UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS - UNISINOS CIÊNCIAS ECONÔMICAS MBA EM GESTÃO DO AGRONEGÓCIO EDISON FRANÇA VIEIRA

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1 UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS - UNISINOS CIÊNCIAS ECONÔMICAS MBA EM GESTÃO DO AGRONEGÓCIO EDISON FRANÇA VIEIRA USO DE TOUROS DE RAÇAS DEFINIDAS EM REBANHOS DE PEQUENAS PROPRIEDADES: UM ESTUDO NOS MUNICÍPIOS DE SANTA MARIA, SÃO SEPÉ E SANTIAGO-RS Porto Alegre 2010

2 EDISON FRANÇA VIEIRA USO DE TOUROS DE RAÇAS DEFINIDAS EM REBANHOS DE PEQUENAS PROPRIEDADES: UM ESTUDO NOS MUNICÍPIOS DE SANTA MAIRA SÃO SEPÉ E SANTIAGO-RS Trabalho de conclusão de curso de especialização apresentado como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Gestão do Agronegócio, pelo MBA em Gestão do Agronegócio da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Orientador: Prof. Luis Antônio Vial Porto Alegre 2010

3 Porto Alegre, 28 de outubro de Considerando que o Trabalho de Conclusão de Curso do aluno EDISON FRANÇA VIEIRA encontra-se em condições de ser avaliado, recomendo sua apresentação oral e escrita para avaliação da Banca Examinadora, a ser constituída pela coordenação do Curso de MBA em Gestão do Agronegócio Luis Antônio Vial Professor Orientador

4 Dedico este trabalho a minha esposa Raquel e minha filha Flávia.

5 AGRADECIMENTOS Agradeço em especial à direção da EMATER/RS-ASCAR pela rara oportunidade. Ao colega Righi e Roblein pelo socorro na hora de aperto e à colega Carmem pela dica na hora certa. Um agradecimento especial par a Janaina, pessoa que colocou este trabalho nos eixos. A todos os colegas do curso pela amizade convivência e parceria. Ao Edson Mhor e Vicente Fin pela companhia e discussão nas inúmeras viagens.

6 RESUMO A atividade agropastoril iniciou no Rio Grande do Sul com a introdução dos primeiros animais, aproximadamente 1000, pelos jesuítas ainda no século XVII. Desde então, a pecuária do estado caracteriza-se principalmente pela criação de bovinos e ovinos. A Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e de Extensão Rural (EMATER/RS-ASCAR), ao longo dos anos, trabalha no sentido de buscar uma melhoria dos padrões zootécnicos dos animais oriundos da pequena propriedade familiar. Os trabalhos iniciaram no ano de 2003 em alguns municípios da região central do Estado, próximos a cidade de Santa Maria. Para isso buscou-se levantar alternativas que viabilizassem o acesso dos produtores familiares ao uso de reprodutores de genética superior, chamados melhoradores nos municípios de Santa Maria, São Sepé e Santiago. Como o trabalho realizado pela instituição envolve muitos atores, tais como os extensionistas rurais, entidades de classe, prefeituras e fornecedores (representados por fazendeiro e cabanheiros), os resultados são lentos e necessita de ações continuadas. Por diversas razões este trabalho não teve continuidade. A partir do ano de 2008 o autor passou a desempenhar funções no âmbito regional, desempenhando ações de apoio técnico na área de criações. Assim, o mesmo buscou a retomada das ações, num primeiro momento naqueles municípios que já vinham desenvolvendo o trabalho. O presente estudo tem como proposta descrever os avanços e benefícios oriundos desta prática em três municípios, Santa Maria, São Sepé e Santiago, onde os dados estão consolidados. Estes municípios pertencem ao Escritório Regional de Santa Maria, uma das regiões administrativas da EMATER/RS-ASCAR. Aliado a isto, o fato de o autor trabalhar no escritório regional e conhecer bem a região tornou possível o desenvolvimento desta pesquisa juntamente com o trabalho de rotina. A metodologia do estudo consiste no método de abordagem dedutivo, partindo da teoria revisada para explicar a realidade local dos produtores. Já o método de procedimento foi o monográfico. As técnicas de análise de dados usou de informações secundárias e primárias. As primeiras foram levantadas de instituições como o IBGE e ASCAR-EMARTER/RS. Já as informações primárias são das entrevistas feitas aos produtores através das visitas e coletadas pelo questionário não-estruturado. Nos municípios de Santa Maria, São Sepé e Santiago, há o predomínio de propriedades com até 200 hectares. Nesses municípios a EMATER/RS- ASCAR realiza um trabalho de melhoria genética dos rebanhos através de ações que facilitem o acesso dos pequenos proprietários na aquisição de reprodutores melhoradores. O exame dos dados obtidos ratifica resultados de outros trabalhos: que o mercado comprador de animais jovens (terneiros) busca a melhor qualidade, traduzida pelo padrão zootécnico dos animais e peso. Conclui-se ser o melhoramento genético, feito através do uso de reprodutores de qualidade superior, fundamental para as pequenas propriedades, na busca de maior facilidade de venda e valor dos animais jovens comercializados. Palavras-Chave: EMATER/RS-ASCAR. Pecuária. Pequenas Propriedades. Rio Grande do Sul.

7 5 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Grau de Escolaridade dos produtores entrevistados Figura 2: Percentual de propriedades por número de módulos fiscais Figura 3: Distribuição percentual dos estabelecimentos em hectares Figura 4: Atividades econômicas desenvolvidas nas propriedades pesquisadas Figura 5: Principais estruturas existentes nas propriedades consideradas Figura 6: Percentual de animais abatidos com presença de faciolose em Santa Maria Figura 7: Percentual de animais abatidos com presença de faciolose em São Sepé Figura 8: Percentual de animais abatidos com presença de faciolose em Santiago Figura 9: Período de entoure utilizado pelos produtores dos municípios pesquisados... 45

8 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Rebanho e Produção Animais no Brasil (1996 e 2006) Tabela 2: Comparativo da agricultura familiar e não familiar do RS, segundo o número de estabelecimentos destinados a pecuária e número de cabeças de gado existente... Tabela 3: Efetivo dos rebanhos (Cabeças) em estabelecimentos agropecuários, por tipo de rebanho no Rio Grande do Sul Tabela 4: Estrutura Fundiária dos municípios pesquisados Tabela 5: Evolução do efetivo dos rebanhos (Cabeças) nos municípios considerado Tabela 6: Evolução histórica dos rebanhos e das áreas das principais lavouras nos municípios considerados... 33

9 7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO DEFINIÇÃO DO PROBLEMA OBJETIVOS Objetivo Geral Objetivos Específicos JUSTIFICATIVA FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ASPECTOS HISTÓRICOS DA OCUPAÇÃO TERRITORIAL DO RIO GRANDE DO SUL CARACTERÍSTICAS E IMPORTÂNCIA DA PECUÁRIA ASPECTOS DO REBANHO BOVINO GAÚCHO Melhoramento Genético MÉTODOS E PROCEDIMENTOS DELINEAMENTO DA PESQUISA DEFINIÇÃO DOS MUNICÍPIOS UNIDADES DE ANÁLISE Santa Maria São Sepé Santiago TÉCNICAS DE ANÁLISE DE DADOS APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS CARACTERÍSITICAS AGROPECUÁRIAS DOS MUNICÍPIOS DE SANTA MARIA, SÃO SEPÉ E SANTIAGO ASPECTOS SOCIAIS DOS ENTREVISTADOS ASPECTOS FUNDIÁRIOS E DE PRODUÇÃO INFRA-ESTRUTURA BÁSICA E MEIOS PARA PRODUÇÃO SISTEMA DE PRODUÇÃO, ALIMENTAÇÃO E SANIDADE DOS ANIMAIS Controle do carrapato bovino nas propriedades consideradas Outras doenças de ocorrência registradas na pesquisa Intoxicação por Senécio brasiliensis (Maria mole) Ocorrência de Fascíola Hepática nestas propriedades MANEJO DA REPRODUÇÃO Período de entoure utilizado Aquisição de reprodutores PRINCIPAIS PRODUTOS DE VENDA E DIFICULDADES DOS PRODUTORES EXPECTATIVAS E PROBLEMAS DA PECUÁRIA DE CORTE CONCLUSÃO E SUGESTÕES REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APÊNDICE A ROTEIRO DE ENTREVISTA AOS PRODUTORES APÊNDICE B FOTOS GADO (REGISTROS DO AUTOR)... 59

10 8 1 INTRODUÇÃO A agricultura familiar é uma realidade do cenário agropastoril do Estado do Rio Grande do Sul. Os estabelecimentos dos agricultores familiares ocupam áreas de campo cujas dimensões chegam a até 300 hectares. Segundo Ribeiro (2003), 70% dessas propriedades tem até 100 hectares e os agricultores familiares são proprietários de um rebanho bovino na ordem de três milhões de cabeças, que se encontram dispersos nas diversas regiões do estado. Os principais produtos de venda dos agricultores familiares, especialmente daqueles que fazem o engorde de bovinos para venda ao abate (invernadores), são animais jovens, representados por terneiros desmamados ou de um ano de idade, novilhos de um ano e meio, e de vacas velhas ou que apresentem algum problema que as impossibilite para a reprodução, em alguns casos dependendo do ano realizam o engorde destes animais, principalmente das vacas de descarte. Em geral, os produtores possuem um pequeno número de animais que apresentam baixo padrão zootécnico, são desuniformes e de baixo peso. Essas características dos animais apresentadas, somadas ao fator da dificuldade de acesso ao mercado, ocasionam baixo valor de venda. A Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e de Extensão Rural (EMATER/RS-ASCAR), ao longo dos anos, trabalha no sentido de buscar uma melhoria dos padrões zootécnicos dos animais oriundos da pequena propriedade familiar. Os trabalhos iniciaram no ano de 2003 em alguns municípios da região central do Estado, próximos a cidade de Santa Maria. Para isso buscou-se levantar alternativas que viabilizassem o acesso dos produtores familiares ao uso de reprodutores de genética superior, chamados melhoradores. Como o trabalho realizado pela instituição envolve muitos atores, tais como os extensionistas rurais, entidades de classe, prefeituras e fornecedores (representados por fazendeiro e cabanheiros), os resultados são lentos e necessita de ações continuadas. Por diversas razões este trabalho não teve continuidade. A partir do ano de 2008 o autor passou a desempenhar funções no âmbito regional, desempenhando ações de apoio técnico na área de criações. Assim, o mesmo buscou a retomada das ações, num primeiro momento naqueles municípios que já vinham desenvolvendo o trabalho. O presente estudo tem como proposta descrever os avanços e benefícios oriundos desta prática em três municípios, Santa Maria, São Sepé e Santiago, onde os dados estão

11 9 consolidados. Estes municípios pertencem ao Escritório Regional de Santa Maria, uma das regiões administrativas da EMATER/RS-ASCAR. Aliado a isto, o fato de o autor trabalhar no escritório regional e conhecer bem a região tornou possível o desenvolvimento desta pesquisa juntamente com o trabalho de rotina. Para um bom entendimento da questão objeto da pesquisa, primeiramente são apresentados o problema (seção 1.1), os objetivos (seção 1.2) e a justificativa do estudo (seção 1.3). Posteriormente (seção 2), é traçada uma linha de tempo com uma resumida descrição da história da ocupação do estado e o conseqüente desenvolvimento da região. Além disso, são apresentadas a metodologia empregada (seção 3) e a sistematização das informações geradas pelo instrumento de pesquisa (seção 4). Por fim, a seção 5 mostra as conclusões dos resultados obtidos e as sugestões de ações a nível regional na busca da qualificação dos bovinos oriundos das criações das pequenas propriedades rurais do Rio Grande do Sul. 1.1 DEFINIÇÃO DO PROBLEMA O Brasil possui hoje o maior rebanho bovino comercial do mundo. Segundo dados do IBGE (2008), são duzentos e oito milhões de cabeças. O país está entre os mais competitivos na produção de carne bovina, tendo atingida a fantástica marca de dois milhões de toneladas de carne exportadas para mais de uma centena de países. Conforme afirmam Barcellos et al. (2005), a pecuária brasileira era caracterizada pelo atraso, resistência às inovações tecnológicas e gestão arcaica, o que marcou negativamente a atividade por várias décadas. Segundo os autores, a estagnação da pecuária deve-se ao fato do efetivo bovino ter sido o principal instrumento de consolidação das fronteiras agrícolas do país, baseado no modelo de exploração extensiva e alicerçada no grande fluxo do fator terra. Porém, nos últimos anos essa situação mudou drasticamente. É possível observar grandes avanços na produção e em produtividade, através da incorporação de novas tecnologias, aumento do efetivo dos rebanhos em função da ampliação das fronteiras agrícolas no centro-oeste e norte, colocando o país em posição de destaque como detentor do maior rebanho bovino do mundo e um dos maiores exportadores de proteína animal.

12 10 Houve com certeza um processo de profissionalização da atividade, através de novos métodos de gestão, melhoria genética dos rebanhos adoção de novas tecnologias de alimentação e sanidade. Embora constatado isso, não se tem verificado uma melhor remuneração pelo quilo do boi ao produtor rural, ou seja, as melhorias das margens econômicas não se refletem dentro da porteira. Dentre os fatores possíveis para esta situação, Barcellos et al. (2005) citam as questões sanitárias dos rebanhos como impeditivas de alcançar melhores mercados internacionais, a centralização dos abates em poucas plantas processadoras e concentração no varejo e a falta de coordenação da cadeia produtiva. Sugerem, em seu estudo, que a melhor remuneração do produtor passa obrigatoriamente por uma visão mais ampla de toda cadeia produtiva, ou seja, da percepção do que o consumidor busca em termos de características e requisitos de qualidade, que deverão ser levados em consideração. Isto de certa forma se reflete no produtor de terneiros, sendo de fundamental importância conhecer a preferência dos recriadores ou terminadores. Como esta decisão afeta ao criador, este deverá buscar saber quais os requisitos são mais bem remunerados, pois os preços pagos são determinados por uma série de características, as quais na maioria das vezes estão sob o controle da cria e de seu sistema de produção. Ainda, segundo Barcellos et al. (2005, p. 15), A capacidade de produzir um bezerro, vaca, novilho ou touro com graus de especificação diferentes, o novo, descomiditizando a produção, é considerado um ativo do conhecimento. [...] Assim, produzir bezerros com o mesmo peso na hora da venda, touros com o mesmo padrão fenotípico, novilhos com a mesma conformação é produzir diferente. Que este novo não obrigatoriamente deva ser superior ao convencional, mas que apresente características que atendam desejos ou necessidades específicas do consumidor. Na mesma linha, Faria et al. (2008), dizem que se espera que em breve, a garantia de qualidade já não será um diferencial, mas uma condição básica para manter espaço para o produto no mercado e que para o atingimento desse objetivo é necessária a adoção de programas de seleção e melhoramento para a qualidade da carcaça. Ratifica que há a necessidade de conhecimento estratégico do mercado, atuando nos problemas fora da porteira. Silva et al. (2004, p. 6) argumentam que atualmente, os frigoríficos procuram animais mais padronizados, ou seja, de peso, conformação e padrão racial semelhantes, tendo como conseqüência melhor uniformidade de carcaça para a indústria, facilitando os processos na linha de abate e

13 11 possibilitando atender as exigências de qualidade do mercado [...] a procura por animais padronizados afeta diretamente os criadores, induzindo-os a um melhoramento da criação, para obtenção de produtos dentro dos padrões exigidos, sendo melhor remunerados por isto. Na mesma linha, Christofari et al. (2010), dizem que independente do sistema de produção adotado, o uso de informações e o conhecimento do mercado podem ter importante efeito no resultado do negócio, principalmente no mercado de terneiros onde a falta de uniformidade dos animais especialmente pelos diferentes pesos, tem-se observado grande variação nos preços praticados entre um ou outro tipo de animal. Faria et al. (2008), dizem que face o aumento potencial da demanda por carne bovina e a necessidade de uma pecuária eficiente exigem que os produtores ofereçam ao consumidor final um produto de boa qualidade e com baixo custo. Salientam a importância de trabalhar com animais geneticamente superiores com o intuito de atender o complexo sistema de produção de carne de qualidade (FARIA et al., 2008, p.1). Os dados do Censo Agropecuário (IBGE, 2006) mostram que no estado do Rio Grande do Sul existem estabelecimentos definidos como familiares, de acordo com a Lei (BRASIL, 2006), que ocupam uma área de hectares. Do total de estabelecimentos mencionados, possuem bovinos de corte, onde são criados de cabeças, representando quase trinta e cinco por cento do rebanho bovino gaúcho atual. A bovinocultura representa a maior fonte de renda para uma parcela significativa de pecuaristas familiares do sul do Estado e que em geral, se desenvolve em áreas com menos de 300 hectares, baseando-se na utilização quase exclusiva do campo nativo, tendo baixo nível de incorporação tecnológica e capacidade de investimento (RIBEIRO, 2003). Os agricultores familiares gaúchos possuem rebanhos com baixas taxas de produtividade e animais de padrão zootécnico inferior, decorrente do uso de reprodutores de baixa qualidade, por conseqüência, de baixo valor comercial. Comercializam animais jovens, como terneiros, animais de sobre ano e vacas de descarte, abastecendo produtores invernadores (RIBEIRO, 2003; LUIZELLI, 2001; LASKE, 2010; CARDOSO et al., 2009). Esta situação foi agravada nas décadas de 80 e 90 pela crise da ovinocultura, onde a produção de lã era capaz de custear todas as necessidades do estabelecimento rural, (MIRANDA, 2004). Todos esses fatores contribuíram para o empobrecimento das famílias, resultando na

14 12 baixa qualidade de vida das mesmas. Sua importância reside no fato de que as propriedades com até 100 hectares representarem cerca de 70% do total das propriedades da região, sendo em sua grande maioria pecuaristas (RIBEIRO, 2003). Portanto, se consideramos este universo de produtores que possuem enquadramento no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), considerados por política pública e, somados àqueles detentores de áreas de até 300 hectares, verificamos ser este um público extremamente relevante em termos de dimensões e peso de sua atividade para a economia do Estado. Assim, busca-se verificar se a melhoria genética dos rebanhos gerados pela introdução de reprodutores melhoradores em pequenas propriedades nos municípios de Santa Maria, São Sepé e Santiago-RS gera benefícios aos agricultores familiares. 1.2 OBJETIVOS Objetivo Geral O objetivo principal consiste em verificar se a melhoria genética dos rebanhos de pequenas propriedades, com a introdução de touros denominados melhoradores, gera benefícios aos produtores rurais nos municípios de Santiago, Santa Maria e São Sepé-RS Objetivos Específicos Revisar a literatura sobre a ocupação territorial e o início das atividades agropastoris no estado do Rio Grande do Sul; Apresentar algumas características do rebanho bovino no estado; Levantar informações para verificar se as dificuldades de inserção destes produtores no mercado de animais se devem ao baixo padrão e indefinição racial de seus rebanhos.

15 13 Descrever dados que permitam quantificar o potencial dos pecuaristas familiares nos municípios de Santa Maria, São Sepé e Santiago. Analisar os resultados de melhoria do padrão racial dos rebanhos, nas pequenas propriedades familiares, após a introdução de reprodutores de raças definidas, denominados touros melhoradores. Gerar informações para os pequenos proprietários rurais sobre os benefícios de fazer uso deste tipo de reprodutores. 1.3 JUSTIFICATIVA Existem mais de quarenta mil pecuaristas familiares no Rio Grande do Sul, sendo proprietários de aproximadamente três milhões de bovinos (EMATER/RS-ASCAR, 2004). A bovinocultura de corte representa a maior fonte de renda para esta parcela de produtores rurais, que no geral se desenvolve em áreas com menos de 300 hectares. Para a produção, esses agricultores, utilizam quase exclusivamente do campo nativo, têm baixo nível de incorporação tecnológica e capacidade de investimento e, por consequência, obtêm baixas taxas de produtividade e animais de padrão zootécnico inferior, baixo valor comercial (RIBEIRO, 2003; LUIZELLI, 2001; LASKE, 2010; CARDOSO et al., 2009). Esses fatores contribuíram para o empobrecimento dessas pessoas e suas famílias. As entidades de classe que os representam como os Sindicatos Rurais, a Federação Estadual dos Trabalhadores da Agricultura (FETAG) e mais recentemente o governo do estado, através da criação do Programa Estruturante para o Desenvolvimento da Pecuária Familiar, percebem a importância e necessidade de elaborar políticas públicas para o atendimento deste público e o que eles representam em termos de produção animal no RS. A EMATER/RS-ASCAR, como entidade promotora do desenvolvimento rural, através dos diagnósticos já realizados por diversos de seus extensionistas, bem como do resultado de alguns trabalhos práticos, destaca a importância e urgência de se promover a esses grupos o acesso a políticas públicas como instrumentos de promoção de um desenvolvimento sustentável e que resulte em uma melhor qualidade de vida às suas famílias. O aumento potencial da demanda por carne bovina e a necessidade de uma pecuária eficiente, exigem que os produtores ofereçam ao consumidor final um produto de boa

16 14 qualidade com baixo custo. Para que esta demanda seja atendida, é necessário trabalhar com animais geneticamente superiores principalmente para as características relativas à qualidade de carcaça (FARIA et al., 2008). A importância do presente tema, objeto desta pesquisa, consiste na constatação de que o uso de reprodutores de baixa qualidade genética pelos produtores familiares resulta na produção de animais de padrão zootécnico inferior e de baixo valor comercial. Busca-se, com este trabalho, gerar informações importantes para que os produtores possam melhorar a qualidade dos animais produzidos e, portanto, aumentar sua renda.

17 15 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Nesta seção discute-se como se deu a ocupação territorial do estado do Rio Grande do Sul e início da criação de gado (subseção 2.1), são apresentadas características e importância da pecuária (subseção 2.1) e aspectos do gado gaúcho (subseção 2.3). 2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS DA OCUPAÇÃO TERRITORIAL DO RIO GRANDE DO SUL O estado do Rio Grande do Sul era habitado, até o início do século XVII, por indígenas, originários de três grupos: guaranis, charruas e guianas, que viviam da caça e de uma agricultura incipiente. O panorama da região passou a ser alterado com a vinda dos padres jesuítas, representantes da coroa espanhola, pois, na época, com a vigência do Tratado de Tordesilhas (1496), todo território gaúcho pertencia à Espanha (SEHN; ILHA, 2000). Fatores como a criação da 1ª Missão dos padres jesuítas com o propósito de catequizar seus habitantes na margem esquerda do Rio Uruguai, a criação de São Nicolau em 1626 e a introdução de cerca de bovinos no ano de 1634, pelo padre Cristóvão de Mendoza (para a instalação das 18 estâncias missioneiras), deram início a um sistema de exploração de terras no estado gaúcho. Esse sistema de exploração até hoje é a base que sustenta um grande número de famílias que vivem especialmente na chamada metade sul do território e nos Campos de Cima da Serra. Logo após a introdução dos bovinos, os jesuítas abandonam a margem esquerda do Rio Uruguai, somente retornando em 1682, onde criaram os chamados Sete Povos das Missões : São Francisco de Borja (1686), São Nicolau (1687), São Miguel Arcanjo (a capital, em 1687), São Luiz Gonzaga (1687), São Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697) e Santo Ângelo Custódio (1706) (SEHN; ILHA 2000; FORTES, 1981 apud BRUM, 2007). Entre a introdução do gado no RS e o retorno dos jesuítas, os bovinos se expandiram pelo atual território gaúcho, demonstrando uma grande adaptação às condições climáticas e ambientais encontradas. Com a volta dos missionários, ressurgem as estâncias jesuíticas, que procuram domesticar e explorar a criação de bovinos especialmente para se valer do

18 16 couro e da carne produzidos abundantemente por animais que já eram resultado de uma seleção natural imposta pelo ambiente. A expulsão dos jesuítas e o fim dos Sete Povos, em 1756, e a subseqüente luta entre espanhóis e portugueses por grande parte do território rio-grandense, que durou até os primeiros anos do século XIX, proporcionaram novamente condições para a expansão sem controle dos bovinos na região. Tendo como único critério de sobrevivência a capacidade de adaptação às condições de alimentação e clima, os bovinos continuaram aumentando expressivamente. Para o gaúcho que vagava pelos campos abertos deste tempo, onde a terra e o gado pertenciam a todos, a presença do gado foi um componente fundamental na formação da ocupação do território. Usava de animais como o cavalo para realizar o seu trabalho com os rebanhos. Isso lhe deu características que, atenuadas pelo tempo, até hoje estão presentes no homem que lida com o gado, como o gosto pelo cavalo e o apego à liberdade e aos grandes espaços (MIRANDA, 2004). Em sua formação histórica, o Rio Grande do Sul era o único território do Império do Brasil que rivalizava com Argentina, Uruguai e o Paraguai, tanto em termos políticos e militares, como econômicos. Nesse sentido, sua formação distinguiu-se dos demais estados do país, em função de ocupar um território fronteiriço, marcado por inúmeros conflitos entre as regiões ocupadas pelas Colônias dos impérios portugueses e espanhóis. Os conflitos deram-se, fundamentalmente em detrimento das planícies e do gado, o que acarretou a estruturação tardia da sociedade gaúcha da fronteira definiu-se somente ao longo do século XIX (TARGA, 1996b apud AREND; CÁRIO, 2005). Dessa forma, o clima recorrente de guerra fez com que a defesa das fronteiras contasse com os estancieiros, que eram líderes militares locais, e com peões, que acumulavam a atividade de soldados. Segundo Décio Freitas (apud AREND; CARIO, 2005, p.70), os estancieiros eram empresário-guerreiros, e o RS foi a única porção do território brasileiro conquistada pelos próprios moradores através de guerras contra uma potência européia. Com a definição de nossos atuais limites, a partir de 1801, o povoamento deu-se através das concessões de sesmarias (correspondiam a ha), em troca da defesa das fronteiras contra eventuais invasões. Economicamente, a manutenção destes espaços e a defesa militar do território foi viabilizada pela presença do bovino, que produzia o couro e a

19 17 carne, o primeiro produto era usado como abrigo e o segundo que alimentava os ocupantes do território (MIRANDA, 2004). 2.2 CARACTERÍSTICAS E IMPORTÂNCIA DA PECUÁRIA Portanto, devido à ocupação histórica e por suas características ambientais, o Rio Grande do Sul teve e tem, na pecuária de corte extensiva, grande importância econômica, social e cultural. A verdadeira ocupação das terras ocorreu com a distribuição de sesmarias aos heróis de inúmeras guerras e revoluções ocorridas no estado, dando origem às grandes estâncias (RIBEIRO, 2003; AREND; CÁRIO, 2005). Posteriormente, ocorreram inúmeras modificações, das sesmarias restaram os registros históricos. Através das gerações que se sucederam nestes pouco mais de 200 anos. Os campos foram cercados, as propriedades se dividiram e reduziram de tamanho, por partilha e pela introdução mais recente da agricultura. Segundo Ribeiro (2003, p. 8-9), embora ainda existam grandes propriedades, estas mudanças provocaram a formação de um contingente de produtores rurais que, apesar de terem áreas menores, continuaram com a criação de gado de corte como a sua principal atividade econômica. Conforme o autor, na chamada metade Sul existem os pequenos produtores que, se comparados com os considerados pequenos da metade norte, são grandes. Ou seja, o que é grande para o Norte é pequeno para o Sul. Criou-se, e permanece até hoje, a idéia de que não há pequenos produtores na região Sul, muito menos agricultores familiares, e por isso não há necessidade de programas e políticas públicas para esse público que não existe. Estudos e diagnósticos realizados recentemente, tanto no âmbito acadêmico como institucional (EMATER/RS-ASCAR, 2001; RIBEIRO, 2009; LUIZELLI, 2001; TORRES; MIGUEL, 2003), revelaram a existência de um número significativo de produtores rurais de cunho familiar que ocupam superfícies agrícolas relativamente extensas, alcançando na maior parte até 300 hectares.

20 18 Estudos da EMBRAPA Pecuária Sul, em Bagé, indicam que a criação de bovinos de corte praticada de forma extensiva, como no RS, não gera renda suficiente para a reprodução econômica e social destes produtores (MIRANDA, 2004). Embora o senso comum identifique a Metade Sul como uma região constituída, do ponto de vista agrário, apenas por grandes propriedades rurais, em sua pesquisa, Ribeiro (2003), detectou que 70% dos estabelecimentos da região têm até cem hectares. Diversos autores (RIBEIRO, 2003; 2009; LUIZELLI, 2001; TORRES; MIGUEL, 2003), apresentam definições que permitem melhor compreender o que significa a unidade de produção familiar ou a chamada agricultura familiar, na qual também se insere aqui chamada pecuária familiar. Todos abordam a agricultura familiar com um modo peculiar de exploração da terra, ou seja, que possui formas de condução das atividades e da vida na unidade de produção, ligadas à lógica da reprodução e sobrevivência da família (MIRANDA, 2004). A pecuária familiar surgiu da divisão das grandes estâncias, por herança ou pela aquisição de pequenas áreas (TORRES; MIGUEL, 2003). Segundo Lamarche (1993 apud LASKE, 2010, p. 10), pecuária familiar se define como uma unidade de produção agropecuária onde a propriedade e o trabalho estão intimamente ligados à família. Ribeiro (2003) estima que 80% das propriedades com até 300 hectares da Campanha se enquadrem na chamada pecuária familiar. O pecuarista familiar pode ser definido como aquele que tem a pecuária bovina, ovina ou caprina como preponderante na apuração da renda e na exploração da área (BRASIL, 2003). Possui rebanhos com baixas taxas de produtividade e animais de padrão zootécnico inferior, por conseqüência, de baixo valor comercial, (RIBEIRO, 2003; LUIZELLI, 2001) decorrente do uso de reprodutores de baixa qualidade genotípica, muitas vezes trocada com vizinhos ou pela utilização de reprodutores do próprio gado (LASKE, 2010). Comercializam animais jovens como terneiros, animais de sobre ano e vacas de descarte (CARDOSO et al., 2009). Segundo Gonçalves e Souza (2005 apud TINOCO, 2008, p. 01), na Legislação Brasileira a definição de propriedade familiar consta no inciso II do artigo 4º do Estatuto da Terra, estabelecido pela Lei Nº de 30 de novembro de 1964 com a seguinte redação: propriedade familiar o imóvel que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso

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