A relação entre a fala e a escrita

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1 A relação entre a fala e a escrita Karen Alves da Silva Proposta e objetivo: Partindo de um episódio de escrita, podemos refletir sobre: de que maneira está posta a relação entre escrita e oralidade; como esta relação pode ser vista sob uma perspectiva interacionista de aquisição da linguagem.. O objetivo, aqui pretendido, é de demonstrar que a relação entre oralidade e escrita não acontece de uma maneira direta e/ou representacional em jogo quando se pensa, por exemplo, que a criança escreve como fala e que tanto o texto oral quanto o escrito possuem cada qual sua própria especificidade. 1. Situando a questão Comumente, no ambiente escolar, a escrita é tida como a representação gráfico-alfabética da fala. Portanto, aprender o alfabeto significa reconhecer determinados elementos gráficos (letras) que representam sons no mundo físico (fonemas). Ou seja, para o som a, existe uma determinada letra chamada de a. Partindo deste pressuposto, aprender a escrever seria, a princípio, aprender a transcrever a fala. Evidentemente, numa escrita alfabética, como é a do português, não se pode negar que há uma relação entre o oral e o escrito. Mas, pensando melhor, percebe-se que pensá-la em termos de representação pura e simples do som pela escrita não dá conta de algumas questões enfrentadas pelos professores na prática de sala de aula.

2 Podem-se citar algumas indagações que demonstram isso: se o meu aluno sabe falar perfeitamente, por que ele não consegue escrever? Ou, então, por que, ao escrever, ele troca determinadas letras? (Para saber mais, ver Falar certo, falar errado ). Ora, se a relação entre fala e escrita fosse apenas uma representação direta tomando a escrita como um modo de transcrever a fala as questões levantadas no parágrafo anterior seriam facilmente resolvidas. Se alguém sabe como falar bem, não há um esforço muito grande para que ele escreva bem e, fatalmente, tal pessoa não deve se confundir escolhendo a letra errada para representar certo som. Sabemos, contudo, que isso não é tão tranqüilo assim. Então, sob uma outra perspectiva, como seria a relação entre fala e escrita? 2. Oralidade e escrita: como se relacionam estas duas maneiras de estar na linguagem? Com o objetivo de refletir sobre a relação entre oralidade e escrita sob uma outra perspectiva que não seja a representacionalista (tratada no ponto 1), utilizaremos dois textos escritos. O primeiro é de uma aluna da 3ª série do ensino fundamental e o outro é de um aluno da Educação Infantil. De início, pode haver algum estranhamento em relação ao primeiro texto por se tratar de uma produção de uma menina da 3ª série, já que o público alvo de nosso grupo temático são os professores da educação infantil. Há de se ter em mente que, de alguma forma, as relações que trataremos acontecem desde as primeiras manifestações escritas da criança e utilizar o texto da menina da 3ª série somente tem a finalidade de dar maior visibilidade à relação entre fala e escrita que discutimos em nosso texto. Porém, para que a discussão fique mais clara para o nosso público alvo, apresentaremos, posteriormente, um texto que contém a escrita mais característica da Educação Infantil.

3 Abaixo, apresentamos o primeiro texto que foi escrito por uma aluna, Ana, da 3ª série do primeiro grau de uma escola pública, como resultado de uma atividade proposta em sala de aula. A professora solicitou à turma que escrevesse a letra de uma canção popular bastante conhecida pelos alunos ( Querer é poder ) e amplamente veiculada pela mídia, pois esta canção era tema de uma novela da época - episódio retirado de Faria (1997): UNA LETRA DA NOVELA SONHO MEU EU PONSO IR AONDE EU QUINZER RABISCO ÁO PONTA PÉ. È CHEGA BEN PERTO DAS ESTRELAS E TOCA NO CÉU SONHO MEU É SÓ CHEGA BEN PERTO DAS ESTRELAS DECHA A ILUSÃO ENTRA PORTA ABERTA PRA Á ILUSÃO ENTRA. ALUNA: ANA Para que possamos prosseguir em nossa reflexão sobre a relação entre escrita e oralidade, é necessário afastar, definitivamente, a idéia de que escrita apenas representa a fala. Neste texto, entendemos que a relação entre oralidade e escrita não ocorre de maneira direta. Entendemos que fala e escrita são distintos porque possui cada qual cada qual a sua especificidade inclusive no que diz respeito à materialidade em jogo: no oral, o material é sonoro; na escrita, é gráfico-visual e que eles se relacionam na medida que se encontram nos textos produzidos. No caso da atividade de Ana, saber um texto oral de cor ( de memória ) não garante que se saberá escrever este texto, pois o domínio do oral e o domínio do escrito possuem cada qual um funcionamento próprio. A professora solicitou que os alunos escrevessem a canção Querer é poder, mas cada um dos alunos apresentou um texto, de alguma maneira, diferente daquele apresentado originalmente na música; este é o caso do texto de Ana. Mesmo que os alunos tenham escutado a mesma canção, a escrita da

4 materialidade sonora musical (a letra da música, as palavras) escutada pela criança não se deu da mesma maneira. No texto de Ana, há uma reincidência bastante interessante de ser analisada: as nasalizações. Sem nos aprofundar na questão, podemos afirmar que nasalização é quando, ao pronunciar um segmento escrito, o ar também é canalizado pelo nariz (exemplos: mão, cansado etc.). Observe as nasalizações marcadas no seguinte trecho do texto de Ana: UNA LETRA DA NOVELA SONHO MEU EU PONSO IR AONDE EU QUINZER RABISCO ÁO PONTA PÉ. È CHEGA BEN PERTO Neste trecho do texto de Ana, podem-se ver marcas da nasalização no texto escrito. Para entender a presença destas nasalizações é necessário atentar para o fato de que algo se repetia: na escuta do texto oral, o som nasal se repete e ele é marcado com a letra N no texto escrito pela criança. A escrita de Ana aponta para a relação singular que esta estabelece com o texto da música a ser escrito: já no título, a menina afirma que não se trata de uma canção, mas de uma NOVELA (SONHO MEU), o que aparentemente indica um afastamento ou uma divergência com relação à proposta inicial da professora de escrever uma canção. De fato, Sonho Meu era uma novela veiculada pela televisão na época que a menina escreveu este texto e este fato pode ter colaborado para que ela relacionasse a canção com a novela, o que está claramente apontado no título do texto. Agora, compare a letra original da canção e o texto de Ana:

5 QUERER É PODER (Letra original) EU POSSO IR AONDE EU QUISER RABISCOS EM ALGUM PAPEL CHEGAR BEM PERTO DAS ESTRELAS E TOCAR O CÉU SONHANDO EU POSSO SER UM REI QUEM SABE ATÉ SUPERSTAR É SÓ DEIXAR A PORTA ABERTA PRA ILUSÃO ENTRAR UNA LETRA DA NOVELA SONHO MEU EU PONSO IR AONDE EU QUINZER RABISCO ÁO PONTA PÉ. È CHEGA BEN PERTO DAS ESTRELAS E TOCA NO CÉU SONHO MEU É SÓ CHEGA BEN PERTO DAS ESTRELAS DECHA A ILUSÃO ENTRA PORTA ABERTA PRA Á ILUSÃO ENTRA. ALUNA: ANA AMANCIO SANTOS DA SILVA Uma palavra da música escutada pela criança convoca uma outra e com ela se entrecruza e se entretece no processo associativo que se instaura; como efeito, emerge na produção de Ana uma outra palavra inesperada na composição e estranha à letra da música que lhe deu origem. Além disso, pode-se notar a ação da homofonia, resultante da proximidade sonora entre o fragmento a ser escrito e o a escrever: na letra original, há os fragmentos em algum papel, tocar o céu e sonhando eu os quais comparecem na escrita da menina como, respectivamente, áo ponta pé, toca no céu e sonho meu. Note que há correspondências sonoras entre os fragmentos da canção original e aqueles escritos pela menina. Também se pode destacar que as palavras da canção original se combinam com palavras diferentes para compor os versos que formam a canção de Ana. Todas as palavras do texto da menina, tanto aquelas pertencentes à letra original quanto as palavras estranhas, entram na composição textual que, de algum modo, se aproxima da estrutura poética da música. Ou seja, a canção original tem certo arranjo de palavras e também de sons que lhe confere um dado ritmo e é esse ritmo que vai ou não favorecer a entrada de certos fragmentos na escrita da menina, ao colocar em cena a homofonia entre dois segmentos, por exemplo. O resultado dessa junção de palavras da canção original a outras palavras para formar a canção de Ana é a inserção e a repetição de um som nasal que se escreve no N.

6 De certo modo, o verso poético repete, total ou parcialmente, uma mesma figura sonora, um mesmo som. Dessa forma, porque há a repetição de um som nasal, o N, podemos dizer que o texto de Ana parece possuir um traço poético. Contudo, não devemos colocar a questão como somente uma repetição de sons de maneira regular (rima) para criar um aspecto poético no caso do texto de Ana, a repetição do N -, mas devemos atentar para o fato de que esta repetição promove efeitos sobre a criança. A repetição de um fragmento sonoro não está presente somente para marcar a cadência poética - ou seja, um certo ritmo dentro da poesia -, mas ela demonstra a relação singular dessa criança com este som nasal. O sentido das palavras está, de certo modo, apagado, pois é este som nasal que produz na criança um efeito que se revela nessa escuta / leitura singular da mesma. Além disso, no texto de Ana, há um rompimento com a definição do que seja palavra na medida em que os limites entre o que é e o que pode pertencer à determinada palavra estão enfraquecidas, possibilitando a inserção de outros elementos à mesma, rompendo com o esperado na língua normatizada. Este rompimento é revelador da relação singular de Ana com a escrita da música que escutou e ele aparece nitidamente quando um N surge em POSSO (PONSO) e QUISER (QUINSER). A relação de Ana com a escrita está atravessada por um movimento de repetição de uma forma (o N) e sua ressignificação como elemento do texto. Portanto, está em jogo a maneira como a menina escuta e / ou lê o texto em questão. O surgimento, no texto da menina, de palavras estranhas à letra original da música aponta exatamente para esta escuta singular. Nesse ponto, achamos conveniente introduzir um episódio de escrita retirado de A criança na linguagem: a fala, o desenho e a escrita que seja mais característico da educação infantil. O texto escrito que trabalharemos é de Thomas Artur, um menino de aproximadamente 5 anos que, atendendo a um pedido da professora, deveria procurar em revistas figuras de objetos cujos

7 nomes iniciassem com a primeira letra de seu nome - no caso, T -, recortar e colar as figuras em um papel. Inicialmente, o menino realiza corretamente a tarefa, recortando e colocando figuras: touro, torneira, tomate, toalha e troféu. Em seguida, ele escreve os respectivos nomes dos objetos nas figuras correspondentes, mas esta escrita está ancorada nas letras do nome da criança (Thomas): THMSA, HOOMAS, MOO e SOAS. A professora não aceita essa maneira de escrever de Thomas, que se compõe por letras do nome dele, e solicita ao menino que use a outra escrita, a escrita silábica que ele já sabe. Então, a professora silaba para Thomas cada uma das palavras: tou-ro, tor-nei-ra, to-ma-te, to-a-lha (esta é silabada to-a-li-a) e tro-féu. O menino escreve novamente as palavras e, dessa vez, o resultado é o seguinte: TO para touro, TEA para torneira, TME para tomate, TAIA para toalha e TEU para troféu. Na reescrita, Thomas finalmente realiza uma escrita que apresenta relação de fonetização com o oral, mas ele somente faz isso após a silabação da professora; foi ela que segmentou em sílabas as palavras para que ele escrevesse (para saber mais, consulte Bosco, 2005). Observe o episódio: No texto escrito por Thomas, para Bosco (2003), vê-se uma certa relação (de fonetização) com a oralidade. Ou seja, encontramos marcas características de uma relação entre escrita e oralidade possibilitada pela silabação da professora, pois, nesse momento, só ela pode fragmentar esse

8 escrito em sílabas uma vez que já se encontra significada no universo simbólico da escrita ela já é alfabetizada. Uma marca dessa relação entre escrita e oralidade é que o t, fragmento inicial do nome do menino, escreve a sílaba to das palavras: touro, torneira, tomate, toalha e, parcialmente, troféu. Portanto, há aqui o estabelecimento de uma relação de homofonia, pois o primeiro segmento sonoro do nome de Thomas [to] corresponde homofonicamente ao segmento inicial dos nomes dos objetos que a criança escolheu (cf. Bosco, 2005). Contudo, não devemos tomar a relação entre escrita e oralidade como uma simples representação da fala pela escrita. Thomas, mesmo realizando uma escrita fonetizada, tem dificuldades para lidar com esta escrita, uma vez que não é claro para ele as relações passiveis de estabelecer entre pauta sonora e pauta gráfica. A escrita é um outro modo de a criança estar na linguagem, cujo saber-fazer nela e com ela não são dados para a criança, por isso ela necessita de silabação do outro nesse momento de seu percurso na linguagem escrita. Uma escrita fonética, como a escrita da língua portuguesa, não se reduz a uma relação em que uma unidade gráfica a letra remete, direta e simplesmente, a uma unidade sonora ao fonema. Há um funcionamento lingüístico-discursivo em jogo no recorte das unidades (sonoras e gráficas), como vimos no episódio das nasalizações de Ana e na escrita de Thomas Artur. O papel do professor é não só de proporcionar a relação da criança, independentemente da faixa etária, com textos escritos de natureza diversa, mas também o de interpretar a escrita para a criança (para saber mais, consulte A criança na linguagem: a fala, o desenho e a escrita ). No texto de Ana, não há simplesmente uma transcrição da canção do oral para o gráfico, ou seja, não há uma relação natural de representação da

9 fala pela escrita (do fônico pelo gráfico), pois a escrita e a fala são dois modos diferentes de estar na linguagem e que cada qual possui sua própria especificidade (cf. Bosco, 2005). Bibliografia comentada por autores: FARIA, N. A letra sob as palavras da letra. In. Leitura a criança e o texto, nº 20, Neste trabalho, Faria problematiza a relação entre a fala e a escrita a partir de um dado de escrita, evidenciando a especificidade tanto da fala quando da escrita. BOSCO, Z. Com as letras do nome. Trabalho apresentado no 51º Encontro do GEL, BOSCO, Z. A errância da letra: o nome próprio na escrita da criança.. Tese de doutorado em Lingüística texto inédito, IEL/ UNICAMP, 2005 Bosco, em seus trabalhos, discute a relação entre as letras do nome da criança e a constituição de sua escrita.

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