TRATADO ALTERNATIVO SOBRE COMÉRCIO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL [12] PREÂMBULO

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1 TRATADO ALTERNATIVO SOBRE COMÉRCIO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL [12] PREÂMBULO 1. O comércio internacional deve ser conduzido de forma a melhorar o bem estar social, respeitando a necessidade de promover um desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentável e o manejo responsável dos recursos naturais, seguindo os princípios da precaução, da transparência e da democracia participativa. 2. As negociações comerciais atuais, tais como as do Acordo de Livre Comércio Norte Americano e a iniciativa para as Américas, perpetuam o modelo predatório de desenvolvimento que danifica o meio ambiente, estimula um consumismo ilimitado e empobrece a maior parte das populações em todos os países. Entendemos que o comércio internacional deve integrar as estratégias de desenvolvimento sustentável, a fim de garantir uma justa distribuição da riqueza, a autodeterminação dos povos e a democracia participativa. Também entendemos que a integração econômica deve ser um instrumento a ser utilizado para incrementar relações complementares e não hierarquizadas entre os povos, em nível político, econômico e cultural. O fortalecimento das relações multilaterais entre as nações deve basear-se no princípio da igualdade. 3. Os salários e benefícios, as condições de trabalho, o uso da terra e a exploração de fontes de recursos naturais devem ser direcionadas para a sustentabilidade de comunidades social e ecologicamente equilibradas. As vantagens comparativas não devem ser perseguidas através da exploração desumana e não sustentável dos indivíduos e da natureza. 4. A dívida externa tornou-se um instrumento de dominação política, utilizada como barganha pelos países credores para impor liberalização da economia dos países devedores. A efetiva perda da soberania destes países sobre as suas políticas nacionais tem resultado no aumento da pobreza e da degradação ecológica. O cancelamento da dívida externa e o resgate da soberania nacional com base nos princípios democráticos são indispensáveis para o desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentável. 5. A melhoria dos termos de troca dos países em desenvolvimento, a eliminação das distorções criadas por políticas comerciais injustas, e a preservação do direito de adotar políticas justas são importantes pré-requisitos para o alcance da sustentabilidade local e global. Mais especificamente, isto requer a eliminação da escalação tarifária sobre os produtos cuja exportação; a redução das tarifas nos mercados dos países desenvolvidos, e a eliminação da escalação tarifária sobre os

2 produtos cuja exportação seja do interesse dos países em desenvolvimento; também faz-se necessária a eliminação das distorções comerciais que inibem o desenvolvimento sustentável, tais como baixos padrões de proteção ao trabalho e ao meio ambiente. Políticas justas incluem padrões de saúde e outros padrões sociais e ambientais, bem como mecanismos financeiros que permitam aos países implementarem estes padrões; o fortalecimento desses padrões e dos subsídios que levem a formas sustentáveis de extração de recursos naturais e métodos de produção; o uso de restrições quantitativas às importações e exportações, assim como políticas domésticas e multilaterais cooperativas visando à gestão da produção e do comércio de recursos naturais e de seus derivados de forma a garantir a segurança alimentar, o uso sustentável da terra e a agricultura sustentável. 6. Devem ser eliminadas as práticas de comércio agrícola que sejam ambientalmente e socialmente destrutivas, através de negociações multilaterais abertas, equilibradas e não discriminatórias. As formas democráticas de propriedade, uso e acesso à terra são vitais para a criação de sistemas alimentares e comunidades rurais sustentáveis. Os sistemas de produção e de consumo de alimentos não podem depender das forças de mercado. A distância e a relação entre consumidores e produtores precisa ser diminuída. Uma compreensão plena de todo o sistema agrícola de produção, distribuição e consumo englobando seus aspectos ecológicos, econômicos e sociais é uma pré-condição para a agricultura sustentável. O direito ao alimento envolve não só aspectos materiais tais como quantidade, acesso e qualidade como também aspectos culturais relacionados à produção de alimentos provenientes de áreas e comunidades rurais sustentáveis. 7. O patenteamento da propriedade intelectual que, por definição, garante uso privado a descobertas e invenções anula a colaboração e o compartilhamento do conhecimento. Todas as patentes de recursos biológicos e de formas de vida deveriam ser suspensas enquanto se discutem os problemas da propriedade intelectual, preservando, desta forma, os direitos de sociedades tradicionais, que usam recursos vivos não-patenteáveis. Devem ser reconhecidas as leis internacionais vigentes da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO), sob a chancela da Convenção de Paris. Além disso, devem ser reconhecidos e valorizados os atuais direitos e responsabilidades, formais e informais, das comunidades locais em relação à biodiversidade e aos recursos biológicos juntamente com a sua contribuição à melhoria e à manutenção da biodiversidade. Devem ser eliminadas as práticas comerciais que reduzem ou restringem o livre acesso às idéias e tecnologias necessárias à proteção do ambiente e da saúde. Mecanismos como o licenciamento compulsório garantem o direito das nações ao uso de produtos de amplo valor social; este direito não deve ser comprometido pelo GATT ou quaisquer outras negociações similares.

3 8. As comunidades, os estados e as nações têm o direito de estabelecer as suas próprias normas e padrões sociais, ambientais e de saúde bem como as suas prioridades de desenvolvimento, como expressão do desejo das sociedades de proteger o seu bem-estar presente e futuro. Este direito não deve ser considerado como uma barreira desleal de comércio se os princípios de não-discriminação, transparência e proporcionalidade são respeitados. Um teste para determinar se uma política ou padrão constitui-se em uma barreira comercial é verificar se o seu efeito é discriminatório em relação a determinado produto ou processo para proteger de forma injustificada produtores domésticos, ou para favorecer produtores de um país em detrimento de outro. O ônus da prova, neste caso, deve recair sobre a parte desafiante, cabendo a esta demonstrar que uma determinada política ou padrão é uma barreira desleal de comércio. 9. As pessoas têm o direito ao livre acesso a toda informação científica. Os estudos de impacto ambiental, quando conduzidos de forma transparente, são um instrumento essencial para a avaliação da adequalidade e justiça de propostas visando acordos multilaterais, bem como na revisão periódica dos seus efeitos. Os padrões de saúde e demais padrões individuais, sociais e ambientais devem constituir um piso mínimo global, e não um limite máximo. Há dois passos básicos para nortear o processo de estabelecimento de quaisquer padrões: avaliação do risco e administração do risco. O papel da ciência é de informar ao público sobre a natureza e a extensão do risco, mas a decisão sobre o nível de risco aceitável deve ser feita pelo público através de um processo transparente e democrático. Uma assessoria técnica e financeira independente deveria estar disponível para permitir que todos os países atinjam padrões internacionais mínimos de acordo com o princípio da precaução. 10. Os processo decisórios devem basear-se principalmente na democracia participativa e não nas forças de mercado. Instituições bilaterais e multilaterais precisam ser criadas democraticamente e planejadas principalmente para promover a sustentabilidade social, econômica e ambiental. Reconhecendo-se que novas regras mundiais devem ser adotadas para assegurar um nível mínimo de padrões mundiais para assuntos críticos como proteção ambiental e direitos humanos, as instituições internacionais e os regimes globais devem alicerçar-se em processos decisórios, políticos e de solução de controvérsias plenamente democráticos. A democracia plena depende da implementação de processos baseados em princípios de solidariedade e que o processo decisório ocorra no mais baixo escalão possível da organização política, assim como no mais alto nível necessário; transparência, confiabilidade, eqüidade, amplo acesso à informação e participação plena da sociedade civil. As organizações não-governamentais e os movimentos sociais devem ter o direito de mobilizar estrategicamente a sociedade civil e de utilizar o seu voto, seu poder político e de consumidor para pressionar e influenciar o processo internacional de tomada de decisões em todos os seus níveis.

4 11. Os conflitos entre as disposições do comércio internacional e os acordos ambientais devem ser resolvidos com base no princípio da máxima proteção ao ambiente e nos meios adequados para se alcançar um desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentável. A resolução de conflitos deve ser conduzida com transparência e ater-se a processos absolutamente democráticos. A diversidade institucional poder permitir uma mais ampla variedade de programas sociais, políticos e culturais que atendam a uma maior variedade de necessidades. As organizações internacionais experimentais não devem tornar-se instituições permanentes enquanto não forem objetivo de uma profunda avaliação da parte de todos os interessados. 12. O comércio de armamentos deve ser proibido. Os Estados devem cumprir com dispositivos de registro obrigatório de transferência de armas, impedindo a transferência de armas proibidas pela lei internacional (armas de destruição em massa) e estabelecendo uma agência internacional sobre os auspícios das Nações Unidas que seria responsável por monitorar, regulamentar e eliminar o comércio internacional de armamentos. 13. Empresas multinacionais devem ser regulamentadas por mecanismos multilaterais abertos, balanceados e não discriminatórios, conduzidos com transparência a partir de processos inteiramente democráticos. 14. Tanto no documento final da Rodada Uruguai do GATT quanto no relatório do GATT de fevereiro de 1992 sobre Comércio e Meio Ambiente, as regulamentações ambientais são enfocadas do ponto de vista de seus efeitos enquanto barreiras ao comércio. Esses documentos também dão apoio à mais ampla desregulamentação possível com respeito à atuação das empresas multinacionais. Acrescenta-se que o documento final da Rodada Uruguai propôs uma ampliação e institucionalização da autoridade do GATT como Organização Multilateral de Comércio (MTO), com mecanismos obrigatórios de revisão e de resolução de disputas que ultrapassariam, inclusive, os processos de estabelecimento de padrões em nível nacional. Tendo em vistra que tanto o GATT quanto a proposta MTO não estão atualmente constituídos para reforçar uma proposta em prol da proteção ambiental e do desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentável mas, ao contrário, existem para antecipar impactos sobre os fluxos comerciais com vistas a minimizar regulamentações potenciais, a sociedade civil e os governos deveriam trabalhar no sentido de substituir o GATT por uma alternativa justa, transparente, participativa e democrática. DESTA FORMA ASSUMIR O COMPROMISSO 1. De trabalhar para substituir o GATT por uma Organização Internacional de Comércio (ITO) alternativa, possuindo uma estrutura participativa e democrática

5 que assegure um processo decisório transparente, confiável e equânime, de acordo com o interesse público e não alinhado com os interesses das corporações. Isso vai assegurar que a ITO desenvolva políticas sociais, ambientais e outras políticas de regulamentação visando um comércio mundial justo, dentro de uma perspectiva de desenvolvimento sustentável que inclua condições preferenciais para os países em desenvolvimento e transferências eqüitativa de recursos entre os países. Dentre as políticas que uma ITO justa iria direcionar incluir-se-iam: os acordos sobre mercadorias e termos de comércio; salários justos e condições saudáveis de trabalho; alocação de recursos provenientes de taxas e tarifas sobre o meio ambiente para viabilizar uma produção benigna, social e ambientalmente; eliminação do comércio de armamentos e de resíduos tóxicos; regulamentação de práticas restritivas de negócios por parte das corporações multinacionais; políticas macroeconômicas, incluindo a questão da dívida externa e políticas cambiais; e o papel de outras instituições internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Finalmente, a ITO iria respeitar o direito das nações de terem o seu processo de tomada de decisões independente, até o ponto em que isto não resulte em práticas injustas mas sim reforce a diversidade cultural. 2. Apoiar modelos alternativos de comércio internacional baseados em cooperativas de produtores e de consumidores e em federações de cooperativas, todos trabalhando em conjunto para evitar o controle multinacional no comércio entre países do Norte e do Sul. 3. Cooperar com os planos de ação de outros grupos de trabalho do Fórum Internacional de ONGs, mormente aqueles ligados a florestas, biodiversidade, mudanças climáticas, agricultura sustentável, militarismo, dívida e corporações multinacionais. 4. Compartilhar informações; cooperar com a rede mais ampla possível de organizações com base comunitária; integrar-se à rede eletrônica de comunicações assim que possível; desenvolver uma bibliografia em comum; desenvolver uma agenda de pesquisa em comum e cooperar na condução e no compartilhamento dos resultados das pesquisas; colaborar em documentos conjuntos e desenvolver acordos coletivos; promover esses acordos coletivos através de processos educacionais e cooperativos, pressionar os nossos respectivos governos nacionais e locais no sentido de apoiarem esses acordos coletivos; desenvolver e partiicpar de debates regionais e internacionais entre ONGs, bem como em grupos de consumidores e produtores pós-cnumad (ECO 92); e redigir um documento amplo, definindo os nossos princípios, a nossa visão, análise e objetivos, em apoio às nossas campanhas futuras. 5. Internalizar esses objetivos no trabalho junto às nossas próprias organizações e redes, comprometendo-nos com a agenda comum e com as responsabilidades advindas deste tratado.

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