A VIOLAÇÃO NOS CRIMES DE HONRA NA INTERNET NOS SITES DE RELACIONAMENTOS

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1 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI CENTRO DE EDUCAÇÃO DE SÃO JOSÉ CURSO DE DIREITO A VIOLAÇÃO NOS CRIMES DE HONRA NA INTERNET NOS SITES DE RELACIONAMENTOS GERALDO CÉSAR MENDES São José(SC), maio de 2008

2 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI CENTRO DE EDUCAÇÃO DE SÃO JOSÉ CURSO DE DIREITO A VIOLAÇÃO NOS CRIMES DE HONRA NA INTERNET NOS SITES DE RELACIONAMENTOS GERALDO CESAR MENDES Monografia submetida à Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Direito. Orientador: Professor MSc. JULIANO KELLER DO VALLE São José(SC), maio de 2008

3 TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Vale do Itajaí, a coordenação do Curso de Direito, a Banca Examinadora e o Orientador de toda e qualquer responsabilidade acerca do mesmo. São José, 16 de maio de Geraldo César Mendes Graduando

4 PÁGINA DE APROVAÇÃO A presente monografia de conclusão do Curso de Direito da Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI, elaborada pelo graduando Geraldo César Mendes, sob o título A VIOLAÇÃO DOS CRIMES DE HONRA NA INTERNET NOS SITES DE RELACIONAMENTOS, foi submetida em 16 de maio de 2008 à banca examinadora composta pelos seguintes professores: Marilene do Espírito Santo, Ricardo Brandt Naschenweng e, aprovada. São José, 16 de maio de Professor MSc. Orientador e Presidente da Banca Professor Coordenação da Monografia

5 9 AGRADECIMENTOS Primeiramente à Deus, que me propiciou galgar os caminhos desta grande luta. Aos meus pais, João Batista Mendes e Ermandina Policarpo Mendes, que sempre estiveram apoiando, de todas as formas, mesmos distante, se mostraram sempre presente em todos os momentos. Ao meu amigo Florindo Testoni Filho, aos colegas de classe, professores e ao meu Orientador Professor Msc. Juliano keller do Valle, que sempre me apoio em todos os momentos. E, por último ao grande amigo Raffael Ferreira, que presenciou todos os esforços e a chegada final deste trabalho de conclusão.

6 10 ROL DE ABREVIATURAS E SIGLAS ART. Artigo CC Código Civil CCJC -Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania CDC - Código de Defesa do Consumidor CP Código Penal CPC Código Processo Civil CRFB Constituição da República Federativa do Brasil COORD. Coordenador DJU Diário da Justiça da União ECPA Lei de Privacidade das Comunicações Eletrônicas ED. Edição EUA Estados Unidos da América FGTS Fundo de Garantia do Trabalho Social FTP - File Transfer Protocol FUNDEC - Fundação Diocesana de Educação e Cultura IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INTERPOL - Polícia Internacional MG Minas Gerais OAB Ordem dos Advogados do Brasil ONG s - Organizações Não Governamentais ORG.- Organizador PSDB Partido Social Democrático Brasileiro RS Rio Grande do Sul SC - Santa Catarina SP São Paulo STJ Superior Tribunal de Justiça STF Supremo Tribunal Federal TJPB Tribunal de Justiça Paraiba TRT Tribunal Regional do Trabalho

7 11 SUMÁRIO Resumo...7 Abstract...8 INTRODUÇÃO...9 CAPÍTULO 1: O DIREITO NA INFORMÁTICA A TECNOLOGIA NO DIREITO A INTERNET NO JUDICIARIO CORREIO ELETRÔNICO MENSAGEN ELETRÒNICA...27 CAPÍTULO 2: CRIMES CONTRA A HONRA DISPOSIÇÕES GERAIS CALÚNIA DIFAMAÇÃO INJÚRIA OS CRIMES CONTRA A HONRA NA INTERNET...44 CAPÍTULO 3: A CONFIGURAÇÃO DOS CRIMES CONTRA A HONRA NA INTERNET CONFIGURAÇÃO DA CONDUTA NA INTERNET SITES DE RELACIONAMENTO OS S...54 CONSIDERAÇÕES FINAIS...58 REFERÊNCIA DAS FONTES CITADAS...60

8 12 RESUMO A Internet, hoje, faz parte da vida de grande parte da população mundial, através dela é possível estudar, comprar, trabalhar, se divertir e até namorar. No entanto, a falta de regras que normatizem esta rede de computadores faz com que se proliferem os casos de crime contra a honra das pessoas, que, por sua vez, buscam diariamente a reparação dos danos sofridos nos Tribunais. Diante deste contexto, este trabalho monográfico estabeleceu como seu objetivo principal: investigar como os crimes de honra ocorrem na Internet, dando ênfase aos sites de relacionamento e a violação de s. Para alcançá-lo foi realizada uma pesquisa bibliográfica, seguindo o método dedutivo, onde foram consultados livros, artigos publicados em periódicos e documentos eletrônicos pertinentes ao tema, bem como a legislação vigente que dispõe sobre matéria em estudo. Assim, se constatou que, embora ainda não haja nenhuma regulamentação legal que proteja os usuários dos meios eletrônicos, há algumas decisões jurisprudenciais que tentam reparar os danos causados por estas violações de privacidade e contra a honra das pessoas.

9 13 ABSTRACT The Internet today, is part of life for much of the world population, through it is possible to study, buy, work, fun and even dates. However, the lack of rules that normatizem this network of computers means that if proliferem the cases of crime against the honor of people who, in turn, seek daily to repair damage suffered in the courts. Given this context, this work monographic set as its main objective: to investigate the crimes of honour occur on the Internet, emphasizing the sites of relationship and violation of s. To achieve it was done a literature search, following the deductive method, which were consulted books, articles published in journals and electronic documents relevant to the theme, as well as existing legislation that provides about matters under investigation. So, that, even though there is no legal regulation that protects users of electronic media, there are some decisions that courts try to repair the damage caused by these violations of privacy and against the honour of people.

10 14 INTRODUÇÃO Não resta dúvida que as inovações tecnológicas provocaram imensas mudanças na sociedade. Hoje, com acesso a informática não existe mais fronteiras no mundo da comunicação, até intervenções cirúrgicas e conferências são realizadas via Internet. Entretanto, este progresso ainda não é legislado, isto é, não há normas de condutas definidas sobre o uso, principalmente da Internet. Neste sentido, atualmente o mundo tem observado verdadeira avalanche de ações impetradas no Judiciário, tentando de alguma maneira, o ressarcimento ou a reparação por algum dano sofrido. As denúncias sobre crimes virtuais são, cada dia, mais numerosas, sendo que nos sites de relacionamento proliferam os casos de pedofilia, analogia ao crime e as drogas e, principalmente os delitos contra a honra da pessoa. A violação de s é outro crime freqüente na rede de computadores, o que tem levado pessoas físicas e jurídicas há muitos aborrecimentos. Neste contexto, este trabalho monográfico estabelece como seu objetivo principal: investigar como os crimes de honra ocorrem na Internet, dando ênfase aos sites de relacionamento e a violação de s. Como objetivos específicos foram estabelecidos: 1. Conhecer o papel da tecnologia da informação no Direito; 2. Identificar na legislação pátria os crimes contra a honra da pessoa; 3. Investigar a configuração dos crimes contra a honra que ocorrem na Internet, enfatizando os sites de relacionamento e a violação de s. A metodologia utilizada para se alcançar estes objetivos se fundou no método dedutivo, uma vez que, o estudo partiu de uma formulação geral

11 15 para buscar as partes do fenômeno estudado, com o fim de sustentar e confirmar esta formulação 1. A técnica de pesquisa utilizada foi à bibliográfica e documental, tendo em vista que foram consultados livros, artigos publicados em periódicos e documentos eletrônicos pertinentes ao tema, bem como a legislação vigente que dispõe sobre matéria em estudo. O presente estudo é constituído por três capítulos, sendo que se inicia com a introdução, onde são apresentados: o tema a ser discutido, o problema de pesquisa, além dos objetivos e a metodologia utilizada para se alcançar estes objetivos. O primeiro capítulo aborda o desenvolvimento da informática no Direito, a mensagem e o correio eletrônico. O segundo capítulo trata sobre os crimes contra a honra da pessoa no Código Penal brasileiro e na Constituição Federal. Aqui, são apresentados: os crimes de injúria, de difamação e de calúnia. O terceiro capítulo focaliza a os crimes de honra na Internet, os sites de relacionamento, a violação dos s e as decisões jurisprudenciais proferidas sobre estes crimes. No último tópico são apontadas as considerações finais sobre o estudo, bem como a recomendação para a realização de trabalhos futuros que possam aprofundar esta temática. 1 PASOLD, César L. Prática da pesquisa jurídica. 8. ed. Florianópolis: OAB/SC, 2003, p. 103.

12 16 CAPÍTULO 1 O DIREITO NA INFORMÁTICA Atualmente, não se pode negar a influência da informática em todos os setores da vida em sociedade, inclusive no Direito. Entretanto, conforme Rover, no início os computadores se dedicavam somente à realização de cálculos em alta velocidade, deixando de lado qualquer interação com as ciências sociais e humanas 2. A evolução da informática, porém, foi tão vertiginosa que veio afetar o Direito, principalmente em dois campos: na regulação da vida em sociedade no que se refere ao uso das novas tecnologias; e na utilização, pelos operadores do Direito, das vantagens e facilidades trazidas pelas novas ferramentas 3. Neste sentido, este capítulo se propõe a focalizar a relação entre a informática e o Direito, considerando a ascensão do uso da rede de computadores, Internet. 1.1 A TECNOLOGIA NO DIREITO Segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia, pesquisas apontam que nos próximos dez anos, devido aos grandes avanços tecnológicos com inovações radicais e incrementais, alguns setores da economia crescerão requerendo grande capacidade científica das empresas para o desenvolvimento dos seus recursos humanos qualificando-os para atuarem num mercado tão competitivo 4. A história da humanidade mostra que o desenvolvimento tecnológico interferiu na cultura e, principalmente na estrutura econômica e política 2 ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p BRASIL, Ministério da Ciência e Tecnologia. Futuras inovações tecnológicas Disponível em Consultoria_Jurídica/artigos. Acessado em set/2007.

13 17 dos Estados. Assim, a ciência do Direito observou em seus sistemas o impacto causado por esta evolução, de modo que, se procurou nos subsistemas jurídicos soluções adequadas para novos conflitos 5. Assim, novas regras foram produzidas buscando amparar a sociedade diante de uma nova realidade. Neste contexto de modificações que alteraram a sociedade, Rover destaca a Revolução Agrícola, do século XVI, a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX e a atual Revolução Digital, como sendo as alavancas das mudanças sociais de suas épocas 6. Este autor assinala que: É importante frisar que estas três Revoluções se caracterizaram, principalmente, por estarem embasadas num sistema distinto de geração de riquezas. Mas, todas, indistintivamente, produziram efeitos e conseqüências que interferiram de forma marcante, causando mudanças nos diferentes sistemas político, social, cultural, filosófico, jurídico, ético e institucionais, entre outros 7. Com o desenvolvimento tecnológico foi permitido que inovações viessem a ser incorporadas ao setor produtivo. Num primeiro momento para substituir o trabalho humano em operações insalubres ou de difícil acesso, passando depois a era da informação e do conhecimento em alta velocidade. No que tange ao Direito, seus operadores, diante desta nova realidade, têm uma nova concepção de escritório, sendo que de qualquer lugar poderão acompanhar e atuar no andamento e nas instruções dos processos. O profissional de Direito poderá peticionar, receber certidões digitais, mandados, ouvir testemunhas, participar de reuniões e cursos 8. Neste contexto, Reinaldo Filho acrescenta que: 5 BRASIL, Ministério da Ciência e Tecnologia. Futuras inovações tecnológicas Disponível em Consultoria_Jurídica/artigos. Acessado em set/ ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p. 23.

14 18 Incorporado o microcomputador ao cotidiano jurídico, com a variedade de aplicativos a disponibilizar o controle e o gerenciamento de dados, torna-se a utilização da informática algo inerente ao instrumental de trabalho, como agente essencial de execução laborativa, a exigir sempre as adaptações necessárias a partir do próprio direito, para a sua perfeita harmonia e convivência com a moderna tecnologia, impende verificar os estágios da atividade jurídica diante da era digital 9. No entanto, a segurança dos dados é uma preocupação. Desta maneira, estão sendo desenvolvidos sistemas, cada vez mais velozes e seguros, para a veiculação destas informações, o que deve facilitar a prestação jurisdicional, permitindo que mais pessoas tenham acesso à justiça 10. Para Reinaldo Filho, [...] a informática deve representar, no contexto Judiciário, a mais influente ferramenta ao tratamento das informações geradas pela provocação da tutela jurisdicional. Mas, não basta o sistema de automação em si, pelos softwares desenvolvidos em ambientes gráficos, para gerenciar o tramite de processos junto aos dois graus de jurisdição. As tarefas do sistema hão de conviver, por certo, com a uniformidade de rotinas e procedimentos, para a conseqüente racionalização e agilização dos serviços forenses 11. Outro ponto que merece destaque são as novas oportunidades de trabalho, que esta revolução tecnológica está apontando para o Direito, de acordo com Rover, [...] estão surgindo o nascimento de novos Direitos, tal como o Direito da Informática. Virão com certeza às consultorias jurídicas pela Web, a prestação de serviços através da rede, bem como a utilização de serviços on-line oferecidos por órgãos do Poder Judiciário. Inquirir testemunhas e instruir processos poderá tornar-se atividades 9 REINALDO, Demócrito F. Direito da informática: temas polêmicos. São Paulo: EDIPRO, 2002, p ROVER, Aires J. Direito e informática. Barueri: Manole, 2004, p REINALDO, Demócrito F. Direito da informática: temas polêmicos. São Paulo: EDIPRO, 2002, p. 58.

15 19 corriqueiras através do uso das tecnologias da informação aliadas à telemática 12. Um passo importante dado nesta direção foi à publicação do Decreto n , de 13 de junho de 2000, que instituiu a Política de Segurança da Informação nos órgãos e entidades da Administração Pública Federal, no Brasil. Destaca-se que, no âmbito do Direito, segundo Reinaldo Filho, é essencial a conceituação do interno e externo, seja na definição de pessoa jurídica, seja na concessão de direitos ou na regulação de questões tributárias 13. Todavia, na Internet [...] este conceito sofre uma diluição ou, pelo menos uma inversão: o interno representa o que está na rede e o externo o que está fora dela. Esta característica também implica modificação quanto ao conceito de liberdade, nos denominados Estados de Direito, está relacionado com uma faculdade de fazer aquilo que não é verdade na lei nacional 14. Cumpre dizer que ainda falta algum tempo para que sejam aceitos, no Brasil, a validade de documentos digitais certificados e a assinatura eletrônica. Salientando que, embora a assinatura eletrônica já seja usada no país ela, ainda causa divergências, contrariamente, ao que ocorre nos Estados Unidos onde à mesma já foi legalizada através de lei sancionada pelo governo Clinton. Também a Comissão Européia vem estudando a viabilidade de uma legislação que venha validar a assinatura digital 15. No entanto, segundo Rover, O Direito da Informática ou Direito Digital, ou ainda Direito Tecnológico firma-se como um importante ramo do Direito, atuando na regulamentação e na reflexão do uso das tecnologias da 12 ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p REINALDO, Demócrito F. Direito da informática: temas polêmicos. São Paulo: EDIPRO, 2002, p REINALDO, Demócrito F. Direito da informática: temas polêmicos. São Paulo: EDIPRO, 2002, p ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p. 32.

16 20 informação. O Brasil não possui ainda uma legislação específica para coibir os cibercrimes, crimes praticados na Internet 16. Diante desta situação, salienta-se que o Direito brasileiro no futuro absorverá cada vez mais estas tecnologias incorporando-as no seu dia-a-dia, tanto na forma de desenvolver seu trabalho, como também na proteção do cidadão e das empresas quanto aos crimes praticados com o auxílio da tecnologia da informação. Desta maneira, fica clara a necessidade do ordenamento jurídico evoluir para contemplar esta nova era. 1.2 A INTERNET NO JUDICIÁRIO É possível definir Internet 17 como uma gigantesca rede mundial de computadores. Esses equipamentos são interligados através de linhas comuns de telefone, linhas de comunicação privadas, cabos submarinos, canais de satélite e diversos outros meios de telecomunicação 18. Assim, Internet é definida como um conjunto de centenas de redes de computadores, que servem a milhões de pessoas em todo o mundo. Para Alspach, [...] na realidade, a Internet é composta de pessoas de todo o mundo, sendo cada uma delas uma pequena parte de um todo, sem estas pessoas interagindo, não haveria razão para se ter uma Internet 19. No Brasil, como em todo mundo, o número de pessoas e computadores ligados à Internet está em ascensão, pequenos comércios estão também aderindo a este meio, substancialmente novo de provimento e acesso de serviços 20. A Internet não é controlada de forma central por nenhuma pessoa ou organização. Não existe um escritório central da Internet no mundo, 16 ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p É um conglomerado de redes em escala mundial de milhões de computadores interligados pelo Protocolo de Internet que permite o acesso a informações e todo tipo de transferência de dados 18 ALSPACH, Ted. na Internet. Guia prático. Rio de Janeiro: Axcel Books do Brasil, 1996, p ALSPACH, Ted. na Internet. Guia prático. Rio de Janeiro: Axcel Books do Brasil, 1996, p BARROS, Mariana. Brasil soma de decisões judiciais sobre casos na Internet. Folha de São Paulo. São Paulo, 31/maio/2006, p. 12.

17 21 sendo que sua organização é desenvolvida a partir dos administradores das redes que a compõe e dos próprios usuários. Em 2004, no Brasil havia aproximadamente 15 milhões de internautas que já movimentavam bilhões no comércio eletrônico 21. Atualmente, dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 32,1 milhões de brasileiros, cerca de 21,9% da população acima dos 10 anos de idade, utilizam a rede mundial de computadores, a Internet, no país 22. Para Balieiro, embora este número seja significativo, ainda posiciona o Brasil no 62 no ranking mundial, ao considerar a relação número de internautas e o contingente populacional. Neste sentido, observa-se que a dependência do mundo virtual é inevitável 23. Considerando, a rede de computadores os impactos no campo jurídico são bem abrangentes, indo da massificação da pesquisa jurídica, através da rede, articulada com o banco de dados para consulta jurisprudencial até o desenvolvimento de software, no papel de sistemas especialistas, que poderão transformar a prática jurídica. Neste contexto, Rover assevera que [...] a utilização da Internet na disseminação da informação sob domínio do Estado e do interesse do cidadão, está muito atrasada em relação ao próprio desenvolvimento de tal tecnologia em outras áreas 24. Um ponto que tem merecido a atenção dos juristas quanto ao uso da Internet está vinculado à privacidade do homem. Neste sentido, Rover lembra que: 21 REINALDO, Demócrito F. Direito da informática: temas polêmicos. São Paulo: EDIPRO, 2002, p BALIERO, Silvia. O Brasil ocupa a 62 posição no mundo em relação ao uso da Internet. mar/2003. Disponível em: set/ BALIERO, Silvia. O Brasil ocupa a 62 posição no mundo em relação ao uso da Internet. mar/2003. Disponível em: set/ ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p. 36.

18 22 [...] a Global Internet Liberty Campaign defende que de todos os direitos humanos constantes no catálogo internacional, o direito à privacidade é, talvez, o mais difícil de definir e limitar. A Electronic Privacy Internet Center (EPIC) de Washington, desde 1994, é um dos mais importantes centros de pesquisa sobre o assunto. Ele objetiva facilitar a atenção pública em questões envolvendo liberdades civis emergentes, e a proteção de privacidade e dos valores constitucionais. Associada ao grupo internacional de direitos humanos de Londres 25. No Brasil a privacidade encontra proteção na Constituição Federal de 1988, mais especificamente, nos direitos individuais do cidadão, como a proibição à violação do domicilio e a proteção do sigilo de correspondência, por exemplo: Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial; XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no 25 ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p. 95.

19 23 último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional; XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor; LXXII - conceder-se-á hábeas data: a) para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante, constantes de registros ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público; b) para a retificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por processo sigiloso, judicial ou administrativo. Ressalta-se que os s 26 estão incluídos, na visão dos doutrinadores, no mesmo inciso da correspondência, já que por essência, este consiste numa forma de comunicação escrita. No entanto, observa-se que embora este direito à privacidade seja garantido constitucionalmente, este próprio diploma limita e excepciona esta garantia, conforme enfatiza Reinaldo Filho, [...] ao prever a possibilidade de quebra por ordem judicial para fins de investigação criminal ou instrução processual. Como nenhuma liberdade constitucional é absoluta, no caso das correspondências e comunicações o próprio texto constitucional cuidou de excepcionálas, na medida em que admite a interceptação dentro de certos parâmetros Mensagem eletrônica. 27 REINALDO, Demócrito F. Direito da informática: temas polêmicos. São Paulo: EDIPRO, 2002, p. 33.

20 24 É possível ainda destacar que a Lei n 8,078/90, que criou o Código de Defesa do Consumidor (CDC) em seus artigos 43, parágrafo 2 e art. 72 também dispõem sobre este tema. Art. 43. O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso às informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respectivas fontes. 2 A abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo deverá ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não solicitada por ele. Art. 72. Impedir ou dificultar o acesso do consumidor às informações que sobre ele constem em cadastros, banco de dados, fichas e registros. A Lei n 7.232/84 prevê a proteção da confidencialidade de dados armazenados, processados e revelados e a privacidade e segurança de entidades físicas, legais, políticas e privadas. Diante deste panorama, Rover sustenta que a privacidade, com o passar do tempo se tornará um dos mais importantes direitos civis, ou seja, o direito das pessoas escolherem o que pode ser publicamente sabido pela sociedade e o que se restringe a sua intimidade 28. Entretanto, como adverte Reinaldo Filho No nosso país, em especial, o problema se reveste de complicador. É que são escassas as leis que tratam, direta ou indiretamente, da questão do respeito à privacidade. Certamente por razões culturais e por circunstâncias relacionadas ao debate sobre proteção da privacidade não tem alcançado a mesma ressonância que em outros países, tais como Estados Unidos e países europeus, onde o tema é motivo de conferências e trabalhos acadêmicos, debates políticos, 28 ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p. 95.

21 25 esforços lobistas e ações de grupos e outras manifestações públicas 29. Cabe mencionar que a própria Microsoft 30, preocupada com este aspecto, lançou recentemente, na sua versão de navegador diferentes tipos cookies 31, com o objetivo de gerenciar de forma mais eficaz a privacidade das informações. Reinaldo Filho alerta que a falta de uma legislação específica sobre a privacidade na Internet [...] leva a uma situação de certa insegurança judiciária quanto ao exercício e garantia da proteção da privacidade do individuo como um direito fundamental. Como não se tem um indicativo constitucional ou legal da extensão desse direito, pode haver um tratamento diferenciado pelas cortes judiciárias, variando largamente de acordo com o contexto social e político em que se discutam as questões ligadas à privacidade, como as circunstâncias em que esse tema está implicado podem variar largamente, fica difícil prever o resultado das lides judiciais em cada caso concreto, sendo, ao contrário, fácil prognosticar uma tendência ao desencontro de decisões judiciais, um obstáculo frente à harmonização jurisprudencial. A interpretação da proteção constitucional à privacidade tende a ser confusa, o escopo de sua proteção estreito e o seu valor quase sempre limitado quando confrontado com outros princípios constitucionais mais explícitos 32. Em contrapartida a proteção da privacidade nos meios de telecomunicação, a Lei n 9.296/96 em seu artigo 1 procurou criar um mecanismo que possibilitasse a interceptação de dados telemáticos. 29 REINALDO, Demócrito F. Direito da informática: temas polêmicos. São Paulo: EDIPRO, 2002, p É a uma empresa multi-nacional de softwares dos EUA, sendo a maior do mundo neste ramo. 31 Um arquivo de texto muito pequeno colocado em sua unidade de disco rígido por um servidor de páginas da Web. Basicamente ele é seu cartão de identificação e não pode ser executado como código ou transmitir vírus; ele é exclusivamente seu e pode ser lido somente pelo servidor que o forneceu. 32 REINALDO, Demócrito F. Direito da informática: temas polêmicos. São Paulo: EDIPRO, 2002, p. 28.

22 26 Art. 1º A interceptação de comunicações telefônicas, de qualquer natureza, para prova em investigação criminal e em instrução processual penal, observará o disposto nesta Lei e dependerá de ordem do juiz competente da ação principal, sob segredo de justiça. Parágrafo único. O disposto nesta Lei aplica-se à interceptação do fluxo de comunicações em sistemas de informática e telemática. Entretanto, observa-se que a constitucionalidade desta Lei causa divergências entre os juristas. De uma forma geral, a utilização da Internet diante das implicações no universo jurídico tem dividido a sociedade, pois de um lado encontram-se aqueles que defendem a liberdade de expressão e a obediência a Netiquette 33. Do outro lado, há os defensores da criação de uma legislação que regulamente a Internet. Todavia, cumpre dizer que esta discussão, no Brasil, está em fase embrionária. De acordo com Rover, em 1995, o Ministério das Comunicações, juntamente com o Ministério da Ciência e Tecnologia determinou as bases fundamentais das atividades e da utilização da Internet. Dentre estas disposições estava a criação de um Comitê Gestor que tinha como objetivo tornar efetiva a participação da sociedade nas decisões envolvendo a implantação, administração e uso da rede 34. No entanto, Rover adverte que: No que diz respeito à Internet, a preocupação do legislador é repressiva. Não se tem cuidado com questões como a segurança dos usuários em transações da rede, na inserção de mios para a encriptação de documentos digitais, etc., enfim, em medidas que 33 Conjunto de regras de etiqueta direcionadas para o bom funcionamento da rede e da sua utilização pela comunidade em geral. 34 ROVER, Aires J. (org.) Direito, sociedade e informática: limites e perspectivas da vida digital. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2000, p. 120.

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