Uso de substâncias psicoativas em crianças e adolescentes

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1 Uso de substâncias psicoativas em crianças e adolescentes Alessandro Alves A pré-adolescência e a adolescência são fases de experimentação de diversos comportamentos. É nessa fase que acontece a construção de uma identidade própria e onde também ocorre o desenvolvimento de várias habilidades, além do início da consolidação do papel social. Assim, os jovens começam a treinar papéis visando sua escolha vocacional, experimentam novos contatos sociais e novas atividades de lazer. Quanto mais oportunidades de acesso tiverem a essas novas atividades, e quanto maior a aceitação dessa atividade no grupo ao qual pertencem, mais fácil e frequente ocorrerá a experimentação. No uso de drogas não é diferente. A maioria dos adolescentes interrompe o uso de drogas conforme vão assumindo papéis na vida adulta (exceção feita ao consumo de tabaco, que tende a persistir). O fenômeno é denominado maturing out, ou seja, uma remissão espontânea. Contudo, não é isento de riscos. Precisamos nos lembrar de que: Há um número imenso de acidentes de trânsito, muitos fatais, envolvendo jovens sob o efeito de toda a sorte de drogas. Existe um impacto sobre o sistema nervoso central ainda imaturo desse adolescente. Não é possível saber previamente quais adolescentes têm maior predisposição de passar do uso experimental para a dependência. A experimentação de uma substância psicoativa expõe o jovem a outros fatores de risco, que podem contribuir para a evolução para uso regular e para a dependência. Enfim, o uso de drogas na adolescência é comparável com a experiência suicida conhecida como Roleta Russa.

2 Epidemiologia: Qual a importância disso para o Conselheiro? Os estudos epidemiológicos são muito importantes especialmente para aqueles que desejam desenvolver programas de prevenção primária, ou seja, evitar que os jovens experimentem alguma droga ou pelo menos retardar seu uso. Conhecer a situação do uso de drogas em uma determinada região permite saber: Os tipos de drogas para as quais as estratégias de prevenção devem ser enfatizadas. A idade ideal para iniciar a prevenção. O gênero mais propenso a utilizar determinado tipo de droga. A influência das classes sociais estudadas. Os modismos daquela comunidade. O adolescente que experimenta droga geralmente o faz por curiosidade. Ele busca uma sensação diferente, algo que possa ser incentivado e valorizado pelo grupo. Por isso, consumirá não uma substância específica, mas a que estiver disponível no momento, que varia de acordo com o lugar. Diagnóstico Os critérios diagnósticos para abuso ou dependência de substâncias contidos na DSM-IV (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais) foram desenvolvidos para adultos. Portanto, fechar esse diagnóstico em crianças e adolescentes permanece um desafio. Associe a isso o fato de que a adolescência é uma fase do desenvolvimento com amplas modificações culturais, corporais, emocionais e sociais e por si só dificulta a definição se o uso de substâncias é um transtorno primário, psiquiátrico, de ajustamento ou uma fase transitória do comportamento. Fatores de Risco As estruturas cerebrais responsáveis pela percepção temporal ainda estão em amadurecimento no adolescente, assim como também estão imaturas as estruturas responsáveis pelo controle dos impulsos. Isso significa que o adolescente valoriza o presente e é imediatista, tendo a capacidade de

3 abstrair situações, mas com pouca possibilidade de avaliar riscos, pensar nas consequências e organizar temporalmente a relação de causa e efeito. São essas características presentes em todos os adolescentes que os deixam mais vulneráveis ao uso de drogas, em especial se o acesso for fácil e se ele estiver em um ambiente que aceite esse comportamento. A curiosidade natural dos adolescentes é um dos fatores de maior influência na experimentação de álcool e outras drogas, ao lado de fatores externos como a opinião de amigos e facilidade de obtenção. Atualmente, o fácil acesso, o baixo custo e a maior aceitação do uso de algumas substâncias, como a maconha, tornam quase inevitáveis o acesso e a oportunidade de experimentação dessas substâncias. Como fatores externos, podemos citar os modismos. A moda reflete a tendência do momento e os adolescentes são particularmente vulneráveis a essas influências. Para esses jovens, a moda influenciará na escolha do estilo, salientando-se a pressão da turma, os modelos dos ídolos e os exemplos que tiveram em casa com os pais. Atualmente o uso indiscriminado de medicamentos para relaxar, melhorar o desempenho sexual, estimular a atividade cerebral, dormir, etc., dão a impressão ao adolescente de que para qualquer problema há sempre uma alternativa química de ação rápida e que não exige grandes esforços. Família Pode ser um fator de risco ou um fator de proteção para o uso de substâncias psicoativas. Em primeiro lugar, devemos considerar o fator genético. Filhos de pais dependentes de álcool e/ou outras drogas apresentam quatro vezes maior risco de se tornarem dependentes. Além disso, o ambiente que a família proporciona é outro aspecto fundamental. A família deve proporcionar à criança um ambiente em que a mesma aprenda a lidar com limites e frustrações. As crianças que crescem com regras claras geralmente são mais seguras e sabem o que devem ou não fazer para agradar. Sem essas regras, a criança busca limites adotando um comportamento desafiador com os pais. Mais tarde, na adolescência, tenderá a repetir o comportamento desafiador fora de casa, e é natural que, testando as regras do mundo, vá deparar-se com frustrações. As drogas então aparecem como solução mágica para anestesiar seus sentimentos.

4 As pesquisas sobre os fatores de risco nessa área são muitas, e a verdade é que os fatores internos e externos interagem, não sendo possível isolar a influência ou importância de cada um deles. Podemos, contudo, estar atentos aos principais, que são: Uso de drogas por pais e amigos; Desempenho escolar insatisfatório; Relacionamento deficiente com os pais; Baixa autoestima; Ausência de normas e regras claras; Necessidade de novas experiências e emoções; Pouco senso de responsabilidade; Pouca ou nenhuma religiosidade; Há uma personalidade adicta na infância? Essa é uma pergunta frequentemente feita por diversos interessados no assunto, inclusive familiares desejosos de prever comportamentos adictivos na criança. Há muitas controvérsias e especulações sobre o assunto, mas o que de fato pode ser levado em conta são estudos desenvolvidos na América do Norte onde foi pesquisada a relação entre as características da personalidade de crianças no jardim da infância e o uso de drogas na adolescência. Observou-se que personalidades com traços proeminentes de busca de sensações (sensation seeking) e pouco evitadoras de danos (harm avoidance) foram preditores de uso precoce na adolescência. Comorbidades Transtornos de Ansiedade, transtornos de humor e psicoses são quadros que podem ocorrer na infância e na adolescência, e as comorbidades entre essas patologias e o uso de álcool e/ou outras drogas pode ocorrer. Entretanto, precisamos ficar atentos também a outras doenças, essas exclusivas da infância e adolescência, que tendem a cursar com o uso de drogas, a saber:

5 Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) Transtorno de Conduta (TC) Transtorno Desafiador de Oposição (TDO) Tratamento O objetivo está além da obtenção da abstinência. Há a necessidade de desenvolver habilidades até o momento ignoradas. Estamos tratando alguém que precisa criar uma nova identidade, onde não caberá o uso de drogas, e essa identidade não pode ser relembrada, ela tem que ser construída. Muito mais que reabilitação, estamos fazendo habilitação. As metas principais a serem atingidas são: Abstinência inicial (fase aguda, ou os primeiros três meses). Manutenção da abstinência. Avaliação e tratamento dos outros quadros psiquiátricos associados. Abordagem dos fatores pessoais e familiares que podem estar relacionados com o quadro. Uma questão delicada é até que ponto manter o sigilo e a confidencialidade no caso de adolescentes. O Conselheiro deve estabelecer regras, deixando claro qual o espaço do paciente e o da família. Com frequência os familiares querem detalhes das consultas do paciente, que não devem ser revelados. Contudo, deixe claro a ambos, família e paciente, que em caso de não cumprimento das orientações do tratamento, quando o paciente continua colocando em risco sua vida e sua saúde, seja usando droga ou envolvendo-se em atividades ilegais, a família será avisada. O tratamento é longo, mas a melhora precisa ser reconhecida o mais rápido possível, a fim de que o adolescente seja estimulado a não abandonar o tratamento. Para isso, estabeleça inicialmente metas curtas (caminhadas ou passeios diários, leitura ou visualização de conteúdo áudio visual,...) para gradativamente inserir outras metas de reinserção no meio social ( voltar a estudar, prática desportiva,...)

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