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1 1 P.º n.º R.P. 87/2012 SJC-CT Hipoteca voluntária. Constituição de hipoteca para ampliação de anterior hipoteca registada a favor de sujeito diverso do novo credor. Trato sucessivo. DELIBERAÇÃO Sobre a fração autónoma designada pela letra J do prédio em propriedade horizontal descrito na ficha da freguesia de..., concelho de..., encontra-se registada (ap. de 13/08/1997) hipoteca voluntária a favor do Banco (adiante, B ), constituída pelos respetivos titulares inscritos (Abílio e Cláudia) em garantia de empréstimo de $00 ( ,83), assegurando um montante máximo de $00 ( ,30). No dia 1/6/2012, por instrumento lavrado no cartório do do Notariado Privativo da C (adiante, C ), aqueles mesmos titulares inscritos contrataram com esta entidade a constituição de nova hipoteca sobre a mencionada fração autónoma, em reforço da preexistente a favor do B A emissão das declarações de vontade respeitantes à constituição da garantia foi precedida de declaração conjunta das partes destinada a explicitar o contexto negocial por elas pressuposto, nos termos da qual se deixou consignado: que o Abílio e a Cláudia, por título que se identifica, contraíram junto do B empréstimo no valor de $00 ( ,83); que o B se extinguiu por fusão-incorporação na C, tendo-se consequentemente transmitido para a C todos os seus direitos e obrigações, incluindo os decorrentes do aludido contrato de empréstimo. ; que o empréstimo se encontra garantido pela hipoteca supra identificada. que a C, a solicitação da parte devedora, autorizou a reestruturação daquele contrato de empréstimo, tendo o mesmo sido alterado e reforçado em mais 3.265,06. No que especificamente tange à nova hipoteca, ficou estipulado que ela se constituía em garantia da mencionada importância suplementar, mais juros e despesas (devidamente especificados), tudo perfazendo o montante máximo de 4.811,07. Logo nesse mesmo dia (1/6/2012), por via eletrónica, e a coberto da ap. n.º...,

2 2 cuidou o titulador (M, ajudante do cartório, ora recorrente) de submeter o pedido de registo de tal hipoteca. Mas a sra. adjunta em substituição na conservatória do registo predial de..., a quem a qualificação adergou cometida, determinou que o registo se fizesse com o caráter de provisoriedade por dúvidas, uma vez que, conforme se lê no pertinente despacho, o crédito que a hipoteca requerida visa garantir provém de reestruturação, alteração e reforço do empréstimo concedido pelo B e garantido pela hipoteca registada a coberto da ap. de 13/08/1997 e, tendo esta instituição bancária sido extinta, por fusão, por incorporação na C, há que proceder ao respetivo registo de transmissão de crédito., registo este que não se encontra dispensado por lei, pese embora se trate de uma inscrição intermédia. Invocou-se, de direito, o disposto no art. 35.º do CRP, 1 bem como a doutrina constante do parecer do p. RP 159/2007 DSJ-CT. Contra a decisão registal foi em 13/07/2012 apresentado o presente recurso hierárquico, 2 em cujo requerimento, em síntese, se alega: Que o registo solicitado, ao contrário do que defende a sra. adjunta, não é uma inscrição intermédia. Que a necessidade de efetuar inscrições intermédias só se põe quando haja que dar cumprimento ao princípio do trato sucessivo, como justamente sucede na situação apreciada no processo RP 159/2007. Que a hipoteca requerida é uma hipoteca autónoma cuja validade e subsistência não depende da inscrição anterior. Que o aumento do saldo devedor de um determinado financiamento já garantido por hipoteca, devidamente constituída, não se encontra abrangido pela respetiva inscrição. Que o princípio da especialidade determina que o cumprimento de novas obrigações, ainda que contraídas no âmbito de financiamento garantido por hipoteca anterior, só pode ficar garantido através de nova inscrição de hipoteca. Que pela requisição da apresentação não se pretende alterar a hipoteca anterior, mas sim constituir uma nova. Que as partes são legítimas, uma vez que os hipotecantes são os titulares inscritos e assumem uma nova obrigação perante o atual credor. 1 Como se verá (infra, pág. 3), a sra. adjunta aproveitaria o despacho previsto no art. 142.º-A, do CRP, para retificar o fundamento legal da qualificação minguante. 2 A petição foi subscrita pela notária da C, H, cuja atuação viria a ser ratificada pelo titulador e apresentante do pedido de registo.

3 3 Em face do que, concluindo, se peticiona seja ordenado que o registo da hipoteca se lavre com caráter definitivo. A sra. adjunta defendeu a correção da qualificação impugnada no despacho previsto no art. 142.º-A/1, do CRP, do qual passamos a transcrever a parte em que desenvolvidamente enuncia a razão de ser da provisoriedade: ( ) sendo a hipoteca um direito acessório do direito de crédito que garante, não pode existir nem subsistir sem a obrigação e, como resulta do título, trata-se de um reforço do crédito garantido pela hipoteca registada a favor do [B], donde resulta que a obrigação é a mesma, embora reforçada. Contudo, e não obstante se estar a reestruturar e a reforçar o empréstimo assegurado pela hipoteca em que é sujeito ativo o [B], deve ser requerido o registo intermédio de transmissão do crédito; Sob pena de violação do princípio do trato sucessivo previsto no artigo 34.º, n.º 2 do código do registo Predial e que, por lapso de digitação, no Despacho de Qualificação constou como artigo 35.º. E, estando a inscrição intermédia dispensada nos casos previstos no art. 35.º do código do registo Predial, não o está nas outras situações de sucessão universal, in casu, na fusão. De outro modo, estando em causa o mesmo empréstimo, não obstante a sua reestruturação, teríamos sujeitos ativos diferentes em ambas as hipotecas, numa, o [B] e, noutra, a [C]. Pelo que a conciliação entre os sujeitos ativos das mencionadas hipotecas apenas é possível mediante o registo intermédio de transmissão do crédito a favor da [C], nos termos do artigo 101.º, n.º 1, alínea b) do Código do Registo Predial. ***** Expostas as posições em confronto, verificados que estão os necessários pressupostos processuais, e inexistindo questões prévias de que se deva conhecer, cumpre tomar posição sobre o mérito. Fazemo-lo adotando a seguinte Deliberação Nenhuma regra tabular e designadamente o princípio do trato sucessivo (CRP, art. 34.º/4) impõe, como condição do registo definitivo da (nova) hipoteca constituída

4 4 em garantia da ampliação das obrigações abrangidas por hipoteca anteriormente registada, que prévia e intermediamente se registe a transmissão do antigo (e inscrito credor hipotecário) para o seu atual titular do crédito a que tal anterior hipoteca respeita. 3 3 Apesar de alguma imprecisão na indicação do direito que ao caso julga ser aplicável, parece claro que a sra. adjunta radica ou pretende radicar a qualificação minguante na falta de cumprimento, no procedimento do registo requisitado, do princípio do trato sucessivo na modalidade da continuidade de inscrições (que com a Reforma operada pelo DL n.º 116/2008, de 4-7, passou a ter a sua sede no n.º 4 do art. 34.º, do CRP, e já não, como antes, no incorretamente invocado n.º 2 da mesma disposição). O obstáculo, porém, não existe. Vejamos. O princípio do trato sucessivo, na vertente do encadeamento de inscrições, constitui uma regra de natureza formal, de âmbito e alcance estritamente tabular, por via de cujo cumprimento se assegura a harmoniosa transferência de efeitos dos registos anteriores para os registos posteriores harmoniosa no sentido em que assim se evita que nas tábuas se instalem presunções conflituantes acerca da existência e titularidade duma mesma situação jurídica (ou dum mesmo conjunto de poderes e faculdades jurídicas), e harmoniosa ainda no sentido em que a admissão da inscrição nova, na medida em que para si faça deslocar efeitos duma inscrição anterior, ou na medida em que de qualquer modo envolva compressão dos efeitos dessa antecedente inscrição (numa palavra: na medida em que afete os efeitos do registo prioritário), depende de que do titular de tal registo ( afetado ) se assegure a intervenção na exata qualidade e nos exatos termos em que o ( seu ) registo define essa mesma (sua) titularidade. Dentro do espaço tabular de cada bem sujeito a registo pode haver, e é frequente que haja, mais do que uma linha de trato sucessivo melhor dizendo, pode haver, e é frequente que haja, derivações ou ramificações da linha de trato sucessivo fundante, cujo prolongamento, salvaguardada a compatibilidade do primeiro elo da ramificação com o trato de base, perante este subsequentemente se desenvolve com total autonomia e independência. O trato sucessivo básico, ou de fundo, é aquele que se estabelece, por regra, com a feitura do registo representativo do direito de propriedade ( aquisição ou reconhecimento desse direito). Mas se o proprietário, privando-se de parte do licere do seu direito, sobre ele vier a constituir algum outro direito menor a favor de outrem (direito de superfície, hipoteca, etc., etc.), o registo deste direito filial, na medida em que ele próprio, pelo respetivo titular, seja suscetível de alienação ou oneração, coenvolve a instituição (potencial, ao menos) do seu autónomo (sub)trato sucessivo, no âmbito do qual, para jusante, não caberá já prestar contas ao trato sucessivo basilar (da propriedade). Pois bem: quantos tratos existem no espaço tabular da fração autónoma descrita sob o n.º...-j da freguesia de...? Cremos que existem dois: um trato, por assim dizer, ativo, e um trato, por assim dizer, potencial ou latente. O trato ativo é aquele que se deduz a partir do direito de propriedade (rectius, do direito de propriedade horizontal) inscrito, cujos atuais titulares são o Abílio e a Cláudia, e no qual se insere o registo de hipoteca a favor do B. E o (sub)trato meramente potencial, ou latente, é aquele que irradiará (ramificará) a partir desse mesmo registo de hipoteca, caso e quando se pretenda promover o registo de afetação dos respetivos efeitos (traduzindo as vicissitudes substantivas subjacentes: seja, nomeadamente, a transmissão ou oneração do crédito hipotecário, seja a transmissão da hipoteca, a se, seja a transmissão do grau hipotecário cfr. CCivil, arts. 582.º/1, 727.º e 729.º; CRP, art. 101.º/1- a, b e c).

5 5 Termos em que se propõe o provimento do recurso. Deliberação aprovada em sessão do Conselho Consultivo de 21 de março de António Manuel Fernandes Lopes, relator. Esta deliberação foi homologada pelo Exmo. Senhor Presidente do Conselho Diretivo em Cabe então perguntar: a qual destes tratos o ativo ou o potencial deve o registo requerido submeter-se? Ao que com toda a convicção respondemos de que só pode ser ao trato de fundo, àquele que toma por referência o registo de aquisição em nome do Abílio e da Cláudia. É que a hipoteca voluntária que se pretende registar, sendo embora em reforço da hipoteca voluntária inscrita, e tendo por isso com ela evidente conexão substantiva e tabular, deixa no entanto absolutamente intocado o âmbito de eficácia do correspetivo registo. O que se visa, com o registo peticionado, é a constituição duma nova hipoteca; não se visa com ele porquanto não foi o que se peticionou, ainda que os documentos apresentados porventura permitissem que tal procedentemente se peticionasse, cumulativa ou exclusivamente traduzir tabularmente, através do competente averbamento, a verificação de alguma daquelas enunciadas vicissitudes substantivas da hipoteca inscrita. É portanto o registo de aquisição, e nenhum outro, aquele cujos efeitos resultam afetados pela hipoteca de reforço o direito de propriedade inscrito passa a ficar onerado com uma segunda hipoteca. A intervenção que tem que se assegurar, para que o trato sucessivo se respeite, é pois a dos titulares desse registo o que evidentemente, no caso, se assegurou. Em apoio da qualificação produzida invoca a sra. adjunta o entendimento supostamente defendido no parecer emitido no processo RP 159/2007 DSJ-CT. Salvo o devido respeito, porém, a despropósito. O que na situação ali apreciada estava em causa era justamente o registo da transmissão do crédito garantido por hipoteca e era portanto o (sub)trato sucessivo reconduzível ao registo desta hipoteca o que aí se fazia mister respeitar. A hipoteca inscrita era a favor da entidade A; pedia-se o registo de transmissão do crédito garantido da entidade B para a entidade C; defendeu-se que o registo definitivo a favor da entidade C, por imposição do princípio do trato sucessivo, demandava a feitura do registo intermédio da transmissão de A para B. Ora está bem de ver que semelhante cenário registo de transmissão de crédito hipotecário nada tem em comum com o que se verifica nos autos registo de hipoteca nova sobre o prédio, a onerar diretamente o direito de propriedade inscrito. Dito de outro modo: o bem de que se dispõe, no facto ora submetido a registo, não é o crédito hipotecário a que a hipoteca previamente inscrita respeita, mas, antes, o próprio prédio sobre o qual essa primeira hipoteca recai. A titularidade inscrita que importa salvaguardar, do ponto de vista do trato sucessivo, é a que versa sobre o prédio, não é a que versa sobre o crédito. Dir-se-á, por fim, que a conciliação entre os sujeitos ativos das duas hipotecas, em cuja falta a sra. adjunta identifica uma (inexistente) situação de incumprimento do princípio do trato sucessivo, facilmente se logrará se no extrato do registo da segunda hipoteca, ao lado da menção de que constitui ampliação da hipoteca a favor do B (cfr. art. 93.º/1-g, do CRP), outrossim se mencionar que a C se tornou titular ativa da relação creditícia subjacente à hipoteca constituída a favor do B por virtude de fusão-incorporação. Menção esta que evidentemente não dispensará a feitura do registo (averbamento) de transmissão do crédito hipotecário correspondente, quando e se se tiver que fazer.

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