UMA ESTÉTICA PARA A ESTÉTICA

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1 UMA ESTÉTICA PARA A ESTÉTICA Por Homero Alves Schlichting Doutorando no PPGE UFSM Quando falares, procura que tuas palavras sejam melhores que teus silêncios. (Provérbio da cultura Vasca) Abstrair sobre os espaços básicos do viver Somos seres vivos. Somos seres humanos. Por isso, este texto é uma tentativa de orientação para pensar o humano em nós seres vivos e para pensar os seres vivos em nós humanos. Existimos encaixados no meio. O meio são os outros seres vivos, humanos e não humanos, e o mundo não vivo. Tanto o meio não vivo como os seres vivos surgem com nosso fazer humano de observadores. Só nós humanos podemos dizer, e, no dizer, podemos compreender sobre nossa constituição no determinismo estrutural. Entender a noção de determinismo estrutural pode revelar que não há relação causal entre o domínio biológico na fisiologia e anatomia do organismo e o domínio relacional nas interações onde o organismo existe como totalidade. Assim, o que há são relações gerativas recíprocas que o observador pode ver quando ele ou ela distingue correlações dinâmicas entre as operações, fenômenos ou processos que neles ocorrem. 1 Nas interações com o meio surgem perturbações na dinâmica estrutural Essas perturbações não são instrutivas. Pois, na coerência interna do sistema vivo, a qual acontece sem finalidade nem propósito, é que se realiza e determina a dinâmica estrutural do sistema em suas mudanças, em seu contínuo interagir com o meio. É por isso que se pode saber que os processos fisiológicos do viver são processos de deriva espontânea. Na qual e com a qual se realiza o acoplamento mútuo organismo/meio, enquanto o organismo vive ao se manter na autopoiese (produção de si mesmo). Isso tudo corresponde ao viver molecular, celular, anatômico, fisiológico, etc., de qualquer ser vivo.

2 Além do espaço molecular, há o espaço relacional. No viver espontâneo cotidiano o que vemos é que a corporalidade e o modo de funcionar como uma totalidade são intrínseca e dinamicamente entrelaçados 2. Somente ao distinguir cada um desses domínios fenomênicos (um espaço molecular e outro relacional) é que podemos ver que eles não podem ser deduzidos um do outro. Isso é o que normalmente não tem sido feito no âmbito das ciências. Em geral, não fazemos essa distinção de domínios, e muitas vezes fazemos aparecer com nosso discurso no fazer científico/filosófico uma totalidade complexa; ou, no fazer poético, uma compreensão metafórica (literatura, artes plásticas). Totalidade para a qual as chaves intelectuais que temos utilizado, em grande parte das vezes, não se aplicam ao nosso viver e aos dilemas que surgem com nosso existir humano. Embora, podemos através delas mudar nossas conversações e com elas o ânimo que as acompanha, não abre a possibilidade de saber como surge o ânimo e o fazer que o acompanham em nós. Pois nos preocupamos menos em apontar as abstrações sobre o sistêmico relacional e operacional em nosso viver, e nos voltamos mais para as comparações através da apresentação de entes e elementos transcendentes que apontamos como referenciais simbólicos ou representação do que fazemos e sentimos. Com estas perspectivas o que geralmente obtemos é uma compreensão com a qual fazemos desaparecer os elementos que poderíamos abstrair das dinâmicas operacionais e relacionais que constituem basicamente o viver. Com isto dificultamos a possibilidade de saber sobre o que sentimos com o que fazemos, e o que fazemos com o que sentimos. Em uma abordagem que procura trazer os processos nos âmbitos do viver relacional e fisiológico, podemos abstrair e fazer emergir no conversar essas dinâmicas que nos constituem. A espontaneidade biológica-cultural no amar Nossa história biológica comportamental revela dinâmicas de um modo de interagir desde uma matriz relacional humana que nos constitui como uma classe de organismos que esteve e está fundada no amar. Amar, que em nós humanos, acontece na espontaneidade do nosso viver no aceitar e respeitar a si mesmo, o outro, e todo o entorno. É no amar que vivemos a confiança espontânea implícita de ser seres vivos.

3 Este é o modo de ver o amar na dinâmica relacional básica que se constitui com nosso sentir/fazer. Acontecemos nos desdobramentos do corpo em um meio. Vivemos na dinâmica da corporalidade molecular e dos encaixes dessa corporalidade molecular com o meio. O organismo vive uma unidade dinâmica com o meio que é o seu nicho. Qualquer organismo vivo ou um organismo humano como nós somos, vive em um espaço relacional onde realiza a autopoeiese. Portanto, vivemos em dois espaços: um no qual realizamos a produção de nós mesmos como sistemas moleculares autopoiéticos; e, outro, onde nos realizamos operando como totalidades em um domínio de interações um espaço relacional. tudo o que ocorre em nós como seres vivos em nossa dinâmica interna, e tudo que ocorre com nós como organismos em nossa dinâmica relacional, ocorre no curso da realização do nosso viver na realização e conservação da nossa autopoiese molecular. 3 Sendo assim, podemos saber sobre a estética, porque podemos dizer sobre nosso viver de seres vivos. Podemos falar da estética como um espaço aberto a toda nossa vontade de criar mundos na linguagem a partir da nossa experiencia vivida desde nossa corporalidade. Ou seja, podemos dizer sobre o bem-estar ou o mal-estar que sentimos ao viver. O bem-estar e o mal-estar são biológicos e ao mesmo tempo são culturais, isto é, se originam conosco. É desde nossa matriz biológico-cultural que, ao nos encontrarmos no amar, podemos refletir. Refletir desde o amar - o único lugar desde onde podemos abandonar o saber que surge como a certeza que nos aprisiona. Pois é no respeito e aceitação de si, e desde si, que podemos nos ver sem exigências nem expectativas. O ponto de partida para tudo somos nós mesmos. Nada há sem um ser vivo humano que faça emergir um mundo. O mundo emerge com o que se configura em nós humanos evolutivamente e individualmente. Não há um mundo que não seja o que acessamos com nosso viver de seres vivos. Não podemos falar sobre o que existe com independência do nosso fazer em nossa dinâmica estrutural. Por isso, o que podemos imaginar que existe fora do nosso fazer de seres vivos, existe somente no domínio das nossas invenções imaginativas. Portanto, pertencem as nossas operações de distinção na linguagem.

4 Tudo isso é tão óbvio que não damos atenção. Entretanto, nos revela que quando dizemos algo imaginativo, como ciência ou como arte, estamos inventando algo que desejamos acreditar a respeito do nosso viver, não algo operativo em nosso viver. Vivemos sentindo com nosso fazer e vivemos fazendo desde nosso sentir. Quase que permanentemente, temos vivido no desejo utilitarista para manipular que carregamos enraizado com o modo de escutar, conversar, e pensar. Não estamos atentos para ver que Não são as coisas que geramos no conviver no linguajar que nos distanciam daquilo que quereríamos evocar com elas, (mas) sempre é o nosso sentir 4 e desde cada sentir, geramos nossos modos particulares de escutar, dizer, explicar, etc. O mundo não surge da influência recíproca entre nós mesmos como seres vivos e uma realidade externa a nós. Não há nenhum elemento operativo em nossa constituição humana que não seja nós mesmos a produzir mundos na linguagem. A nossa preferência ou gosto guia todo nosso fazer. Diante disso, ao ser essa uma questão de gosto, não quero dizer que não importa o modo como gostamos de viver ou de dizer sobre o viver. No que fazemos nada é banal. Porque nossa corporalidade muda com o nosso fazer. Os caminhos com o(s) conhecimento(s) que inventamos Tradicionalmente, na educação, dizemos que somos o resultado do entre-jogo entre nós mesmos e a realidade, ou, que somos uma mediação entre a nossa realidade individual e a realidade social externa a nós. Se afirmamos que somos influenciados pelo entre-jogo em que participamos nós e um mundo independente, não temos responsabilidade sobre esse mundo independente, e aí, não temos responsabilidade sobre o que o mundo independente faz acontecer. E/ou, não temos responsabilidade nem mesmo sobre o entre-jogo. Ao gostarmos desse caminho, ao final, sempre poderemos escapar sem sermos responsáveis pelo que fazemos. A tradição intelectual mais arraigada entre nós nos indica diversos obstáculos para validar argumentos sobre a estética. Entre eles encontram-se: a subjetividade, falta de possibilidades empíricas de verificação, falta de possibilidades de reprodução do fenômeno, e, mais do que todas essas, a definição do seu espaço fenomenológico. Em qual espaço fenomenológico estaria mais adequada a explicação sobre a experiência estética?

5 Frequentemente, no tocante à experiência estética, é apresentado um ente com características que surgem na experiência estética de alguém (o observador). Estes elementos são assim focalizados no espaço do que o observador faz. Por exemplo, as características de uma obra de arte ou um elemento da natureza. Tradicionalmente isso tem sido exibido através de noções ou de perguntas como: o que é o Belo? ; o que é a arte..? Desse modo, esconde-se como se desenrola a produção da experiência estética. E não se vê, ou pelo menos se coloca de lado, que a experiência estética envolve o operar do observador sobre si mesmo. Os observadores, qualquer um de nós, ao operar como sistemas autopoiéticos geram outra fenomenologia. Esta podemos denominar de fenomenologia descritiva 5. Isso quer dizer que nós humanos surgimos como entes biológicos com a realização da nossa autopoiese, e surgimos como entes na linguagem em um outro espaço fenomênico, o espaço das descrições linguísticas. Aparece a nós uma experiência estética quando falamos sobre nosso observar o nosso observar. Olhar o nosso sentir/fazer. Tanto este como aquele encontram-se em uma dinâmica de condutas relacionais fundadas no bem-estar biológico. Uma dinâmica de bem-estar surge em nós seres vivos humanos linguajantes quando encontramos que somos coerentes com um aspecto particular do nosso domínio de existência no mundo que formulamos em nossa vida, mas o qual, como tal, vai muito mais alem dessa circunstância particular 6. A experiência estética acontece na dinâmica de todas nossas experiências no contemplar, observar, etc. Olhamos o nosso sentir na tangente dinâmica entre o bem-estar e o mal-estar. Dizemos sobre esta dinâmica enquanto a descrevemos a partir do ânimo em que descrevemos, e conotamos nas palavras que usamos algum sentido estético que nasce com essa experiência. É em nossa auto-observação que podemos distinguir o que sentimos ao contemplar o entorno ou a nós mesmos. Fazemos isso com elementos dessa experiência para dizer sobre essa experiência. Quando nos referimos ao belo ou ao feio estamos distinguindo experiências que surgem com o fazer e com o sentir. Em nosso observar, dizemos que há estética e beleza quando sentimos ânimos compatíveis entre si. Falamos em feio, ou, de mau gosto, quando nos envolvemos em emocionares incompatíveis entre si. Beleza: enquanto nos envolve o bem-estar no viver; feiura: quando vivemos no mal-estar gerado no conflito entre ânimos que não se podem

6 juntar. Ambas acompanham nosso fazer e sentir normalmente nas contingências do viver. São dinâmicas constitutivas em nosso viver, são elas as operações do nosso fazer íntimo que conotamos como belo ou como feio. Isso não exclui outras dimensões linguísticas que usamos para conotar o que nos acontece, ou o que sentimos, ao contemplar algo. Como inventar uma estética para a estética? Desde algum momento pré-histórico, passamos do medo à desconfiança regular e reiterada no entorno e depois entre humanos. Hoje vivemos um viver psíquico-cultural centrado na negação do fundamento biológico relacional humano no amar. Vivemos a cultura patriarcal/matriarcal, guiados em relações de dominação/submissão, controle e apropriação, etc. Neste ânimo psíquico-cultural vivemos alheios à nossa auto-observação íntima. Sabemos desde o próprio viver cotidiano, que buscamos o bem-estar natural fora do bem-estar natural ao evocar prazeres instrumentalizáveis e manipulativos, em experiências com as muitas possibilidades biológicas para o prazer. Não vemos nisso se o que fazemos conosco mantém respeito por nós mesmos ou mútuo, pois estamos ausentes do emocionar básico do amar, estamos em algum emocionar próprio da busca do prazer. Em um viver assim, passamos a conotar outros sentidos para a experiência estética. Estes são processos que envolvem nosso viver relacional e corporal. Envolvem o biológico-cultural em nós. O inventar pertence ao âmbito cultural. O cuidado que não sabemos ter envolve: que em todo fazer cultural que inventamos acompanha, na biologia, um sentir que sentimos, ou, que não sentimos, e que, sem sabermos opera oculto na biologia. As possibilidades de fazer emergir diferentes ânimos com nosso sentir/fazer são escolhas nossas. As experiências estéticas do viver, portanto, são escolhas nossas. Ver o que queremos evocar com nosso fazer é responsabilidade nossa, de cada um. Não há limites para nossos desejos. Não há limites para nossas maneiras de sermos conscientes sobre eles. Com isso, podemos saber que somos livres para inventar e para saber que nem tudo que podemos inventar é o que precisamos inventar. Podemos colocar mais atenção para ver que o que vivemos não é o que muda, mas sim o que se conserva em nossos emocionares no conviver.

7 Podemos inventar uma obra de arte que nos ensine a escolher qual estética queremos inventar? Notas: 1 MATURANA, H. R. Ciência, cognição e vida cotidiana. Belo Horizonte: UFMG, 2001, p. 176). 2 Ibid., p MATURANA, H. R.; DÁVILA, X. Y. Habitar humano: en seis ensayos de Biologíacultural. Sentiago: J. C. Sáez Editor, 2008, p Ibid., p MATURANA, H. R.; VARELA, F. G. De máquinas e seres vivos: autopoiese a organização do vivo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997, p. 120.

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