Desafios, esperança, mudanças de práticas envelhecidas. Márcia Palmyra Nalio do Monte 1

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1 1 Desafios, esperança, mudanças de práticas envelhecidas Márcia Palmyra Nalio do Monte 1 Resumo: A pesquisa aqui relatada objetivou estudar as dificuldades de leitura e escrita, suas causas, dos(as) alunos(as) do 2º ano do ensino fundamental. O estudo se pautou na abordagem qualitativa e quantitativa através da realização de atividades diversificadas. As principais dificuldades que os alunos apresentavam para ler e escrever eram decorrentes de vários fatores, porém um dos mais importantes era a falta de acompanhamento da família e a falta de hábito de leitura e escrita fora do ambiente escolar. Este artigo pretende trazer contribuições à prática pedagógica e refletir sobre a necessidade de um olhar diferenciado para as diversas dificuldades de aprendizagem na leitura e escrita do(a) aluno(a). Palavras-chave: Dificuldade. Aprendizagem. Leitura. Escrita. Interdisciplinaridade. Jogos. 1 Pedagoga pela UNIFEO e aluna de curso de especialização em Currículo e Pratica Docente (UniFreire/ FAMA).

2 2 Introdução Refletir sobre o papel que tem a alfabetização para os profissionais e pessoas interessadas na educação deixa de ser uma simples necessidade para converter-se numa tarefa urgente. Mas para compreender a importância da alfabetização é importante antes de tudo ter uma ideia do macro contexto social e educativo. Para Paulo Freire, a alfabetização é o ato coletivo mediante o qual as pessoas vão se apropriando da leitura e da escrita e construindo uma visão problematizadora do mundo, podendo atuar neste mundo com maior autonomia. Para isso é preciso compreender a necessidade de enfrentamento dessa problemática e o seu redirecionamento. É importante ressaltar algumas práticas fundamentais para uma visão integrada e alargada de aprendizagem de leitura e escrita. São elas: Tornar a escola prazerosa e um local de esperança Oferecer livros paradidáticos, jogos educativos. Jogos com o objetivo de superar as desigualdades existentes entre eles. Comumente professores/as identificam no cotidiano das salas de aula alunos que apresentam diferentes dificuldades de aprendizagem, quase sempre relacionadas à aquisição, compreensão e utilização da leitura e escrita. Há casos de alunos(as) que inesperadamente superam as dificuldades. Isso nos faz pensar: a não aprendizagem dos alunos pode estar relacionada a problemas de ensinagem? (FONSECA, 1995). Partindo do pressuposto que sim, que novas práticas poderiam favorecer a apropriação da leitura e escrita pelas crianças, desenvolveu-se um projeto de intervenção, junto aos(às) alunos(as) do 2º ano, buscando refletir e reconstruir a prática docente, considerando as especificidades das crianças que ainda não tinham se apropriado do sistema alfabético. As leituras de referenciais bibliográficas mostravam que as práticas precisavam ser revistas para atender aos interesses dos(as) alunos(as).

3 3 O problema apontava para a seguinte questão: como potencializar as aprendizagens da linguagem escrita pelos(as) alunos(as) do 2º ano que ainda não construíram a base alfabética? A partir dos estudos de Ferreiro sobre a construção da linguagem escrita das crianças, a ação primordial que contribui para a condição do ensino eficaz é superar as concepções errôneas. Ferreiro, que teve como mestre Piaget, diz que o sujeito biológico é centrado no eu. Luria, discípulo de Vygotsky, vê o sujeito como ser histórico-social. Tanto para Ferreiro como para Piaget o conhecimento é resultante desta construção mental, quando a interação é entre o sujeito e o objeto de conhecimento. De contrapartida, Luria e Vygotsky entendem que o conhecimento é a construção da interação entre as crianças com o outro e com o objeto, mediado pela linguagem; e é na linguagem que o outro tem grande papel, tornando-se fundamental para a construção da leitura e escrita. (MOREIRA, 2012). Como Paulo Freire afirmava, o(a) professor(a), em sua ação dialógica, deve ser capaz de compreender sua função e romper com os preconceitos em relação ao(à) seu(ua) aluno(a). Segundo Freire, ensinar não é transmitir conhecimento, mas sim criar as possibilidades para sua própria produção ou construção (FREIRE, 1997). Para realizar um bom projeto de intervenção era necessário tomar a prática como objeto de estudo, bem como conhecer melhor as crianças, visto que vários fatores influenciam no desenvolvimento infantil. Dessa forma, o projeto foi desenvolvido com duas turmas, num total de 37 alunos, na faixa etária entre 7 e 8 anos. Destes, apenas seis foram avaliados nas suas dificuldades específicas. Considerando que as crianças aprendem não apenas na escola, mas aprendem com outras crianças, e que hábitos de leitura no lar promovem a construção de hipóteses sobre a leitura e a escrita (FERREIRO, 2008); considerando ainda a influência dos meios de comunicação e as experiências extraescolares na construção de conhecimentos (VYGOSTSKY, 1989), foi muito importante na pesquisa de intervenção conhecer a estrutura familiar dos(as) alunos(as) e suas relações intersubjetivas e saber qual é a colaboração da família e

4 4 se há interação escola-comunidade-escola. As observações foram decisivas para perceber o que os pais esperam que a escola e a educadora tenham para com seus filhos. Para indicar como a criança compreendia a escrita e suas perspectivas em relação ao desenho foram propostas atividades de raciocínio lógico, desenho, leitura e escrita, e para validar as hipóteses construídas. Construindo o caminho... Levando em consideração as etapas da evolução da escrita, nenhuma criança chega ao 2º ano, sob qualquer hipótese, sem ter compreensão lógica. Cabe ao professor propiciar um ambiente e diferentes situações de aprendizado e de novas descobertas do aprender e expor materiais na sala, para pesquisas com jornais, revistas, propagandas, livros infantis, lista telefônica ou música, jogos educativos, entre outros. O projeto procurou avaliar as dificuldades de cada um, o convívio entre os pares e a compreensão da estrutura de seu pensamento, como lê, escreve e sua relação de compreensão com os jogos educativos. As crianças tinham as mesmas representações arcaicas, o senso comum que promove a ideia que é o professor quem sabe, quem ensina. Ao questionar a turma sobre como fazer para ajudar uns aos outros, para aprender mais e melhor, uma criança surpreendeu a professora com a pergunta: você não sabe dar aula? Para responder esta pergunta foi necessário reconstruir a representação que se tem do que é aula. Em roda de conversa iniciou-se um diálogo sobre como as crianças aprendem, desafiando-as a pensar sobre suas aprendizagens intra e extraescolares. Todos queriam dar sua colaboração e assim o planejamento foi elaborado dialogicamente, por considerá-lo uma forma de resistência e uma alternativa ao planejamento autoritário, burocrático, centralizado e descente, que ganhou as estruturas do nosso sistema educacional (PADILHA, 2001, p.25). Foi priorizado o trabalho com os jogos que eles já conheciam, com a leitura de livros e gibis escolhidos por eles (BRANDÃO, 2009). Foi proposta a alternância

5 5 do trabalho em duplas e em grupos de quatro, garantindo a presença de alunos com características distintas, ou seja, em cada grupo deveria haver ao menos uma criança que apresentava domínio sobre a leitura e escrita. Isto porque, segundo Vygotsky (1989), os grupos heterogêneos promovem a mediação na zona de desenvolvimento (real, proximal e potencial) das crianças. Moreira (1989) diz que o desenho é o primeiro texto escrito pela criança. À medida que o desenho se desenvolve, o texto da criança se amplia. Assim, foi proposta a leitura do livro A Escola de Vidro, de Ruth Rocha. O livro, apresentado sem as ilustrações, possibilitou que as crianças criassem a representação da escola narrada. Como seria essa escola? Com diversificação de materiais e técnicas de desenho, as crianças foram adquirindo traçados mais firmes, ampliando o desenho-texto. Dar título para seus desenhos, escrever a história em duplas, em grupo ou a história coletiva tendo a professora como escriba, foi uma constante. Promover a socialização das atividades realizadas pelas crianças, avaliar o dia, as atividades, planejar o dia seguinte, fizeram parte da rotina construída. Foram propostas atividades diferenciadas nas quais as crianças eram desafiadas a classificar palavras, justificando os critérios utilizados. Ações como estas demonstram os caminhos que as crianças percorrem ao longo da vida escolar. Considerações finais A responsabilidade da escola é garantir a todos os alunos o acesso aos saberes, para seguirem em frente, rumo aos novos desafios e dificuldades ao longo da sua vida escolar. Para que a avaliação e seus resultados não sejam apenas teoria, mas demonstrem uma prática aplicável, urge que se analise e questione a função do(a) educador(a) e se busque alternativas inovadoras para o processo de alfabetização, de forma a envolver o(a) alfabetizando(a) no processo de construção e elaboração de sua própria aprendizagem, tornando-se, assim, plena de significação e sentido.

6 6 Dessa forma, a própria dinâmica de sala de aula precisa ser pensada, de modo que se rompam as estruturas de lousa e giz e se instaure uma nova comunicação pedagógica caracterizada por outras formas, mais dinâmicas e interativas. Segundo Paulo Freire, a reinvenção da escola teria que partir da necessidade da permanente, processual reinvenção da liberdade, que implica na reinvenção do saber, da existência, da capacidade de amar, da capacidade de ter raiva, de estar e não estar, de partir e de ficar (FREIRE, 1992).

7 7 Challenges, hope, change of aged practices Márcia Palmyra Nalio do Monte Abstract: The research reported here aimed to study the difficulties in reading and writing and the causes of (the) students (as) 2nd year of elementary school. The study was based on qualitative and quantitative approach by performing diversified activities. The main difficulties that students had to read and write, were due to several factors, but the most important was the lack of monitoring of the family and lack of habit of reading and writing outside the school environment. This article aims to bring contributions to pedagogical practice and reflect on the need for a different look for the various learning difficulties in reading and writing (a) student (a). Keywords: Difficulty. Learning. Reading. Writing. Interdisciplinary. Games.

8 8 Referências BRANDÃO, Ana Carolina Perrusi Alves et al. (Orgs.). Manual Didático: jogos de alfabetização. Brasília: Ministério da Educação/UFPE, Centro de Estudos em Educação e Linguagem, Disponível em: <http://www.ufpe.br/ceel/e-books/manual_de_jogos_did %C3%A1ticos_revisado.pdf>. Acesso em 30 jun FERREIRO, Emília; Teberosky, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Editora Artmed, FONSECA, Víctor das. Uma introdução às dificuldades de aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, FREIRE, Madalena e Paulo. Dois olhares reinventando a escola. In: PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre. Paixão de Aprender. Porto Alegre: SMED, FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: os saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho: a educação do educador. São Paulo: Loyola, MOREIRA, Rosana Maria Gomes. A criança e a construção da leitura e da escrita. Artigonal.com, 01 fev Disponível em: <http://www.artigonal.com/ensino-superior-artigos/a-crianca-e-a-construcao-da-leitur a-e-da-escrita html>. Acesso em 30 jun OLIVEIRA, Marinalva de et al. (Orgs.). Reorientação curricular da educação infantil e ensino fundamental. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, PADILHA, Paulo Roberto. Planejamento dialógico: como construir o projeto político pedagógico da escola. São Paulo: Cortez/Instituto Paulo Freire, VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

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