A Cúpula Afro-Indiana de 2011 e a Inserção da Índia na África

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1 BRICS Monitor A Cúpula Afro-Indiana de 2011 e a Inserção da Índia na África Junho de 2011 Núcleo de Análises de Economia e Política dos Países BRICS BRICS Policy Center / Centro de Estudos e Pesquisa BRICS

2 BRICS Monitor A Cúpula Afro-Indiana de 2011 e a Inserção da Índia na África Junho de 2011 Núcleo de Análises de Economia e Política dos Países BRICS BRICS Policy Center / Centro de Estudos e Pesquisa BRICS

3 Autor: Thaís Vieira Segall A Cúpula Afro-Indiana de 2011 e a Inserção da Índia na África Entre os dias 20 e 26 de maio, ocorreu na cidade de Addis Ababa a Cúpula África-Índia de Esta reuniu em torno de quinze países do continente africano e a Índia com o objetivo de estreitar os laços entre este país e o continente, aumentando a cooperação entre eles. Na abertura da cúpula, segundo o jornal Hindustan Times, Manmohan Singh, o Primeiro Ministro indiano, declarou que a África tem todos os pré-requisitos para se tornar o maior pólo de crescimento do mundo no século 21, e acrescentou: Nós vamos trabalhar com a África para possibilitar que ela realize esse potencial. O Primeiro Ministro aproveitou para anunciar uma quantia de cinco bilhões de dólares de crédito para os países africanos usarem nos próximos três anos na busca pela realização de seus objetivos de desenvolvimento. Durante a cúpula também foi divulgada a criação de diversas instituições afro-indianas, como o grupo África-Índia de Processamento de alimentos, o centro África-Índia de previsão do tempo de médio alcance, e a Universidade Virtual Índia-África (para estudantes africanos). A Agência Panafricana de Notícias divulgou que a Índia se comprometeu a instalar diversos estabelecimentos de ensino superior na África. Destacam-se as colocações de alguns líderes africanos a respeito da inserção indiana como, por exemplo, a declaração de Balumuene François, embaixador da República Democrática do Congo na Índia, para o Economic Times: A Índia está fazendo todos os esforços possíveis para o desenvolvimento econômico da África, e acrescentou: mas o que notamos, e precisa melhorar, é o lento processo administrativo que o governo segue. Segundo o embaixador, o contraste com a China é claro: um projeto de financiamento indiano acordado em 2009 ainda não começou a ser implementado, enquanto um projeto de financiamento chinês fechado há três meses já está em andamento. Segundo o Hindustan Times, em contraposição à diplomacia chinesa focada nos recursos a Índia esculpiu para si uma diplomacia que visa as áreas de educação e desenvolvimento de habilidades. Este jornal também reportou que as iniciativas indianas de criação de capacidades construíram um engajamento com o continente africano diferente daquele realizado pelo Estado chinês, cujos focos são o investimento em projetos de infra-estrutura e a extração de recursos minerais. Conforme informado pelo Economic Times, um executivo que trabalha há anos na África afirmou que a China estabeleceu claramente o seu objetivo estratégico no continente: o acesso a recursos; isto torna sua atuação focada neste interesse, enquanto a Índia propõe uma abordagem mais abrangente. Contudo, esta não ignora completamente a temática dos recursos naturais: o mesmo jornal afirmou que a Índia conse- 3

4 guiu articular-se na liderança de um consórcio constituído em torno de uma ex-empresa estatal que detém importantes minas de fosfato na região e uma fábrica de ácido fosfórico para uso em fertilizantes. Outra diferença fundamental da entrada chinesa e indiana na África em busca de recursos energéticos para alimentar seu rápido crescimento é a natureza dos investimentos: enquanto esta favorece o setor privado, aquela prioriza o setor público e a aproximação de governo para governo, conforme analisa o Economic Times. De acordo com a revista digital Envolverde, o diretor de estratégia e mercado da empresa sul-africana Frontier Advisory, Abdullah Verachia, afirmou que o foco no setor privado por parte da Índia aliviou as críticas de neocolonialismo freqüentemente dirigidas à China, sedenta de recursos (...) mesmo quando as necessidades energéticas também eram o maior impulso da Índia em sua expansão para a África. O governo indiano nega que haja competição com a China no continente africano. De acordo com o Economic Times, Shashi Tharoor, membro do parlamento indiano, disse que nós não competimos com os Chineses, há espaço para nós dois fazermos negócios no continente. Elizabeth Sidiropoulos, diretora do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais, discorda. Para ela, foi principalmente a vontade do governo indiano de não perder terreno para o Estado chinês que conduziu suas prioridades de investimento. Segundo o Economic Times, o Investimento Externo Direto dos dois países no continente africano é muito próximo, entre 1,4 e 1,5 bilhões de dólares em No entanto, o jornal Hindu informa que os dados de comércio bilateral indianos não se comparam aos chineses. Enquanto o comércio da Índia com o continente gira em torno de 46 bilhões de dólares, o comercio chinês atinge 126 bilhões. Segundo a Agência Panafricana de Notícias, o Estado indiano intenciona aumentar sua interação comercial com a África de 46 para 70 bilhões de dólares nos próximos quatro anos. Shashi Tharoor disse que a maneira como o governo indiano aborda os países africanos permite que eles construam a agenda e caminhem de acordo com suas necessidades. O ministro das relações exteriores do Senegal, Maitre Madicke Niang, disse que a Índia nos faz nos sentir livres de constrangimentos, nos respeita e ajuda. Contudo, pode-se perceber que a inserção indiana na África não é altruísta. Não só há motivações econômicas, como o acesso a recursos naturais, como há também uma motivação política: o apoio de países africanos à candidatura da Índia para um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Esta é uma preocupação que a China não tem por já ser um membro permanente. O apelo da Índia à ajuda dos países africanos pode ser observado em declarações feitas pelo Primeiro Ministro indiano na Cúpula. Segundo o Hindustan Times, Manmohan Singh demandou reforma das instituições políticas e econômicas internacionais. Pode-se dizer que ele foi razoavelmente bem sucedido, uma vez que foi assinada, na Cúpula, a declaração de Addis Ababa, na qual ambas as partes clamam por reformas 4

5 abrangentes no sistema das Nações Unidas, inclusive o alargamento do Conselho de Segurança. Cabe acompanhar a inserção indiana na África para saber se o país conseguirá cumprir suas promessas ao continente bem como se os países africanos darão o apoio que parecem oferecer à Índia para sua candidatura ao Conselho de Segurança da ONU. Ademais, especula-se se a abordagem atual da Índia com relação ao continente africano será sustentada conforme seu ritmo de crescimento aumentar, e com ele, a demanda cada vez maior por recursos, ou se sua abordagem tenderá a aproximar-se daquela aplicada hoje pelo governo chinês. Sites consultados - Envolverde Jornalismo & Sustentabilidade - Hindustan Times - PANAPRESS Pan-African News Agency - The Economic Times economictimes.indiatimes.com/ - The Hindu 5

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