Apresentação do presidente da FEBRABAN, Murilo Portugal no 13º Seminário Tendências Perspectivas da Economia Brasileira: Cenário Econômico e Político

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1 1 Apresentação do presidente da FEBRABAN, Murilo Portugal no 13º Seminário Tendências Perspectivas da Economia Brasileira: Cenário Econômico e Político Cenários para os países desenvolvidos, sua inter relação com a China e demais emergentes 14 abr ) Quadro Econômico Mundial as diferentes perspectivas para as economias avançadas e emergentes As últimas projeções do FMI em seu World Economic Outlook (WEO) mostram uma economia mundial em recuperação, com previsão de crescimento de 4,4% este ano e de 4,5% em 2012, mas mantendo o desequilíbrio que vem marcando esse processo de recuperação: um crescimento bem mais fraco e marcado por alto desemprego nas economias avançadas e um crescimento robusto nos chamados países emergentes, que na prática estão liderando esse processo. Nos países desenvolvidos vemos uma recuperação marcada pelo fim de um ciclo de estoques e pelo esgotamento (ao menos em parte) dos estímulos fiscais em função dos limites gerados pela elevação do endividamento público desses países, sobretudo na Europa. Há sinais encorajadores de recuperação da demanda do setor privado, mas o ainda elevado desemprego, fraqueza do setor imobiliário (nos EUA) e o incompleto processo de saneamento dos seus sistemas financeiros (principalmente na Europa) contribuem para que esta recuperação seja ainda lenta. A previsão de crescimento para as economias avançadas e de 2,4% este ano e 2,5% no ano que vem. Na avaliação do FMI, contudo, são reduzidos os riscos de uma nova recessão ( duplo mergulho ) ou de uma estagflação por conta da alta recente no preço das commodities. A desindexação destas economias (especialmente dos salários), a boa ancoragem das expectativas e ainda o menor peso das commodities e dos alimentos nas cestas de consumo tornam o risco de inflação com estagnação (uma repetição dos anos 70) bastante reduzido. Com base nesse diagnóstico, as recomendações de política econômica para os países avançados incluem: a-) a manutenção de uma política monetária acomodatícia ou passiva, considerando a fraqueza da recuperação e a ausência de pressões inflacionárias relevantes; b-) A finalização do processo de capitalização do sistema financeiro e o avanço na nova arquitetura de regulação, que inclui, entre outros requisitos, maior transparência; c-) iniciar o que se chama de um processo de consolidação fiscal, que comece a conter

2 2 ao menos em parte os excessos cometidos no pós crise e que contribua para uma redução do endividamento desses países. Outro elemento que completa este receituário de ajuste para os países avançados e a implementação de reformas estruturais (incluindo flexibilização dos mercados de trabalho) para ampliar a eficiência e competitividade dessas economias. Claro que a execução desse ajuste está longe de ser um processo trivial. Para ficarmos em apenas em alguns riscos/dificuldades importantes: A economia americana segue em seu processo de desalavancagem do setor privado, com crescimento da poupança das famílias e melhora importante nos resultados das empresas, fruto do processo de ajustamento. Também ao contrário da Europa, o saneamento do sistema financeiro parece bem mais avançado e são bem menores as necessidades de capital adicional, especialmente nos bancos maiores ou mais relevantes. Por outro lado, o mercado de trabalho continua fraco, o segmento imobiliário segue digerindo os impactos da crise e estamos nos aproximando do início do processo eleitoral em que o Presidente Obama vai tentar a reeleição. O governo americano parece, já por conta disso, ter mudado a direção da sua política fiscal, da consolidação para uma estratégia mais expansionista favorecendo uma retomada mais rápida do crescimento. O risco aqui é que a economia americana volte ao modelo anterior, de crescimento liderado pelo consumo e endividamento (poupança baixa), mas agora em condições fiscais, monetárias e de endividamento público muito piores. A estratégia pode até trazer um certo alívio de curto prazo, mas à custa de repor os desequilíbrios do passado, agora provavelmente colocando novas tensões sobre o mercado de títulos nos EUA. No caso da Europa, o problema é mais complicado e provavelmente de solução ainda mais de longo prazo. Em primeiro lugar, temos um descompasso importante entre o ritmo da retomada (e das condições econômicas gerais), entre os países centrais e os da chamada periferia do Euro. Entre os centrais, também há uma diferença entre a Alemanha (que vai bem), França (apenas razoável), Itália (em dificuldades) e Espanha (com problemas sérios mas já em ajuste e na direção correta). Já na periferia, os problemas são bem mais sérios, com déficits fiscais e dívidas crescentes, sistemas financeiros enfraquecidos e dificuldades políticas para implementar qualquer processo de ajuste fiscal. O quadro para esses países se agrava com a impossibilidade de realizar um ajuste via câmbio (no caso do comércio intra-europeu) e da pouca flexibilidade dos seus mercados de trabalho. Mas, ainda que as dificuldades não sejam pequenas, qualquer alternativa fora da região do Euro parece muito pior. É difícil imaginar como esses países evitariam uma hiperinflação e uma fuga de capitais (com os seus conhecidos efeitos destrutivos) caso decidissem sair da zona do euro e voltar para as suas moedas. A propósito, considerando-se a interligação dessas economias e de seus mercados financeiros, fica difícil imaginar como esses países encontrariam tomadores para seus títulos em moeda local.

3 3 Assim, parece mesmo que uma combinação de ajustamento fiscal, com alguma ajuda no refinanciamento das dívidas e um programa de reformas estruturais é o caminho mais factível, ainda que longo e doloroso. Alem do seu cenário básico, o FMI desenvolveu também um cenário pessimista em que ha uma nova crise nos países europeus periféricos que se espalha para alguns países centrais da Europa. Se esse cenário se materializar o crescimento na área do euro seria 3 pontos porcentuais menor e o crescimento global 1 ponto porcentual menor do que no cenário básico. 2-) A situação dos emergentes é mais favorável do que o quadro enfrentado pelos países avançados. Os efeitos da crise financeira foram muito menos significativos, os sistemas financeiros foram preservados e o processo de retomada foi rápido e vem se intensificando. De forma geral, esses países enfrentam agora o problema de lidar com uma inflação crescente derivada da junção de pressões altistas oriundas das commodities (que combinam aumento de demanda com alguns problemas de oferta) com as pressões decorrentes do próprio aquecimento da economia (expansão do consumo e rápido fechamento do hiato de produto). Há aqui uma diferenciação importante entre os países emergentes, entre aqueles que apresentam superávits em conta corrente e que em geral têm a taxa de câmbio fixa e os demais emergentes, como o Brasil, que passaram a apresentar déficits em conta corrente crescentes e moeda apreciada por conta do aquecimento da economia doméstica financiado por um forte influxo de capital externo. Para os representantes do primeiro grupo, China à frente, claro que a recomendação é um endurecimento da política monetária via elevação dos juros, acrescido de medidas macroprudenciais (para evitar bolhas nos mercados de crédito) e permitir maior flexibilidade das suas moedas que leve a uma apreciação da taxa de câmbio real. Um ajuste nesta direção combinaria a redução/eliminação de pressões inflacionárias no mercado doméstico e ao mesmo tempo contribuiria (via elevação da demanda por produtos importados) para a recuperação das demais economias do globo, em especial as que estão em processo de ajustamento. Mas, como se sabe, não é fácil convencer a China a seguir esse receituário. Com a depreciação da sua moeda e elevados níveis de poupança doméstica, a China vem ampliando a sua participação nos mercados mundiais, afetando diversos países, inclusive o Brasil. A crise mundial não alterou a estratégia exportadora chinesa, que apenas passou a buscar outros mercados para compensar a desaceleração registrada nos mercados americano e europeu. Em que pese a pressão mundial e o ajuste preconizado, por exemplo pelo FMI, a China resiste, entre outras razões, por considerar que o mercado doméstico (dado sua renda per capita ainda baixa) é insuficiente para compensar um eventual recuo das exportações. Adicionalmente, pode-se argumentar o tremendo poder econômico e geopolítico que esta posição em reservas gera para o estado chinês. Desde a compra títulos da dívida americana, passando agora por títulos de dívida de países europeus e, claro, nos diversos investimentos no

4 4 exterior feitos pelas companhias chinesas para garantir o seu abastecimento de insumos, alimentos e matérias primas. Por conta disso, parece pouco razoável apostar numa mudança drástica no arcabouço da política econômica chinesa, ainda que seja possível esperar (com algum otimismo) concessões graduais nessa direção. Algo como uma valorização em etapas da sua moeda, uma maior abertura dos seus mercados aos produtos manufaturados importados, bem como a realização de investimentos no exterior em produtos com maior valor agregado (como, a propósito, o Brasil está negociando nesta visita da Presidente Dilma) e não somente em matérias primas e alimentos. Um outro grupo de países emergentes, que inclui o Brasil, apresenta um quadro econômico também com forte crescimento (mas assentado na demanda doméstica), pressões inflacionárias importantes, déficits em conta correntes crescentes (mas não explosivos) financiados com um forte influxo de capital levando à valorização (em diversos casos, significativa) de suas moedas. A grande diferença, frise-se, é a existência de um déficit em conta corrente e uma moeda mais valorizada por conta do baixo grau de poupança domestica e do regime de livre flutuação. A recomendação aqui tem sido a de combinar um forte aperto fiscal com algum endurecimento da política monetária e, quando necessário, a implementação de medidas macroprudenciais. E, como efeito colateral, a implicação é que esses países tenham que conviver, pelo menos no curto prazo, com algum grau de valorização das suas moedas. 3-) Os desafios do Brasil neste cenário - poucos países se encaixam de maneira tão precisa nesse último modelo como o Brasil. Nós atravessamos a crise financeira internacional relativamente melhor que outros países (ainda que em 2009 tenha havido estagnação do produto interno). Esse melhor desempenho resultou de uma combinação de: a-) sólidos fundamentos macroeconômicos (entre eles, a existência de reservas cambiais elevadas, um dos ensinamentos desta e de outras crises países sem ou com baixa vulnerabilidade externa são menos afetados em crises deste tipo); b-) um sistema financeiro, sólido, pouco alavancado e submetido a uma ampla e rigorosa supervisão por parte do BC; c-) uma rápida ação das autoridades, tanto na ampliação da liquidez (em dólares e em reais) como na pronta implementação de estímulos fiscais; d) um mercado interno fortalecido e que minimizou a contaminação dos efeitos da crise. A economia brasileira recuperou-se rapidamente e hoje enfrenta dois desafios importantes. No curto prazo, a pressão inflacionária, por conta da alta das commodities, combinada com um forte aquecimento da demanda doméstica. No médio e longo prazos, o desafio é o crescimento do déficit em conta corrente, que decorre da própria expansão econômica, da nossa baixa poupança doméstica e da apreciação da taxa de câmbio, o aumento da produtividade através de melhor educação e redução de custos por meio de reformas estruturais

5 5 O Brasil vem enfrentando esses desequilíbrios seguindo praticamente todas as recomendações clássicas de política econômica: prometeu a implementação de um ajuste fiscal e a redução na velocidade na expansão do crédito pelos bancos públicos, principalmente o BNDES; elevou as taxas de juros e implementou um conjunto de medidas de natureza macroprudencial. Também estamos à frente em termos de solidez e regulação do setor financeiro e provavelmente seremos um dos primeiros a implementar os ajustes preconizados no acordo da Basiléia III. O Brasil também vem adotando medidas no âmbito cambial com o objetivo de atenuar, ao menos em parte, a apreciação da sua moeda, que decorre do forte influxo de capital. Nos termos colocados por Olivier Blanchard (economista-chefe do FMI) pode-se dizer que o nosso déficit em conta corrente e a apreciação cambial decorrem de uma combinação de boas razões (oportunidades de investimento e de taxas de retorno expressivas, por conta do bom momento da economia brasileira) e também por outras não tão boas (como nossa baixa taxa de poupança doméstica e elevada taxa de juros doméstica).. Pode-se dizer que o Brasil vem contribuindo para a recuperação da demanda mundial (nos termos da divisão de trabalho que se espera entre economias avançadas e emergentes) e ao mesmo tempo busca um ajuste em que há pouca dúvida em relação ao receituário, ainda que existam opiniões diversas em relação à dose. Os críticos preconizam provavelmente um ajuste fiscal e monetário mais fortes e num prazo mais curto, enquanto o nosso BC vem perseguindo uma estratégia mais gradual. O Brasil vai muito provavelmente conviver com algum grau de apreciação da sua moeda por um bom tempo. O que coloca uma certa urgência na implementação de reformas estruturais que ampliem a competitividade da economia brasileira. A boa notícia é que desta vez não temos que fazer a reforma em meio a uma crise macroeconômica de curto prazo.

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