PROFESSORES COM DEFICIÊNCIA: SUA HISTÓRIA E CONTRIBUIÇÃO PARA A EDUCAÇÃO

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1 PROFESSORES COM DEFICIÊNCIA: SUA HISTÓRIA E CONTRIBUIÇÃO PARA A EDUCAÇÃO GEYSE RIBEIRO ¹ MANUELLE VIEIRA ² FRANCISCO LIMA ³ RESUMO O presente artigo relata a trajetória histórico-social de quatro professores com deficiência (três com deficiência física e um com deficiência visual), revelando as estratégias utilizadas por eles enquanto docentes. Utilizou-se entrevistas semi-estruturadas como procedimento de pesquisa, apresentando-se os resultados qualitativamente, em forma de relatos. O presente artigo procurou registrar a trajetória histórico-social dos professores que têm alguma deficiência e exercem a docência. A escolha deste tema surgiu da busca pelo conhecimento e interesse em conhecer a realidade da prática cotidiana de pessoas com deficiência que exercem a docência. 1- Graduada no curso de Pedagogia da UFPE. 2- Graduada no curso de Pedagogia da UFPE. 3- Profº Drº do Departamento de Psicologia e Orientação Educacional na UFPE. 1

2 Com o intuito de que a sociedade tome conhecimento da participação e existência de professores com deficiência, e percebam que eles atuam ativamente, contribuindo com a educação e o desenvolvimento social, o presente estudo mostra esses professores e sua história de vida afirmando que enquanto cidadãos esses professores possuem direitos e deveres, comuns a todos os brasileiros. Na história recente, mundial e brasileira, as pessoas com deficiência vêm se organizando em movimentos para que possam ter seus direitos garantidos. No nosso país, tal garantia se dar a partir da Constituição de 1988, as pessoas com deficiência eram conhecidas como inválidas, incapazes ou excepcionais, agora com a Constituição de 1988, fica proibida a discriminação de pessoas com deficiência, em relação ao acesso, ao emprego e a remuneração e garantindo o acesso ao trabalho. Art. 1º A Republica Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I- a soberania; II- a cidadania; III- a dignidade da pessoa humana; IV- os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V- o pluralismo político. Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da Republica Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Art. 7º, inciso XXXI - proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência; 2

3 Art. 37º, inciso VIII- A administração pública direta, indireta ou fundacional de qualquer dos poderes da União dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicada e, também ao seguinte: A lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão. (BRASIL, CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988) No entanto, para se chegar a conseguir esses direitos, foi necessário que várias pessoas com deficiência se empenhassem. Em 12 de setembro de 1854, Dom Pedro II fundou o Imperial Instituto de Meninos Cegos, atual IBC (Instituto Benjamin Constant), no Rio de Janeiro, e isto, deve-se em grande parte a um brasileiro, José Álvares de Azevedo, que era cego. Ele estudou no Instituto dos Jovens Cegos de Paris, e como obteve muito sucesso na educação, despertou o interesse e a atenção do Ministro do Império. E, em 11 de março de 1946 foi criada a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, e isto, graças a Dorina de Gouvêa Nowill, que era professora de cegos e que ficou cega aos 17 anos de idade. É importante notar que tanto o Instituto Benjamin Constant quanto a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, hoje Fundação Dorina Nowill são instituições fundadas no modelo de assistência, e por vezes assistencialistas as pessoas com deficiência. Isso significa que essas instituições foram esteadas em um modelo médico-pedagógico ou psicopedagógico de atendimento as pessoas cegas, o que quando muito levava essas pessoas a uma integração social. O modelo médico da deficiência é um dos grandes responsáveis pela resistência da sociedade em aceitar mudar as suas estruturas e atitudes para a inclusão das pessoas com deficiência, pois durante anos tratou estas pessoas com fins médicos e clínicos e não pedagógicos. Na verdade, o que se almeja é o fim pedagógico, o da inclusão, em que profissionais trabalhem com as capacidades 3

4 e habilidades das pessoas com deficiência. A sociedade deve ser aberta a todos e não deve segregar e apresentar barreiras a ninguém. (CADERNOS DE EDUCAÇAO, 2000, nº16) Como se pode ver o modelo de integração social conflita com o modelo de inclusão social, uma vez que no primeiro caso o insucesso de uma pessoa com deficiência é relegado a sua deficiência e não, as barreiras provocadas pela sociedade. Já na inclusão social, a sociedade reconhece seu papel na inclusão ou exclusão de seus membros quando não responde as necessidades do individuo. Ao reconhecer essas necessidades a sociedade busca transformar-se promovendo a inclusão de todos e evitando a exclusão de quem quer que seja. Inclusão é a nossa capacidade de entender e reconhecer o outro e, assim, ter o privilégio de conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós (...) costumo dizer que estar junto é se aglomerar no cinema, no ônibus e até na sala de aula com pessoas que não conhecemos. Já a inclusão é estar com, é interagir com o outro. (MANTOAN, IN NOVA ESCOLA, 2005, P-24) De acordo com a autora, atualmente há uma discussão do que seria inclusão e integração, e isto tem provocado polêmicas entre os mais diversos profissionais, principalmente entre os educadores, envolvendo toda a sociedade. Os termos integração e inclusão possuem significados, de alguma forma, semelhantes, são empregados para expressar situações de inserção diferentes e se fundamentam em posicionamentos teórico-metodológicos divergentes (MANTOAN, 2003:21). A integração pressupõe a ampliação da participação nas situações comuns para indivíduos e grupos que se encontram segregados, e nas situações de integração escolar vários alunos com deficiência não cabem nas 4

5 turmas de Ensino Regular, porque há uma seleção prévia para saber os que estão aptos a participar desta turma. Já a inclusão é diferente, pois prevê a inserção escolar de forma radical, completa e sistemática, onde todos os alunos, sem exceção, devem freqüentar as salas de aula do Ensino Regular (MANTOAN, 2003:24). Desta forma, Quando falamos em inclusão estamos nos referindo a uma inserção total e incondicional, e quando usamos integração, a inserção é parcial e condicionada as possibilidades de cada pessoa. No sistema educacional de inclusão, cabe à escola adaptar-se as necessidades dos alunos e não estes se adaptarem ao modelo da escola. (CADERNOS DE EDUCAÇÃO, 2001, nº17). Portanto, a inclusão é uma mudança na perspectiva educacional, pois não atende só os alunos com deficiência e/ou os que apresentam dificuldades no aprendizado, mas todos os alunos, tendo em vista obter o sucesso no aprendizado desses alunos. Isto implica em conviver com a diversidade humana. Segundo Hallahan e Kauffman (1994), nós não devemos deixar que as incapacidades das pessoas nos impossibilitem de reconhecer suas verdadeiras habilidades. Assim, em uma sociedade em processo evolutivo estão presentes ações resultantes de atitudes sociais, tais quais: a marginalidade, o assistencialismo, a educação e a reabilitação. A marginalidade de pessoas com deficiência ocorre quando há ausência de qualquer forma de atendimento organizado na sociedade, refletindo a descrença nas possibilidades de mudança da situação do indivíduo. O assistencialismo a pessoas com deficiência rotulá-as de incapazes sem que elas possam participar ativamente da sociedade e organizando ações de assistência que refletem atitudes sociais com um sentido filantrópico, paternalista e humanitário. 5

6 A educação e a reabilitação refletem uma posição baseada no potencial de realização do ser humano, que deve ser desenvolvido com uma característica humanista e não humanitária, onde as ações se voltam para a organização de serviços e recursos de educação e reabilitação. Priorizar o potencial das pessoas com deficiência na sua inclusão social implica em reconhecer as limitações e potencial laboral dessas pessoas, bem como considerar as capacidades de mudança do ser humano. Contribuindo para esta transformação a lei 8.213/91 trouxe avanços no que se refere à empregabilidade da pessoa com deficiência, uma vez que obriga as empresas com cem ou mais empregados a contratarem trabalhadores com deficiência. Diante disso, com o intuito de criar condições para o trabalhador com qualquer tipo de deficiência, seja ela visual, física, auditiva ou mental, e fazer parte deste processo complexo que envolve trabalho e formação profissional. O indivíduo, tenha ele qualquer tipo de emprego, é acobertado por alguns artigos, criados pelo Ministério do Trabalho: Art. 2º- Caracteriza relação de emprego a inserção no mercado de trabalho da pessoa portadora de deficiência, sob as modalidades de colocação competitiva e seletiva. Art. 4º- Colocação seletiva é a contratação efetiva nos termos da legislação trabalhista e previdenciária, que em razão da deficiência, exige a adoção de procedimentos e apoios especiais para sua concretização. Art. 10- O auditor fiscal do trabalho verificará, mediante fiscalização direta ou indireta, se a empresa com cem ou mais empregados preenche o percentual de dois por cento de seus cargos com beneficiários reabilitados da Previdência Social ou com pessoa portadora de deficiência habilitada, na seguinte proporção: I- até duzentos empregados, dois por cento; II- de duzentos e um a quinhentos empregados, três por cento; III- de quinhentos e um a mil empregados, quatro por cento; 6

7 IV- mais de mil empregados, cinco por cento. Art. 11- Entende-se por habilitação ou reabilitação profissional o conjunto de ações utilizadas para possibilitar que a pessoa portadora de deficiência adquira nível suficiente de desenvolvimento profissional para ingresso ou reingresso no mercado de trabalho. Art. 14- Em caso de instauração de procedimento especial, nos termos disposto no art.627-a da Consolidação das Leis do Trabalho CLT, o Termo de Compromisso que vier a ser firmado deverá conter o cronograma de preenchimento das vagas das pessoas portadoras de deficiência ou beneficiários reabilitados de forma gradativa constando, inclusive, a obrigatoriedade da adequação das condições dos ambientes de trabalho, na conformidade do previsto nas Normas Regulamentadoras, instituídas pela Portaria n 3.214/78. (BRASIL, MINISTÉRIODO TRABALHO INSTRUÇÃO NORMATIVA, N 20, 2001) Tal obrigatoriedade estende-se também as instruções públicas que devem reservar a cota de até 20% de suas vagas a pessoas com deficiência. A despeito de só recentemente termos leis que visem ampliar o mercado de trabalho para as pessoas com deficiência, estas vêm ocupando diversos postos de trabalho em variadas áreas. Entretanto, não se sabe ao certo onde estão esses profissionais, em que profissões atuam e como alcançaram tais postos, isto é, quais estratégias e demais recursos se valeram para lidarem com o mercado de trabalho adverso a sua condição de pessoa com deficiência. Assim, o objetivo do presente estudo foi verificar as estratégias utilizadas por professores com deficiência para a execução de seu trabalho em uma sociedade que ainda não tem políticas voltadas para a inclusão social, ou seja, uma sociedade de todos, para todos e de qualidade, onde todos os membros são necessários e responsáveis pelo bem comum. A elaboração deste artigo fundamentou-se numa abordagem qualitativa crítico-dialética e, dentro desta perspectiva utilizamos as técnicas cabíveis a 7

8 este tipo de abordagem, tais como: entrevista individual e a história de vida autobiográfica. Na entrevista individual, o entrevistador mantém-se na escuta ativa, tendo atenção a todas as informações, intervindo com discretas perguntas que estimulem as respostas às questões que interessem à pesquisa. Na técnica de história de vida autobiográfica, o entrevistado terá as oportunidades de relatar suas percepções pessoais, os sentimentos íntimos que marcaram a sua experiência e/ou os acontecimentos ocorridos na sua trajetória de vida. A pesquisa qualitativa se desenvolve procurando mostrar a complexidade e as contradições de fenômenos singulares, a imprevisibilidade e a originalidade criadora das relações interpessoais e sociais, valorizando os aspectos qualitativos dos fenômenos aparentemente simples, expondo a complexidade da vida humana e evidenciando significados ignorados da vida social, ou seja, analisando os significados que os indivíduos dão as suas ações no meio social que constroem. A abordagem qualitativa parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência entre o objeto e o sujeito, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito e a dialética que, também insiste na relação dinâmica entre o sujeito e o objeto, no processo de conhecimento, uma vez que a dialética proporciona uma ação-reflexo-crítica do objeto a ser estudado. Dentro desse processo de pesquisa, a entrevista semi-estruturada constitui-se em ferramenta importante de aquisição da informação, pelo pesquisador junto a seus entrevistados. Uma vez que, a entrevista é o encontro de duas pessoas (entrevistador e entrevistado), a fim de que uma delas obtenha informações a respeito do objeto de estudo determinado, sendo um importante instrumento de trabalho nos vários campos das ciências. A entrevista semi-estruturada (não padronizada), ou seja, onde o entrevistador tem liberdade para desenrolar a situação em qualquer direção que considere necessária, e o entrevistado pode expressar suas opiniões e sentimentos, favorece uma melhor coleta de dados quando se quer investigar a história de vida de um indivíduo. 8

9 As entrevistas foram registradas com câmera de vídeo, o que permitiu o resgate oral de toda a história de vida do entrevistado, em um roteiro para o processo detalhado de transcrição da oralidade. Fizeram parte desse roteiro os seguintes questionamentos: nome, idade, bairro que reside, formação acadêmica, local de trabalho, tempo de exercício da profissão, em que a escola contribuiu para sua escolha profissional, como foi o seu processo de formação ao nível de graduação (estratégias utilizadas na escola), quando e como começou a exercer a docência, como conseguiu ser admitido neste emprego e quais as dificuldades enfrentadas, repensando/diante da sua historia de vida quais os aspectos que mais contribuem para sua profissão e de acordo com sua história de vida que mensagem/sugestão/orientação você deixa para a sociedade. A escolha dos sujeitos de nossa pesquisa (os professores com deficiência entrevistados) respeitou as definições de deficiência, segundo o decreto-lei de dezembro de 2004: Deficiência física: alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplégica, tetraparesia, triplegia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformações estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções. Deficiência visual: cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,5 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60 ; ou a ocorrência simultânea de quaisquer da s condições anteriores. 9

10 A pesquisa foi realizada nas seguintes etapas: inicialmente a fim de localizar os sujeitos para nossa pesquisa dirigimo-nos a Secretaria de Educação da Prefeitura do Recife, onde nos foi fornecida uma lista contendo os nomes e as escolas de onde estavam locados os professores que atuam em salas especiais. No entanto, esta lista não teve grande utilidade para nossa pesquisa, pois nela continha apenas as escolas com classes de educação especial. E quando entravamos em contanto via telefone para saber se havia um professor que se enquadrasse em nossa pesquisa, éramos informadas que eles haviam saído da escola e não se sabia para que escola esses professores teriam ido, pois tais professores eram itinerantes, informação que não constava na referida lista. Inquietou-nos o fato de que para entrevistar um professor com deficiência auditiva nos dirigimos a três instituições, onde não nos foi permitido o contato direto com o referido professor. Pois encontramos falta de apoio, de boa vontade e consciência da coordenação e direção dessas instituições. Na primeira das instituições, a qual fomos entrevistar o professor com deficiência auditiva ficou inviável o contato com o mesmo, pois na instituição só havia estagiários, além do que a direção dificultou o nosso acesso a esses estagiários, alegando que esses não eram professores da casa; pedindo também um ofício da universidade com uma cópia de nosso projeto para autorizar toda e qualquer entrevista, apresentando posteriormente, ao término do artigo, um seminário para o corpo docente, o que para nós não seria viável devido ao curto prazo de tempo para realização, análise e construção do artigo. Em uma segunda instituição, nos foi dito pela secretária que não havia professores com deficiência, pois quando estes lecionaram na instituição a experiência não foi satisfatória para o aprendizado dos alunos. Em uma terceira instituição, ligamos diversas vezes para as coordenadoras, mas estas nunca podiam nos atender, então resolvemos comparecer pessoalmente na instituição. No entanto, as coordenadoras ficavam jogando uma para outra a disponibilização de um professor, quando finalmente uma delas se disponibilizou a nos atender e liberar o professor, a coordenadora quis requerer um ofício da universidade e a cópia de nosso projeto, para que após sua leitura 10

11 pudesse decidir se seria interessante ou não para a instituição disponibilizar o professor a nos conceder a entrevista. Assim, visitamos pessoalmente várias escolas e com outras entramos em contato via telefone, buscando saber da coordenação dessas escolas se existia em seu corpo docente algum professor com deficiência. Depois de saber qual e onde se localizava a escola, em que o professor com deficiência trabalhava, entramos em contato com eles, algumas vezes pessoalmente e outras via telefone. Por fim depois de feito o contato com os professores e tendo a confirmação de sua participação, marcamos o local, data e horário onde seriam realizadas as filmagens das entrevistas. A maioria das entrevistas foi realizada na própria escola onde os docentes trabalham, exceto uma que nos foi concedida em seu consultório médico, pois a professora também exerce a medicina. Em geral, ao chegarmos às escolas para fazer as entrevistas éramos recebidas pela diretora ou coordenadora, e em seguida éramos encaminhadas para o local em que se daria a filmagem. Para a sustentação e análise de nossa pesquisa recorremos a Mazzota (1993 e 1996), utilizando também de outros autores, como: Pereira (1980), Hallahan e Kauffman (1994), Alves e Sass (2004); utilizando alguns excertos de revistas, tais como: Nova Escola (maio-2005), internet, pesquisas documentais e teses de pós-graduação. ANÁLISE DOS DADOS O presente estudo entrevistou quatro professores que residem e exercem a docência no município de Recife. A idade dos entrevistados variou entre 35 e 50 anos. Três dos professores entrevistados possuem nível superior completo, sendo que dois possuem especialização em Educação Especial, outro docente tendo em Psicopedagogia e um outro com mestrado em Patologia Clínica e outro com nível superior em andamento. O tempo de exercício de docência destes profissionais varia entre 11 e 25 anos, sendo que todos eles atuam em escolas e universidade em pelo 11

12 menos dois turnos diários. Um dos entrevistados também atua em uma escola privada e outro em um laboratório de análises clínicas. Dos docentes que participaram de nossa pesquisa, um tinha deficiência visual e três tinham deficiência física (um paraplégico, outro teve paralisia infantil e utiliza prótese e outro utiliza muletas, pois perdeu a perna após um acidente automobilístico). A primeira experiência de socialização do professor João*, que trabalha com alunos do Ensino Fundamental I, foi em família, mesmo esta carregando em sí algum preconceito, proporcionou-lhe um estudo adequado para superação de suas limitações, matriculando-o em uma escola onde ele pôde desenvolver suas capacidades, independente de sua deficiência visual. Segundo o professor João*: minha família me deu apoio empírico, ela me deu apoio sem saber que estava dando. Durante o processo educativo, o professor João* afirma que utilizou estratégias variadas para auxiliá-lo na sua aprendizagem e aquisição do conhecimento, em que procurou construir uma relação carismática com os colegas para que esses o ajudassem na aprendizagem, utilizando as seguintes estratégias: gravação de aulas em fita K-7, solicitação aos colegas da leitura dos textos, estudos em grupo tanto na escola, como em casa de colegas e em sala de aula, tendo o apoio do professor itinerante. Assim, esse conjunto de estratégias facilitou desde sua entrada na escola até os dias de hoje, em que atualmente faz especialização, estabelecendo uma viabilização de seu convívio social. Para ser admitido na instituição à qual exerce a docência, o entrevistado prestou concurso público, disputando as vagas destinadas a deficientes. A prova foi editada em braile, cujo papel não apresentava boa qualidade, dificultando-se a leitura e fazendo com que necessitasse do auxílio de um fiscal para a leitura da referida prova. Seguindo-se sob a perspectiva dificultosa dos preconceitos contra deficientes, desde o início de sua formação que a professora Ângela* enfrentou preconceitos na busca por um emprego. Nas escolas da rede particular de ensino, a qual tentou ser admitida, as diretoras negavam-se a admití-la, mesmo 12

13 tendo conhecimento de sua capacidade intelectual, pois estas diretoras têm um padrão definindo o tipo físico (estereótipos) para compor seu corpo docente. Assim, para ser admitida na escola à qual exerce sua docência, a professora Ângela* prestou concurso público, incluída assim no perfil de candidatos que têm para sí destinadas as vagas para deficientes, contudo, após sua aprovação no concurso, ao ingressar deparou-se com inúmeras dificuldades para ser locada em uma escola, e isto se deve diretamente ao preconceito por causa de sua deficiência. Durante esta peregrinação, que durou quase um ano a procura de uma instituição de ensino que a acolhesse, a professora Ângela* recebeu uma proposta, sugerindo que redigisse um termo declarando que não havia encontrado uma escola em que se adequasse, fazendo com que ela se sentisse um problema para as outras pessoas. Desta forma, com o objetivo de resolver este impasse educacional, a professora Ângela* resolveu levar o caso para o Ministério Público, mas antes que isso ocorresse, locaram-na em sua escola de difícil acesso. Por conseqüência das dificuldades de acessibilidade local, veio a desenvolver uma artrose, pois, além da escola possuir degraus, ela precisava pegar ônibus e metrô, em que dada a sua limitação, tornou-se extenuantemente prejudicial à sua saúde. A experiência inicial de socialização da professora Ângela* ocorreu no seio da família, que ao não saber lidar com sua deficiência, nutriu preconceitos. Mas, motivada por uma preocupação referente ao seu futuro profissional; participou ativamente no seu processo de escolarização, desde as séries iniciais até o término do ensino superior. Na época em que cursava universidade, por conta de problemas de acessibilidade (degraus), esta professora dizia que: não queria ser peso para seus colegas de turma e fazia penosos sacrifícios, tais como, por exemplo, se locomover mais rápido para acompanhar os colegas de turma, fazendo que isto lhe causasse vários ferimentos na pele, devido ao aparelho que ela utilizava. Todavia, tal postura assumida gerou uma mudança em seu comportamento social, onde a professora Ângela* passou a seguir o seu ritmo natural, entendendo assim que a sociedade deveria se adaptar as suas limitações e não ocorrer o inverso. 13

14 Segundo a professora Carla* que ensina na Educação Infantil de uma escola da rede pública. A família, de um modo geral, não está preparada também para lidar com o tipo de deficiência. Então, elas não exigem muito. Se você quer você faz... então, se eu quisesse parar de estudar eu teria parado, não teria problema algum. (Profª Carla*) Tornasse nitidamente perceptível, portanto, que em meio ao seu convívio familiar a docente Carla* teve pouquíssimo incentivo. Na escola, essa falta de apoio também não se manifestou diferentemente, pois, logo após seu retorno às aulas, depois de um acidente que resultou na amputação de sua perna esquerda, seus professores passaram a tratá-la como uma inválida, e isto gerou um tipo de proteção por parte dos professores e dos colegas de sala para com ela, que prejudicou sua auto-estima e o seu desenvolvimento escolar. Todos os meus amigos e pessoas com quem convivo, se eu disser ano quero isso, eles bateriam palma e se eu disser quero, eles também bateriam palma, disse ainda a professora Carla*, percebendo que para obter sucesso profissional, ou seja, não depender de ninguém financeiramente, caberia única e exclusivamente a ela atingir seus objetivos, pois tanto a família quanto os amigos procuravam ficar aquém de suas decisões, evitando causar maiores danos à sua auto-estima. Assim, para ser reconhecida como uma boa profissional, deveria lutar bravamente e sozinha, superando as dificuldades de acesso encontradas nas escolas onde leciona e na instituição em que estuda. Já para a professora Roberta* que leciona em uma universidade e trabalha em um consultório médico, a família foi fundamental, pois enfrentou preconceitos e isso a auxiliou a superar a depressão, a partir do momento em que perdeu os movimentos das pernas, aos treze anos de idade, deixando-a na condição de cadeirante. A professora Roberta*, durante o seu processo educativo, não encontrou maiores dificuldades na escola, voltando, logo após sua doença, para a mesma 14

15 escola na qual estudara, a qual sua mãe diariamente a deixava e buscava de carro. As salas de aula eram adequadas e a professora entrevistada nunca teve problemas com o espaço físico necessário à sua locomoção. Com a justificativa de sua deficiência, deixava de sair para determinados lugares com os amigos, e para compensar esta lacuna, estudava bastante. Ela considera que a sua educação foi fundamental para vencer as dificuldades decorrentes da deficiência. Na universidade, quando era aluna da graduação, a entrevistada encontrou grandes dificuldades de acesso às salas de aula, por causa dos degraus de acesso ao primeiro andar, onde tinha aula. Seus colegas tinham que carregá-la pra que pudesse assistir às aulas. Um sentimento muito ruim, de precisar, de ter que uma pessoa me levar toda vez, de ter que precisar toda vez das pessoas. Então, foi uma fase muito difícil... porque quando você estuda e você tem um espaço para compartilhar com outras pessoas de igual para igual é uma coisa. Mas a partir do momento que você tem essa dependência tão grande, precisar ser carregada todo dia, é uma sensação de invalidez, de incapacidade, de você realmente nas menores coisas precisar do outro. (Profª Roberta*) Mas apesar das barreiras, mesmo antes de concluir sua residência médica, ela prestou concurso público para ser professora de uma universidade, sem contudo concorrer às vagas destinadas a deficientes, pois a professora manifesta a opinião de que a deficiência sendo física ano impede que o indivíduo concorra de igual para igual com o outro candidato, uma vez que o que é válido é a capacidade intelectual e não o aspecto físico do indivíduo. O que a sociedade quer é uma pessoa qualificada, explica. Desta forma, assim que concluiu sua residência médica, começou a exercer a docência na prática. Em sala de aula o professor João* no exercício prático de sua docência para o desenvolvimento de suas capacidades e habilidades pedagógicas, acredita que o professor com deficiência quando trabalha com alunos normais 15

16 acontece a inclusão social mais intensificada para ambos, ou seja, aluno e professor. Assim, este professor trabalhou com alunos normais durante seis anos, e para lecionar para estes alunos utilizou uma estratégia na qual tinha o auxílio de uma estagiária, onde esta transcrevia para o quadro o conteúdo e as atividades para classe e casa por ele planejadas, em seguida aplicava a avaliação elaborada para que pudesse ser realizada a correção do que os alunos tiveram dificuldade em responder. Segundo a professora Ângela* em sala de aula, para exercer a docência, ela crê que o professor pode ter autoridade sem ser autoritário; para isso, utiliza-se da estratégia de falar com uma voz branda e de chamar o aluno para uma conversa, quando ocorre algum problema. Também dispõe do auxílio de uma estagiária quando necessita executar atividades que demandam esforço físico, como segurar os bebês na creche. Ela utiliza também um carro adaptado que possibilita sua comodidade para chegar aos seus locais de trabalho. Para ser admitida em uma das escolas em que atua, a professora Carla* prestou concurso público, concorrendo às vagas destinadas a deficientes. Na outra escola, que é da rede privada de ensino, a professora Carla* enfrentou preconceitos por parte da coordenadora, quando esta a viu, por causa de sua deficiência física. Mas estes preconceitos foram demovidos no que, após testar suas habilidades pedagógicas, resolveu dar-lhe uma chance por verificação de sua competência. Dentro do espaço de sala de aula a professora Carla* procura utilizar como estratégia o agir individual, fazer tudo sozinha: subir em cadeiras para pegar material nos armários, sentar no chão com os alunos, ou seja, tentando mostrar sempre tanto para a direção, quanto para seus colegas de profissão que pode fazer tudo igual a qualquer pessoa normal. Já a professora Roberta*, em sala de aula, para exercer sua docência utiliza-se das seguintes estratégias: sua sala de aula fica no térreo, solicitação a um funcionário da instituição a arrumação da sala para ela e a utilização de retro-projetor, microcomputador e data-show. Como médica, a professora Roberta* procurou uma área de atuação dentro da medicina aonde pudesse trabalhar de acordo com suas limitações. 16

17 Escolheu então a patologia clínica, pois poderia utilizar as seguintes estratégias: trabalhar sentada para analisar as lâminas e os tecidos para diagnosticar doenças, faz uso de uma mesa adequada para colher o material e realizar exames, tais como punção em pacientes, não encontrando assim quaisquer maiores dificuldades para exercer a medicina e a docência. Como se pôde observar, a pesquisa aqui apresentada não conseguiu identificar a existência de um número significativo de professores com deficiência que exercem a docência na prática, ou seja, em sala de aula. Apesar de a família, a princípio, não saber lidar com as limitações de um deficiente, encontramos três exemplos de professores em que suas famílias auxiliaram diretamente e positivamente em todas as etapas do seu desenvolvimento. Diante disso, em nosso processo investigativo no que se refere ao convívio social dos professores entrevistados, concluímos que a família foi fator de grande importância e influência para esses professores, tanto no seu processo de escolarização, quanto em seu processo de inclusão social. Na escola que eu estudava tinham alunos que eram cegos, mas ela já experimentava colocar os alunos em sala regular desde pequeninos. (Profº João*) De fato, segundo Vila Nova (1995), a família é uma instituição social onde o indivíduo tem o primeiro contato com valores e normas sociais, que irão facilitar sua interação social. Dos professores entrevistados, também verificamos que três deles desenvolvera boas relações no convívio social, superando de maneira positiva os preconceitos existentes, uma vez que, as relações interpessoais desenvolvem-se em decorrência do processo de interação, gerando sentimentos positivos de simpatia e atração, provocando um aumento da interação e cooperação. Assim, as diferenças são aceitas e tratadas em aberto. Se acha que minha condição de deficiência é um obstáculo real, tem que também tentar resolver. O que não pode é pelo fato de eu ser deficiente achar que eu não posso trabalhar. (Profº João*) 17

18 No entanto, um outro professor entrevistado, apesar de ter boas relações interpessoais, se deparou com uma sociedade que está alheia às limitações das pessoas com deficiência. Segundo Lakatos (1979), os indivíduos com deficiência, mesmo quando vencem a barreira da comunicação, vêem sua participação limitada em muitas das atividades grupais. Isso se deve a uma sociedade que impõe barreiras e desrespeita os direitos de seus membros. Com efeito, em relação à acessibilidade, constatamos que todos os professores tiveram inúmeras dificuldades de acesso às instituições onde realizaram sua formação superior, por má-adequação das salas de aulas, ausência de rampas e elevadores que possibilitassem o acesso às salas de aulas em outros andares, bem como os acessos de entradas e as dificuldades de locomoção existentes nas instituições, uma vez que ter acesso significa ter facilidade em distância, tempo e custo de se alcançar fisicamente, a partir de um ponto específico no espaço urbano os destinos desejados. Eu estudo numa faculdade onde o acesso é horrível e eu preciso ter realmente muita força de vontade. Tem pessoas que me dizem que quando me vêem subindo a ladeira é o que as motiva a continuar estudando nesta faculdade. (Profª Carla*) No decorrer da pesquisa, verificamos que os professores exercem na prática a docência, desenvolvendo potencialmente suas capacidades e habilidades pedagógicas através de suas próprias estratégias. A partir do 3º ano, eu passei pela disciplina de patologia, e achei que tinha encontrado, pois dentro da medicina eu queria encontrar uma área específica para trabalhar e na patologia eu trabalho sentada, concorro de igual pra igual com qualquer pessoa. (Profª Roberta*) 18

19 De acordo com Gardner (1985), a inteligência intrapessoal é uma habilidade para acessar os próprios sentimentos, sonhos e idéias, e assim, utilizá-los na solução de problemas pessoais. Reconhecendo essas habilidades, necessidades, desejos e inteligências próprios do indivíduo, tornando-se apto para formular uma imagem precisa de sí próprio. Com a capacidade inata, geral e única que permite que esses professores entrevistados tenham uma boa performance em sua área de atuação, verificaram-se diversas estratégias, tais como: utilização de um automóvel adaptado, adequação do ambiente físico, recursos tecnológicos, conversa informal com os alunos e o auxilio de estagiários em sala de aula. No fundo, no fundo fica parecendo às vezes que o problema é muito maior, pelo fato de a pessoa com deficiência precisar de um estagiário. (Profº João*) De acordo com a Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner (1985), os seres humanos dispõem de graus variados de cada uma das inteligências e maneiras diferentes da combinação entre elas. Essas inteligências são: lingüística (habilidade para usar a linguagem), musical (habilidade para perceber temas musicais, sensibilidade para ritmos, texturas e timbre, produzir e reproduzir música), lógico-matemática (sensibilidade para padrões, ordem e sistematização), espacial (habilidade para perceber o mundo visual e espacial de forma precisa), sinestésica (habilidade para resolver problemas ou criar produtos através do uso de parte ou de todo o corpo), interpessoal (habilidade para entender o comportamento de outras pessoas) e intrapessoal (é o correlativo interno da inteligência interpessoal). Assim, os seres humanos dispõem de graus variados de cada uma dessas inteligências, e as diferentes maneiras com que eles se combinam, organizam e utilizam dessas capacidades intelectuais para resolver seus problemas. Ainda em se falando das estratégias adotadas, encontramos dois docentes que utilizam automóveis adaptados para chegar a seu local de trabalho, este recurso é de extrema importância para sua acessibilidade, evitando maiores transtornos e sobrecarga tanto emocional, quanto física. 19

20 Eu preciso trabalhar os três horários. Trabalho para pagar o carro. O que eu pagava de motorista particular é o que eu pago da prestação de meu automóvel. Quando o carro não era meu sofri muito, porque o motorista não chegava na hora ou às vezes me deixava esperando uma hora, uma hora e meia nos lugares e eu não podia pegar ônibus. (Profª Ângela*) Outra estratégia utilizada por dois professores é o auxílio de um estagiário. No caso do professor João*, dada à necessidade advinda de sua deficiência visual, faz com que o estagiário tenha a função de facilitar o acesso do professor às produções textuais dos alunos. Já, no caso da professora Ângela*, a estagiaria lhe auxilia, dando apoio para que ela não faça um fatigante esforço físico, que lhe seria ainda mais prejudicial, devido a sua deficiência. O compromisso que tiveram comigo era de que eu tivesse uma estagiária para que eu não realizasse atividades que não fossem pedagógicas. (Profª Ângela*) Com relação à adequação do ambiente e os recursos tecnológicos, constatamos que todos os professores entrevistados têm bons e adequados materiais para trabalhar, bem como salas de aula projetadas para facilitar o desenvolvimento do aluno e o desempenho do próprio professor com os recursos didáticos e tecnológicos; entendendo que o ambiente educacional deve ser mais amplo e variado para uma melhor aprendizagem. Eu trabalho muito na parte de ensino, não uso quadro negro, nunca usei. Antigamente eu usava muito projetor de slides e, atualmente, eu uso apenas computador. (Profª Roberta*) No que se refere à relação professor-aluno, todos os entrevistados tem um bom relacionamento interpessoal com seus alunos, assim, de acordo com a professora Ângela*, em sala de aula pode-se ter autoridade sem ser autoritário, lançando mão de uma boa conversa com os alunos para que sejam resolvidas eventuais situações que surgem no cotidiano escolar. E, ainda, de acordo com a professora Roberta*, transmitir o conhecimento ao aluno, independe da 20

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