PARECERES DO CONSELHO TÉCNICO

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1 PARECERES DO CONSELHO TÉCNICO Proc. Nº 82/92 - Registo de fusão - modo de efectuar o registo - valor do acto para efeitos emolumentares 1 - No dia 28.FEV.92, no 12º Cartório Notarial de Lisboa, foi outorgada a escritura de fusão, na modalidade de fusão por incorporação, de três sociedades comerciais com sede nesta cidade. Participaram, como sociedade incorporante, a "Proherre Internacional - Sociedade Imobiliária, Limitada" e, como sociedades incorporadas, a Sociedade Cinematográfica Tivoli, Limitada e a Dias Garcia, Limitada. Pedido o cancelamento da Tivoli na 3ª Secção da Conservatória do Registo Comercial de Lisboa (após ter sido requerido na 1ª Secção, o registo respeitante à Dias Garcia), foi convolado o pedido para inscrição e cobrada a título de preparo inicial a importância de 2 100$00. O registo veio a ser lavrado como provisório por dúvidas, tendo, porém, algumas semanas mais tarde, sido convertido em definitivo. 2 - A questão que se levanta diz respeito à cobrança dos emolumentos. O Sr. Conservador entende dever ser lavrada uma inscrição, calculando os emolumentos sobre valor determinado, apurado segundo o capital social da Tivoli. Isto levou- a que fosse liquidada a quantia de $00, como se se tratasse de um registo de dissolução de sociedade (dissolução em consequência da fusão), nos termos dos artigos 1º, nºs 2 e 3, e 14º, nº 1, da Tabela de Emolumentos - pelo que, feita a inscrição, foi exigido o complemento de preparo de $00. A recorrente defende que não se trata de inscrição de valor determinado. Sendo certo que a natureza jurídica da fusão continua a merecer desencontradas opiniões dos autores, parece-lhe, contudo, poder afirmar-se que existe unanimidade quanto a um ponto: a fusão é um acto jurídico complexo nos seus efeitos, que envolve a extinção da sociedade absorvida e a continuação da sociedade absorvente, modificada pela sucessão universal nos bens e nos sócios da absorvida. Tal complexidade, porém, não deve fazer esquecer a unidade da fusão como processo de concentração de empresas. O legislador poderia ter regulado a fusão como figura autônoma e, então, os resultados pretendidos poderiam ser alcançados mediante a dissolução e liquidação de uma sociedade e o aumento de capital da outra, com a entrada de novos sócios e os respectivos elementos patrimoniais. Mas não o quis, sendo inquestionável que a fusão envolve a extinção das sociedades incorporadas, sem que se possa falar de dissolução em sentido próprio. Acresce que, seguindo o parecer nº 14/86 do Conselho Técnico, a disciplina jurídica de fusão - como meio de regular uma sucessão universal - assume-se "como uma transferência dos efeitos do registo mediante novo registo. Não se trata, parcelarmente, dos registos de dissolução e liquidação e de uma alteração do pacto, mas unitariamente, do registo da fusão, em si mesmo, com as legais consequências". Em resumo, do que se trata, afinal, é de uma transferência dos efeitos do registo, e não da sua extinção, por caducidade ou cancelamento". A luz do exposto, parece poder afirmar-se que estamos perante um acto ue na terminologia da Tabela reveste valor indeterminado". Não colhe o argumento da "proximidade" do efeito extintivo da fusão relativamente à dissolução da sociedade, por forma a legitimar a aplicação do referido artigo 14º. Com efeito, o artigo 24º da Tabela proíbe qualquer interpretação extensiva (ou, por maioria da razão, a aplicação analógica). A interpretação defendida corresponde, aliás, ao que a doutrina tem vindo a afirmar relativamente ao registo de fusão. 3 - O Conservador, por sua banda, sustenta que a fusão por incorporação conduz à extinção da sociedade incorporada - artigo 112º, al. a), do Código das Sociedades Comerciais (CSC). Portanto, o acto tem valor determinado: o do capital da sociedade extinta ou o do seu património, se superior - artigo 13º da Tabela. Esta extinção é especial, pois se a sociedade desaparece enquanto pessoa jurídica autónoma, subsiste integrada na incorporante, verificando-se a transferência dos seus direitos e obrigações para esta. Assim, também deste ponto de vista, tal transferência tem valor determinado - o do capital da incorporada ou do seu património, se superior. A fusão de sociedade é um processo simultaneamente complexo e unitário que implica tantas inscrições de fusão quantas as sociedades envolvidas, tendo ca a uma destas inscrições a sua tributação própria - artigo 150º, nº 1, do Código do Registo Predial (CRP) e artigo 115º do Código do Registo Comercial (CRC). A tributação respeitante à incorporante far-se-á de uma das seguintes formas, consoante mantenha ou reforce o capital: se mantém, o acto é de valor indeterminado, não havendo emolumento variável a cobrar; se reforça, pagará o acto de acordo com o aumento verificado. Isto, considerando para ambos os casos que a haver qualquer alteração do contrato se aplicarão as regras próprias da Tabela - artigos 2º e 14º. Cumpre apreciar e tomar posição emitindo parecer. file:///c /Documents%20and%20Settings/Admin/Ambiente%20de%20trabalho/BRN_ /1995/par_3_1995.htm (1 de 7) [ :49:26]

2 4 - A questão que se põe não se reconduz simplesmente à de saber se uma inscrição deve ser considerada acto de valor determinado, como sustenta o Sr. Conservador, ou indeterminado, como pretende a recorrente. Antes desta questão (ou em vez dela), está a da própria espécie de registo que deve ter lugar nas conservatórias da sede das sociedades incorporadas. O parecer proferido no Pg 14/86-R.P.3, no domínio de legislação anterior, apesar de não se destinar a resolver a questão emolumentar, tem a ver com o assunto em tabela, na medida em que pretendeu caracterizar tabularmente a figura jurídica da fusão. Nele se defendeu que a fusão é um acto jurídico complexo, cujo registo - no caso que nos ocupa, da fusão por absorção ou incorporação - leva à extinção da sociedade absorvida e à modificação da sociedade absorvente. A existência desta continua, com as alterações decorrentes da sucessão nos bens e no sócios da absorvida. Acrescenta-se que a unidade da fusão, como figura jurídica autónoma no processo de concentração de empresas, conduz à simplificação deste e à rejeição da ideia de simples liquidação de uma sociedade (ou mais), com o aumento, em geral, do capital de outra, e a entrada de novos sócios. Donde, a consequência de que disciplina jurídica da fusão se assuma como o meio de regular uma sucessão universal - um "ens medium" entre transformação e dissolução, no dizer de Pinto Furtado - e se traduza na transferência dos efeitos do registo mediante novo registo. Não se trata, parcelarmente, dos registos da dissolução e liquidação e de uma alteração do pacto, mas, unitariamente, do registo da fusão em si mesma. A extinção das sociedades absorvidas pela fusão não resulta de uma pura e simples dissolução (e liquidação e partilha), mas da absorção ou incorporação. E caso para se dizer, em síntese, que, enquanto, por um lado, se extinguem as sociedades registadas, por outro lado, se transferem, não se extinguem, os efeitos do registo. 5 - Como salienta Raul Ventura, "tudo aponta para que o registo relevante seja o relativo à sociedade incorporante ou à nova sociedade". Em qualquer das modalidades que a fusão pode revestir, o complexo processo de registo da fusão compreende a inscrição do projecto e a inscrição da fusão - artigo 3º, als. p) e q) do CRC. Só que, enquanto a inscrição do projecto diz respeito a todas e cada uma das sociedades envolvidas no processo - sendo-lhe depois averbada a posterior aprovação desse mesmo projecto, nos termos do artigo 69º, 1, f), do CRC - a inscrição da fusão apenas tem lugar na conservatória da sede da sociedade resultante da fusão. Quanto às outras, não importa mais do que lavrar, oficiosa e gratuitamente, o averbamento à matrícula, de cancelamento desta, que é a tradução tabular da extinção da sociedade como resultado da fusão - artigo 14º, 1, c), do Regulamento do Registo Comercial (RRC). 6 - Esta é a doutrina firmada já no parecer constante do pº 49/90-R.P.4 deste Conselho Técnico e que aqui reiteramos. Ainda no pensamento de Raul Ventura, é indispensável que os efeitos da fusão, que se produzem pelo registo - artigo 112º do Código das sociedades Comerciais, ocorram num só momento, por um só registo. O contrário daria lugar a sociedades já extintas mas ainda não incorporadas, a sociedades fundidas extintas sem estar registada a nova sociedade resultante da fusão, a patrimónios sociais que são res nullius. É pois inconcebível que a realização e os efeitos da fusão se fraccionem conforme os registos nas várias Conservatórias, ou seja, que uma operação unitária em que participam várias sociedades seja despedaçada, aparecendo eficaz aos bocados, numa confusão em vez de fusão. Depois de registada a fusão há que conjugar esse registo com os registos a efectuar relativamente às sociedades extintas, de modo a que todos produzam efeitos ao mesmo tempo e terceiros não sejam enganados pela subsistência temporária de alguns deles. 7. Segundo o sistema adoptado no artigo 13º do Decreto-Lei nº 598/73, a inscrição definitiva da fusão era requerida na Conservatória da sede da sociedade incorporante ou da nova sociedade resultante da fusão, mediante declaração de que não fora deduzida oposição no prazo legal à deliberação da fusão ou, se deduzida, fora rejeitada por sentença transitada em julgado, e, no caso cie haver sócios prejudicados, de que eles tinham dado o seu consentimento à deliberação da fusão. Essa declaração era necessária, porquanto aquela oposição (artigo 12º) e a existência de sócios prejudicados não consentidores (artigo 6º, nº 3) impediam o registo definitivo da fusão, impedimentos que o Código das Sociedades Comerciais continua a manter actualmente nos seus artigos 108º e 103º, nº 2, respectivamente. E efectuada a inscrição definitiva de fusão, o conservador devia promover oficiosamente o cancelamento das matrículas das sociedades extintas por motivo da fusão. E este o sistema que, ainda segundo o referido parecer, também se impõe actualmente, articulando a inscrição da fusão na conservatória da sociedade incorporante com as inscrições do projecto nas conservatórias das incorporadas. 8. Nos casos em que todas as sociedades participantes são sediadas na área de competência da mesma conservatória, é materialmente possível efectuar simultaneamente todos os registos: na hipótese da fusão por file:///c /Documents%20and%20Settings/Admin/Ambiente%20de%20trabalho/BRN_ /1995/par_3_1995.htm (2 de 7) [ :49:26]

3 incorporação, a inscrição da fusão; na hipótese da fusão ser por constituição de nova sociedade, a inscrição do contrato de sociedade; e ainda, seja qual for a modalidade da fusão, os averbamentos de cancelamento das matrículas das sociedades extintas. Este procedimento não põe em causa o princípio da instância, na medida em que o pedido de registo da fusão contém o de todos os actos de registo decorrentes de todo incindível que implicitamente a fusão constitui e no qual se inclui a extinção das sociedades fundidas. Nos casos em que as sociedades participantes são sediadas em áreas da competência de conservatórios distintas, há que considerar as duas fases do processo: a realização da inscrição definitiva da fusão, e, depois desta inscrição efectuada, o reflexo tabular da extinção das sociedades incorporadas ou fundidas. No que diz respeito à primeira, para satisfazer a necessidade de o registrador conhecer a situação registral das sociedades fundidas, haverá que instruir o pedido do registo da fusão com certidões (emitidas pelas respectivas conservatórios) dos competentes registos do projecto de fusão, com o averbamento da deliberação que o aprovou. Quanto à segunda fase, efectuada a inscrição de fusão, o conservador de imediato extrairá dela certidões que enviará às conservatórios das sociedades incorporadas ou fundidas, para nestas se cancelarem as matrículas, nos termos indicados. Donde resulta que a questão emolumentar não se che a a por, ao nível das sociedades incorpora( s, por isso que a inscrição de fusão não tem aí lugar. Não havendo inscrição, não há o correspondente emolumento, nem variável, nem fixo, enquanto que são gratuitos, por dependentes, os averbamentos à matricula. 9. Mas vale ainda a pena contemplar a problemática do registo ao nível da sociedade incorporante, prescrutando os seus reflexos em termos de incidência emolumentar nas diversas hipóteses possíveis. Posto que o registo da fusão se faz por inscrição, importa verificar qual o valor do facto inscrito para efeitos emolumentares. Geralmente falando, para o apuramento do valor do facto registado é determinante o capital da sociedade, quando estiver em causa o próprio contrato ou a sua alteração (artigos 13º, nº 1, e 14º, nº 1, da TERC). O mesmo é dizer, no âmbito do registo de fusão, que o capital da sociedade resultante é tido em conta na inscrição inicial desta sociedade, nos termos do nº 1, 1" parte, do artigo 14º da Tabela, ou da inscrição de alteração (na fusão por incorporação), nos termos dos nºs 2 e 3 do mesmo artigo 14º. Importa, porém, distinguir duas situações: se a alterarão se limitar a nova redacção dos artigos o contrato referentes ao quantitativo do capital e à sua distribuição, o valor do facto será o do aumento; se, além do aumento de capital, houver alteração de quaisquer cláusulas do contrato, atender-se-á ao valor do aumento ou da alteração, conforme o que produzir maior emolumento, segundo as regras dos artigos 1º e 2º da Tabela. 10. E se da fusão por incorporação não resultar o aumento do capital da sociedade incorporante? Isto pode muito bem suceder como nota E. Ferreira de Almeida, Regesta, 1987, p se o activo e o passivo da sociedade incorporada se equivalerem e, maxime, se este for superior àquele ou até se a sociedade incorporante, por qualquer razão, não tiver interesse em ver aumentado nominalmente o seu capital. O autor diz que, mesmo em tais hipóteses, o valor da fusão, para efeitos emolumentares, será ainda o do capital nominal da sociedade incorporada. A justificação é a de que "seria absurdo que, nada acrescentando a fusão ao património da sociedade incorporante, o valor da mesma fusão fosse o do capital desta, isto é, o do capital com que a sociedade incorporante fica, que é, naqueles casos, o que já possuía". Com efeito, um aumento de capital pode limitar-se à nova redacção dos artigos referentes ao quantitativo daquele e à sua alteração - e nessa medida não pode deixar de implicar a "alteração" desses artigos, traduzindo-se a fusão, económica e juridicamente, num aumento do capital da sociedade incorporante. Mas também pode acontecer que tudo fique na mesma, com os mesmos sócios e o mesmo capital social, sem nem sequer terem assim sido alterados os artigos referentes ao quantitativo do capital e à sua distribuição e então não haverá uma "alteração" de quaisquer artigos do pacto, subsumível à disciplina do artigo 14º da TERC, atento o disposto no artigo 24º (embora haja sempre uma alteração da situação da sociedade). A inscrição, nesse caso, não é de valor determinado, sendo apenas devido o emolumento fixo previsto na Tabela, e não também o emolumento (variável) que corresponderia ao "apport" do capital da sociedade incorporada. 11. Tudo isto que acontece na conservatória da sede da sociedade resultante da fusão, nada tem a ver com a cobrança emolumentar que está em causa no presente processo de recurso. De toda a maneira, se o capital das sociedades incorporadas pode relevar para a determinação do valor do facto da fusão, ao nível da sociedade incorporante, não nos parece que pudesse relevar (também) para efeitos emolumentares ao nível das próprias incorporadas, ainda que houvesse lugar a uma inscrição. Não só não se justificaria tal cobrança na perspectiva da figura complexa que é a lusào, como se assistiria a uma violação dos princípios constitucionais da justiça e da proporcionalidade, na medida em que seria arrecadado por duas vezes o mesmo emolumento, ofendendo-se, do mesmo passo, a regra non bis in idem (Constituição, artigo 266º, nº 2). file:///c /Documents%20and%20Settings/Admin/Ambiente%20de%20trabalho/BRN_ /1995/par_3_1995.htm (3 de 7) [ :49:26]

4 12. Donde resulta que nas conservatórias das sociedades incorporadas apenas uma solução se apresenta como viável: não se cobrar qualquer emolumento pelo averbamento de cancelamento das matrículas. E, por conseguinte, nosso parecer que a reclamação de conta merece ser atendida, em conformidade com o que fica exposto e se pode resumir nas seguintes conclusões: I - O registo de fusão traduz-se na inscrição inicial da nova sociedade resultante da fusão (fusãoconcentração) ou na inscrição de alteração do contrato da sociedade incorporante (fusão-incorporação). II - Pela inscrição do contrato da nova sociedade deverá ser cobrado emolumento variável nos termos do nº 1, 1ª parte, do artigo 14º da Tabela de Emolumentos. III - Idêntico emolumento deve ser cobrado pela inscrição de alteração do contrato da sociedade incorporante - fazendo-se sempre neste caso a subdistinção prevista nos nºs 2 e 3 do mesmo artigo 14º -, salvo se a inscrição da fusão não representar alteração de quaisquer artigos do contrato, caso em que não é uma inscrição de valor determinado. IV - Na conservatória da sede de cada uma das sociedades incorporadas apenas deve ser lavrado o averbamento, oficioso e gratuito, de cancelamento da matrícula. Este parecer foi aprovado em sessão do Conselho Técnico da Direcção-Geral dos Registos e do Notariado de 2 de Dezembro de Ventura José Rocheta Gomes, relatar - Maria Ferraro Vaz dos Santos Graça Soares Silva - Luís Gonzaga das Neves Silva Pereira - Maria Odete Monteiro Rabaça e Pires Coutinho de Miranda - José Augusto Guimarães Mouteira Guerreiro Este parecer foi homologado por despacho do director-geral de 4 de Dezembro de Proc. Nº Unidade da inscrição - Alterações do contrato de sociedade (aumento de capital com unificação de quotas) 1 - A sociedade "Abel Alves de Figueiredo & Filho, Lda." recorre hierarquicamente da decisão do Conservador do Registo Comercial de Santo Tirso que indeferiu a reclamação contra a qualificação do pedido a que correspondem as aps. 10/12, de O despacho de registo provisório é do seguinte teor: "Provisório por dúvidas o registo do aumento de capital, unicamente feito em virtude de somente esse haver sido pedido. E incompleta a indicação da residência dos sócios Francisco Manuel da Rocha Moreira, José António da Silva Dias, José Maria Pereira Avido. e José Ferreira Mira". Na reclamação diz a interessada que não se limitou a requerer o registo do aumento de seu capital, mas também o registo de alteração do pacto social daí decorrente, sendo por conseguinte menos exacto o que se contém no despacho transcrito: "unicamente feito em virtude de somente esse haver sido pedido". Não obsta a tal entendimento o pedido de urgência feito no dia seguinte, com respeito ao aumento de capital. Aliás, resulta da escritura pública, não só o aumento do capital social, como consequentemente, a alteração da redacção do artigo 3º do pacto social. O despacho desatendeu o pedido de registo do capital social e o da alteração, que daí emerger como necessária consequência e consta do mesmo título, sem que tivesse sido invocado qualquer dos motivos que a lei enumera taxativamente. O preparo é, de resto, suficiente e o único exigível. 2 - Apreciando a reclamação, o Sr. Conservador insiste em que unicamente se pediu o registo do "aumento de capital", como espécie dentro da alteração do pacto, o que se verifica pela quadrícula assinalada. O registo assim pedido foi lavrado como provisório por dúvidas, encontrando-se a inscrição já convertida em definitiva (ap. 1, de ). O funcionário, que fez três apresentações (sic), respeitantes a aumento de capital, unificação de quotas e alteração do contrato, fê-lo em desrespeito do princípio da instância. Qualquer desses factos está sujeito a registo autonomamente. Ao dispor que todas as alterações do contrato dão lugar a uma só inscrição, desde que constem do mesmo título, o Código tem em vista a publicidade, proporcionando uma visão global e instantânea das alterações operadas no contrato. Todavia, de todos e cada um desses factos deve ser pedido o registo; e não devem ser englobados na mesma inscrição outros factos que não sejam os especificados no nº 2 do artº 66º do Código do Registo Comercial. Constituem, assim, os nºs 1 e 2 do artigo 66º excepções ao princípio "uma relação jurídica registável, uma inscrição privativa", não consentindo a lei uma amálgama de factos, onde se incluiriam, v.g., unificação, transmissões, usufruto de quotas, autorização para que se mantenha na firma social o nome ou apelido. Conclui que não há causa de pedir, pois que, embora o registo do aumento do capital (único pedido, insiste) tenha sido lavrado provisoriamente por dúvidas, já se encontra convertido em definitivo. file:///c /Documents%20and%20Settings/Admin/Ambiente%20de%20trabalho/BRN_ /1995/par_3_1995.htm (4 de 7) [ :49:26]

5 3 - É deste indeferimento da reclamação que vem o presente recurso hierárquico. Alega a recorrente que só por mero lapso ou em resultado de leitura menos atenta terá o conservador concluído que a reclamação se insurgia contra a sua decisão de mandar Proceder ao registo provisório por dúvidas; aliás, como o próprio recorrido explica, a questão da provisoriedade está ultrapassada pela conversão do registo em definitivo. O objecto da reclamação foi a parte do despacho que traduz a recusa do registo de alteração do pacto social, quando se proclama que a recorrente unicamente pediu o re8isto do aumento do capital social. O impresso de requisição, logo na quadrícula 1, distingue apenas três grupos de actos sujeitos a registo: constituição, alteração pacto, outros actos (a especificar).no grupo que tem a ver com as alterações do pacto, o modelo enumera, a título exemplificativo, algumas alíneas: modificação de firma, alteração de objecto, aumento de capital social, outras alterações (a especificar). O grupo de actos referidos em 2º lugar tem sempre que ver com a alteração do pacto, a qual surge como consequência necessária do acto discriminado cujo registo se requer. Assinalando, quer a quadrícula respeitante ao grupo ("alteração de pacto") quer a respeitante ao acto determinativo desse grupo ("aumento de capital"), afigura- se manifesto que realmente requerido foi não só o registo do aumento, como o da alteração do pacto que tinha que ver com esse aumento. Foi ilegítima a recusa do registo de alteração do pacto, sob a invocação de que ela não lhe fora requerido; e foi dessa recusa que emergiu a reclamação. Importa ainda referir que o registo de alteração do pacto social não tem autonomia como tal. A questão, porém, foi trazida a terreiro apenas sob o aspecto emolumentar, pela consideração da eventual ausência de preparo. Estas, no essencial, as posições em confronto. Cumpre, pois, emitir parecer. 4 - O principio da especialidade (ou de determinação) é um dos princípios orientadores nos quais se consubstanciam as linhas estruturais da organização do registo. Tendo surgido no âmbito das inscrições hipotecárias, como reacção ao sistema das hipotecas gerais - dívida determinada, prédio certo -, cedo se estendeu a todas as inscrições e a todos os elementos de relação registral. Trata-se, como escreve Lacruz Berdejo, de conseguir a mais absoluta univocidade na manifestação do registo, para o que é preciso que a inscrição possa dar a conhecer com toda a exactidão o titular do direito, o prédio sobre que recai, o seu conteúdo e a proporção que ao titular corresponda (Derecho lnmobiliario Registral, p. 58). Não admira, pois, que à luz deste princípio, não se aceitem senão em casos muito contados, quaisquer excepções à regra de que "a cada facto jurídico deve corresponder uma inscrição. São os casos de unidade de inscrição, contemplados no artigo 66º do CRC, bem como no artigo 99º do Código do Registo Predial, aplicável subsidiariamente ao registo comercial. 5 - Antes de nos fixarmos na interpretação daquele artigo 66º, devemos advertir que a nomeação ou recondução dos membros dos órgãos de administração e de fiscalização e outros, a que se refere o nº 2 do artigo 66º, só não tem registo autónomo por uma relação de pertinência com o registo do acto constitutivo ou da sua alteração. Não porque dele façam necessariamente parte. Não estamos perante uma limitação, que complete o disposto no nº 1, mas, antes, em presença de uma mera especificação, que, sendo-lhe estranha, lhe serve de complemento. Nos casos do nº 1 do artigo 66º, trata-se de registar as próprias alterações do contrato ou do acto constitutivo, qualquer que seja a área em que se manifestem ou a forma que revistam; são todas. Uma só condição é expressamente imposta: que constem do mesmo título, o que pressupõe uma ideia de "unidade" e "necessidade", de que falaremos mais adiante. 6 - Há uma nítida preocupação da lei em tratar unitariamente o contrato ou acto constitutivo, não apenas no momento do seu nascimento, como pela vida fora, através das vicissitudes por que passa a entidade registada. Daí a razão de ser da regra da unidade da inscrição, dentro da moldura registral. Se, no contrato de sociedade,- os interessados alteram a sede, o objecto, o capital e as quotas-partes ou acções sociais, a administração, gerência, fiscalização, e vinculação da sociedade, todas essas alterações ficam a constar de uma só e única inscrição de alteração do contrato, tal como inicialmente constavam de uma inscrição de contrato. É o que a lei quer: uma só inscrição de um facto complexo e das suas eventualmente complexas alterações. Rigorosamente, deveria ser feita na inscrição a menção de todos os elementos, ainda mesmo os não alterados, para que o registo (em sentido restrito) correspondesse ao depósito, na forma prevista nos nºs 3 do artigo 59º e 4 do artigo 72º, todos do CRC. Não foi, porém, tão longe, ao nível da inscrição, a amplitude da reforma do registo comercial. Continuou apenas a exigir-se uma só inscrição" para todas as alterações feitas. A inexigência tem a ver com o valor do depósito (nf 2 do file:///c /Documents%20and%20Settings/Admin/Ambiente%20de%20trabalho/BRN_ /1995/par_3_1995.htm (5 de 7) [ :49:26]

6 artigo 59º). 7 - Posto, assim, em relevo o sentido da "unidade da inscrição" de alteração, vejamos o que se passa quando essa alteração compreenda o aumento de capital e, simultaneamente, a unificação de quotas em razão desse aumento. Fugindo um tanto à lógica dos princípios, por razões eminentemente pragmáticas, admite a lei do registo comercial que certas alterações do contrato de sociedade - fora do contexto de uma alteração formal - possam ser considerados factos isolados e até certo ponto como se não fossem alterações. Consabidamente, quando se aumenta ou redistribui o capital, fica o contrato, nessa parte, alterado. Este facto, como o da unificação, é uma forma de alteração do contrato. Ainda assim, com uma diferença entre um e o outro, uma vez que o aumento do capital não se faz, formalmente, senão através da alteração da correspondente cláusula contratual. Donde resulta poder haver uma unificação de quotas, tanto independente de alteração formal do contrato de sociedade - al. c), 1ª parte, do artigo 31º do CRC -, como integrada no contexto de uma alteração desse contrato nº 1 do artigo 66º. Foi esta a hipótese que se verificou. Parece-nos fundamental ter presente essa distinção. 8 - Procedeu-se neste caso a um aumento de capital, de contos para contos, sendo o valor do aumento ( contos) representado por incorporação de reservas de reavaliação por todos os sócios e por dinheiro fresco de algum deles. Entre os primeiros, conta-se a própria sociedade, que já detinha no capital social uma quota de 122 contos e ficou com mais uma de 20 contos. Fora estas duas quotas (e só estas) que, no âmbito da alteração em curso, vieram a ser unificados numa quota de 142 contos. Ora, esta unificação cabe perfeitamente na letra e no espírito do nº 1 do artigo 66º do CRC, bem como no nº 2 do artigo 14º da Tabela aprovada pela Portaria nº 883/89, de 13 de Outubro; e só aí cabe, como operação integrante da alteração. Insistindo: à lei não importa a forma que a alteração revestiu e a sua complexidade. O que importa é que os interessados a quiseram, como tal, e por isso mesmo, o título nasceu, na sua unidade; o conservador deve fazer o registo, respeitando essa unidade. Ainda que o pudesse ter admitido, seria absurdo que o legislador tivesse querido desintegrar do acto de alteração uma operação de unificação de quotas que lhe é necessária, e fazer dela um facto de registo autónomo - à procura de uma especificarão burocratizante da prática registral (e do emolumento correspondente), tudo em flagrante violação da unidade do contrato e das regras de economia de meios vasados no citado artigo 66º e demais disposições que lhe são complementares. Unidade e necessidade são pontos de referência obrigatórios no tratamento registral desta situação. O resultado, consubstanciado na alteração do texto do contrato, concentrou-se só e necessariamente na nova redacção do artigo 32º referente ao quantitativo do capital e à sua distribuição. 9 - Com tudo quanto fica exposto, temos por demonstrado que não poderia ter sido pedido senão um acto de registo, aliás, anotado no livro Diário: o de alteração do contrato de sociedade, no que concerne ao capital e quotaspartes sociais. Não pode ser ritualizado e interpretado de outra maneira o pedido, bem ou menos bem feito, num juizo de qualificação em que o conservador se encontra obrigado a suprir as deficiências do processo de registo com base nos documentos apresentados (artigo 52º do CRC). Prejudicada fica, pois, a original questão na qual uma das partes insiste em que pediu o registo - e o quer feito - e a outra que não (ignorando o pedido constante da requisição e levado ao Diário). O que cumpre agora é lavrar o registo de alteração do contrato como deveria ter sido feito, compreendendo com os factos tacitamente recusados (omitidos), o aumento do capital, a unificação de quotas a que se procedeu em razão desse aumento e, em resultado de tudo, a nova redacção da cláusula referente ao quantitativo do capital e à sua distribuição. Daí que nos pareça merecer deferimento o recurso, de harmonia com a síntese constante das seguintes Conclusões I - Todas as alterações do contrato de sociedade dão lugar a uma só inscrição, desde que constem do mesmo título. II - Estão compreendidas na regra definida na conclusão anterior as operações de aumento do capital social e as de unificação de quotas a que simultaneamente se proceda, para uma nova distribuição do capital em razão do aumento. Este parecer foi aprovado em sessão do Conselho Técnico da Direcção-Geral dos Registos e do Notariado de 7 de Fevereiro de Ventura José Rocheta Gomes, relator - Maria Ema de Amyl Bacelar Alvarenga Guerra Fernando Elísio Rodrigues file:///c /Documents%20and%20Settings/Admin/Ambiente%20de%20trabalho/BRN_ /1995/par_3_1995.htm (6 de 7) [ :49:26]

7 Fontinha - Raúl de Loures Marques Coelho Este parecer foi homologado por despacho do director-geral de 9 de Fevereiro de file:///c /Documents%20and%20Settings/Admin/Ambiente%20de%20trabalho/BRN_ /1995/par_3_1995.htm (7 de 7) [ :49:26]