DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM E LUDICIDADE: BRINCANDO EU APRENDO. Learning Difficulties And Playfulness: Playing Learn

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1 DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM E LUDICIDADE: BRINCANDO EU APRENDO Learning Difficulties And Playfulness: Playing Learn Manoelle Silveira DUARTE 1 Juliane Cláudia PIOVESAN 2 RESUMO O presente artigo é fruto do projeto de extensão intitulado Dificuldades de Aprendizagem e ludicidade: brincando eu aprendo. O referido projeto desenvolveu-se no Curso de Pedagogia da URI Câmpus de Frederico Westphalen, objetivando refletir sobre a ludicidade como um elemento facilitador no processo educativo, bem como a importância das atividades lúdicas pedagógicas para o aprender de crianças com dificuldades no processo de ensino. A luz deste objetivo, o texto a seguir realiza um estudo teórico sobre a ludicidade como elemento mediador no processo de aprender e ensinar, relatando as atividades de extensão desenvolvidas com crianças da rede estadual de ensino do Município de Frederico Westphalen. Pode-se destacar que as atividades lúdicas interferem, significativamente, no aprender de crianças com dificuldades de aprendizagem. Por meio delas, a criança é capaz de processar a construção do conhecimento, estruturar o tempo e o espaço, superando obstáculos cognitivos ou emocionais. Assim, o lúdico é uma ponte que auxilia no processo de construção do ser humano, contribuindo no desenvolvimento social, pessoal e cultural, facilitando o processo de socialização, comunicação e expressão, imprescindíveis para o pleno desenvolver do indivíduo. No decorrer deste relato, podemos visualizar a relevância das atividades lúdicas para o aprender das crianças envolvidas, uma vez que, o brinquedo, o jogo e a brincadeira são elementos que contemplam o lúdico, o qual permeia o desenvolvimento físico e mental da criança. Palavras-chave: Dificuldades. Ludicidade. Aprendizagem. ABSTRACT This article is the result of the extension project titled "Learning Disabilities and playfulness: playing I learn. This project was developed in the course of Pedagogy of the URI - Campus of Frederick, aiming to reflect on playfulness as a facilitator in the educational process as well as the importance of recreational activities for the teaching of children with learning difficulties in the teaching process. In light of this goal, the following text conducts a theoretical study on playfulness as a mediator in the process of learning and teaching, reporting outreach activities developed with children of state schools in the city of Fredericksburg. It may be noted that recreational activities interfere significantly in the learning of children with learning difficulties. Through them, the child is able to process the construction of knowledge, structuring time and 1 Pedagoga URI - Câmpus de Frederico Westphalen e bolsista Extensão 2 Professora do Departamento de Ciências Humanas da URI Câmpus de Frederico Westphalen, Mestre em Educação e orientadora do projeto Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

2 space, overcoming obstacles cognitive or emotional. Thus, the playful is a bridge that helps in the construction process of the human being, contributing to the social, personal and cultural, easing the process of socialization, communication and expression, essential for the full development of the individual. Throughout this report, we can see the relevance of learning fun activities for the children involved, since the toy, and game play are elements that comprise the playful, which permeates the physical and mental development of the child. Key words: Difficulty Learning, Playfulness 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS O Curso de Pedagogia da URI Câmpus de Frederico Westphalen preocupado em estender os saberes teóricos e práticos oriundos dos estudos acadêmicos para além dos prédios da universidade, durante dois anos, desenvolveu o projeto de natureza extensionista Dificuldades de Aprendizagem e ludicidade: brincando eu aprendo. O referido estudo, iniciado em agosto do ano de 2011 e estendendo-se até julho deste ano, obteve êxitos, sendo que os resultados teóricos e práticos serão compartilhados, com o intuito de contribuir no processo de aprender de crianças que apresentam dificuldades, despertando nos professores a busca constante por aulas mais dinâmicas e interativas com as crianças. A menção Dificuldades de Aprendizagem costuma remeter, de maneira imediata, à incapacidade da criança de assimilar a aprendizagem proposta pelo educador. Contudo, muito se tem discutido a respeito desta temática, o que permite refletir sobre as metodologias utilizadas pelos(as) professores(as) no processo de aprender e ensinar. Neste contexto, a ludicidade tornou-se uma ferramenta pedagógica capaz de promover uma aprendizagem mais dinâmica, interativa e, consequentemente, mais eficaz, contribuindo, significativamente, para o aprender de crianças com dificuldades, por permitir maior interação da criança com o aprendizado, por envolver elementos como o jogo, o brinquedo, a música, a brincadeira e os mais diversos recursos que, atrelados ao processo de ensino, tornam a aprendizagem mais atrativa e qualitativa. Considerando a importância desta dimensão lúdica, bem como a necessidade de criar novas metodologias de ensino, durante suas atividades práticas, o projeto buscou visualizar a importância da ludicidade no processo de ensinar e aprender de crianças que apresentam dificuldades. Nesse sentido, o objetivo voltou-se em desenvolver atividades lúdico-pedagógicas, por meio e aulas de reforço, para crianças de 1º a 3º ano do Ensino Fundamental que apresentavam dificuldades no processo de ensino e aprendizagem. Em meio às atividades desenvolvidas foi possível visualizar a importância da ludicidade para o aprendizado dessas crianças que por algum motivo sentiam dificuldade em internalizar o novo, ou construir com facilidade o aprendizado vivenciado pela ação docente. Vale mencionar que, durante os dois anos de atividades, trabalhou-se com 18 crianças oriundas de duas Escolas Estaduais do Município de Frederico Westphalen. A luz deste problema de pesquisa e do objetivo do projeto, tendo por base os estudos teóricos referentes ao processo de ensino e aprendizagem, visualizando o valor educacional da ludicidade e as dificuldades encontradas nesse caminho, o projeto proporcionou a essas crianças momentos de encontro com o lúdico, capazes de fortalecer e, por vezes, sanar limitações na aprendizagem. Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

3 Esses momentos, que totalizaram 10 (dez) encontros por grupo, aconteceram no Laboratório de Ensino e na Brinquedoteca do Curso de Pedagogia URI/FW, pois ambos os locais possuem recursos didáticos que contemplam o planejamento das atividades, uma vez que eram criadas propostas metodológicas interdisciplinares, que envolviam o jogo, do brinquedo, da brincadeira, da música, isto é, dos mais diversos recursos da ludicidade. Como suporte teórico, desenvolveram-se leituras de expoentes da área da educação relativos às dificuldades de aprendizagem e da ludicidade. Como suporte prático-metodológico, realizou-se o contato com a direção e corpo docente da escola, a exposição do projeto aos pais, o contato com as crianças, o planejamento e a confecção de materiais pedagógicos, como jogos e demais recursos didáticos. Auxiliar crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem, proporcionando atividades diferenciadas, desafiadoras, capazes de estimular e superar limitações é contribuir para o desenvolvimento do ser humano, não só na aprendizagem, mas também no desenvolvimento social, pessoal e cultural, facilitando no processo de socialização, comunicação, expressão e construção do humano e principalmente do saber. Em meio a esses processos, o estudo teórico e a prática realizada permitem desenvolver uma ação em conjunto com professores, visando uma melhor qualidade no ensino, respeitando que o aprender deve acontecer em seu tempo, em um ato de prazer e curiosidade através do lúdico. Somente assim, a criança será capaz de elaborar e internalizar novo saberes. 2 RESULTADOS TEÓRICOS E PRÁTICOS Cada ser possui seu ritmo e suas particularidades durante seu desenvolvimento, seja ele, cognitivo, social, cultural, físico ou emocional. No processo de ensino e aprendizagem essa situação torna-se mais evidente, pois se utilizam muitos desses aspectos. Partindo dessa reflexão, é possível compreender por que uns aprendem com mais facilidade, outros apresentam algumas dificuldades; uns necessitam de uma maior mediação do professor, o que, talvez, não seja necessário para outros. Segundo Vygotsky (1989), o aprendizado sempre envolve interferência, direta ou indireta, de outros indivíduos e a reconstrução pessoal da experiência e dos significados. No entanto, existem diversos fatores, psicológicos ou sociais, que podem impedir que essa caminhada aconteça com naturalidade, fazendo com que a criança sinta dificuldades e levando-a até mesmo ao fracasso durante a vida escolar. De acordo com Coll (1995, p. 77). Os constantes fracassos nas aprendizagens escolares seriam as causas das alterações nas relações sociais das crianças com dificuldades na aprendizagem, já que provocam nelas atitudes de rejeição em relação à escola e tudo o que a mesma significa, bem como o convencimento de que sua própria incapacidade é a causa de suas dificuldades de aprendizagem. Considerando essa afirmação, pode-se perceber que as dificuldades de aprendizagem podem ser caracterizadas por uma série de incapacidades relacionadas ao insucesso escolar, e envolver questões fisiológicas individuais de cada criança e/ou questões relacionadas ao Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

4 ambiente tanto escolar, quanto ao ambiente familiar. Neste sentido, tornou-se importante considerar o que salienta Kenn (1998, p. 31). A noção de capacidade e incapacidade é, na verdade, bastante relativa e existe, principalmente, segundo o ponto de vista de quem fala. Dependendo do ponto de vista, o que uma pessoa consideraria como capaz, para outra seria bastante incapaz. O mesmo se aplica ao velho e ao novo, ao rico e ao pobre, ao grande e ao pequeno são todos conceitos relativos, que dependem de onde nos vemos num determinado continuum. A expressão dificuldade de aprendizagem começou a ser usada na década de 60 e, de maneira errônea, ainda é entendida por pais e professores como uma simples desatenção em sala de aula. É nisso que se encontra o mais grave dos equívocos, pois quando se fala de dificuldade de aprendizagem, é necessário ter-se em mente que [...] a dificuldade pode ser específica, como ocorre quando a criança apresenta dificuldade na leitura, ou ser geral, quando, por exemplo, ela apresenta um aprendizado mais lento que o normal em uma série de tarefas (DOCKRELL, 2000, p ). Essas dificuldades podem ser provocadas por problemas cognitivos ou emocionais, assim como, desencadearem-se do meio externo, podendo afetar qualquer área do desempenho escolar, bem como na vida adulta e social. Todas as crianças gostam de aprender, sentem necessidade de estar em contato com algo novo, criativo e dinâmico. Quando isso não ocorre é porque algo não está indo bem. E, assim, como afirma Dockrell (2000), as estratégias educacionais ineficientes podem interferir no aprendizado da criança. Por este motivo, ressalta-se a importância das atividades lúdicas como uma estratégia para evitar interferências negativas no aprendizado do aluno. Para identificar se uma criança possui dificuldades de aprendizagem, é necessário que haja um diagnóstico, uma avaliação sobre as causas dessas dificuldades. Como enfatiza Bossa (2000, p. 13) conscientemente, ninguém sofre porque quer. Sabemos também que o problema de aprendizagem escolar sempre traz sofrimento. Sofrimento este, que, muitas vezes, é camuflado, através de comportamentos que sugerem desinteresse, desatenção, irresponsabilidade, etc. Nessas situações, na maioria dos casos, os professores, por acompanharem diariamente o processo de ensino, são os primeiros a identificar que a criança apresenta alguma dificuldade, mas os pais e demais membros da família devem ficar sempre atentos ao desenvolvimento e ao comportamento da criança, acompanhando a vida escolar dos pequenos e dialogando com os professores. Esta parceria entre família e escola em prol do bem-estar emocional, intelectual e do aprendizado da criança é de suma importância, por permitir que a criança se sinta assistida e acompanhada, contribuindo de forma incalculável no decorrer desse processo. Com uma intervenção adequada e precoce, as dificuldades podem ser potencialmente superadas. Também, é importante enfatizar que as crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem, geralmente, apresentam desmotivação com as tarefas escolares, gerando um sentimento de incapacidade, que leva, naturalmente, para a frustração, o desinteresse e à falta de atenção e concentração. Nesse contexto, muitas vezes, a escola passa a ser vista por elas Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

5 como a causa da infelicidade e começam a não gostar de estudar. Ainda, pode acontecer que, após anos de sofrimento, sem que ninguém perceba e as ajude, acabam abandonando os estudos. Nesse aspecto, salienta Bossa, A escola passa a ser vista pela criança como a causadora da sua infelicidade e a de seus pais e por isso, ela começa a detestá-la. Muitas vezes, após anos de sofrimento, acaba abandonando os estudos, sem saber que foi levada a abrir mão de uma parte da sua felicidade: o prazer de conhecer coisas maravilhosas que a natureza reservou para o ser humano (2000, p. 30). É importante ter cuidado para não rotular crianças como portadoras de dificuldades de aprendizagem, pois por muitas vezes, pequenos desvios de atenção e/ou assimilação estão dentro da normalidade considerando a faixa etária da criança. Por vezes é apenas dificuldade no processo do ensino, a forma como o professor expõe o conteúdo torna-se complicado para a criança assimilar. Ultrapassam, inclusive, situações relacionadas com a realidade sociocultural da criança, o que implica, em certas situações na sua aprendizagem. Aulas que envolvam elementos lúdicos carecem de estratégias didáticas bem planejadas e orientadas pelos professores. O jogo e a brincadeira por si só já são produtores de novos conhecimentos, mas quando mediados pela ação docente expressão a intencionalidade educativa com a atividade proposta. Quando as crianças brincam afloram o seu lado mais sensível, estando aptos a sugar todo o conhecimento que o meio proporciona. O brincar pressupõe liberdade de aprender sem cobrança, de aprender por prazer por apresentar de maneira implícita sua função educativa. Assim, A brincadeira espontânea e agradável leva a criança a expressar seus impulsos instintivos, e dessa forma serve como elemento encorajador e de orientação que, se bem usado, auxilia no desenvolvimento oportuno da inteligência, fazendo com que sejam apuradas as emoções e as suas vontades, individualidade e sociabilidade. Assim, brincadeira é importante para incentivar não só para a imaginação e afeto nas crianças durante o seu desenvolvimento, mas também para auxiliar no desenvolvimento de competências cognitivas e sociais (MELO, 2013, p. 02). Nesse sentido, o lúdico se aproxima da criança pelo clima de descontração que promove durante a realização de suas atividades, ao mesmo tempo, a cada atividade exige e mobiliza a elaboração de novas aprendizagens. Por este motivo, a imaginação e a exploração dos materiais pedagógicos não podem ser ignoradas, pelo contrário, devem ser incentivadas pelos professores. Assim que o professor perceber que a criança está enfrentando algum tipo de dificuldade no espaço escolar, precisa encaminhá-la para atendimento psicopedagógico. Se diagnosticado, por profissionais competentes na área, os problemas de aprendizagem, a criança deve ser submetida, pela escola, a novas metodologias que possam contemplar as atividades com o intuito de maximizar o seu potencial. É nesse contexto, que surge a ludicidade, como uma ferramenta pedagógica capaz atrelar o prazer ao aprender evidenciando a necessidade de repensar práticas a fim de estimular o conhecimento de modo integrado. Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

6 A pergunta que cabe formular, portanto, é a seguinte: a escola está oferecendo atividades lúdicas e prazerosas? Lúdica no sentido de oportunizar à criança, momentos de jogos e brincadeiras, a formulação de conceitos, a capacidade de estabelecer relações lógicas e cognitivas, possibilitando a construção do conhecimento e o desenvolvimento, permitindo que ela conheça o mundo, o sonho, o faz de conta, a imaginação, adquirindo novas competências e habilidades, despertando o gosto pelo aprender, pelo respeito e o saber viver e respeitar o próximo? O aluno deve ser motivado e estimulado, tanto pelos professores na escola, quanto pela família em casa, para desenvolver a construção do conhecimento. Segundo Santos (2000, p. 166) Educadores e pais necessitam ter clareza quanto aos brinquedos, brincadeiras e/ou jogos que são necessários para as crianças, sabendo que eles trazem enormes contribuições ao desenvolvimento da habilidade de aprender a pensar. No jogo, ela está livre para explorar, brincar e/ou jogar com seus próprios ritmos, para autocontrolar suas atividades, muitas vezes é reforçada com respostas imediatas de sucesso ou encorajadas a tentar novamente, se da primeira alternativa não obteve o resultado esperado. Sendo assim, a ludicidade é caracterizada por elementos que envolvem o prazer e propicia a vivência de novas experiências na construção do saber. Neste sentido, a palavra lúdico, originária do latim ludus, significa jogo/brincar, sendo um recurso pedagógico de grande valor educacional que, dentre vários outros elementos, envolve o prazer, a espontaneidade, a alegria, a descontração e a imaginação, gerando a curiosidade e a vontade de aprender em cada educando. Santos (2000, p. 57) afirma que, [...] a palavra lúdico significa brincar. Nesse brincar estão incluídos os jogos, brinquedos e brincadeiras, e é relativo, também, a conduta daquele que joga, que brinca e que se diverte. Conforme afirma o autor, o jogo, os brinquedos e as brincadeiras são atividades de caráter lúdico-pedagógico, que são fontes de diversão e, ao mesmo tempo, produtoras de conhecimentos. Por esse motivo, são de extrema importância para o fazer pedagógico do educador. Conforme Bispo (2009, p. 17), Do ponto de vista pedagógico, percebemos que as brincadeiras auxiliam aos educandos a formar conceitos, relacionar ideias, estabelecer relações lógicas, desenvolver a expressão oral, reforçar habilidades sociais e construir seu próprio conhecimento, confirmando ser esse o papel dos jogos: facilitador no desenvolvimento da criança. Em outras palavras, o lúdico contempla os aspectos físicos, psicológicos, cognitivos e mentais das crianças, que, envolvidas nesse contexto, mergulham em uma atmosfera de prazer, encanto e magia, reunindo dois elementos fundamentais, o brincar e o educar. É exatamente, dessa linguagem lúdica e divertida que os educadores devem aproximarse, pois como enfatiza Bossa (2000, p.106), quando uma criança brinca, joga, desenha, faz histórias e outras coisas mais, revela sentimentos e pensamentos que desconhece, falando numa outra linguagem: a linguagem do desenho, do brinquedo, do jogo. Nesse sentido, pensando no fazer pedagógico do professor, Carvalho e Luppi (2007, p.11) Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

7 afirmam que o ato de educar é instigante, desafiador, ousado e, ao mesmo tempo, tranquilo e criativo, confiante e, essencialmente, criativo. Considerando que esta relação professor/aluno precisa ser pensada e planejada com elementos mediadores criativos, torna-se visível que o processo de ensino e aprendizagem é impulsionado pela vontade de aprender. Os mesmos autores ainda afirmam que aprendemos fazendo, empreendendo, refazendo, reagindo, refletindo e questionando as rotinas e roteiros. Nesse contexto, a aprendizagem é um processo que se realiza, intrinsecamente, em cada indivíduo, sendo que cada um possui seu ritmo, suas dificuldades e características: uns necessitam de maior mediação do educador, durante este processo, enquanto outros superam as expectativas. Contudo, esse processo nem sempre acontece de maneira tranquila e satisfatória, pois são muitos os fatores que podem interferir nessa caminhada escolar. Se não estiver ocorrendo de maneira natural e prazerosa, deve existir um motivo, o qual deve ser identificado e trabalhado, o mais rápido possível, afinal, inicia-se um processo de ensino e aprendizagem desde o nascimento, com o andar, o falar, o alimentar-se e diversas outras situações que irão garantir a socialização e o desenvolvimento integral da criança. Assim, o jogo, um dos componentes da ludicidade, é indispensável à saúde física, emocional e intelectual de todo o indivíduo por desenvolver a linguagem, o pensamento e a socialização, além de contribuir para o desenvolvimento psicomotor e habilidades do pensamento. Além de estimular o observar e o conhecer, testando hipóteses, explorando a sua espontaneidade e a sua criatividade. Nesse aspecto, conforme Winnicott (1995), o lúdico é uma importante ferramenta, é prazeroso, devido à sua capacidade de absorver o indivíduo, de forma intensa e total, criando um clima de entusiasmo. Destaca-se que o espaço da brinquedoteca do Curso de Pedagogia da URI Câmpus de Frederico Westphalen é um local repleto de alternativas lúdicas pedagógicas permitindo, por meio da ludicidade, o ato de aprender brincando. O ambiente proporciona às crianças momentos de prazer, criatividade e construção espontânea do conhecimento. Na brinquedoteca encontram-se jogos e brinquedos, elementos estes que são essenciais para a infância. Nesse aspecto, A brinquedoteca é o espaço certo da ludicidade, do prazer, do autoconhecimento, da afetividade, de empatia, da automotivação, da arte do relacionamento, da cooperação, da autonomia, do aprimoramento da comunicação, da criatividade, da imaginação, da sensibilidade e das vivências corporais. Portanto, a brinquedoteca facilita o equilíbrio entre razão e emoção (SANTOS, 2000, p.61). É partindo desse equilíbrio entre a razão e a emoção, ancorado com recursos metodológicos adequados, que o projeto teve momentos nos quais, às crianças, amparadas pela ludicidade, permitiu-se uma aprendizagem significativa, com descobertas e desafios. O planejamento voltava-se para a construção de materiais/jogos que favoreciam o aprendizado, despertando o desenvolvimento das habilidades operatórias, e contribuindo, assim, para o intenso processo de desenvolvimento das crianças. O brincar, em sua leveza e descontração, é coisa séria, através dele, a criança desenvolve diversos aspectos essenciais, tais como a linguagem, o pensamento, a socialização, a iniciativa e a autoestima. É possível visualizar a importância da utilização de atividades lúdicas, mais especificamente, do brinquedo, uma vez que, interferem, significativamente, na Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

8 aprendizagem das crianças com dificuldades. Nesse sentido, Vygotsky (1989, p. 109) afirma que [...] é enorme a influência do brinquedo no desenvolvimento de uma criança. É no brinquedo que a criança aprende a agir numa esfera cognitiva, ao invés de numa esfera visual externa, dependendo das motivações e tendências internas, e não por incentivos fornecidos por objetos externos. O lúdico deve ser considerado como parte integrante da vida do ser humano. Não apenas no aspecto de divertimento, mas também como uma maneira de adentrar na esfera da realidade, inclusive na realidade social. No aspecto lúdico-sociedade, Kishimoto ressalta que: brincando(...) as crianças aprendem(...),a cooperar com os companheiros(...), a obedecer as regras do jogo(...), a respeitar os direitos dos outros(...), a acatar a autoridade (...), a assumir responsabilidades, a aceitar penalidades que lhe são impostas(...), a dar oportunidades aos demais(...), enfim, a viver em sociedade. (1994, p. 110). Assim, o brincar e o lúdico são a essência da criança e isso permite um trabalho pedagógico que possibilita a produção do conhecimento e, também, a estimulação da afetividade. Esta essência estabelece com o brinquedo uma relação natural, permitindo que suas angústias e paixões, alegrias e tristeza, agressividades e passividades sejam extravasadas. Urge a necessidade de formar educadores que se preocupem com a busca constante pelo conhecimento com criatividade, com o conhecer o ser humano e todo o seu processo de desenvolvimento, para que se fundamente um aprender e um ensinar com mais qualidade e ludicidade. 2.1 Da teoria à prática: um breve relato das atividades de extensão desenvolvidas Neste momento do estudo, evidenciando-se a compreensão teórica da ludicidade e sua utilização como uma estratégia favorecedora no processo de aprendizagem, registram-se alguns apontamentos referentes à metodologia utilizada nas ações do projeto de extensão, além de relatar os resultados obtidos, os quais reforçam a necessidade e a positividade das intervenções. Exatamente como prevê a metodologia do projeto, iniciado em 2011, em ambas as instituições, primeiramente, foi realizado um encontro com os diretores e com as coordenadoras pedagógicas das escolas, que receberam com grande entusiasmo, acreditando na Universidade, em especial no Curso de Pedagogia. Em reunião com estes segmentos da escola, bem como com as professoras do 1º ao 3º ano, decidiu-se que no II semestre do ano de 2011, somente os alunos do 3º ano participariam do projeto, totalizando 7 encaminhamentos das professoras. No I semestre de 2012, novamente foram contemplados os alunos do 2º ano, devido à grande necessidade de auxílio que apresentavam por estar em fase de alfabetização, este grupo de 8 alunos. A fim de dar continuidade ao trabalho que vinha sendo desenvolvido, em nova reunião ficou definido que o projeto daria continuidade ao trabalho realizado no I semestre do ano de Portanto, o grupo de alunos contemplados no ano de 2012 teve a oportunidade de Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

9 vivenciar momentos de construção de conhecimento durante todo o ano de O último grupo concentrou 3 alunos do 2º ano de uma das escolas estaduais, considerando a necessidade da intervenção. Assim, como em todos os inícios de semestre, via direção das escolas, encaminhou-se para os pais um comunicado, apresentando, previamente, a proposta do projeto, bem como marcando a data para a reunião com a bolsista e orientadora do projeto nas dependências da URI. Vale mencionar que a participação do grupo familiar nessa reunião era o que garantia a inserção a criança no projeto, pois neste dia é que eram apresentados os objetivos, metas e cronograma das atividades. Salienta-se, ainda, que o envolvimento dos pais foi de suma importância para alcançar os objetivos em relação à aprendizagem das crianças. Afinal, é dessa relação, família, escola e universidade que se constituiu um dos propósitos deste projeto. Fazendo um recorte dos resultados, é indispensável aqui, mencionar que o feedback que constantemente os pais traziam era um fator positivo que se somava a cada planejamento. Contatou-se com a participação dos responsáveis, que os mesmos demonstraram muita preocupação com a vida escolar dos filhos, sendo imprescindível destacar a alegria, confiança, entusiasmo e disponibilidade ao aderirem ao projeto. Posterior a isso, conforme programado iniciava-se o encontro semanal com os grupos para realização das atividades práticas. O estudo teórico que vinha sendo realizado, concomitantemente, permitia que as atividades fossem de acordo com as dificuldades diagnosticadas. Durante a realização das atividades, dos quatro grupos trabalhados, vivenciaram-se momentos nos quais, amparadas pelo lúdico, houve criação, construção, reflexão e muita aprendizagem. O planejamento desses encontros era realizado juntamente com a orientadora do projeto e voltava-se para a construção de materiais/jogos capazes de promover o aprendizado. No decorrer dos encontros foi possível perceber a importância deste trabalho, pois, apresentava-se como um diferencial na vida escolar das crianças participantes, pois desafios eram corajosamente enfrentados, exigindo muita atenção e concentração. Quando surgia dificuldade de entendimento na realização de alguma tarefa proposta, era realizado o atendimento individual visando à compreensão da situação problema. O tempo e a forma como eram conduzidas as atividades dependia do rendimento e entendimento do grupo. Destaca-se que eram postuladas, ainda, propostas de diversas atividades que contemplavam a coordenação motora, lateralidade e esquema corporal, princípios básicos para a leitura e escrita, como questões lógicas matemáticas, com jogos de bingo, construção e compreensão do processo das leis matemáticas, a leitura como uma viagem ao mundo da imaginação, fantasia, escrita e interpretação textual, observação e, principalmente, a atenção e a concentração. As crianças se revelaram em um clima de interesse, vontade de aprender, envolvidas em espírito de equipe e ajudando os colegas na realização das tarefas. Isso acontece quando o educador propõe atividades capazes de estimular os diversos aspectos das crianças, atendendo seus desejos e expectativas, considerando o tempo e maneira de internalização desse saber. É visível e tornou-se gratificante perceber o envolvimento das crianças nas atividades propostas. Aos poucos, elas naturalmente iam demonstrando suas dificuldades e apresentando resultados positivos. Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

10 O termo ludicidade, neste projeto, foi o elemento fundamental que se refere ao planejamento dinâmico e criativo do professor, sendo capaz de auxiliar e facilitar a compreensão dos conteúdos trabalhados em sala de aula. Pode-se afirmar que toda a sala de aula deveria ser um espaço lúdico-pedagógico de reforço e consolidação de aprendizagem, nas quais se aprende brincando e se brinca aprendendo. A riqueza desses encontros somou-se ao ato de aprender brincando e mostrou um caminho viável para sanar algumas das dificuldades que as crianças vinham apresentando na escola. A busca de tais resultados está alicerçada em teoria e estudos de autores da educação, sendo imprescindível que o educador perceba o educando numa perspectiva de constante construção do conhecimento, respeitando seu tempo e ritmo de aprendizagem e a necessidade da ludicidade nesse processo. Afinal, no decorrer de todo esse processo, é importante que os alunos possam sistematizar novos conhecimentos, superar barreiras, compreender o desenvolvimento de situações e problemas propostos. A tarefa do professor, como se observa, é indispensável, é sua forma de mediação e interação com o aluno que irão contribuir para resultados positivos. Sabe-se que a tarefa de planejar requer do educador uma postura para descobrir novas possibilidades de ensinar e aprender, tendo como suporte a ludicidade, desenvolvendo habilidades operatórias a cada desafio proposto. Para o desencadeamento das atividades propostas, foi de fundamental importância a mediação/interação do educador durante o desenvolvimento as atividades, os questionamentos realizados aos alunos, permitindo que eles levantassem diferentes hipóteses/soluções para cada situação apresentada. Para que esta prática torne-se efetivamente válida é necessário que o educador auxilie, incentive e acompanhe as crianças durante o jogo, a brincadeira, enfim a atividade que está sendo realizada. Durante a realização das atividades, com o grupo de alunos, primava-se pela atenção às interações afetivas que, por sua vez, contribuíam, de maneira significativa, no processo educativo. Santos (2000, p. 37) enfatiza que sabe-se que não existe ensino sem que ocorra aprendizagem, e esta não acontece senão pela transformação do educando, pela ação facilitadora do professor no processo de busca e construção do conhecimento, que deve sempre partir do aluno. Considerando a maneira como acontece a aprendizagem, torna-se importante mencionar que durante os encontros vivenciados, oportunizaram-se a criação, a construção e a reflexão. Considerando esse referencial, volta-se um olhar criterioso para a prática docente, sendo que o professor deve organizar atividades que sejam significativas para o aluno, criando condições para um trabalho em grupo ou individual, facilitando seu desenvolvimento, oportunizando a compreensão, o entendimento de cada situação problema. Somente no lúdico a criança tem a oportunidade de vivenciar regras, normas, transformar, recriar, aprender de acordo com suas necessidades, desenvolver seu raciocínio e sua linguagem, sendo esse processo realizado de forma prazerosa. 3 CONCLUSÃO Se a criança é levada a buscar seu material, a fazer sua elaboração, a se expressar argumentando, a buscar fundamentar o que diz, a fazer uma crítica ao que vê e lê, ela vai amanhecendo como sujeito capaz de uma Vivências. Vol. 9, N.17: p , Outubro/

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