O campo científico e os conflitos e relações de poder no trabalho de professores de uma universidade pública

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1 1 O campo científico e os conflitos e relações de poder no trabalho de professores de uma universidade pública Resumo Carla Fabiana Graetz Orientador Prof. Dr. Eduardo Pinto e Silva Mestrado Linha de Pesquisa: Estado, Política e Formação Humana Objetiva-se investigar as relações de trabalho entre professores de uma universidade pública brasileira de renome, particularmente os possíveis conflitos entre professores que se doutoraram e ingressaram na universidade pública antes de 1995, e os que o fizeram após Pretende-se analisar aspectos inerentes à lógica das práticas do campo científico, como as relações de poder e as disputas por reconhecimento e prestígio, e suas especificidades na universidade a ser pesquisada. Serão realizadas entrevistas semi-estruturadas com uma amostra de dez professores, cinco de cada grupo, sobre a trajetória acadêmico-científica, precedidas por uma caracterização do perfil do corpo docente por meio da Plataforma Lattes. Realizaremos uma análise qualitativa dos discursos e coletaremos dados relativos à lógica das práticas dos agentes do campo científico que possam indicar hierarquias e disputas nele existentes. Palavras Chaves: trabalho; campo científico; relações de poder.

2 2 I BREVE DELIMITAÇÃO DO TEMA: O objetivo deste projeto de pesquisa é o de identificar e analisar, com base em discursos de professores universitários e de elementos objetivos de suas posições hierárquicas no campo científico, as características das suas relações de trabalho e as possíveis articulações com as disputas por reconhecimento e prestígio. Pretende-se enfocar as características destas relações em uma renomada instituição universitária, particularmente entre os new doctors e os doutores que já contam com uma carreira consolidada na universidade, a fim de identificar se existem conflitos, competitividade e relações de poder entre os docentes. 1 Parte-se da hipótese de que as características das relações de trabalho sejam passíveis de serem relacionadas ao atual modelo de gestão e avaliação das instituições, dos docentes e dos programas de pós-graduação. Considera-se ainda que as diferenças nas posições ocupadas na hierarquia na universidade e no campo científico possam vir a interferir nas relações de trabalho. Vale ainda mencionar estudos anteriores que indicam que a intensificação do trabalho implica em competitividade entre professores (SGUISSARDI; SILVA JÚNIOR, 2009; SILVA; SILVA JÚNIOR, 2010). A pesquisa levará em consideração o significado do trabalho, valores e influências sofridas durante a formação e trajetória acadêmica, as políticas educacionais a estrutura e a cultura da instituição de pertença, as hierarquias e relações de poder e as formas de distribuição do capital científico (BOURDIEU, 2004). O campo científico, segundo Bourdieu (1983) se caracterizaria como um conflitivo espaço de relações interpessoais, com similaridades e especificidades em relação aos 1 Ou seja, entre professores que se doutoraram e ingressaram na universidade pública antes de 1995, e os que o fizeram após 1995, quando as práticas e cultura universitárias se reconfiguraram com base nas diretrizes da Reforma do Estado e no modelo Capes de regulação da pós-graduação. Vide outras considerações no item III, Metodologia e Procedimentos, a respeito dos critérios de definição da instituição, da amostra de professores a ser entrevistados e quais perfis seriam classificados como professores antigos e new doctors.

3 3 existentes nas demais organizações e campos sociais. O autor ressalta a dimensão da luta concorrencial no campo científico : O campo científico (...) é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em jogo especificamente nessa luta é o monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o monopólio da competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente determinado (BOURDIEU, 1983, p. 122). E enfatiza que ele deva ser compreendido sob a perspectiva política: é o campo científico, enquanto lugar de luta política pela dominação científica, que designa a cada pesquisador, em função da posição que ele ocupa, seus problemas, indissociavelmente políticos e científicos, e seus métodos, estratégias científicas que, pelo fato de se definirem expressa ou objetivamente pela referência ao sistema de posições políticas e científicas constitutivas do campo científico, são ao mesmo tempo estratégias políticas. Não há escolha científica do campo da pesquisa, dos métodos empregados, do lugar de publicação; ou, ainda, escolha entre uma publicação imediata de resultados parcialmente verificados e uma publicação tardia de resultados plenamente controlados que não seja uma estratégia política de investimento objetivamente orientada para a maximização do lucro propriamente científico, isto é, a obtenção do reconhecimento dos pares-concorrentes (BOURDIEU, 1983, p. 126). O autor rompe com a visão idealista do pesquisador que não conheceria senão as leis da concorrência pura e perfeita das ideias (BOURDIEU, 1983, p. 123) ao considerar a dimensão política da busca de reconhecimento entre os pares-concorrentes. Assim, nas relações de trabalho pode-se supor que haja disputa por uma posição dominante na hierarquia social do campo científico. Uma vez ocupada esta posição por um agente, suas ações se encaminhariam no sentido de legitimá-la e nela permanecer. Bourdieu utiliza o conceito de habitus, compreendido como um sistema de disposições duráveis estruturadas de acordo com o meio social dos sujeitos (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2009, p. 24), estruturas estruturadas e estruturantes que tornam o sujeito predisposto a agir de acordo com valores e preferências incorporados no processo de socialização ao qual foi submetido. O campo científico seria propício à emergência de disputas e o habitus científico se relacionaria a uma disposição a agir dentro de certos parâmetros de uma racionalidade pautada pela lógica argumentativa, mas não por isto não

4 4 sujeita aos princípios de produção de práticas diferenciadas de acordo com variáveis de gênero e origem social (BOURDIEU, 2004, p.64). Há, segundo Bourdieu (1983), duas classes de intelectuais envolvidos no campo científico: dominantes e novatos. Os primeiros, intelectuais consagrados com seu espaço legitimado, ditam as regras do jogo no campo do saber. Constituem a comunidade científica que se ocupa de perpetuar seus interesses, muitas vezes impondo as regras de admissão aos novatos. Estes ocupam posição desigual em relação aos dominantes e se utilizam estratégias de sucessão ou de subversão para conquistar uma posição no campo científico. Assim, os conflitos entre eles se relacionaria à posição no campo científico e à busca por legitimação e prestígio. Silva e Silva Júnior (2010, p.255) argumentam que a competitividade nas relações de trabalho induz a uma coletividade anômala, a uma falsa solidariedade ou a um fetiche de solidariedade. Segundo estes, estranhamento e desumanização nas relações de trabalho na universidade se relacionam às práticas de avaliação preconizadas pela políticas educacionais. Nas universidades públicas, mais especificamente nas federais, conforme pesquisas realizadas por Sguissardi e Junior (2009), a situação tem sido conturbada entre os professores. Em algumas situações ou programas, os mais velhos tendem a criticar o novo sistema de avaliação das agências de fomento à pesquisa, enquanto os new doctors, criados neste sistema, por vezes parecem estar mais acostumados ao produtivismo acadêmico. Em outras situações, os professores mais antigos, com carreira consolidada e com maior facilidade que os novos de obter financiamentos de suas pesquisas e espaços em revistas e livros para objetivar suas análises e produções, podem vir a defender as diretrizes das atuais políticas educacionais e da reconfiguração da cultura e práticas universitárias. Nestes casos, os professores antigos poderiam, em certa medida, legislar em causa própria, ou seja, defender seus interesses em detrimento das gerações seguintes, não raramente

5 5 dificultando seu acesso à pós-graduação. É possível, portanto, que, dentro do universo de professores, sejam encontradas muitas formas de relacionamento entre colegas de trabalho formados em diferentes tempos históricos e com distintas trajetórias acadêmico-científicas. Além dos conflitos mencionados, pode haver situação de assédio moral no trabalho. Heloani (2004, p.6) aponta que o assédio abrange todas as classes e situações de trabalho, incluindo juízes, desembargadores, professores universitários, médicos. Em estudo realizado em uma instituição de ensino superior Caran (2010) elencou algumas situações de assédio moral, dentre elas, chefes pressionando docentes, ameaças de legitimidade no cargo, desistência de concurso por intimidação de membro da banca, pressão em casos de concursos para ingressos e/ou alterações de funções na carreira docente, imposição de funções e atividades aos menos titulados sem seu consentimento ou aceitação, dentre outros. Sua análise corrobora com a hipótese de que o campo científico poderia estar se tornando progressivamente propício ao assédio moral nas relações de trabalho. É possível supor que as situações de descredenciamento e/ou de impedimentos de credenciamento aos programas envolvendo professores novos e antigos poderia ocorrer de forma a configurar situações propícias ou próximas às de assédio moral. Consideramos que as hipóteses até aqui explicitadas envolvem uma complexidade de fatores a ser melhor investigada. As causas dos conflitos nas relações de trabalho do professor universitário precisam ser compreendidas à luz de uma concepção que considere o caráter dinâmico, contraditório e histórico da realidade, procurando conhecer e compreender as inúmeras variáveis e a complexidade dos conflitos de interesses existentes nestas relações. II OBJETIVOS: Objetivo geral: identificar e analisar, com base em discursos de professores universitários e de elementos objetivos de suas posições hierárquicas e de suas práticas no campo científico,

6 6 as características das suas relações de trabalho e suas possíveis articulações com as disputas por reconhecimento e prestígio. Objetivos específicos: - Identificar e analisar as relações de poder e a existência ou não de conflitos, individualismo e competitividade nas relações de trabalho de professores de uma renomada universidade pública, particularmente entre os new doctors e os doutores que já contam com uma carreira consolidada na universidade; - Identificar as formas pelas quais as distintas posições na hierarquia no campo científico possam vir a interferir nas relações de trabalho e na constituição de possíveis conflitos; - Identificar a possível influência das políticas públicas de avaliação de desempenho dos pesquisadores e dos programas de pós-graduação nas relações de poder e trabalho. III METODOLOGIA E PROCEDIMENTOS: Os critérios utilizados para a escolha da universidade a ser pesquisada levarão em consideração a existência de curso de pós-graduação ao menos desde 1990; crescimento da pós-graduação após 1995 (em função da Reforma do Estado), de modo a existirem professores antigos e novos; alguns professores trabalhando na pós-graduação e outros que estejam pleiteando tal condição; e/ou, que tenham sido descredenciados; e/ou, que pleiteiem orientar no doutorado, mas que ainda não cumpram critérios para tal; instituição pública de renome e que contemple entre seus integrantes: professores com assento em comissões editoriais de periódicos qualis A1, A2 e B1; professores em comissões editoriais de periódicos qualis B2, B3, B4; professores em órgãos diretamente ligados às diretrizes das políticas da pós-graduação e/ou de financiamento de pesquisas, como CAPES, CNPQ e Fapesp; professores com e sem bolsa produtividade; professores que possuam ou não projetos de pesquisa financiados.

7 7 Objetiva-se a realização de no mínimo dez (10) entrevistas semi-estruturadas sobre trajetórias de vida e acadêmico-científica, sendo cinco (5) com professores antigos e outras cinco (5) com os que aqui denominamos new doctors. Considerar-se-á professores antigos os que preencherem os seguintes critérios: ingresso na universidade pública, ou obtenção do título de doutor, ou início de atividades de ensino e de orientação de pesquisas no programa de pós-graduação, até, no máximo, o ano de Considerar-se-á new doctors dois subgrupos de professores: um deles formado por um ou mais professores que tenham ingressado na universidade pública, ou obtido o título de doutor, ou iniciado atividade de orientação de pesquisa na pós-graduação, entre 1996 e O outro subgrupo compreenderia um ou mais professores cujo ingresso na universidade pública e/ou na pós-graduação tenha ocorrido a partir de 2001, sendo que seria priorizada o mínimo de duas entrevistas com professores cujo ingresso na universidade pública tenha ocorrido a partir de As entrevistas serão precedidas por uma caracterização do perfil do corpo docente e por coleta de dados que possibilite identificar a posição dos agentes na hierarquia institucional e no campo científico, utilizando como referências os currículos da Plataforma Lattes, identificação da posição dos agentes em órgãos de financiamento de pesquisa e comissões editoriais de prestígio e os critérios para ingresso e permanência dos professores nos programas de pós-graduação. A análise dos discursos e dos dados curriculares e documentais terá como base o método praxiológico de Bourdieu. A pesquisadora buscará contrapor os discursos dos entrevistados às suas práticas, a fim de identificar articulações e/ou descompassos, levando em conta as especificidades de suas disposições internas para a ação (habitus) e as supostas disputas do campo científico. Analisar o campo científico por meio do método praxiológico

8 8 significa captar a experiência do mundo social na perspectiva do professor e identificar as práticas relacionadas às estruturas, normas e regulamentos da instituição, com destaque para avaliações e critérios de desempenho pelos quais os pesquisadores são constantemente premiados e/ou punidos. IV RESULTADOS PARCIAIS OU ESPERADOS Dessa forma, estima-se conhecer uma quantidade de dados objetivos e subjetivos que possibilitem condições para uma análise mais aprofundada do assunto, contribuindo para a compreensão da estruturação do campo científico no Brasil e as influências das políticas de avaliação e fomento às quais os pesquisadores têm sido submetidos. V REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BOURDIEU, P. Um mundo à parte. In: BOURDIEU, P. Para uma sociologia da ciência. Lisboa: Edições 70, O campo científico. In: ORTIZ, R. (org.) Pierre Bourdieu sociologia. São Paulo: Ática, CARAN, V. C. S. et. Al. Assédio moral entre docentes de instituição pública de ensino superior do Brasil. Acta Paul. Enferm., vol. 23, n. 6, HELOANI, J. R.. Assédio moral um ensaio sobre a expropriação da dignidade no trabalho. RAE-eletrônica, v. 3, n. 1, jan. jun NOGUEIRA, M. A., NOGUEIRA, C. M. M. Bourdieu e a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, SGUISSARDI, V., SILVA JÚNIOR, J. dos R Trabalho intensificado nas federais: pósgraduação e produtivismo acadêmico. São Paulo: Xamã, SILVA, E. P. e, SILVA JÚNIOR, J. dos R.. Estranhamento e desumanização nas relações de trabalho na instituição universitária pública. Revista HISTEDBR On line, Campinas, número especial, ago

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