População à deriva: entre o descaso urbano e a vertigem revitalizadora da zona portuária do Rio de Janeiro

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1 População à deriva: entre o descaso urbano e a vertigem revitalizadora da zona portuária do Rio de Janeiro Caroline dos Santos Santana Escola de Serviço Social 10 período Orientadora: Gabriela Lema Icasuriaga Escola de Serviço Social Apresentação O presente trabalho está vinculado à pesquisa em desenvolvimento no projeto "Precariedade residencial na zona portuária do Rio de Janeiro: impactos dos grandes projetos nas condições de moradia dos segmentos populares", inscrito no Núcleo de Pesquisa e Extensão em Poder Local, Políticas Sociais e Serviço Social (LOCUSS- UFRJ). Esta pesquisa busca a partir de um panorama atual da cidade do Rio de Janeiro enfatizar como o Projeto Porto Maravilha, atual programa de revitalização da zona portuária subsidia e intensifica a violação de diversos direitos, alguns deles fundamentais para a população residente como: direitos humanos, direito à cidade e direito à moradia a partir dos dados analisados no dossiê "Megaeventos e Violações de Direitos Humanos" e dos relatórios de violações elaborados pelo Fórum Comunitário do Porto. É recorrente em nossas observações empíricas nos depararmos com casos e relatos de exclusão e desigualdade vividos pela população carioca pobre, que se tornou vítima de políticas públicas precárias e ineficientes e de projetos não participativos. Fenômenos como a contradição percebida nas manifestações da questão urbana e a forma como se operacionaliza o direito á cidade ficam claras a partir das ações para efetivação do projeto que contribui com a intensificação do processo de gentrificação na região. Os procedimentos metodológicos utilizados para este trabalho incluíram: estudo bibliográfico, observação participante, reconhecimento do território, acompanhamento de reuniões e fóruns organizados por diversas entidades de apoio e referências comunitárias ao longo do processo de resistência dos moradores das áreas ameaçadas de 1

2 remoção. Desta maneira buscamos aproximar-nos da compreensão dos avanços, conquistas e possibilidades dos grupos de resistência, instituições e movimentos sociais atuantes na região, para fortalecer uma luta que consideramos legítima. O Projeto de Revitalização O Projeto Porto Maravilha busca através de uma série de intervenções urbanísticas de grande porte, reurbanizar e revitalizar determinados espaços da área central da cidade visando atrair investimentos imobiliários, serviços e atividades de padrão internacional; para tal, é preciso criar pré-condições de infraestrutura e mobilidade e amenizar alguns problemas, como a degradação de espaços habitacionais, comerciais e turísticos através da ampliação da rede hoteleira e uma ampla gama de serviços de suporte. Através da união entre as esferas municipal, estadual e federal, e um alto investimento do capital privado em vários setores, o projeto se tornou o carro chefe do prefeito Eduardo Paes, por envolver uma vultosa soma de recursos e uma transcendente transformação urbanística. Embora a cidade toda esteja sendo objeto de obras de infraestrutura, equipamentos e mobiliário urbanos, um dos cenários mais visíveis e, por tanto, uma das áreas mais afetadas, é a área central do Rio de Janeiro, notadamente locais como a região portuária e bairros vizinhos ao Centro. A necessidade de revitalizar determinados espaços da cidade, a fim de atrair investimentos do grande capital, fez com que o poder público intensificasse um processo de expulsão dos pobres das regiões que seriam mais valorizadas, promovendo assim um processo de limpeza urbana, tanto por meio de deslocamentos compulsórios de moradores para espaços menos valorizados da cidade, como de ordenamento do comércio ambulante e outras formas de renda dessa população. Esta ação do poder público se completa com uma política de pacificação de favelas e controle do tráfico de drogas ostensivo nas áreas mais próximas aos espaços de visibilidade e valorização imobiliária. O direito á moradia e suas contradições 2

3 Cerca de três mil famílias situadas na cidade do Rio de Janeiro já foram removidas e outras oito mil estão ameaçadas. (Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, 2013). A moradia identificada com um direito para todos os homens é previsto em diversos documentos oficiais internacionais, desde 1948 com a Declaração Universal dos Direitos Humanos 1 e tomou corpo a partir de uma série sucessiva de tratados internacionais. A Constituição Federal brasileira de 1988, no seu artigo 182, determina que: A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei têm por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes. Partindo do conceito de direito à cidade de Lefebvre (1968) entendemos que este direito está ligado a um feixe de outros direitos como educação, transporte, saúde, moradia, entre outros, necessários para que o cidadão viva dignamente e usufrua da riqueza socialmente construída. A forma como se dá a ação do poder público é o grande problema, pois não se pode caminhar para o desenvolvimento urbano tendo como condição a violação dos direitos da população, ferindo a legislação, tanto federal, como a do próprio município, que conforme o art. 429 da Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro afirma: Art.429. A política de desenvolvimento urbano respeitará os seguintes preceitos: VI- urbanização, regularização fundiária e titulação das áreas faveladas e de baixa renda, sem remoção dos moradores, salvo quando as condições físicas da área ocupada imponham risco de vida aos seus habitantes, hipótese em que serão seguidas as seguintes regras: A Lei mencionada é muito clara quanto aos procedimentos cabíveis nos casos em que a remoção de moradores seja inevitável. Porém, o que assistimos é o uso 1 Consultar artigo 25, alínea primeira, da Declaração Universal dos Direitos Humanos de Cabe ressalvar, contudo, que a ela cumpre papel, tecnicamente, de recomendação da Assembleia Geral das Nações Unidas aos seus membros. 3

4 constante de brechas da lei, interpretações que, valendo-se de artimanhas jurídicas, desqualificam e desprotegem o morador de áreas em processo de valorização. Atualmente é percebida uma importante contradição no que se refere á questão urbana e a forma como se operacionaliza o direito á cidade. Não é pela falta de leis, diretrizes e normas que busquem garantir o acesso à cidade e à habitação que padecemos, e sim da falta de operadores da lei que atuem de maneira condicente com a justiça social na cidade, protegendo os mais frágeis diante do poder demolidor dos grandes interesses econômicos. Números como os citados no inicio deste trabalho, evidenciam o real objetivo destes projetos, que é a expulsão dos pobres das áreas mais valorizadas, ou a valorização destas por meio da expulsão dos pobres. Trata-se, portanto, de uma política de relocalização dos pobres na cidade sob o interesse dos grandes investimentos imobiliários e oportunidades de negócios. Remoção e resistência Como resposta ao avanço de alguns projetos, dentre eles o próprio Porto Maravilha, surge a necessidade de organização dos moradores da região para discutir as possibilidades de mobilização e resistência ao projeto. O Fórum Comunitário do Porto surge neste contexto como um espaço de reivindicação e formação, onde reúne moradores da região portuária e suas imediações, diversas organizações e movimentos em apoio, a fim de discutir estratégias para evitar violações de direitos e garantir a preservação do patrimônio cultural existente, dando visibilidade à identidade local. O lançamento de alguns documentos como os relatórios de Violações de Direitos e Reivindicações e o Dossiê: Megaeventos e violações dos direitos humanos no Rio de Janeiro (1º e 2º volumes) 2 denunciam as violações do direito à moradia, as intervenções autoritárias e o não cumprimento do direito à participação e informação nos processos decisórios que vem vitimando os moradores de comunidades e ocupações localizadas no Centro do Rio de Janeiro. Segundo os Dossiês do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, foram identificadas práticas de violação do direito humano à moradia pela Prefeitura Municipal, sendo estas: 2 Dossiês organizados pelo Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro. 4

5 Ausência, ou precariedade de informação; A ausência, ou precariedade de envolvimento das comunidades na discussão dos projetos de reurbanização promovidos pela Prefeitura; As indenizações oferecidas são incapazes de garantir o acesso a outro imóvel situado na vizinhança próxima; Deslegitimação das organizações comunitárias; Desrespeito à cidadania; A utilização da justiça como um instrumento contra o cidadão; Conclusões Preliminares O que se questiona é a quem esses grandes projetos visam beneficiar? E a resposta fica muito evidente: Ao grande capital, e para isso se justifica de várias maneiras a não efetivação do direito à cidade, garantido constitucionalmente, porque aquela população que hoje habita as áreas antes abandonadas pelo poder público é tratada como um impasse para a modernidade e, sendo assim, são relegados dos benefícios de uma urbanização que visa atrair investimentos e turistas. Essa população privada de direitos não recebe, sequer, as informações sobre o processo que está acontecendo, sobre o que irá acontecer a eles, ficam a mercê do poder público. É importante frisar que tais ações não ocorreram a partir da apresentação e discussão conjunta de um plano de remoção e reassentamento, ocasionando, assim, várias situações de violação de direitos básicos, como o direito constitucional à informação, à inviolabilidade do lar e do direito humano à moradia digna. Podemos dizer que os moradores da cidade do Rio de Janeiro estão vivendo um processo de reforma social, ao mesmo tempo em que a cidade vivencia uma reforma urbanística. Deixamos claro mais uma vez que não somos contra a modernidade e o progresso, que consideramos a revitalização da região portuária importante e necessária, mas o que questionamos é a forma como ela está ocorrendo, não favorecendo a população que há muito ocupa aquele espaço. O objetivo final deste trabalho é fazer esta denuncia das violações e frisarmos que não podemos nos calar diante de tais injustiças, pois somente com a organização 5

6 dos movimentos de resistência é que se pode, ao menos, tentar enfrentar as injustiças de esta realidade. Referências Bibliográficas BRASIL Lei nº de 10 de julho de Estatuto da Cidade. Legislação Federal. sítio eletrônico internet - planalto.gov.br BRASIL. Constituição Federal Sítio eletrônico internet planalto.gov.br COMITÊ POPULAR DA COPA. Dossiê Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Dossiê Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, FÓRUM COMUNITÁRIO DO PORTO. Relatório de Violações de Direitos e Reivindicações, Rio de Janeiro, LEFÉVBRE. Henri. Lógica formal lógica dialética. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira A revolução Urbana. Belo Horizonte. Ed UFMG,

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