereotipadas que en lo poético de su creación. Cuando permanecía en su teatro privado [ ] mientras todos la creían presente, revivía en su espíritu unos cuentos. Recordemos los dos estados de conciencia, uno caracterizado por tristeza y angustia y otro por alucinaciones, insultos y conductas expulsivas. En este último grupo se hallaban su oposicionismo empecinado y sus alucinaciones con calaveras, esqueletos y serpientes negras. Se quejaba de las profundas tinieblas que invadían su cabeza, de que no podía pensar, se volvía ciega y sorda, tenía dos yoes, el suyo real y uno malo que la constreñía a un comportamiento díscolo. 126 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

127 Sebastián Plut El verbo martirizar, repetido en infinitivo, es expresión de dos deseos, oral secundario y anal secundario, el primero ligado con el problema del amor y el segundo, sobre todo, referido a la culpa. Sin embargo, aquel verbo se singulariza por la falta de un sujeto en la acción, como si hubiera quedado sofocado el yo de la acción de martirizar. Tal como explica Maldavsky (1986) si en las caractereopatias transgresoras el término yo queda reemplazado por él (o ella) y en las depresiones se sustituye por vos (o tú), cuando el yo resulta suplantado por nadie estamos en el terreno de las esquizoidías (o esquizofrenias). En esta misma línea, agreguemos el estrabismo y cierta particularidad de su percepción: subsistió un alto grado de estrechamiento del campo visual. De un ramillete de flores, que la alegraba mucho, veía solo una flor por vez. Se quejaba de no reconocer a las personas [ ] debía decirse: la nariz es así, de tal suerte los cabellos, por consiguiente es tal o cual persona. La gente se le convertía como en unas figuras de cera, sin relación con ella. Además tenía períodos de anorexia, insomnio recurrente y repetidos intentos de suicidio. Anna O., efectivamente, evidenciaba una corriente histérica, no obstante hallamos indicios de otras corrientes psíquicas. En efecto, si la tentativa de embellecer corresponde al deseo fálico genital (FG) acompañado de la represión (que al fracasar retorna como asco) la monotonía expone otro deseo, libido intrasomática (LI), expresado en sus recurrentes estados de desvitalización y somnolencia (debilitamiento extremo y anemia durante el cuidado de su padre y períodos de adormecimiento). Arriesguemos una hipótesis adicional: es posible que en ciertos momentos el deseo FG (con defensa exitosa) constituyera más bien una fachada encubridora del deseo LI con defensa fracasada. Nos preguntamos también si su teatro privado consistía solo en un mundo de fantasías, un devaneo embellecedor, o refería a un grado de retracción más severo de tipo narcisista, en el cual prevalecía aquello que Freud describía como presencia física y ausencia psíquica. Nótese que como dice el autor, poco a poco la creación poética dio lugar a fórmulas estereotipadas. Asimismo, la hipótesis de los dos estados de conciencia parece coincidente con la de las corrientes psíquicas, probablemente una correspondiente al fragmento neurótico y la otra a un componente propio de las patologías narcisistas. Por ejemplo, los insultos y cierta impulsividad expresaban el deseo anal primario (A1), mientras que las alucinaciones con serpientes corresponden al deseo oral primario (O1). Quizá con este deseo se enlace la percepción de las personas como figuras de cera (como inverso de la sinceridad) correlativa de la desconexión intersubjetiva. Dicho de otro modo, el problema de la falsedad (o la verdad) se presenta de modo insistente y constituye una expresión del mencionado deseo O1. Psicanálise v. 17 nº 2,

128 El cuerpo no es una unidad: una vuelta a los casos de Freud El relato sobre las flores y la dificultad para reconocer a las personas también sugiere una perspectiva diferente de la histeria. Si en esta última se destaca el pars pro toto o la sinécdoque, como modalidad de la condensación, intuimos que no es eso lo que sucedía en Anna. Más bien, nos recuerda al borgeano personaje de Funes el memorioso que no podía reunir las partes en un todo, sino que cada parte era equivalente a otra pero aisladas todas ellas entre sí. También es notorio que el reconocimiento de un rostro fuera el resultado de una suerte de proceso deductivo. En síntesis, tras un ropaje histérico hallamos, particularmente, la importancia de dos deseos, O1 y LI, correspondientes a las corrientes esquizoide y tóxica respectivamente. Dora retroactiva Qué opinaríamos si llega a nuestra consultorio una paciente de 42 años que rehúsa histórica y persistentemente el encuentro sexual con su marido, padece del síndrome de Meniere, nos relata escenas abusivas padecidas en su temprana adolescencia, se ocupa de espiar si su hijo (casi adulto) tiene relaciones sexuales y que además tiene una adicción al tabaco, palpitaciones, sentimientos persecutorios y cáncer de colon? Este es el cuadro que presentó la célebre paciente Dora 24 años después de ser atendida por Freud y al momento de consultar a Félix Deutsch (1970). Si en la actualidad nos consultara Dora y nos informara de todo ese abanico de malestares, costumbres y síntomas, publicaríamos su tratamiento como un caso paradigmático de la histeria? Con algún grado de razonabilidad se nos dirá que la paciente de 42 años no es la misma que la de los 18, que transcurrió el tiempo y se fueron imprimiendo cambios. No estoy seguro que ese único argumento, aun con algún grado de validez, nos pueda explicar la diferente mirada que tuvieron Freud y Deustch sobre la misma paciente. No se trata de si Freud se equivocó sino de reconocer el lento avance de toda ciencia y, quizá, en particular del psicoanálisis. El mismo Deutsch nos da algunas pistas: por un lado, reafirma que en algunos aspectos la paciente siguió el curso que Freud predijo y, por otro lado, se pregunta: cuánto más avanzados estamos actualmente en nuestra comprensión del salto de lo mental a lo fisiológico?. Podemos concluir, pues, que un fragmento psíquico de la paciente, efectivamente, correspondía a una histeria de conversión y que ese era el sector para cuya detección y abordaje Freud se encontraba más sensible. Por otro lado, que debieron obtenerse posteriores hallazgos teórico-clínicos para identificar diferentes componentes psíquicos de la paciente. 128 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

129 Sebastián Plut El interrogante de Deustch sobre el avance en la comprensión del salto de lo mental a lo fisiológico nos evoca otra hipótesis que Freud expuso en diversas ocasiones. En efecto, Freud consideraba que subyacente a los síntomas histéricos podía tener eficacia un estímulo somático, orgánicamente condicionado, tal como el grano de arena en torno del cual el molusco forma la perla: Yo sigo viendo las cosas como se me aparecieron al comienzo, hace más de quince años: las dos neurosis actuales neurastenia y neurosis de angustia (quizá se les deba agregar, como tercera neurosis actual, la hipocondría en sentido estricto) prestan la solicitación somática para las psiconeurosis, les ofrecen el material de excitación que luego es psíquicamente seleccionado y revestido, de suerte que, expresado en términos generales, el núcleo del síntoma psiconeurótico - el grano de arena en el centro de la perla- está formado por una exteriorización sexual somática. Sin duda que esto es más nítido para la neurosis de angustia y su relación con la histeria que para la neurastenia, sobre la cual todavía no se han emprendido cuidadosas indagaciones psicoanalíticas (FREUD, 1912, p. 257). En síntesis, quizá lo que hoy a muchos sorprende como fenómenos psicopatológicos novedosos corresponda más bien a hallazgos teórico-clínicos recientes para la comprensión del grano de arena (o neurosis actual) que Freud intuyó tempranamente. Tal vez, para seguir la metáfora freudiana, la relación entre el carácter elemental del grano de arena y la hermosura de una perla, sea correlativa de la relación entre las patologías tempranas (y la dócil apatía como dijo Freud del Hombre de los Lobos), los estados tóxicos, y la belle indifférence de la histeria. De todos modos, para despejar uno de los factores que podría influir en nuestro juicio (que entre ambos tratamientos transcurrieron 24 años) observemos parte del material clínico de Dora tal como fue expuesto por Freud. Es decir, podemos encontrar en el caso tal como lo describió Freud indicadores de esta otra corriente psíquica? El análisis de Dora, pese a su brevedad, fue objeto de un detallado estudio por parte de Freud. En él hallamos reunidas, a la vez, conjeturas de un alto nivel de especificidad y de captación de matices singulares, con proposiciones globales propias de sus recientes hallazgos. Por ejemplo, a poco de comenzar, Freud plantea la hipótesis acerca de que la causación de las enfermedades histéricas se encuentra en las intimidades de la vida psicosexual de los enfermos (1901, p. 7). En efecto, se trata de una fórmula genérica en tanto podría aplicarse a otros cuadros clínicos y tal era el objetivo de Freud: mostrar la eficacia de la vida pulsional en la psicopatología y no solo en la histeria. Por ende, sospechamos que en más Psicanálise v. 17 nº 2,

130 El cuerpo no es una unidad: una vuelta a los casos de Freud de una ocasión utilizó el término histeria con ese mismo nivel de generalización (más adelante dice Freud: llamaría histérica a toda persona en quien una excitación sexual provoca predominantemente o exclusivamente sentimientos de displacer). De hecho, y cuanto menos, hoy tomaríamos varias de las manifestaciones de Dora (sobre todo el primer sueño) como expresiones de un cuadro fóbico. Valen también como argumentos para justificar que Freud no se ocupó de estudiar algunos fragmentos psíquicos de la paciente dos afirmaciones que él mismo indica: a) la dificultad de dominar un material clínico extenso; b) que el tratamiento fue interrumpido tempranamente por la paciente. El primer argumento muestra que al exponer el análisis de un caso tomaremos aquello que se enlace de manera directa con nuestro objetivo de estudio (es que en este historial clínico me interesaba poner de relieve el determinismo de los síntomas); el segundo argumento exhibe la influencia que ciertos procesos psíquicos no detectados por Freud tuvieron en la ruptura de la alianza terapéutica y la prosecución del tratamiento. Dos décadas después, al revisar una nueva edición del historial, Freud aclara que no podría esperarse que más de dos decenios de trabajo continuado no modificarían en nada la concepción y exposición de un caso patológico como este, no obstante le parece inadecuado corregir o ampliar el texto para adecuarlo al estado actual de nuestro saber. Agrega, enterado del nuevo tratamiento emprendido por Dora muchos años después, que ningún crítico imparcial de la terapia analítica reprochará a esta que en esos tres meses de tratamiento solo se finiquitase el conflicto que la paciente tenía entonces, sin protegerla de enfermedades que pudiera contraer después. Freud expresa, entonces, que lo que fue posible analizar en Dora fue solo un segmento de su vida psíquica y ello por dos razones: el estado de la teoría y la técnica psicoanalítica al momento del tratamiento y el motivo de consulta de la paciente que delimitaba el objetivo (no descarta, a su vez, que con el propio paso del tiempo surjan problemas diversos). Por ejemplo, un vínculo que solo escasamente fue considerado fue el que ligaba a Dora con una tía paterna, la cual vivió abrumada por un desdichado matrimonio y que murió luego de un marasmo que progresó rápidamente. Dora tenía a esta tía por modelo y luego de su muerte tuvo episodios febriles. Podemos preguntarnos, por ejemplo, qué diferencias existían, si las hubiera, entre los diversos síntomas físicos de Dora: disnea, hemicranias, tos nerviosa, afonía, etc. Tales diferencias, además de corresponder a momentos diferentes o bien a gradaciones variables (como la afonía) quizá consistieran en que no todos los síntomas fueran de tipo histérico. De todos modos, el componente que deseamos considerar corresponde a un tipo de deseo presente en Dora que, de hecho, Freud sí detectó aunque 130 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

131 Sebastián Plut tardíamente. En rigor, pareciera que lo advirtió durante el tratamiento, no obstante solo más tarde pudo considerar su más genuina eficacia. Freud señaló que la independencia de juicio de Dora, presente ya desde su niñez, la condujo a burlarse de los esfuerzos de los médicos (la negrita es mía) y sabemos que la burla corresponde a un tipo de pulsión que Freud llamó anal primaria (A1) y de la cual deriva un deseo vengativo. Asimismo, describió su desazón y una alteración del carácter que posteriormente llamó taedium vitae. Recordemos que Liberman captó la importancia del aburrimiento, del tedio, en quienes despliegan una acción vengativa como forma de sobreponerse a dicho estado afectivo. Aquel deseo vengativo, pues, no solo se desplegó contra más de un personaje sino que también se combinaba con otra expresión similar: las acusaciones, que solían repetirse con fatigante monotonía. Nos parece verosímil, pues, conjeturar que la combinación entre burlas, aburrimiento y fatigante monotonía corresponde a la combinación de dos deseos, A1 y LI, tal como Maldavsky (1992) explica un sector de los conflictos en los estados tóxicos. Dice este autor que en los pacientes psicosomáticos es frecuente hallar un tipo de personaje al que denomina paranoico proyectado. Cabe agregar aquí la carta en que Dora anunciaba un intento de suicidio, su posterior episodio de pérdida de conocimiento (que incluyó convulsiones y delirios) y algunas alucinaciones sensoriales. También parecen tener importancia, al igual que en Anna O., los personajes insinceros, falsos (entre ellos, el padre o la gobernanta) y la vivencia de haber sido ofrecida al Sr. K como moneda de cambio de las relaciones del padre con el Sr. K.. Se trata de una escena compleja que combina la vivencia de ser traicionada (A1) y la de ser un número para otro (LI). De los diversos elementos resaltan cuatro grupos diferenciados: uno que reúne aburrimiento, venganza, acusación y traición (A1); un segundo inherente a las vivencias de abandono (O2); otro, ligado con las preocupaciones por las mentiras de sus interlocutores (O1); finalmente, un estado de desvitalización persistente (LI). Cuando Freud sostiene que otro factor, inherente al caso mismo, impidió que la cura concluyese con la mejoría que en otras ocasiones puede alcanzarse, conjeturamos que se trata de los elementos antes mencionados (vivencias de injusticia, de abandono, de insinceridad y de desvitalización): ella se vengó de mí, como se vengara de él, y me abandonó, tal como se había creído engañada y abandonada por él No puedo saber, desde luego cuál era esa x: sospecho que se refería al dinero (la negrita es mía). Psicanálise v. 17 nº 2,

132 El cuerpo no es una unidad: una vuelta a los casos de Freud Breve estudio sobre Elisabeth von R. En 1892 Freud atiende a una joven de 24 años que padecía dolores en las piernas y dificultades para caminar (por una afección reumática leve) y a la que se presuponía histérica. Freud expone el caso, la evolución clínica, algunas reflexiones sobre el método terapéutico y la explicación de la histeria, en particular sobre el problema de la conversión. Freud sostuvo que la paciente desarrolló un síntoma histérico como resultado del sentimiento de culpa por sus deseos amorosos hacia su cuñado. También describe la angustia de Elisabeth al retornar de un viaje para ver a su hermana que estaba grave de salud y luego fallece. La combinación de todo ello nos conduce a preguntarnos sobre el sentido de la escena en que una persona regresa en un marco de tanta angustia y se encuentra con una hermana muerta por lo cual siente un profundo dolor y, finalmente, termina pensando que ahora podrá tomar por esposo a su cuñado. Actualmente, pensaríamos que es una mujer que competía con su hermana y que sus deseos sexuales hacia el cuñado devinieron en sentimiento de culpa por la muerte de aquella (al modo de los que fracasan al triunfar)? O consideraríamos que el pensamiento sobre un posible amorío con el cuñado es solo una mascarada defensiva (expresión de la desmentida) ante el encuentro traumático con el cadáver y la tristeza profunda resultante? También es verosímil no escoger por una u otra alternativa sino considerar que cada una corresponde a sendas corrientes psíquicas. Asimismo, en un caso se trataría del fracaso de la defensa (represión) mientras que en el otro la defensa patógena sería exitosa (desmentida). Por nuestra parte, hemos hecho un análisis del material aplicando diferentes instrumentos del algoritmo David Liberman (ADL), sobre todo la grilla para el análisis de relatos y en menor medida la grilla de actos de habla. El estudio en este último nivel fue mucho más breve porque el material textual es muy escaso. De todos modos, por razones de espacio, solo comentaré algunos resultados ya que exponer el análisis y los procedimientos resultaría muy extenso y engorroso. El análisis de relatos arrojó 23 secuencias narrativas en las cuales prevalecen dos deseos: libido intrasomática (LI) con desestimación del afecto fracasada y oral secundario (O2) con desmentida exitosa (en menor medida hallamos el deseo anal primario, A1). Estos resultados, por un lado, nos llevan a tener en cuenta tres tipos de deseos, económico, amoroso y vengativo. El primero corresponde a escenas en que cobran importancia los problemas de dinero (sobre todo al fallecer el padre) o del organismo (padre, madre, hermana y la misma paciente), es decir, estados de desfallecimiento orgánico. El deseo amoroso se presenta 132 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

133 Sebastián Plut como escenas de culpa y, sobre todo, de reproches en que la paciente es activa. Nuestro interrogante previo acerca de cómo entender la escena que combina la muerte de la hermana con los deseos amorosos hacia el cuñado, se enlaza con otra escena en que ante los problemas de salud de la madre, Elisabeth se apega a su padre. Dicha secuencia, pues, reúne también ambos deseos (LI y O2). Veamos ahora el análisis de los actos de habla. La paciente dice: Estoy cada vez peor, tengo los mismos dolores que antes (con mirada maliciosa). Aquí hallamos una exageración (deseo FG) y una referencia a estados corporales (LI). Sin embargo, la función parece ser un reproche (O2) acompañada por una motricidad vengativa (A1). Es posible también que entre los dos sectores verbales haya una contradicción lógica (deseo O1) ya que si está cada vez peor, no tiene los mismos dolores que antes. En una segunda frase dice Elisabeth: vea usted, no estoy dormida, no me pueden hipnotizar (con aire triunfante). Aquí detectamos una mostración (FG) y dos negaciones (deseo A2), no obstante la función parece la de una burla triunfalista (A1). Con este breve análisis, del cual podrían extraerse diversas conclusiones, solo pretendimos mostrar que en la paciente coexisten diversas corrientes psíquicas, correspondientes a diversas defensas (con estados también diferentes). Destaquemos, por ejemplo, que mientras el deseo A1 se presenta con una desmentida exitosa, el deseo LI exhibe un fracaso de la defensa. Asimismo, también mostramos el valor de un método que permite combinar resultados del estudio de diversos niveles de análisis (relatos, actos de habla, motricidad). Con todo ello, es posible no solo complejizar el diagnóstico sino también que el analista tome decisiones clínicas más pertinentes, variadas y creativas. Conclusiones La revisión de los casos no puso en cuestión si un determinado síntoma (por ejemplo, la afonía de Dora) es o no histérico, pero sí hallamos desacertado pensar a las pacientes de modo excluyente como neuróticas. La hipótesis de las corrientes psíquicas permite estar abiertos al encuentro con matices diferenciales, detectar la variedad de deseos y defensas en un paciente y también las modificaciones ocasionales en cuanto a prevalencias y subordinaciones. Dicha hipótesis, a su vez, permite comprender que el cuerpo no es una unidad, en cuyo caso las manifestaciones de un paciente (verbales, paraverbales o motrices) ponen en evidencia diversos cuerpos: si en ciertos momentos, por ejemplo, se trata de un cuerpo en que prevalecen los síntomas con un alto valor simbólico, en otros podrá cobrar importancia un cuerpo en que se despliega (o queda interferida) Psicanálise v. 17 nº 2,

134 El cuerpo no es una unidad: una vuelta a los casos de Freud la motricidad aloplástica como vivencia de injusticia, o bien un cuerpo en que se advierte sobre todo la imposibilidad de procesamiento psíquico de la pulsión (cuerpo tóxico). Si bien Freud estableció el diagnóstico de histeria en los tres casos, también es preciso tener en cuenta: a) que los conceptos de los que disponía le permitían sobre todo entender la histeria; b) que muchas de sus afirmaciones tenían por objeto mostrar el carácter psicógeno de ciertas configuraciones clínicas; c) y que su propósito era señalar que las manifestaciones (verbales, corporales, etc.) tienen significación. A más de un siglo de los primeros hallazgos psicoanalíticos de Freud, si algo recogemos de su legado es que al leer sus propios análisis de casos debemos privilegiar el desarrollo de interrogantes sobre el material clínico y la reflexión crítica sobre las hipótesis que expuso. En un trabajo en que Freud se interesó por una de las alternativas de la diversidad clínica, señaló: En el progreso de nuestro conocimiento nos vemos llevados cada vez más a situar en el primer plano el punto de vista económico (1922, p. 222). La cita resulta ilustrativa ya que subraya que el progreso del conocimiento deriva de colocar un nuevo punto de vista, en ese caso, el económico. A su vez, lo que subyace a esta hipótesis específica es que la inclusión del punto de vista económico supone que el avance en el conocimiento del psiquismo (y de la psicopatología) muestra una dirección determinada, a saber, ha progresado hacia el reconocimiento cada vez mayor de sus fundamentos, de sus componentes más elementales. A grandes rasgos, la secuencia histórica revela que los primeros cuadros clínicos estudiados fueron las neurosis, luego las patologías narcisistas (psicóticas y no psicóticas) y, por último, los llamados cuadros tóxicos y traumáticos (afecciones psicosomáticas, adicciones, etc.). En suma, aquello que observamos con sorpresa y a veces con angustiacomo nuevas formas del padecer, no serían las manifestaciones de una época en que la sociedad se encuentra en declive sino, por el contrario, el acercamiento cada vez mayor a la comprensión de los fundamentos originarios de la subjetividad. The body is not a unit: returning to Freud s cases Abstract: The author proposes a debate on three Freudian cases to examine different psychic trends than those studied by the creator of Psychoanalysis. Therefore, two goals are pursued: on the one hand, to question the current pathologies category; on the other 134 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

135 Sebastián Plut hand, to show that these Freudian patients were not only hysterical but also simultaneously presented with psychosomatic components and/or components that belong to narcissistic pathologies. Keywords: Psychic trends. Body. Diagnosis. Current pathologies. Psychosomatics. Referencias DEUTSCH, F. Una nota al pie de página al trabajo de Freud Análisis fragmentario de una histeria. Revista de Psicoanálisis (APA), v. 27, n. 3. p , FREUD, S. (1901). Fragmento de análisis de un caso de histeria. In: Obras completas. v. 7. Buenos Aires: Amorrortu, (1912). Contribuciones para un debate sobre el onanismo. In: Obras completas. v. 12. Buenos Aires: Amorrortu, (1922). Sobre algunos mecanismos neuróticos en los celos, la paranoia y la homosexualidad. In: Obras completas. v. 18. Buenos Aires: Amorrortu, Cartas a Wilhelm Fliess. Buenos Aires: Amorrortu, MALDAVSKY, D. Estructuras narcisistas. Buenos Aires: Amorrortu, Teoría y clínica de los procesos tóxicos. Buenos Aires: Amorrortu, ADL Algoritmo David Liberman: un instrumento para la evaluación de los deseos y las defensas en el discurso. Buenos Aires: Paidós, PLUT, S. Revisão epistemológica e crítica do conceito de patologias atuais. Psicanálise: Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, v. 10, n. 1, p , Fracasos: versiones y aversiones. Actualidad Psicológica, n. 431, Sebastián Plut Medrano 1970 piso 12º A C1425GDH Buenos Aires Argentina [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

136 El trabajo sobre lo arcaico. La historia oficial del trauma como riesgo El trabajo sobre lo arcaico 1. La historia oficial del trauma como riesgo Silvia Elena Leguizamón 2 Resumen: La autora toma la idea de afecto en Freud, de rudimentos de afecto y representación de Aisenstein, y de embrión pulsional de Marucco, para proponer su idea de un aparato psíquico que retoma la organización económica de la primera tópica como base de la cura en las patologías limite, como déficit pulsional. Promover el crecimiento del empuje pulsional que habla del caos pulsional del Ello, accediendo al orden de la ligadura y del masoquismo erógeno, para poner en marcha los procesos de mentalización o psiquisización. Describe el riesgo de la aparición en la sesión de la historia oficial del trauma, historias hiperintensas, hipreinvestidas, hiperrepresentadas que circulan en el campo bloqueando la capacidad de escucha del analista. Por último, articula teoría a través de un caso clínico que le permite profundizar la dificultad del trabajo con la contratransferencia, que es la forma privilegiada de escucha en el terreno de lo arcaico. Palabras-claves: Afecto. Arcaico. Contra-transferência. Objeto. Pulsión. Trauma. 1 Articulo ganador del premio de la Revista Latinoamericana de Psicoanálisis. Publicado en la Revista en el Volumen 9, año Publicado en catalán en la Revista Catalana de Psicoanálisis, 2012, n 2. Publicado en la Revista de Psicoanálisis, 2015, n 1, en prensa. 2 Miembro ordinario en función didáctica de la Asociación Psicoanalítica Argentina. Full member de la Asociación Psicoanalítica Internacional. 136 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

137 Silvia Elena Leguizamón [...] para nacer he nacido, para encerrar el paso de cuanto se aproxima, de cuanto a mi pecho golpea como un nuevo corazón tembloroso. (Pablo Neruda, Introducción Para nacer he nacido ) En el presente escrito quiero desarrollar teóricamente la idea de afectos en el psiquismo para luego abordar la temática de la posición analítica en el territorio de lo arcaico, o sea, el trabajo de la cura en dicha zona del aparato psíquico. A continuación destacaré el peligro en el cual se incurre si se suspende la escucha analítica, y la consiguiente aparición de lo que doy en llamar la historia oficial del trauma 3. Para finalmente articular teoría y técnica a través de un caso clínico que me dará la oportunidad de profundizar dicha temática en sus diversos aspectos, sobre todo en la dificultad del trabajo con la contratransferencia, la forma privilegiada de escucha en la zona de lo arcaico. Acerca de afectos y pulsiones Para comenzar quiero hacer un pequeño recorrido a través de diferentes textos de Freud, intentando explorar desde la primera tópica, la dinámica de las pulsiones, las representaciones y los afectos. En su escrito Pulsiones y destino de pulsión (1915a), Freud define la pulsión como un concepto fronterizo entre lo anímico y lo somático, como un representante {Repräsentant} psíquico de los estímulos que provienen del interior del cuerpo y alcanzan el alma, como una medida de la exigencia de trabajo que es impuesta a lo anímico a consecuencia de su trabazón con lo corporal (p. 117). Algunos términos ligado a la pulsión son el esfuerzo [Drang], la fuerza de choque o la medida de la exigencia de trabajo que ella representa, que significa para el individuo la existencia de un mundo interno compuesto de estímulos pulsional (necesidad pulsional). También lo es la meta (Ziel), la satisfacción puede alcanzarse sólo a través de la supresión del estado de estímulo en la fuente de la pulsión. Otro término es el objeto (Objekt) de la pulsión, a través del cual ella logra alcanzar la meta. Y por último la fuente (Quelle) que es el proceso somático a través del cual el estímulo es representado en la vida psíquica como pulsión. Las pulsiones, entonces, logran 3 Parafraseando la película argentina ganadora del Oscar 1985, La historia oficial de Luis Puenzo y Aída Bortnik. Psicanálise v. 17 nº 2,

138 El trabajo sobre lo arcaico. La historia oficial del trauma como riesgo la satisfacción sólo a través de la acción específico que modifican el mundo exterior lo suficiente para que satisfaga a la fuente interior del estímulo. Y sobre todo, lo obligan a renunciar a su propósito ideal de mantener alejados los estímulos, puesto que producen un aflujo continuado e inevitable de estos (1915a, p. 116). O sea, un aparato psíquico capaz de manejar sus propios estímulos Estamos en presencia de un criterio económico desde la primera tópica freudiana, en la cual encontramos un estímulo de naturaleza biológica (las pulsiones) que llegan desde el interior, como un esfuerzo constante e incoercible que no puede ser cancelado a través de la fuga, y que por lo tanto, impone una exigencia de trabajo al psiquismo. Más adelante, en La represión (1915b) Freud nos dice: [ ] consideramos la represión de una agencia representante de pulsión, entendiendo por aquella a una representación o un grupo de representaciones investidas desde la pulsión con un determinado monto de energía psíquica (libido, interés) [ ] lo que hasta aquí concebimos como unitario, pues nos muestra que junto a la represión {Vorstellung} interviene algo diverso, algo que representa {räpresentieren} a la pulsión y puede experimentar un destino de represión totalmente diferente del de la representación. Para este otro elemento de la agencia representante psíquica ha adquirido carta de ciudadanía el nombre de montante afectivo; corresponde a la pulsión en la medida en que esta se ha desasido de la representación y ha encontrado una expresión proporcionada a su cantidad de procesos que devienen registrables para la sensación como afectos (p. 147). En El inconsciente (1915c) Freud nos dice que tras la represión, (la representación inconsciente) aquélla sigue existiendo en el interior del sistema Icc. como formación real, mientras que ahí mismo al afecto inconsciente le corresponde sólo una posibilidad del planteo {de amago} a la que no se le permite desplegarse (p. 174). Quiere complementar estas citas freudianas con algunos desarrollos de Marilia Aisenstein (AISENSTEIN; SAVVOPOULOS, 2009). Se basa en la idea de una pulsión con una fuente de excitación que proviene del organismo caracterizada por una fuente constante de impacto en el psiquismo. La pulsión deviene el representante psíquico de los estímulos que se imponen al psiquismo como una exigencia de trabajo, consecuencia directa de su relación con el cuerpo. Una exigencia de este tipo que llega al psiquismo como un imperativo deberá ser decodificada por el aparato psíquico: la exigencia de representación. Se trata entonces, de un imperativo 138 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

139 Silvia Elena Leguizamón económico que exige al orden simbólico poner en marcha el pasaje al cualitativo dejando como consecuencia los equivalentes endopsíquicos de las percepciones, de una pulsión que no puede ser representada sino se encuentra ligada o bajo la forma de afecto. Tenemos entonces una dupla constituida por el representante psíquico de la pulsión que llega desde el cuerpo y la representación de objeto que llegan desde la percepción. A partir de ese momento, se abren dos destinos, uno que va hacia la representación cosa o palabra, otro que va hacia la representación de afecto o los afectos diferenciados. Aisenstein introduce el concepto de rudimento de representación refiriéndose a los residuos de excitación que el pequeño ser humano reconoce y siente como prueba de la existencia de un esfuerzo constante, de sus necesidades pulsionales provenientes del mundo interno y de las cuales no puede huir. En otra artículo, la misma autora describe los rudimentos de afecto inconscientes y lo explica diciendo que: el afecto inconsciente no es otra cosa que un rudimento que no logró desarrollarse 4 (2009), y queda como una formación cargada de energía que busca salir a través de la barrera del preconsciente. De hecho, Freud describe los afectos inconscientes como una posibilidad del planteo {de amago} a la que no se le permite desplegarse (en el párrafo anterior). Ahora quiero detenerme en otra idea, la del embrión pulsional desarrollada por Norberto Marucco (2006b). Me parece que tiene algunos puntos de contacto con la idea de rudimentos de representación y de afectos inconscientes de Aisenstein, aún si Marucco se basa en la segunda tópica freudiana y piensa el funcionamiento del aparato psíquico desde una dialéctica entre pulsión y objeto, o sea, una puesta en juego de la pulsión del sujeto con la del objeto. El embrión pulsional sería el resultado de los residuos arcaicos, de lo irrepresentable en el psiquismo, de las huellas mnémicas ingobernables (MARUCCO, 1978). Cuando el paciente repite en la transferencia, junto a la repetición encontramos la potencialidad libidinizante 5 del analista. La apuesta pulsional del analista - teniendo en cuenta que el analista es un otro nuevo, diferente de los objetos primarios del individuo - permite despertar en el paciente el empuje y la fuerza de sus propias pulsiones dormidas para ponerlas en juego en la dinámica intrapsíquico y interpsíquico. Creo que así comienza un proceso de transformación de los rudimentos de representación y de afectos inconscientes a través de la ligadura en el campo analítico (BARANGER; BA- RANGER, 1967), en términos de la segunda tópica, en la cual la representación es también ligadura pulsional. Y a propósito Marucco (2006b) nos dice: [ ] la interpretación transferencial, junto con la construcción de la historia olvidada y 4 L affect inconscient n est lui «qu un rudiment qui n a pu parvenir à se développer (p. 134). 5 Aludo al término de Marucco (2006), la pulsión del objeto encarnado en el analista. Psicanálise v. 17 nº 2,

140 El trabajo sobre lo arcaico. La historia oficial del trauma como riesgo reprimida de aquel niño mítico (recuerdos encubridores), serán necesarias para conjurar esta repetición casi no representada (p. 769). Marucco se vale de la idea de lo soterrado inconsciente de Freud (1937), residuos que retornan como lo olvidado de los primeros años de vida del individuo, algo que el niño vio u oyó en la época en que apenas era capaz de lenguaje todavía [ ] (p. 267). Estos residuos serían significantes prelingüísticos, huellas mnémicas ingobernables, experiencias del tiempo primordial que escapan a cualquier tipo de significado. Con el concepto de embrión pulsional, Marucco (2006b) se aproxima a lo arcaico en psicoanálisis haciéndose una pregunta: Qué es eso arcaico que se repite? Algo que surge en el acto desde el empuje regresivo hacia un estado casi previo al encuentro con el otro? O algo que es producto de la fuerza intrusiva de un objeto que imprimió la huella destructiva de la ligadura allí donde debieron abrirse los caminos hacia la posibilidad de representación? (p. 770). Introduce de este modo, la idea de una nueva forma de inconscientización, otra zona basada sobre el concepto freudiano de lo soterrado (verschüttet), los momentos de la pulsión privo de representación que sólo pueden descargarse en el acto y en el cuerpo. Credo en cambio, que el acto es una forma de descarga por exceso pulsional de lo no representable o de lo irrepresentable, y que en relación a lo somático hablando de patología psicosomática y no de fenómenos de simbolización o conversión en el cuerpo) es mejor hablar en términos de una falta de mentalización, de una excitación que todavía no llego al ámbito de lo psíquico, de la pulsión que no tiene representación en el psiquismo. Sé que a esta altura se impone una pregunta sobre la pulsión de muerte como lo irrepresentable al límite de lo psíquico pre-psíquico. Personalmente prefiero pensar dos dimensiones de la organización psíquica, figuradas en las dos tópicas que aportan diferentes puntos de vista de los mismos procesos psíquicos, que no se excluyen. Por el contrario, nos permiten entender la complejidad psíquica. Vemos entonces, como Aisemberg (2009), hablando de la violencia en las personalidades no-neuróticas, dice que la violencia antes suprimida, que circulaba en el soma o en el acto deviene relato en el trabajo analítico. La autora trabaja sobre esta idea pensando en la violencia de la pulsión de muerte. En cambio yo agregaría que más allá del exceso de pulsión no ligada o no representada, existe también la pobreza psíquica bajo la forma de un déficit pulsional, de una pulsión que no logra desplegarse en su potencialidad, a través de la presencia libidini- 140 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

141 Silvia Elena Leguizamón zzante del otro como el objeto primario y sobre este punto acuerdo con la idea de Marucco (2006b) de Algo que surge en el acto desde el empuje regresivo hacia un estado casi previo al encuentro con el otro (como déficit) o algo que es producto de la fuerza intrusiva de un objeto que imprimió la huella destructiva de la ligadura allí donde debieron abrirse los caminos hacia la posibilidad de representación (como exceso) (p. 770). Para hablar de la cura en patologías graves del trabajo en el terreno de lo arcaico y de los procesos que lleva a la psiquisización, es necesario contar también con las teorías económicas, ya que la misma pobreza pulsional y psíquica del paciente así lo imponen. Hablar de un aparato psíquico que contenga las dos tópicas se vuelve difícil en el momento de la discusión metapsicológica. En El yo y el ello (1923) Freud pasa de la idea del inconsciente, del principio del placer de la primera tópica, a un Ello caótico, abierto en un extremo hacia el cuerpo, donde la fuerza pulsional toma la supremacía sobre la representación. Aisenstein (2009) piensa que ya que la energía llega desde el cuerpo y la representación de las percepciones, entonces, es la fuerza pulsional la que incita a la búsqueda y a la génesis de la representación de objeto. En cambio yo creo que no es sólo es la fuerza pulsional del individuo, sino también la fuerza pulsional del objeto, de quién acude al individuo inerme del primer encuentro (de la vivencia de satisfacción) que abre las vías hacia la representación en el ámbito psíquico de la primera tópica y de la ligadura pulsional en el ámbito de la segunda tópica. Una representación que se abre camino a través del caos de un Ello pulsional, cuya fuerza y empuje tienden no sólo a la representación, sino también a la organización como proceso de objetalización, mentalización, psiquisización, etc., en una dinámica compleja de coexistencia y no de evolución. Creo que podemos pensar en un aparato psíquico dentro de la primera tópica, de acuerdo a un punto de vista económico, en el cual lo cuantitativo de la excitación proveniente del cuerpo produce un salto hacia lo cualitativo; no sólo a través un imperativo de complejidad propio del humano como sugiere Aisenstein (2009), sino desde una concepción que no sólo tiene en cuenta el origen biológico de la pulsión, sino también la existencia de un salto al orden simbólico, con y gracias a lo otro. Un salto que implica procesos de mentalización o de psiquisización como forma de ingreso a la complejidad psíquica de los procesos que pueden ser entendidos también desde la segunda tópica freudiana. A propósito de esta idea, Aisenstein se pregunta: No podemos pensar que si en la cura de la neurosis se busca transformar el material inconsciente en material preconsciente, lo que nosotros hacemos en las organizaciones límites y somáticas tenga por objetivo el Psicanálise v. 17 nº 2,

142 El trabajo sobre lo arcaico. La historia oficial del trauma como riesgo transformar el Ello en inconscente? 6 (AISENSTEIN; SAVVOPOULOS, 2009, p. 129) creo necesario retomar la organización económica de la primera tópica como base para la cura de las patologías límites, para desarrollar, en ciertos casos, el aspecto deficitario de la pulsionalidad, haciendo crecer una fuerza pulsional que nos permitan luego hablar del caos pulsional del Ello, para acceder al orden de la ligadura pulsional y del masoquismo el erógeno, ya que una retención de la libido es fundamental en los procesos de mentalización o psiquisización; salto cualitativo que se puede pensar desde ambas tópicas. La teoría es sólo importante si nos sirve para pensar la técnica y la clínica psicoanalítica; por lo cual intento hablar prima de lo arcaico para luego retomar la técnica y finalmente volcarla en un caso clínico. El trabajo en lo arcaico y la posición analítica Sobre lo arcaico Green (1982) dice: Si es verdad que el inconsciente está marcado por la inscripción de los mecanismos psíquicos más primitivos, propios de los comienzos de la vida psíquica, y que ignora el tiempo, es razonable pensar que las estructuras edificadas sobre las inscripciones originarias no se limitan a superponerse sobre ellas. No se han constituidos sobre lo arcaico, sino contra él. [ ] leemos lo arcaico après-coup, que por otra parte es la única manera de referirnos a ello. Lo adivinamos o lo deduciremos a posteriori, detrás o debajo de los parapetos que se han erigido contra su potencia amenazadora (p. 44). Marucco (2006b) trabaja sobre la idea de lo arcaico tomando lo soterrado (verschüttet) de Freud (1937) un tiempo primordial privo de palabras. Pero lo arcaico no retorna a través de las representaciones y de los afectos, sino a través de una repetición que contiene sólo un presente fusional y pasional 7 que se expresa de diferentes maneras, desde la furia destructiva a la tendencia al Nirvana o, más claramente, en el deseo de muerte (2006b, p. 778). Entonces, una repetición que se desplaza desde la repetición del sueño y del deseo, al dolor del trauma (que incluye tanto la fuerza pura de la pulsión de muerte (pasión) como la falta de pulsionalidad misma (nada). La demanda de consulta del paciente límite involucra también la búsqueda 6 Ne pourrait-on aller jusque à penser que si les cures de névrosés visent à la transformation de matériaux inconsciente en matériaux preconscientes celles que nous menons avec des organisations limites et somatiques auraient pour but de transformer du Ça en inconscient? (p. 129). 7 La fuerza de la pulsión 142 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

143 Silvia Elena Leguizamón de indicios que permitan entender dichas huellas soterradas, en la raíz misma del ser, y que lo llevan a perderse en el sin sentido del acto, en lo que existe detrás de cada compulsión a la repetición. Entonces el recorrido terapéutico ya no es sólo asociación libre-regresión-recuerdo. La repetición busca ligadura, la cual debe ser construida en la estructura de un tejido psíquico pobre conformado de huellas sin significante, y en ausencia de la pulsión, esta última se manifiesta como ausencia mutua del paciente y del analista en la contratransferencia. En el trabajo con lo arcaico vemos que la persona del analista se van albergando diferentes elementos de la relación con el analizando que tiene que ir cayendo de la persona del analista (singularidad real) a la función analítica (MARUCCO, 2006b, p. 777). En la función analítica entonces, no encontramos sólo la función de escucha y de interpretación, sino que también entran en juego las particularidades reales y los afectos del analista que el inconsciente del paciente hace vibrar dentro de él, y buscan la vía de la ligadura y la creación de nuevo tejido psíquico, tomando forma primero en la mente del analista través de la contratransferencia. Marucco (2006b) agrega: [ ] cuando llegáramos desde el plano de lo sensorial al signo perceptivo, próximo al terreno alucinatorio, [ ] en el análisis de la repetición de lo arcaico no hay historia, ni palabras, hay sólo situación analítica, o sea, encuentros que transforman [ ]. Podríamos denominar provisoriamente a esta tarea analítica como la mente del analista trabajando frente a la repetición de lo arcaico (p. 778). Y parafraseando Baranger (1987), podemos decir: entre la escucha y la interpretación, la mente del analista 8. Acerca de la temática y desde su punto de vista, Aisenstein (2009) explica como [ ] los afectos preconscientes del psicoanalista pueden ser percibidos por el paciente y encontrar entre ellos un rudimento inconsciente (propio) que busca emerger. Este último no obtiene su calificación sino dentro de los procesos transfero-contratransferenciales o del tratamiento, a través del preconsciente del analista que les da su status de afecto 9. 8 El título de su trabajo es: La mente del analista : de la escucha a la interpretació (1993). 9 Donc des affects préconscients du psychanalyste peuvent être perçus par le patient et rencontrer chez eux; un rudiment ; inconscient qui cherche à percer. Ce dernier n est qualifié que dans le processus transféro-contretransférentiel ou le traitement par le préconscient de l analyste lui donne son statut d affect (p. 134). Psicanálise v. 17 nº 2,

144 El trabajo sobre lo arcaico. La historia oficial del trauma como riesgo El analista se presta a recibir lo no representado o lo irrepresentable del paciente, una arcaico que resuena dentro de él y lo lleva a pensar en una historia contratransferencial que le permite acercarse al paciente, prestando su mente y su presencia para reconstruir o construir algo nuevo que abre la vía del deseo. Ello sucede al estilo de la vivencia de satisfacción, como lo explica Freud en El proyecto de psicología para neurólogos (1895). A dicha experiencia podemos agregar la imagen que la madre restituye con su mirada en la vivencia de satisfacción. Winnicott (1967) nos dice que cuando el bebé mira a su madre, se ve a sí mismo, y al mismo tiempo la mirada de la madre expresa lo que ella logra captar e interpretar de la relación de ambos. Si en cambio, cuando el bebé no percibe nada en la cara de la madre, se siente vacío, desvitalizado y pierde la capacidad creativa. Entonces, este objeto, el de la vivencia de satisfacción, abre la vía hacía lo psíquico con su propia pulsionalidad, sin la cual el sujeto queda atrapado en una trama psíquica empobrecida, de rudimentos de representaciones, de afectos y de pulsiones; estancado en el presente de la pura repetición (compulsión a la repetición) manifestándose a través del cuerpo o del acto (exceso de pulsión desligada) o la nada (déficit o falta de pulsión). Coblence 10 (2009) dice a propósito de la cura: Pasar del vacío a la ausencia, del dolor, que no tiene objeto y que es siempre el mismo, al sufrimiento que tiene un objeto o diversos, hace que la espera sea posible: esta es la apuesta en la cura de pacientes limites 11. Ahora tomo la conceptualización de los tres tiempos de Marucco (2004) que describe para la angustia de la compulsión a la repetición, en la zona de lo arcaico, para hablar de los tiempos de la elaboración y de la transformación de los afectos en el análisis. El primer tiempo de la angustia se esconde detrás de la repetición: se trataría del tiempo muerto de Green (2001) fuera de lo psíquico, tiempo de la ausencia en la contratransferencia. El segundo tiempo es el de la desinvestidura, ya que la angustia deviene nadificación, cercano a la angustia del vacío en la dinámica psíquica, de la angustia traumática ligada al estado de inermidad (Hilflosigkeit), que se puede sentir en la contratransferencia del analista. En el tercer tiempo, el analista invoca la pulsión de vida del paciente provocando la transformación hacía la investidura y la ligadura. El analista organiza una construcción contratransferencial que le permite comprender los diferentes momentos trans- 10 COBLENCE, F. (2009). La vie d âme. Psyché est corporelle. N en sait rien, Bulletin de la Société Psychanalytique de Paris, Octobre/Noviembre Congrès français, Atenas, mayo 2010 (p. 35). 11 Passer du vide à l absence, de la douleur qui est sans objet et toujours la même, a la souffrance qui a un objet, ou en a plusieurs, rendre l attente possible: tel es l enjeu des cures de ces patients limites (p. 99 ). 144 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

145 Silvia Elena Leguizamón ferenciales, (MARUCCO, 1978) las partes del arcaico invisibles e inaudibles para el paciente, que toman forma en la mente del analista y en el campo analítico. Un obstáculo de la técnica: La historia oficial del trauma A veces nos encontramos frente historias hiperintensas 12, hiperinvestidas e hiperrepresentadas que nos conmueven y paralizan. El riesgo sería que el malestar que trae el paciente se pueda transformar en intolerable, sobre todo para el analista, invadiendo el campo y bloqueando su función analítica, su capacidad de trabajar y de pensar. Dicho malestar puede convertirse en el camino equivocado hacía la construcción rápida de una historia traumática, que no sería otra cosa que la historia oficial del trauma, collage de representaciones circulantes 13 entre paciente y analista, che frenan inmediatamente la angustia y ejercen una función interpretante excesiva; tendiente a calmar la angustia de ambos psiquismos, dejando de lado la tarea para la cual eran convocados los dos participantes: analista y paciente. Dicha idea incluye también la del baluarte de los Baranger (1967), que implica quedar atrapado en el proceso analítico. Será, entonces, un proceso analítico que queda atrapado en esas mismas historias que circulan en la sesión y que son investidas por el analista quién no tolera la desinvestidura en el campo analítico. La historia contratransferencial tanto por falta como por exceso de pulsionalidad no es una construcción suficientemente abierta, adecuada para tolerar los momentos transferenciales de angustia sin representación. Ella deviene síntoma, pero en esta oportunidad del lado del analista bajo la forma de una historia contratransferencial defensiva. Esta historia sirve para calmar la angustia de ambos, reforzando el falso self del paciente que se sobreadapta otra vez a la situación analítica respondiendo a la necesidad del analista de tener un paciente, y de este último de tener una identidad: la de paciente. Esta idea de la historia oficial del trauma, no sólo me parece se deba abordar como recuerdo encubridor que se construye predominantemente del lado del analista, in consonancia con su paciente, sino que concuerda con otra historia, la de la identificación primaria pasiva (según MARUCCO, 1980). Acercarse a estas historia escondidas, todavía sin palabra para ser contadas es el intento de nuestra tarea, ya que encierran el origen del malestar del paciente que se resignificado infinitas veces y en tantas otras historia de repetición. Nues- 12 (überstark) FREUD, S. (1895). Projecto de psicología. Capitolo 2. Psicopatologia. v. 2. (p. 247). 13 A volte storie raccontati per la famiglia del paziente, come la vera storia d infanzia. Psicanálise v. 17 nº 2,

146 El trabajo sobre lo arcaico. La historia oficial del trauma como riesgo tra tarea comprende la posibilidad de incluir las historias en el campo para poder trabajarlas sin obstaculizar lo que la compulsión a la repetición encierra y devela de lo arcaico. Conozcamos un poco a la paciente Claudia es una joven de treinta y un años, homosexual, que luego de una convivencia de siete años se separa de su pareja. Con anterioridad efectuó dos análisis previos hechos por encargo de su familia. Esto genera en ella una sensación de control e intrusión familiar que la lleva a desarrollar un pensamiento paranoide el cual alivia fumando marihuana y tomando alcohol en exceso. En esta oportunidad, decide comenzar un análisis con un analista de su elección, a pesar de que son los padres los que lo pagan. El padre de Claudia desapareció de la vida familiar casi completamente cuando ella tenía cuatro años, ya que por motivos laborales, se fue hacia interior de la provincia. Su única aspiración era que los hijos siguieran la misma profesión, proyecto al que Claudia nunca adhirió yéndose a otra ciudad a estudiar sin demasiado empeño. De su relato poco claro, se siente la dificultad de afrontar su propia historia, más que la resistencia de contarla a su analista. P Me fui de mi casa diciendo que me iba a anotar en la facultad que mi padre quería, pero no lo hice. Mi desobediencia en realidad es poco eficaz. Me inscribí en otra facultad, pero fue sólo una forma de decirle no! a mi padre. Empecé a trabajar en lo que me gusta, pero tengo pocas posibilidades de hacerlo. Sigo con la universidad, pero en realidad no estudio desde hace dos años, sigo sólo porque ellos lo quieren, siempre hice estos truquitos [ ]. Un día llega a la sesión tratando de hablar de un sueño del que se avergüenza. Comienza a contarme que el perro se lastimó la pata por haberlo hecho jugado demasiado. Tal vez me está preguntando si la voy a hacer jugar demasiado bruscamente o si me voy a hacer cargo de ella para que no se lastime, come probablemente siente no la cuidaron en los análisis anteriores. Con el correr de las sesiones se fueron confirmando mis hipótesis contratransferenciales. Luego me relata el siguiente sueño: P Uno no se da cuenta de todo lo que hay detrás de la palabra, (se sonríe) se que con lo que le voy a contar me voy a poner roja como un tomate, pero soñé con Ud. el perro hacía guardia en la puerta y nosotras estábamos recostadas en mi cama mirando la televisión. Ud. me acariciaba la cabeza como mi madre no lo hizo nunca. Estaban pasando un programa 146 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

147 Silvia Elena Leguizamón sobre extracomunitarios, pero no como los habituales en que los que hablan son los otros, sino que los que hablaban eran los mismos extracomunitarios. Y yo pensaba que bueno, ella como extranjera lo va a entender [...] (deja de hablar avergonzada por lo que dice ya que siente es despreciativo hacia mí) A Yo soy extracomunitaria. P Si, (sonríe) xenofobia o xenofilia, es lo mismo, es siempre xeno. A Parece que estuviera diciendo que yo puedo entender por el hecho de ser extranjera, xeno, Ud. es extracomunitaria, de que comunidad? de la familia? P Sí, de la familia, en Puglia todos tienen que estar al tanto de la vida de todos, un poco islámica la vida. Me siento fuera, hay cosas que siempre me hicieron sentir diferente. Desde chica era una nena vivaz, que jugaba con los varones, pero ellos nunca se quisieron dar cuenta. Seguramente no se me escapa que el sueño está lleno de datos en referencia a su homosexualidad, y que podrían incluirse en una transferencia erótica. O de odio en el juego de palabras xeno. Pero creo que estas observaciones podrían ser fruto de una hipótesis contratransferencial frente a la fuerte angustia que la paciente despierta en mí, angustia sin objeto y sin representación. Motivo por el cual decido privilegiar el sentirse acariciada, comprendida, vista como una nena solitaria, como aparece frente a mí en la transferencia, que desea ser vista tal cual es, sin prejuicios y sin abusos. No dejarme llevar por lo que parece más evidente, la esfera sexual, me permite escuchar como se juegan sus objetos primarios en su vida. Me pregunto: qué lugar me dará a mí en la transferencia? Preguntas que permiten acompañar los cambios transfero-contratransferenciales del proceso analítico. Para no agregar más intrusión donde ya se dejaba entrever bastante, decido no hacer interpretaciones para permitir que Claudia se instalase en la transferencia y poder llevar adelante nuestro trabajo analítico. O sea, darle la posibilidad de aumentar el tejido psíquico a través de los procesos de psiquisización, abriendo una fisura en su mente que le permita pensarse sin la presencia amenazante de la censura de un superyó arcaico sumamente sádico que la tortura sin darle tregua, heredero de identificaciones primarias pasivas sin objeto que dejaron la marca del odio. Además, creo que el hecho de ser yo extracomunitaria le permita identificarse con mi diversidad y tal vez con lo que ella piensa es mi sufrimiento. A propósito, un día me dice que en realidad, cree que tenemos algo en común, ya que yo debo saber que significa sufrir, porque la migración no debe ser nada fácil. A pesar de lo cual no se debe sólo a la situación real, o sea, la de mi reciente migración (hace dos años) que percibe con claridad, sino también, como dice Aisenstein, al preconsciente de su analista, donde ella logra encontrar un punto Psicanálise v. 17 nº 2,

148 El trabajo sobre lo arcaico. La historia oficial del trauma como riesgo desde el cual poder aferrarse para que puedan emerger sus propios rudimentos de afecto inconsciente frente a la fuerza del empuje pulsional. Estos rudimentos en Claudia se sienten fuertemente, hasta transformarse en una exigencia de representación a través de un proceso di decodificación que en ella todavía se manifiestan en una interpretación paranoide del mundo. En sus relatos aparece la figura de una abuela inglesa, casada con un italiano, que se escapa durante la Segunda Guerra Mundial a su país natal. Esta historia me hace pensar que habla también de mí, como persona real, por el hecho de ser extranjera, del sufrimiento que comporta no tener un lugar en el mundo y entonces, de sentirse rechazada por todos; punto en común que ella, probablemente, piensa que exista entre las dos historias de migración. La abuela paterna es un personaje fuerte, severo y triste, que nunca le reprochó su homosexualidad, que la quería mucho a pesar de ser una persona fría y autoritaria. Cuando Claudia cuenta la historia de la abuela lo hace con claridad, en forma fluida, sin angustia. Para ella fue una persona fuerte, que a pesar de todo afrontó los hechos de la vida sin miedo y que llegó a la vejez. A lo largo de las sesiones me parece que Claudia me habla de una madre que no la escucha y que tal vez que yo pudiese hacerle lo mismo. Me habla, creo, de una nena que desea ser aceptada como varón y quiere saber si en las sesiones yo voy a hacerlo o si me voy a comportar como los analistas precedentes que consideraban su homosexualidad como una enfermedad. Sentir que mi interés y mis interpretaciones no circunscriben una historia de homosexualidad, lo que di en llamar la historia oficial del trauma, le dan a Claudia la fuerza y la posibilidad de poner en juego en el campo analítico, viejas representaciones que existe ya en su historia traumática defensiva y que esconde, en la repetición, un modelo de sumisión, conformismo y abandono que me lleva a preguntarme: de qué abandono hablan? Poco a poco Claudia comienza a habla de otras temáticas que dan sentido a una nueva historia: servir al equilibrio familiar, que se percibe en la intensidad emotiva cuando en medio de pequeñas pausas dice: mannaggia!!, palabra que no cobra sentido en el contexto de su discurso. Lo cual me lleva a pensar que exista algo más detrás de la angustia con la cual pronuncias esta palabra. En la sesión siguiente se siente como empiezan lentamente a surgir pequeños signos de transferencia erótico bajo la forma de una mirada cargada de sensualidad y desafío que me paralizan y no me dejan pensar. En esa misma sesión expresa con las mismas palabras lo que ya en otra sesión me había dicho al contarme un sueño, que: yo encuentro siempre otro sentido a lo que ella dice. Esta vez se siente su rabia por la intrusividad de mis palabras, pero bajo la forma de una transferencia erótica. 148 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

149 Silvia Elena Leguizamón Cuando llega a la sesión siguiente, me dice gentilmente que le dé un minuto para tomar coraje para hablarme de los sentimientos desagradables que empieza a tener. Me dice que siente envidia y celos por su pareja, que es más joven y activa, y que ella en cambio se siente demasiado pasiva e inmóvil, como me sentí yo misma frente a su rabia en la sesión anterior. A esta altura del análisis me vienen a la mente diferentes asociaciones. Me parece que Claudia se está defendiendo de mis palabras, pero, de hecho, a partir de esa sesión se produce un cambio profundo en el proceso analítico, un punto de inflexión (BARANGER; BARANGER, 1967), sin duda en la reconfiguración del campo analítico que cambia la actitud de ambas: ella comienza a hablar de lo que la angustia, y mis señalamientos comienzan a tomar la forma de interpretaciones logrando ambas tolerar la angustia y los silencios. Seis meses después, entra y me dice que desde hace un par de sesiones sentía una gran angustia, una situación que confirma mi percepción. La angustia invade la sesión transformándola en intolerable, su cara se descompone, frunce el seño, se mueve más de lo habitual, se toca el pelo, la ropa, tratando de acomodarse buscando una posición, me pregunto buscando un lugar en el mundo? P Pienso en dejar todo, también el análisis, porque estoy viendo demasiadas cosas y siento tanta angustia, lo sé que es así pero cuando se termina esta angustia? Mannaggia!! Es la primera vez que esta expresión cobra sentido tanto simbólico como afectivo en el discurso de Claudia, y en el fluir de sus pensamientos. Para concluir El trabajo analítico con Claudia fue arduo y prolongado. Creo que lentamente pudo encontrar en la mente y en la persona de su analista ciertos rudimentos que le permitieron encontrar su propia capacidad de ligadura y de simbolización, un pequeño salto hacia lo cualitativo, en el orden de los procesos terciarios. Una salida de los diferentes encierros del cuerpo, del acto o de la nada, que serían la manifestación sintomática de la pulsión desorganizante en exceso o en déficit por falta de pulsión. Y como dice Aisemberg (2009): Otra dimensión importante a señalar es que en estos pacientes con predominio de estructuras no-neuróticas, cuando evolucionan positivamente, emerge el funcionamiento psiconeurótico [ ] expresado en transferencia, sexualidad infantil, Edipo, pulsiones y Psicanálise v. 17 nº 2,

150 El trabajo sobre lo arcaico. La historia oficial del trauma como riesgo especialmente, el relato de la violencia que antes estaba suprimida y circulaba por el soma o por el acto. Un proceso de psiquisización que permite iniciar a dar representaciones a la pulsionalidad que recién comienza a emerger a lo psíquico. Este proceso evidencia como surge en la transferencia una repetición que permite el pasaje a lo intrapsíquico como un proceso simbolizante de mentalización; para tomar también la vía de lo interpsíquico que permita evidenciar en la transferencia una relación con un objeto, que además es nuevo y diferente. Y como dice Michel Neyraut (1974), la contratransferencia precede a la transferencia, por lo cual desde la contratransferencia del analista, desde su mente y su presencia se abren nuevos senderos hacia la simbolización, despertando las pulsiones y el empuje de las mismas que se imponen a lo psíquico como una exigencia de trabajo y de representación desde la primera tópica y que habilitan la vía de la ligadura en el masoquismo erógeno y la ligadura desde la dualidad pulsional de la segunda tópica. La convicción del paciente y la pertinencia de la interpretación, permitirán la apertura del campo y la dinamización del proceso analítico, ya que la interpretación logra acercarse al inconsciente del analizando dejando un elemento nuevo. En práctica, [ ] no estamos buscando una cosa, no estamos escuchando otro sentido, estamos siguiendo el rastro de algo (alguien) inalcanzable pero siempre presente, cuya presencia ha tenido en el plasmar de la historia y tiene en cada momento de la vida, una función estructura 14 (BARANGER, 1993, p. 28). Lograr incluir este inconsciente en el campo permite la dinamización de lo diferentes elementos atrapados en la compulsión a la repetición que se acerca a lo que podemos llamar un proceso de cambio psíquico. Cito para finalizar, las palabras de Pontalis (1977) que comentando el libro de J. McDougall dice: Y agregando en su libro: Si el analista es capaz de percibir y sacar a la luz el sufrimiento de esos pacientes, la experiencia analítica puede alcanzar el límite de lo analizable. Lo representable y lo narrable. Es en este terreno, en el que deben inventarse continuamente nuevos modos de establecer contacto y de comunicarse [...]. 14 BARANGER, M. (1993). La mente del analista: de la escucha a la interpretación. In: Volviendo a pensar con Willy y Madeleine Baranger. Buenos Aires: Lumen Editores, Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

151 Silvia Elena Leguizamón [...] qué sucede, del lado del analista en la experiencia del dolor psíquico? [...]. Hacer nacer al otro a sí mismo. Digamos que un analista que ignorara su propio dolor psíquico no tiene ninguna posibilidad de ser analista, como quien ignorara el placer psíquico y físico no tiene ninguna chance de seguir siéndolo 15 (PON- TALIS, 1977, p. 269). The work on archaic. The official story of trauma as a risk Abstract: The author takes the idea of affection in Freud, of rudiments of affection and representation in Aisenstein, and Marucco s idea of pulsional embryo, in order to develop the idea of a psychic apparatus that reuses the economic organization of the first topic as a foundation for the cure of border pathologies, as pulsional deficit. It is essential, to promote the growth of the pulsionality, which verbalizes the pulsional chaos of the Id, giving access to the level of bonding and erogenous masochism, to trigger the mentalization or psychization processes. She describes the risk of the official history of trauma turning up during the session: a hyper-intense, hyper-invested, hyper-represented history that circulates in the field, blocking the therapist s capacity to listen. Lastly, she articulates theory through a clinical case that allows a deeper understanding of work difficulties with countertransference, which is the privileged form of listening in the archaic sphere. Keywords: Affect. Archaic. Counter-transference. Drive. Object. Trauma. Referencias AISEMBERG, E. Abordaje clínico al paciente somático Psicoterapia o psicoanálisis? En: Congreso de la Asociación Psicoanalítica Internacional, La practica analítica: convergencias y divergencias, Chicago, julio/agosto, AISENSTEIN, M. Les expressions du corps dans la cure. En : Bulletin Congreso europeo de Psicoanálisis. La sombra de la herencia : Bruselas, AISENSTEIN M. ; SAVVOPOULOS, S. Les exigences de la représentation. Revue Française de Psychanalyse, n. 5, p , [...] qu en est-il, du côte de l analyste, dans l expérience de la douleur psychique? Faire naître l autre à soi-même. Disons que un analyste qui ignorerait sa propre douleur psychique n a aucune chance d être analyste, come celui qui ignorerait le plaisir psychique et physique n a aucune chance de le rester (p ). Psicanálise v. 17 nº 2,

152 El trabajo sobre lo arcaico. La historia oficial del trauma como riesgo BARANGER, M. La mente dell analista: de la escucha a la interpretación. Revista de Psicoanálisis, n. 2, p., BARANGER, M.; BARANGER, W. La situación analítica como campo dinámico. In: Problemas del campo psicoanalítico. Buenos Aires: Ediciones Kargieman, Originalmente publicado em FREUD, S. (1895). Il Progetto di psicologia. In: Obras completas. v. 1. Buenos Aires: Amorrortu, (1915a). Pulsiones y destinos de pulsión. In: Obras completas. v. 14. Buenos Aires: Amorrortu, (1915b). La represión. In: Obras completas. v. 14. Buenos Aires: Amorrortu, (1915c). El inconsciente. In: Obras completas. v. 14. Buenos Aires: Amorrortu, (1923). El yo y el ello. In: Obras completas. v. 19. Buenos Aires: Amorrortu, (1937). Construcciones en el análisis. In: Obras completas. v. 23. Buenos Aires: Amorrortu, GREEN, A. Après-coup, lo arcaico. cap. VI. In: La nueva clínica psicoanalítica y la teoría de Freud. Buenos Aires: Amorrortu, Originalmente publicado em MARUCCO, N. Momentos o neurosis transferencial?: reflexiones sobre la transferencia en la obra de Freud. Revista de Psicoanálisis de la Asociación Psicoanalítica Argentina, v. 35, n. 1, p , Cura analítica y transferencia: de la represión a la desmentida. Buenos Aires: Amorrortu editores, Originalmente publicado em La posición del analista [el otro] y la clínica actual. In: El otro en la trama intersubjetiva. Buenos Aires: Lugar Editorial, Entre el recuerdo y el destino: la repetición. Trabajo central del Congreso Internacional de Berlín. Revista de Psicoanálisis de la Asociación Psicoanalítica Argentina. v. 63, n. 4, p , NEYRAUT, M. Le contre-transfert et la pensée psychanalytique. cap. I. In: Le transfer, Paris: Presses Universitaires de France, Originalmente publicado em Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

153 Silvia Elena Leguizamón PONTALIS, J. B. Sur la douleur (psichique). In: Entre la rêve et la douleur. Paris : Éditions Gallimard, WINNICOTT, D. La funzione di specchio della madre e della famiglia nello sviluppo infantile. cap. IX. In: Realtà e gioco. Roma: Armando Armando Srl, Originalmente publicado em Silvia Elena Leguizamón Via dell Indipendenza, Bologna (BO) - Italia [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

154 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil Victor Guerra 1 Resumen: En el presente trabajo el autor desarrolla el tema de la escucha analítica tomando como referencia el concepto de capacidad negativa de J. Keats. A partir del estudio de algunas de sus cartas, se dedica al tema de una posible escucha sensorial y estética en la sesión. Para ello además de tomar los aportes de diferentes autores psicoanaliticos, toma referencias literarias y artísticas que posibiliten abrir la escucha a esos registros mas primarios del encuentro. Toma como referencia clinica el estudio de un caso de lo que denomina Trastorno de subjetivación arcaica, en el que una forma de funcionamiento autístico se hace presente el niño. Reflexiona también sobre el papel de la disritmia en los vínculos padres-hijo y en el trabajo analítico con el ambiente subjetivante. Se presta especial hincapié al trabajo sobre la sensorialidad y la ritmicidad con el paciente y en la emergencia de momentos estéticos en el análisis. Palabras claves: Ambiente subjetivante. Autismo. Capacidad negativa. Momentos estéticos. Intersubjetividad. Ritmo. Sensorialidad. Trastornos de subjetivación arcaica. De dónde proviene nuestra capacidad de escucha? A que nos referimos con escucha psicoanalítica?, cómo interviene el cuerpo en ella? Entre múltiples definiciones posibles me gustaría centrarme disposición interior a recibir, a acoger la comunicación que viene del otro, y del otro (icte) que habita al paciente y que muchas veces toma un camino sensorial como vía de expresión. 1 Psicólogo. Psicoanalista de A.P.U. 154 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

155 Victor Guerra Para ello Freud (1912) nos transmitió que contamos con el instrumento de la atención flotante, como condición básica del trabajo analítico. Pero esta atención flotante que buscaría un aflojamiento de las censuras y una posible porosidad con el proceso primario para así intentar un tránsito de representaciones y vivencias de una manera más libre, es también muchas veces, un requisito de los proceso de creación en los artistas. Y tal vez uno de los ejemplos más claros de la correlación entre los procesos de creación de un artista y la escucha del analista sea el concepto de capacidad negativa de J. Keats que se hiciera conocido a través de los aportes de Bion (1970) Me dedicaré ahora a tratar de seguir más en detalle algunos aportes de J. Keats para poder pensar el tema de una posible escucha sensorial y estética del analista. La escucha, la capacidad negativa y la sensorialidad Será importante que conozcamos algunos aspectos de la vida de este poeta romántico. John Keats nació el 31 de octubre de 1795, en Finsbury Pavement, en las afueras de Londres. Su padre era propietario de una caballeriza y murió de la caída de un caballo en 1803, cuando el poeta tenía sólo siete años. Su madre volvió a casarse enseguida, pero este segundo matrimonio fue infeliz y ella no tardó en abandonar a su marido y trasladarse a vivir en casa de la abuela de Keats en Enfield con John, su hermana y otros tres hermanos. Su madre murió en 1810 de tuberculosis, dejándole a él y a sus hermanos al cuidado de su abuela. Esta nombró dos tutores que pudieran cuidar a los huérfanos; estos sacaron a Keats de su antigua escuela y lo convirtieron en aprendiz de cirujano hasta 1814, cuando, tras una pelea con su maestro abandonó ese puesto y se fue a estudiar en otro hospital de la zona. Durante aquel año John dedicó cada vez más y más tiempo al estudio de la literatura y, aunque se graduó en Farmacia, sólo ejerció dos años, tras los cuales se entregó por completo a la poesía. Entre su múltiple producción dejo toda una serie de cartas que dan cuenta del diálogo con amigos, familiares y poetas. Ellas forman parte de documentos muy importantes para conocer su vida y su pensamiento. Tiene dos cartas de las cuales me ocuparé especialmente. En una aparece su relación con la intensidad y la capacidad negativa; y en la otra se refiere a la peculiar forma de identidad que tendría (o dejaría de tener) el poeta. Estos puntos harán trabajar en mí sus implicancias con el trabajo analítico. Hampstead, 22 de diciembre de J. Keats a los 22 años le escribe a sus hermanos (HUGHTON, 2003): Psicanálise v. 17 nº 2,

156 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil [...] Pasé la tarde del viernes con Wells y a la mañana siguiente fui a ver La muerte sobre el caballo pálido. Es un cuadro admirable si se tiene en cuenta la edad de Wells, pero no hay nada allí que produzca intensidad, mujeres que uno quisiera besar con locura, rostros creciendo hacia la realidad. La excelencia del arte es su intensidad, capaz de hacer que todo lo desagradable se evapore al hallarse en estrecha relación con la belleza y la verdad [...]. Tuve una disquisición no una disputa - con Dilke, sobre varios temas; muchas cosas se ensamblaron en mi mente, y de pronto me sobrecogió esa cualidad que Shakespeare poseía tan grandemente; quiero decir capacidad negativa, o sea, cuando un hombre es capaz de ser en la incertidumbre, los misterios, las dudas, sin ninguna irritada búsqueda tras los hechos y las razones [...] (p. 93). Qué nos aportan estos conceptos al trabajo analítico? Si bien Bion fue tal vez el primer analista que resaltara dicho aspecto, también por ej. Gómez Mango (2009) señala que: El analista está también al acecho de lo intenso: el punto de vista económico no puede dejarse de lado, el deseo inconsciente intensifica tal o cual representación, aunque sabemos que el desplazamiento de las intensidades es una de las operaciones de la astucia del inconsciente [ ]. Lo que el paciente puede hacer sentir o imaginar al analista, depende en gran parte de la capacidad negativa del analista [...]. Es entonces para el analista la capacidad primeramente de acoger la palabra del paciente, de no resistir el mensaje que viene del otro [...]. La capacidad negativa crece en la escucha, la atención flotante del analista, en su silencio que es otra modalidad de la palabra y no su ausencia (p. 88). También este autor ha señalado que lo intenso está en relación con la fuerza del in-fans, la voz primigenia que nos habita, como un mudo que la corriente del lenguaje transporta y arrebata, golpeándose contra las palabras [ ] para hacer resonar la música de los afectos. Hay algo del sujeto que se resiste a ser dicho en palabras y que se puede expresar a veces en intensidades del decir o intensidades de la palabra encarnada en el cuerpo: un cruce de miradas, la fuerza de una respiración, la presencia de un suspiro [ ]. Decires del cuerpo que nos semiotizan el camino de la pulsión en estado más puro, más naciente [...] y la capacidad negativa del analista sería una forma de receptividad de esa fuerza de lo in-fans. Que es también una forma de sensorialidad primaria inscripta en la escritura de Keats. Cadenas (2007) nos dice sobre la escritura de Keats que este poeta: 156 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

157 Victor Guerra se acercó allí donde la realidad brilla recuperada con la fuerza que le es propia, pues no está mediatizada por ninguna identidad y sus relieves se sienten incrementados, como en el niño para quien el mundo tiene un esplendor intenso que después desaparecerá y los colores arden y los sonidos traspasan y las texturas hablan, pues no hay barreras que produzcan opacidad y es como si un puro sentir o como si los cuerpos, ya sin defensas, entraran en otro tipo de comunicación en que todo se compenetra 2 (p. 522). Contemplar, descubrir, tolerar incertidumbres, suspender identidades, asumir la capacidad negativa es virtud de los poetas, pero también lo puede ser de los analistas ya que algún aspecto de nuestro trabajo está emparentado con la sensorialidad, con la estética. Veamos lo que nos cuenta Resnik (1996): Resnik continúa: Un paciente muy interesante y muy perturbado me dijo en una ocasión, mirándome: Usted no parece estar siempre despierto pero en realidad es sensible y alerta a la experiencia estética. Le pregunto por qué y él, estudiante de filosofía, me responde: Porque en estética está aisthetikós (ciencia de los sentidos) y usted privilegia las sensaciones del otro y las suyas, es decir lo que usted siente de lo que el otro pueda sentir (p. 470). esta reflexión de mi paciente me invita a enfrentarme con el vértigo o la perplejidad provocada por la inseguridad inventiva de un itinerario no previsto o de un paisaje naturalmente desorganizado. Esto requiere una personalidad o una actitud que tolere el máximo de diversidad y desorden que el poeta Keats nomina capacidad negativa [ ]. Que es quizás un atributo, un don que consiste en cierta habilidad intuitiva de preservar el desarreglo o el aparente sentido ilógico de los acontecimientos, sin inmutarse demasiado y acaso encontrando también cierto placer aventurero 3 (1996, p. 471). 2 Elementos que están en fuerte resonancia con las palabras freudianas Dichter e Dichtung, tal cual las analiza E. Gómez Mango (2013). Dichtung parece designar um -proceso de elaboração psíquica que consiste em transformar as imagens sensoriais, os sentimentos e afeções da alma humana em figuras de linguagem, um dizer poético que preserva em si mesmo o frescor das experiências primitivas e originárias. 3 La capacidad negativa es un elemento muy importante en la experiencia de Observación de Bebés por el método de E. Bick. La impregnación sensorial del ambiente y de la experiencia emocional del bebés a descubrir, se apoya en parte en dicha capacidad del observador (GUERRA, 2008). Psicanálise v. 17 nº 2,

158 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil Nuevamente itinerarios, tránsitos imprevisibles, jirones de ideas desorganizadas, in-formes (WINNICOTT, 1971), de contornos sensoriales, en los cuales la capacidad negativa como una posición interna del analista, posibilitaría su irradiación y articulación-elaboración en el pasaje a la aventura placentera de la puesta en palabras del camino asociativo. Camino que también precisa ser co-construido entre el paciente y el analista, quién por momentos debe también tener un rol activo en la apertura de los horizontes de sentido. Pero en esa particular forma de disposición interna, qué lugar ocupa la identidad, el yo del analista? Para abrir caminos de respuestas a esta pregunta volvamos a escuchar a Keats y sus cartas (p. 102). CARTA DIRIGIDA A RICHARD WOODHOUSE: 27 DE OCTUBRE DE 1818 En cuando al carácter poético en sí mismo (me refiero a esa especie de la cual soy miembro, si es que soy algo; esa especie distinta de la wodsworthiana o egoísta sublime: es algo per se y que existe sola) es algo que no es, que no tiene yo, es todo y nada. No tiene carácter, goza de luz y de la sombra; vive en lo que le place ya sea recto o vil, alto o bajo, rico o pobre, humilde o elevado [ ]. Lo que choca al filósofo virtuoso encanta al camaleón poeta. El sabor del lado oscuro de las cosas no ofende su gusto más que el brillante pues ambos acaban en especulación. Un poeta es lo menos poético de la existencia, ya que carece de identidad desde el momento en que se ve continuamente en la necesidad de ocupar el cuerpo de otro, el sol, la luna, el mar, los hombres, y mujeres, todo ellos criaturas de impulso, son poéticos, y poseen el atributo inmodificable; el poeta no tiene ninguno, carece de identidad; es seguramente la menos poética de todas las criaturas de Dios [ ]. Es triste confesarlo, pero es un hecho cierto que ninguna palabra que yo pronuncie puede ser considerada como una opinión proveniente de mi identidad, Cómo podría serlo si carezco de naturaleza? Cuando estoy en un cuarto con gente y dejo de especular sobre creaciones de mi propio cerebro, entonces no soy yo mismo quien regresa a mí, sino que la identidad de cada uno del cuarto comienza a presionar tanto sobre mí que en pocos instantes me anonada y esto no solo entre hombres, me ocurriría lo mismo en una guardería de niños. Esta carencia de identidad, (carencia de yo), nos habla de una forma de identidad camaleónica, una disposición a entrar en el mundo de los otros y sentirse parte de ellos? Parecería una forma especial de establecer identificaciones con el ambiente, con una labilidad de la certeza de ser, para hacer un viaje en el cual el otro y el sujeto por momentos borran sus fronteras. En la cual la labilidad identitaria del poeta parece ser una condición del sujeto y de su proceso de creación. 158 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

159 Victor Guerra Pero esto, en la escena clínica, no aparecerá también en procesos de re-creación psíquica en la que el analista también debe por momentos dejar en suspenso sus creencias, su yo armado? Desalojar su identidad estable del proceso secundario para pasar, a un funcionamiento más poroso, maleable, y anonadarse para recibir y celebrar lo creativo del trabajo analítico, cuando ello acontece? Pontalis (1993) nos responde: Pues bien. A mi manera de ver, un análisis solo es operante si el analista consiente en deshacerse de sí mismo: por lo cual conviene entender no solamente las imágenes que pueda tener y querer dar de su persona, las certidumbres que puedan darle su saber, su saber-hacer y esa pequeña teoría portátil que se ha fabricado, sino también, más radicalmente, lo que poco a poco se ha venido constituyendo como su yo-analista.quizás uno no funcione como analista más que cuando haya llegado a curarse de su deseo confirmado de ser analista [...]. Un análisis no es verdaderamente eficaz sino cuando hace vacilar las referencias, cuando modifica el régimen de pensamiento y digamos el término, el ser del analista (p. 75). Curiosa conformación del yo analítico (si es que algo así existe) debe conformarse y desarmarse de una forma peculiar con cada paciente. El análisis haría vacilar las referencias, el pensamiento y el ser del analista. Pienso que entre otras cosas (por ej. su propio análisis) el analista tiene como recaudo en su funcionamiento mental, la capacidad negativa que apunta a una receptividad, a una especie de calma ante la pérdida de las certezas, hospedando el decir del paciente, sea éste del tipo que sea. Y desde allí relanzar nuevos sentidos del discurso que abran a la polisemia del inconciente. Y Cadenas (2007) desde la literatura nos dice: Solo el poeta es irreconocible porque su función es acoger lo que se muestra, sin interferir, dejando que todo sea lo que es y para que eso ocurra ha de carecer de identidad, o al menos de la identidad que nos es familiar. El obstáculo para la experiencia poética sería la identidad, lo que indica que Keats ve en el poeta a un representante de la nada, alguien que por estar hermanado con ella se muestra abierto a todo, disponible, despierto (p. 536). Está hermanado de la nada [...] posee una identidad diferente de la común (familiar) [ ]. representante de la nada que se muestra abierto a todo, disponible, despierto [...]. Podremos tomar prestada estas palabras y permitirles visitar el recinto analítico? Psicanálise v. 17 nº 2,

160 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil Acaso el analista no está también emparentado (pariente de la nada) con este aspecto? De dejar el camino abierto de la atención flotante sin buscar nada en especial para que el paciente tenga toda la libertad posible para seguir el curso de sus asociaciones? [...]. La receptividad de la atención implica no solo no prestar atención a nada en especial, sino dejarse llevar, tomar, sacudir, por el decir del paciente y por la vida secreta de las palabras y de los gestos. Para ello el analista de una manera diferente al poeta, debe convivir con una maleabilidad identitaria y con una nada receptiva y creativa. Podríamos decir que el analista no busca la belleza, busca la polisemia abierta de la implicación afectiva del discurso, que tiene a veces un impacto estético en la sesión. Tiene una permanente vigilia por el acto mensajero, por la palabra como vía de elaboración y el placer aventurero de dejarse sorprender en la escucha y en la interpretación Y en el acto de la sorpresa auspiciar (hasta donde se pueda) la irrupción de lo novedoso, la interpretación, el cuestionamiento de una nueva forma de (des) conocerse a (de) sí mismo. De esa manera el paciente se des-cubre -y fluye de otra manera, al escucharse viajar con palabras (y juegos) por su mundo interior, con nuevos (e inciertos)- itinerarios de su ser. 4 La sensorialidad, el ritmo y el otro en la subjetivación Hasta aquí me he dedicado a pensar la posición del analista y su relación con la sensorialidad y la estética, pero surge una pregunta fundamental: cuál es el papel de la sensorialidad, del cuerpo, no solo en la creación artística sino en la creación del sujeto, en su proceso de subjetivación? Para ello debemos también articular la función de la sensorialidad en la subjetivación y en la clínica de los trastornos tempranos. Muchos autores sostienen en la actualidad que uno de los elementos fundantes de la vida psíquicaes la de poder integrar la multiplicidad de la experiencia sensorial, con el mundo emocional, como parte de la subjetivación infantil (GOLSE, 2011; NAKOV, 2012; BOUBLI; KONICHECKIS, 2002). Ya desde hace años una autora muy importante como David (2014) sostenía que en los primeros años de vida del bebé su motricidad espontánea y las viven- 4 Esta perspectiva coincide con lo expresado por el colega Trachtenberg (2006) cuando sostiene que función analítica implica: Pensar con otro, aceptando tolerar la ausencia de respuestas y el incremento de preguntas, el misterio de lo inaccesible y la renuncia a la expectativa de soluciones finales. 160 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

161 Victor Guerra cias sensoriales de su cuerpo le permitirán toda una serie de descubrimientos. Y la actividad psíquica del bebé estaría contenida y se ejercería desde su sensoriomotricidad, ya que ambos factores están en continuo proceso de integración para desarrollar el psiquismo. Y David (2005) nos aporta una sutil definición de psiquismo en el bebé Ella sostiene que sería: esa fuerza interna que nos habita, misteriosa, invisible, impalpable, en actividad perpetua y permanente, en búsqueda de procesos de funcionamiento, de regulación, de organización: - de todos los componentes de la personalidad. - de la relación de ellos con el ambiente. - de las emociones interactivas que resultan, la hacen emerger y la fertilizan. Entonces esa fuerza de actividad perpetua y en movimiento de búsqueda de procesos de organización y ligazón, tiene como punto fundamental el encuentro de emociones interactivas que van a provocar un movimiento de expansión del sujeto en apertura hacia otros espacios. Pero para ello se precisa también una particular disposición del otro y de su ritmicidad y narratividad (GUERRA, 2014). Ese inicio de la vida, en cierta medida es el reino de la sensorialidad, de la motricidad y de los ritmos anclados en el cuerpo y en búsqueda de palabra. Antes de traducir la experiencia del self primario al aparato del lenguaje, el bebé es hablado por el otro, significado por la palabra y por el cuerpo hecho lenguaje (narratividad). Partimos de la base de una sensorialidad innata del bebé que une el interior y el exterior por la intermediación de los órganos sensoriales y las excitaciones que reciben y le generan sensaciones (GRANJON, 1990). Esta sensorialidad primitiva configuraría flujos sensoriales (HOUZEL, 2011) en principio indiferenciados. Las excitaciones se harán diferenciadas, coordinadas e integradas entre otras cosas, por el papel del otro subjetivante, que al reflejarlas, espejarlas y traducirlas, posibilitará que se genere una ritmicidad conjunta en el vínculo. Ritmo que funcionara como organizador de dichas polisensorialidades (GOLSE, 2011). La posibilidad de la puesta en juego de una ritmicidad conjunta, sería la experiencia en la cual la madre puede reconocer el ritmo de su bebé, calmarlo y entrar en consonancia con él, tanto en relación con los tiempos que precisa el bebé para integrarse a una experiencia, o por ej. el acompañamiento de los ciclos de actividad y pasividad de él (GUERRA, 2014, 2015). Psicanálise v. 17 nº 2,

162 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil El ritmo es la experiencia de un vínculo que hace retorno para finalmente constituirse como experiencia interna (GUERIN, 1990). El ritmo indica la previsibilidad de una relación, la fiabilidad de la experiencia con el otro y la reciprocidad de una relación que se co-construye asimétricamente. Pero el ritmo no solo es un factor fundamental en la creación de la vida psíquica, sino también en la creación estética. En un texto sobre el poema, Paz (1998) dice: El poema es un organismo rítmico, una forma en perpetuo movimiento. El poema está hecho de aspas de aire que, al girar, emiten torbellinos de sonido que son remolinos de sentido [ ]. Las ideas bailan, los sonidos piensan. Vasos comunicantes: oímos al poema con los ojos, lo pensamos con los oídos, lo sentimos en la mente. O más bien es unir en un solo giro, en un oleaje rítmico, el sentir y el pensar (p. 45). Paz (1998) nos aporta palabras de un contenido muy sutil, que transcienden en sí mismas la experiencia poética y parecen graficar algo de lo indecible de la experiencia humana. Por un lado nos encontramos con el impacto emocional de su potencial creativo, de su forma peculiar de jugar con los sentidos y con la palabra, y con como él transmite la experiencia que describiera Stern (1990) como transmodalidad. O sea la potencialidad que tiene todo ser humano de traducir la información de un canal sensorial a otro (oír con los ojos, las ideas bailan), siendo algo presente desde el inicio de la vida y configurándose como una de las primeras experiencias internas de integración. Pero este autor sostiene que dicha potencialidad se mantendría en otros momentos de la vida como germen de creatividad, y toma como referencia al poema Correspondencias de Baudelaire 5, o la creación cinematográfica de S. M. Einsenstein (maestro del cine ruso) con el film Alejandro Nevsky, con música de S. Prokofiev 6 Sería posible sostener que dicha experiencia transmodal de pensar con los oídos, sentir con la mente, unir en un ritmo el sentir y el pensar, no es solo parte de la poesía, sino también del análisis, de ciertos momentos estéticos del análisis? 5 El poema dice: Hay olores tan frescos como la piel de un niño/ dulces como flautas, verdes como la hierba/ y hay otros corruptos, ricos y triunfantes. 6 En esta obra de arte (STERN, 1990) jerarquiza la escena de la batalla en la que se puede apreciar: La exploración artística de la integración de la vista y el sonido más cuidadosa y laboriosa que se haya realizado nunca. 162 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

163 Victor Guerra La escucha estética Qué correlación puede haber con estas formas de experiencias del arte, con una escucha psicoanalítica? Es posible repito en una sesión, contemplar la idea de oír con los ojos y pensar con los oídos, de sentir con la mente? Pienso que estos aspectos que nos trae Paz configurarían momentos especiales de la escucha analítica, más cercano al funcionamiento onírico, que un autor como Pontalis (2005) llamaría: Pensar soñante, y que Ogden (2010) basado en Bion denominaría ensoñamiento, como capacidad de elaboración psicológica inconsciente. Desde mi lectura personal son momentos fugaces del análisis en los cuales retomamos la experiencia de transmodalidad que describiéramos y nos ubicamos en un estado por fuera de las tiranías de las palabras y sus sentidos asfixiantes (PONTALIS, 2005). Cobraría primaria entonces la experiencia sensorial, la textura sensitiva de la palabra o del juego, y no tanto la búsqueda de un sentido en el discurso. Estos momentos paradojalmente podríamos nombrarlos como momentos estéticos en los cuales estamos ubicados en una frontera entre la experiencia sensorial y emocional, y como ante una obra de arte, quedamos en suspenso, empujados al límite de la palabra y del decir discursivo. Otros autores se han ocupado de ello, por ej. Khan (2003) señala que: el término estético nos reenvía a una teoría del afecto y del sentir: aesthesis en griego, que desde los Presocráticos a la actualidad interroga la el espacio entere el fenómeno sensible y su agente. Y diríamos que el modo de recepción estético no es parte de un territorio homogéneo, sino que está conformado por diferentes modos de recepción y de actualización, siempre en relación con la actividad de las sensaciones, su esfuerzo y su acto (p. 570). Y esto tiene sus efectos en la escucha del analista: El aparato psíquico del analista transforma las impresiones, timbre, voz, acentos, velocidad de elocución que se asocian a una suma de imágenes o de sensaciones heteróclitas, que pueden figurarse como una canción, o la visión de un cuadro o de un chiste, sin relación aparente con lo que se ha comunicado. Estos momentos son intensamente estéticos y creativos. Aquí evidentemente el termino estético se encuentra en una zona de cruce entre una experiencia sensorial, lo informe (WINNICOTT, 1971), el dichter freudiano (FREUD, 1908) y la creación. Podremos entonces tomar estos momentos estéticos, como momentos en que la poesía atraviesa el análisis? Psicanálise v. 17 nº 2,

164 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil Gómez Mango (2009) nos dice: La emoción poética atraviesa a veces la sesión Una palabra, el contenido así como su enunciación particular, su sonoridad, el detalle de un sueño, hacen a menudo que la imagen o la palabra se eleve [ ]. El analista es sensible al color, a la sombra y a la luz de las palabras, que expresan el afecto en la entonación de la voz (p. 50). Y tal vez ésta escucha estética sería la apertura del analista a los aspectos primarios sensoriales y rítmicos de la comunicación, que tienen un valor de descubrimiento, de re-inauguración de un decir propio, a través de una palabra de un gesto, o de un juego. Y hablo de palabra, gesto y juego, porque la viñeta que elegí para escenificar y hacer trabajar estos conceptos es el trabajo analítico con un niño de 3 años y sus padres. Viñeta clínica Recibo el pedido de consulta por Jorge un niño de 3 años. Los padres dicen estar muy preocupados por la falta de lenguaje, la impulsividad, la duda de si es sordo, dificultades de comunicación severas con momentos de hipersensibilidad ante ciertos ruidos, casi ausencia de juego, trastornos de sueño, imposibilidad de calmarlo en diversos momentos de angustia (no pueden llevarlo al Shopping, ni a lugares donde hayan demasiados estímulos juntos), momentos de aislamiento marcado, como que está descolgado de la realidad y no te busca con la mirada. De la historia muy brevemente diré que Jorge fue el primer hijo de esta pareja, que fue un embarazo buscado durante años, con oscilaciones ante desavenencias en la pareja, que vivieron durante años en el exterior y al retornar al país decidieron como parte del proyecto, gestar un hijo. Hubo dificultades desde el embarazo, la madre se entera de una situación de infidelidad reiterada de parte de su esposo, con una historia muy severa de consumo de drogas y riesgo de vida, que por el momento está estacionada. La madre describe la angustia de la situación con una sensación de decepción, sentí que me moría, que algo dentro de mí se quebró, como que se murió algo. Pero tenía a Jorge dentro de mí también. Fue como una lucha. Los primeros meses pasó muy deprimida, hasta que en un momento dice tomar conciencia de las necesidades de su bebé, pero éste ya interactuaba poco. 164 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

165 Victor Guerra Cuando recibo a Jorge, tengo la impresión de un niño salvaje que se comunica casi con alaridos, rabietas y explosiones ante la frustración, movimientos permanentes, y caóticos. Por momentos sale de la sesión buscando a la madre, quien entra y trata de jugar con él, pero se hace muy difícil establecer un diálogo lúdico, ante la más mínima frustración él destruye lo que construye y es como empezar todo de cero. Poco contacto ocular, pero cuando me mira me transmite y siento, un pedido de ayuda. La mirada me angustia y me da esperanza al mismo tiempo. Este es un elemento contratransferencial de suma importancia, ya que implicaría la percepción, a través de la semiología de la mirada de una búsqueda de contacto con el otro, elemento que no está presente de esta manera en los niños más claramente autistas (GOLSE, 2013). A partir de los elementos de la historia del desarrollo de Jorge y lo cualitativo del encuentro transferencial, me inclino a pensar en una forma de funcionamiento que denomino tentativamente Trastorno de subjetivación arcaica (GUERRA, 2015), en el cual asigno especial importancia al trabajo con los padres. Trabajo con los padres y el ambiente subjetivante Transcurre el análisis con varias entrevistas previas con los padres, para trabajar con ellos esas vivencias del inicio de la vida de J., desde donde emerge en ambos un gran deseo de reparación. La labor analítica que se fue dando durante el caso ( así como en otros que atiendo), estriba en la apertura hacia dos aspectos centrales; 1) habilitar a que los padres hablen y reconstruyan algunos aspectos de su historia personal y de la historia del vínculo con su hijo, tratando de intuir la forma cómo se representan su proceso de parentalidad (interacción fantasma tica parental), 2) la apertura y la escucha en el presente de las dificultades y aciertos en la relación directa con Jorge (interacción real) (KREISLER; CRAMER, 1985). O sea había en el trabajo una articulación entre una direccionalidad longitudinal y otra transversal. De esta manera ambos niveles de ese discurso polifónico, se van entrela(n) zando. Y el colocar la n entre paréntesis no es solo un juego de letras en el discurso, ya que tiene pleno sentido clínico. Al entrelazar las historias (que están la mayoría de las veces desligadas entre sí), se pueden lanzar las subjetividades hacia nuevos espacios desconocidos. El lanzar una lanza, no es solamente un acto agresivo, es también una forma de incursionar en un nuevo espacio, de largar algo de sí a un espacio nuevo distante Psicanálise v. 17 nº 2,

166 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil Eso implica de parte del analista, una forma de atención y receptividad especial que podríamos denominar como disposición empática, que se definiría a partir de los aportes del escritor Couto (2009) cuando se refiere a lo que le aporta la escritura. Él nos dice que le posibilitaría la experiencia de: Estar disponible para que otras lógicas nos habiten, y visitar y ser visitado por otras sensibilidades (p.?). Esta frase creo que resume en parte lo que puede ser una disposición analítica empática en la clínica, que deseo transmitir. Y me gusta mucho los verbos que utiliza Couto: habitar y visitar. Por qué? Porque ambos se refieren a acciones acaecidas en un espacio, en un continente. Se habita y se visita un espacio, una casa. Y las historias que los padres cuentan sobre su vida y sobre la relación con su hijo son los espacios de esa casa llamada parentalidad. En cierto sentido recibir esas historias es como ser invitado a entrar en ese espacio - casa mental, que a veces parece un laberinto cerrado y confuso y otras veces más abierto y luminoso. Es como co-escribir con los padres las páginas de una nueva versión del texto de la parentalidad, para que se relancen nuevas versiones de sí mismos. Así ingresando en la casa de la parentalidad, trabajamos mucho el funcionamiento de ellos en la casa, la sensación de caos en los horarios, rutinas, tratando de adecuarlo al ritmo de Jorge. Esto está en relación con los aportes de Thouret (2004) quien habla de la necesaria implicación rítmica de la parentalidad, o sea la manera en que los padres van implicándose afectivamente en el encuentro (y en el desencuentro) con su hijo. Y desde mi perspectiva uno de los aspectos centrales en lo que refiere a ese tipo de enfoque, es abrir la escucha a la experiencia de la violencia de lo arcaico (GUER- RA, 2013). Entendida como la esperable violencia que implica el cuidado de cualquier infans, referida a los momentos de desencuentro. O sea qué significa para estos padres el tener que cambiar su estilo de funcionamiento cotidiano, su relación personal con el espacio, con su propio cuerpo, y especialmente con sus ritmos temporales, ya que en cierta manera cuidar de un niño pequeño es desalojar parte de la identidad y temporalidad adulta, para entrar en consonancia con la experiencia infantil. Esto toma muchas veces un lugar de vértigo en la noche, cuando el bebé tiene trastornos de sueño (GUERRA, 2010). Asi van surgiendo la historia de los conflictos de pareja, la historia de las adicciones del padre, las enormes dificultades en establecer el vínculo con Jorge en el primer año de vida, en la cual la madre intentaba por todos los medios posibles evitar que Jorge llorase de noche, para que el padre no se desesperara y tuviera reacciones violentas de manera verbal. 166 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

167 Victor Guerra Poco a poco en el intenso trabajo con los padres fue emergiendo en ambos un deseo de reparación, el asumir las dificultades iniciales y la culpa que les generaba en la actualidad. Fueron momentos muy emotivos para ellos y para mí también, ya que se enfrentaban dolorosamente a sus propias limitaciones, a sus contradicciones, que llevaría a una cierta reformulación de sus ideales como padres, y que permitiría a su vez la instauración de prohibiciones estructurantes que posibiliten la separación y discriminación de Jorge del deseo de los padres. El padre fue narrando su historia infantil de maltrato, abandono y auto sostén en la inquietud motora que siempre lo caracterizó. Lo cual a veces llevaba a la familia a vivir un ritmo de vértigo, porque el estar quietos implicaba una vivencia de vacío angustiante, de la cual se defendían transmitiendo que él mismo de niño era así y que ahora todas las familias son así, hay que hacer muchas cosas al mismo tiempo. De esta manera resultaba muy difícil entrar en el ritmo infantil de Jorge, configurándose (como pasa mucho en la actualidad) una violencia sobre los ritmos de infancia. Hecho que fue puesto en palabra y trabajado con ellos en diferentes niveles. O sea no solamente en relación a su propia historia, sino también reflexionando juntos sobre que exige la sociedad actual con su culto por la urgencia (AUBERT, 2003) y la búsqueda de excelencia en la infancia, y como eso puede incidir negativamente en el ser padres, evitando una identificación empática con los aspectos más vulnerables del hijo y de ellos mismos también. A este aspecto lo denomino: trabajo sobre las representaciones culturales de la parentalidad. Por qué es importante esto? Porque los padres buscan continuamente en internet, pautas asertivas sobre cómo ser padres, y las incorporan en un estilo de recorto y pego, lo cual lleva a una mayor presión en los vínculos. Yo creo que es fundamental traer eso a la sesión y trabajarlos con ellos, para poder abrir otros registros en relación al ideal del yo parental. Pienso que esto se articulaba con mi disposición de escucha, de acompañarlos a ese descenso por sus infiernos (de angustia) y dejarme llevar por ellos acompañándolos en el dolor, intuyendo que la esperanza de cambio estaría en contener y puntuar aspectos concretos del vínculo con el hijo. De a poco el dolor fue dando lugar a la reparación y al placer de descubrir nuevas formas de vínculos con Jorge y especialmente al placer de asociar ideas, pensar al hijo en las sesiones conmigo, hecho que después extendían en su propio espacio familiar. Se iba re-formando así la casa de la parentalidad. Todo esto lo denomino trabajo con el ambiente subjetivante, bajo la premisa que el análisis de un niño y especialmente de un niño grave es no solo el trabajo en la Psicanálise v. 17 nº 2,

168 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil sesión con el niño, su mundo interno y la transferencia que se instala, sino que es también fundamental el trabajo con el ambiente subjetivante. O sea aquellos que acompañan directamente el proceso de subjetivación de ese niño, en este caso los padres, pero que también se extiende por ej. con la escuela, etc. La maleabilidad del encuentro con Jorge He venido describiendo mi trabajo con los padres y con el Jorge que habitaba la mente de ellos. Pero el trabajo en sesión con el niño tenía ribetes especiales. Pasamos en el inicio por momentos de una especie de caos en el juego, con un movimiento casi permanente y una dificultad muy especial en establecer un vínculo intersubjetivo pleno conmigo, Lo sentía fugaz, entrábamos en contacto y de repente él se separaba a un rincón y desmantelaba su atención como una forma de defensa autista. Desde ese lugar en mi surgía un especial cuidado en respetar sus defensas y buscar después el contacto por el canal sensorial que mi contratransferencia me indicaba. A veces era hablando suavemente sobre su agarre visual a las cortinas, otras veces era a través del sonido, haciendo un ruido con mi boca o con las manos tocando un tambor. Así iba dándose una apertura mayor en el contacto y Jorge comienza a interactuar de otra manera, se insinuaba una apertura de exterioridad, siendo yo un otro con el que podía compartir sus vivencias. Durante meses su juego era siempre intermitente, e inicialmente nos dedicamos a jugar con plastilina, colocando formas de animales y moldes al que le descubríamos la figura después de un tiempo de suspenso. También Jorge tenía mucho placer en imprimir las marcas de nuestras manos en la plastilina. Esto yo lo tomaba tratando de darle un aire lúdico y de cierto tono de suspenso y sorpresa, ante la expectativa de qué emergía de la forma que se imprimía en la masa. Luego la desarmábamos la forma desaparecía [ ]. Por momentos el trabajo tenía un fuerte acento sensorial, cobrando especial importancia dejarme llevar por lo que suponía que sentía Jorge, de los diferentes colores de la masa que se pegaban a nuestros dedos y hacíamos juntos una montaña de dedos y masas aglutinados, mezclados, capa sobre capa. Una capa de plastilina y una de manos, otra capa y otra mano. Se figuraba por momentos en mi mente la sensación de estar construyendo el basamento, el piso de algo que aún no tenía forma, y donde yo no me apuraba a buscar una forma lingüística de expresión como interpretación. Intuía que ese júbilo en común, de esa forma de encuentro formaba parte de un momento estético, en el límite de la palabra. 168 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

169 Victor Guerra Acudia en mi la imagen de que estábamos al mismo tiempo separados y confundidos. Por una parte estábamos discriminados, jugando juntos con el material, pero al mismo tiempo una parte de nosotros (las manos) estaba asi indiscriminada, no podría figurativamente decir que estábamos discriminados. Se figuraba por momentos en mi mente la sensación de estar construyendo el basamento, el piso de algo que aun no tenia forma, y donde yo no me apuraba a buscar una forma lingüística de expresión como interpretación. Intuia que ese júbilo en común, de esa forma de encuentro formaba parte de un momento estético, en el limite de la palabra. Volvamos entonces al dialogo con el arte, como forma de inspiración de estas experiencias, y también por qué no?, como forma de vislumbrar un esbozo de sentido de lo vivido. Viñar (2010) en relación al impacto estético de estar ante las pinturas de un artista como C. Saez nos dice: Si yo quisiera explicar con palabras lo que me provocan los retratos de Saez, además de una injuria al autor, disolvería la cualidad inequívoca de la emoción estética, que creo que es literalmente lo que nos deja sin palabras, ese límite tan sensible donde se extingue la transparencia discursiva e ingresamos en el mundo misterioso donde prevalecen los afectos y los odios, con o sin razón (p. 2). Psicanálise v. 17 nº 2,

170 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil Volviendo entonces a la clínica, diría que en esos momentos prevalecía entre Jorge y yo, una vivencia casi inefable de descubrimiento compartido, que después se diluía. Esto poco a poco lo traducía (como podía) en palabras, breves frases, momentos de espejamiento de sus emociones, gestos de sorpresa que emergían desde el cuerpo sónico de la palabra, con el objetivo de que Jorge se sintiera tocado por la intensidad de la experiencia emocional, más que por el contenido semántico del discurso. Me refiero al peso de lo que Stern (1990) llamara afectos de vitalidad y su relación con la sintonía afectiva, y que Roussillon (2010) marcara como experiencias de un compartir esthesico y emocional, base de las llamadas simbolizaciones primarias. Por otro lado asignaba mucha importancia en el final de la sesión a guardar los pedazos de masa desperdigados por el piso y por el escritorio, para que retomaran la forma original y fueran guardados dentro del pote. Así estaba en mi mente el valor simbolizante de la masa como medio maleable, tal cual lo trae por je Roussillon (2001), a partir de Milner (1991). La masa representaría la reelaboración del medio maleable inicial fallido, actualizado en la transferencia del aquí y ahora. 7 Por momentos el juego se interrumpía ya que Jorge se levantaba y salía a caminar por el consultorio o agarraba animalitos como los dinosaurios, dejándolos caer, pero sin una evidencia de sentido simbólico. Yo ponía en palabras sus movimientos realizando una narrativa (PEREIRA, 2013) como forma de figuración psíquica de puesta en palabras de sus gestos motrices, pero muchas veces me interrogaba sobre cuánto de esto Jorge escuchaba e integraba. Dónde está Jorge? Pasaron los meses, en una sesión en la que sentía que la repetición de los juegos no eran elaborativos, decido cambiar de lugar y pasar a sentarme en el sillón, quedando de espaldas a él, que deambulaba por otro sector de mi consultorio (cerca del diván). No lo veo,y pregunto al vacío con voz preocupada: dónde está Jorge? La pregunta pareció iniciar una nueva etapa él vuelve desde el vacío, para habitar con su presencia mi espacio, aparece, se acerca me mira con intensidad y se inaugura así el juego de escondida, en el cual cuando lo encuentro, lo abrazo, alzándolo en el aire, y contándole cuanto lo estuve esperando. Por momentos tengo la sensación de que en mi estaba la idea (o deseo) de que lo encontraba luego de un largo viaje. Este juego se repite rítmicamente varias veces, hasta que él en una 7 Existen numerosos trabajos que dan cuenta de este aspecto, que quedaría englobado en el concepto de objetos de mediación. Brun (2007), Chouvier (1998, 2000, 2004), etc. 170 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

171 Victor Guerra oportunidad en vez de aparecer desde mi lado derecho del sillón, aparece por el lado izquierdo sorprendiéndome. Yo manifiesto aún más mi sorpresa y repito esa forma de interacción rítmica-lúdica que co-creamos. Mayor fue mi sorpresa cuando Jorge me señala con su dedo índice el pizarrón y me da a entender que quiere que lo dibuje a él y a mí a su lado. Lo hago, hablando sobre ello y él queda muy contento... (y yo también). Interpreto diciéndole que ahora nos encontramos en el juego, que él no estaba, que ahora nos encontramos jugando y también en este dibujo, y cambio el dibujo haciendo que los personajes se tomen la mano. Él toma mi mano e intenta copiar el dibujo haciendo dos monigotes redondos con extremos que se juntan, pidiéndome que escriba al lado los nombres de cada uno. Fue una escena muy intensa, de inauguración de una co-escritura y de pasaje a otro plano del espacio. Esta fue la primera representación gráfica de Jorge en el tratamiento, que debemos recordar apenas tenía lenguaje verbal. Podríamos decir que fue un momento fundamental en el análisis ya que se instauró un ritmo en común en el juego, integrando así mismo lo que Marcelli (2000) llama los micro ritmos, o sea la irrupción de la sorpresa en el ritmo, con algo que es aparentemente imprevisto. Asimismo el pasaje a la figuración gráfica, en el cual estaba incluido el señalamiento con el gesto del dedo índice nos muestra que Jorge estaba ya próximo a la adquisición del lenguaje (GUERRA, 2014) 8. Esta secuencia lúdica que relato tiene una capital importancia, ya que como han señalado otros autores (FÉDIDA, 1978; LEBOVICI, 2000; CASAS, 1999), con los que coincido, el juego de escondida inaugura la posibilidad de que el bebé, y en este caso el niño pueda hacer un trabajo de elaboración de la ausencia con el objeto presente. De esta manera se apropia de la experiencia dolorosa de la relación con el objeto-otro. Ya que el objeto puede ser discontinuo, diferente, separable, pero se cuenta con la representación para evocarlo. Para ello es fundamental que el objeto (en este caso el analista) tenga la disposición lúdica para establecer lo que llamamos interludicidad, o potencialidad de co-crear una experiencia lúdica en común, que demostraría la constitución de reglas implícitas de un juego. De esta manera el pacientito se encuentra en las puertas de la terceridad, hecho que se confirma con la implementación del señalamiento, el esbozo de representación gráfica con el redondel, y la cercanía del advenimiento del lenguaje. Con el paso del tiempo este juego seguiría siendo una parte importante de la sesión y Jorge también pasa a tener más interés en los autitos y en un camión 8 Es en este momento que hago la derivación a la fonoaudióloga, con quien Jorge establece un vínculo muy importante. Psicanálise v. 17 nº 2,

172 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil grande, en el cual coloca los autitos que se van de paseo. La separación y perdido del objeto ya no es con su propio cuerpo sino con el camión. De a poco fue surgiendo una mejor integración en el Jardín de Infantes, y el inicio del trabajo con la Fonoaudióloga posibilitó aún más su avance en el lenguaje verbal. Jorge ya empezaba a comunicarse con palabras y hacer frases de varias palabras, mostrando especial interés en reconocerlas. En otra sesión en la que aún seguíamos jugando con masa, me pide que una todas las masas de diferentes colores y que las junte en una bola de masa muy grande y coloque adentro un muñeco, que desaparece. Mientras lo hago muestro mi preocupación porque el muñeco desapareció y donde estaría. Él lo abre y lo busca, y ambos quedamos sorprendidos y encantados de que aparezca desde el interior. Este juego se repite muchas veces y en una de ellas, después de haber compartido la intensidad de la experiencia, intento reconstruir con palabra lo que podría ser su fantasía en relación a su embarazo y nacimiento, que fue difícil y que la Mama estaba muy triste, y después quedó contenta como nosotros ahora. 9 Me resulta imposible ahora tratar de narrar el ambiente emocional en que se deslizó esta intervención verbal, ya que fue un momento muy sensible. En esas situaciones es tan importante la música de la voz, como el contenido que se desea transmitir. Puedo decir que en mi estaba presente el tema de la hipersensibilidad sensorial de Jorge y la impresión que mis palabras debían envolverlo para que abrieran un sentido nuevo en su mente. Es importante señalar, de acuerdo a mi experiencia, que tratándose de un niño pequeño es necesario que las palabras transmitan un toque de ternura, de cuidado sublimado, que atenúe el impacto del contenido semántico. 10 Jorge me escuchó muy atento y con los ojos muy abiertos, movió su cabecita diciendo: sí! Creí percibir un brillo especial en su mirada [ ] o tal vez proyecto en él lo que fueron mis vivencias? Este juego se repitió algunas veces más, y abrió camino a su interés por los piratas y los tesoros. 9 Otro niveles posibles de interpretación, como la fantasía de quedar atrapado en el interior materno y pedir en la transferencia que lo separe, o de su deseo de volver a gestarse en un interior materno sin la conflictividad que aconteció en su pasado, lo dejo para otro momento. 10 Sobre el tema de la voz y su interrelación con los procesos de subjetivación, lo inconsciente y la pulsión me remito por ej. a los trabajos de Laznik (2013), Castarede (2005), Fonagy (1983), etc. Y especialmente Nakov (2012) quien dice: Podemos afirmar que la música de la voz es el primer continente ofrecido al bebé, la primera experiencia estética que lo introduce al universo humano [ ]. Antes de ser sensible a los colores del mundo, el bebé se impregna de los colores de los sonidos, de los timbres de la voz y también de los ruidos del ambiente. Durante toda la existencia, desde el nacimiento hasta los últimos instantes de vida, la voz va a ser entre nosotros y los otros, entre nosotros y nosotros mismos, la primera envoltura para nuestros afectos y nuestros pensamientos (p. 571). 172 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

173 Victor Guerra El vacio asombrado y las palabras de infancia Así en las sesiones comenzó a tener primacía el juego con el capitán Garfio y sus amigos piratas: Pata de palo, Barba rubia y Riflecito. Ellos tenían que buscar el cofre con los tesoros que un grupo de soldados querían robarle. Así en un momento de una sesión él encuentra el cofre en el barco pirata. Lo abrimos juntos y él queda sorprendido intensamente con un gesto que comparte conmigo, al encontrar el tesoro. Percibo que su interés pareciera estar centrado en prestar atención a un misterio que estaría dentro del cofre, así repetimos el juego varias veces y yo intento acompañar la experiencia colocando palabras que nos aproximen a bordear ese misterio interior. Otra veces saca antes los tesoros del cofre, y al abrirlo ambos jugamos sorprendemos estéticamente con el vacío, con el hueco interior de lo que no está. Siento ya instaurado un juego como si, siendo esto también una forma de acceso a la tridimensionalidad y al denominado conflicto estético de Meltzer, con la interrogación por el interior del objeto (MELTZER; HARRIS, 2000). Intuitivamente surgió en mí en esta oportunidad, no interpretar esta secuencia como parte de la transferencia, ya sea sobre mi ausencia o sobre el misterio de lo que hay dentro de mí. Me quedé con la sensación que él buscaba generar un suspenso de algo que iba a acontecer, y que después no se produjo. Viene a mí entonces otra perspectiva sobre la experiencia estética, en este caso a partir de las palabras de Borges (1952), cuando escribe: La música, los estados de felicidad, la mitología, las caras trabajadas por el tiempo, ciertos crepúsculos y ciertos lugares, quieren decirnos algo, o algo dijeron que no hubiéramos debido perder, o están por decir algo; esta inminencia de una revelación, que no se produce, es, quizá, hecho estético (p. 55). La inminencia implicaría un incremente de tensión psíquica, probablemente el papel de la intensidad de la pulsión que pulsa por la descarga, pero eso implica también una revelación que no se produce, que evita la ilusión de completud, dejando en suspenso la saturación del sentido. La experiencia vivida en estas sesiones con Jorge tanto implican para mí una posibilidad de articulación de sentidos (y de posterior diálogo con la teoría), como el respeto por el valor de sensaciones que deberían permanecer sin un nombre especifico, como experiencia de lo in-fans, que son terreno de un compartir afectivo en el cual las categorías de comunicación corporal tomarían primacía como experiencia expresiva. La escritora Amat (2010) dice: La memoria no existe sin las palabras de la infancia. Las palabras de la infancia son sensaciones sin nombre. Vacíos asombra- Psicanálise v. 17 nº 2,

174 La escucha sensorial y estética del analista: desde J. Keats a la clínica in-fantil dos. Escribir es vestir con palabras el silencio de la lengua. Abrigar los múltiples vacíos del pensamiento hueco. Y la lengua es la ropa del vestido [ ] (p. 95). La experiencia vivida en la sesión analítica con un paciente en el cual aún el lenguaje verbal no es una herramienta conquistada, nos sume aún más en la opacidad de la palabra y en la duda legitima de si el relato que realizamos podrá o no dar cuenta de lo vivido. Si las vivencias del infans, son tanto sensaciones sin nombre, como la necesidad de que un adulto le conceda un baño de significaciones (sin ahogarlo), es necesario gestar en la sesión analítica una experiencia, en la que una revelación de completud semántica no se concrete, para que lo incompleto nos lance a una nueva búsqueda, a un nuevo juego, a un nuevo dialogo. El trabajo analítico con un paciente de estas características es también volver a habitar esas palabras de in-fancia. Y desde el juego compartido, poder abrigar esos huecos del pensamiento, y así hacer del dolor y del vacío una nueva chance de subjetivación en el movimiento de la vida. The analyst s sensory and aesthetic listening: from J. Keats to children s treatment Abstract: The author elaborates on the subject of analytic listening using J. Keats concept of negative capability as reference. Based on the study of some of his letters, he covers the topic of a possible sensory and aesthetic listening during the session. For this purpose, he does not only use the contributions from different psychoanalytic authors, but also takes literary and artistic references that help listen to the most primary records. The author uses as clinical reference a case study on what is referred to as Archaic Subjectivation Disorder, in which some kind of autistic functioning can be found in the child. A debate is also presented about the role of dysrhythmia in parentchild bonding and in the analytic work in an environment that allows for subjectivity. This paper particularly highlights the relevance of developing sensoriality and rhythmicity with the patient and when aesthetic moments surface during analysis. Keywords: Negative capability. Sensoriality. Rhythm. Autism. Archaic Subjectivation Disorder. Aesthetic moments. Intersubjectivity. Environment and subjectivity. Referencias AUBERT, N. Le culte de l urgence, la societé malade du temps. Paris: Flammarion, AMAT, N. Escribir y callar. Madrid: Siruela, BION, W. Atención e interpretación. Buenos Aires: Paidós, Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

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178 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea Victoria Regina Béjar 1 Resumo: A autora enfatiza as contribuições da psicossomática psicanalítica da Escola de Paris para a compreensão do funcionamento psíquico dos pacientes com somatizações e doenças graves. Tais descobertas são úteis para a compreensão das estruturas não neuróticas, nas quais os processos de simbolização e da constituição do narcisismo primário encontram-se comprometidos. Uma das principais questões em comum nas somatizações graves e nas demais manifestações clínicas das não neuroses, são matrizes traumáticas precoces decorrentes de déficits da relação mãe bebê. Estabelece conjecturas sobre as diferentes manifestações clínicas, aos excessos de ausência ou de presença do objeto externo. Apresenta conceitos como a função materna, com suas dimensões de paraexcitação e de libidinização e censura da amante. Descreve a metapsicologia do corpo pulsional da estrutura psicossomática e suas vicissitudes nas desorganizações progressivas. Utiliza vinhetas clínicas para ilustrar a racionalização excessiva do funcionamento operatório e o resfriamento afetivo da depressão essencial nas estruturas não neuróticas, como as somatizações, adicçõess e comportamentos violentos. Palavras-chave: Corpo pulsional. Desorganizações progressivas. Dimensões de para excitação e libidinização. Estruturas não neuróticas. Função materna. Matrizes traumáticas. Mentalização. psicossomática psicanalítica. Somatizações graves. 1 Médica psiquiatra e psicanalista. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Coordenadora do grupo de estudos e investigação das expressões corporais da dor psíquica da SBPSP. Coordenadora da pesquisa psicanalítica Intervenção analítica em pacientes portadores de síndrome fibromiálgica realizada no Centro de Dor da Clínica Neurológica do HCF- MUSP. 178 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

179 Victoria Regina Béjar Introdução Freud construiu os alicerces da psicanálise a partir da neurose histérica e da neurose de angústia, isto é, pelo mundo simbólico. Entretanto, as necessidades surgidas da prática clínica contemporânea levam à ampliação do campo psicanalítico para atender aos quadros nos quais predominam as falhas da simbolização e os déficits da constituição do narcisismo primário. Na prática clínica foi necessário fazer adaptações na técnica clássica. Observamos, frequentemente, na psicopatologia psicanalítica, o predomínio do empobrecimento e da má constituição do aparelho psíquico. As observações sobre o funcionamento psíquico dos portadores de somatizações graves apontam para peculiaridades estruturais, dinâmicas e econômicas próximas às configurações de outras manifestações clínicas como compulsões, adições, distúrbios alimentares, patologias do vazio tipo melancólicas, patologias do ato matizadas por diversos tipos de violência, somatizações, perversões e uma gama de apresentações que Freud denominou de neuroses atuais, narcísicas e de caráter. O ponto em comum entre estas manifestações é a presença de matrizes traumáticas precoces decorrentes dos comprometimentos da relação mãe bebê e a questão a se pensar é a respeito dos fatores que influenciam na organização dos diferentes quadros psicopatológicos e suas manifestações clínicas. Considerações gerais Para iniciar nossas considerações apresentaremos em linhas gerais a abordagem da clínica contemporânea desenvolvida por autores da psicanálise atual. É pertinente conjecturar sobre a possibilidade de existirem configurações psíquicas peculiares ao mundo contemporâneo ou se já existiam e não eram consideradas analisáveis. A segunda hipótese é a mais provável. Ampliou-se, assim, o campo da analisabilidade acarretando, consequentemente, modificações técnicas mais próximas às mudanças do contexto sócio cultural. A neurose foi a primeira estrutura psíquica analisada e compreendida em termos metapsicologicos. A partir da observação dos seus diferentes funcionamentos, Freud construiu os alicerces da teoria psicanalítica. Freud observou as psiconeuroses de defesa neurose histérica, obsessivo-compulsiva e fóbica - por meio dos traços psicopatológicos marcantes, que lhe permitiu captar a fenomenologia do funcionamento psíquico peculiar a cada uma delas. Porém, observou que na neurose de angústia, na neurastenia, a dinâmica era diferente daquela das psiconeuroses e denominou-as neuroses atuais. Psicanálise v. 17 nº 2,

180 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea Considerou-as reativas a disfunções sexuais e, portanto, sem a presença dos conflitos fundamentais das psiconeuroses. Assim, não seriam analisáveis e as deixou de lado. Porém, deixou os gérmens que serviram para a concepção, por vários dos seus seguidores, de outras ordens psicopatológicas. Nas neuroses atuais estão alicerçados os pilares da psicossomática psicanalítica. Green (2008) propôs, no estudo de pacientes borderlines, a definição das estruturas não neuróticas. Psicossomática psicanalítica da Escola de Paris Consideraremos o enfoque da psicossomática psicanalítica da escola de Paris, criada a partir das observações psicanalíticas de pacientes portadores de doenças crônicas e somatizações graves, realizadas por P. Marty e seus colegas, M. Fain, M. de M Uzan y Ch. David, psicanalistas da Sociedade de Paris, quando trabalhavam como clínicos em hospital geral, no inicio da década de 50. Foi criada uma nova clínica, a clínica psicossomática, no seio da qual certas modalidades do funcionamento psíquico se encontram frequentemente relacionadas ao desenvolvimento de somatizações. O ponto de vista da psicossomática médica é cartesiano, dualista, isto é, considera que o corpo e a mente ocupam dois territórios distintos e que cada um tenha um funcionamento relativamente autônomo, cujos vínculos estão limitados a relações de influência reciproca. Nesta concepção as doenças orgânicas podem ser influenciadas pelo emocional e teriam uma causalidade vertical. A concepção psicanalítica da psicossomática propõe que os dois níveis de expressão psíquico e somático constituem uma unidade, ou seja, um mesmo território, cuja coluna vertebral repousa em uma mesma comunidade dinâmica e econômica em ambos os níveis de expressão: psíquico e corporal. É criado um novo olhar, baseado no princípio de continuidade e mobilidade de energia, apta a investir todas as funções do organismo, corporais e mentais. Estabelece-se, assim, uma nova forma de causalidade, circular e integrada. É possível conjecturar que estruturas psicossomáticas com variados graus de complexidade do funcionamento psíquico, isto é, com diferentes gradientes de mentalização, se organizem em torno de um eixo, que é percorrido pelas pulsões tanto no sentido evolutivo quanto regressivo. Nos extremos deste eixo encontram-se, de um lado, as estruturas mais emaranhadas na expressão corporal e, do outro, as mais próximas às organizações neuróticas. Quando as pulsões percorrem o eixo no sentido evolutivo, são investidas estruturas cada vez mais complexas, o movimento é de vida e sua expressão é positiva. Porém, quando a 180 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

181 Victoria Regina Béjar trajetória é regressiva, as estruturas percorridas perdem progressivamente seus significados de vida e sua expressividade é negativa. Assim, as estruturas com níveis de mentalização mais complexos, possuem maior disponibilidade de defesas aptas a lidar com movimentos regressivos, quando diante de uma situação traumática atual. O conjunto dos mecanismos de defesa neuróticos ou psíquicos são os que contribuem mais significativamente para a reinstalação do movimento evolutivo, nos movimentos regressivos. As manifestações/sintomas sensoriais, motores e corporais também são considerados sistemas de adequação defensivos e adaptativos, porém menos eficazes para deter os movimentos regressivos e para reinstalar os movimentos da pulsão de vida. Assim, é possível entender os sintomas somático e psíquico como estatutos defensivos e adaptativos em resposta à situação conflitiva. A eclosão dos sintomas somáticos está associada a vivências de desamparo, angústias catastróficas diante de situações traumáticas atuais, envolvendo principalmente perdas significativas. O produto final do impacto traumático é o surgimento do excesso de excitações, que inundam o aparelho psíquico, eclipsando-o, transbordando para o corpo e se expressando como somatizações. Assim, a somatização pode ser considerada como a negativação do psiquismo. A partir do pressuposto de que todos somos seres psicossomáticos, estamos nos referindo a um mecanismo defensivo peculiar às vicissitudes do ser humano e, desta forma, as somatizações podem ser consideradas manobras defensivas. Portanto, trata-se de uma manifestação universal. Geralmente, cada pessoa tem seu órgão de descarga e a manifestação somática, que consiste geralmente de uma alteração fisiológica, é reversível e desaparece, seu eventual ressurgimento vai depender de novas situações traumáticas. A situação dolorosa da realidade se torna traumática, quando é excedida a capacidade do aparelho psíquico de lidar com o excesso de excitações. É um processo peculiar a cada indivíduo. Portanto, o que vai determinar se a situação é ou não traumática é a presença de defesas psíquicas aptas para elaborá-la, podendo ocorrer variações mesmo numa mesma pessoa, que depende da influência de vários fatores, como cansaço, preocupações excessivas, no momento que ocorram. A desorganização psíquica desencadeada pelo impacto da situação traumática determina a desintrincação pulsional e a liberação da pulsão de morte. É importante comentar que o conceito de pulsão de morte para Marty e para Freud é diferente. Para o primeiro a pulsão de morte é destrutiva, enquanto Freud a define como tendência ao nirvana. As consequências do impacto da situação traumática são o desencadeamento da desorganização psíquica, decorrente da desintrincação pulsional, e o aumen- Psicanálise v. 17 nº 2,

182 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea to das excitações. Para Marty (1984), o excesso das excitações pode tomar três caminhos: seguir a via natural, psíquica, onde será nomeada e passará a integrar os pensamentos. Porém, se esta via está obstruída, o excesso de excitação vai utilizar outras duas vias: a corporal, desencadeando somatizações, ou a via do ato, os comportamentos violentos, as adicções e os transtornos alimentares. Os processos que levam às manifestações somáticas são movimentos contra evolutivos desorganizadores. Portanto, quando é impossível ao aparelho psíquico metabolizar o excesso de excitações e, então, elas se instalam no corpo, desencadeiam a desfusão pulsional e a instalação dos processos contra evolutivos desorganizadores. É o processo regressivo psíquico e depois somático. As desorganizações progressivas podem ter dois possíveis desfechos. Quando encontram um ponto de fixação do desenvolvimento psicossexual, este funcionará como um platô que deterá o processo regressivo e permitirá que a pulsão de vida readquira forças para retomar o movimento evolutivo por meio da reintrincação pulsional. É a regressão somática. Estamos diante da estrutura egóica que alcançou níveis mais complexos de desenvolvimento, ou seja, uma estrutura neurótica, na qual o pensamento é sustentado por representações e fantasias. Este processo é benigno e peculiar à natureza humana. Como já dissemos acima, trata-se de uma defesa corporal quando as defesas psíquicas falham e tem como objetivo restabelecer o equilíbrio somatopsíquico. Manifesta-se como uma alteração fisiológica passageira e reversível. Há ocasiões nas quais o estímulo traumático não chega a atingir o registro psíquico e passa diretamente à manifestação somática. Remete-nos à expressão de Freud sobre a conversão histérica, o misterioso salto do psíquico para o somático. Quando a desorganização progressiva desencadeada pela situação traumática não encontra um ponto de fixação que a detenha, a consequência é a regressão ser ampla e profunda, que atravessa toda a estrutura somatopsíquica, negativizando-a. Há perda dos valores libidinais e sua maior consequência é a liberação da destrutividade interna. É o desligamento psicossomático. Trata-se de um processo lento, silencioso que desemboca em doenças crônicas, com diferentes graus de gravidade e que leva ao adoecimento dos órgãos. São geralmente irreversíveis e podem levar à morte. De tudo o que dissemos até aqui fica evidente que a qualidade dos processos regressivos dependerá do nível e da complexidade do desenvolvimento das estruturas psíquicas, isto é, da mentalização. A presença de uma estrutura complexa, neurótica, leva à regressão somática, reversível. Já as estruturas não neuróticas, nas quais há a presença de matrizes traumáticas precoces, que comprometem a evolução egóica e as torna deficitárias, instala-se o desligamento psicossomático, irreversível. 182 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

183 Victoria Regina Béjar O corpo pulsional É pertinente esclarecer o ponto de vista da psicossomática psicanalítica sobre o corpo. Para a medicina, o corpo é um conjunto de aparelhos que dependendo das condições, pode funcionar bem, levando à saúde ou ao adoecer, portanto, trata-se do funcionamento fisiológico do corpo. É de Renné Leriche (1936), eminente cirurgião francês, o famoso aforismo: A saúde é a vida no silêncio dos órgãos, silêncio interrompido quando se instala um processo de desorganização somática. Leve-se em conta que o adoecimento pode ser, também, silencioso. A psicossomática psicanalítica considera o corpo pulsional e não o corpo fisiológico. As pulsões conferem a unidade do ser humano, subjacente às organizações psíquica e somática, já que permanentemente atravessam os funcionamentos psíquico e somático, ligando-os e desligando-os. Mentalização O corpo da psicossomática é um corpo instintual-pulsional. Na lógica pulsional ocorre que as funções fisiológicas devem ser compreendidas com seu funcionamento submetido ao das pulsões. E, é em referencia a esta segunda ordem, a ordem das pulsões, que o psicanalista deve construir sua compreensão dos fenômenos psicossomáticos, e não em referência à ordem da fisiologia dos órgãos [...]. É a partir disto que reside a originalidade radical da aproximação psicossomática. Porque entendemos que não são as funções somáticas puras as que formam o objeto de representância psíquica pela sua passagem no id, mas são suas valências pulsionais eróticas e destrutivas que atingem o id em diferentes graus de complexidade. Desta maneira a psicanálise e a psicossomática, construída sobre seus fundamentos, considera um segundo nível de ordem na organização corporal, o nível de ordem pulsional. Esta visão de unidade na base dos fenômenos pulsionais comuns ao soma e à psique, constitui os fundamentos psicanalíticos de uma representação teórica possível e heurística dos fenômenos psicossomáticos [...]. Na qualidade de corpo pulsional o corpo psicossomático segue todos os avatares do funcionamento das pulsões, tanto no sentido da complexização quanto no sentido inverso, da perda da complexidade (SMADJA, 2014, p 15). Para Marty (2003) a qualidade do funcionamento psíquico está relacionada à estrutura do pré-consciente. Cria o conceito de mentalização, para se referir às variadas dimensões de complexidade do aparelho psíquico, que se encontram relacionadas à quantidade e à qualidade das representações. Psicanálise v. 17 nº 2,

184 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea A mentalização consiste nos processos de transformação e formação de símbolos, que em seu sentido mais amplo, se refere a duas idéias básicas. Em primeiro lugar, ao processo de transformação. Trata-se de uma atividade do ego pré-consciente que transforma, mantém e elabora experiências somáticas básicas ou de pulsão-afeto em conteúdos psíquicos. Esta transformação é conseguida graças à atividade de ligação que se estabelece entre representações e símbolos, que permite que o indivíduo se liberte da natureza concreta e absoluta das pressões motivacionais primárias (pulsão-afeto). Em segundo lugar, a mentalização se refere a uma hierarquia teórica de níveis de elaboração psíquica que diferem qualitativamente (MARTY, 2003, p. 53). Marty enfatiza a importância do pré-consciente, como o local onde as representações coisa se tornam representações palavra. Considera-o como o ponto central da economia psicossomática. Descreve-o. O pré-consciente representa um mundo de entrecruzamentos variáveis entre diferentes dimensões psíquicas, variáveis em si mesmas. O pré-consciente aparece estratificado, sob dois aspectos [...] (2003, p. 50). No plano tópico suas camadas mais profundas mantém estreita relação com o inconsciente, o soma, os instintos e as pulsões e as camadas superiores com o consciente. No plano cronológico, constitui-se ao longo do desenvolvimento por aquisições mentais sucessivas. Os dois sistemas interatuam sem cessar e o pré-consciente se estabelece em definitivo como um reservatório de representações de diferentes épocas, que se encontram mais ou menos ligadas entre si e mais ou menos prontas a aflorar à consciência (MARTY, 2003, p. 51). Quanto aos déficits nas relações precoces mãe bebê, diz: Excluindo-se as insuficiências congênita ou acidental das funções sensório-motoras da criança, que constituem as bases perceptivas das representações (dificuldades visuais, auditivas ou motoras) ou das deficiências funcionais maternas da mesma ordem que as precedentes, influenciada por doenças somáticas da mãe, ou por estados mentais, depressivos, excitados ou pelo comportamento autoritário ou indiferentes trata-se com mais frequência, da qualidade da relação afetiva da mãe em relação ao seu bebê. Instituemse então falhas em diferentes níveis da organização progressiva do bebê e finalmente no âmbito da organização das representações, levando à falta ou insuficiências na aquisição de representações palavra ligadas a valores afetivos e simbólicos (MARTY, 2003, p. 53). 184 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

185 Victoria Regina Béjar Para Marty (2003), o processo da formação do pré-consciente se dá pelas inscrições mnêmicas das percepções de uma mesma época, da formação das representações correspondentes e das relações entre elas. Formam-se camadas transversais cada vez mais complexas que se acumulam cronologicamente. São estabelecidas ligações longitudinais entre as representações das diferentes épocas. A disponibilidade dos movimentos psíquicos de associações entre os enlaces transversais e longitudinais das representações corresponde à fluidez da circulação pré-consciente. As insuficiências quantitativa e qualitativa, acompanhadas de déficits afetivos das representações psíquicas formam lacunas fundamentais. Estes déficits obedecem às deficiências congênitas ou acidentais das funções sensoriomotoras do bebê ou da mãe, porém na maioria das vezes, se deve aos excessos ou às carências do acompanhamento afetivo materno. Função materna e matriz traumática Freud em sua obra previu uma série de alternativas sobre a gênese do psiquismo humano, que vem sendo confirmadas pelo trabalho psicanalítico, principalmente dos analistas infantis. Algumas condições são necessárias para que os primeiros momentos de vida sejam bem sucedidos e certos contextos socioculturais podem facilitar ou dificultar esses acontecimentos, pois levam os indivíduos a se comportar de forma típica que influi na maneira de se relacionar com a família. As consequências desses tipos de relacionamento determinam o desenvolvimento das crianças que só será percebido e avaliado décadas depois. Numerosos autores, Winnicott, Meltzer, Tustin, Bick, se aprofundaram na pesquisa da formação do aparelho psíquico dos bebês, enfatizando a importância da qualidade das relações precoces com o ambiente, mais precisamente com a mãe ou quem exerça esta função. Descreveram as qualidades das condições emocionais maternas no desempenho das suas funções, propiciadoras do desenvolvimento do psiquismo, e seus comprometimentos evolutivos em decorrência do comprometimento das relações iniciais. A relação de objeto e a situação conflitiva são nucleares na psicossomática psicanalítica. A questão traumática se encontra relacionada à qualidade da relação de objeto inicial com a mãe que se caracteriza pelos excessos, tanto da ausência quanto da presença do objeto externo. Marty (1995) detalha as dimensões da relação mãe bebê e substitui a noção de imago pela de função materna, pois confere relevância significativa aos processos de introjeção e de retenção que vai além da imago parental. Há duas dimensões essenciais na função materna: a paraexcitação e a libidinização. Psicanálise v. 17 nº 2,

186 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea A paraexcitação consiste na existência de um apoio externo vigilante aos movimentos evolutivos e contra evolutivos e no aporte de excitações e de para excitações. Inicialmente as aquisições do latente se resumem às marcas mnêmicas inconscientes (fixações) filogenéticas e hereditárias. A potência dos instintos de vida é considerável durante o desenvolvimento [...]. Há uma tendência espontânea à organização na grande maioria dos latentes. As situações externas desfavoráveis são capazes de travar, em alguns casos, a partir de fixações precoces demasiadamente intensas, a evolução posterior do sujeito e das suas funções mentais em particular [...]. São essencialmente as para excitações, a proteção contra a afluência de excitações internas (fome, sede) ou de excitações externas, (ruído, calor, frio que impedem o sono, p.ex.) as que devem encontrar-se postas em prática (MARTY, 1995, p 148). A dimensão de paraexcitação é fundamental para a organização econômica da estruturação psicossomática do indivíduo. Idealmente a mãe investe afetivamente, nem por excesso nem por defeito (graças à regulação das excitações e paraexcitações), cada um dos sistemas funcionais (respiratório, alimentar, de excreção, do sono, p. ex.) do seu bebê e desinveste esses sistemas para paulatinamente abandonar a regulação do bebê à medida que o eu introjeta a função de paraexcitação (MARTY, 1995, p. 148). A condição necessária é aquela na qual há a apreciação afetiva das necessidades e desejos do latente, que surge dos sinais percebidos graças a uma profunda identificação com ele, e a regulação dos tempos e modos de intervenção ao nível das múltiplas comunicações com o bebê. Entram em jogo fatores relacionados com a elaboração mental da mãe, suas projeções, suas outras organizações relacionais, na aventura da função materna. São compreensíveis as dificuldades na relação mãe bebê que podem surgir no primeiro ano. Essas dificuldades e suas soluções determinam em grande medida, além do povir de várias funções, entre as quais as relacionais, particularmente importantes, mas também o futuro do aparelho paraexcitatório do próprio sujeito. Os déficits relacionais mãe bebê comprometem a internalização e a retenção dos objetos. Para os neuróticos seus objetos são permanentes, confiáveis, porém nos não neuróticos os objetos são menos confiáveis, pois desaparecem diante das situações traumáticas. A dificuldade de internalização e retenção dos objetos estão profundamente relacionadas com os déficits da função materna, do sistema de para excitações e/ou dos investimentos narcísicos, além da qua- 186 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

187 Victoria Regina Béjar lidade do tempo e do lugar, isto é, dos períodos de ausência toleráveis ou não e da intensidade das fixações. A insuficiência das interiorizações e a fragilidade das retenções podem provir da ausência de fixações apoiadas na sensoriomotricidade mental, como consequência do exagero das excitações traumáticas desorganizadoras provenientes de várias circunstâncias, ou por insuficiência do sistema de paraexcitação materno. Ao inverso, ausências de fixações da mesma ordem provêm da assepsia do ambiente do bebê, devido ao excesso do sistema de para excitações materno, que não permite a instauração suficiente de conflitos, levando a fixações exacerbadas dos sistemas sensório motores, que não entram em jogo na evolução da linha mental e que por isso danificam o total desenvolvimento psíquico. Finalmente, uma mistura de todas essas possibilidades. O narcisismo primário é um pressuposto teórico indispensável para a coerência freudiana da vida pulsional do bebê. Representa o estado ao qual retornam os investimentos narcisistas secundários, particularmente no curso dos processos de dessexualização. É o resultado dos investimentos eróticos das funções somáticas, dos auto erotismos primários e da coexcitação libidinal. Se o desenvolvimento dos auto erotismos está dinâmica e economicamente ligado às relações precoces com a mãe/mulher, a coexcitação libidinal está associada, de acordo com Freud, a um determinismo interno de ordem fisiológica que se esgota com o tempo. Portanto, o narcisismo procede de duas fontes: uma interna, a coexcitação libidinal e a outra externa, os investimentos maternos. Os investimentos maternos de natureza narcísica ou a função de libidinização tem, antes de tudo, como finalidade, o bom funcionamento do soma do latente. No exercício da função materna, a mãe conduz o corpo do bebê ao silêncio e ao inconsciente. No que diz respeito à criação das bases narcísicas do seu bebê e da evolução à estruturação da sua organização edípica, a qualidade dos cuidados maternos também dependem da censura da mensagem de castração que a mãe transmite ao bebê. A mensagem materna de natureza verbal constitui classicamente o primeiro tempo do complexo de castração. O ego cria os objetos a partir da atividade pulsional (GREEN, 2008a). Após o período inicial, no qual a mente materna é ocupada quase exclusivamente pelo bebê, iniciam-se movimentos de alternância entre o investimento afetivo do bebê e o investimento afetivo no companheiro. Fain (2001) denomina censura da amante este movimento evolutivo da introdução na relação mãe bebê do pênis paterno, o Édipo precoce. Enfatiza que o valor estruturante da mensagem materna de castração, depende antes de tudo das atitudes de ternura e inquietação que a mãe, em sua atenção vigilante, dirige ao seu bebê. Deste modo se estabelece uma relação entre a qualidade da organização edípica da mãe, e Psicanálise v. 17 nº 2,

188 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea particularmente de seu superego, e os suportes narcisistas e pulsionais do bebê. A função materna repleta da riqueza dos investimentos narcisistas e libidinais da mãe permite que o corpo erótico possa emergir do corpo somático constituindo-se o narcisismo primário. Quando deficiente pode comprometer a evolução pulsional do bebê e enviá-lo para vias econômicas, nas quais o comportamento e as somatizações terão lugar predominante. Na clínica Os fatores traumáticos precoces comprometem, além da qualidade da mentalização, a constituição do narcisismo primário e o processo de recalque primário que geram diversos déficits na estruturação do aparelho psiquico. Em decorrência das falhas da constituição do narcisismo primario, a realização alucinatória do desejo, o autoerotismo e a vida de fantasia não se instalam, uma vez que não encontram as bases narcísicas necessárias. O narcisismo patológico associado à pulsão de morte desintrincada leva à destrutividade. Estamos diante do funcionamento operatório. Podemos observar as descrições objetivas que certos pacientes fazem do seu dia a dia, caracterizados pela importância dos aspectos práticos e concretos dos acontecimentos vividos e com pouca ou escassa repercussão afetiva. Acordo sempre às cinco da manhã para preparar o café dos meus filhos, leva-los à escola e me dirigir ao trabalho. Deixo tudo organizado de véspera para não me atrasar: as lancheiras, a mesa do café da manhã. No trabalho, faço questão de chegar pontualmente. Sou admirada pelos meus colegas e chefes, graças à minha prontidão e ao meu desempenho. Meu chefe me pede muitas tarefas diferentes, que procuro fazer com perfeição. Sou bastante solicitada por causa da minha eficiência. Não tenho tempo para dar atenção ao meu cansaço, que chega a ser extremo [...]. A objetividade contida na descrição do desenrolar do dia a dia remete à impressão de que estão se referindo à vida de outra pessoa ou contando um filme que tivessem assistido. A importância que aferem ao comportamento, às atividades constantes e ao desempenho de tarefas faz parte do funcionamento operatório. Há certo resfriamento afetivo, observa-se que as inflexões afetivas pouco frequentes ou até mesmo ausentes. Esta pobreza afetiva é o resultado da depressão essencial. A complexidade do mundo mental e os afetos produzidos pelo inconsciente parecem não existir. Quando apresentam somatizações, os pacientes nos dão a impressão que possuem ótima adaptação social, são profundamente racionais, ocupam altos cargos em grandes empresas, não apresentam uma desorganização neurótica ou psicótica, mas o desvio em relação à norma pode aparecer exclusivamente ligado 188 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

189 Victoria Regina Béjar a anomalias somáticas. Portanto, a vida tem as peculiaridades do funcionamento operatório. O funcionamento operatório pode surgir na vigência de circunstâncias traumáticas e, neste caso, ser reversível. Para sustentar a hiperatividade da vida operatória são utilizadas as manobras da defesa fálico narcísica, caracterizadas pela arrogância e onipotência. Resulta da fragilidade narcísica, cumpre a função de contra investimento contra o desamparo infantil. O núcleo do ego pouco energizado necessita ser libidinizado pelo meio ambiente para manter um mínimo de investimento narcísico. Quando o processo da desorganização progressiva é mais profundo, no desligamento psicossomático, instala-se a vida operatória, resultante da pobreza e da precariedade do aparelho psíquico, consequente à enorme destrutividade advinda do narcisismo patológico e do instinto de morte, que ataca e destrói as redes representacionais e que gera o grave empobrecimento psíquico. É o processo descrito por Green (2008b) como função desobjetalizante, resultado da ação da pulsão de morte. Não é somente a relação de objeto que é atacada, mas todos os seus substitutos e por fim o próprio ego. É o investimento submetido ao processo de objetalização que é atacado, desinvestido. Corresponde aos ataques ao vínculo de Bion e à forclusão de Lacan. São operações de negatividade radical. Vinheta I Pretendo trazer alguns períodos da análise de Rosa para ilustrar os conceitos de funcionamento operatório, depressão essencial e defesa fálico narcísica. Pareceu-me que seria desnecessário trazer trechos de sessões, por isso limitei-me a falar sobre o processo analítico. Rosa me procura ao receber licença médica em seu trabalho. É uma mulher jovem, bonita, bem vestida. Estava revoltada, pois tinha ido fazer somente uma consulta, pedir uma medicação para melhorar do mal estar e das dores pelo corpo que de vez em quando apareciam. Não dá mais detalhes de como se sente, mas conta que já recorreu ao médico algumas vezes, as medicações prescritas não fizeram efeito. Logo começa a falar sobre seu emprego, suas funções, como trabalha excessivamente e se esforça para manter seu bom desempenho. Está muito assustada de ser afastada, dos prejuízos que isso pode acarretar, pois o cargo que ocupa foi conquistado com muito esforço, numa trajetória profissional ascendente. Apesar da vida corrida, leva duas horas para chegar de casa ao trabalho, tem sua família, marido e dois filhos. Mas refere que dá conta de todas as demandas, no trabalho e na vida pessoal. Observo-a angustiada, fala rapidamente, defendendo-se, quando tento fazer um assinalamento, não me escuta Psicanálise v. 17 nº 2,

190 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea e continua a falar. Sua fala compulsiva é desprovida de emoções, limita-se a uma descrição pormenorizada das tarefas da sua vida. Fala ato, tentativas de se aliviar de angústias insuportáveis. É o funcionamento operatório, a racionalização, o excesso de tarefas e o resfriamento afetivo. Suas dores corporais pioram muito. Comenta que foi o trabalho que a deixou assim mal, situações que a frustram, foram fazendo com que ela se sentisse cada vez mais desvalorizada. Trabalhava como os colegas com a mesma função, porém seu salário era menor, porque quando foi promovida, o salário não acompanhou o novo cargo. Nega suas dores e angústias, justificando-as pelos fatores externos, não consegue associar que seu estado é que a levou a precisar de licença. Marcamos nosso próximo encontro. Sofre uma piora rápida. Chega bastante abatida, encurvada. Refere que não consegue parar de chorar: sua vida acabou, não consegue mais trabalhar, cuidar da casa, sente muito medo, não consegue sair de casa, dirigir. Instalam-se o medo e angústias inomináveis. Está desesperada, não vê saída, surge uma crise de pânico severa. O afastamento do trabalho e a ameaça de perder suas conquistas de vida, entre outros fatores que ainda não conhecíamos, fazem parte do contexto da situação traumática que desencadeou a desorganização progressiva, psíquica e somática. A regressão atinge níveis profundos, que a deixa sem defesas psíquicas e, então, surgem as defesas corporais, a dor corporal. Ocorre o colapso psíquico (WINNICOTT, 1963). Lembranças amargas permeiam suas falas, coloridas pelo ressentimento e mágoa que preenchem seu espaço mental e nossos encontros. Seu percurso de vida é traumático. Filha mais nova, abandonada pelos pais: pai alcoólatra, mãe deprimida e distante. A solidão, a falta de cuidados pelos adultos e o desamparo, constituem seu percurso de vida. Rosa foi vítima de abuso sexual, seu avô tentou manipular seus órgãos sexuais e queria que ela também o acariciasse. Com medo decidiu não contar o que acontecia. Aprendeu a fugir de casa e a se esconder dele. Ao invés de ser cuidada, foi abusada pelo avô. Necessitou ficar adulta muito cedo para se cuidar diante do desamparo e abandono. Pulou as fases da infância e adolescência. A única pessoa que considera ter sido amoroso com ela foi seu irmão mais velho, que lhe deu carinho e atenção na infância. Levava-a à escola, para brincar na rua, na praça e a protegia. Mantém uma relação afetiva muito próxima com ele e sua cunhada. São muito amigos. Minha impressão é que as humilhações formam uma teia que sintetiza os eventos traumáticos com os quais a memória de Rosa tenta organizar sua história, servindo como pano de fundo ao sofrimento. 190 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

191 Victoria Regina Béjar Casou-se com um amigo do seu irmão, grávida. Procurou esconder de todos, ficou muito envergonhada. Montou uma casinha simples, mas com capricho, no mesmo quintal da casa da mãe. Era feliz com o marido. Conta que sempre foi muito preocupada com a opinião dos outros e procurava se comportar do modo como imaginava que as pessoas esperavam dela. Queria agradar todo o tempo. Durante período longo de análise, era verborrágica, repetia suas tragédias compulsivamente. As sessões eram longas e me deixavam com sensação de cansaço extremo, muitas vezes um sono pesado tentava tomar conta de mim. Sentia-me impotente e muitas vezes me questionei se poderia ajuda-la, pois minha impressão era que nada mudava ou iria mudar. Porém, surge uma mudança. Queixa-se de não aguentar mais falar das mesmas coisas, das suas tristezas, de chorar. Converso sobre uma nova possibilidade, poderia estar nas sessões para tratar de qualquer assunto. Posso falar do que quiser? Mas não é para falar dos meus problemas que estou aqui? Mas então do que vou falar? A concretude de suas falas evidencia-se. Digo-lhe que não precisa se preocupar, que os assuntos vão surgir. E assim foi. Mais integrada me conta situações construtivas. Apesar das dificuldades da vida, brilha uma pulsão de vida que a libidiniza. Aproveitou as situações generosas que a vida lhe ofereceu. Jovem começou a trabalhar como copeira numa empresa. Era uma jovem muito inteligente, perspicaz. Soube como cativar, sempre simpática, solícita e disponível. Uma das secretárias a observou se compadeceu dela, orientou-a para estudar e a como se comportar, enfim, acolhendo-a, preparou-a para a vida real. Rosa cresceu, mas com muita luta para lidar com suas feridas narcísicas. Empenhada, galgou promoções chegando a posto de destaque. Começou a trabalhar cedo, servindo cafezinho era querida pelos colegas. Seu jeitinho simpático, agradável, procurava ser gentil observando o que agradava a cada um para servi-los melhor. Para trabalhar tinha muita iniciativa e era capaz. Sua grande dificuldade era com a convivência, com o social, não sabia como se relacionar com as pessoas. Mesmo não trabalhando mais como copeira, estava sempre trazendo cafezinho para os colegas, para agradá-los. Trabalhava a mais, além das suas obrigações, tomando para si o trabalho dos outros. É o que Marty e M Uzan denoinaram superinvestimento do factual. Assim, funcionava voltada para o exterior, tentando se adequar às normas sociais. Perfeccionista, acumulava tarefas e funções. Rosa provavelmente havia desenvolvido excessivamente seus aspectos racionais, para ter condições de organizar sua vida, preenchendo-a com as variadas tarefas que devia cumprir, que para ela era como faziam as outras mulheres, como o costume. Preenche sua Psicanálise v. 17 nº 2,

192 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea vida com tarefas que, se não forem cumpridas, deixam vir à tona angústias sufocantes, irrepresentáveis. É o desespero pela sobrevivência psíquica. Rosa me remete às ideias de Winnicott, sobre como a inteligência pode ocultar certo grau de privação, pensamento próximo ao de Marty. Quando precário cuidado materno precoce, o funcionamento mental torna-se uma coisa em si, passa a existir por si mesmo, substituindo a mãe boa e tornando-a desnecessária [...] o bebê atraído por esta mente, afasta-se do relacionamento íntimo que originalmente mantinha com o soma (WINNICOTT, 1949). A inteligência e o pensar podem ser medidos, usados e apreciados, mas se deve lembrar que a inteligência pode ser explorada e que ela pode ocultar coisas tais como a privação e a ameaça de caos. Um colapso parcial é clinicamente representado por uma organização obsessiva, com a desorganização achando-se sempre na virada da esquina (WINNICOTT, 1965, p. 122). Vemos o corpo metabolizando, se assim se pode dizer, o excesso de angústia por meio das dores corporais. É possível conjecturar que o quadro de dores corporais de Rosa seja uma defesa corporal contra o pavor da morte psíquica. Provavelmente, estas expressões somáticas se devem às marcas mnêmicas não representadas, que se encontram inscritas no inconsciente como dor, em um curto circuito do sistema prazer desprazer, consequentes ao excesso de ausência de um apoio externo, às falhas das funções de paraexcitação e libidinização materna. As experiências afetivas prazeirosas são necessárias à instalação das marcas de prazer do sistema prazer-desprazer à constitução do aparelho psíquico. A insuficiência dessas experiências gera vivências dolorosas, dando origem à marca mnêmica hostil, que origina funcionamento psíquico doloroso, dominado pela compulsão à repetição e pelas defesas primitivas. A tentativa de desinvestimento das marcas dolorosas leva às descargas no ato e no soma. Voltando a Rosa. Passado período de dois anos de trabalho analítico, sou surpreendida. Conta-me que bem perto de onde mora, há um atelier de pintura. Começou a ficar curiosa, mas não tinha coragem de ir até lá. Até que um dia se lembrou de que quando mocinha gostava de desenhar e que até tinha pintado uma tela. Teve coragem e foi até lá só pra ver como era. Começou o curso de pintura sobre tela. Rosa não me contou logo o que estava fazendo, precisava se esconder ou precisava de coragem. Após fazer alguns trabalhos, sua professora elogiou-a muito, porém segundo ela não tinham graça. Perguntou se eu queria ver, se podia trazer para me mostrar. 192 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

193 Victoria Regina Béjar Na sessão seguinte traz seus trabalhos. Passamos a sessão conversando sobre sua pintura. O tema era flores e frutas pintadas em panos de pratos. Conversamos a respeito do significado das pinturas, disse-lhe que representavam nova possibilidade interna, havia dentro dela alimentos e alegria. Nunca imaginei que dentro de mim tivesse a capacidade para pintar, combinar cores, criar coisas bonitas. A professora me disse que eu já sei, não tenho o que aprender, sugeriu que eu comece a pintar telar. Como eu não sabia que tinha coisas lindas dentro de mim? Depois de três anos em licença médica Rosa decide voltar ao trabalho. Com muito receio incialmente, mas tem várias surpresas consigo mesma! Suas dores cederam, porém reapareciam em situações de muita demanda. Rosa aprendeu a lidar com seus limites e a respeita-los. Seu casamento se reconstituiu, seu marido passou a administrar as finanças da casa depois que Rosa adoeceu. Conseguiu ótimo emprego e a vida da família melhorou muito. Rosa foi transferida para local muito distante, precisou interromper sua análise. As redes representacionais de prazer puderam ser construídas e reconstruídas graças ao processo de análise. A escuridão havia sido iluminada, outros segmentos do seu espaço interior revelados, coisas boas e não mais somente lembranças dramáticas da infância. A rede representacional foi tecida ponto a ponto de inconsciente a inconsciente. Penso que é a isto que Marty se refere quando fala da função materna do analista que empresta seu pré-consciente ao paciente. Vinheta II O funcionamento operatório caracteriza-se pela pobreza, pelo déficit. Geralmente são crianças que não foram investidas narcisicamente pela mãe, ou quando ocorre um desinvestimento narcísico brusco e precoce, levando a uma situação significativa de desamparo. É possível conjecturar que o funcionamento operatório seja uma defesa extrema relacionada com a falta de recursos mentais. Não há dúvida de que a psicose e as patologias narcísicas têm uma dinâmica diferente dos estados operatórios e das rupturas traumáticas que podem chegar a afetar o corpo, porém em um indivíduo concreto ocorrem alternâncias e passagens de um estado ao outro (ALARCON, 2015). Toda a vida de Fernando foi marcada pelos excessos ditados pela necessidade materna de supervisioná-lo, controlá-lo, pela imposição de perfeição e de viver de acordo com ditames maternos. Sua mãe marca a entrevista e me solicita que o atenda, pois fui muito bem indicada. Conversamos por telefone. É educada e se- Psicanálise v. 17 nº 2,

194 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea dutora. Conta-me de suas preocupações com ele, principalmente nas condições atuais, pois adquiriu uma doença neurológica. Esclarece que ele está relutante e me pede ajuda para convence-lo a ficar. Fernando comparece no dia e hora marcados. Refere que há pouco tempo foi acometido por uma doença neurológica que lhe impõe grandes restrições motoras. Enfatiza que veio devido à insistência materna, embora não veja como a análise possa ajudá-lo, uma vez que necessita de muitos exercícios, fisioterapia e fonoaudiologia. Conversamos sobre os acontecimentos de sua vida, sua doença, seu estado atual tão oposto ao que viveu até surgir a doença. No meio da conversa surge sua fantasia Fernando de que a análise vai poder ajudá-lo a voltar a ficar em forma, isto é, voltar ao que era antes da doença, num período de dois anos. Conta como tem se aplicado aos tratamentos e que certamente vai conseguir reverter suas limitações. Observo-o muito racional, controla sua vida de maneira obsessiva. A enxurrada racional tem pouco colorido afetivo, embora seja observável sua perplexidade e frustração. Mora sozinho, seus pais vivem no interior Fernando não falta, justifica, racionalmente, sua presença. Como paga precisa aproveitar. Faltar é jogar dinheiro fora. Seu comportamento é agitado, fala alto e rapidamente, se expressa da maneira peculiar à repetição à compulsão, presente no funcionamento operatório. As excessivas atividades anteriores ao período atual são substituídas pelos exercícios fisioterápicos e fonoaudiólogos. São vários profissionais de cada especialidade. Nas sessões é bastante agitado, sua fala é rápida, inquieto, cruza as pernas, se espreguiça. Ouve minhas intervenções, responde com pode ser ou você tem razão, mas para aí, não há associação de idéias ou evidencias de emoção. Seu estado hipomaníaco serve como tampão para a situação aflitivamente depressiva na qual se encontra. Nossos encontros são monólogos. Minhas vivências contratransferenciais são de que não estou ali, como se não existisse para ele. Muitas vezes sou tomada por cansaço profundo, parece que o tempo não passa. Enquanto o observo, conjecturo sobre seu refúgio autístico. Fernando foi diretor de empresa multinacional, trabalhava 14 horas por dia, ganhava alto salário. Dormia quatro horas por noite, precisava puxar um fumo para relaxar e conciliar o sono. Outro modo de relaxar era uma atividade sexual intensa. Após levar sua companheira à exaustão, João se masturbava até ficar relaxado. A academia era outra das manobras para se livrar da turbulência interna. É consciente de que as demandas excessivas e sua intensa angústia muito 194 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

195 Victoria Regina Béjar contribuíram para a instalação da sua doença. A principal característica de sua vida são os excessos, de trabalho, de sexo, de comida, de angústia, de atuações. Batia o carro, agredia pessoas, mesmo desconhecidas, quando presenciava cena de humilhação. Inicialmente, ressentimentos e mágoas pela mãe, com o decorrer do tempo, se dá conta também do amor, que gera enorme conflito amor, ódio e sua sobrevivência. Há perdas e lutos não elaborados. Baixa autoestima. Fernando desenvolve transferência positiva na análise e consegue se abrir para nosso relacionamento. Há trocas nas conversas, gosta das minhas intervenções que o incitam a pensar, tece associações. São fases de proximidade intercaladas com fases de afastamento, configuradas pela compulsão à repetição. A experiência analítica foi rica e construtiva. Creio que não seja nosso objetivo aqui a apresentação e discussão de caso clínico, por isso vamos correlacionar com as conjecturas teóricas apresentadas. Intensas dores psíquicas inomináveis são pano de fundo da vida psíquica de Fernando. Lida com altos níveis de angústia, escoando-as para o comportamento compulsivo, muitas vezes violento destrutivo, flertando com a morte. A onipotência, arrogância e imprudência são componentes das defesas fálico narcísicas. O excesso de angústia escoada em atos, a neurose de comportamento é evidente. Analisando o relacionamento mãe bebê precoce observamos que, a agitação materna decorrente do êxtase pelo nascimento de um filho homem, gera intensa angústia e um relacionamento sufocante para o bebê, intrusivo. A intrusividade produz distorções do funcionamento mental, feridas narcísicas que impedem aceitar os próprios limites e os da realidade, induzem à má tolerância à frustração e a intensas vivências de exclusão. A intrusividade e o controle maternos não deixam espaço ao crescimento, desautorizam o funcionamento mental da criança e os fazem duvidar das próprias percepções. Patologias da distorção do funcionamento psíquico, cuja base é o narcisismo dos pais que não permite que a criança evolua do narcisismo à relação de objeto, ao amor objetal. Muitas vezes não deixam que a criança se diferencie deles e os capturam na relação simbiótica. Neste caso a vida mental é muito intensa, porém se encontra distorcida e sua estrutura adquire estas dimensões. Com o pré-consciente é instalado o princípio de realidade, que em alguns momentos é rejeitado (delírios, alucinações, ruptura com a realidade), ou é combatido (borderlines e adictos não rompem com a realidade, mas lutam contra ela). Geralmente estas patologias arrancam do processo de individuação desespero e vão distorcendo a passagem pelas diferentes etapas até que no Édipo ocorre a ruptura, uma vez que não conseguem tolerar a frustra- Psicanálise v. 17 nº 2,

196 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea Função terapêutica ção e a exclusão envolvidas no processo e que são inevitáveis. Esta ruptura pode não se produzir no primeiro tempo da evolução, mas sim no segundo tempo da adolescência, quando se tem que aceitar o que se é, momento de consolidação da identidade que tem sido construída. Sabemos que a maioria das psicoses eclode na adolescência, no momento das primeiras aproximações sexuais (ALARCON, 2015). Marty (1995) propõe uma analogia entre a função materna na relação mãe bebê e a relação analista analisando, proposta como modelo na prática psicoterápica com pacientes com afecções somáticas evolutivas e particularmente com pacientes operatórios. Estas idéias são questionadas, porém é aceita a importância do acolhimento proporcionado pela equipe médica que cuida do paciente. É possível observar as modificações econômicas que ocorrem quando se anuncia uma somatização, ligados aos aportes narcisistas secundários e sua fonte exterior ao sujeito. Este lugar da fonte narcisista se encontra no coletivo, e por isso esta fonte representa uma qualidade relativamente indiferenciada, pelo menos no primeiro tempo. Quando um paciente é informado durante consulta médica sobre uma patologia grave, este anúncio é imediatamente acompanhado de um investimento particular em sua pessoa como sujeito doente, investimento que emana da função médica. É como se o médico dissesse: você me interessa porque está doente, que implica vamos cuidar de você. Analogamente, a função materna do analista supõe que a prática psicoterápica seja codificada com finalidade conservadora da saúde do paciente. As diferentes modalidades identificatórias do analista com seu paciente mobilizam a atividade interpretativa e a modulam, em função do nível e da qualidade do funcionamento psíquico do paciente e também de acordo com seu próprio ritmo. O impacto da função materna do terapeuta ocorre em dois níveis. De um lado, o reforço das contracatexias para o estabelecimento de um trabalho com o paciente que permita estabelecer uma barreira para excitante e, do outro lado, a criação ou melhora das condições econômicas que permitam o processo do recalque, mediante a transmissão da ameaça de castração que emana do pai e da qual o terapeuta é o agente. Deste modo, segundo Fain (2001), o superego se torna um componente da função materna. Marca com seu selo e com os valores coletivos dos quais é representante no interior do aparelho psíquico, os investimentos eróticos da sua função, inscrevendo esta última em um ponto em que os limites estão fixados pelas pressões da organização pulsional edípica da família humana. 196 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

197 Victoria Regina Béjar Conclusão Não foi possível nos aprofundarmos na importância das vivências contratransferenciais, no contato com pacientes não neuróticos, como possíveis elementos das representações coisa do mundo mental do paciente, que necessitam ser nomeadas para integrar os pensamentos. Assim, segundo Marty, o analista empresta seu pré-consciente ao paciente, para a construção dos elos associativos, que irão preencher as lacunas das redes representacionais. Enfatiza a importância do investimento libidinal do analista, que irá participar do processo de energização egóica do paciente, que pode levar à instalação do processo evolutivo da pulsão de vida. Para Marucco (2006) o investimento libidinal do analista no paciente deriva da matriz de esperança e da possibilidade de revelá-la inconscientemente, permitindo ao paciente que construa um vínculo amoroso acolhedor, desintoxicante. Há vasta literatura contemporânea de autores que descrevem os sutis movimentos contratransferenciais e sublinham a importância que o analista os utilize, como um dos instrumentos principais do trabalho analítico com pacientes que padecem de déficits e falhas simbólicas, nos quais predominam o não representável e o irrepresentável. Vale relembrar que até os anos 50 a contratransferência era considerada um empecilho para o processo analítico, quando então Paula Heimann aponta sua importância, como instrumento do processo analítico com pacientes que apresentam déficits simbólicos. Infelizmente não é possível nos estendermos aqui nas ricas contribuições dos Botella (2002) [não aparece nas referências], assim como de Ogden (1996) e outros que descrevem as sutilezas dos movimentos contratransferenciais e dos processos de representabilidade desabrochados das vivências contratransferenciais. Contributions of the psychoanalytic psychosomatic to the contemporary clinic Abstract: The author emphasizes the contributions of psychoanalytic psychosomatic of the Paris School for understanding the psychological functioning of patients with somatization and serious diseases. These findings are useful for understanding the non-neurotic structures, in which the symbolization processes and the constitution of primary narcissism are committed. One of the main issues in common in severe somatization and in other clinical manifestations of non neuroses, are early traumatic Psicanálise v. 17 nº 2,

198 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea matrices derived from mother child relationship deficits. The author establishes conjectures about the different clinical manifestations and their relation to the excesses of absence or presence of foreign object. It introduces concepts such as maternal function, with its dimensions of paraexcitação and libidinization and censorship lover. The metapsychology of the pulsional body of the psychosomatic structure is described and its events in the progressive disruptions. Clinical vignettes are used to illustrate the operative functioning and its excessive rationalization and also the affective disorders of essential depression in non-neurotic structures, such as somatization, addictions and violent behavior. Keywords: Maternal function. Mentalization. Not neurotic structures. Progressive disorganization. Psychoanalytic psychosomatic. Pulsional body. Severe somatization. Traumatic arrays. Referências ALARCON, J. (2015). Comunicação verbal. BOTELLA, C; BOTELLA, S. Irrepresentável: mais além da representação. Porto Alegre: Criação Humana, Originalmente publicado em FAIN, M. La fonction maternelle selon Pierre Marty. Revue Française de Psychosomatique,v. 20, p GREEN, A. Linhagem subjetal e linhagem objetal: funções do objeto. In: Orientações para uma psicanálise contemporânea. Rio de Janeiro: Imago, 2008a.. Função desobjetalizante. In: Orientações para uma psicanálise contemporânea. Rio de Janeiro: Imago, 2008b. LERICHE, R. De la santé à la maladie, la douleur dans les maladies, où va la médecine? Encyclopédie française, v. 6, MARTY, P. La economía psicosomática. In: Los movimientos individuales de vida y de muerte. Barcelona: Ediciones Toray, Originalmente publicado em La función materna. In: El orden psicosomático: los movimientos individuales de vida y de muerte: desorganizaciones y regresiones. Valencia: Promolibro, Originalmente publicado em Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

199 Victoria Regina Béjar. El preconsciente, punto central de la economía psicosomática. In: La psicosomática del adulto. Buenos Aires: Amorrortu, Originalmente publicado em MARUCCO, N. C. Entre el recuerdo y el destino: la repetición. Revista de Psicoanálisis, v. 29, n. 1, p , OGDEN, T. O terceiro analítico: trabalhando com fatos clínicos intersubjetivos. In: Os sujeitos da psicanálise. São Paulo: Casa do psicólogo, SMADJA, C. Le modèle pulsionnel de la psychosomatique. Revue Française de Psychosomatique, v. 45, p , WINNICOTT, D. W. A mente e sua relação com o psicossoma. In: Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago, Originalmente publicado em O medo do colapso. In: Explorações psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, Originalmente publicado em Uma nova luz sobre o pensar infantil. In: Explorações psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, Originalmente publicado em Victoria Regina Béjar Av. Higienópolis, 360 / 62 CEP São Paulo SP - Brasil [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

200 Contribuições da psicossomática psicanalítica à clínica contemporânea outras contribuições 200 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

201 Escuta e enquadre analítico Altamirando Matos de Andrade Júnior 1 Resumo: O autor desenvolve a ideia de escuta e de trabalho analítico, tomando o setting ou enquadre como referência, e exemplificando com duas vinhetas clínicas. Entende que é necessário que o método analítico esteja de tal forma internalizado no analista, que este possa seguir as recomendações, propostas por Freud em seu texto Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912), sem torná-las regras fixas. Para ele, é com esta maneira de funcionar psicanaliticamente que nós psicanalistas construímos o enquadre de nosso trabalho analítico, portanto acredita que o modo como usamos as recomendações de Freud se dará de acordo com as características pessoais de cada analista. Palavras chaves: Enquadre analítico. Escuta analítica. Internalização do método. Processo analítico. A escuta psicanalítica proposta por Freud permitiu a criação de um método de investigação e terapia para os processos psíquicos. Freud escutou e buscou dar sentido às queixas de seus pacientes, proporcionando a eles uma compreensão do que sentiam. A partir da escuta a psicanálise foi desenvolvida e desde então as escolas psicanalíticas por mais diferentes que possam ser entre si permanecem com pontos em comum, sendo um deles a escuta psicanalítica através da atenção flutuante do analista. Pretendo neste texto desenvolver a ideia de escuta e do trabalho analítico tomando o setting ou enquadre como referência. Apresentarei duas vinhetas clínicas que espero exemplifiquem o que pretendo abordar. Mas o que é o enquadre? São regras? Recomendações? 1 Membro Efetivo e Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ). Psicanálise v. 17 nº 2,

202 Escuta e enquadre analítico Freud intuiu que era necessário pensar e constituir um conjunto de recomendações que pudessem servir de guia para o trabalho analítico. Foi muito claro ao não as engessar: Devo, contudo, tornar claro que o que estou asseverando é que esta técnica é a única apropriada à minha individualidade; não me arrisco a negar que um médico constituído de modo inteiramente diferente possa ver-se levado a adotar atitude diferente em relação a seus pacientes e à tarefa que se lhe apresenta (1912, p. 149). Se nos identificamos com Freud e seu método e ou suas recomendações talvez não tenhamos transtornos com as regras ou com o enquadre. Mas e se não concordamos? Ou se o paciente não se encaixa no modelo? Freud também previu tais questões, ao dizer que foi muito prudente em chamar essas regras de recomendações e não reivindicar qualquer aceitação incondicional para elas. Diz ele: A extraordinária diversidade das constelações psíquicas envolvidas, a plasticidade de todos os processos mentais e a riqueza dos fatores determinantes opõem-se a qualquer mecanização da técnica [...] (1913, p. 164). Frochtergarten (2010, p. 52), colega de São Paulo, descreve: O setting é condição para o trabalho analítico, mas não seu substituto. O autor diz considerar o setting como uma referência, um eixo, um suporte ou ambiente onde se dá a análise e não um conjunto de regras ou uma moldura. Na verdade, aspectos formais e disposições do analista, incorporadas e encarnadas por ele. Bleger (1967) afirma que para que o processo se desenvolva tem que haver um enquadre que o contenha. Bleger considerava que da situação analítica faziam parte o processo e o enquadre. E que quando o enquadre funcionava bem havia um predomínio dos aspectos neuróticos do paciente na relação analítica, mas quando o enquadre emudecia, os aspectos psicóticos da personalidade do paciente eram projetados no analista. De modo semelhante Cassorla considera que, quando o paciente ataca a mente do analista perturbando sua capacidade de pensar, este passa a produzir nãosonhos e o campo analítico fica, então, tomado por não-sonhos a dois. Cassorla (2013, p. 46) descreve que o analista capta os sonhos do paciente, identifica-se com eles e os ressonha, desfazendo ou modificando defesas que são frutos do conflito edípico. O sonho do analista é contado ao paciente que, por sua vez, o sonha novamente, e assim por diante. Constituem-se sonhos-a-dois. Mas quando há um predomínio da parte psicótica da personalidade em que a simbolização está prejudicada, não é possível sonhar. Diz ele: Elementos sem significado 202 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

203 Altamirando Matos de Andrade Júnior ou com significado deteriorado ou bizarro serão eliminados através de identificações projetivas. O conjunto desses fatos pode ser chamado de não-sonhos (Ibid., p. 47). Esses fatores descritos são exemplos de funcionamento do enquadre e da dinâmica relacional entre o par analítico. Penso que o que descreve Cassorla tem bastante semelhança com as ideias de Bleger, sendo que Cassorla desenvolve um modelo relacional através de vários trabalhos nos quais seu foco principal se centra nos sonhos sonhados pelo paciente e pelo analista, sendo este modelo baseado no conceito de reverie proposto por Bion. O enquadre tem uma importância fundamental na contenção, pois, se o paciente se sente confiante na estabilidade, adaptabilidade e humanidade do enquadre, ele pode com esta proteção se sentir seguro e confiante para expressar-se tanto positivamente como negativamente (STEINER, 2013). Segal em 1967 enfatizou que o aspecto mais importante do enquadre é a atitude do analista e é isto que se expressa através dos aspectos práticos como a disposição do consultório, a frequência e a duração das sessões, os honorários e todos os outros aspectos constantes do setting. É preciso que o método analítico esteja de tal forma internalizado no analista que se possa seguir as recomendações sem torná-las regras fixas. É com nossa maneira de funcionar psicanaliticamente que construímos o enquadre de nosso trabalho analítico. Portanto, creio que o modo como usamos as recomendações se dará de acordo com as características pessoais de cada analista. E como chegamos a isso? Através da experiência analítica pessoal, supervisões, tensões experimentadas entre os vértices da formação analítica e muito especialmente pela experiência clínica no dia a dia de consultório. Na verdade, é um interminável vir a ser! Com o passar dos tempos a psicanálise foi enfrentando desafios, a partir do surgimento de diferentes arranjos e constelações psíquicas apresentadas pelos analisandos. Novas teorias foram surgindo na tentativa de compreender e investigar os fenômenos que se apresentaram. É assim desde o início e tem sido assim ao longo deste século de existência da psicanálise. Hoje em dia temos também diversos desafios que buscamos compreender, investigando com os nossos pacientes o que eles sentem, deixam de sentir ou como funcionam nos mais diferentes contextos de suas vidas. Um trabalho muito voltado para as dificuldades simbólicas. Para este trabalho se dar de modo satisfatório, precisamos de um laboratório adequado às necessidades da investigação. O enquadre me parece esse laboratório no qual se desenvolve tanto nossa investigação quanto a terapia das questões apresentadas pelos pacientes. Psicanálise v. 17 nº 2,

204 Escuta e enquadre analítico Podemos então afirmar, seguindo Etchegoyen (1987, p. 296), que: O enquadre é o marco que alberga um conteúdo, o processo. Entre o processo analítico e o enquadre, se dá uma relação continente/conteúdo em termos de Bion (1963). Este modelo é bastante útil para a compreensão das turbulências que possam ocorrer no setting. Tais turbulências podem surgir do conteúdo do continente ou dos dois. Creio que podemos falar de conluios, enactment, impasses e outras alterações que possam acontecer dentro do modelo proposto por Etchegoyen. Resumindo, o enquadre é a atitude mental do analista, ou seja, a atitude mental de colocar o menor número de variáveis no desenvolvimento do processo. E também o guardião, aquele que contém e protege o processo. Nos últimos tempos, mais precisamente desde fins da década de 40 do século passado, o analista passou a considerar sua presença na sessão e os aspectos contratransferenciais passaram a ser considerados como instrumento para a compreensão da interação analítica. Tal fato se deu a partir dos trabalhos sobre contratransferência elaborados por Racker (1948) e Paula Heimann (1958, 1960), (ETCHEGOYEN, 1987). O afeto do analista deixou de ser tabu e passou a ser um elemento a mais do campo, permitindo novas interações entre a dupla e também acesso a um cem número de situações emocionais. Como sempre, diante de novos postulados surgem novas questões: como e quando o afeto do analista interfere no processo analítico? Quando deve ser evitado? Pode-se evitar? De que modo a pessoa e a presença do analista contribuem ou atrapalham o processo? Essas questões, para serem compreendidas, têm que ser contextualizadas dentro de cada momento do processo analítico onde se fazem presentes. O importante é que o analista possa utilizar seus sentimentos e as reações que eles provocam nos pacientes, assim como as reações do que sente em decorrência do material do paciente, para compreender o que se passa na dinâmica transferencial-contratransferencial. Tenho observado que certos pacientes, com a evolução da análise, passaram a buscar um tipo de relação na qual se torna necessário que certa característica do analista interaja com eles. Essa interação buscada se torna vital para o processo de integração do paciente e permite que se criem espaços onde experiências arcaicas são experimentadas num contexto até então inexistente. São experiências que, muitas vezes, ficaram sem acesso à representação e não puderam ser experimentadas emocionalmente. São oportunidades em que o afeto do analista permite experiências de significação. Afetos são experimentados pela primeira vez, tornando-se patrimônio da constelação emocional do paciente. É como se um paciente, de alguma forma, buscasse dar sentido a uma experiência emocional que não tinha sido representada. 204 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

205 Altamirando Matos de Andrade Júnior Quinodoz (2003) usa a expressão palavras que tocam para se referir a palavras que expressam uma carga sensorial e que tocam os pacientes com dificuldades simbólicas. Em se tratando de pessoas com uma pobreza representacional e simbólica, estas palavras tocariam num nível mais sensorial, ajudando a encontrar significados para experiências até então inacessíveis. Creio que o afeto do analista seja uma das bússolas necessárias para se contatar com essas experiências emocionais. A escuta se torna de grande importância na observação das movimentações transferenciais na sessão não só através da fala do paciente, mas também pela atmosfera criada no setting (JOSEPH, 1989). A escuta é o que proporciona a compreensão de impasses e situações limites, pois se torna o meio que o analista tem para sintonizar-se com a angústia e anseios do paciente. Freud deu sentido aos sintomas histéricos de suas pacientes, escutando-os e buscando desenvolver um sentido para os fenômenos observados. Assim fez com diversas outras questões e características apresentadas pelos seus pacientes. Nessa linha, todos os autores buscam através da escuta entender e interpretar o que percebem. Quando a compreensão de um determinado fato não é satisfatória, a escuta tem que ser afinada, apurada ou até mesmo modificada. Paciente A: Numa sessão próxima ao Natal, a paciente ao fim da sessão me entrega uma sacola e diz que era um presente de Natal para mim. Surpreendi-me pelo jeito abrupto com que me deu o presente. Saiu da sala mal dando tempo de ouvir o meu agradecimento. Ao abrir o presente, deparei-me com um raro livro de arte, belíssimo, que eu conhecia somente de catálogo. Meu primeiro pensamento foi me perturbar por saber do alto custo daquele livro e de imediato pensar que teria que devolvê-lo. Mas por que devolver? Esta paciente estava trabalhando comigo, por esta época, seu excessivo consumo, o que a levava a comprometer o orçamento doméstico com faturas excessivas do seu cartão de crédito e do seu cheque especial. Eram gastos astronômicos com roupas, acessórios de moda e objetos para casa. Geralmente era socorrida pelos pais que cobriam sua conta, dando a ela a certeza que no fim tudo se ajeita. Examinávamos o prazer que sentia em gastar e o intenso prazer que era experimentar o sufoco das cobranças e a sensação que no final quando estava prestes a cair no precipício era salva pela família ou por uma renegociação das dívidas. Pensei então: não posso aceitar, serei conivente com seus gastos e estarei sendo um parente salvador sobre os quais ela se sente triunfando, Psicanálise v. 17 nº 2,

206 Escuta e enquadre analítico quando no sufoco eles a socorrem, embora a agredindo de diversas formas. As agressões não são consideradas, mas sim o prazer que sente em convencê-los a quitar suas dívidas. Achei que me dar o presente fosse uma maneira de me colocar no meio dessa trama. E se não fosse? E minha vontade de ficar com o livro? Estes pensamentos e sentimentos aconteceram rápidos e logo em seguida a saída da paciente. Continuei atendendo aos outros pacientes e não pensei mais no assunto. Disse para mim mesmo vamos ver como isto tudo se desenvolve [...]. No dia seguinte esperei que a paciente retomasse o assunto, e nada. Decorridos uns 30 minutos da sessão, pensei em como abordar o tema e me vi sem saber se esperava mais ou se falava sobre o assunto. Esperei mais um pouco, mas também não havia mais regra fundamental, não tinha atenção flutuante (a atenção estava dirigida). Resolvi falar que ela tinha me dado um presente na véspera. Ela então disse: pois é você gostou? É um livro muito bonito e raro. Eu disse: e caro. Ela falou que era caro, mas que eu merecia, afinal, tinha sido muito bacana com ela e tinha a ajudado muito, e continuou a me elogiar e se dizer muito agradecida. Eu disse que estava pensando em não aceitar o presente. Subitamente ela levanta do divã e, sentada, me encara e diz: como é? Que coisa é esta? Não se recusa presente. Você não pode estar falando sério!!! Eu disse que aceitar aquele presente era uma forma de estar conivente com uma parte dela que não tinha limites com os gastos e que era sobre isto que vínhamos conversando nas últimas sessões. Ela então começou a me xingar de ingrato, estúpido e a tecer considerações sobre a minha atitude. No que ela falava raivosamente me vi mergulhado num devaneio com os circos de minha infância (Circo Garcia, Gran Circo Merino e Circo Tihany) e me lembrava do domador que entrava na jaula dos leões e colocava a cabeça na boca deles. Lembrava-me do clima e da música no circo no momento desta cena, meus amigos e eu calados, na expectativa do que ia acontecer. Experimentei um imenso prazer e fui subitamente acordado do devaneio com a paciente dizendo: todo mundo tem um preço, duvido se eu tivesse te dado um Jaguar zerinho você ia recusar. Eu disse: verdade, não vou recusar o Jaguar que você está mostrando aqui agora. Interrompendo-me, ela diz: se eu fosse um Jaguar te estraçalhava todo para deixar de ser mal-agradecido! A sessão seguiu neste clima e ela foi embora, levando o presente que devolvi. As sessões seguintes foram no mesmo tom, até que pude mostrar que ela estava fazendo comigo o que fazia com a mãe e uma irmã rica que sempre a socorriam quando ela estava à beira do precipício, isto é, se sentia triunfando sobre a dívida e sobre quem a ajudava a quitar a dívida, dizendo: no finalzinho sempre me dou bem!! Ela me sentia ajudando-a, mas também me sentia como um impedimento ao seu prazer em gastar. Havia um prazer imenso buscado na maneira como contraía as dívidas e como encontrava meios de sair do sufoco. Tinha sempre alguém que brigava 206 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

207 Altamirando Matos de Andrade Júnior com ela, mas pagava as dívidas. Ela se sentia ocultamente triunfando sobre quem a ajudava. Esse modo de funcionar era uma constante em sua vida. Repetia-se nos relacionamentos amorosos e nas relações familiares. Agora estava presente na relação comigo. A paciente por diversas vezes ameaçou interromper a análise, pois não queria se tratar com um insensível, grosso e mal-educado. Faltou inúmeras sessões seguidas ou ia a uma sessão e faltava a duas e assim se deu por um tempo. Durante várias sessões me vi sem condições de interpretar, pois a paciente não me ouvia. Irritada, interrompia-me assim que eu iniciava uma interpretação. Só me restava aguardar [...]. Por muitos meses essa questão foi tema de suas sessões, até que um dia me relata que se sentia segura comigo, pois eu não tinha me deixado cair no conto do vigário. Percebeu que ao me presentear estava me dando um cala a boca. Para o que nos interessa no momento, fiquei perturbado e senti que não estava, a princípio, tendo condições de entender o que se passava. Minha atenção estava dirigida para o presente e como dizer à paciente que eu não iria aceitá-lo. Houve um comprometimento do setting no sentido de alterar minha escuta. Pudemos conversar bastante sobre essas questões, possibilitando um ganho através do insight que a paciente teve do cala a boca que queria fazer comigo. A turbulência diminuiu e houve uma alternância com um humor mais depressivo, embora muitas vezes recorria a defesas maníacas para lidar com o extremo descrédito e desvalorização que tinha de si mesma. Na verdade, já que eu chamei o demônio das profundezas do inferno, não poderia mandá-lo de volta sem fazer pelo menos uma pergunta. Tinha que colocar a cabeça na boca do leão!! Paciente B: A paciente estava ausente das sessões devido ao nascimento de seu bebê. Procurou-me durante o início do nono mês de gravidez alegando estar muito angustiada e com medo do parto. Disse-me que sua tia tinha tido uma depressão puerperal e que ela se sentia muito frágil. Estava apavorada que acontecesse o mesmo. Iniciamos o tratamento e combinamos uma interrupção que ela pensou ser por pouco tempo pelo fato de estar muito angustiada e pela facilidade de morar perto do meu consultório, o que poderia facilitar suas idas às sessões. Iniciamos com cinco sessões por semana e ela compareceu a três semanas de tratamento, interrompendo para ter o bebê. Após um mês me telefonou solicitando retornar ao tratamento. No dia marcado abro a porta do consultório e me deparo com a paciente acompanhada do seu bebê num carrinho. Entra e me diz que ficou sem querer Psicanálise v. 17 nº 2,

208 Escuta e enquadre analítico deixar o bebê em casa e me fala que era hora de sua mamada e que ela então optou por trazê-lo a sessão. Em seguida senta na poltrona e começa a dar de mamar ao bebê. De imediato me lembrei do tempo em que, eu como candidato, observei um bebê e a sensação me parecia a mesma. Resolvi aguardar o acontecimento dos fatos, lembrei-me que já tinha tido esta experiência há cerca de uns 20 anos, quando uma paciente que tinha tido bebê passou a ir às sessões com ele. Ao término da amamentação, ela coloca o bebê para arrotar e depois no carrinho, deita-se no divã e começa dizendo que até que não estava tão ansiosa. Falava sobre o medo da depressão puerperal e da sensação de não dar conta dos cuidados ao bebê. Pareceu-me que precisava concretamente que eu assistisse sua relação com o bebê para que confirmasse que ela estava indo bem. A sessão transcorreu com a paciente retomando temas que tinha trazido antes da interrupção, como o medo de não dar conta da vida, angústias em relação aos cuidados com seu filho e temor de ser uma pessoa fraca e sem consistência. Algumas vezes, imaginei como iriam ser as sessões dali para a frente, se o bebê iria sempre estar presente, se eu iria aceitar essa situação ou o que faria. O fato é que de imediato decidi atender a paciente da maneira que fosse necessário a ela, procurando trabalhar o que compreendesse apesar da presença do bebê que, até aquele momento, estava tranquilo. Na sessão seguinte, a paciente retorna com o bebê dormindo no carrinho, deita-se no divã e começa a falar como se o bebê não estivesse presente. Pareceu-me que ela estava me mostrando suas partes bebê, e, assim, seguimos trabalhando até que o bebê acorda, ela se levanta e diz que ele está sujo e que vai trocá-lo rapidinho. Comecei a pensar que uma hora ou outra eu iria ajudá-la a trocar fraldas, segurar o bebê no colo ou qualquer outra coisa. Tal fato me fez rir e sentir que seria algo muito engraçado e curioso. Na sessão seguinte, chega com o bebê acordado e chorando e me pede para ajeitar o carrinho pois ela vai dar de mamar. Fico observando e a vejo tranquila e satisfeita com seu bebê. Em seguida coloca-o no carrinho, deita-se no divã e me diz que em casa fica mais insegura do que no consultório. Diz que seu marido também é ansioso e ficam os dois com receio de não estarem fazendo direito as coisas com o bebê. No andamento da sessão, pudemos ver que sua tia tinha tido uma psicose puerperal com ameaças de matar o bebê e era este o temor da minha paciente: o medo de deixar cair o bebê no chão, de matá-lo de inanição por não saber dar de mamar. O trabalho dos seus impulsos de morte em relação ao bebê trouxe certo alívio, falar no assunto permitiu à paciente tomar contato com o que a afligia. Após alguns minutos me diz que a pessoa que a encaminhou 208 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

209 Altamirando Matos de Andrade Júnior para mim falou que eu sou especialista em cuidados com bebês. Fiquei surpreso dessa minha especialidade e, como a sessão já estava terminando, não falei nada. Essas são sessões recentes. A paciente continuou indo ao consultório com o bebê, mas de modo mais esparso. Dizia que, quando vai sair de casa e o bebê está dormindo, ela se sente bem em deixá-lo. Nesse caso a alteração do setting se deu pela inclusão de um terceiro que de alguma forma repercutiu em minha subjetividade. No entanto, as sessões transcorriam como se só estivéssemos nós dois, muito embora eu mesmo sentisse a minha atenção alterada pela presença do bebê. A própria paciente decidiu pela frequência ao me perguntar se manteríamos o ritmo inicial. Disse que se sentiria mais segura, pois era muito sozinha e estava precisando de ajuda. Seus pais moravam numa outra cidade, assim como os sogros, e não poderiam acompanhá-la neste momento. O marido trabalhava o dia inteiro, e ela ficava temerosa, com receio de se desesperar. Tinha clara noção de sua fragilidade: dizia que sempre foi muito frágil e insegura, com medo até de escuro, lobisomem e outras crendices. Nesse setting, funcionei por um bom tempo como um continente seguro para suas inseguranças e medo. Aos poucos foi possível à paciente adquirir alguma compreensão de seu funcionamento, de suas fantasias e de como se relacionava com os objetos. Na verdade, a presença do bebê, que de início me causou uma pequena tensão, não foi problema para que o enquadre fosse garantido e proporcionasse o processo de análise. O bebê funcionou como uma parte cindida da paciente que ela trazia para a sessão concretamente e que permitiu compreender o funcionamento da sua parte psicótica, que se apresentava através do medo de matar o bebê de fome. O que a paciente chamava de insegurança na verdade, evidenciouse como fantasias de morte em relação ao bebê e, posteriormente, em relação a si própria. Na gravidez e na história da psicose puerperal da tia, a paciente entrou em contato de modo mais intenso com suas angustias de morte em relação às pessoas e em relação a fantasias de suicídio. Listening and analytic setting Abstract: The author develops the ideas of listening and of analytic work, taking the setting as reference and offering two clinical vignettes as examples. The author understands it is necessary that the analytic method be internalized in the analyst in such a way that s/he can follow the recommendations proposed by Freud in his text Recommendations to Physicians Practicing Psycho-analysis (1912) without turning them into fixed rules. Psicanálise v. 17 nº 2,

210 Escuta e enquadre analítico For him, we, psychoanalysts, build the setting of our analytic work by functioning in a psychoanalytic way; therefore, he believes that the way we use Freud s recommendations will be defined according to the personal characteristics of each analyst. Keywords: Analytic setting. Analytic listening. Internalization of the method. Analytic process. Referências BLEGER, J. Simbyosis y ambigüedad: estudio psicanalítico. Buenos Aires: Paidós, CASSORLA, R. O analista, seu paciente adolescente e a estupidez no campo analítico. Revista Calibán, v. 11, n. 2, p , ETCHEGOYEN, R. H. Fundamentos da técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artes Médicas, FREUD, S. (1912). Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: Edição standard brasileira. v. 12. Rio de Janeiro: Imago (1913). Novas recomendações sobre a técnica de psicanálise. In: Edição standard brasileira. v. 12. Rio de Janeiro: Imago FROCHTERGARTEN, J. É preciso ser psicanalista. É preciso? Revista Brasileira de Psicanálise, v. 44, n. 2, p , JOSEPH, B. Equilíbrio psíquico e mudança psíquica: artigos selecionados de Betty Joseph. Rio de Janeiro: Imago, Originalmente publicado em QUINODOZ, D. Words that touch. London: Karnac, SEGAL. H. Melanie Klein s technique. In: The work of Hanna Segal. New York: Jason Aronson, Originalmente publicado em STEINER, J. Comments on the case of Raquel. International Journal of Psychoanalisis, v. 94, n. 1, p , Altamirando Matos de Andrade Jr. Rua Jardim Botânico, 674 / 617 Jardim Botânico Rio de Janeiro RJ Brasil [email protected] 210 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

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212 Escuta e enquadre analítico interfaces 212 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

213 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência Renata Lisbôa Machado 1 Resumo: Este trabalho propõe pensar a relação entre a psicanálise e a poesia a partir da noção de experiência. Também pretende formular perguntas que engendrem o trabalho da reflexão, na sala de análise e fora dela, com acento para a sua inextricável ligação com o caldo de cultura. Nosso objetivo consiste em alargar as interlocuções entre a psicanálise e a crítica da cultura, convidando a poesia ao diálogo. Tal herança recebemos de Freud. Com base em textos freudianos que versam sobre a articulação entre a psicanálise e a poesia, a psicanálise e a literatura, destacamos a experiência de visita a uma exposição no museu de Freud. O que efunde, como consequência, são pistas que levam a refletir sobre a importância das artes e da psicanálise como interlocutoras essenciais nesse embate que se trava com o desamparo e a finitude. Palavras-chave: Cultura. Finitude. Freud. Poesia. Psicanálise. O maior apetite do homem é desejar ser. Se os olhos vêem com amor o que não é, tem ser. Padre Antonio Vieira 2 (BARROS, 2006) 1 Psicóloga. Especialista em Psicologia em Cardiologia pelo Programa de Residência Integrada em Saúde: Cardiologia ICFUC/RS. Mestre em Psicologia Social e Institucional UFRGS. Psicoterapeuta com Formação em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica ITIPOA/RS. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras - Teoria da Literatura PUCRS. 2 No documentário Só dez por cento é mentira, dirigido pelo cineasta Pedro Cezar, Manoel de Barros conta que colocou palavras na boca de Rabelais, por que Rabelais teria mais autoridade que ele. Hipoteticamente, aqui, ele fez o mesmo com o Vieira, que ele amava tanto! Psicanálise v. 17 nº 2,

214 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência Palavras iniciais Parece ser verdade que as boas perguntas são aquelas que não recebem resposta. Ficam orbitando em torno de nós, a fim de que construamos um caminho. O poeta Rainer Maria Rilke (2001) já dizia que devemos amar as perguntas como um quarto fechado ou livros escritos num idioma muito estrangeiro, enquanto ainda não podemos viver as respostas, até que um dia possamos vivê-las. Essa é uma imagem interessante de como vislumbrar o que poderia ser o símbolo de um tratamento analítico. Os enigmas que escapam à resistência inicial e atravessam a porta de entrada de tantos consultórios de analistas e terapeutas são de pessoas dotadas de coragem, mas também de sofrimento. Apesar disso, alguns não passam da sala de espera ou nem chegam a ela. Outros, vem, sentam, mas por diversos motivos, não seguem. No entanto, aqueles que chamaremos aqui de mais determinados, dão a mão à parte corajosa em si, apertam a campainha, ingressam e conseguem sentar. E, quem sabe, depois, deitar no divã. Certamente, um tratamento analítico desliza para uma polissemia imagética e simbólica. Portanto, a proposta de nossa abordagem, neste trabalho, é centrar força no seguinte recorte: a importância das perguntas que orbitam na sala de análise e fora dela, com acento para sua inextricável ligação com o caldo de cultura. Nosso objetivo, portanto, consiste em alargar interlocuções entre a psicanálise e a crítica da cultura (POLI, 2012), convidando a poesia ao diálogo e pensando o psicanalista como aquele que escuta as manifestações e produções do inconsciente, sustentando na transferência um tempo de silêncio. Tal herança recebemos de Freud. Com efeito, lembramo-nos de uma referência do escritor búlgaro-britânico e ganhador do prêmio Nobel de literatura em 1981, Elias Canetti, por seu romance Auto-de-fé (1935). Todavia, tal referência vem de outra obra que gostaríamos de tomar a liberdade de predicá-la como imperdível. Em seu texto O ofício do poeta (2011), encontramos um excerto que nos faz refletir acerca do argumento do presente artigo sobre os caminhos que temos trilhado na psicanálise e na cultura. Possibilita-nos rememorar, a partir de suas construções em torno à relevância do ofício do poeta, o quanto há de semelhança no fazer do psicanalista na clínica, nas instituições e na cultura. Na questão lançada por Poli (2012, p. 23), ratificamos nossas proposições: Faremos como Freud e tomaremos a responsabilidade da transferência, reconhecendo nossa implicação? Com o intuito de exemplificar nossa reflexão, apresentamos o excerto: Caracterizei os poetas como os guardiões das metamorfoses, mas eles o são também num outro sentido. Num mundo onde impor- 214 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

215 Renata Lisbôa Machado tam a especialização e a produtividade; que nada vê senão ápices, almejados pelos homens em uma espécie de limitação linear; que emprega todas as suas energias na solidão gélida desses ápices, desprezando e embaciando tudo o que está no plano mais próximo o múltiplo, o autêntico -, que não se presta a servir ao ápice; num mundo que proíbe mais e mais a metamorfose, porque esta atua em sentido contrário à meta suprema de produção; que multiplica irrefletidamente os meios para sua própria destruição, ao mesmo tempo que procura sufocar o que ainda poderia haver de qualidades anteriormente adquiridas pelo homem que poderiam agir em sentido contrário ao seu num tal mundo, que se poderia caracterizar como o mais cego de todos os mundos, parece de fundamental importância a existência de alguns que, apesar dele, continuem a exercitar o dom da metamorfose. Esta seria, creio, a verdadeira tarefa dos poetas (CANETTI, 2011, p. 317). Com base no que se extrai da passagem acima, perguntamo-nos se psicanalistas e psicoterapeutas têm considerado como questão o tema das metamorfoses. Seria possível afirmar que são guardiões delas, como os poetas? Evidentemente, essa é uma dúvida que não pretende ser solucionada com rapidez. Como escreveu Blanchot (2010): O Sim categórico não pode devolver aquilo que por um momento foi apenas possível; bem mais, ele nos tira a dádiva e a riqueza da possibilidade, pois agora afirma o ser daquilo que é, mas como o afirma em resposta, é indiretamente e de maneira apenas mediata que ele o afirma. Assim, no Sim da resposta, perdemos o dado direto, e perdemos a abertura, a riqueza da possibilidade. A resposta é a desgraça da questão (p. 43) (grifo nosso). Freud e a experiência do amor: inspiração a novas imagens Inspiradas por uma experiência, tal pergunta faz operar a construção de um lugar para pensar e metabolizar aquela. Recentemente, o museu do Freud 3 abriu suas portas para uma exposição intitulada Freud & Eros: Love, Lust and Longing. Versando ao português, poderíamos ter Freud & Eros: Amor, Libido e Saudade. Trata-se da exibição de algumas cartas, das tantas que o fundador da psicanálise trocou com sua amada, Martha Bernays, à época, sua namorada e, logo depois, sua noiva, além de diversas miniaturas de Eros e de alguns trabalhos de artistas contemporâneos, em que ressaltamos os de Edmund de Waal 3 Disponível para download em: Acessado em 01/03/2015. Psicanálise v. 17 nº 2,

216 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência (2011) 4. As cartas estão exibidas na parede, mais no alto, com a letra de cada um deles, quase ilegíveis e escritas numa língua que não é a mesma que a nossa. Há a tradução cuidadosamente disposta pela curadoria 5 em inglês. Neste ensejo, cabe referir que a língua, enquanto esse componente léxico do imaginário (não entendido aqui apenas pelo registro lacaniano), apresentada pelo filósofo Jean-Jacques Wunenburger (2007), é esse patrimônio de ficções nas culturas tradicionais. Portanto, diz respeito a todos nós. Nesse patrimônio, o amor se encontra como idioma em comum, e a emoção que verte, daquele instante, indica que houve uma comunicação de Freud e Martha conosco, desse amor que atravessou o tempo e chegou até nós. Ainda na parede, encontravam-se algumas frases em destaque extraídas do visitado texto freudiano Psicologia das massas e análise do eu (1921). A curadoria aponta outro horizonte: coloca algumas citações deste texto, oferecendo aos visitantes as linhas possíveis que costuram esse novo tecido, repleto de tramas que se deslocam sobre a profundidade do tema do amor, da libido e do desejo, bem como de seus desdobramentos na vida e na obra de Freud. Entendemos ser relevante, a fim de engrossar o caldo desta escrita, fazer menção a um excerto do referido texto freudiano. Libido é a expressão extraída da teoria das emoções. Damos a esse nome a energia, considerada como uma magnitude quantitativa (embora não seja presentemente mensurável) daqueles instintos que tem a ver com tudo que pode ser mensurado pela palavra amor. O núcleo do que queremos significar por amor consiste naturalmente (e é isso que comumente é chamado de amor e que os poetas cantam) no amor sexual, com a união como objetivo. Mas não isolamos disso que, em qualquer caso, tem sua parte no nome amor -, por um lado, o amor próprio, e, por outro, o amor pelos pais e pelos filhos, a amizade e o amor pela humanidade em geral, bem como a devoção a objetos concretos e a ideias abstratas (FREUD, 1921, p. 101) (grifo nosso). 4 Este artista é um dos mais importantes ceramistas do mundo e ficou conhecido no Brasil por seu premiado livro A lebre com olhos de âmbar. 5 Entendemos ser válido sublinhar o belo e primoroso trabalho da curadora da exposição. A australiana Jane Burke, escritora e professora de história da arte na Universidade de Melbourne, Austrália, propicia aos visitantes uma viagem no tempo, através das correspondências entre Martha e Freud, legando-nos o valor de conhecer outros aspectos da história da psicanálise. Acrescenta-se a isso o compromisso de transmitir uma herança que transcende os eventos pessoais pertencentes ao casal, visto que fazem circular novas fontes as quais trazem criatividade, devaneios, sonhos e novas partilhas. 216 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

217 Renata Lisbôa Machado A citação acima possui inúmeras linhas de força. A que nos interessa e que se apresenta como fértil para seguirmos em frente, trata de poder pensar no que o amor reúne. Pelo que Freud afirmou, essa ideia de o amor sexual não ficar isolado do amor próprio, mas se estender à presença do amor pelos pais e pelos filhos, da amizade e do amor pela humanidade em geral, além de uma devoção a objetos concretos e a ideias abstratas, faz-nos cogitar a concepção de encontro que engendra experiências intercambiáveis. De um dado conhecimento que é vivido pela prática de uma atividade. Para nós, o amor, necessariamente, nasce da noção de experiência. Ao falarmos em experiência, não podemos deixar esquecido o fio que costura tudo isso, ou seja, a capacidade de compartilhá-la. Nas suas pesquisas, na clínica e na vida, o fundador da psicanálise foi descobrindo isso e nos transmitiu seus achados por meio da sua bela escrita, sublinhando uma noção dotada de riqueza e que fomenta secretas alteridades: o amor atuando como fator civilizador e transformador. A libido se liga à satisfação das grandes necessidades vitais e escolhe como seus primeiros objetos as pessoas que têm uma parte nesse processo. E, no desenvolvimento da humanidade como um todo, do mesmo modo que nos indivíduos, só o amor atua como fator civilizador, no sentido de ocasionar a modificação do egoísmo em altruísmo. E isso é verdade tanto do amor sexual pelas mulheres com todas as obrigações que envolve de não causar dano às coisas que são caras às mulheres, quanto do amor homossexual, dessexualizado e sublimado, por outros homens, que se origina do trabalho em comum (FREUD, 1921, p. 114) (grifo nosso). O teor da escrita de cada uma das correspondências exprime a beleza da forma entremeada ao vigor e à verdade do conteúdo. O formato das letras, a ternura e as ardentes expressões eróticas vindas de ambos os lados, desvelam o desejo expresso em palavras desenhadas e sentidas por eles e em como lidavam com a passagem do tempo, com os intervalos dos encontros e da saudade que sentiam. Tudo isso acabou puxando os visitantes-viajantes 6 para um bom repuxo nesse 6 A poeta Cecília Meireles escreveu uma bela crônica intitulada Roma, turista e viajantes (1999), em que discorre sobre a diferença entre o turista e o viajante. Sensibilizadas e encantadas por este texto, apresentamo-lo aqui: Grande é a diferença entre o turista e o viajante. O primeiro é uma criatura feliz, que parte por este mundo com a sua máquina fotográfica a tiracolo, o guia no bolso, um sucinto vocabulário entre os dentes: seu destino é caminhar pela superfície das coisas, como do mundo, com a curiosidade suficiente para passar de um ponto a outro, olhando o que lhe apontam, comprando o que lhe agrada [...]. O viajante é criatura menos feliz, de movimentos mais vagarosos, todo enredado em afetos, querendo morar em cada coisa, Psicanálise v. 17 nº 2,

218 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência mar de emoções que, momentaneamente, transformou a sala silenciosa e aconchegante, do segundo andar da casa de número 20, em Maresfield Gardens, Londres. Foi lá também que encontramos, além das várias esculturas e miniaturas de Eros, guardadas e protegidas numa estante de vidro, uma analista kleiniana aposentada, que trabalha como voluntária no museu. Além de tecer comentários sobre a exposição, e por termos lhe perguntado se ainda clinicava, ela contava um pouco sobre a liberdade que sente nesse momento de sua aposentadoria. A partir desse diálogo conosco, de breves relatos sobre a sua trajetória que se encerrou no consultório, ela nos ofereceu um horizonte. A nosso ver, numa posição afirmativa e otimista em relação à vida, a simpática psicanalista aposta no tempo e segue, livremente, avançando para a vida, depois de um ciclo que se encerrou. Desde então, algo em nossa geografia corporal se movimenta e nos toca, produzindo encantamento e novas aprendizagens. Uma re-afirmação na sua posição subjetiva que nos lança a pensar sobre como podemos nos renovar. Por um instante, Freud parecia estar ali, olhando tudo, testemunhando nosso arrebatamento e tudo aquilo nos enriquecia, fazendo nascer novas vivências poéticas (WUNENBURGER, 2007). A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência Segundo Husserl (1970): L horizon fait partie de la structure de l experiénce 7. Quem colocou acento neste excerto foi Collot (1989), um expoente pesquisador de poesia e professor da Université Sorbonne Nouvelle, Paris III. Trata-se de uma afirmação profícua, pois nos permite indagar de que modo o horizonte faz parte dessa estrutura da experiência. Se a tomarmos aqui, segundo o filósofo Larrosa Bondía (2002), a experiência não é aquilo que toca, passa ou acontece, mas aquilo que me toca, que me passa ou que me acontece. Percebemo-nos, portanto, diante de um horizonte interno, tema que concerne à psicanálise, especificamente se tomarmos como questão a constituição psíquica do sujeito. Estamos exprimindo através de nossos argumentos o modo como enfrentamos um sintoma social da cultura já denunciado por Benjamin (1933), no seu texto Experiência e pobreza. Quando não podemos mais intercambiar nossas experiêndescer à origem de tudo, amar loucamente cada aspecto do caminho, desde as pedras mais toscas às mais sublimadas almas do passado, do presente e até do futuro - um futuro que ele nem conhecerá. 7 Tradução livre da autora: O horizonte faz parte da estrutura da experiência. In: Husserl, E. (1970). Experiénce e jugement. Paris: PUF Apud Collot, M. (1989). La poésie moderne et la structure d horizon. Paris: PUF. 218 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

219 Renata Lisbôa Machado cias, quando elas não podem mais ser testemunhadas por alguém, quando não se tolera mais escutá-las, aí existe algo de preocupante acontecendo. É certo que a experiência de ter visitado o museu e ter tido contato com as cartas de amor trocadas pelo casal abriu portas para estendermos o diálogo entre a psicanálise e a poesia. Tendo em vista o caráter poético dos escritos, muitas variáveis decantam dessa afetação genuína causada por emoções diversas que tiram o corpo do seu sossego e o lançam numa travessia que o re-coloca em contato com esse tempo original, com as primeiras impressões do início da vida e com o mistério. Evidentemente, esta vivência poética fica reforçada pelo que o próprio Freud sublinhou no seu famoso trecho do texto Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen: E os escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar. Estão bem adiante de nós, gente comum, no conhecimento da mente, já que se nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência (FREUD, (1907[1906]), p. 20). Escritores criativos pode dizer respeito à virtude inexplicável das experiências dos poetas, que se desvelam e se intercomunicam, fundando imagens simbólicas. Para Paz, a imagem não explica: convida-nos a recriá-la e literalmente, vivê-la. [...] e o próprio homem, desenraizado desde o nascer, reconciliase consigo quando se faz imagem, quando se faz outro. A poesia é metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso confina com a magia, a religião e outras tentativas para transformar o homem e fazer deste ou daquele esse outro que é ele mesmo [...]. A poesia é entrar no ser (PAZ, 1982, p. 138). Os poetas veem as coisas antes. Suas palavras são históricas, porque pertencem a um povo e a um momento da fala desse povo: são datáveis. Por outro lado, são anteriores a toda a data, visto que são um começo absoluto (PAZ, 1982). Talvez por isso, Freud tenha se encantado tanto com o baixo-relevo de Gradiva. Possivelmente, pela sua beleza e pelo seu sentido, tendo-a sempre perto de si, em Viena e em Londres. A poesia concentra, historicamente, dois sentidos que se complementam: a constituição de um produto social e o fato de ser Psicanálise v. 17 nº 2,

220 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência uma condição prévia à existência de toda a sociedade (PAZ, 1982). Os poetas demonstram se preocupar com os caminhos que levam mais aos acordes e menos aos acordos e aos consensos, às certezas dos grandes produtos da ciência e de tudo o que está lhe dando sustentação. Como crítico mordaz da cultura, Manoel de Barros nos brinda com o que, para nós, é uma beleza! O apanhador de desperdícios Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar. Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo. Entendo bem o sotaque das águas. Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim um atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor meus silêncios (BARROS, 2006, MI, 2ªI, IX) 8. Mais uma vez, as linhas dessa fronteira imaginária da poesia e da psicanálise se encontram. Elas poderiam ser descritas como bons hormônios que fazem expandir as dimensões mais enriquecedoras da subjetividade e do psiquismo humanos. Possivelmente, mais lúcidas e mais simples, porque complexas. Nesse enriquecimento lúcido, que ganha em profundidade e simplicidade, a composição do silêncio só terá sentido de paisagem, se antes avistar o horizonte da transformação. 8 Memórias Inventadas, 2ª Infância. 220 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

221 Renata Lisbôa Machado Ao dizer que só usa a palavra para compor os seus silêncios, o poeta já está dizendo que a toma em grande valia. Disso, inferimos que só a utiliza raramente. Ser da invencionática, por conseguinte, significa desfrutar de uma posição subjetiva que sabe escapar aos automatismos de repetição, tão disseminados na cultura e produtores de diversos tipos de sofrimento. Do sexo virtual à proliferação das tatuagens, dos check-lists que confirmam o lugar da pertença nos grupos, desde que se seja igual, se vista igual e se pense igual até as mais terríveis formas de violência. Apoiadas no argumento de Collot (1989) 9, situamo-nos melhor e desfrutamos de indicações que nos lançam a novas perguntas sobre o que avança na contemporaneidade, visto que nos dispomos a verticalizar nossas interrogações. A psicanálise e a poesia se inserem nessa conversa como interlocutoras importantes de uma discussão à qual não podemos nos furtar. Na sala de análise, os restos do poeta se fecundam em silêncios, palavras e balbucios. Esse amor pelos muitos outros o qual nutre o terapeuta e o analista, pela metamorfose e por alteridades, propicia que aqueles sem capacidade de cantar a cantoria do amor possam, talvez, retomar essa capacidade ou inaugurá-la na presença de um analista ou terapeuta. A discussão perpassa os conceitos fundamentais da psicanálise, tão conhecidos nossos: inconsciente, repetição, transferência e pulsão. Embora eles estejam sempre interligados, priorizamos discutir o de transferência, por se configurar, no contexto do artigo, como o mais importante, porque se relaciona diretamente com o tema da identificação. É pelo amor de transferência que o paciente poderá resgatar alguns de seus soterramentos impostos pela ação do recalcamento. É pelo amor às metamorfoses, pela atenção flutuante e por se dispor a preparar o terreno a esse livre acesso entre os homens, que os analistas e terapeutas, como o poeta, dão respeito ao que aparentemente é desimportante! Cada detalhe de um sonho pode ser revelador de um ponto cego da história. Cada ato falho, chiste ou fantasia podem ganhar força nesse quebra-cabeça que tentamos montar ou re-montar! 9 Gostaríamos de destacar que as reflexões presentes no texto efundem da conferência proferida pelo professor Michel Collot, em fevereiro de 2015, no Musée du Quai Branly (www. quaibranly.fr), em Paris. A conferência, intitulada Le parti pris des lieux (A noção dos lugares) integra um seminário transversal do grupo Escrituras da Modernidade Littératures et anthropologie: histoires de gestes, (Université Sorbonne-Nouvelle Paris 3). Psicanálise v. 17 nº 2,

222 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência A poesia, o imaginário e os espaços que engendram alteridade Assim sendo, quais as direções que temos optado por trilhar? Como crescemos psiquicamente? De que modo podemos suplantar nossos obstáculos que impedem de seguirmos em frente como sujeitos do inconsciente e da cultura? Conforme Collot (1989): Lês poetes modernes tendent à faire de ce qui n est, dans la perception habituelle, qu une occultation provisoire, une invisibilité radicale; et corrélativement, ils font de l horizon interne de la chose, non le support de son identité et de son sens, mais la marque de une secrete alterité, qui la fait échapper à toute identification ou singnification (p. 17). 10 De que forma esta secreta alteridade estaria ao alcance de nossas mãos para nos autorizarmos a devanear mais sobre o interior das coisas? Como pensar a construção do lugar do sujeito? Collot nos oferece uma variedade de elementos para nos servirmos e degustarmos. Todavia, elegemos um que nos parece potente para ser deslindado: a ideia do lugar que se especifica considerando a singularidade como sendo efeito dessa delimitação -, e produz novas geografias: emocionais, sociais e sensíveis. Retomando o diálogo, a experiência da visita ao museu de Freud, bem como a atmosfera que nos envolvia, permitiu-nos respirar outros ares e outros tempos. As esculturas e os diferentes significantes que ali orbitavam, evocaram-nos algumas sensações sobre essa secreta alteridade apresentada por Collot (1989). A mesma forja um espaço que se transforma em lugar, psíquico e social, certamente, através desse sentir-pensar do visitante. Este consegue se entregar a uma experimentação a qual, provisoriamente, é capaz de suspender o tempo cronológico, levando-nos ao arrebatador encantamento com as histórias e cartas de amor. Um relevo do enamoramento de Freud e Martha, que é oferecido a nós como uma preciosa imagem. Como sinalizou o filósofo francês e epistemólogo Gaston Bachelard: O valor de uma imagem mede-se pela extensão de sua auréola imaginária. Graças ao imaginário, a imaginação é essencialmente 10 Os poetas modernos tendem a fazer disso que não é, senão, uma ocultação provisória, uma invisibilidade radical; e correlativamente, eles fazem do horizonte interno da coisa, não o suporte de sua identidade e de seu sentido, mas a marca de uma secreta alteridade, que a faz escapar de toda identificação ou significação (Tradução livre da autora). 222 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

223 Renata Lisbôa Machado aberta, evasiva. É ela, no psiquismo humano, a própria experiência da abertura, a própria experiência da novidade. Mais que qualquer outro poder, ela especifica o psiquismo humano (1943, p. 1). A partir desta abertura e desta experiência da novidade, tão necessárias à renovação do psiquismo e por meio da extraordinária ligação com o campo das artes, nos retiramos momentaneamente do universo miserável do cotidiano e mergulhamos no oceano polissêmico do imaginário. Segundo Wunenburger (2007), especialista em Bachelard, importante pesquisador dos estudos do imaginário, filósofo e professor emérito da Université Jean Moulin 3, o imaginário é compreendido como um conjunto de produções, mentais ou materializadas em obras, com base em imagens visuais (quadro, desenho, fotografia) e linguísticas, formando conjuntos coerentes e dinâmicos, referentes a uma função simbólica no sentido de um ajuste de sentidos próprios e figurados. Uma primeira trilha, então, àquela pergunta, surge com mais nitidez. Conduz a um lugar que venha a ser cenário para nos abrigarmos; onde se possa soltar nossa imaginação e beber de novas fontes criadoras. Vislumbrar um horizonte que se transforme em paisagem e que acolha as nossas possíveis metamorfoses. Algo que Canetti (2011) resume de maneira ímpar, ao ter escrito que: [...] os poetas deveriam manter abertas as vias de acesso entre os homens. Deveriam ser capazes de se transformar em qualquer um, mesmo no mais ínfimo, no mais ingênuo, no mais impotente. Seu desejo íntimo pela experiência de outros não poderia jamais ser determinado por aqueles objetivos que regem a nossa vida normal, oficial, por assim dizer: teria de ser absolutamente livre de toda pretensão de sucesso ou prestígio, ser uma paixão por si, a paixão justamente pela metamorfose (p. 317). Indubitavelmente, há pontos em comum extraídos do dizer de Canetti (2011), no que tange ao ofício do poeta e ao ofício do analista. Nessa arqueologia pelo simbólico, as vias se alongam para que aconteça esse acesso entre os homens. Tais vias são descerradas pelo trabalho com a palavra, pelo acolhimento e metabolização das sensações e percepções, que são instrumentos de trabalho para os dois ofícios. Somado a isso, mais do lado dos psicanalistas e psicoterapeutas, pelas produções do inconsciente que se manifestam e se escondem, pela restauração minuciosa que se faz de cada história, pelo que surge da transferência e de suas ressonâncias contratransferenciais, além da experiência Psicanálise v. 17 nº 2,

224 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência de entrar em contato com o silêncio seu e de seus pacientes. Todavia, o que ressaltamos aqui diz respeito a esse desejo íntimo pela experiência de outros e à fulcral manutenção da abertura das vias de acesso entre os homens, sem deixar em segundo plano a paixão pela metamorfose. Tudo isso parece conjugar o que Collot (1989) havia sinalizado sobre essa secreta alteridade. A exposição e toda a obra de Freud nos levam a considerar o seu legado como condição para que essa paixão pela metamorfose se acenda, sempre que possível! Por falar em paixão, entendemos ser oportuno chamar ao texto novamente a presença da escrita de Octávio Paz. Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, ele recebeu o prêmio Nobel de literatura em Dotado de uma capacidade indiscutível e inestimável de compreender e falar sobre a complexidade humana, mantém-se vivo iluminando nossos pontos de ignorância e nos fazendo avançar diante daquilo que ainda não sabemos. O seguinte excerto, extraído da sua conhecida obra O arco e a lira (1982), incrementa nossa ponderação sobre os fios que compõem o tecido do texto e que são tramados pelos diálogos que ora propomos: Os amantes tiram a palavra da boca. Tudo coincide: pausas e exclamações, risos e silêncios. O diálogo é mais que um acordo, é um acorde. E os namorados procedem como duas rimas felizes pronunciadas por uma boca invisível (PAZ, 1982, p. 63). Nesse acorde, encontramos uma tradução possível que se aproxima da epifania vivida na exposição (e por muito tempo, ainda), através das cartas e das esculturas. Neste ritmo, convidamos, novamente, Freud à conversa, pois todo esse diálogo deságua num rio que não para de fluir. Esse rio, da psicanálise e da poesia, desemboca no mar da efemeridade, ou se preferirmos, com Freud, no mar de A transitoriedade. Palavras finais O breve ensaio freudiano, escrito em 1915, A transitoriedade (Vergänglickeit), é geralmente traduzido pelos franceses como efêmero destino (éphemère destinée) e explicita, de maneira irrefutável, o Freud escritor (MANGO; PONTA- LIS, 2013), em um diálogo entre o Dichter e o Forscher (entre o poeta e o pesquisador). De acordo com os historiadores da psicanálise, seria uma troca de ideias entre Freud, Rilke e Lou Andreas-Salomé. Conforme Mango e Pontalis (2013, p. 21), aquele texto aborda uma metamorfose vivida pelo próprio pai da psicanálise, que de pesquisador se transforma em poeta, [...] promovendo uma concepção absolutamente original sobre o luto, uma verdadeira celebração da própria língua alemã e da fugacidade das palavras na escrita. É, nesse sentido, uma homenagem íntima de Freud a Goethe, verdadeiro destinatário de A transitoriedade. 224 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

225 Renata Lisbôa Machado Ainda sobre o ensaio, merece ser dito que ele fora escrito alguns meses após Freud ter escrito Luto e Melancolia, mas que o publicou dois anos depois. O diálogo que se trava entre os amigos versa sobre a beleza e sua inevitável extinção. Tudo que teria sido amado anteriormente, perderia o seu valor por estar fadado à transitoriedade (FREUD, 1915a, p. 317). Irremediavelmente, Freud nos oferece um atalho, lembrando-nos deste real, que desconcerta a todos. Coloca em cena a possibilidade de aprofundarmos o constante paradoxo da sede humana pelo absoluto, a qual nunca será extirpada do homem, ao mesmo tempo que faz piscar a luz intermitente, sinalizando nosso desamparo e nossa finitude. Nesse sentido, somente com a força mediadora do simbólico nas suas mais variadas expressões e produções é que podemos dar conta de enfrentar tal paradoxo. Por conseguinte, a psicanálise e a poesia que permanecem vivas são essas que falam do humano, sem se desatualizar, que falam do nosso aniquilamento e da nossa finitude, auxiliando-nos a lidar com isso. E talvez aqui se anuncie uma das tantas respostas às perguntas que lançamos, visto que a arte é a contramão em relação à morte e à inelutável marca da temporalidade. Estas parecem ser a mestria e maestria freudianas neste curto, porém, contundente escrito. Como, então, essa beleza, no dizer freudiano, escaparia dos poderes de destruição? Neste momento, nos parece, dichter e forscher se imbricam e uma voz uníssona responde que não poderia se furtar a considerar o ponto de vista pessimista do poeta, de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda do seu valor (FREUD, 1915a, p. 317). Justamente, por essa ameaça da perda é que seu valor aumenta. Segundo ele: O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, de modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna (1915a, p. 317). O breve ensaio freudiano contribui, inquestionavelmente, com uma profunda e necessária reflexão a analistas, poetas e todos aqueles que se permitem tocar por tal questão. Em tempos contemporâneos, em que a inflação narcisista produzida na cultura e pela cultura não cessa de se expandir, o tema do luto vem sendo vivido como algo a se obliterar. As construções da secreta alteridade, num certo sentido, perdem força ao imediatismo de um pensamento curto e de ex- Psicanálise v. 17 nº 2,

226 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência periências empobrecidas, as quais aparecem narradas no consultório, na sala de aula, nas empresas e organizações, entre amigos, e assim por diante. Por essa razão, este texto é tão atual, principalmente, quando lido em companhia de outro, Reflexões para os tempos de guerra e morte (1915b), que exemplifica com clareza o pensamento trágico de Freud sobre a condição humana, em que ele reitera o valor da vida e da aceitação de sua fragilidade e finitude, problematizando a desilusão humana e a desesperança frente à guerra, ao mesmo tempo em que acentua o problema da queda das alturas éticas do homem, as quais provocaram e ainda provocam tanta dor, o que ele chamou de uma falta de compreensão interna demonstrada pelos melhores intelectos (FREUD, 1915b). Retomando o texto A transitoriedade, é interessante ressaltar essa perspectiva de investimentos e re-construções frente à tragicidade da vida e das experiências ligadas a ela. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, talvez sobre uma base mais sólida e duradoura do que antes (FREUD, 1915a, p. 319). Tal base tem relação com a ideia de fundo, isto é, do solo do pensamento e da poesia que é a língua. Para Mango e Pontalis (2013, p. 23), A transitoriedade goethiana e o pensamento freudiano perduram na língua. A escrita é a morada do efêmero. Obviamente, a efemeridade das coisas reside nesse embate constante do homem com suas experiências e com a passagem do tempo. Envolve a noção de sensibilidade e de cinestesia, bem como a impossibilidade de retê-las por muito tempo, justamente, porque são da ordem das percepções, no que diz respeito à sua fonte, que é sempre o corpo, que é sempre transitório. No dizer dos psicanalistas: Se o pensamento freudiano subsiste como obra, é pela força de suas descobertas intelectuais e por habitar poeticamente a língua. Habitar poeticamente uma língua significa que o pensamento encontra a poiesis das palavras, num abandono mútuo, numa fecundidade amorosa, de que um dos exemplos, trêmulo e belo e perene, são essas páginas sobre A transitoriedade (MANGO; PONTALIS, 2013, p. 23). Saímos da casa de Freud, assim como do texto, com a sensação de que o amor, de fato, reúne muitas coisas, dentro e fora de nós. E a fração de ejeção do músculo cardíaco pode ser um estilingue que lança, constantemente, esse sangue-seiva ininterrupto, enquanto a vida pulsa. A diferença do músculo cardíaco para o músculo poético inventamos - é que aquele um dia finda; esse, para sempre fica, em cartas, fotografias, histórias, pinturas, esculturas, músicas, memórias de viagens, isto é, um grande tesouro do qual precisamos cada vez mais 226 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

227 Renata Lisbôa Machado ir em busca. Dizemos isto, porque compreendemos que é ele que dilata as possibilidades do livre acesso entre os homens. É ele que constrói as pontes as quais possibilitam as nossas re-construções e os movimentos de abertura e de troca em relação ao outro (em mim e no meu semelhante). Acreditamos que esse é um dos produtos-resposta que decantam do texto, ou seja, a beleza da linguagem e das artes como passagens livres que nos auxiliam a avançar. Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe a beleza que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro... As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixamo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, da impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingênua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente (MÃE, 2014, p. 27). Isso dá a consistência que necessitamos e é para este horizonte que a psicanálise também avança, no nosso ponto de vista, enquanto revitalizadora das fontes criadoras e dessa entrada no ser. Dessa necessária amplitude de compreensão que terapeutas e analistas precisam ter, a fim de tentar dar conta da complexidade que é escutar alguém. Como escreveu o poeta: DESEJAR SER Sou um sujeito cheio de recantos. Os desvãos me constam. Tem hora leio avencas Tem hora, Proust. Ouço aves e beethovens. Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin. O dia vai morrer aberto em mim (BARROS, 1996, p. 339). Psicanálise v. 17 nº 2,

228 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência Por essa grandiosidade da arte, para a qual Freud contribuiu imensamente com a história e com a herança que nos deixou, precisamos nos lembrar de que somos pequenos demais diante de excessos narcisistas, mas também, de que somos potentes demais para nos desperdiçarmos com tanta pusilanimidade, como ele mesmo nos ensinou. Que possamos ouvir um pouco mais de aves e beethovens! Psychoanalysis dialogues with poetry: dimensions of the experience Abstract: This paper aims to reflect the relationship between psychoanalysis and poetry, since the notion of experience. It also intends to formulate questions that engender the work of reflection in the analysis room and beyond, with accent to its inextricable relationship with the culture. Our goal is to extend the dialogues between psychoanalysis and the critique of culture, inviting poetry to dialogue. This inheritance, we have received from Freud. Based on freudian texts that deal with the relationship between psychoanalysis and poetry, psychoanalysis and literature, we highlight the experience to an exhibition at the Freud Museum. What pours out, as a consequence, are clues that lead to think about the importance of art and psychoanalysis as essential interlocutors in this clash that hangs with the helplessness and the finitude. Key-words: Culture. Ending. Freud. Poetry. Psychoanalysis. Referências BACHELARD, G. O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento. São Paulo: Martins Fontes, Originalmente publicado em BARROS, M. Memórias inventadas: a segunda infância. São Paulo: Editora do Planeta, Poesia completa. São Paulo: Leya, Originalmente publicado em BLANCHOT, M. A conversa infinita: a palavra plural. São Paulo: Escuta, BENJAMIN, W. Experiência e pobreza. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas. v. 1. São Paulo: Editora Brasiliense, Originalmente publicado em LARROSA BONDÍA, J. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, n. 19, Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

229 Renata Lisbôa Machado CANETTI, E. Auto-de-fé. São Paulo: Cosac & Naify, Originalmente publicado em O ofício do poeta. In: A consciência das palavras. São Paulo: Cosac & Naify, COLLOT, M. La poésie moderne et la structure d horizon. Paris: PUF, FREUD, S. (1907[1906]). Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 9. Rio de Janeiro: Imago, (1915a). A transitoriedade. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 14. Rio de Janeiro: Imago, (1915b). Reflexões para os tempos de guerra e morte. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 14. Rio de Janeiro: Imago, (1921). Psicologia das massas e análise do eu. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 15. Rio de Janeiro: Imago, MÃE, V. H. A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, MANGO, E. G.; PONTALIS, J. B. Freud com os escritores. São Paulo: Três estrelas, MEIRELES, C. Roma, turista e viajantes. In: Crônicas de viagem 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, PAZ, O. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, POLI, M. C. Leituras da clínica, escritas da cultura. Campinas: Mercado das Letras, RILKE, R. M. Cartas a um jovem poeta. Rio de Janeiro: Globo, WAAL, E. A lebre com olhos de âmbar. Rio de Janeiro: Intrínseca, WUNENBURGER, J. J. O imaginário. São Paulo: Loyola, Renata Lisbôa Machado Travessa Pedro Modesto Rampi, 18 / Porto Alegre RS Brasil [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

230 A psicanálise em diálogo com a poesia: dimensões da experiência seção por que ler 230 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

231 Por qué leer a Pierre Marty? Karina Soldati 1 Pierre Marty funda en los años 50, junto con Michel de Muzan, Michel Fain y Christian David la Escuela de psicosomática de Paris. Sus aportes, que fueron enriqueciéndose gracias al trabajo de muchos psicoanalistas que se formaron con sus ideas, hoy están completamente asimilados al pensamiento psicoanalítico francés. Pierre Marty se aleja de la idea de enfermedad psicosomática para pensar al ser humano como un ser psicosomático, y construye un modelo capaz de poder discernir las posibles alteraciones en su equilibrio. Esto puede ocurrir en los diferentes registros que tiene a su disposición: el registro psíquico, el somático y el comportamental. Vale decir que, el síntoma somático es considerado por nuestro autor como una defensa al igual que el síntoma psíquico y el comportamental. Para poder pensar estos tres registros, que Marty considera tres grandes reguladores de la economía psicosomática del individuo, construye un modelo económico en cuyo centro sitúa a la teoría psicoanalítica, ampliando sus fronteras según el modelo evolucionista al que Freud siempre se ciñó. En su camino evolutivo, el instinto iría intricándose desde lo orgánico hacia la constitución psíquica. Efectivamente, el aparato psíquico es una de las manifestaciones, o podríamos decir, la construcción más acabada de lo humano. Su estructuración depende de los avatares del encuentro con el otro y a través de su estudio podemos dar cuenta de la manera original en la que cada ser humano se las arregla con el esfuerzo que la pulsión le impone. Se trata de una construcción que se apuntala en procesos orgánicos y poco a poco va independizándose de ellos para tomar 1 Miembro de la Sociedad Psicoanalítica de Paris. Miembro de la Sociedad Psicoanalítica de Buenos Aires. Miembro Fundador del Instituto Argentino de Psicosomáticas Pierre Marty. Psicanálise v. 17 nº 2,

232 Por qué leer a Pierre Marty? vuelo en el juego representacional. La pulsión, al principio parcial, encuentra su fuente en las zonas erógenas y a través de su descarga en el órgano va creando puntos de fijación que servirán de anclaje al futuro mundo representacional. La pulsiones se organizan y complejizan a través de las diferentes fases del desarrollo hasta unificarse y encontrar su organización más lograda en el complejo de Edipo. Regido por el principio de placer, el trabajo del aparato psíquico es el de descargar la excitación para que no se vuelva tóxica para el organismo, creando displacer. El síntoma, tal como lo conoce el psicoanálisis, es una formación de compromiso entre mociones que entran en conflicto. Frente al displacer generado por una idea contraria, de origen sexual, el yo se defiende desalojando de la consciencia lo inaceptable y reconstituyendo una nueva organización que tendrá como costo el síntoma psíquico. Hasta aquí estamos dentro de los límites del psicoanálisis. Pero hay toda una serie de fenómenos anteriores a esta organización, anteriores inclusive a la formación de representaciones de palabra, que participan de este trabajo de tramitación de la excitación permitiendo la construcción psíquica. Se trata de verdaderos reguladores de la economía psicosomática que habiendo sido en los primeros tiempos fundamentales, se conservan de manera lateral a lo largo de la vida, contribuyendo a la regulación de las excitaciones que amenazan con volverse tóxicas y por ende traumáticas y que, por alguna razón, no han podido ser tramitadas psíquicamente. El regulador por excelencia es el comportamiento que, a través de la sensorialidad y la motricidad, permite descargar de manera rápida la excitación en exceso. Lo vemos en el niño pequeño que responde con su cuerpo entero a los estímulos tanto internos como externos, como en el adulto que sale a correr un día en el que dice sentirse estresado. Otro regulador de la economía psicosomática es la somatización. Una de sus expresiones más evidente la observamos en la patología de la piel de los más pequeños: las manifestaciones alérgicas. Es común ver en las salas de pediatría bebés totalmente brotados junto con madres que sufren ellas mismas de desbordes emocionales. La economía psicosomática del bebé abarca en esta época de la vida a la de la madre. Es ella la encargada de contra-investir las grandes cantidades de energía para que se vuelvan soportables para el aparato psíquico naciente y poco estructurado del bebé. Las grandes cantidades resultan traumáticas y desorganizadoras. Solo las pequeñas cantidades podrán ser alojadas permitiendo así la construcción del mundo representacional. Marty pone el acento en la importancia del rol para-excitante de la función materna para la constitución 232 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

233 Karina Soldati del psiquismo. Si esta función se encuentra en falta, el bebé puede responder al desborde traumático por una patología de la piel, que tiene la propiedad de contra-investir de manera automática y masiva el exceso en cuestión. Es interesante ver en estos casos cómo la hospitalización, por el rol contenedor que tiene sobre la madre, permite en muchos casos una reorganización bastante espectacular en el niño. Estos reguladores, que describí como laterales, pueden, en algunos casos tener un rol fundamental en la organización de la economía del paciente que nos viene a consultar. Es por ello que resulta de vital importancia que el psicoanalista pueda tenerlos presente en el momento de intervenir ya que su evaluación lo guiará en su quehacer analítico. El concepto de organización psicosomática viene de esta idea: el sujeto hace frente a los traumatismos que se le presentan a través de un arsenal defensivo heterogéneo que el psicosomatólogo debe tener en cuenta: el psíquico, que es el que observa el psicoanálisis, pero también los somáticos, las actividades sensorio motrices y diversas modalidades fisiológicas funcionales. La técnica terapéutica, la postura del analista, sus intervenciones e interpretaciones variarán según el mapeo que haya construido del funcionamiento de su paciente. Por ejemplo, una interpretación psicoanalítica clásica a nivel de la representación hecha a un paciente que está funcionando a nivel comportamental no será integrada. Puede que se pierda, que se conserve sobre un modo intelectual o que produzca un traumatismo por no ser reconocida a nivel consciente o preconsciente. En el caso de los pacientes que están organizados sobre un modo comportamental, el inconsciente recibe la excitación pero no tiene capacidad de tramitarla por la vía de la representación, lo que lo pone en riesgo de desorganización somática. Sin embargo, si con este paciente intervenimos con el objetivo de ligar una representación con un sentimiento que pudo haber sido vivido, éste tendrá mayor posibilidad de ser integrado y así ampliar su capacidad asociativa y de mentalización. Resumiendo, la teoría de Pierre Marty permite ampliar el foco con el que aprehendemos a nuestro paciente, se encuentre éste o no dentro de un proceso de somatización, permitiéndonos comprender el valor funcional de cada una de sus manifestaciones sean éstas psíquicas, somáticas o comportamentales. Nos permite también trabajar con distintos niveles de funcionamiento en un mismo paciente, comprendiendo en qué nivel evolutivo tenemos que intervenir y con qué instrumentos contamos para hacerlo. Psicanálise v. 17 nº 2,

234 Por qué leer a Pierre Marty? Posición de la teoría de Pierre Marty en relación al psicoanálisis y a las otras teorías psicosomáticas Los primeros textos psicoanalíticos que tratan sobre formaciones sintomatológicas localizadas en el cuerpo son los de Freud y atañen al modelo de la histeria. Freud explica el modelo de la conversión histérica dentro del psiquismo como la consecuencia de la represión, en el que una representación sexual que resulta intolerable para la consciencia es desalojada para quedar reprimida en el inconsciente. El afecto liberado se convierte en una inervación somática. Este mecanismo de defensa pasa por un aparato psíquico generador de sentido que deja al síntoma somático ligado a la historia del sujeto. La causa es por lo tanto psicogénica y es a través de la palabra en el tratamiento psicoanalítico que este falso enlace puede deshacerse. Freud ordena a la histeria junto a las neurosis obsesivas y las fobias del lado de las Neuropsicosis de Defensa en contraposición a las Neurosis Actuales. Muchas de las teorías que se construyeron en psicosomáticas siguieron el modelo de la histeria. Se trata una ampliación del modelo de la mente en el que se intenta encontrar una correlación directa entre dos campos heterogéneos utilizando las mismas reglas (la de los procesos psíquicos). La teoría de Pierre Marty va a encuadrarse dentro del segundo modelo propuesto por Freud para explicar la sintomatología somática, el de las Neurosis Actuales. El origen de esta dolencia no debe buscarse en un conflicto infantil sino en el presente. Los síntomas no constituyen una expresión simbólica y sobredeterminada, sino que resultan directamente de la sobrecarga de libido en el organismo que por falta o inadecuación de la satisfacción sexual somática se vuelve tóxica para el organismo. La angustia es tratada como acumulación de excitación por falta de descarga psíquica. La disminución de la libido sexual que resulta de una satisfacción sexual incompleta testimonia de la degradación de la libido. Se trata en resumen de una mala elaboración psíquica de la excitación sexual somática. Al quedar excluida del comercio asociativo el trabajo por la palabra se vuelve vano y Freud propone curas termales e inclusive llegó a tomar él mismo Cocaïna para aplacar este tipo de desórdenes. Para Marty se debe pensar el síntoma somático en los mismos términos, como una afección que aparece en el cuerpo en un momento en el que la excitación no puede ser tratada por la vía psíquica y se vuelve tóxica para el organismo, produciendo una desorganización de la economía psicosomática. Pero intentemos volver a Marty y pensar cómo su teoría resuelve puntualmente el problema de la heterogeneidad de los dos campos que trata: el cuerpo y la mente. 234 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

235 Karina Soldati Consideraciones económicas de la teoría de Pierre Marty La teoría de Pierre Marty es, como dijimos, una teoría económica que concibe la enfermedad no solamente como una calamidad, sino como una oportunidad que tiene el organismo para re-organizarse. Es, como la teoría freudiana, una teoría evolucionista basada en los conceptos Jacksonianaos. Plantea una única energía, para la que Marty prefiere conservar el nombre de instinto poniendo de esta manera el énfasis en su anclaje constante en el cuerpo. El aparato mental arranca, a partir del proceso primario, en estrecha relación con el aparato somático. Las funciones mentales hunden sus raíces y se instalan en el sistema sensoriomotor con el que se confunden parcialmente. Muchas de las funciones somáticas del lactante y luego del niño irán tomando forma en estrecha dependencia de su entorno en la primera infancia, predeterminando modos de funcionamiento mental que serán determinantes para el sujeto a lo largo de su vida. Las fijaciones que de ellas resultan condensan inervaciones somáticas, cenestésicas, sensoriales, motoras formando representaciones-cosa que constituyen la base del comportamiento. Muchas de ellas compondrán el lecho sensorial del salto cualitativo siguiente, la constitución de los autoerotismos, que en el mejor de los casos irán integrándolas a la vida representacional. Es recién en este estadio que la libre circulación de energía entre representaciones podrá realizarse. La construcción psíquica, que se complica y se organiza gradualmente, viene al fin a coronar el edificio individual. Esta organización psíquica final, tal como el psicoanálisis la concibe, representa la cima evolutiva de la jerarquía funcional del sujeto y será la que organice lo esencial de la relación del sujeto con su entorno. Marty basándose en la concepción evolucionista de Freud amplía el modelo y hace intervenir al soma, éste también con sus puntos de fijación determinados por la genética y la vida intrauterina. Se trata de estructuras jerárquicas, cargadas de un potencial tanto evolutivo como involutivo. Esta noción evolucionista se extiende desde los niveles orgánicos hasta los psíquicos e introduce la dimensión de la evolución y de la historia en la relación entre lo psíquico y lo somático. Es ésta la columna vertebral que unirá ambas teorías, el psicoanálisis y la psicosomática, en una dinámica común que permite pensar dos campos heterogéneos pero procedentes de una dinámica y una economía energética comunes. La sintomatología que emergerá frente a una conflictiva dependerá del marcage individual, o sea, de la dinámica psíquica y de la fortaleza de los puntos de fijación que se constituyen a lo largo de la historia del sujeto. Frente a una regresión o una desorganización progresiva, en su camino involutivo, el instinto buscará detenerse reinvistiendo una posición anterior, que irá en la jerarquía inversa desde lo psí- Psicanálise v. 17 nº 2,

236 Por qué leer a Pierre Marty? quico hacia lo somático. Si las fijaciones en la esfera de lo psíquico no son suficientemente sólidas para detener la desorganización, la libido irá desagregándose y las fijaciones a nivel del comportamiento o inclusive a nivel somático resultarán vitales para detener el movimiento regresivo. Podemos decir entonces que la enfermedad cobra en estos casos valor de defensa para la economía psicosomática. Importancia de la noción de mentalización Se trata de una noción central en la obra de Marty. A pesar de que un psicosomatólogo se ocupa del soma, su centro de interés sigue siendo el psiquismo. El Hospital Pierre Marty de París es el único hospital que recibe únicamente pacientes con patología somática a los que trata únicamente a través de la palabra. El preconsciente es el escenario donde se evalúa el mundo representacional de la persona, dándonos acceso a la totalidad de su organización psicosomática. El paciente llega y habla, nos habla con afecto, o sin él. Se muestra distante o entra inmediatamente en un vínculo familiar. Habla asociando sobre su historia o le cuesta investir su vivencia afectiva, asociar libremente, se aferra a lo actual. A través del análisis de la relación de objeto, vamos a conocer de qué manera el paciente que tenemos frente a nosotros ha organizado su mundo representacional. Una de las primeras observaciones clínicas que llevaron a los investigadores de la Escuela de París a interesarse en el funcionamiento preconsciente era la escasa capacidad de los pacientes que somatizaban a tener un discurso asociativo, con los matices afectivos que testimonian de la investidura de los objetos del mundo interno. Tenían una verdadera dificultad a expresar fantasías a través de la palabra y así vehiculizar el material psíquico simbólico que da cuenta de un buen comercio ente las diferentes tópicas. Encontraban una notoria correspondencia en las estadísticas entre la presencia de este tipo de pensamiento en el que la libido parece haber perdido du matiz afectivo en la esfera mental y la aparición de enfermedades en el plano somático. Con el afán de conceptualizar el hallazgo, llamaron a este tipo de funcionamiento pensamiento operatorio. Se abocaron entonces al estudio del preconsciente, escenario en el que se desplegaba. Existen dos procesos de formación y de ligadura entre representaciones. El primer proceso es transversal y atañe a las huellas mnémicas y sus relaciones en un momento dado. La acumulación en el tiempo de estas capas transversales de representaciones van complejizando la trama hasta construir lo que Marty llama espesor preconsciente. El otro proceso es longitudinal y corresponde a las relaciones entre las capas de representaciones pertenecientes a diferentes épocas. La disponibilidad de movimientos psíquicos de asociación entre las ligaduras 236 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

237 Karina Soldati transversales y longitudinales determina la fluidez de la circulación preconsciente. Esto nos informa sobre la capacidad de mentalización de una persona, o sea, su capacidad de tramitar por la vía representacional los conflictos y los duelos, protegiendo al organismo de una eventual somatización. Recordemos que, según el modelo evolucionista que acabamos de describir, si los conflictos pueden ser elaborados en el nivel de mayor evolución, el aparato psíquico tendrá menos riesgo de verse desbordado por una excitación que pueda desorganizarlo y conducirlo a un movimiento contra-evolutivo. Cuando las representaciones de palabra pierden su componente afectivo y simbólico, quedan reducidas a su nivel de representación-cosa, perdiendo toda su riqueza asociativa, y dando la impresión de ser solamente testimonios de eventos grabados. El pensamiento operatorio antes descripto sería entonces una de las manifestaciones de la degradación de la libido y por ende, testimoniando del movimiento contra-evolutivo en curso que explica la somatización. Aportes a la elaboración de una nueva nosografía La noción de pensamiento operatorio entusiasmó mucho a la comunidad psicoanalítica cuando fue conceptualizada en No solo se trataba de una descripción fenomenológica, sino que su sustento metapsicológico permitía comprender el estado del equilibrio psicosomático del individuo en un momento dado apoyándose en el estudio del preconsciente. Sin embargo, detenerse en este hallazgo hubiera llevado a una simplificación de los procesos en juego. Hubiéramos caído en la trampa del identikit o en el tipo de personalidad del paciente psicosomático, entumeciendo un modelo que pretende ser dinámico y cuya riqueza reside en su complejidad. Si decimos que el humano es por esencia psicosomático, la posibilidad de enfermar nos es inherente. El modelo de Marty nos permite estar atentos a la fragilidad de cada sujeto y esto se hace evaluando su organización estructural junto a las vicisitudes actuales de su funcionamiento. Por ejemplo, un neurótico, a pesar de contar estructuralmente con capacidades evidentes de tratar por la vía mental los conflictos con los que lidia, puede verse privado temporariamente de esta funcionalidad. Los ejemplos abundan, podemos observarlo en personas que sufren un traumatismo en un momento de duelo, o cuando el contenido traumático toca a puntos no elaborados de la conflictiva del sujeto. El aparato psíquico, en estado de shock, será incapaz de procesar la excitación generada por la vía mental, pudiendo desencadenar un movimiento de desorganización que lo lleve a somatizar. Se trata en estos casos Psicanálise v. 17 nº 2,

238 Por qué leer a Pierre Marty? generalmente de regresiones parciales que permiten una reorganización posterior. Marty sitúa en este contexto las enfermedades a crisis, como por ejemplo las migrañas. Son períodos de vulnerabilidad a tener en cuenta en un análisis, sobre todo con pacientes que tienen propensión a somatizar. Dentro de las organizaciones con buena mentalización Marty sitúa a los neuróticos y los psicóticos, capaces de crear, en épocas de desborde emotivo, un síntoma dentro de su organización estructural, contra-invistiendo de esta manera la excitación en juego: un síntoma neurótico o un delirio en el psicótico Pero existen personas que, debido a distintos avatares en la constitución de su psiquismo, no tuvieron la posibilidad de ir jerarquizando las funciones, reorganizándolas a través de su pasaje por las diferentes etapas del desarrollo hasta el complejo de Edipo. El resultado es diferente al tejido representacional del neurótico en el que cada representación contiene elementos de todas las épocas pasadas. No está constituida, como en el caso del neurótico, una cadena central que agrupa y resignifica por jerarquía evolutiva a las representaciones de las etapas anteriores. Esto permite que cualquier situación tomada en cualquier nivel de funcionamiento, tendrá mayor posibilidad de integrarse y encontrar una solución dentro del psiquismo. En el caso de que esta construcción no se haya dado, se organizan cadenas laterales más o menos ligadas entre sí que no permiten que la excitación se reparta uniformemente entre representaciones. Muchas de estas cadenas están formadas por representaciones-cosa ligadas a la motricidad, a la sensorialidad que no se prestan al comercio asociativo. Esto da como resultado un tejido representacional pobre y lleno de agujeros. El mayor representante de este modelo es lo que Marty llama neurosis de comportamiento. El regulador principal de la economía psicosomática de estos sujetos es el comportamiento. Pueden incluso ser personas muy exitosas en el plano intelectual, con una urgencia de trabajo que los hace triunfar. La actividad está en primer plano, sobre todo la motriz: trabajo, deporte, múltiples actividades que concuerdan con su dificultad a poder pasar a una posición pasiva. La capacidad de fantasmatización es muy escasa y prestan poca atención a los afectos. No es extraño verlas enfermar al jubilarse. Cuando el regulador principal ya no mantiene un equilibrio, y que el duelo no puede ser elaborado por esta dificultad a tratar los afectos por la vía mental, el inconsciente es tocado directamente sin poder diferir la excitación. Es probable que un movimiento contra-evolutivo se ponga en marcha que no encuentre puntos de fijación mentales y que desagregue las funciones poco a poco hasta tocar el soma. Vale decir que una persona mal mentalizada como es el caso de nuestro ejemplo, puede también mantenerse en buena salud física durante toda su vida si éste 238 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

239 Karina Soldati equilibrio no es roto. Pero es muy importante que el terapeuta que se ocupe de él tenga en cuenta este tipo de funcionamiento para no producir un traumatismo susceptible de quebrar la estabilidad reinante. Entre las organizaciones bien mentalizadas y las mal mentalizadas está lo que Marty llama organizaciones con irregularidades en el funcionamiento psíquico, o sea que alterna entre un buen funcionamiento mental y lagunas más o menos importantes que entorpecen la elaboración psíquica, dejando al sujeto a merced de posibles desorganizaciones. Ahora, estas organizaciones estructurales, pueden verse fortalecidas o debilitadas, por los avatares de las circunstancias. Lo vimos en el neurótico que, por una situación de duelo no cuenta con todas sus capacidades psíquicas para hacer frente a un nuevo traumatismo. También en el caso de la neurosis de comportamiento que, a pesar de la fragilidad de su estructura, puede encontrarse fortalecido por un funcionamiento comportamental, un régimen de actividades y rituales que lo mantienen organizado. Conclusiones Leer a Pierre Marty no es una tarea fácil. Como lo habrán vivido durante esta exposición, nos obliga a incluir una terminología nueva, variables que no estamos habituados a pensar y con una organización novedosa que no se acomoda al tipo de pensamiento al que estamos acostumbrados en el psicoanálisis. Sin embargo, durante la sesión, nunca dejamos de ser psicoanalistas. El modelo económico de Pierre Marty queda vaciado sin el psicoanálisis. Por eso es condición necesaria de los diferentes institutos Pierre Marty en el mundo de ser psicoanalistas para iniciar la formación. El modelo de Marty es una matriz económica en cuyo seno el psicoanálisis cobra vida. Karina Soldati 45 Rue Croulebarbe Paris - França [email protected] Psicanálise v. 17 nº 2,

240 Por qué leer a Pierre Marty? 240 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

241 Orientações aos Colaboradores e normas para Publicação 1 Informações Gerais Psicanálise é uma publicação semestral, oficial, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, editada desde Tem por objetivo divulgar trabalhos não só do campo da psicanálise como também de suas interfaces com as diversas áreas do conhecimento, tanto em nível nacional como internacional. Esses são apresentados na forma de artigos, ensaios, conferências, entrevistas e reflexões. Os manuscritos aceitos e publicados tornam-se propriedade da Psicanálise Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, sendo vedada a sua reprodução, ainda que parcial, sem a devida autorização por escrito da Comissão Editorial da revista. As opiniões emitidas nos trabalhos, bem como a exatidão, adequação e procedência das referências e citações bibliográficas, são de exclusiva responsabilidade dos autores. 2 Requisitos para submissão do manuscrito 2.1 o trabalho deve ser inédito (exceto se foi publicado em Anais de Congressos, Simpósios, Mesas Redondas ou Boletins de circulação interna de Sociedades Psicanalíticas, respeitados os possíveis copyrights). Exceções serão consideradas. No caso de publicação prévia, o autor deve comunicar explicitamente o fato através do Termo de informação de publicação prévia e submissão simultânea. 2.2 não infringir nenhuma norma ética. Não será exigido pela revista consentimento informado do paciente quando utilizada alguma vinheta clínica Psicanálise v. 17 nº 2,

242 Orientações aos colaboradores e normas para publicação nos artigos, ficando na responsabilidade do autor as questões referentes à ética e ao sigilo. 2.3 respeitar as normas gerais que regem os direitos do autor. 2.4 não conter nenhum material que possa ser considerado ofensivo ou difamatório. 2.5 por fim, o autor deve estar ciente de que, ao publicar o trabalho na Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, está transferindo automaticamente o copyright para essa, salvo as exceções previstas pela lei. 3 Forma de apresentação de manuscrito 3.1 o original deverá ser enviado à Psicanálise Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre por para os endereços biblioteca@sbpdepa. org.br, [email protected] ou entregue pessoalmente na Praça Maurício Cardoso, nº 7, Bairro Moinhos de Ventos, Porto Alegre. 3.2 estar escrito em português, ter extensão máxima de 20 páginas (frente), fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento entrelinhas de 1,5 e numeração no canto superior direito. 3.3 folha de rosto identificada, contendo: título do trabalho em português e inglês; nome completo do(s) autor(es); titulação, afiliação, endereço completo e de todos os autores; especificação do autor para correspondência. Toda comunicação entre a revista e o(s) autor(es) será através do contato deste autor; informar quando se tratar de trabalho apresentado em evento. 3.4 Resumo e palavras-chave em português e em inglês: o resumo e o abstract deverão conter, cada um, no máximo 150 palavras, seguidos das palavras-chave e keywords, respectivamente; resumo e palavras-chave deverão localizar-se na folha de rosto após o título; abstract e keywords constarão no final do trabalho, antes das referências. 3.5 Texto Citações As seguintes orientações seguem o estabelecido nas normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT, NBR Informação e documentação Citação em documentos Apresentação. 242 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

243 Orientações aos colaboradores e normas para publicação deverão ser identificadas através do sobrenome do autor, ano de publicação e número da página. Por exemplo: Freud (1918, p. 5) ou (FREUD, 1918, p. 5). Na citação direta curta (até 3 linhas), colocar entre aspas duplas; em citação direta longa (mais de 3 linhas), destacar com recuo de 4 cm da margem esquerda com letra menor e sem aspas obras com dois autores, os dois devem ser mencionados, por exemplo, Marty e M Uzan (1963) ou (MARTY e M UZAN, 1963). Caso existam mais de dois autores, indicar somente o primeiro seguido da expressão latina et al., como por exemplo: Rodrigues et al. (1983) ou (RODRIGUES et al., 1983) consideração especial para as obras de Freud: a data correspondente ao seu texto deverá aparecer entre parênteses, logo após o nome, seguida da data de publicação da obra consultada. Exemplo: Freud (1915/1996) Referências As referências seguem o estabelecido nas normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT, NBR 6023 Informação e documentação Referências Elaboração são apresentadas de forma completa, no final do trabalho, em ordem alfabética de sobrenome dos autores e suas obras pela ordem cronológica de publicação, correspondendo exatamente às obras citadas se houver obras publicadas de um mesmo autor no mesmo ano, devese acrescentar à data de publicação as letras a, b, c. Exemplo: WINNICOTT, D. W. Teoria do relacionamento paterno infantil. In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983a. Quando um autor é citado individualmente e também como coautor, serão citadas antes as obras nas quais ele é o único autor, seguidas das publicações em que aparece como coautor. Os autores não são repetidos, mas indicados por seis traços subscritos sem espaçamento entre eles. Exemplo:. Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago, os títulos dos livros devem ser grifados, sendo que as palavras mais significativas serão escritas em maiúsculas; o lugar da publicação, o nome do editor e a data de publicação também devem ser indicados, nesta ordem nos títulos de artigos somente a primeira palavra figurará em letra maiúscula, seguido do título grifado da revista, volume, número e página inicial e final do artigo. Psicanálise v. 17 nº 2,

244 Orientações aos colaboradores e normas para publicação consideração especial para as obras de Freud: as datas correspondentes aos seus textos deverão aparecer entre parênteses, logo após o nome; a data de publicação da obra consultada constará no final da referência. Exemplo: FREUD, S. (1913). Totem e tabu. In: Obras completas. v. 13. Rio de Janeiro: Imago, Forma de apresentação de resenha 4.1 deverá ser enviada à Psicanálise Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre por para os endereços biblioteca@sbpdepa. org.br, [email protected], ou entregues pessoalmente na Praça Maurício Cardoso, nº 7, Bairro Moinhos de Ventos, Porto Alegre. 4.2 ser escrita em português, ter extensão máxima de quatro páginas (frente), fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçamento entrelinhas de 1,5 e numeração no canto superior direito. 4.3 deverá mencionar: título, autor(es), editora, ano e número de páginas da obra resenhada; síntese do conteúdo do livro; comentário sobre a inserção, contribuição ou importância da obra no contexto da literatura psicanalítica; considerações sobre a pessoa do autor ou sobre a relação pessoal com ele devem ser evitadas. 5 Procedimentos de avaliação 5.1 todo documento entregue para publicação será avaliado através de critérios padronizados, de modo paritário, por membros do Conselho Editorial da Revista e às cegas (anonimamente). 5.2 avaliadores e autor(es) serão mantidos em sigilo pela Revista durante o processo de avaliação. 5.3 após revisão pelos avaliadores, o documento poderá ter três destinos: ser aprovado para publicação. Nesse caso, após revisão gramatical e diagramação uma prova final será enviada ao autor para sua aprovação. Após a resposta do autor com seu consentimento, no prazo estipulado pela revista, o artigo será enviado para publicação. Caso o autor não dê o consentimento no prazo estipulado, por questões de organização a revista poderá considerar a prova como aceita pelo autor; 244 Psicanálise v. 17 nº 2, 2015

245 5.3.2 ser aprovado para publicação com necessidade de adequação na forma e/ou no conteúdo. Nesse caso o documento será reenviado ao autor para as devidas correções ou ajustes. Após o retorno do documento para a revista no prazo estipulado, o mesmo será novamente submetido para análise. Ele poderá ser aprovado, seguindo o descrito no ponto 5.3.1, poderá necessitar de novas correções, seguindo novamente o caminho deste ponto, ou poderá não ser aprovado para publicação, conforme o item 5.3.3; não ser aprovado para publicação; 5.4 a decisão final quanto à data de sua publicação dependerá do número de artigos aprovados e do programa editorial estabelecido. 5.5 a Comissão Editorial reserva-se o direito de efetuar pequenas alterações no texto aceito para publicação, a fim de adequá-lo aos critérios de coerência, clareza, fluidez, correção gramatical e padronização editorial adotados pela revista. Ressalta-se que em todos os casos a versão final do documento será enviada ao autor para aprovação final deste e consentimento para publicação. 5.6 artigos que não forem publicados em 12 (doze) meses a partir da data de sua aprovação serão oferecidos de volta ao seu autor, para que esse tenha liberdade de enviá-lo a uma outra publicação. 5.7 o(s) autor(es) poderá(ão) conferir o status do seu trabalho (em qual etapa do processo ele se encontra) enviando um para biblioteca@sbpdepa. org.br ou [email protected], indicando para isso o título do trabalho. Como especificado no item 3.3.4, tal comunicação será apenas com o autor para correspondência especificado no momento da submissão. Psicanálise v. 17 nº 2,

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248 Livro impresso em Porto Alegre primavera de 2015 Todos os direitos reservados a Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre

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