PROGRAMA NACIONAL EDUCAÇÃO INCLUSIVA: DIREITO À DIVERSIDADE. UMA ANÁLISE DO MATERIAL DE FORMAÇÃO DOCENTE

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1 PROGRAMA NACIONAL EDUCAÇÃO INCLUSIVA: DIREITO À DIVERSIDADE. UMA ANÁLISE DO MATERIAL DE FORMAÇÃO DOCENTE MARTIN, Mariana UEL 1 INTRODUÇÃO Este trabalho objetiva analisar o material Educar na Diversidade: formação docente 2006 elaborado pelo Ministério da Educação. Especificamente buscou identificar e analisar a concepção acerca dos conceitos de deficiência intelectual (DI), necessidades educacionais especiais (NEE) e inclusão presentes no documento. A década de 1990, segundo Meletti (2008, p.03), pode ser considerada um marco na Educação Especial brasileira em função das proposições políticas que se articulam numa perspectiva inclusiva ao incorporarem as orientações internacionais tratadas nas Declarações de Educação para Todos e de Salamanca. Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº (LDB), referente à Educação Especial, apresenta algumas normas no atendimento ao aluno portador de NEE, enfatizando a prioridade no atendimento em redes públicas de ensino, professores especializados, serviços de apoio especializado, currículos adaptados entre outras. Em setembro de 2001, as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica apresentam, em seu Artigo 5, como população alvo da educação especial, os alunos portadores de necessidades educacionais especiais como aqueles que durante o processo educacional, apresentarem: I dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento que dificultem o acompanhamento das atividades curriculares, compreendidas em dois grupos: a) aquelas não vinculadas a uma causa orgânica específica; b) aquelas relacionadas a condições, disfunções, limitações ou deficiências. Isso nos mostra que a nova nomenclatura, ao mesmo tempo em que tentou ser objetiva, acabou confundindo os significados de deficiência e das necessidades que a deficiência acarreta nos indivíduos. Segundo Bueno (1997) este conceito ao abranger uma diversidade de sujeitos, ganha na amplitude e na quebra da estigmatização, mas perde na precisão.

2 A partir do início da década de 2000, iniciam-se alguns cursos de formação continuada, ofertados pelo Ministério da Educação, com o objetivo de capacitar professores para lidarem com a diversidade de seu alunado com a implementação da educação para todos e da escola inclusiva. Dentre estes cursos, merece destaque o Programa Nacional Educação Inclusiva: direito à diversidade iniciado em 2005 numa ação conjunta entre os governos Federal, Estaduais e Municipais, no qual está inserido o projeto Educar na Diversidade nos Países do Mercosul. O principal desdobramento do projeto foi a publicação, em 2006, do Material de Formação Docente Educar na Diversidade que, de acordo com a Secretaria de Educação Especial do MEC, constitui o elemento chave na implementação do projeto brasileiro de formação de professores e professoras preparado(a)s para responder à diversidade de estilos e ritmos de aprendizagem de seus estudantes (2006); o qual será aqui enfatizado. 2 METODOLOGIA Neste trabalho, o material Educar na Diversidade foi analisado tendo por base os preceitos da Análise de Conteúdo, conforme proposto por Bardin (1977). De acordo com Meletti (1997, p. 57), entende-se por Análise de Conteúdo o conjunto de procedimentos sistemáticos e objetivos que possibilitam a descrição analítica do conteúdo manifesto das mensagens, visando obter indicadores que permitam a interpretação inferencial de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens. É a descrição de aspectos de uma mensagem com o objetivo de reinterpretá-la de acordo com os pressupostos da investigação. Bardin (1977) aponta que: enquanto esforço de interpretação, a análise de conteúdo oscila entre os dois pólos do rigor da objetividade e da fecundidade da subjetividade. Absolve e cauciona o investigador por esta atração pelo escondido, o latente, o não-aparente, o potencial de inédito (do não-dito), retido por qualquer mensagem (p. 09). Para a análise do material o primeiro passo foi delimitar a Educação Especial e a Deficiência Mental como unidade de análise. Em seguida elegemos os eixos de análise:

3 - Educação Especial: flexibilização, apoio especializado e adaptação curricular; - Deficiência mental: necessidade educacional especial e níveis de apoio. - Educação Inclusiva. Com base nos pressupostos da Análise de Conteúdo, iniciou-se a análise dos dados adotando-se o seguinte procedimento: a) organização dos dados por meio da identificação dos trechos; b) identificação dos temas; c) agrupamento dos trechos segundo os temas; e d) interpretação dos dados. 4 RESULTADOS O material Educar na Diversidade iniciou-se em 2005, com o objetivo de formar docentes nas escolas que aderiram ao projeto e inda propunha contribuir para aumentar as oportunidades de acesso, permanência e participação educacional e social de todas as crianças, jovens e adultos com ou sem deficiências e que enfrentam barreiras para participação e aprendizagem (Educar na Diversidade, 2006). Como resultados apresentam-se principalmente a falta de precisão das concepções (DI, NEE e Educação inclusiva) e consequentemente a confusão entre elas. A Educação Especial e a Educação Inclusiva aparecem como sinônimos, o que denuncia que os objetivos e aspectos principais de cada modalidade podem se confundir ou até se anular. Quanto às NEEs e a deficiência intelectual, ambas apresentam confusão e imprecisão de conceitos, pois o primeiro engloba o segundo, mas não podemos dizer que todas as necessidades especiais sejam decorrentes apenas de deficiências, nem podemos afirmar que toda necessidade educacional especial é alvo da educação especial. No caso da deficiência intelectual, no documento há apenas a indicação da mesma com redução de objetivos e conteúdos e essas supressões podem indicar que alguns alunos não precisam aprender tudo e, corre-se o risco de generalizações indevidas como estabelecer a priori que todo aluno com algum tipo de deficiência não aprenderá determinado conteúdo. Além disso, a deficiência mental não é citada, nem enfatizada, muito menos as adaptações que se fazem necessárias para adequar o currículo de um aluno portador da mesma. Sendo assim, o que se pode ler nas entrelinhas é que ela não faz parte do contexto escolar e, em conseqüência disso, não deve ser nem ao menos mencionada. Outro aspecto ainda observado foram as flexibilizações. No início do documento, observa-se que a característica central deve ser a flexibilização do conteúdo curricular (pp.61) e já

4 no final há a passagem indicando que Só em último caso as flexibilizações curriculares representam um produto, uma programação que pode conter alguns objetivos e conteúdos diferentes para o aluno(a) (pp.179), mostrando como o próprio documento se contradiz. O apoio especializado é outro ponto essencial quando se fala sobre alunos com deficiência, seja ela qual for; visto que, a comunidade escolar diz-se despreparada e mal informada sobre esse público; e ele é apresentado como algo fundamental para a construção da educação inclusiva. Porém, notou-se a ausência de indicações e definições claras sobre o apoio especializado, assim como a apresentação recorrente de expressões vagas e abstratas tais como sensíveis à diversidade, desejável, pode apoiar... denotam uma generalização que merece ser analisada. Um professor ou qualquer outro profissional envolvido com a educação pode ser sensível à diversidade e não saber, por exemplo, como ensinar um conteúdo a um aluno cego. Do mesmo modo, não basta um profissional especializado trabalhar apenas a sensibilização (inegavelmente um passo do processo) e não orientar e apoiar o trabalho pedagógico. Por isso, durante toda a análise do documento, o que prevaleceu foram os eixos que circulam dentro da Educação Especial e da Educação Inclusiva, os quais realmente fazem diferença em interpretações e possíveis adequações na aprendizagem de um público diferenciado. Sem alguns parâmetros, como se percebeu, a mesma se tornou bem vaga. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS O trabalho, como se percebe, teve um caráter de análise documental. O projeto Educar na Diversidade foi dividido em partes, as quais tiveram aspectos bem relevantes e teceram um fio que foi o condutor para essa análise. As categorias: apoio, flexibilização, Educação Especial, Educação Inclusiva, serviram de base para que os trechos fossem surgindo como luzes e desvendando falhas na elaboração do documento. A cada fase do trabalho várias possibilidades de análise também apareciam, mas as que mais chamaram a atenção foi o fato do não aparecimento de nenhum tipo de deficiência explícita. Isso acarreta a uma interpretação simples; se existe um documento que fala sobre a diversidade na escola, sobre a inclusão e, no mesmo, não aparecem definições das deficiências, isso apenas pode fazer com que o leitor subentenda que as mesmas não se encontram dentro do ambiente escolar, por isso não merece destaque.

5 A idéia em se fazer um material baseado em questões que tenham como objetivo a reflexão docente em relação à sua própria prática é muito válida, mas primeiramente, antes de se refletir sobre algo, é necessário que se desmistifique, ou melhor, que se torne os conceitos claros, objetivos, para que todas as ações tenham um fundamento, prioritariamente teórico e sólido. Pela análise esses foram os pontos mais importantes, ou seja, a elaboração do material, de uma forma geral se dá de forma que as desvantagens sociais e educacionais continuem postas, o que se tenta mudar é a maneira como lidar com elas, mas, como se percebe, isso não será possível, sendo que para que se mude uma opinião, há que se mostrar a realidade de uma outra forma, o que não aconteceu. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Bardin, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70,1977 Brasil. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. CÂMARA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Resolução n 2, de 11 de setembro de Diretrizes nacionais para educação especial na educação básica. Brasília, 2001b. Brasil. MEC. INEP. LDBEN 9394/96 que estabelece as Diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, MEC, SEESP. Educar na diversidade: material de formação docente. 3. ed. Brasília, Bueno, J. G. S. A produção social da identidade do anormal. In: Freitas, M. C. (org.) História social da infância no Brasil. São Paulo: Cortez Editora, Meletti, S. M. F. O significado do processo de profissionalização para o indivíduo com deficiência mental. Dissertação de Mestrado em Educação Especial, UFSCar, Meletti, S. M. F. APAE Educadora e a organização do trabalho pedagógico em instituições especiais. In: 31ª Reunião Anual da ANPED, Caxambu, 2008.

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