Fusões e Aquisições no Setor Sucroalcooleiro e a Promoção da Bioeletricidade

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1 Fusões e Aquisições no Setor Sucroalcooleiro e a Promoção da Bioeletricidade Nivalde J. de Castro 1 Guilherme de A. Dantas 2 A indústria sucroalcooleira brasileira passa por um intenso processo de fusões e aquisições, derivado do acelerado crescimento deste setor produtivo, da queda conjuntural de preços e das perspectivas de ampliação de mercado, em especial, do aumento do consumo de etanol. Este processo de concentração do setor sucroalcooleiro tende a impactar e acelerar a inserção da bioeletricidade no sistema elétrico brasileiro. A geração de eletricidade pelas usinas sucroalcooleira é uma realidade concreta na medida em que elas buscam a auto-suprimento no consumo de eletricidade, como uma forma de redução de custos. Com investimentos adicionais, é possível atender a demanda de energia elétrica do mercado cativo, via leilões de energia nova e leilões de 1 Professor da UFRJ e coordenador do GESEL - Grupo de Estudos do Setor Elétrico do Instituto de Economia. 2 Mestre em Economia e Política da Energia e do Ambiente pela Universidade Técnica de Lisboa e Pesquisador do GESEL/UFRJ. 1

2 energia de reserva, e também participar do mercado livre. Neste sentido, o interesse na comercialização de energia elétrica por parte das usinas sucroalcooleira tende a se tornar crescente, e o atual processo de concentração da indústria, ao aumentar a escala de produção de álcool e açúcar, pode eliminar alguns obstáculos para a promoção da bioeletricidade sucroalcooleira. O setor sucroalcooleiro é hoje auto-suficiente em suas necessidades energéticas 3. A prioridade pelo auto-suprimento por parte dos agentes deste setor segue a lógica da integração vertical, pela qual cada usina busca, via redução dos custos, maior competitividade dos seus produtos. A aquisição de energia elétrica via mercado cativo ou livre possui altos custos de transação relativos à comercialização e custos de utilização da rede. Logo, o empreendimento sucroalcooleiro possui e obtém vantagens econômicas integrando verticalmente seu processo produtivo. No front do desenvolvimento e inovações tecnológicas, as usinas de álcool e açúcar vêm podendo se beneficiar do aumento da capacidade de geração de energia elétrica acima da necessidade de auto-consumo. Assim, a produção e comercialização de energia elétrica para os empreendimentos sucroalcooleiros é um subproduto que apresenta um alto potencial de crescimento por conta deste avanço tecnológico. O principal entrave ao desenvolvimento desta atividade tem como causa 3 De acordo com CORRÊA NETO e RAMON (2002), 98% das necessidades energéticas de uma usina são supridas com a queima do bagaço. 2

3 central a diferença entre as taxas de retorno no setor sucroalcooleiro e no setor elétrico. De acordo com Souza e Azevedo (2006), historicamente os investimentos em usinas com maior capacidade de geração de eletricidade por tonelada de cana processada possuem um caráter preventivo, ou seja, as empresas realizam um sobreinvestimento projetando uma expansão da atividade sucroalcooleira no futuro, e neste intervalo de tempo podem comercializar os excedentes de energia elétrica gerados. O sobre-investimento se deve a necessidade de responder de forma rápida à expansão da atividade sucroalcooleira e principalmente devido às economias de escala verificadas na redução do custo de investimento por MW instalado. A busca por escala de produção é um dos fatores determinantes da tecnologia a ser adotada devido à presença de significativos ganhos de produtividade. Logo, dada a reduzida escala das plantas sucroalooleiras quando comparada às escalas das usinas termoelétricas, a escala de geração pode ser interpretada como uma das causas do tradicional emprego de tecnologias de baixa eficiência nas usinas sucroalcooleiras. Gradativamente, os agentes que atuam no setor sucroalcooleiro estão ficando mais propensos em aceitar a comercialização de energia elétrica como um nicho de negócio atrativo. A UNICA, segundo a UDOP (2008), estima que a bioeletricidade poderia aumentar a atual participação de 1% na receita da usina para 16% na safra 2015/16. Esta 3

4 mudança de postura dos usineiros em relação à comercialização de eletricidade ocorre em um momento onde o processo de fusões e aquisições na indústria sucroalcooleira está ocorrendo de forma bastante intenso. Como resultado dessa tendência de concentração da indústria, ocorreria em paralelo um aumento na escala de produção, o que, segundo o argumento apresentado anteriormente, teria grande impacto e relevância na promoção da bioeletricidade. O processo de fusões e aquisições está associado à queda no preço do açúcar em 2007, ocasionando uma redução no valor dos ativos sucroalcooleiros. O ano de 2007 registrou vinte e cinco operações de fusões e aquisições comparadas às cinco registradas em Os principais compradores são grandes grupos e fundos estrangeiros, os quais foram responsáveis por 70% das transações realizadas em 2007 (VALOR ECONÔMICO, 2008). O processo de fusões e aquisições no setor coincide com a retomada do ciclo expansivo do álcool em 2003, o que justifica o interesse crescente dos investidores internacionais, tendo em vista a importância estratégica que o álcool vem adquirindo como insumo energético que pode diminuir relativamente o consumo de petróleo e, com isto, mitigar o aquecimento global. Neste sentido, e a título de conclusão, a concentração no setor sucroalcooleiro irá aumentar a escala de produção de álcool e açúcar e atuar como um fator de estímulo à produção e comercialização de energia elétrica com base na biomassa da cana de açúcar. A maior 4

5 escala das plantas de co-geração nas usinas sucroalcooleiras reduzirá o custo de investimento por MW instalado. Contudo, existem alguns fatores tão ou mais importantes que a redução relativa do custo do investimento. Dentre eles, destacam-se em primeiro lugar o maior poder de barganha das usinas frente aos demandantes de energia elétrica: distribuidoras, comercializadores e clientes livres. Este poder se estabelece na definição das tarifas de energia elétrica, em especial no momento em que as perspectivas de desequilíbrio entre oferta e demanda de energia elétrica mostram-se presentes e latentes até Em segundo lugar, a diluição dos custos de acesso à rede devido à dispersão geográfica das usinas sucroalcooleira. E, em terceiro, à possibilidade de condições especiais de financiamento. Atualmente, a bioeletricidade sucroalcooleira é uma energia sazonal que pode ser despachada como energia inflexível durante os meses de maio a novembro, que coincidem com o período seco do regime hidrológico brasileiro. Esta característica por si só é um grande estímulo e atrativo para uma maior participação na matriz de energia elétrica. A bioeletricidade teria um papel estratégico, pois mitigaria o risco hidrológico economizando reservatórios justamente no período em que eles se depreciam de forma inexorável. Desta forma, a maior escala da produção de álcool e açúcar, derivada do processo de concentração, pode aumentar a oferta de biomassa viabilizando uma maior geração de bioeletricidade. A geração de energia firme por parte da usina sucroalcooleira tornaria a bioeletricidade um produto ainda 5

6 mais atrativo e extremamente competitivo com as usinas térmicas convencionais nos próximos leilões de energia nova. Desta forma a bioeletricidade tende a desempenhar a função de fator de equilíbrio em termos de custos (tarifas) e de planejamento da operação de despacho de carga, vis a vis com as usinas termoelétricas a óleo combustível, diesel e gás natural. De acordo com CASTRO e DANTAS (2008), esta perspectiva foi determinante na criação de um novo tipo de leilão, o de energia de reserva que terá sua avant premier em maio de Referências CASTRO, Nivalde José de; Dantas, Guilherme de A. A Importância da Inserção da Bioeletricidade na Matriz Brasileira e o Leilão de Energia de Reserva. IFE n , Rio de Janeiro, 19 de março de CORRÊA NETO, V; RAMON, D. Análise de Opções Tecnológicas para Projetos de Cogeração no Setor Sucroalcooleiro. Setap. Brasília, DANTAS, G. O Impacto dos Créditos de Carbono na Rentabilidade da Co-Geração Sucroalcooleira Brasileira. Dissertação de Mestrado. ISEG/Universidade Técnica de Lisboa, SOUZA, Z. Geração de Energia Elétrica Excedente no Setor Sucroalcooleiro. Tese de Doutorado. Departamento de Engenharia de Produção/Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, SOUZA, Z; AZEVEDO, P. Energia Elétrica Excedente no Setor Sucroalcooleiro: um estudo a partir de usinas paulistas. Revista de Economia e Sociologia Rural. Brasília-DF, UDOP. Unica: Energia será principal produto do setor sucroalcooleiro. Acesso em 26/02/2008. VALOR ECONÔMICO. Novo recorde de fusões e aquisições entre usinas. 28 de Fevereiro de

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