SEMINÁRIO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DO CAMPO SANTA CATARINA CHAPECÓ, 28 A 30 DE AGOSTO DE 2013 CARTA ABERTA À SOCIEDADE CATARINENSE E BRASILEIRA

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1 SEMINÁRIO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DO CAMPO SANTA CATARINA CHAPECÓ, 28 A 30 DE AGOSTO DE 2013 CARTA ABERTA À SOCIEDADE CATARINENSE E BRASILEIRA 1. Nós, 350 educadores e educadoras das escolas públicas do campo, militantes dos movimentos sociais e sindicais, professores e gestores da educação básica e das universidades, estudantes, camponeses e lideranças políticas, nos reunimos neste Seminário Estadual de Educação do Campo, no intuito de avaliar a situação da educação do campo no Estado de Santa Catarina e traçar estratégias comuns para a articulação dos trabalhadores e trabalhadoras, em vista à superação dos problemas enfrentados. Neste contexto, o presente documento resgata alguns aspectos históricos da luta por uma Educação do Campo, traz elementos para um diagnóstico da situação educacional do campo em Santa Catarina e apresenta proposições coletivas definidas neste encontro. O Seminário teve por organizadores: Movimento de Mulheres Camponesas MMC, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar FETRAF- Sul, Associação Regional das Casas Familiares Rurais ARCAFAR Sul, Sindicato dos Trabalhadores em Educação SINTE, Universidade Federal da Fronteira Sul UFFS, Diretório Central dos Estudantes da UFFS DCE, Universidade Comunitária da Região de Chapecó UNOCHAPECÓ, Assembléia Legislativa do Estado se Santa Catarina, Escola do Legislativo e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária INCRA. 2. No contexto da questão agrária brasileira e da luta por Reforma Agrária e justiça social, por mais de uma década e meia, a educação do campo tem sido uma luta da classe trabalhadora, denunciando uma dívida histórica com a escolarização e a ausência de outras politicas públicas de direito aos sujeitos do campo, o que tem exigido uma grande organização coletiva, especialmente a partir do I Encontro de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária, em 1997; da I Conferência Nacional Por Uma Educação Básica do Campo, em 1998 e da II Conferência Nacional Por Uma Educação do Campo, em A partir desses marcos foram realizadas, nos estados brasileiros, várias ações.

2 3. Em Santa Catarina, a educação do campo surge no final da década 1990, da luta dos movimentos sociais e sindicais, com objetivo de problematizar as estruturas e condições educacionais que o campo enfrentava, assim como buscar soluções na perspectiva da construção de uma sociedade igualitária, em particular, a igualdade pelo direito à escolarização pública e de qualidade, o que exigia a criação de mecanismos de inserção dos trabalhadores e trabalhadoras do campo nos debates acerca das políticas públicas educacionais. Para isso diversas ações foram realizadas, entre elas destacamos: I Conferência Estadual de Educação do Campo (1998), em Chapecó. Organizadores: MST, MMC e SINTE, com apoio da UNOESC. Formação de professores: nas escolas e em seminários regionais e estaduais; promoção de Ciclos de Estudo da Educação Básica do Campo, entre 1998 a II Conferência Estadual de Educação do Campo (1999) em Chapecó. Organizadores: UNOESC, MST, MMC, MAB, SINTE, FETRAF, PJR, Prefeitura de Chapecó. III Conferência Estadual de Educação do Campo (2002) em Chapecó. Fórum Permanente de Educação do Campo em SC, com protagonismo dos Movimentos Sociais do Campo de Participação em Congressos do SINTE, promoção de audiências públicas, manifestações e cartas ao poder público, apoio e elaboração de projetos de educação do campo. Jornadas de lutas por escola e educação do campo com reivindicações junto às prefeituras, além de debates/estudos sobre a proposta de Educação do Campo nas escolas e comunidades. Projetos Pronera em parceria com a UFSC, UNOCHAPECÓ e UNOESC. Foram realizados 12 projetos até o momento. Mais 6 mil estudantes foram formados na educação de jovens e adultos, cursos técnicos de nível médio e especializações Em 2005 criou-se o Comitê Catarinense pela Educação do Campo; em 2008 o Fórum Catarinense de Educação do Campo. Desde então, foram realizados seminários estaduais motivados pela Coordenação Geral de Educação na SECAD/MEC, bem como o acompanhamento da implementação de políticas públicas. 4. O movimento por uma Educação do Campo alcançou conquistas nas políticas públicas no Estado brasileiro que, ainda que pontuais, são significativas frente às demandas de acesso à educação formal no campo brasileiro. Estas políticas abarcam vários níveis e modalidades de escolarização. Entre estas políticas, mencionamos: as Diretrizes Operacionais para as Escolas de Educação Básica do Campo, o Decreto Presidencial 7.352/2010, o Programa ProJovem Campo Saberes da Terra,

3 as Licenciaturas em Educação do Campo (PROCAMPO), o PRONERA e o PRONACAMPO, entre outras. 5. Entretanto, hoje avalia-se que algumas destas políticas não estão atendendo às reais necessidades e demandas dos trabalhadores e trabalhadoras do campo, haja vista que identifica-se um refluxo na expansão das mesmas e uma apropriação de seu conteúdo, via Estado, pelas forças políticas do grande capital e latifúndio no campo. Com isto, tem ocorrido uma distorção dos princípios e reivindicações dos trabalhadores do campo. 6. É importante salientar que no estado de Santa Catarina temos evidenciado que: No ano de 1995 somava-se um total de escolas, em 2011 constavam escolas. Enquanto no campo em 1995 eram escolas, em 2011 eram apenas As escolas urbanas eram em 1995 e sobem para em (Dados do Censo Escolar/MEC, 2012). Estes números são explicados pelos processos de nucleação e fechamento das escolas no campo. Dos 293 municípios de Santa Catarina, apenas em 53 deles há Ensino Médio no campo com 80 unidades escolares, segundo dados do MEC/INEP Educacenso, Há ausência de Políticas dos governos estaduais voltadas aos camponeses à Educação do Campo e à valorização dos trabalhadores em educação. Há intenso êxodo rural da juventude, muitos jovens estão desmotivados em relação a sua permanência no campo, em dar continuidade às atividades dos pais junto à agricultura. Registra-se falta de políticas de lazer e cultura, acessibilidade, trabalho e geração de renda, entre outros. Nas escolas, há alta rotatividade de professores, sobretudo pelos contratos temporários de trabalho, o que dificulta o desenvolvimento de um trabalho pedagógico coletivo e articulado às demandas das comunidades e movimentos sociais. Destaca-se, ainda, o pouco tempo e espaço para discussões coletivas, a descontinuidade nos processos de construção das propostas pedagógicas das escolas, a pouca autonomia na gestão escolar, sendo frequente formas de tutela por parte de gestores públicos sobre o trabalho escolar. Registra-se a falta de incentivo por parte das secretarias de educação (municipais e estadual) em

4 relação à formação docente para o campo, bem como de liberação de seus docentes para a formação continuada. A Educação Formal é baseada hegemonicamente na formação para o mercado de trabalho, a qual reserva aos mais pobres os piores lugares e condições. Os currículos oficiais ainda mistificam a realidade do campo, desconsideram os sujeitos, sua realidade e seus interesses. Articulado ao fechamento de escolas, houve o surgimento de uma rede de transporte escolar. O transporte quase sempre é de má qualidade, salvo os casos em que governos populares buscaram ou desenvolveram políticas e/ou programas. Geralmente o transporte e as estradas são de má qualidade, sem dizer que crianças, jovens, adultos e idosos, quando precisam deste transporte para acessar a escola ou a universidade, enfrentam a superlotação e passam muito tempo em trânsito. Cabe salientar ainda que muitas escolas núcleos/pólos ou localizadas nas sedes dos municípios estão lotadas de estudantes, o que torna precário o processo de ensino-aprendizagem. Há falta de internet, bibliotecas e laboratórios na maioria das escolas públicas, assim como, salas de aula e outros espaços pedagógicos fundamentais à qualidade educacional. Praticamente não há educação infantil de 0 a 6 anos no campo; muitas crianças são levadas para o trabalho junto com os pais. Falta oferta de Educação Especial no campo, bem como de professor auxiliar para a educação especial. Muitos municípios ainda não garantem uma alimentação escolar de qualidade e esta nem sempre vem da Agricultura Familiar. Muitas vezes a alimentação escolar é comprada de outros estados e de grandes empresas, as quais trabalham com agrotóxico e exploram a mão de obra dos trabalhadores rurais a alimentação escolar é terceirizada, desvalorizando a produção do agricultor local. Por outro lado, há muitas experiências de educação formal e não formal acontecendo nos Movimentos Sociais e Sindicais do Campo, nas Escolas Famílias Agrícolas, nas prefeituras com administrações populares, nas escolas de assentamentos e acampamentos do MST, no PRONERA, nas escolas e universidades públicas, as quais devem ser consideradas na formulação das políticas educacionais.

5 7. Diante dessa situação, propõe-se: Maior abertura das secretarias de educação em relação às lutas sociais e à expansão dos espaços de aprendizagem para além dos muros da escola. Criação de coordenações voltadas para a educação do campo. Formação continuada dos educadores e produção de materiais didáticos, dentro da concepção de educação do campo construída pelos movimentos sociais e sindicais. Estabelecer parcerias com universidades e demais instituições públicas e comunitárias. Por outro lado, combater a entrada de materiais didáticos e programas ligados à empresas do setor agroalimentar e insumos nas escolas, pois difundem seus interesses privados ao invés do interesse público. Realizar concursos públicos que considerem as especificidades das escolas do campo. Reformular planos de cargos e salários de modo a que considerem a especificidade da educação do campo. Realização de eleições para diretores. Recriar a forma escolar, de modo que garanta, por exemplo, tempo para planejamento individual e coletivo, trabalho interdisciplinar e por áreas de conhecimento, eliminando aulas de 45 minutos. Garantir a existência de materiais pedagógicos voltados para educação do campo, que estes sejam construídos a partir de nossas referências, e que sejam acessados pelas escolas do campo. Que sejam reconhecidas, fortalecidas e financiadas pelo Estado a existência de Escolas cujas formas e os processos formativos potencializem práticas de cooperativismo popular. Elaborar marcos legais para a educação do campo em Santa Catarina a partir das normativas, pareceres, resoluções e decretos construídos nacionalmente, com destaque para: elaboração das diretrizes estaduais de educação do campo; lei que institua a Educação do Campo como política pública estadual; realização de editais específicos para a escola do campo. O Estado deve garantir políticas públicas integradas educação escolar, acesso à terra, comunicação, inclusão digital, cultura e lazer, trabalho e geração de renda,

6 assistência técnica, entre outros. Garantir maior inserção dos produtos da Agricultura Familiar e Camponesa na Alimentação Escolar. Assegurar Educação Especial no campo com qualidade. Que se garanta escolarização dos sujeitos do campo no próprio campo, e, quando for necessário o deslocamento, que ele seja de qualidade qualidade nas estradas e no transporte (menor tempo de deslocamento, acesso aos portadores de necessidades especiais, lugares em quantidade suficiente para os usuários, entre outros). Que os Cursos de Licenciatura em Educação do Campo sejam voltados à formação, preferencialmente de pessoas do campo, assegurando a participação dos jovens e professores vinculados aos movimentos sociais e sindicais. 8. Diante disso, entregamos esta carta às diferentes representações do poder público para que seu conteúdo possa contribuir na reflexão, elaboração e implementação das políticas públicas de educação voltadas ao campo e seus sujeitos. 9. É neste intuito que realizamos o Seminário e compomos a Articulação Catarinense Por uma Educação do Campo. Chapecó, 30 de Agosto de 2013.

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