GUSTAVO ROBERTO CORRÊA DA COSTA SOBRINHO E JOSÉ MACIEL DOS SANTOS EFEITOS DA CRISE FINANCEIRA GLOBAL SOBRE A AGRICULTURA BRASILEIRA.

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1 EFEITOS DA CRISE FINANCEIRA GLOBAL SOBRE A AGRICULTURA BRASILEIRA. GUSTAVO ROBERTO CORRÊA DA COSTA SOBRINHO E JOSÉ MACIEL DOS SANTOS Consultores Legislativos da Área X Agricultura e Política Rural MARÇO/2009

2 Gustavo Roberto Corrêa da Costa Sobrinho e José Maciel dos Santos 2 SUMÁRIO A SAFRA AGRÍCOLA 2008/ FINANCIAMENTO DA ATIVIDADE AGRÍCOLA EM INDÚSTRIA SUCROALCOOLEIRA... 5 SETOR FUMAGEIRO... 5 SETOR DE CARNES... 5 DEMANDA GLOBAL POR GRÃOS... 6 COMENTÁRIOS FINAIS Câmara dos Deputados. Todos os direitos reservados. Este trabalho poderá ser reproduzido ou transmitido na íntegra, desde que citados o autor e a Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. São vedadas a venda, a reprodução parcial e a tradução, sem autorização prévia por escrito da Câmara dos Deputados. Este trabalho é de inteira responsabilidade de seu autor, não representando necessariamente a opinião da Câmara dos Deputados. Câmara dos Deputados Praça 3 Poderes Consultoria Legislativa Anexo III - Térreo Brasília - DF

3 Gustavo Roberto Corrêa da Costa Sobrinho e José Maciel dos Santos 3 EFEITOS DA CRISE FINANCEIRA GLOBAL SOBRE A AGRICULTURA BRASILEIRA. Em setembro último, época em que se agravou a crise financeira global, a safra agrícola 2008/2009 encontrava-se em início de implantação. Entre as principais preocupações decorrentes da crise figuravam: incertezas quanto ao câmbio; repentina redução do crédito ofertado por tradicionais financiadoras do agronegócio, como tradings e fornecedores de insumos; elevação dos custos dos financiamentos bancários complementares aos provenientes do crédito rural oficial; maior seletividade das instituições financeiras na concessão de crédito; e preços declinantes das principais commodities agrícolas. À época, especialistas cogitavam decréscimo na produção de grãos, em virtude de o agricultor dependente de crédito ver-se diante do seguinte dilema: manter a área cultivada, com a adoção de menor padrão tecnológico, ainda que isso acarrete perdas de produtividade e maior vulnerabilidade a intempéries climáticas; ou reduzir a área de plantio, de modo a fundar as lavouras observando as melhores recomendações técnicas. A SAFRA AGRÍCOLA 2008/2009 Anteriormente à deflagração da crise, as expectativas mais otimistas apostavam em um incremento de cerca de 4% na área cultivada com grãos (cereais, leguminosas e oleaginosas). Estimativas recentemente divulgadas pelo IBGE sinalizam que a área cultivada com esses produtos deverá elevar-se em 0,3%, em relação a Entretanto, essas mesmas projeções apontam para uma redução de 7,3% na produção total, de 145,8 milhões de toneladas, em 2008, para 135,15 milhões de toneladas, em Entre os principais grãos e fibras, a queda estimada é a seguinte: algodão herbáceo em caroço (17,2%); milho (12,7%); soja (3,9%); trigo (15,5%). Tais reduções não devem ser atribuídas integralmente à crise econômica. Adversidades climáticas ocorridas em certas localidades do País prejudicaram o desenvolvimento das lavouras. FINANCIAMENTO DA ATIVIDADE AGRÍCOLA EM 2009 O financiamento da comercialização da safra 2008/2009, a ser colhida neste semestre, assim como da implantação das safras de inverno 2009 e de verão 2009/2010 é o desafio a ser enfrentado, pelo governo e pela iniciativa privada.

4 Gustavo Roberto Corrêa da Costa Sobrinho e José Maciel dos Santos 4 Nos últimos anos, o capital necessário para o plantio das safras tem sido suprido principalmente por três fontes de recursos, em proporções aproximadamente iguais: crédito rural oficial, a juros favorecidos (1/3); recursos captados no exterior e repassados a agricultores por tradings e fornecedores de insumos, na forma de compra antecipada da produção e fornecimento de insumos para o plantio das lavouras contra pagamento futuro (1/3); e recursos próprios dos agricultores (1/3). A elevação promovida pelo governo de 25% para 30% do percentual das exigibilidades bancárias que as instituições financeiras são obrigadas a destinar ao crédito rural não é suficiente para compensar integralmente o recuo de tradings e fornecedores de insumos no financiamento da atividade. A capacidade dessas empresas em bancar o financiamento de produtores rurais na safra agrícola 2009/2010 ainda é uma incógnita. Dadas as dificuldades de captar recursos externos, muitas delas passaram a operar no mercado financeiro nacional como forma de viabilizar o financiamento a agricultores e, por consequência, sua atuação no mercado de insumos e produtos agrícolas. Para acessar o crédito pretendido, agricultores emitem recebíveis do agronegócio (duplicata e nota promissória rurais e Cédula de Produto Rural) em favor de tradings e fornecedoras de insumos, que negociam títulos representativos desses recebíveis junto a investidores, por intermédio de instituições financeiras. Apesar de esse mecanismo existir anteriormente, foi a partir do início da crise que o seu uso intensificou-se. Por ele, a agricultura passa a contar, ainda que a um custo elevado, com recursos do mercado que anteriormente não a financiavam ou que a financiavam em montante pouco expressivo. Quedas na taxa Selic são favoráveis ao modelo, pois aproximam os juros do mercado aos do crédito rural, reduzindo o custo para o agricultor. Os agricultores não dispõem de muitos recursos para o autofinanciamento. Estudo realizado em fevereiro pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento MAPA aponta para um recuo de 6,2% na receita bruta a ser auferida este ano pelos produtores com os 20 principais produtos agrícolas, se comparados os preços médios de janeiro último com os relativos ao ano de Nessa comparação, a queda para os que cultivam algodão herbáceo, café, feijão, fumo, milho, trigo e soja seria de 17,7%, 15,6%, 1,2%, 4,7%, 24,9%, 32,2% e 1,6%, respectivamente. A receita bruta dos produtores de arroz elevar-se-ia em 21,8%. O efeito positivo ocasionado na renda dos produtores rurais pela desvalorização cambial, será neutralizado, ao menos em parte, pela elevação dos custos com insumos (o País importa cerca de 70% dos fertilizantes consumidos internamente e parte dos defensivos agrícolas) e pela queda, em curso, das cotações das commodities agrícolas no mercado internacional.

5 Gustavo Roberto Corrêa da Costa Sobrinho e José Maciel dos Santos 5 INDÚSTRIA SUCROALCOOLEIRA Após pesados investimentos realizados nos últimos anos, a indústria sucroalcooleira enfrenta baixos preços do etanol em plena entressafra; e forte resistência das instituições financeiras em renovar suas dívidas e em conceder novos créditos, em especial para capital de giro. Nos dois primeiros meses deste ano, as exportações de etanol e de açúcar apresentaram comportamento oposto: as de açúcar elevaram-se 57,5%, em valor, e 38,3%, em volume; sendo que as de etanol, apresentaram decréscimo de 41,3%, em valor, e de 47,3%, em volume. A recuperação dos preços de açúcar iniciou-se ainda em A possível redução dos preços da gasolina no mercado interno representa mais uma ameaça à saúde financeira da indústria sucroalcooleira, pois, se confirmada, pressionará para baixo o valor do etanol consumido no País. Em socorro ao setor, o governo anunciou a destinação de R$ 2,5 bilhões para o financiamento da estocagem de até 5 bilhões de litros do produto, a serem produzidos a partir do próximo mês de abril. SETOR FUMAGEIRO A indústria fumageira desenvolve gestões junto ao governo federal em busca de R$ 2 bilhões para financiar a aquisição da safra de fumo 2008/2009. Com a rigidez dos bancos na liberação de empréstimos para capital de giro, algumas agroindústrias da cadeia fumageira estão ampliando o prazo de pagamento aos fumicultores de quatro dias após o recebimento do produto para duas semanas ou até um mês, afetando o ritmo normal do processo de comercialização. SETOR DE CARNES A agroindústria de carnes vive momento apreensivo. Algumas empresas do segmento encontram-se com suas finanças abaladas. O caso mais dramático talvez seja o da Sadia, que amarga pesados prejuízos decorrentes de apostas equivocadas contra o dólar. Entre frigoríficos dedicados a bovinos, há especulações sobre problemas financeiros enfrentados por unidades de grande porte. Um deles, o frigorífico Independência, entrou com pedido de recuperação judicial recentemente. Em 2008, as exportações de carnes renderam ao País cerca de US$ 14,5 bilhões, um acréscimo de 28% em relação a Para 2009, quedas em volume e valor são esperadas. Em relação ao mesmo período do ano passado, as vendas externas de carnes no primeiro bimestre de 2009 recuaram 24,30%, em valor (carne bovina, - 34,7%; frango, - 18,5%; e carne suína, + 5,73%) e 8,88 % em volume (carne bovina, - 25,31%; frango, - 4,44%; e carne suína, + 22,66%). No mercado interno, os preços são declinantes.

6 Gustavo Roberto Corrêa da Costa Sobrinho e José Maciel dos Santos 6 Para reverter esse quadro, o setor aposta na abertura de novos mercados e aguarda a instituição do draw-back verde-amarelo, mecanismo pelo qual obterá vantagem tributária na importação de insumos a serem empregados na produção para fins de exportação. DEMANDA GLOBAL POR GRÃOS Relatório de 11 março do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sugere discreto encolhimento na demanda global por milho, soja e trigo, em relação à mesma projeção de fevereiro. A procura por essas commodities deve recuar cerca de 9,6 milhões de toneladas, contra um incremento na oferta de 1,4 milhões de toneladas. Como a queda acentuada nos preços do petróleo desestimula a produção de biocombustíveis, uma fonte adicional de incertezas para os mercados de milho e soja reside no percentual desses produtos a ser destinado em nível global à produção de etanol e biodiesel. No caso do etanol norte-americano, variações bruscas em tal percentual poderão ter como consequências: maior volume de milho direcionado aos mercados tradicionais do produto, com pressões baixistas sobre os preços; perda de área do milho para a soja no próximo plantio, com efeitos sobre o mercado do produto; ou uma combinação das duas alternativas anteriores. COMENTÁRIOS FINAIS Dificuldades no financiamento da safra 2009/2010, queda da renda dos produtores rurais, o estoque de obrigações dos produtores que vencem este ano, redução na demanda mundial por commodities agrícolas e incertezas quanto ao comportamento dos preços formam o cenário em que o agricultor brasileiro deve operar, em No que tange aos preços, em 2009, café, milho, soja, trigo, boi gordo e suco de laranja apresentam patamares médios, em dólar, bem inferiores aos de A exceção é o açúcar. Em relação aos valores médios de 2006, início da escalada de preços dos produtos agrícolas, a média das cotações em 2009 é menor para açúcar, suco de laranja e boi gordo e maior para café, milho, soja e trigo. Queda em valor e volume das exportações do agronegócio nacional parece ser uma certeza. Na comparação com o mesmo período de 2008, o valor das vendas externas do setor decresceu 14,47%, no primeiro bimestre do corrente ano.

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