PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS: FATORES INTERVENIENTES À AÇÃO DOCENTE Elisabeth Schmidt Feris Universidade Federal do Rio Grande - FURG Palavras chaves:

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1 PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS: FATORES INTERVENIENTES À AÇÃO DOCENTE Elisabeth Schmidt Feris Universidade Federal do Rio Grande - FURG Palavras chaves: educação; formação de professores; prevenção ao uso de drogas Vários levantamentos epidemiológicos (Carlini, E. A. et al, 1994; Galduróz et al., 1997; Sinnott Silva et al., 1997) expõem a situação em que os estudantes se encontram em relação ao consumo de drogas. No Brasil, apesar da política centrar sua atenção na questão da assistência ao dependente químico, apenas quando o problema já está instalado, deixando de priorizar o fator prevenção, não há como desconsiderar ações preventivas de educadores, através de projetos e programas, que atingem particularmente os escolares. Professores são capacitados para realizar esta tarefa, no entanto, a avaliação destes projetos ou programas, normalmente, incide sobre a constatação do aumento ou diminuição do consumo de drogas pela população que sofreu a intervenção. Este estudo focaliza o outro pólo da ação preventiva o professor e os fatores que intervém no seu trabalho de prevenção ao uso de drogas. A literatura especializada aponta a educação como um dos mais importantes meios de prevenção ao uso indevido de drogas, elegendo o professor como um dos agentes mais indicados para realizar o trabalho preventivo, desde que devidamente capacitado. O compromisso profissional do docente ultrapassa, portanto, os limites físicos da escola no enfrentamento aos desafios que a sociedade lhe impõe, sendo que muitas vezes, ele se vê impotente e despreparado. Até que ponto pode o professor assumir a responsabilidade diante do problema da dependência de drogas que se alastra de forma rápida e avassaladora? A ampla gama de papéis que o professor desempenha em sua prática cotidiana, a capacitação insuficiente para assumir algumas dessas responsabilidades, geram insegurança e insatisfação, como afirma Ortega (1992, p.21) e " el resultado es esa imagen del profesor de nuestros dias, agobiado por múltiples y variadas tareas (no pocas de ellas estrictamente burocráticas), e inseguro de lo que hace en cada una de las mismas." Quando o problema é complexo, pelos valores e critérios culturais, sociais, ideológicos que abarca, as possibilidades de solução supõem processos muito difíceis.

2 2 A dificuldade que a maioria dos professores têm de abordar o tema drogas em suas salas de aulas está, de alguma forma, associada à natureza de suas representações a respeito deste fenômeno que leva, inexoravelmente, o indivíduo à degradação pessoal, familiar e social. É mais fácil delegar o problema a outro, no entanto, isto acarreta um distanciamento do problema. Se o problema existe na sala de aula deve-se tentar resolvê-lo nesse âmbito, com a assessoria de especialistas na área. O professor que está próximo, não só cognitiva mas afetivamente ao aluno é aquele que tem mais facilidade de realizar a prevenção ao consumo indevido de drogas, ouvindo o sujeito da experiência pois é ele que pode dizer o que se passa, o que ele sente, do que ele precisa naquele momento. Nessa perspectiva, muitos alunos colocam toda sua esperança, ao lado das relações com os colegas, nas relações com a pessoa do professor. (Snyders, 1988, p.212). Os professores vivem num ambiente complexo interagindo com as várias facetas da sua prática na escola e são produto desta realidade, incapazes, às vezes de promover o desenvolvimento da capacidade de crítica dos alunos, porque eles mesmos não conseguem enxergar os acontecimentos do cotidiano com criticidade. Ao longo de sua existência, o aluno já experienciou, teve contato direto ou não com drogas das mais variadas espécies, na família ou em outras situações sociais e já tem elaborado conceitos a respeito, os quais devem ser confrontados e articulados com o saber do professor, também assimilado em suas próprias vivências. É desejável que o professor construa, continuamente, um saber científico para melhor orientar os seus alunos, mediando o processo de elaboração/reelaboração de conceitos. O professor, elemento mediador que promove a veiculação do conhecimento sobre drogas ao foco o aluno, está realizando seu trabalho preventivo em sala de aula? Quais as dificuldades e incertezas, conscientes ou não, que tal tarefa acarreta? Essas, entre tantas outras questões, e a grande importância que atribuo ao professor na prevenção ao uso indevido de drogas justificaram um estudo que tem por objetivo investigar os fatores que dificultam, facilitam ou impedem a ação preventiva do docente. A metodologia da pesquisa A pesquisa que desenvolvi, no decorrer dos anos de 1997 e 1998, em 36 escolas do município do Rio Grande/RS Brasil, de um total de 45 que participaram inicialmente do Projeto Educativo e Preventivo sobre Drogas Psicotrópicas da Fundação

3 3 Universidade Federal do Rio Grande FURG teve como objetivo detectar os fatores pessoais, sociais e/ou político-profissionais que interferem na ação preventiva ao uso de drogas realizada pelos docentes atingidos pelo Projeto da FURG. A amostra deste estudo foi estratificada, buscando-se os professores que, de uma forma ou de outra, periodicamente ou não, foram atingidos por este Projeto, desde o início de suas atividades, no ano de Os dados de referência para a constituição desta amostra foram obtidos através de consulta ao arquivo do Projeto Drogas da FURG, nos registros de reuniões e outras atividades realizadas ao longo destes anos, para identificação dos professores. O instrumento utilizado para a coleta dos dados foi a entrevista semi-estruturada, por entendê-la, assim como Gil (1994), como uma técnica por excelência nas pesquisas sociais que possibilita a flexibilidade necessária à investigação de um tema complexo como a questão das drogas. As entrevistas foram por mim realizadas com 20 professores, sendo 5 da rede municipal de ensino e o mesmo número nas redes estadual, federal e privada. As escolas para escolha destes professores foram sorteadas entre as 36 selecionadas, e os professores, convidados pelos diretores das referidas escolas, para participarem da entrevista. Os docentes entrevistados foram aqueles que, no momento em que a pesquisadora estava na escola, não exerciam atividades em sala de aula. Buscou-se com este número que fossem entrevistados, em cada rede de ensino, professores que tivessem participado ao menos 1 vez de atividades do projeto, 2 vezes, 3 vezes e 4 vezes ou mais. Também foi entrevistado, em cada escola desta amostra, um professor que não participa do Projeto Drogas da FURG. Em todas as etapas, o processo investigativo propiciou uma intervenção ativa, quando tive contato direto com direções, supervisoras e orientadoras educacionais, as quais possibilitaram o acesso aos professores entrevistados e, informalmente relataram a situação das escolas participantes da pesquisa em relação à problemática das drogas. Análise e resultados A análise das entrevistas ocorreu através da leitura no sentido vertical e horizontal, focalizando cada pergunta respondida, agrupando-as em eixos organizados em torno dos seguintes tópicos: espaço para discussão sobre drogas; fatores facilitadores, que dificultam ou impedem a ação preventiva; conhecimento da legislação sobre drogas; transposição didática e o papel do professor diante da problemática

4 4 drogas. Este estudo analisará apenas um dos tópicos - os fatores intervenientes na ação preventiva ao uso de drogas realizada pelos docentes. A leitura, no sentido vertical, possibilitou verificar a opinião individual de cada professor acerca de cada tópico, e, no sentido horizontal, a convergência/divergência de opiniões na totalidade dos investigados, constituindo, então uma síntese que oportunizou a construção de um quadro (quadro 1), no qual foram organizadas opiniões e expressões de professores atingidos e professores não atingidos pelo Projeto Drogas da FURG. Novamente, foi feita, através desse quadro, a leitura no sentido vertical e horizontal, analisando-se depoimentos individuais e coincidentes sobre os tópicos. que convergiram ao objeto de estudo. Quadro 1 - resumo das entrevistas Professores atingidos pelo PROJETO Professores não atingidos Espaço para a discussão sobre drogas - aberto, principalmente com os alunos maiores. Fatores facilitadores ao trabalho de prevenção: incentivo da direção da escola e coerência em suas posturas, promoção de encontros e debates, cursos de capacitação, assessoria do Projeto Drogas da FURG, integração entre escolas. Fatores que dificultam: medo, atitudes de ridicularização por parte dos colegas, influência negativa de professores usuários de drogas, falta de pessoas comprometidas, medo, quando os familiares ou mesmo alunos são usuários ou traficam drogas, insegurança, dificuldades inerentes à própria personalidade. Assuntos referentes à legislação sobre drogas: discutido em sala de aula por uma das professoras entrevistadas. Atividades de prevenção realizadas: desenhos, dramatizações, jogos, reflexão sobre textos, peças de teatro, filmes, elaboração de cartazes, seleção de frases, participação em campanhas, debates, caminhadas, torneios esportivos com enfoque na valorização da vida. Espaço para discussão só quando surge problema relacionado. Não foram citados fatores facilitadores ao trabalho de prevenção. Fatores que dificultam ou impedem a ação preventiva: falta de informação, barreira que a família coloca, priorização dos conteúdos curriculares, falta de oportunidades para o assunto vir à tona, insegurança, falta de integração escola/família. Assuntos referentes à legislação sobre drogas: não são discutidos em sala de aula. Atividades preventivas realizadas em sala de aula: somente diálogo, palestras, charges.

5 5 Papel do professor: Prevenir o uso de drogas para que os alunos cheguem a ser felizes em algum momento das suas vidas; Prevenir, através da informação; Muito importante, muito difícil e de muita responsabilidade, porque, às vezes, tem mais acesso ao aluno do que os pais; Papel do professor: alertar para os prejuízos da drogas e apoiar o aluno; ser exemplo; orientar para o fato de que não existe a necessidade de usar drogas. Um dos professores contestou o fato do professor ter que assumir, mais uma vez, o papel que é da família. ser amigo dos seus alunos. FONTE: professores da rede de ensino do município do Rio Grande/RS Brasil Entre os professores entrevistados, vários fatores que dificultam a ação preventiva foram citados, como: medo (quando os familiares ou mesmo alunos são usuários ou traficam drogas), sentimento de impotência, preconceitos, deboche dos colegas, influência negativa de professores usuários de drogas, receio de que os pais julguem que estão alertando para o problema, falta de pessoas comprometidas, dificuldades inerentes à própria personalidade, insegurança, falta de tempo, em função da obrigação em desenvolver o conteúdo, receio de que os pais não aceitem que o assunto drogas seja abordado em sala de aula. Fica evidenciado que os professores entrevistados, os quais nunca participaram de atividades do Projeto Drogas, apontam, principalmente, a falta de informação até mesmo como um impedimento para que realizem o trabalho de prevenção. Comparando-se as respostas destes professores com aqueles capacitados pelo Projeto verifica-se que um dos propósitos do Projeto Drogas da FURG tem logrado êxito, aquele que visa a transmitir/construir junto ao professor mediador informações científicas sobre drogas psicotrópicas. A importância que tem a capacitação dos professores é justificada por inúmeros cientistas da educação e, no caso da prevenção ao uso de drogas, é primordial para que informações científicas sejam veiculadas na escola, contrapondo-se às do senso comum, normalmente alarmistas e distorcidas. Carlini-Cotrim, e Rosemberg (1990) discorrem sobre o fato de que há muito que a literatura estrangeira especializada no campo da prevenção ao abuso de drogas vem clamando pela superação do amadorismo e da improvisação na atuação junto aos jovens. Os depoimentos dos professores demonstraram preocupação com o desenvolvimento do conteúdo programático e a sua priorização em relação a outras atividades, no entanto, observa-se através de várias colocações, que os professores que

6 6 participam mais vezes das atividades promovidas pelo projeto e/ou integrantes do corpo docente daquelas escolas envolvidas num trabalho mais intenso de prevenção às drogas aproveitam oportunidades, por iniciativa própria, para abordar o assunto em sala de aula. A preocupação a respeito é evidente na fala de duas das professoras entrevistadas: Acho que pela quantidade de conteúdos que tem que se dar, não se tem espaço, mas tenho a certeza de que tem que se abrir espaço. A gente, como professor, tem que abrir espaço pra discutir esse assunto, porque é uma coisa que tá na realidade do aluno...(professora A) Os professores, infelizmente, muitos ainda são ligados, apegados àquele conteúdo que têm que desenvolver. Acho que ainda teria muitas coisas a serem trabalhadas com os alunos: o dia-a-dia da vida deles. Os professores apegados aos conteúdos deixam de lado o lado humano do aluno. (professora B) É importante registrar que todos os professores entrevistados, que realizaram discussões em suas escolas na proposta de implantação dos Padrões Referenciais de Currículo (PRCs), julgaram que teriam uma abertura e cobertura muito maior para realizar o trabalho de prevenção. Isto fica evidenciado no depoimento de uma das professoras entrevistadas: É aquela coisa, tem certos tabus, preconceitos...o problema é depois, lá fora, a repercussão junto à família nem sempre é aceita. Se for currículo mesmo, a importância que é dada às drogas no P.R.C, agora sim, aí já pode dizer que isso aí já é do currículo, mas enquanto não tiver o apoio das pessoas envolvidas da escola, da direção, orientação, já escrito no P.R.C, quando não tiver aquilo escrito, no conteúdo, aí tu pode mostrar o papel, olha aqui ó, tá no conteúdo! (professora C). Os Padrões Referenciais do Currículo (PRCs), proposta do governo do Rio Grande do Sul, derivada dos Parâmetros Curriculares Nacionais contemplava a superação de uma das dificuldades apontadas pelos professores, que seria conciliar o desenvolvimento dos conteúdos com a abordagem do assunto drogas em sala de aula, através da transversalização do tema. Fica, dessa forma, evidenciada a influência que propostas governamentais podem exercer na prática escolar. Antes mesmo de atingir a todas as escolas, com a troca de governo, essa proposta já não mais está em vigor.

7 7 Gandin (1997), faz alusão a questão do desenvolvimento do conteúdo programático, enfatizando que o mesmo é uma das maiores preocupações da escola, salientando a inoperância daquilo que, por vezes, se escolhe como conteúdo. Os professores que se aventuram a assumir mudanças no conteúdo são poucos, porque quase todos se sentem comprometidos pela exigência da família e das "autoridades" educacionais ao cumprimento do programa escolar. No entanto, esta postura está relacionada à formação do docente que nem sempre garante autonomia em seu saber e na sua competência técnica, porque a realidade do ensino no Brasil não aponta para a existência de inspeção escolar e, portanto não há fatores coercitivos para o cumprimento rigoroso do programa. Também Perrenoud (1993, p.63) refere-se a uma situação característica da prática docente a administração do tempo das atribuições, afirmando que além de ter de repartir o tempo entre todos os alunos, o professor tem ainda que decidir em relação à repartição do tempo entre os assuntos mais prementes e à importância dos problemas de cada aluno. Em acordo com o supracitado autor: Na sala de aula, o professor faz lembrar um maestro que dirige uma orquestra na qual alguns músicos não dominam completamente a partitura ou nem sempre têm vontade de a respeitar. Um maestro que, deveria por vezes improvisar, devido a não ter uma orquestração acabada. Um maestro que deveria não apenas mandar os músicos tocar em conjunto, mas também convencer alguns deles do interesse da música e da sua pertença à orquestra. (Perrenoud,1993, p. 62) Este convencimento é fundamental no trabalho de prevenção ao uso de drogas, o qual deverá estar sempre voltado para as características do aluno com suas experiências e subjetividades, possibilitando que o conhecimento se torne significativo, antes que possa se tornar crítico, segundo a idéia de Giroux in MacLaren (1997, p. 248). Inúmeros e intrincados são os motivos que levariam o professor a demonstrar segurança ou insegurança na abordagem da temática das drogas, mesmo porque o assunto é ainda considerado tabu e inibidor por muitas pessoas, no entanto, o domínio do conteúdo é fundamental e pode garantir segurança necessária para esclarecer os alunos, a par de outras dificuldades pessoais. Gimeno Sacristán (1998, p. 184), respalda o anteriormente expresso:

8 8 Indubitavelmente, a primeira base intelectual de um profissional do ensino é o domínio, em um certo nível, da área ou da disciplina em que desenvolve sua atividade. Mas não de um domínio indiscriminado fruto da mera acumulação de estudos, pesquisas e perspectivas diversas, e sim acerca das bases desse conteúdo, sua estrutura substantiva e sintática, sua significação educativa, sua dimensão social e histórica. Ainda, esse autor (p.186) refere-se ao papel do professor como mediador da aprendizagem, afirmando que a postura que ele assume frente ao conhecimento irá condicionar a qualidade da aprendizagem e a atitude básica do aluno frente ao saber e à cultura, julgando relevante a formação docente. O medo surge como um dos fatores que podem dificultar, ou mesmo impedir o trabalho de prevenção ao uso de drogas, O tráfico de drogas é meio de subsistência de algumas famílias, sendo que, em alguns bairros, a situação é comum e os professores têm medo de se envolver, o que pode ser melhor explicitado através do relato das professoras entrevistadas: Os alunos são proibidos pela família de tocar nesse assunto, quando tem um tio, um irmão, um familiar envolvido com drogas, e é uma coisa que aqui no bairro amedronta muito que é o tráfico e isso a gente sabe que alguns dos nossos alunos da escola, não digo da minha classe, estão envolvidos na questão do tráfico. (professora T) É difícil porque eles até na aula estão drogados, mas tu não podes te envolver porque eles dizem que é mentira, tem essa parte, o medo e tu não quer te envolver que depois na hora da saída do colégio, esse é que é o medo, muitas vezes tu deixa passar pra não te envolver. (professora L) Há indícios, através das respostas das entrevistas, de que fatores econômicos e sociais contribuem para o consumo e o tráfico de drogas. O relato de algumas professoras, como a seguir, confirmam: Parte dos alunos da escola é de um nível bem baixo...tu tiras as tuas conclusões quando tu começas a conhecer a família, que são pessoas que não têm emprego. Tu sentes que elas estão tendo ajuda de alguém, onde ninguém trabalha naquela família, tu sentes que o teu aluno está usando drogas. Tu chamas a família e vês que aquela família tem uma alimentação mais ou menos, vem com umas vestes mais ou menos... que ajuda tem? Aí começa a te fugir, começa a escapar das tuas mãos, então tu começas a pegar medo. ( professora K)

9 9 Através do relato dos professores entrevistados foi constatada a dificuldade de integração da escola com a família para tratar de problemas como a utilização de drogas, entre outros. De acordo com as palavras de uma das professoras, a escola busca solução aos problemas integrando-se ao contexto familiar, mas nem sempre recebe apoio dos familiares. (professora F) A equipe do Projeto Drogas da FURG, quando convidada a participar de discussões sobre drogas nas escolas, onde os pais são convidados, constata que poucos deles se fazem presentes, e, os poucos que comparecem, normalmente, não têm ainda problemas relacionados ao consumo de drogas com seus filhos. O binômio família-escola é fundamental no processo de prevenção ao uso de drogas, mas para que esta parceria se efetive, muitas são as dificuldades enfrentadas, tanto nas escolas brasileiras como nas portuguesas, conforme afirmativa que consta no guia dos professores do Projecto Vida Lisboa (1998, p. 4): Por vezes é difícil estabelecer este diálogo com os pais, muitos deles habituados a receber da escola a listagem das negativas e os relatórios dos comportamentos inadequados dos filhos. Esta é uma prática de muitas escolas e uma postura de inúmeros professores que dão ênfase ao erro, aos aspectos negativos, ao invés de salientar aqueles que servirão de alicerce, de estímulo e possibilitarão o desenvolvimento da auto-estima e conseqüentes possibilidades de sucesso. A questão da auto-estima é fundamental para a formação de um indivíduo que valorize a sua própria vida, desenvolvendo mecanismos para resistir à oferta massiva da droga. A fala de uma das professoras entrevistadas, revela fatores inerentes à própria personalidade e remetem à necessidade de que os professores possam ser trabalhados no sentido de superar suas dificuldades. Assim se expressa a professora A: As dificuldades são próprias da gente, mesmo com as dificuldades de falar sobre essas coisas, eu realmente tenho dificuldade, porque eu não me sinto bem. Ah, o que é que eu vou dizer, não quero falar demais porque parece que a gente tá despertando curiosidade em quem está usando, falar demais no sentido de proibir, parece que a gente está menosprezando ou querendo escantear aquele que pode se sentir, e por sua vez desaparecer ou tu perder o contato com aquele aluno. Então, as dificuldades são minhas, tá? (professora A) Com respeito aos fatores que facilitam o trabalho de prevenção ao uso de drogas na escola, foram citados: o incentivo da direção da escola e a coerência em suas

10 10 posturas, promoção de encontros e debates, cursos de capacitação, a assessoria do Projeto Drogas da FURG, a formação de uma rede, entre as escolas, para difusão do trabalho de prevenção ao uso de drogas. A afirmação de vários professores entrevistados sobre o apoio da direção da escola, como fator de facilitação à ação preventiva é muito expressiva. As palavras de uma professora confirmam a importância do apoio e o estímulo que a direção da escola pode provocar: Agora teve, em Porto Alegre, esse Congresso Internacional de Drogodependência, nós batalhamos pra ir, acho que foi muito positivo,... a gente viu que a gente tá mais ou menos encaixados ali dentro, seguimos sem querer na intuição e com todas as informações que o projeto da Universidade nos deu, e nós seguimos os passos realmente básicos para a formação... (professora H) Os professores cobram da direção da escola a responsabilidade na tarefa de prevenção ao uso de drogas, afirmando que a mesma pode facilitar o processo, abrindo espaços obrigatórios de discussão....pela primeira vez eu estou achando que tem que se partir da direção, porque se partir da direção é mais fácil os outros aceitarem, olha aqui, não que seja imposição, não é esse o caso, mas é uma questão de abertura e entendimento da necessidade disso aí. A direção é aberta, vai aceitar isso aí, só não entendeu a importância. No momento que ela entender o seu papel dentro da escola, vai abrir espaços obrigatórios de discussão, porque senão discutir isso, nós jamais vamos trabalhar em conjunto, e assim, o que um professor faz, o outro desfaz, brincando, mas desfaz: Mas uma cerveja só, não faz mal a ninguém, é bobagem isso, são coisas desse tipo que a gente precisa tomar uma atitude única na escola, eu posso até fazer na minha vida de outra forma, mas ali eu tenho um papel a desenvolver... (professora E) A coerência entre o discurso da direção e posturas assumidas em relação a problemas relacionados ao consumo de drogas por parte dos alunos é registrada por professora de uma das escolas mais engajadas no projeto de prevenção. A esse respeito ela faz referência a uma festa característica da cultura alemã, que acontece anualmente em uma cidade colonizada por alemães. Vários alunos desta escola organizaram uma excursão para participar da festa, onde o consumo de álcool, particularmente de cerveja

11 11 é estimulado e solicitaram à direção que as provas de avaliação de conteúdos fossem prorrogadas, o que foi negado, fato expresso na fala de uma das professoras: A escola não pode ser incoerente, então, se ela tem um projeto interno, que é contra qualquer tipo de droga, e dá o valor à vida, como é que a escola vai apoiar um grupo de alunos que vão para uma festa que tu sabes que não vão beber guaraná? Agora, se eles saem para uma excursão cultural em nome da escola, é diferente. Foi relatado que a atitude tomada pela escola não teve a compreensão e aceitação dos pais. O que nos preocupa é que a família apóia, e, se a família apóia seus filhos na participação de uma festa como essa, a escola fica limitada. A escola entra em choque com a família. (professora G) Palavras de outra professora entrevistada revelam a necessidade do apoio da direção em relação às suas atitudes: Existem momentos que certas famílias, no momento que tem o primeiro contato comigo, parece que se afastam, param de vir conversar. Tu sentes que existe alguma coisa ali, e me dá realmente um pouquinho de medo. Então é o momento que eu paro e fico pensando, será que eu tenho que continuar, será que eu sozinha não estou correndo risco? Então eu converso com a direção e pergunto até que ponto eu posso seguir, se nesse momento em que a família tinha que estar do meu lado, ela começa a se afastar, o que é que está acontecendo? A família está envolvida também? (professora J) Esta questão deve ser destacada, no sentido de que a equipe do Projeto atue mais direta e especificamente sobre os responsáveis pela administração da escola, para que possam se conscientizar da importância da prevenção às drogas em suas escolas. A busca de líderes dentro do ambiente escolar é outra via de atingir um maior número de professores. No entanto, o mais importante é a disposição interna do professor para realizar o trabalho de prevenção às drogas e decorrente tomada de decisão de realizá-lo, conforme Giesta expressa:...torna-se claro que o fazer, a rotina, a omissão, as lacunas, as contradições representam decisões que o professor, consciente ou inconscientemente, toma no dia-a-dia, às vezes como forma de poder explícito, outras como submissão, ou ainda, como resistência às condições que lhe são oferecidas e que não consegue ou não se dispõe a transformar. (Giesta,1994, p.25)

12 12 Muitas vezes, o professor se vê impotente para tomar decisões sobre problemas relacionados ao uso indevido de drogas. Com o espaço-tempo necessário e adequado para realizar o trabalho preventivo junto aos seus alunos, só precisa tomar a decisão. Criar situações para que os adolescentes descubram alternativas - que não o uso de substâncias psicotrópicas - para a resolução de seus problemas existenciais é importante passo a tomar na prevenção ao uso de drogas. Um dos fatores facilitadores à tarefa de prevenir o uso de drogas por escolares, enunciado por todos os professores entrevistados atingidos pelo Projeto Educativo e Preventivo sobre Drogas Psicotrópicas da FURG foi a assessoria dada pela equipe técnica do Projeto. O fato do Projeto Drogas ser da Universidade garante a credibilidade às informações dele derivadas. A seguir, palavras expressas por professoras entrevistadas: A importância que eu vejo no projeto da Universidade, é essa relação que o projeto tem com as escolas. É credenciar, ajudar a superar os medos, ajudar a superar até um temor que o professor geralmente tem, o que é que os pais vão dizer, como é que a gente vai falar sobre isso, tem uns que estão com problemas e outros que nem sabem e a gente vai alertar...(professora L) Outro fator que contribui, certamente, para a difusão e incentivo do trabalho de prevenção ao uso de drogas nas escolas, foi claramente expresso por uma das professoras entrevistadas onde a ação preventiva às drogas é intensa é a de que haja um intercâmbio entre as escolas, no sentido de que umas auxiliem e incentivem as outras a não desistir da caminhada. O Projeto Drogas já promoveu dois Encontros das Escolas para a Prevenção ao Uso Indevido de Drogas, onde foram apresentadas as experiências realizadas em cada uma delas. Foi uma ocasião importante e produtiva que já foi institucionalizada, no entanto, face à constatação expressa por vários professores entrevistados sobre a necessidade de apoio constante, tanto por parte do Projeto, quanto da direção, pais e colegas, será importante desenvolver atividades inter-escolares, mais freqüentemente. Interessante o relato de uma das professoras entrevistadas:...muitas vezes as pessoas, pela pressão, pela falta de reconhecimento, acabam deixando a idéia morrer e não perseguem os seus sonhos, então nessas escolas onde o projeto já esteve e que a coisa não cresceu e nessas escolas onde ele

13 13 está e a coisa está surgindo, que elas se unam, se ajudem e montem uma rede e vão ver que a coisa é mais fácil, é aquela velha história: o sonho que se sonha só, pode não acontecer e o sonho que se sonha junto ele é uma realidade, então eu acho se as escolas nesse momento perceberem a seriedade do que a gente tá vivendo, vão ver que a gente precisa se somar e aqueles que abandonaram o seu sonho lá atrás, chamem a equipe do projeto de novo, reavivem essa chama, nós tivemos a experiência aqui na escola, teve uma vez que a coisa não cresceu, voltou e frutificou. (professora M) Outros aspectos que emergiram das entrevistas Os problemas decorrentes do alcoolismo afetam a vida familiar e a escolar. Constatou-se, nas entrevistas realizadas com professores de uma mesma escola, a interferência que os problemas decorrentes do alcoolismo causam à família e no rendimento escolar. Alguns aproveitam algumas situações rotineiras para abordar o assunto. Sempre depois do lanche eu limpo as mesinhas com álcool para tirar os melados, e eles gostam de cheirar o álcool, então eu já chamo a atenção que o álcool faz mal para gente, eu procuro afastá-los e eles comentam, o meu pai gosta. (professora R) A maioria dos pais são aqui do bairro e são alcoólatras e a gente entra mais na parte do alcoolismo, na bebida, já que eles são pequenos, as vezes nunca demonstram interesse em relação à maconha, ao craque, essas coisas, é mais bebida alcoólica que os pais bebem muito e agridem eles. (professora S) As barreiras que existem em escolas onde o projeto pedagógico preconizam o técnico em detrimento dos valores humanos. Eu acho o Projeto Drogas deve chegar mais lá na escola, porque eu sei que vocês tentam e recebem uma barreira. A barreira é tão grande, que basta chegar um papel que diga que é para a direção e vem ali o símbolo do Projeto Drogas, que ele já é encaminhado para o meu escaninho, sem nem abrir. Então eu acho que tem que acreditar que é possível mudá-los, embora eles sejam turrões, porque são técnicos, é falta de formação deles, é falta de formação humana. Como eles foram trabalhados muito na parte técnica eles querem um bom apertador de parafuso, um bom mexedor de televisão, e se esquecem que tem outros valores. ( professora D)

14 14 As contradições entre o discurso e a prática. Uma coisa que eu percebo, é que há alguns alunos que tem contato com a droga, e que no momento em que eles tem que se posicionar, eles se posicionam completamente contra as drogas, então essa é uma dificuldade que eu sinto, eu não entendo como é que ele é tão contra as drogas, e ao mesmo tempo ele continua a utilizar porque a gente sabe, isso aí eu já percebi muito até em textos, eles tem um discurso muito bonito, mas na prática o que a gente vê é outra coisa. (professora C) A necessidade de uma frente solidária, consciente, organizada, intencional e comprometida com a prevenção ao uso indevido de drogas psicotrópicas....não é a coerção que vai dar conta disso, mas é uma mudança de comportamento, é uma postura do adulto, da escola, das instituições frente ao problema, porque pra aliciar, pra atrair para as drogas tem uma organização espontânea e quase que irresistível pra maioria dos jovens. Agora pra mostrar o lado correto, enfim pra afastá-los do risco de assumir esse vício, nós não somos organizados, porque como eu disse antes, a gente lida com preconceitos, com falta de informação. (professora T) Os modelos positivos dos pais e professores são fundamentais para a formação de uma postura de negação às drogas.... não se trata de responsabilizar o professor por mais isso, mas de ser um compromisso de todos e pra gente ter êxito na nossa proposta ela tem que ser muito ligada ao próprio depoimento, é uma questão da postura, porque não adianta dizer pro aluno não faz, a gente não pode fazer, então se eu quero trabalhar no sentido de prevenir o uso de drogas, primeira coisa: eu não posso mentir, eu não posso negar o problema, eu tenho que tratar o problema como um problema social, como a questão da moradia, da falta de alimentação,... (professora C) As falas transcritas revelam, através da investigação da realidade, os graves problemas sociais que o consumo abusivo de drogas provoca. Este desvendamento do real é importante, no sentido de estimular a reflexão sobre o problema, de desafiar os professores a modificar o rumo da trajetória das drogas. E uma das melhores formas de proteger os estudantes da dependência é a prevenção através da educação. Os resultados obtidos através desta investigação provocam a reflexão sobre aspectos significativos acerca do assunto em foco, que servirão de base para o

15 15 aprofundamento de questões referentes à prevenção de drogas nas escolas do município do Rio Grande. Os depoimentos analisados permitem concluir sobre a consciência da responsabilidade dos professores, neste processo; o que falta para muitos é a disposição, a iniciativa, o conhecimento, a superação de suas dificuldades, a coragem para realizar o trabalho de prevenção ao uso de drogas psicotrópicas. O engajamento dos professores a qualquer proposta de trabalho exige vontade, disposição, motivação, compromisso político. Os dados das entrevistas confirmam a hipótese de que fatores de ordem pessoal, social e/ou político-profissionais interferem na ação preventiva realizada no âmbito escolar e apontam para a necessidade de que os professores sejam capacitados de forma intensiva e continuada, concluindo-se sobre a importância da escola ser o pólo aglutinador de propostas de prevenção ao uso indevido de drogas. Ações organizadas e conjuntas são fundamentais para que os resultados da prevenção sejam otimizados, bem explicitado por uma das professoras entrevistadas ao afirmar que para aliciar para o uso de drogas existe uma organização espontânea e irresistível, no entanto, para prevenir o consumo indevido de psicotrópicos as pessoas não se organizam. Estudar o trabalho de prevenção às drogas no âmbito da escola é um meio que facilita sobremaneira a compreensão do fenômeno drogas na sociedade em geral, o que ficou claramente evidenciado através do relato dos professores em relação às situações familiares dos alunos e ao contexto da própria comunidade onde está inserida a escola. Os depoimentos dos professores desvendam e comprovam o que a literatura nacional e internacional vem afirmando sobre a importância de que toda a proposta preventiva ao uso indevido de drogas não deve considerar a substância em si, mas o indivíduo, com suas singularidades próprias e o contexto ambiental. Urge que o professor se conscientize do papel que desempenha na prevenção ao uso de drogas e que o realize de forma continuada. No entanto, primeiramente, ele tem que se situar frente à problemática, colocar-se verdadeiramente no contexto, compreender o problema em suas mais profundas raízes, e perceber-se como peça de uma engrenagem complexa, problematizando o seu papel diante da questão, porque se não estiver consciente das implicações de suas ações poderá corroborar aquilo que supostamente deseja atacar.

16 16 Referências bibliográficas CARLINI-COTRIM, Beatriz ; ROSEMBERG, Fúlvia. Drogas : prevenção no cotidiano escolar. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, n. 74, agosto.p.40-46, CARLINI, E.A.; GALDURÓZ. J. C. F. ; MATTEI, Rita ; NAPPO, Solange ; NOTO, A. R. II levantamento sobre o uso de drogas entre meninos e meninas em situação de rua de cinco capitais brasileiras Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas-CEBRID. Escola Paulista de Medicina - Departamento de Psicobiologia, FERIS, Elisabeth Schmidt. A mediação pedagógica na prevenção ao uso de drogas psicotrópicas. Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela, Tese de Doutorado. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 2 ed. São Paulo: Atlas, GIMENO SACRISTÁN, J. O Currículo: uma reflexão sobre a prática. 3 ed. trad. Ernani F. da Fonseca Rosa. Porto Alegre: Artes Médicas, GIESTA, Nágila Caporlíngua. Tomada de decisões pedagógicas no cotidiano escolar. Porto alegre: UFRGS, Dissertação de Mestrado. Formação, concepções e ações profissionais do docente bem-sucedido: análise das representações e práticas no ensino médio. Porto Alegre: UFRGS/FACED, Tese de Doutorado. LÓ, Alcina Branco (Coord) Prevenir a brincar. 3 ed. Projecto VIDA, Lisboa: HGL Lda, abril/1998. McLAREN, P. A vida nas escolas. Trad. Lucia Pellanda Zimmer et al. 2 ed. Porto Alegre: Artes Médicas, ORTEGA, FÉLIX. Unos profesionales en busca de profesion. Educación y Sociedad, Madrid, n.11, p. 9-21, PERRENOUD, Philippe. Práticas pedagógicas, profissão docente e formação: perspectivas sociológicas. Trad. de Tapada, H. et al. Lisboa: Publicações Dom Quixote, SINNOTT SILVA, E.; AMARANTE SILVA, F. e equipe técnica do Projeto. II estudio sobre uso de psicotropicos entre estudiantes de 1 o e 2 o grados en Rio Grande(RS)-Brasil. Boletin de la Asociacion Colombiana de Farmacologia, 5(2):91, SNYDERS, Georges. A alegria na escola. São Paulo: Manole Ltda, 1988.

17 17 PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS: FATORES INTERVENIENTES À AÇÃO DOCENTE Elisabeth Schmidt Feris Universidade Federal do Rio Grande - FURG Palavras chaves: educação; formação de professores; prevenção ao uso de drogas Resumo O presente estudo descreve pesquisa realizada junto a escolas do ensino fundamental e médio do município do Rio Grande, visando a detectar os fatores que facilitam, dificultam e/ou impedem o trabalho de prevenção ao uso indevido de drogas dos docentes atingidos pelo Projeto Educativo e Preventivo sobre Drogas da FURG. O professor, elemento mediador que promove a veiculação do conhecimento sobre drogas ao foco da prevenção o aluno, está realizando seu trabalho preventivo em sala de aula? Quais as dificuldades e incertezas, conscientes ou não, que tal tarefa acarreta? Entre os professores entrevistados, vários fatores que dificultam a ação preventiva foram citados, como: o medo, quando os familiares ou mesmo alunos são usuários ou traficam drogas, sentimento de impotência, preconceitos, deboche dos colegas, influência negativa de professores usuários de drogas, receio de que os pais julguem que estão alertando para o problema, dificuldades inerentes à própria personalidade, insegurança, falta de tempo, em função da obrigação em desenvolver o conteúdo, receio de que os pais não aceitem que o assunto drogas seja abordado em sala de aula. Com respeito aos fatores que facilitam o trabalho de prevenção ao uso de drogas na escola, foram citados: o incentivo da direção da escola e a coerência em suas posturas, promoção de encontros e debates, cursos de capacitação, a assessoria do Projeto Drogas da FURG, a formação de uma rede entre as escolas, para difusão do trabalho de prevenção ao uso de drogas.

18 18 Os dados das entrevistas confirmam a hipótese de que fatores de ordem pessoal, social e/ou político-profissionais interferem na ação preventiva realizada pelo professor. Conclui-se sobre a necessidade de ações organizadas e conjuntas para que os resultados da prevenção sejam otimizados, bem explicitado por uma das entrevistadas ao afirmar que para aliciar para o uso de drogas existe uma organização espontânea e irresistível, no entanto, para prevenir o consumo indevido de psicotrópicos as pessoas não se organizam. Estudar o trabalho de prevenção às drogas no âmbito da escola é um meio que facilita sobremaneira a compreensão do fenômeno drogas na sociedade em geral, o que ficou evidenciado através do relato dos professores em relação às situações familiares dos alunos e ao contexto da própria comunidade onde está inserida a escola. A consciência da responsabilidade do professor, neste processo, revelou-se na fala da maioria dos professores entrevistados; o que falta para muitos é a disposição, a iniciativa, o conhecimento, a superação de suas dificuldades, a coragem para realizar o trabalho de prevenção ao uso de drogas psicotrópicas. Os resultados obtidos, através deste processo de investigação, provocam a reflexão sobre aspectos significativos acerca do assunto em foco, que servirão de base para o aprofundamento de questões referentes à prevenção de drogas no âmbito escolar. O presente trabalho possibilitará tomadas de decisões referentes à atuação do Projeto Educativo e Preventivo sobre Drogas da Universidade Federal do Rio Grande - FURG nas escolas do município do Rio Grande.

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