EMANCIPAÇÃO DIGITAL EM TELECENTROS PÚBLICOS: NOVO DESAFIO

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1 EMANCIPAÇÃO DIGITAL EM TELECENTROS PÚBLICOS: NOVO Resumo DESAFIO ABREU, José Carlos Silva de UEM ALMEIDA, Nizan Pereira PUCPR Eixo Temático: Diversidade e inclusão Agência Financiadora: não contou com financiamento Quando se fala em inclusão social é porque há excluídos sociais. A exclusão social marca a diferença de benefícios do trabalho humano que pessoas ou grupos recebem e usufruem mais que outros. Novas tecnologias pouco significam em termos de inclusão social se a sociedade mantiver intacta os meios, formas e relações de produção. Isto aconteceu com a invenção por Gutemberg da imprensa por tipos móveis porque os segmentos dominantes se apropriaram dos resultados, uma das características do mundo da palavra impressa. Com o advento da informática e das redes virtuais de comunicação e informação surgiu a possibilidade de inclusão no mundo digital por meio de telecentros públicos. O que se verificou foi que este novo mundo, o mundo digital, pouco contribuiu para a verdadeira inclusão social. Os telecentros públicos do Estado do Paraná, resultado de parcerias com Prefeituras Municipais e organizações da sociedade civil foram objeto desta pesquisa com colheita de depoimentos de 54 monitores ou agentes de inclusão digital em 40 destes equipamentos públicos. Os depoimentos destes monitores revelam que grande parte deles entrou em contacto com computadores e com as redes virtuais sociais por ocasião do treinamento para a sua função de agentes de inclusão digital. Também se percebe o envolvimento destes agentes com os usuários dos telecentros públicos, pessoas de varias faixas etárias, de diferentes formações culturais e educacionais e de variadas classes sociais. A conclusão da pesquisa é que se realizou nos telecentros públicos paranaenses apenas a inclusão no mundo digital. O presente trabalho propõe que daqui para a frente se vá além, com a prática da verdadeira emancipação digital, que significa a apropriação pelos mais pobres de ferramentas tecnológicas que fortaleçam o conhecimento dos seus direitos em relação ao exercício da cidadania e o aprofundamento e a valorização da sua cultura e educação; Palavras-chave: Inclusão digital. Emancipação digital.

2 12865 Introdução Ao se falar da inclusão social, implicitamente está se admitindo a existência da exclusão social. Pessoas, grupos, etnias, gêneros, classes sociais e faixas etárias não se excluem por si mesmas mas são excluídas. Estar ou ser excluído significa não poder se beneficiar de todos os resultados da ação de transformação operada pelos seres humanos sobre a natureza, ou seja, todos os resultados do trabalho (MARX, 2011). Se há excluídos, há incluídos, aqueles que se beneficiam mais que os outros dos resultados desta ação (BONETI, 2003). Estes benefícios são os chamados bens de consumo, bens de apropriação e acumulo, e bens culturais. Também são os resultados das inovações tecnológicas que acompanham os seres humanos desde há milhares de anos como a adequada utilização do fogo, a invenção da roda e da imprensa por tipos móveis. Esta ultima, um marco na história social e econômica da civilização ocidental é um exemplo evidente do processo exclusão/inclusão. O surgimento e a aplicação desta inovação tecnológica, a imprensa, não significou mudanças marcantes nas estruturas sociais e econômicas existentes na época. A apropriação dos benefícios pelos possuidores de bens e capitais continuou, agora acrescentados daqueles gerados pela tecnologia da impressão gutemberguiana (livros, éditos, correspondências, etc). Surgia o mundo da palavra impressa. Quando da construção do computador eletrônico pioneiro, chamado Integrador e Calculador Eletrônico Numérico, em 1945, iniciou-se a Revolução da Informação (SILVEIRA, 2001). Surgia então a Ciência da Computação Eletrônica ou da Informática ou da Informação e Comunicação (IC). Esta tecnologia, a exemplo da imprensa por tipos móveis, gerou grande impacto na forma produtiva da sociedade com novos produtos, novas profissões e ocupações, novos métodos de trabalho. Os primeiros computadores envolviam a presença passiva dos usuários nas condições de observadores e leitores, a chamada fase 1.0. Com o advento de novos aparelhos e seus aplicativos que propiciaram a interatividade com os usuários podendo intervir nos conteúdos apresentados, com o surgimento de imagens na tela com a animação de figuras e por fim com o contato em rede das pessoas utilizadoras dos computadores chegou-se à denominada fase 2.0. Neste momento iniciou-se o processo de ampliação do número de usuários, sobrevindo os interesses estratégicos dos Estados e corporações regionais, nacionais e globais.

3 12866 Educadores e gestores da área de Educação passaram a se utilizar das Tecnologias de Informação e Comunicação para fins pedagógicos e administrativos. O mesmo aconteceu com organizações que se apropriaram da rede: instituições financeiras, grupos comerciais e industriais interessados em exibir e vender seus produtos, grandes corporações de mídia, empreendedores culturais. Surgia o mundo digital. A exemplo do mundo da palavra impressa, reproduzindo e refletindo os meios, formas e relações de produção da sociedade: Formaram-se também ao longo da década de 1980, oligopólios internacionais e redes globais informatizadas de gestão, que possibilitaram as formas globais de interação que presenciamos hoje e que constituem a nova configuração do sistema mundial de produção. Além disso, este processo foi acompanhado por revoluções que trazem enormes conseqüências para a estruturação de todo o processo produtivo. Em primeiro lugar, foi criado um novo paradigma de produção industrial, a automação flexível (entre aspas no original), possibilitado pela revolução tecnológica, que transformou a ciência e a tecnologia em forças produtivas, agentes da própria acumulação do capital, fazendo crescer enormemente a produtividade do trabalho humano (grifado no original). (OLIVEIRA, 2002, p ). Ou seja, no mundo da Tecnologia das IC, persistiam os fenômenos excludentes. Espera-se que a inclusão digital favoreça o desenvolvimento pleno do individuo tornando-o cada vez mais capaz e humano. Que esse indivíduo ao manipular as informações no ambiente digital, transforme-as em conhecimento em beneficio de toda a humanidade e não que os interesses estejam voltados exclusivamente ao individualismo, e ainda, para a reprodução de um sistema opressor e massificador (MATOS E SCHRAINER, 2010, p. 47). Opressão e massificação que atingem preferencialmente os mais frágeis: Com o surgimento das redes de comunicação por meio da tecnologia da informação, as relações pessoais e sociais passaram a ter novas significações. Mesmo com a revolução gutemberguiana e com o advento da informática em redes regionais, nacionais e mundial, persiste a exclusão digital. Enfrentar a exclusão é obrigação e desafio constante para gestores e executores de políticas publicas (PEREIRA, 2010, p.5).

4 12867 Desenvolvimento Uma das ações de enfrentamento da exclusão digital tem sido a instalação de telecentros públicos, equipamentos com acesso universal e gratuito, onde estão presentes monitores que facilitam para o usuário o contacto com computadores eletrônicos e às redes de comunicação virtual. Estes monitores, alunos do ensino médio e superior, também são chamados de agentes de inclusão digital, que recebem treinamento e formação específica para esta função. Em nossa pesquisa, com base amostral e qualitativa, colhemos depoimentos de 54 destes agentes de inclusão digital ou monitores que atuavam em 40 telecentros públicos no Estado do Paraná. O que se observa nos depoimentos dos monitores é que muitos deles entraram em contato com os computadores pela primeira vez durante o período de treinamento; além disto, vêem em suas ações a oportunidade de fortalecer seus conhecimentos para melhor colocação no mercado de trabalho. Falam também da oportunidade de entrar em contato com pessoas de várias formações, de classes sociais e faixas etárias distintas e da oportunidade de compartilhar conhecimentos. Em nosso entendimento eles são protagonistas da inclusão no mundo digital. Estes monitores, originários do ensino médio e universitário da rede publica tem a paradoxal característica de muitos deles não possuírem computadores em suas residências; entre aqueles que tinham computadores em casa, grande parte não os tinham em conexão com a rede mundial virtual, a internet. Nos depoimentos emergem conceitos incutidos pela classe dominante tais como: aprender informática para se ter uma profissão, para ser incluído no mercado de trabalho, para ser aceito socialmente. Outros depoimentos revelam a esperança de ampliação do universo cultural e educacional rumo ao exercício dos direitos de cidadãos por meio de atividades da Ciência da Informação e Comunicação. Os telecentros públicos, mesmo não pertencendo a instituições escolares formais e oficiais devem ser espaços educativos. Monitores e usuários podem se beneficiar de um processo educativo emancipador e libertador em contraposição à submissão à ordem burguesa e seus interesses nas regras do mercado e na instrumentalização dos seres humanos (GOERGEN, 2001). Em alguns depoimentos de monitores recolhidos na pesquisa, emergem esperança e intuição rumo à emancipação: o que importa é o conhecimento; muitas crianças nem

5 12868 conheciam o computador ou Hoje tenho consciência de que sou importante para a comunidade, as pessoas ficam sabendo o quanto é importante uma instituição que transmite conhecimento para seus filhos, para seus netos e para elas mesmas e Nesta trajetória não só ensinei como aprendi. Sinto-me feliz em ser um agente de inclusão digital, foi uma escola, e a melhor que já tive. Para a comunidade o telecentro trouxe muitos benefícios, tanto para as crianças como para jovens e adultos, oferecendo a tecnologia, cultura, diversão e comunicação com todo o pais. Em outros depoimentos porém aparecem as marcas da submissão impostas pelos segmentos sociais e econômicos dominantes: O mercado de trabalho está concorrido temos que nos aperfeiçoar cada vez mais ou Quase todas as empresas exigem experiência profissional, a tal experiência que um aluno que acabou de sair do terceiro ano do ensino médio não tem e o telecentro modificou muito nossas vidas pois ampliou nossos conhecimentos; podemos dizer que estamos melhor preparados para o mercado de trabalho. Posições e considerações que refletem a dicotomia presente historicamente na cena brasileira: educação emancipadora e formadora de cidadãos versus educação preparadora apenas para atividades laborais, subalternas e submissas: Os conceitos hegemônicos presentes na sociedade como competição, seleção e mérito refletem uma ótica dicotômica com grupos sociais minoritários se beneficiando de políticas publicas com prejuízos para a maioria (BONETI, 2007). Conclusão Schwartz e Moraes (2011) cunharam a expressão emancipação digital para designar a condição que vai além da inclusão no mundo digital e que consiste em ampliar o conhecimento e a prática da cidadania com inserção na sociedade e a utilização dos meios eletrônicos e de redes sociais para fortalecimento da cultura, crescimento educacional e entendimento dos mecanismos de funcionamento da sociedade. O que pode ser percebido em nossa pesquisa e nas experiências de implantação e funcionamento de telecentros públicos e em relatos de outros autores (SILVEIRA, 2001) é que há novos caminhos a se percorrer desde a atual inclusão digital até a emancipação digital. Para tanto se faz necessário o aprofundamento de pesquisas envolvendo monitores, usuários e entes públicos responsáveis pela gestão administrativa e definição de orientações

6 12869 políticas no sentido de se propor políticas publicas em direção a emancipação digital nos telecentros públicos brasileiros, ultrapassando a mera e elementar inclusão no mundo digital. REFERÊNCIAS BONETI, Lindomar Wessler. Educação, exclusão e cidadania. Ijuí: Editora UNIIJUÍ, 2003 BONETI, Lindomar Wessler. Políticas públicas por dentro. Ijuí: Editora UNIIJUÍ, 2007 GOERGEN, Pedro. Pós modernidade, ética e educação. Campinas/SP: Editora Autores Associados, 2001 MATOS, Elizete Lúcia Moreira, SCHRAINER, Juliana. Professor, Educação, Sociedade e a Inclusão das Redes Sociais. IN: BONETI, L.W. ALMEIDA, N.P., HETKOWSKI, T.M. Inclusão Sociodigital Da Teoria à Prática. Curitiba: Imprensa Oficial, 2010 MARX, Karl. GRUNDRISSE. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011 OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Desafios éticos da globalização. São Paulo: Ed. Paulinas, 2002, 2ª. Edição PEREIRA, Nizan. Inclusão digital no Paraná: Bibliotecas cidadãs e telecentros públicos. Curitiba: Imprensa Oficial, 2010 SCHWARTZ, Gilson, MORAES, Julio. Cidades criativas e conexão audiovisual. Boletim FIPE, nº 370, p São Paulo: FIPE, julho de 2011 SILVEIRA, Sergio Amadeu da. Exclusão digital. São Paulo: Ed. Perseu Abramo, 2001

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