A CURVA TERAPÊUTICA DA PRIMEIRA SESSÃO NA CLÍNICA SISTÊMICA PÓS-MODERNA

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1 A CURVA TERAPÊUTICA DA PRIMEIRA SESSÃO NA CLÍNICA SISTÊMICA PÓS-MODERNA Autora: (Elda Elbachá Psicoterapeuta Sistêmica, Diretora, Docente e Supervisora do Centro de Estudos da Família e Casal - CEFAC/BA) A primeira sessão começa no encaminhamento e segue no contato por telefone. É nesse momento que se estabelecem as primeiras impressões recíprocas entre terapeuta e cliente. Esse primeiro contato, na maioria das vezes, é recebido por nossa secretária, que é orientada para anotar o nome e telefones do cliente, assim como quem fez o encaminhamento e, em seguida, informar ao terapeuta para que ele retorne a ligação. Esse dado aparentemente inócuo o encaminhamento na realidade oferece informações bastante interessantes: Indicações de instituições? De escolas? de clientes? Ou de outros profissionais? Essa é uma primeira ideia na construção de hipóteses, tanto sobre o cliente como sobre o terapeuta. Um cliente encaminhado por outro cliente sinaliza que o terapeuta vem estabelecendo vínculos sólidos, de confiança, e ajuda. É um retorno importante para o terapeuta, que sente-se confirmado e legitimado em suas construções terapêuticas. Indica também que seu cliente possui um vínculo (intenso ou não) com o encaminhado e remete o terapeuta a uma atenção maior sobre sua ética, no sentido de não se envolver em enredos paradoxais ou duplamente vinculatórios, que acabem por não tornarem-se verdadeiramente terapêuticos. É importante que cada cliente possa ficar no seu espaço e que as interseções entre eles sejam ética e terapeuticamente trabalhadas. Se necessário, é importante rever o contato para incluir limite em relação a esse novo tópico, ou até mesmo a interrupção do processo e encaminhamento para outro terapeuta. Uma outra situação é quando o encaminhamento é feito por instituições e convênios. Geralmente, nesse caso, o cliente é encaminhado para a terapia e não para o terapeuta. Não existe nenhuma referência anterior e, portanto, nenhum vínculo. É uma terapia onde o vínculo transferencial e contra-

2 transferencial se constrói a partir do zero, para um valor positivo ou negativo. Quando o encaminhamento é feito por instituições públicas, é fundamental que o contrato, na primeira sessão, seja bem construído, para evitar as atitudes institucionalizadas de faltas sem avisos, descompromisso com o horário e assistencialismos. É também importante, que a sessão tenha um valor financeiro, mesmo que simbólico, sinalizando um elemento de diferenciação do vínculo institucional para o vínculo clínico. Quando o encaminhamento é feito por outros profissionais (psicoterapeutas, médicos, pedagogos etc.), é normal acontecer do profissional que encaminha desejar contar detalhes ou o que sabe sobre o caso. Na clínica sistêmica, temos a postura de profissional e cortesmente dar limites a essa antecipação de informações, explicando o estilo terapêutico, de primeiro escutar a narrativa do cliente e, quando necessário, escutar a do profissional que encaminha. Evitar a contaminação de percepções é fundamental, porque ela consciente ou inconscientemente acaba dirigindo e interferindo na escuta, no ineditismo, na espontaneidade da relação, do processo e da história. Na primeira sessão, a ansiedade do cliente (família, casal ou indivíduo) em narrar o seu problema, sintoma ou dificuldade é bastante alta. Devemos estar atentos a este ponto, tomando as rédeas do discurso nesse primeiro momento, metacomunicando: Entendemos que vocês estão buscando ajuda e, portanto desejam falar também da dificuldade que estão passando, mas inicialmente gostaria de conhecê-los um pouco, para compreender melhor o que estão vivenciando. Esse primeiro passo na terapia sistêmica corresponde à fase de socialização (Minuchin, S.): apresentação dos membros enquanto pessoas e não enquanto problemas. Essa atitude, aparentemente simples, possui um efeito poderoso nesse primeiro momento do processo. A inversão de prioridades primeiro as pessoas, depois os problemas configura-se na primeira ressignificação terapêutica que o terapeuta introduz no sistema. Além de dar um contorno para a ansiedade, surpreende o cliente, desarrumando a sua narrativa dominante e também a resistência. Nessa fase de socialização sistêmica, utilizamos o questionamento circular para que um membro apresente o outro, desprendendo-os também de um discurso linear sobre si mesmo ou discurso egocêntrico. (Boscolo, L.)

3 Quando a terapia é individual sistêmica, a circularidade pode não ser introduzida ou ser, utilizando os elementos parentais ausentes no sistema terapêutico, porém presentes no sistema familiar. Como, por exemplo, perguntar: se seu pai estivesse aqui, como ele te apresentaria a mim?. O que seu marido diria sobre o seu lado profissional? Na socialização sistêmica, grande parte do conteúdo relacionado ao problema vai aparecendo, porém com uma conotação diferente: aparece dentro das relações, ou seja, contextualizado e não de forma isolada e fragmentada, como se existisse per si. Existe um fluxo totalmente espontâneo, aonde a apresentação vai se transformando na narrativa dominante sobre a dor, o sofrimento, o pedido de ajuda e a dificuldade (White, M.) A clínica sistêmica utiliza uma técnica para fechamento da primeira sessão, que é extremamente rica e poderosa. A técnica consiste em colocar os membros um de frente para o outro (quando casal), ou em círculo (quando família) e pedir que cada um possa escutar e dizer ao outro o que vem construir nessa terapia. Esse é um outro momento de ressignificação, onde todo o sistema terapêutico fica comprometido com os objetivos, ou seja, onde é ampliada a intenção e a cumplicidade do próprios clientes com aquilo que eles desejam construir de bom e de melhor para as suas vidas. Nesse sentido, o terapeuta fica descentralizado e deixa de ser o principal responsável pela mudança, passando a ser um co- construtor dela. É incrível como esse reposicionamento construído de forma também analógica e simbólica, potencializa os recursos de saúde do sistema e estabelece um pacto de lealdade e compromisso com aquilo que eles vêm construir, além de criar uma oportunidade singular para escutarem e serem escutados com suas demandas e necessidades. Concluída esta etapa dos objetivos terapêuticos podemos sugerir uma experiência reflexiva aonde cada um leve dentro de si tanto aquilo que vem construir quanto o que os outros membros também vêm construir nessa terapia. No caso da terapia individual sistêmica, você pode utilizar essa técnica, colocando a(s) cadeira(s) vazia(s) representando o(s) membro(s) do sistema e utilizando o questionamento circular para que o cliente possa dizer o que pensa

4 que o outro viria construir nesse espaço. Quando não utilizar a técnica, podemos apenas escutar o que o cliente deseja construir na terapia, e o que vai mudar na sua vida quando conquistar esses lugares. Nem sempre a primeira sessão oportuniza tempo para realizarmos todos estes passos e, nesse caso, nada impede que se construa na segunda sessão. Quando isso acontece, é interessante deixarmos como experiência terapêutica, da primeira para a segunda sessão, a reflexão sobre o que deseja construir nesta terapia, retomando-a (dentro da técnica ou não) na segunda sessão. Existe uma outra etapa, na construção da primeira sessão, que é bom se possível, que aconteça na primeira sessão mesmo: O contrato terapêutico. O melhor momento para fazê-lo é após o fechamento da primeira sessão. Nesse tempo, o cliente já pode entrar em contato com o modelo ou estilo clínico do terapeuta, tornando-se muitas vezes desnecessárias as explicações epistemológicas ou teóricas sobre o tipo de abordagem. A questão dos honorários também encaixa-se melhor após concluída a sessão, assim como por conta do vínculo iniciado, o cliente escuta melhor as regras específicas, referentes às faltas e reposições de sessões. Cada terapeuta tem o seu modelo de contrato, que é amparado tanto nos padrões contratuais da prática profissional, como também nas questões ligadas à sua ética pessoal, valores, crenças e premissas, sobre o que é certo e errado, justo e injusto, bom e ruim. Um contrato bem definido e esclarecido junto ao cliente garante um processo sólido de confiança, entrega e segurança, por isso, é importante o terapeuta colocar-se disponível para aprofundar e responder dúvidas e questões que pareçam importantes para o cliente nesse primeiro momento. Se, no decorrer do processo terapêutico, acontecem dificuldades relacionadas às pautas de contrato, o terapeuta deve e tem o direito de recontratar com o cliente o que for necessário. O contrato terapêutico é também um exercício terapêutico de limites e possibilidades, dando um contorno ao vínculo ao mesmo tempo em que o acolhe. A curva terapêutica da primeira sessão propõe uma imagem de percurso, com início, meio e fim, na qual se desenha uma curva que vai progressivamente ascendendo e declinando até o fechamento da primeira sessão, onde um tempo cronológico (kronos) e um tempo da subjetividade (Kairós) vão intergenerativamente sendo construídos

5 Cada terapeuta constrói a sua própria clínica superando a teoria, ultrapassando-a, estando a serviço das ordens da ajuda, e utilizando a si mesmo e às metáforas teóricas como recurso terapêuticos disponíveis para o empoderamento pessoal e protagonismo do cliente.

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