CLINICA DA ANSIEDADE: Um projeto terapêutico

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1 CLINICA DA ANSIEDADE: Um projeto terapêutico De nossos antecedentes Existem instituições onde a psicanálise aplicada da orientação lacaniana tem lugar há muitos anos, como é o caso do Courtil e L Antenne 110 na Bélgica, ou o Centro de día Equipo 111 na Argentina. Cada uma surgiú num marco particular e cada uma constitui uma experiência singular da chamada prática feita por muitos o prática entre vários. Elas não se propõem como modelos ideais de instituição, elas se propõem somente como uma experiência. A transmisão dessas experiências nos estimulou para pensar na realização de uma instituição de vocação clínica e investigação orientada pela psicanálise lacaniana. A psicanálise aplicada em cada uma dessas instituições atende a um desafío explicitado por Jacques-Alain Miller (1). Trata-se de um desafío decisivo, prático, da prática psicanalítica na sua diferença com a psicoterapia: Que a psicanálise aplicada permaneça psicanalítica e portanto uma terapia que não é como as outras. De que depende? Depende só de ter uma referência à psicanálise como doutrina? Alexandre Stevens no seu texto La psychanalyse appliquée (2), referíndose à experiência do Courtil, considera que, o trabalho da psicanálise na instituição não é um mero trabalho de psicoterapia de orientação psicanalítica, é da psicanálise aplicada que considera o necesario anodamento

2 entre a psicanálise em intensão e em extensão. Portanto não é suficiente, para que uma instituição seja atravessada pela psicanálise, a escolha da psicanálise como referência. É necesário : 1) Por a trabalho os conceitos analíticos com os resultados que a instituição produce na construção da sua clínica. 2) Que aqueles que trabalham na instituição sejam eles mesmos atravesados, concernidos pela psicanálise e atingidos em seus efeitos de intensão. Ou seja, que eles operem como analizantes civilizados. 3) Uma obrigação de tranmisão, sem a qual a referência à psicanálise seria pouco efetiva. Que a psicanálise aplicada permaneça psicanalítica então depende finalmente de uma escolha e uma aposta, a ser feita tanto nas instituições criadas para tal fin, quanto na solidão do consultório do analista lacaniano. 2- O CLIN-a. Apresentação O CLIN-a, Centro Lacanianao de Investigação da ansiedade, é uma instituição criada em junho de 2003, à luz do ensino de Jacques Lacan, em relação intrínseca com a Escola Brasileira de Psicanálise e Associação Mundial de Psicanálise. Segundo seus estatutos Tem por finalidade ser um centro de formação de profissionais em psicanálise lacaniana, em especial na investigação da ansiedade, visando desde uma posição que lhe é própria contribuir com as políticas de saúde mental.

3 A instituição objetiva participar de um programa amplo de pesquisa sobre a psicanálise aplicada, programa este ditado pelo Campo Freudiano. Trata-se de investigar na própria experiência quais são as condições da prática lacaniana nas instituições. O CLIN-a foi qualificado como OSCIP (Organização de Sociedade Civil de Interesse Público) sob o processo MJ nro / no dia 21 de junho de 2004, publicado no Diário Oficial de 28 de junho de A Clínica do CLIN-a Jacques Lacan no Ato de Fundação da Escola da Causa Freudiana de Paris de 1964, utiliza o sintagma psicanálise aplicada para falar da terapêutica: o exame clínico; a definição nosográfica; os projetos terapêuticos, são os meios operacionais da Seção de Psicanálise aplicada proposta por Lacan para sua Escola. A Clínica da ansiedade do CLIN-a é um projeto terapêutico. Trata-se de um trabalho da psicanálise aplicada na instituição, sob a modalidade da prática entre vários, experiência que se iniciou em agosto de Escolhimos chamar a nossa clínica Clínica da ansiedade considerando a forma como o Outro social nomea as mais diversas manifestações sintomáticas da angústia contemporánea.

4 Desde a modalidade da prática entre vários é o acolhimentoatendimento o que oferecemos ante os problemas da ansiedade da população que procura nossa clínica. Não oferecemos um tratamento psicanalítico, ou melhor dizer, não oferecemos um tratamento psicanalítico padrão. Trata-se de uma instituição que não vem substituír um trabalho clínico como pode ser uma análise pessoal, nem limitarse a ser uma especie de sala de espera dos praticantes que trabalham nela. A instituição tenta desenvolver uma clínica que le seja específica. Funcionamos como Lugar de acolhimento-atendimento gratuito por um tempo determinado, e trabalhamos com grupos. Trata-se de um lugar sempre aberto a receber novos integrantes, onde operam diversos praticantes, membros da instituição que fazem esquema de plantão. O acolhimento propõe, em seu âmago, acusar recebimento (3) daquilo que cada um quer comunicar sobre si. Não há um a priori da clínica e nem uma classificação a ser formulada. A transferência, a propomos em torno da instituição, que orientada pela psicanálise lacaniana, permite o recebimento dos novos sintomas e das novas formas de articulação ao discurso do Outro que se tem observado na clínica contemporânea. Que seja um projeto terapêutico quer dizer que visamos efeitos terapêuticos da psicanálise aplicada na instituição, não que temos um projeto a medida de cada um daqueles que procuram

5 nosso atendimento. A instituição parte de não saber o que é o Bem para o sujeito. Não é desde o lugar do Outro todo saber que se faz a oferta. Cada um daqueles que procuram nossa clínica terá a oportunidade de ser acompanhado em seu trajeto subjetivo particular, onde poderá ou não- encontrar seu projeto singular. Faz parte da experiência levar um diario onde registramos tudo aquilo que faz parte do acolhimento-atendimento: cada uma das reuniões, as chamadas telefônicas, as entrevistas de apresentação etc. A experiência comporta também reuniões clínicas periódicas para a construção dos casos e da experiência em andamento, onde participam todos os comprometidos no atendimento assim como outros membros, e alunos dos cursos do CLIN-a que fizeram um pedido explicitando um interés particular em conhecer e contribuír à experiência. A proposta da pratique à plusieurs, prática entre vários, é nova em nosso meio e tem suas raízes como já foi colocado anteriormente, em instituições ligadas ao Campo Freudiano e com muitos anos de experiência. Existem diferenças importantes entre o CLIN-a e essas outras instituições, porém, é baseados no que se coloca em nossos dias sobre a aplicação da psicanálise que fazemos a aposta.

6 Através dessa prática, sem standards, tentaremos extrair os principios de funcionamento da psicanálise aplicada fora do dispositivo analítico propriamente dito. Os primeiros resultados da experiência em curso, assim como o saber extraído da mesma, serão objeto de trabalho destas IV jornadas do CLIN-a, que considero como uma primeira escansão de um tempo para compreender na construção da nossa clínica. Para esse trabalho contaremos com a cara presença de nossos colegas convidados Iordan Gurgel e Carlos Augusto Nicéas, que, desde um lugar éxtimo enriquecerão a leitura da nossa experiência. BLANCA MUSACHI São Paulo, novembro 2004 Notas (1)Para considerar a diferença conceitual da psicanálise com a psicoterapia remitimos ao texto do J-A Miller Psicanálise pura, psicanálise aplicada vs psicoterapia publicada em português na revista Phoenix Nro. 3. (2) Alexandre Stevens: La psychanalyse appliquée, Revista Mental 10, EEP, Paris, maio (3) Curso de Jacques-Alain Miller Um esforço de Poesia 2002/2003 Aula 11. BIBLIOGRAFIA Lacan, Jacques: Ato de fundação da Escola Freudiana de Paris, 1964 em Outros Escritos, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, outubro, Lacan, Jacques: Variantes de la cura tipo, em Escritos I, Siglo veintiuno argentina editores, Buenos Aires, setembre, 1985.

7 Miller, Jacques-Alain: Psicanálise pura, psicanálise aplicada vs psicoterapia em Revista Phoenix Nro., Stevens, Alexandre: La psychanalyse appliquée, em Revista Mental 10, EEP, Paris, maio Stevens, Alexandre: El Courtil: una elección, em Temas Cruciales I, Editorial Atuel, Buenos Aires, abril Antonio Di Ciaccia y Virginio Baio: El velo y la falta, em Temas Cruciales I, Ed. Atuel, Buenos Aires, Recalcati, Mássimo: Une application de la psychanalyse à la clinique du groupe: l homogène et l aléatoire. Revista Mental 10, EEP, Paris, maio VVAA: Un trabajo en relación a la psicosis infantil y el autismo, em Temas Cruciales I, Ed. Atuel, Buenos Aires, Zenoni, Alfredo: En los márgenes del lazo social, em Temas Cruciales I, Ed. Atuel, Buenos Aires, VVAA : Qu est-ce que la psychanalyse appliquée?, Mental 10, Revue Internationale de Santé Mentale et Psychanalyse appliquée, EEP, Paris, maio Ferreira Da Silva, Rômulo: O Clin-a. Texto apresentado na inauguração da nova sede do CLIN-a, 22 de novembro 2004.

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