FOTOGRAFIAS E CULTURAS ESCOLARES: UNIVERSO DIGITAL E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA

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1 FOTOGRAFIAS E CULTURAS ESCOLARES: UNIVERSO DIGITAL E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA Marcus Levy Albino Bencostta - UFPR Antonia de Meira - CNPq UFPR INTRODUÇÃO O projeto A imagem fotográfica no estudo das instituições educacionais: os grupos escolares de Curitiba ( ) [Fase II: fotografias e culturas escolares: universo digital e preservação da memória] tem como um dos seus objetivos a organização de um conjunto de fotografias escolares com o propósito de construir um banco de dados que preserve fragmentos da memória dos Grupos Escolares de Curitiba, e com isto contribuir para os estudos da história da escolarização da infância no Brasil e sua relação com a cultura escolar primária. Desde o início, em 2001, o projeto tem contado com recursos financeiros do CNPq, através dos seguintes programas: Bolsa Produtividade, Edital Universal, PIBIC e Apoio Técnico a Projetos de Pesquisa Científica e Tecnológica. Esta parceria tem garantido a continuidade das investigações, assim como do processo de preservação das fotografias. Para construção deste banco de dados foi escolhido a programação ActionScript linguagem do Macromedia Flash que por sua funcionalidade permitiu desenvolver estruturas que minimizaram consideravelmente a perda da qualidade das imagens no modo digital, ao mesmo tempo que proporcionou uma maior agilidade na consulta dos repertórios. A estrutura do banco de dados está quase pronta, porém as imagens estão sendo inseridas em um banco de dados provisório, pois primeiramente é preciso digitalizar e tratar as imagens, de modo que se possa melhorar a qualidade das mesmas e padronizálas quanto ao tamanho e tipo de arquivo de imagem. Este banco de imagens prevê a organização e catalogação de um acervo digital com 2077 fotografias escolares a fim de facilitar à comunidade acadêmica o acesso a estas imagens e a suas respectivas fichas catalográficas.

2 PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA ESCOLAR EM UNIVERSO DIGITAL As pesquisas em tecnologia de formação de imagens digitais têm afirmado que este novo formato não deve ser entendido apenas como a geração de uma imagem precisa sobre um novo suporte que é o digital. Temos que considerar que este avanço da ciência da informática proporcionou uma maior capacidade de organizar séries e coleções de fotografias, incrementando a qualidade da imagem e facilitando sua leitura, mas, também, contribuiu para novos conceitos acerca da preservação da memória. De acordo com Paul Conway (2001), o universo digital está sendo protagonista na transformação dos conceitos da preservação tradicional, qual seja, em vez de garantir a integridade física do objeto, passa a especificar a geração e manutenção do objeto cuja integridade intelectual é sua característica principal. Assim a integridade física diz respeito ao artefato, a fotografia em si. Quanto a preservação da integridade intelectual, esta se preocupa com a autenticidade do documento e as certezas das informações contidas na sua identificação, assegurada por cuidadosa pesquisa histórica, responsável por manter a integridade física. Algo que continuamente tem nos preocupado são estas duas integralidades, principalmente por ser toda esta documentação imagética aquela que sustenta a preservação física e intelectual do acervo desta pesquisa e que vem atuando como coresponsáveis no acesso à evidência história e suas problematizações acerca dos temas que representam. Nesse sentido, decidimos adotar três procedimentos que balizaram nossas ações na construção deste acervo. O primeiro foi construir uma programação que resultasse em uma estrutura que facilitasse a consulta do acervo pelos pesquisadores de modo ágil e seguro. O segundo, proteger as fotografias em seu modo original pelas quais foram geradas as cópias de alta qualidade no modo digital. O terceiro procedimento segue os conselhos da Preserving Digital Information (1995), que recomenda calcular o melhor meio de proteger as reproduções da deterioração através de um programa de preservação digital. Assim, desde o início do armazenamento das fotografias, temos pensado seriamente na expectativa de vida dos sistemas de formação de imagens digitais e nos preocupado com a migração dos arquivos digitais para futuros sistemas, de modo a garantir o acesso no futuro. O que nos remete a uma outra discussão que é a do próprio suporte. Como esta nossa pesquisa foi capaz de armazenar mais de duas mil fotografias escolares em um pequeno disco óptico, algo impossível na história da comunicação e da tecnologia de poucos anos atrás, sinaliza que mais à frente, em um futuro próximo, esta

3 capacidade de armazenamento será ainda maior diante do desenvolvimento deste conhecimento tecnológico. Contudo, a expectativa de vida desses novos suportes tem apresentado interessantes debates em torno do assunto da preservação, que levanta a discussão até que ponto o disco óptico tem uma durabilidade maior que suporte fotográfico físico (papel e/ou negativo). É provável, afirma Charles M. Dollar (1992, p. 45), que os suportes modernos de armazenagem óptica tenham uma sobrevida maior, porém, a fim de alcançar o grau de densidade de informação comum nos dias de hoje, as ações de preservação de acervos dependem de máquinas (que rapidamente atingem a obsolescência) para gerar a informação e depois torná-la legível e inteligível. Durante todo o processo de construção do banco de dados coube resolver o que deveria ser incorporado ao repertório digital, o que nos levou a determinar que nem todas as fotografias deveriam compor as séries/coleções. Inicialmente coletamos originais tanto quanto foi possível, para depois selecionar quais imagens deveriam ser preservadas de acordo com as escolhas temáticas que esta pesquisa se propôs investigar. Esta postura foi adotada por entendermos que a simples geração de uma imagem, de um suporte físico para o digital, não resulta em uma ação imediata de preservação (Normore, 2003), mesmo que partindo da idéia que o ato da digitalização estaria dificultando a perda ou destruição dos originais, nossa decisão acerca de quais imagens deveria compor a coleção foi pautada pelo interesse que estas fornecem à discussão sobre a memória do universo escolar. Talvez mais que outras mídias, a informação digital prevê requisitos de metadata que garantem a preservação dos objetos gravados e a sua acessibilidade no futuro. A idéia de metadata é adotada aqui na vertente do OCLC/RLG Working Group on Preservation Metadata (2001), que procura orientar como é possível preservar fontes de informações tradicionais, como fotos, livros, mapas etc, em plataforma digitais. Como as fotografias originais são físicas, suas fronteiras estão bem delineadas e seu conteúdo não deve ser alterado, sendo a própria existência física da fonte de informação, como já foi afirmado anteriormente, parte importante dentro do processo de preservação. Estamos atentos que a imagem digital contribui na preservação das fotografias escolares convencionais, pois uma vez digitalizadas, elas podem ser organizadas, acessadas e impressas com maior rapidez e facilidade por todos que utilizarem bancos de dados digitais como este. Se acrescentarmos outras linguagens como a textual e a auditiva, certamente as vantagens à consulta se sobressaem ainda mais se comparadas à tecnologia fotográfica convencional. Contudo, uma questão que precisa ser problematizada e posta em constante atenção é, qualquer que seja a vantagem imediata do uso de imagens

4 digitalizadas para a pesquisa nas ciências humanas, a segurança, a conservação e a preservação em longo prazo das fotografias originais deve ser mantida com o máximo de rigor pelos acervos e arquivos que as guardam, pois, sem uma preservação que assegure os materiais originais, não teremos nada a recorrer, caso a tecnologia digital de hoje venha a demonstrar imprevistas desvantagens no futuro (Mustardo, P.; Kennedy, N. 2001). Feita esta discussão inicial, apresentaremos a seguir a metodologia utilizada para organizar o acervo de imagens sob guarda desta pesquisa. Utilizamos os princípios da Gestão Eletrônica de Documentos (GED), que é um modelo de armazenamento e organização de dados sobre um suporte digital (a plataforma ou suporte digital escolhido foi o software Flash da Macromedia que utiliza programação ActionScript); este sistema de gerenciamento oferece maiores vantagens em termos de armazenamento, conservação, busca, acesso e difusão de arquivos digitais, neste caso, das imagens digitalizadas e suas respectivas fichas catalográficas (cada fotografia digitalizada é uma unidade documentária), isto porque as tecnologias de gerenciamento eletrônico permitem maior fluxo de arquivos (desde que estejam armazenados em sua plataforma), e facilitam o acesso e a difusão do banco de dados em meios eletrônicos (CD, DVD, Web, etc.). O uso desse sistema de gerenciamento eletrônico nesta pesquisa tornou-se essencial, pois a função primordial desse sistema de gestão de imagens digitais é facilitar a disponibilidade das imagens fotográficas para a comunidade de pesquisadores brasileiros por meio da produção de um meio eletrônico DVD, com o objetivo de preservar importante acervo histórico-cultural e educacional do Paraná. Os softwares utilizados para a construção do banco de dados foram escolhidos de acordo com as necessidades que surgiram ao longo de sua elaboração. A variedade de programas justifica-se pelas limitações de cada um, sendo necessária à utilização de softwares mais sofisticados para superá-las. Para a edição de imagens estamos utilizando os seguintes programas: MGI PhotoSuite 8.1. Programa utilizado na digitalização das fotografias através do scanner. Adobe Photoshop 6.0 Software utilizado para fazer pequenos reparos nas imagens já digitalizadas, como controlar luminosidade, cor e contraste. Macromedia Fireworks MX Software utilizado para a transformação dos arquivos de imagens JPEG (Joint Photographic Experts Group) para PNG (Portable Network Graphics) (esta permuta é necessária porque o Macromedia Flash aceita somente arquivos de imagem em PNG). A extensão JPEG ou JPG é mais usual em

5 ambientes web, por ter um nível de compactação bem maior do que em outros tipos de arquivos, porém esta compactação prejudica a qualidade da imagem pois a medida que ela é feita, a resolução da imagem diminui; por isso o uso de arquivos PNG vem se disseminando porque permite trabalhar com a imagem em altas resoluções, porém ocupando um espaço de armazenamento bem menor do que outros arquivos de imagem; no entanto, o uso de imagens em PNG ainda não é recomendado para web porque têm sido freqüente a ocorrência de vírus nestes arquivos. Para a construção do banco de dados: Macromedia Flash MX Esta plataforma permite desenvolver estruturas dinâmicas (banco de dados, filmes, apresentações, etc.) em programação ActionScript, com recursos de outras mídias (textos, sons, imagens) e animações. Os arquivos gerados por este software oferecem maior segurança contra cópias ilegais de textos e imagens e, além disso podem ser disponibilizados em diversos meios eletrônicos (páginas web, CD, DVD, etc.). Durante o aperfeiçoamento da estrutura do banco de dados, foi sugerido pelo pesquisador principal que o layout fosse alterado de maneira que o banco de dados não tivesse a aparência de uma página web (devido a imobilidade que a estrutura html proporciona nos objetos, a perda de qualidade das imagens e a estética da estrutura: a página web possui barras de ferramentas, navegação e endereço que para nossos fins se tornam desnecessárias.). Após algumas pesquisas acerca de uma programação que atendesse a tais exigências, foi encontrada a programação ActionScript que é especifica para Macromedia Flash. Esta programação permite ao usuário desenvolver estruturas com maior quantidade de objetos (imagens, textos e sons) sem perda de qualidade e agilidade, além disso proporciona maior estética no layout da estrutura pois é possível inserir animações em todos os objetos. FIGURA 1 Tela inicial do banco de dados

6 Na parte central da página encontram-se algumas informações sobre a pesquisa, a saber: título, imagem ilustrativa com legenda logo abaixo, nome do professor orientador e logomarcas das instituições apoiadoras (com links para seus respectivos sites), possui ainda um botão para entrar na página de acesso ao banco de dados. Ao clicar no botão Entrar da tela inicial, teremos acesso à segunda tela, onde encontra-se o menu principal, ao lado esquerdo da tela, como podemos ver na figura 2. FIGURA 2 Tela de acesso ao banco de dados (Menu esquerdo) Neste menu, encontram-se os seguintes botões: Home retorna a tela inicial; Apresentação nesta tela estará disponível um texto apresentando a pesquisa; Acervo tela que dá acesso a um sub-menu contendo as séries que classificam as imagens do acervo;

7 Artigos permite o acesso a uma tela onde estarão disponíveis alguns links para artigos sobre o assunto em formato PDF; Equipe encontram-se elencados os nomes de todos os bolsistas participantes do projeto desde seu início, também o nome do professor orientador com um link para seu currículo lattes; (ver figura 3). Contato este botão permite entrar em contato com o professor orientador através de seu ; Sair Encerra o banco de dados. Os botões do menu principal possuem um efeito animado: ao passar a seta do mouse sobre os mesmos eles acendem e emitem um som. Veremos na figura 3, o sub-menu que contém as séries onde foram classificadas as imagens do acervo: FIGURA 3 Tela da Equipe (acesso ao currículo lattes do professor orientador) FIGURA 4 Tela de acesso ao sub-menu do banco de dados (séries/coleções)

8 No sub-menu, aparecem os botões das séries/coleções do acervo, são eles: Alunos e Edifícios Escolares; Arquitetura e Espaço Escolar; Alunos e Professores; Rituais Escolares; Aula de Educação Física; Sala de Aula. Todos estes botões dão acesso a uma tela padrão, onde se pode navegar através de duas setas de direção (esquerda direita), pelas imagens e fichas catalográficas pertencentes ao acervo. Veremos a seguir um exemplo da série Alunos e Edifícios Escolares: FIGURA 5 Modelo da série Alunos e Edifícios Escolares Na figura observa-se a fotografia do Grupo Escolar Conselheiro Zacarias com a ficha catalográfica logo abaixo; a ficha contém informações sobre a fotografia: título, local, data, autor, responsável pela cópia, estúdio, arquivo, coleção, n.º do cadastro, cromia e anotações. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS A organização, identificação e catalogação dos registros fotográficos de interesse desse estudo têm demonstrado que o conjunto de informações presente em cada uma das séries está se constituindo em um importante acervo iconográfico acerca da cultura escolar urbana pública de Curitiba.

9 Desde o início das atividades desta pesquisa tem-se claro seus objetivos, o que nos levou a adotar procedimentos de investigação que não se circunscrevem apenas ao levantamento e organização do material iconográfico, mas a um exercício contínuo de análise e interpretação que procura entender essa forma de representação visual e seu uso nos estudos históricos, em especial na história da educação escolar pública de Curitiba entre os anos de 1903 a Enquanto documentos, as fotografias escolares consistem em um testemunho e representação das escolas em determinada época. Elas revelam um modo de ser e de se conceber a escola, formas determinadas dos sujeitos se comportarem e representarem seus papéis professor, aluno, classe. Elas trazem informações sobre a cultura material escolar, os arranjos espaciais (arquitetura), as relações sociais, os contextos humanos (professores, alunos, diretores e suas respectivas posturas) e as práticas escolares (festas de encerramento do ano letivo, entrega de diplomas, desfiles e comemorações cívicas, solenidades, etc.). Dessa forma, a imagem fotográfica apresenta-se como um testemunho visual e como representação que requer, pois, uma leitura específica. Como fonte de informação, recordação e emoção, a imagem fotográfica associa-se à memória e introduz uma nova dimensão no conhecimento histórica, obtida tradicionalmente, através da linguagem escrita. O desafio para o pesquisador que busca utilizar a fotografia como objeto de estudo reside justamente na interpretação. Enquanto receptor da imagem, ele não pode desconsiderar os mecanismos implicados em sua recepção. Na memória das escolas públicas, as fotografias inscrevem-se na imanência do tempo presente, nos acontecimentos significativos para professores, alunos e funcionários, partícipes dessa temporalidade do agora, e assim, ela se constitui em um instrumento de memória institucional e de recordação. Neste estudo, entendemos que a potencialidade significativa das fotografias escolares é portadora de elementos para a compreensão das culturas manifestadas no universo escolar. Referências BAUMGARDT, M. Adobe Photoshop 6.0 web Design com Imageready. [S.I.] Ciência Moderna, 2001.

10 BOMFIM JR., F. T. Flash MX com ActionScript: orientados a objetos. São Paulo: Érica, CONWAY, P. Preservação no universo digital. Rio de Janeiro: Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos DOLLAR, C. M. Archival theory and information tecnologie s: the impact of information technologies on archival principles and methods. Marcerata: University of Marcerat Press, LE GOFF, J. Documento/Monumento. In: Enciclopédia Enaudi, Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984, vol. 1 (Memória História), p MOREIRO GONZÁLEZ, J. A.; ARILLO, J. R. O conteúdo da imagem. Curitiba: Ed. da UFPR, MUSTARDO, P. KENNEDY, N. Preservação de fotografias: métodos básicos para salvaguardar suas coleções. Rio de Janeiro: Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos NORMORE, L. Studying special collections and the Web: An analysis of practice. First Monday. Peer-reviewed journal on the internet, volume 8, number 10 (October 2003). OCLC/RLG Working Group on Preservation Metadata. Preservation Metadata for Digital Objects: A Review of the State of the Art. OCLC Research publication, Preserving Digital Information: draft report of the task force on archiving of digital information. Version 1.0, Aug Research Libraries Group and Commission on Preservation an access. <URL:http://www.oclc.org> SHULZE, P. Macromedia Fireworks MX. [S.I.] Alta Books, 2002.

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