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2 MINISTÉRIO DA SAÚDE Ministro de Estado da Saúde Roberto Figueira Santos Secretário-Geral José Alberto Hermógenes de Souza 8ª CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE Comissão Organizadora Presidente: Antônio Sérgio da Silva Arouca Vice-Presidente: Francisco Xavier Beduschi Relator-Geral: Guilherme Rodrigues da Silva Relatores: Solon Magalhães Vianna Roberto Passos Nogueira Comitê Executivo Secretário: Otávio Clementino de Albuquerque Secretário-Adjunto: Edmilson Francisco dos Reis Duarte Tesoureiro : Maria Salete de Lima Membros: Lourival Baptista Carneiro Arnaud Ronei Edmar Ribeiro Hésio de Albuquerque Cordeiro José Saraiva Felipe Francisco Eduardo de Campos Cid Roberto Bertozzo Pimentel Comissão de Comunicação Social Coordenador: Assessores: Membros: Armando Sampaio Lacerda Theresa Christina de Aguiar Tavares Laura Maria Coutinho Ana Maria Meirelles Palma Manoel Caetano Mayrink lacy Nunes Flávio Luís Bonugli de Moraes Editor Responsável: Otávio Clementino de Albuquerque Coordenador da Redação do Texto: Xenia Azevedo Antunes Lopes Local de Realização: Ginásio de Esportes, Brasília, DF Assessoria e Infra-estrutura: Departamento de Congressos da Fundação Visconde de Cabo Frio

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5 ANAIS DA 8ª CONFÊRENCIA NACIONAL DE SAÚDE

6 Anais das Conferências Anteriores: CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, 4. Rio de Janeiro, Anais. 320 p. CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, 5. Brasília, Anais. 399 p. CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, 6. Brasília, Anais. 528 p. CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, 7. Brasília, Anais. 28 p. Não foram publicados os anais das três primeiras conferências. Conferência Nacional de Saúde, 8ª, Brasília, Anais / 8ª Conferência Nacional de Saúde, Brasília, Brasília: Centro de Documentação do Ministério da Saúde, p. Centro de Documentação do Ministério da Saúde Esplanada dos Ministérios Bloco G Térreo Brasília, DF Telefone: (061) Telex: e ilegivel Impressno Brasil/Printed in Brazil

7 Ministério da Saúde ANAIS DA 8ª CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE Brasília, 17 a 21 de março de 1986 SAÚDE COMO DIREITO INERENTE À CIDADANIA E À PERSONALIDADE REFORMULAÇÃO DO SISTEMA NACIONAL DE SAÚDE FINANCIAMENTO DO SETOR SAÚDE Brasília Centro de Documentação do Ministério da Saúde 1987

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9 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO A Construção Social da Cidadania JOSÉ GERALDO DE SOUSA JÚNIOR 61 Discursos Pronunciados na Cerimônia de Abertura Saúde como Direito de Todos e Dever do Estado Discurso do Ministro de Estado da Saúde HÉLIO PEREIRA DIAS ROBERTO FIGUEIRA SANTOS Cidadania, Direitos Sociais e Estado SÔNIA MARIA FLEURY TEIXEIRA Discurso do Ministro de Estado da Previdência e Assistência Social Debates RAPHAEL DE ALMEIDA MAGALHÃ- ES PADRE PEDRINHO GUARESCHI Discurso do Diretor-Geral da Organização Pan-Americana da Saúde Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) CARLYLE GUERRA DE MACEDO NÉIO LÚClO FRAGA PEREIRA Confederação Nacional das Associações de Moradores (CONAM) Discurso do Presidente da República Federativa do Brasil JOSÉ SARNEY CARMEM BARROSO Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) Conferência: Democracia é Saúde ANTÔNIO SÉRGIO DA SILVA AROUCA ARLINDO CHINAGLIA JÚNIOR Central Única dos Trabalhadores (CUT) Painel: Saúde como Direito Inerente à Cidadania e à Personalidade Direito à Saúde, Cidadania e Estado JAIRNILSON SILVA PAIM BERNARDO BEDRIKOW Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP)

10 FRANCISCO ANTÔNIO DE CASTRO LACAZ Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde dos Ambientes de Trabalho (DIESAT) GABRIEL OSELKA Conselho Federal de Medicina (CFM) Painel: Reformulação do Sistema Nacional de Saúde JOSÉ LUIZ RIANI COSTA Ministério do Trabalho SEBASTIÃO LOUREIRO Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO) e Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (CEBES) UBALDO DANTAS Prefeito de Itabuna Bahia Reformulação do Sistema Nacional de Painel: Financiamento do Setor Saúde Saúde: Algumas Considerações ADIB DOMINGOS JATENE Correção do Financiamento do Setor Saúde ADOLPHO CHORNY Participação Social em Saúde JOÃO YUNES Alternativas do Financiamento da Atenção à Saúde ANDRÉ CÉSAR MÉDICI O Sistema Unificado de Saúde como PEDRO LUIZ BARROS SILVA Instrumento de Garantia da Universalização e Eqüidade Novas Diretrizes para o Financiamento do Setor Saúde JOSÉ ALBERTO HERMÓGENES DE HUMBERTO GOMES DE MELO SOUZA Debates A Participação de Todos na Construção do Sistema Unificado de Saúde GERALDO JUSTO HÉSIO DE ALBUQUERQUE Confederação das Misericórdias do CORDEIRO Brasil Debates LUIS CORDONI JÚNIOR Secretário de Saúde e do Bem-Estar ANTÔNIO IVO DE CARVALHO Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro (FAMERJ) Social do Paraná LUÍS ROBERTO DE OLIVEIRA Confederação Nacional das Classes Trabalhadoras (CONCLAT) FRANCISCO XAVIER BEDUSCHI Federação Nacional dos Médicos (FNM) NELSON GUIMARÃES PROENÇA Associação Médica Brasileira (AMB) JOSÉ FRANCISCO DA SILVA Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) VITOR GOMES PINTO Instituto de Planejamento Econômico e Social (IPEA)

11 Trabalhos Apresentados como Contribuição à 8ª Conferência Nacional de Saúde Descentralização e Democratização do Sistema de Saúde CRISTINA DE ALBUQUERQUE Anexos POSSAS Reordenamento do Sistema Nacional de Saúde ELEUTÉRIO RODRIGUEZ NETO Reordenamento do Sistema Nacional de Saúde: Visão Geral EUGÊNIO VILAÇA MENDES Participação Social em Saúde FRANCISCO DE ASSIS MACHADO Participação Social em Saúde: Experiencia do Paraná LUIZ CORDONI JÚNIOR Descentralização e Municipalização NELSON RODRIGUES DOS SANTOS 312 Financiamento do Setor Saúde VITOR GOMES PINTO Mesa-Redonda: Constituinte e Saúde Abertura: ROBERTO FIGUEIRA SAN- TOS Presidente: JOÃO PIMENTA DA VEIGA Membros: CARLOS CORRÊA DE ME- NEZES SANT ANNA WALDIR PIRES CRISTÓVAM BUARQUE LUCIANO MENDES DE AL- MEIDA GUARACY DA SILVA FREI- TAS WILSON FADUL Apresentação dos Relatórios das Pré- Conferências Estaduais Relatório Final da 8ª Conferência Nacional de Saúde Decreto-Lei nº , de 23 de juiho de 1985, que convoca a 8ª Conferência Nacional de Saúde Decreto nº , de 4 de novembro de 1985, que transfere a realização da 8ª Conferência Nacional de Saúde Portaria nº 595/GM, de 19 de agosto de 1985, que define a estrutura da Comissão Organizadora da 8ª Conferência Nacional de Saúde Portaria nº 596/GM, de 19 de agosto de 1985, que determina a composição da Comissão Organizadora da 8ª Conferência Nacional de Saúde Portaria nº 756/GM, de 21 de novembro de 1985, que aprova o Regimento Especial da 8ª Conferência Nacional de Saúde Portaria nº 769/GM, de 2 de dezembro de 1985, que aprova o Temário da 8ª Conferência Nacional de Saúde Portaria nº 770/GM, de 2 de dezembro de 1985, que aprova as matrizes do programa dos participantes e das delegações para a 8ª Conferência Nacional de Saúde Portaria nº 41/GM, de 31 de janeiro de 1986, que aprova novo Regimento Especial da 8ª Conferência Nacional de Saúde Portaria nº 42/GM, de 31 de janeiro de 1986, que aprova nova matriz do programa dos participantes e das de-

12 legações para a 8º Conferência Nacional de Saúde 415 Programa da 8º Conferência Nacional de Saúde 417 Orientações gerais para discussão em grupo 424 Sessão solene de entrega de Condecorações da Ordem do Mérito Médico 425 Regimento da Plenária Final da 8º conferência Nacional de Saúde 423

13 APRESENTAÇÃO OTÁVIO CLEMENTINO DE ALBUQUERQUE Secretário do Comitê Executivo da 8ª Conferência Nacional de Saúde A 1ª Conferência Nacional de Saúde foi convocada em 22 de outubro de 1941, pelo então Ministro Gustavo Capanema, e realizou-se em novembro daquele mesmo ano, tendo sido discutidas as realizações do antigo Departamento Nacional de Saúde. A 2ª Conferência realizou-se nove anos mais tarde, em novembro e dezembro de 1950, quando da gestão do Ministro Pedro Calmon. Essas duas primeiras Conferências, da época em que a área da saúde ainda estava subordinada ao Ministério da Educação, tiveram como preocupação central delimiar o espaço institucional da saúde, destacando a importância dos profissionais do setor. A 3ª Conferência, realizada em dezembro de 1963, sob a direção do Ministro Wilson Fadul, teve uma temática mais ampla, que abrangia a situação sanitária do País, a distribuição das atividades médicosanitárias nos níveis federal, estadual e municipal, a municipalização dos serviços de saúde e a fixação de um plano nacional de saúde. Refletindo a ambiência política da época, a 3ª Conferência buscou legitimar um conhecimento prévio sobre a situação sanitária da população e definir formas de atuação, respeitando o princípio federativo. A 4º Conferência, realizada em agosto e setembro de 1967, sob a gestão do Ministro Leonel Miranda, foi a primeira após o Movimento Militar de 1964, e a sua temática foi mais restrita, com os debates centrados nos aspectos pertinentes aos recursos humanos. A 5ª Conferência, realizada em agosto de 1975, quando era Ministro o doutor Paulo de Almeida Machado, apresentou-se desnivelada em sua estrutura temática. O tema central focalizava os aspectos doutrinários ligados à questão saúde, para, em seguida, fazer incursões numa estrutura programática que conflitava com uma visão sistêmica para o setor. A 6ª Conferência, realizada também sob a direção do Ministro Paulo de Almeida Machado, em agosto de 1977, teve na sua temática uma abordagem assimétrica, não tendo os organizadores se preocupado com a harmonia do produto final. Refletiu as perplexidades que a sociedade começava a vivenciar, e surgiram visões mais críticas, em resultado da maior liberdade de divulgação de estudos e pesquisas, bem como da aparição dos primeiros sinais da crise econômica. A 7ª Conferência, realizada em março de 1980, pelo Ministro Waldyr Arcoverde, esteve condicionada por influências internacionais de democratização dos serviços da saúde e pela necessidade do governo da época de buscar legitimidade. Representou a tentativa de estabelecer um corpo progra-

14 mático, com o objetivo de negociar um pacto de transição politica sem grandes traumas. Finalmente, é a vez da 8ª Conferência, que se realiza num ambiente de expectativa de mudança para a sociedade. Por isso, a 8ª Conferência deverá refletir, na sua estrutura de temática, aspectos eminentemente doutrinários, tentando um resgate histórico das preocupações da 3ª Conferência, acrescida dos avanços ocorridos nos últimos 20 anos.

15 DISCURSOS PRONUNCIADOS NA CERIMÔMIA DE ABERTURA

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17 ROBERTO FIGUEIRA SANTOS Ministro de Estado da Saúde O momento é decisivo. Por varias vezes, nas ultimas quatro décadas, o governo do Brasil convocara anteriormente a Conferência, ao verificar a necessidade do reexame de aspectos vários da problemática da saúde. Na presente oportunidade, resultou a convocação das profundas alterações politicoadministrativas desencadeadas pelo Governo Sarney no ultimo ano, com reflexos expressivos nos conceitos e na pratica dos cuidados a saúde. A implantação da Nova Republica, com o que significou para o cidadão brasileiro, nas mais variadas componentes das suas condições de vida e trabalho, tem ensejado fecunda meditação sobre as diretrizes vigentes na nossa área de ação profissional. Aproxima-se a instalação da Assembléia Constituinte, razão a mais e de fundamental importância para a convocação de uma Conferência que diferisse das anteriores na sua composição. Estamos, aqui reunidos, autoridades de governo nos niveis federal, estadual e municipal, juntamente com representantes de variados setores da comunidade, estes na condição de usuários dos serviços submetidos a debate. Antes de implantar-se o Governo Tancredo-Sarney, estudiosos do assunto afinados com as idéias políticas vitoriosas, produziram documentos da mais alta valia, acerca das relações entre o Brasil que renascia e a saúde do seu povo. Transcorrido o primeiro ano sob a presente orientação política e administrativa, cabe a avaliação do progresso alcançado. Sem duvida, mudou a ordem de prioridades do governo ao longo do ano. As áreas sociais, nelas incluídas a saúde, assumiram destaque que há muito tempo não Ihes era atribuído, o que gerou conseqüências favoráveis na elaboração do orçamento do presente exercício. Historicamente, havia-se estabelecido verdadeiro abismo de diferenças entre a gestão das medidas de ordem preventiva e as ações da medicina curativa. Não ha qualquer exagero em dizer-se que estas diferenças tem sido altamente nocivas e injustas. Sabem todos que as medidas preventivas tem sido financiadas com recursos do Tesouro, aos quais, recentemente, se agregaram parcelas oriundas do Finsocial. O desprestigio do desenvolvimento social, ao longo de muitos anos, resultara na destinação de escassas verbas e na atrofia de atividades da mais primordial importância para o bem-estar dos homens, mulheres e crianças deste Pais. A situação esta sendo revertida em ritmo acelerado, para o que se tem contado com a excelente qualidade dos profissionais dedicados ao setor, em cujas mãos os recursos adicionais logo estarão dando elevado retorno. Paralelamente, atribuiu-se as ações da medicina curativa cobertura financeira pro- 15

18 veniente de receita especial, arrecadada juntamente com o que se destina a outros benefícios da Previdência Social. O crescimento da população economicamente ativa, as conquistas lentas porém expressivas do operariado brasileiro, fizeram com que este dinheiro aumentasse em flagrante desproporção com o oriundo do Tesouro para as atividades e prevenção. E assim se criaram interesses de grande vulto e com raízes profundas. Em defesa desses interesses, difundiu-se a idéia de que somente depois que a moléstia se instala, merecia a saúde do trabalhador ser cuidada com meios resultantes da contribuição direta do mesmo trabalhador. A prevenção da doença, as medidas de ordem profilática que asseguram a preservação da saúde, justamente as mais importantes e que deveriam vir em primeiro lugar, não mereciam a aplicação das contribuições diretas do operário e deveriam ficar sujeitas a variável escala de prioridades adotada por governos que, por longo tempo, consideraram de escassa significação os problemas sociais. Sei que o assunto e contraverso. Sei que muitos, em total boa fé, entendem que a prevenção deveria ser tarefa "do governo", com verbas provenientes da arrecadação dos impostos, como se estes benefícios só indiretamente atingissem os trabalhadores. Estamos convictos de que esta noção é equivocada. Mesmo que a controvérsia se acentue no começo, é necessário que o debate se aprofunde e os argumentos sejam trazidos a tona, entre técnicos e usuários dos serviços de saúde. Porque se há de demonstrar que advirá economia no uso das contribuições dos trabalhadores, caso parte maior delas se destine á prevenção. E muito mais barato preservar a saúde qualquer que seja a fonte dos recursos de que curar a doença, ou seja, do que restabelecer a saúde já abalada por falta de meios para preserva-la. Muito bem aplicada estaria a contribuição dos trabalhadores em evitar que doenças como a malaria se estendesse ainda mais do que já se espalhou pelo Brasil afora, e que a esquistossomose, o calazar, a febre amarela, a doença de Chagas e tantas outras endemias que enegrecem os indicadores de saúde do Brasil, viessem a atingi-los na segurança dos seus lares ou nos seus locais de trabalho. O rendimento de cruzeiros ou cruzados que se destinam a medidas preventivas e, indubitavelmente, muito maior do que a de aplica-la em medidas curativas. Alteremos, agora, o curso do raciocínio e acharemos outro igualmente válido. Assim como os recursos do Tesouro, resultantes da arrecadação de impostos, tem servido para financiar as medidas preventivas, poderia o poder público, em nome da comunidade de que representa, estender verbas da mesma origem para financiar, em idêntica ordem de prioridades, as ações da medicina curativa. Aliás, pode ate ser que a Constituinte venha a optar por fórmula nesta direção. Mas, o que não se pode entender, senão pela perpetuação do erro histórico evidente, e que se mantenha sob orientações diversas, correspondentes a fontes de financiamento inteiramente díspares, e quantitativamente desproporcionadas, a gestão de um dos setores mais essenciais a vida em sociedade. Foi o setor artificialmente bifurcado e danosamente diferenciado em parcelas que, na verdade, constituem um todo coerente e indivisível. São incalculáveis e irrecuperáveis os prejuízos para a saúde do povo brasileiro, acumulados ao longo de muitos anos pela perseverança em erro tão flagrante. Ora, não faltara quem diga: mas isto já não é assim. A correção do erro já começou, e as Ações Integradas de Saúde ai estão para sanar as falhas do passado. Sem dúvida, cumpre responder, as AIS estão na direção certa. Elas representam, na timidez com que estão sendo postas em prática até agora, como que um aprendizado válido para o convívio entre instituições que, a despeito dos seus objetivos comuns, nada tinham a ver umas com as outras, na gerência de serviços a seu cargo. Pode-se 16

19 até entender que este aprendizado ocorra a passos lentos, porém não se deve considerar seja esta a solução definitiva. Fazemos votos para que a Conferencia reconheça como imprescindível a unificação dos serviços de saúde, a curto prazo, e que assinale, de forma justa e com insofismável clareza, a fonte dos recursos que hão de sustentar a prestação destes serviços. A Assembléia Constituinte há de levar em conta os subsídios que Ihe forem encaminhados por fórum tão abalizado. Com efeito, de nada adianta a unificação dos serviços caso parte destes continuassem a merecer financiamento oriundo da contribuição dos trabalhadores, de mistura com o que deles se arrecada para aposentadoria e pensão, enquanto as atividades preventivas, de relevância ao menos igual, continuasse sujeita ás minguadas fatias oriundas do Tesouro Nacional. Ora, dirão também, já não é tão negro o quadro, como foi pintado, porque nas Comissões Interinstitucionais de Saúde, pelo Brasil afora, estão se sentando a mesma mesa, em louvável processo de aprendizado, representantes de serviços que até bem pouco faziam questão de desconhecer-se reciprocamente, quando não se hostilizavam de forma aberta. Cumpre responder: aumentaria enormemente o rendimento dos trabalhos destas comissões, e das que delas derivam aos níveis local e regional, caso realizassem trabalho de baixo para cima, dando curso ao processo de regionalização dos serviços de saúde, sonho acalentado há tempos pelo pessoal da área. Não se havia, ate agora, encontrado meios para sua implantação em larga escala. È esta a oportunidade preciosa, que não pode ser perdida. A SUCAM, organização modelar e insuficientemente conhecida mesmo entre os que são do ramo, dispõe de mapas de domicílios espalhados pelo Brasil afora, que facilitariam de muito a regionalização das unidades sanitárias com diversas vinculações administrativas. Quero, então, transmitir desta tribuna ás Comissões Interinstitucionais do Brasil a seguinte mensagem de fé: REGIONALIZAR JÁ, e o resto virá depois, mais rápida, segura e tranqüilamente. Muito mais tranqüilamente virão os programas de cobertura universal dos serviços de saúde, de municipalização, de distribuição de alimentos como ação de saúde, de reidratação oral, de imunização universal, de assistência integral á saúde da muiher, de distribuição de medicamentos aos carentes, de referência dos pacientes necessitados de atendimento em niveis secundário e terciário, e tudo mais que se queira como ação curativa e preventiva. Chegaríamos, assim, pela via da regionalização a cargo das CIS, a hierarquização dos serviços, assegurando a utilização correta, socialmente justa e criteriosamente dosada, das altas tecnologias médicas e das pesquisas operacionais. Se, em épocas pregressas, menosprezamos os cuidados primários e valorizamos por demais as tecnologias mais complexas, invertemos recentemente o discurso quando não a prática. E passamos a condenar os serviços equipados para as tecnologias mais avançadas, rotulandoos de luxuosos. Pouco importam, do panto de vista da saúde pública, as instalações requintadas, as quais, podem, aliás, abrigar medicina de péssima qualidade, quer no tocante à técnica, quer no panto de vista ético. Porém, importa muito a saúde do povo a hierarquização das unidades, de modo que os pacientes necessitados de cuidados especializados, qualquer que seja sua posição na sociedade, tenham ao seu dispor unidades equipadas e com pessoal afeito ás tecnologias de panto na área médica. E a vocês, usuários dos serviços de saúde presentes a esta Conferência, a regionalização e a hierarquização das unidades permitirá participação muito mais direta no planejamento, no controle da qualidade, na gestão e na fiscalização das atividades que importam fundamentalmente á sua comunidade. A relação paciente-pro- 17

20 fissional-serviço de saúde torna-se muito mais humana quando o sistema opera segundo as normas de regionalização e de hierarquização. Este é o grande instrumento á disposição de vocês, de forma imediata e sem razões para resistências. Algumas expressões foram citadas, com justificada insistência, na mobilização popular para a derrubada do regime anterior, e passaram aos documentos dos técnicos que contribuíram para as bases da Nova República. Uma delas foi a palavra "descentralização", como remédio para a abusiva e sempre crescente concentração de poder político, econômico e administrativo exercida aqueles tempos pelo governo federal. Valeram-se governos passados de mecanismos firmados no sistema tributário vigente, para atingir os seus propósitos de autoperpetuação no poder. Da receita fiscal arrecadada, sabidamente, reduzidíssima parcela remanescia para aplicações que resultassem de decisão autônoma dos municípios. A parcela reservada a decisão dos governos estaduais, era igualmente pouco expressiva. A "parte do leão" ficava ao dispor do governo central, que distribuía a massa de dinheiro publica segundo os critérios que convinham aos seus objetivos políticos imediatos. Graças a esses critérios, o regime sobreviveu alguns anos mais, o suficiente para exacerbar a irritação popular e desencadear a reação quase unânime contra os manipuladores do processo. Entre as matérias que a Assembléia Constituinte terá de examinar, estará, sem dúvida, reforma tributária que assegure aos estados e municípios poderes para decidir sobre a aplicação de recursos em maior percentual da receita, do que vem ocorrendo ate agora. O município, a verdadeira "célula política da nação, poderá então se desincumbir de tarefas que Ihe deveriam corresponder, com liberdade de ação política, sem receios de ameaças do poder central e dos que o representam localmente, e, assim, prestar serviços da sua área de competência, realizando-os com maior eficiência e melhor produtividade. Poder-se-á então falar com firmeza em descentralização e em municipalização dos serviços de saúde, trazendo indiscutíveis benefícios à generalidade dos cidadãos. Enquanto aguardamos providências deste porte, as medidas postas em prática, mesmo as que estiverem no rumo certo, terão de ser paliativas, ou servirão ao nobre propósito de experimentar o mérito de várias formulas, para escolher mais tarde as que se tornarão duradouras. Cumpre, porém, desencadeá-las logo, porque assim nos adiantaremos, e quando ocorrer a esperada reforma tributária, mais prontamente absorveremos as imensas vantagens que dela advirão. É tempo de encerrar. O momento e feito para o debate e não comporta o monólogo prolongado. O momento é de esperança e confiança na participação de todos em busca do melhor. O momento é de certeza de que as mudanças reclamadas pelo povo nas ruas e praças do Brasil aliviarão dos erros do passado também a área da saúde. Construiremos o futuro, resgatando a dívida social herdada, com á mesma coragem demonstrada pelo Presidente Sarney á frente da nação brasileira, ao combater as causas da deterioração da economia nacional. Povo sadio é povo feliz. E a saúde é direito de todos e dever do Estado. 18

21 RAPHAEL DE ALMEIDA MAGALHÃES Ministro do Estado da Previdência e Assistência Social Registro inicialmente a honrosa participação que, desde a preparação desta Conferência, teve o Ministério da Previdência. Louvo os organizadores por terem assegurado a esse encontro um nível de representatividade sem precedentes em eventos desta natureza, como pode constatar-se ao se olhar este Plenário. Aqui, através do debate franco de idéias e do intercâmbio de experiências, se buscará delinear um novo padrão de práticas profissionais e administrativas, bem como um novo perfil institucional para os serviços de saúde, com vistas á melhoria das condições de vida da população brasileira. A Conferência convocada pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República e pelo Senhor Ministro da Saúde proporcionou, de logo, no seu próprio processo de organização, a percepção de quanto são úteis a aproximação, a cooperação e a integração entre pessoas e instituições com responsabilidades no setor de saúde, conforme ficou evidente nas ações preparatórias e nas pré-conferências que se estenderam à maioria dos estados e grande número de municípios. Esta é uma fórma democrática de fazer política. Ao longo dos 45 anos de história deste evento, pela primeira vez conta-se aqui com a representação maciça da sociedade civil, através dos seus sindicatos e associações, partidos políticos e entidades de represen- 19 tação de moradores. Isto é um avanço significativo, em relação às conferências anteriores, quando havia predominância quase absoluta dos próprios formuladores da política oficial, sustentando discussões fechadas, cuja eficácia se podia aferir no precário quadro institucional de assistência que herdamos e nas deprimentes condições de saúde da população, traduzidas em indicadores sociais que não condizem com o estágio de crescimento econômico de modernização tecnológica do País, mas, que, sobretudo, nos atinge, atinge a nós na nossa consciência e na nossa ética profissional. Esta 8ª Conferência Nacional de Saúde tende, pois, tornar-se um marco histórico. Ela, creio, será o divisor de águas entre a precariedade da assistência ou quase completa desassistência, e uma nova situação, já atingida pela maioria dos países de nível de desenvolvimento econômico equivalente ao nosso, onde um sistema de saúde de abrangência universal, sem descriminantes, acabara reconhecendo à cidadania brasileira, também, o direito inalienável á saúde, um direito fundamental da pessoa humana. No âmbito do sistema previdenciário, brasileiro, o desafio imediato, colocado perante o governo da Nova República, era representado pela necessidade imediata da recuperação moral da Previdência Social. Desta tarefa se desincumbiu, com o êxito que cada brasileiro e todos reconhecemos,

22 o meu nobre antecessor e querido amigo Ministro Waldyr Pires. É claro que há muito ainda que fazer, pois nenhum instrumento de política social e de prestação de serviços tem maior penetração, maior abrangência do que a Previdência Social brasileira. Sua origem está associada à mobilização dos trabalhadores, quando o Estado foi chamado a patrocinar interesses coletivos, garantindo benefícios capazes de assegurar dignidade aos que trabalham e aos seus familiares no momento em que cessa a capacidade de produzir. Historicamente, essa intervenção corresponde à passagem do capitalismo liberal para o neocapitalismo. Reconhece-se que o setor saúde foi um dos mais afetados negativamente pela política econômica das duas últimas décadas. O modelo econômico concentracionista, centralizador e iniqüo causou reflexos profundos nesta área. Agravaram-se as condições de vida e de saúde das populações pobres, e os investimentos governamentais, além de obedecerem prioridades discutíveis, não acompanharam certamente as necessidades da maioria da população. A atual situação de prestação de serviços de saúde no país pode caracterizar-se da seguinte forma: Apesar dos esforços recentemente desenvolvidos, há uma clara inadequação entre as necessidades assistenciais e a estrutura pública de prestação de serviços. Há superoferta de serviços especializados em muitas regiões e carências extremas em outras. Esse perfil se cristalizou a partir da subordinação das iniciativas públicas a uma racionalidade econômica que condicionou ao lucro o relacionamento da Previdência Social com a rede privada contratada, baseada na compra e venda de serviços. Essa lógica do lucro determinou em grande parte o tipo e o volume dos serviços prestados e, portanto, essa distorção regional. Foram crescentes os custos dos serviços médico-hospitalares do INAMPS, e isso decorreu basicamente da acelerada incorporação tecnológica do setor, da intensificação do processo interno de acumulação do capital e, ainda, do seu grande porte de capacidade de produção, que não guardam qualquer relação com a necessidade assistencial do país, principalmente quando vista à luz de sua distribuição, que acentua as desigualdades regionais de renda. É notório o esvaziamento político, técnico e financeiro dos órgãos gestores da saúde nos estados e municípios, apesar das tentativas de reversão dentro do âmbito do setor saúde, sendo a mais significativa delas o desenvolvimento das Ações integradas de Saúde. Subsiste ainda a descoordenação entre as instituições de saúde, e mesmo dentro delas há enorme superposição de recursos e duplicidade de gastos. Este quadro desafia soluções prontas. O INAMPS é a agência governamental que ocupa a posição central, nesta política e neste programa, não só pela cobertura social que promove como pelo volume de recursos que aporta; do total de gastos nos serviços assistenciais de saúde, 70% são provenientes de fontes públicas. Desses, 2/3 são representados pela arrecadação previdenciária. Através da rede assistencial própria ou indiretamente através de convênios ele cobre todo o território nacional com suas agências, prestando serviços a aproximadamente 80% da população. A constatação do peso da assistência médica previdenciária nos compromete com os objetivos de universalização e eqüidade quanto à oferta e acesso aos serviços de saúde. Os caminhos para atingirmos esses objetivos fundamentais passam pela descentralização e melhoria da rede própria de serviços, além do relacionamento mais fecundo e produtivo com a rede contratada. Um dos problemas mais sérios deriva do fato de que o processo centralizador na área da saúde guardou coerência com o que ocorreu nos últimos anos no quadro político-institucional e econômico do País. 20

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