MATEMÁTICA INCLUSIVA. Kelen Berra de Mello 1 (Coordenador da Ação de Extensão) Palavras-chave: educação matemática, inclusão, deficientes visuais.

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1 MATEMÁTICA INCLUSIVA Área Temática: Educação Kelen Berra de Mello 1 (Coordenador da Ação de Extensão) Carla Fabiane Bonatto, Fernanda Rogéria Noronha dos Santos, Melina Trentin Rosa 2 Palavras-chave: educação matemática, inclusão, deficientes visuais. Resumo: Em 2012 foi firmado um convênio entre o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul Câmpus Caxias do Sul e o Instituto da Audiovisão (INAV). O INAV é uma instituição sem fins lucrativos que oferece oportunidade de educação, habilitação e reabilitação de pessoas surdocegas, cegas e com baixa visão, visando à inclusão escolar e profissional. No projeto de extensão Inclusão Matemática, os licenciandos em matemática oferecem oficinas e monitorias de matemática aos alunos com deficiência visual atendidos por esta instituição. Este projeto tem dois objetivos principais, o primeiro de fazer um trabalho de tomada de consciência dos licenciandos para importância de um processo de ensino e aprendizagem inclusivo e o segundo melhorar o desempenho escolar dos alunos com deficiência visual na disciplina de matemática. Este trabalho se justifica pelo fato de além de qualificar a aprendizagem matemática dos deficientes visuais, também colaborar com que os licenciandos tenham um primeiro contato com o processo de ensino de matemática inclusivo. Através das monitorias, é possível coletar informações sobre as dificuldades enfrentadas por este aluno, e a partir disto, é possível criar estratégias de ensino para melhorar a compreensão dos mesmos do conteúdo de matemática, criando oficinas e ajustando materiais didáticos. Os materiais criados são pensados de forma que podem ser utilizados com toda a classe, proporcionando interação com todos os alunos, promovendo uma troca de saberes entre os alunos, tanto deficientes visuais quanto os alunos ditos normais. Vale ressaltar que, estes materiais também são aplicados nas aulas de matemática do ensino regular, a fim de avaliar aplicabilidade, além de serem utilizados nos cursos de formação de professores de matemática. Pode-se concluir que, através deste projeto observa-se uma evolução do conhecimento matemático tanto nos deficientes visuais atendidos quanto nos licenciandos que elaboraram diferentes estratégias de ensino de matemática. Contexto da ação A Resolução CNE/CP nº 1/2002, que institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de 1 Doutora em Engenharia Mecânica, Câmpus Caxias do Sul, Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, 2 Alunos do Curso de Licenciatura em Matemática, Câmpus Caxias do Sul, Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul.

2 licenciatura e de graduação plena, em seu artigo nº 6, 3º, inciso II, define que na formação de professores, além da formação específica, deve ser propiciado debates envolvendo questões culturais, sociais, econômicas e o conhecimento sobre o desenvolvimento humano e a própria docência, contemplando conhecimentos sobre as especificidades dos alunos com necessidades educacionais especiais. Além disso, a LDB 3, em seu art. 59, estabelece que os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com deficiências, entre outros itens, currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades. O Decreto nº 7.611/2011 define que o atendimento educacional especializado deve integrar a proposta pedagógica da escola, envolver a participação da família para garantir pleno acesso e participação dos estudantes, atender às necessidades específicas das pessoas público-alvo da educação especial, e ser realizado em articulação com as demais políticas públicas. Este decreto apresenta como objetivos desse atendimento: - prover condições de acesso, participação e aprendizagem no ensino regular e garantir serviços de apoio especializados de acordo com as necessidades individuais dos estudantes; - garantir a transversalidade das ações da educação especial no ensino regular; - fomentar o desenvolvimento de recursos didáticos e pedagógicos que eliminem as barreiras no processo de ensino e aprendizagem e; - assegurar condições para a continuidade de estudos nos demais níveis, etapas e modalidades de ensino. A partir desta Resolução e do Decreto já citados acima, criou-se um programa intitulado Inclusão Matemática onde tem-se como um dos seus objetivos oportunizar aos licenciandos do curso de Licenciatura em Matemática contato com alunos, deficientes visuais, inclusos em escolas regulares por meio de um convênio com o Instituto da Audiovisão - INAV. É objeto deste convênio um programa de cooperação e intercâmbio de informações direcionadas à área de Educação Inclusiva, envolvendo ações educacionais de Extensão e Pesquisa junto à comunidade de Caxias do Sul. E uma das suas atividades principais é incentivar os alunos do curso de Licenciatura em Matemática do IFRS Câmpus Caxias do Sul a realizarem atividades de monitoria na área de matemática aos deficientes visuais atendidos por esta instituição. Por meio das monitorias desenvolvidas no INAV busca-se auxiliar os deficientes visuais na compreensão de conhecimentos matemáticos que os auxiliem no seu cotidiano e em suas atividades escolares para que obtenham êxito em suas ações. Segundo Ferronato (2002, p. 12), Todos têm a necessidade de saber medir, contar e calcular, independente de possíveis dificuldades que possam existir. O cego também precisa desse conhecimento, até mesmo como uma forma para alcançar independência, e aumentar suas possibilidades de acesso significa respeitar suas particularidades. Como Ferronato cita todos precisam ter conhecimento de noções básicas de matemática, para auxiliar na compreensão de tal conhecimento utiliza-se nas 3 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996.

3 monitorias de materiais manipulativos, lúdicos que contribuam no processo de ensino e aprendizagem dos alunos, conforme afirmam Selau, Kronbauer e Pereira (2010, p. 8), Detalhamento das atividades Os alunos com deficiência visual podem apresentar dificuldades específicas em relação à aprendizagem da Matemática. Nesse sentido, é necessário que experimentem jogos ou brinquedos por meio dos quais poderão vivenciar a classificação, a ordenação por tamanho, a adição e a subtração, além da comparação entre objetos. É importante que a criança desenvolva a noção de conservação dos conjuntos, de equivalência e, progressivamente, de outras operações de base concreta, como suporte para posteriores abstrações. Os licenciandos em matemática pertencentes ao programa Inclusão Matemática têm realizado pesquisas com desenvolvimento de recursos pedagógicos na área de matemática envolvendo materiais manipulativos para utilização com os deficientes visuais e monitorias (reforço escolar) na área de matemática para os deficientes visuais atendidos pelo INAV. Para a realização do desenvolvimento dos recursos pedagógicos primeiramente foi realizada uma pesquisa em sites, livros e vídeos que abrangem assuntos destinados ao tema de inclusão e educação, com a finalidade de conhecer as diversas concepções que envolvem esse tema. É importante salientar, que além dessas pesquisas, houve também a participação em palestras e o manejo em ferramentas pedagógicas já existentes como o soroban 4 e o multiplano 5, para que seja realizada a utilização desses materiais como ferramentas facilitadoras no processo de ensino e aprendizagem nas monitorias no INAV. As monitorias são realizadas nas dependências do INAV, tendo duração de 01 hora, são atendidos oito alunos de faixas etárias distintas e níveis de ensino que compreendem do ensino básico ao ensino superior, conforme mostra a Tabela 1. Tabela 1 - Alunos atendidos nas monitorias de matemática no INAV Escolaridade (em curso no ano atual) Deficiência Educação Infantil Cegueira 4 ano (3ª série) do Ensino Fundamental Baixa Visão e Deficiência Física 5 ano (4ª série) do Ensino Fundamental Cegueira 9 ano (8ª série) do Ensino Fundamental Baixa Visão 3 ano do Ensino Médio Baixa Visão Ensino Médio Concluído em 2013 Cegueira Ensino Superior em Engenharia Mecânica Baixa Visão 4 O soroban é um ábaco japonês para a execução de operações matemáticas que através de contas presas em hastes, que representam as unidades, dezenas, centenas possibilita fazer diversos cálculos. 5 O multiplano é um material concreto que consiste, basicamente, em uma placa perfurada de linhas e colunas perpendiculares, onde os furos são equidistantes. Pode ser usado por alunos com e sem deficiência visual, tanto do ensino básico quanto do ensino superior, para auxiliar na compreensão dos conceitos matemáticos.

4 Ensino Superior em Análise e Desenvolvimento de Sistemas Cegueira Fonte: Arquivo Pessoal Os recursos didáticos e a metodologia envolvida no desenvolvimento das atividades para as monitorias permitem motivar o educando para a aprendizagem de conhecimentos matemáticos significativos para os alunos, por meio da realização de atividades desenvolvidas que envolvem diversos assuntos, como geometria analítica, estatística e probabilidade, geometria plana. É importante salientar que, os materiais manipulativos utilizados são confeccionados com materiais de baixo custo e também com materiais recicláveis como e.v.a, barbantes, garrafas PET, entre outros. Durante as monitorias também são trabalhadas atividades lúdicas, como jogos, onde são abordados diversos conteúdos matemáticos, trabalhando por exemplo com o princípio de contagem e radiciação. A utilização dos jogos ajuda a melhorar o relacionamento entre o aluno e o licenciando (monitor) e estimula o aluno a gostar de matemática, como afirma Alves (2007, p.22) a educação por meio de atividades lúdicas vem estimulando as relações cognitivas, afetivas, sociais, além de propiciar também atitudes de crítica e criação nos alunos que se envolvem nesse processo. Nas monitoriais voltadas para o Ensino Fundamental são reforçados os tópicos que os alunos estão estudando no ensino regular. Além disso, estimula-se o uso da escrita em braille para registrar as atividades feitas nas monitorias, para facilitar os estudos posteriores dos alunos, assim como a utilização do soroban, isto, em função desta ferramenta proporcionar a quem a utiliza maior concentração e atenção na execução dos cálculos mentais, haja vista que, este instrumento não é responsável pelos cálculos, mas apenas auxilia no registro das contas à medida que o aluno o utiliza para resolver as operações matemáticas. Neste ano, a partir da solicitação feita pelo INAV, o programa começou a oferecer monitorias destinadas ao ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Nestas monitorias, procura-se preparar atividades utilizando recursos manipulativos baseadas em questões do ENEM de anos anteriores, com o objetivo de que estes alunos obtenham uma pontuação satisfatória no exame. Estas monitorias são feitas em grupo, formado por quatro alunos (sendo um aluno do terceiro ano do ensino médio, um aluno que concluiu o ensino médio e dois alunos de ensino superior) e dois monitores. Neste caso, existe a necessidade de dois monitores devido ao número de alunos atendidos e em função destes alunos apresentarem grau de visão diferentes (dois apresentam cegueira e dois baixa visão). Nestas monitorias destinadas ao ENEM incentiva-se que os alunos expressem suas maiores dificuldades na área de matemática, e a partir de seus anseios são preparadas atividades que auxiliem o aluno a desenvolver o raciocínio lógico. Análise e discussão Através das monitorias, pode-se verificar que o ensino de matemática para portadores de deficiência visual é possível desde que as atividades sejam planejadas. Utilizar materiais manipuláveis auxilia os alunos na compreensão de

5 conceitos matemáticos, além de possibilitar que os alunos tenham uma participação ativa na sua própria construção de conhecimento. Vale ressaltar que, os alunos atendidos pelos monitores dificilmente faltam aos encontros, percebe-se que os mesmos gostam de participar das atividades, justamente porque estas monitorias tem um olhar diferente sobre o conteúdo da matemática. É comum ouvir dos alunos a seguinte frase: se o meu professor fizesse isso na sala de aula, todo os alunos gostariam de matemática. A partir deste programa, os licenciandos em matemática têm a oportunidade de tomar ciência a respeito de sua responsabilidade social como professores, espera-se que os licenciandos envolvidos nas monitorias continuem desenvolvendo atividades inclusivas, a fim de possibilitar a permanência de alunos com deficiência na escola regular. A cada quinzena realiza-se uma reunião entre os licenciandos envolvidos nas monitorias e a coordenadora do programa para debater sobre as ações desenvolvidas. Neste momento são relatadas situações das monitorias citando o que foi positivo e o que não foi, a partir disso, são traçadas estratégias de ensino a fim de promover a inclusão na área de matemática dos alunos atendidos. Considerações finais Todos os materiais pedagógicos criados pelo programa não se limitam apenas para alunos com deficiência, mas podem ser utilizados em toda sala de aula regular, proporcionando que no ambiente escolar o aluno incluso seja atuante no seu processo de aprendizagem. Por meio da ação desenvolvida, concorda-se com o citado por Gabrilli (2010, apud TURELLA e CONTI, 2010, p.23): O deficiente ensina àqueles que o cercam que é possível ultrapassar qualquer barreira e ser feliz, haja vista que o licenciando ao ministrar as monitoriais e ter contato com os alunos com deficiência visual conhece a realidade dos mesmos, aprendendo muito com eles, com seus exemplos de superação das deficiências, com o seu interesse em aprender, com a sua vontade de viver e de ser feliz, por meio disto o licenciando motiva-se a ministrar as monitorias tentando fazer o melhor para os alunos atendidos. Referências ALVES, Eva. M. S. A ludicidade e o ensino da matemática. 4ª Edição. Editora Papirus BRASIL. Presidência da República. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 23 de dezembro de Seção 1.p BRASIL. Decreto nº de 17 de novembro de Dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 18 de novembro de Seção 01.p.12. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução nº 1, de 18 de fevereiro de Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de

6 licenciatura, de graduação plena. Diário Oficial da União, Brasília, 9 de abril de Seção 01.p.31. FERRONATO, Rubens. A construção de instrumento de inclusão no ensino da matemática. [Dissertação (mestrado)], UFSC, Florianópolis-SC SELAU, Bento; KRONBAUER, Carlise I.; PEREIRA, Priscila. Educação Inclusiva e Deficiência Visual: Algumas Considerações. Revista Benjamin Constant, Rio de Janeiro, v. 16, n. 45, p. 5-12, abr TURELLA, Celis F.; CONTI, Keli C. Matemática e a Deficiência Visual: Atividades Desenvolvidas com o Material Dourado. Revista Benjamin Constant, Rio de Janeiro, v. 18, n. 52, p , ago

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