Cidades resilientes: os exemplos de Beijing e Xangai

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1 Cidades resilientes: os exemplos de Beijing e Xangai Wang Yan, Cai Jianming Institute of Geographical Sciences and Natural Resources Research (IGSNRR), Chinese Academy of Sciences (CAS), Beijing Xie liou School of Sustainability, Arizona State University (ASU) Liu Junping Beijing Village Economy Research Centre A resiliência de uma cidade é um processo dinâmico relacionado com a sua capacidade para se adaptar ou se ajustar a mudanças bruscas e severas em suas condições, ou para se recuperar depois de perturbações econômicas, sociais ou ecológicas. A alta taxa de urbanização atual da China cria muitas dessas perturbações. A agricultura urbana desempenha um papel no aumento da resiliência das cidades chinesas em crescimento. A urbanização da China ocorre em ritmo acelerado. Em 2006, 44% da população chinesa já vivia em cidades, e esse nível alcançará 60% nos próximos 20 anos (Departamento de Estratégia de Desenvolvimento e Economia Regional). Muitas mudanças ocorrerão nesse período, durante o qual a China seguirá seu caminho atual rumo a industrialização e sua transformação em uma sociedade da informação. Pode-se esperar que ocorram várias perturbações durante esse processo de rápida urbanização. Agricultura urbana no distrito de Minhang (Foto: René van Veenhuizen)

2 Elas podem ser econômicas (crises econômicas e financeiras como a atual), com o incremento dos preços dos alimentos e a crescente diferença entre a renda dos habitantes rurais e urbanos; ou sociais, afetando especialmente a grupos vulneráveis como os jovens, migrantes e idosos; ou ainda ecológicas, como a degradação ambiental e a escassez de água. Crescente vulnerabilidade A urbanização resulta em uma disparidade cada vez maior entre as áreas urbanas e rurais. Segundo um informe do Escritório Nacional de Estatística (2009), os rendimentos anuais médios per capita dos cidadãos urbanos e rurais, em 2007, eram respectivamente de e 727 dólares americanos, e esta diferença continua aumentando (População e Trabalho, 2008). Como em outros lugares, na China os preços dos alimentos têm aumentado rapidamente nos últimos anos. A média geral dos preços dos alimentos cresceu 14,3% em 2008 (de acordo com o Escritório Nacional de Estatística, 2009). A carne aumentou 21,7%, o petróleo 25,7%, as verduras 10,7% e as frutas 9%. Muitos migrantes se mudaram para a cidade a partir de vilarejos rurais, em busca de melhores condições de trabalho. Como muitos deles não as encontraram, ocuparam áreas periurbanas e praticam a agricultura (ver Revista AU n o 18). Segundo Zhang (2006), aproximadamente 62% dos migrantes fixaram-se nas áreas periurbanas durante o período Também existe uma diferença de gênero, pois a maior parte dos migrantes urbanos são homens; enquanto que as mulheres continuam vivendo em áreas rurais, com a dupla tarefa de trabalhar e cuidar de suas famílias. O crescimento urbano ameaça o ambiente e sem uma legislação ou zoneamento adequado as terras agrícolas, as áreas verdes, as áreas florestais e os corpos d água acabam rapidamente ocupados por construções. As estatísticas do Ministério de Terra e Recursos mostram que a área de terras agrícolas de China perdeu ha em Esta redução de áreas verdes ameaça a biodiversidade ecológica. Por exemplo, menos de 10 espécies de plantas naturais podem ser encontradas nas áreas densamente construídas de Beijing, e menos de 50 crescem em seus parques urbanos; porém nos parques localizados nas áreas periurbanas podem ser encontradas 287 espécies diferentes (Li, 2005).

3 Conforme aumenta a densidade das áreas urbanas, os espaços abertos se tornam cada vez mais escassos. Isso aumenta a vulnerabilidade dos moradores das cidades, já que, por exemplo, uma enfermidade contagiosa, quando ocorre em uma área urbana de alta densidade, poderá se propagar mais rapidamente se não houver zonas de amortecimento para contê-la. O papel da agricultura urbana A agricultura urbana desempenha um papel importante no aumento da resiliência das cidades chinesas. Isso será ilustrado por exemplos selecionados de Beijing e Xangai. Seu papel é crucial no fornecimento de alimentos frescos aos cidadãos de Beijing. Em 2002, a taxa de autosuficiência com respeito às verduras era de 55% em Beijing e de 50% em Xangai. Museu da Água de Pengdu, Shanghai (Foto: Wang Yan) Como resultado, as distâncias de transporte se mantêm curtas, reduzindo o custo dos alimentos, já que os preços das verduras transportadas desde o sul da China são muito altos devido ao preço do petróleo. Também se reduzem as emissões de CO2. Quando ocorre um desastre, esta autosuficiência no abastecimento de alimentos frescos pode ser muito importante. Além disso, os espaços abertos urbanos, como as terras usadas na agricultura, podem ser usados em casos de emergência como zonas de assentamento temporário. Por exemplo, em 2003, durante a epidemia de SARS em Beijing, os hospitais provisórios foram localizados temporariamente em áreas abertas periurbanas, onde os pacientes podiam ser alimentados com produtos frescos e seguros. Do mesmo modo, depois do terremoto em Sichuan em 2008, a maior parte das barracas de campanha temporárias estava localizada em áreas agrícolas periurbanas. Os cogumelos produzidos no distrito (urbano) de Fangshan, em Beijing, correspondem a 56% da produção total da cidade.

4 O seu processo de produção inclui a reciclagem de resíduos agrícolas, trazendo ganhos para os agricultores. Por exemplo, em 2007, no povoado de Miaoergang, em um ano, o lucro líquido obtido pelos produtores de cogumelos chegou a RMB 10,44 milhões, e os rendimentos líquidos anuais per capita naquele distrito alcançaram RMB , ou US$ 1.552, enquanto que a renda média per capita na periferia de Beijing é de RMB ou USD. Em 2005 viviam aproximadamente 3,6 milhões de migrantes em Beijing. Desses, mais de (17%) estavam envolvidos em atividades relacionadas diretamente com a agricultura urbana. Os empregos relacionados com a agricultura são atrativos, já que muitos migrantes rurais são agricultores experientes, e ao utilizarem técnicas melhoradas como estufas, podem ganhar mais do que ganhavam em sua terra natal. Isso lhes permite continuar contribuindo para a renda de suas famílias rurais (Zhang, 2006). Na cidade de Manzu, no distrito de Huairou, as mulheres estão envolvidas na produção de morangos, verduras e cogumelos, bem como em atividades de agroturismo, praticadas perto de suas casas de modo a combinar essas atividades com outras tarefas, e gerando RMB (US$ 1.025) por ano. Em Xangai, distrito de Minhang, foi criado o Museu da Água em Pengdu, em uma zona de conservação das águas do Rio Huangpu. Esta área contribui em 70% para o abastecimento de água de Xangai. A área do museu cobre 140 ha. Antes de 2003, o lugar era utilizado como um lixão, havia algumas granjas de patos e porcos, e a água estava seriamente contaminada. A partir de 2003, os agricultores transformaram a área em um parque ecológico e criaram um museu da água para proteger, ao mesmo tempo, os solos e o rio. A quantidade de resíduos sólidos e de contaminação descarregada no Rio Huangpu foi reduzida consideravelmente, e sua qualidade hídrica recuperou o grau três (que significa que a água pode ser usada diretamente como fonte de água potável). Assim, a região atrai pessoas de Shangai e de outras cidades (cerca de visitantes por ano, segundo uma entrevista com o gerente do parque), que compra diretamente os produtos dos agricultores. O Museu converteu-se em um novo modelo de produção agrícola multifuncional (e ecológica).

5 Um novo enfoque de desenvolvimento urbano Esses exemplos de Beijing e Xangai mostram que a agricultura urbana já se encontra desempenhando um importante papel na construção de cidades resilientes na China, e que estas práticas estão integradas no desenvolvimento urbano. Por exemplo, a ilha de Chongming, que cobre uma área de km 2 e tem uma população de habitantes, é o distrito com a maior cobertura florestal em toda a região metropolitana (18%) de Xangai. Porém, diferentemente de outras áreas periurbanas já fortemente industrializadas, a agricultura urbana domina a estrutura econômica da ilha. Como se fosse o quintal da metrópole de Xangai, a ilha foi desenvolvida como uma ilha ecológica, reunindo agricultura, turismo verde e alojamentos ecológicos. Em 2004, o número de turistas alcançou aproximadamente pessoas (informe de estatísticas de Turismo, 2005). Este é um exemplo exitoso do desenvolvimento de um setor bem periurbanizado, enfoque que vem sendo replicado em outras cidades da China, tal como nas áreas montanhosas de Beijing e nas ilhas ao longo do Rio Songhua, em Harbin.

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