CULTURA OU FERRAMENTA: O DILEMA DA APROPRIAÇÃO QUE OS PROFESSORES FAZEM NO USO DA TECNOLOGIA

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1 CULTURA OU FERRAMENTA: O DILEMA DA APROPRIAÇÃO QUE OS PROFESSORES FAZEM NO USO DA TECNOLOGIA Aluna: Tatiana de Alemar Rios Orientador: Magda Pischetola Introdução A partir do estudo realizado pelo Grupo de Pesquisa em Formação docente e tecnologia (FORTEC, 205), da PUC-Rio - que investiga os desafios à sustentabilidade dos programas de inclusão nas atividades pedagógicas desenvolvidas por oito escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro - observamos que, de modo geral, essas instituições demonstram alguma preocupação na inclusão de tecnologias, disponibilizando recursos e programações que buscam a acessibilidade. Entretanto, a perspectiva cultural não é priorizada. De acordo com Demo (996). há uma necessidade de questionar o pressuposto de que as TIC inserem-se facilmente no âmbito escolar e aprofundar o discurso sobre as competências necessárias a serem desenvolvidas pelos professores para um uso significativo da tecnologia na sala de aula. Competências relacionadas não apenas com os aspectos técnicos de uso da tecnologia, mas com as metodologias, as práticas de ensino, o uso criativo e significativo das ferramentas, Isso nos leva diretamente a uma escolha decisiva, ou seja, pesquisar o que está sendo feito e potencializar os espaços de formação e de troca mutua, a partir de uma abordagem que reúne os mundos do ensino e da aprendizagem, e que alimenta a investigação e reflexão crítica sobre as modalidades de ensino (FORTEC, 205). Sendo assim a motivação para esta vertente da pesquisa do FORTEC surgiu da preocupação em entender como a escola interpreta a cultura atual dos jovens e a forma com que lidam com as mídias, assim como seu crescente interesse em incorporar as tecnologias à sua rotina. Ou seja, entender de que forma os professores utilizam as mídias para, mais que motivar seus alunos, provocar seu senso crítico e consciente na utilização da ferramenta. Objetivos A pesquisa visa aprofundar as questões relativas à integração de mídias e tecnologias digitais na prática didática dos professores de escolas municipais Rivadavia Correia e CIEP Agostinho Neto, e tem como objetivo entender qual o principal interesse dos professores ao utilizarem mídias no contexto escolar com base em dois eixos: ) Conhecer, analisar e avaliar as estratégias que possibilitam a sustentabilidade econômica e cultural do projeto no médio e longo prazo, e mais particularmente: Os conhecimentos, as competências e os entendimentos sobre mídias e tecnologias e sua relação com a escola. O significado dos aspectos sociais da aprendizagem mediada por TIC na sala de aula.

2 As necessidades de apoio em termos de formação metodológica e assistência técnica. As oportunidades que os professores têm para aprimorar sua formação para o uso da tecnologia ao longo da sua carreira. O papel dos coordenadores pedagógicos e dos diretores em relação ao projeto desenvolvido na escola. 2) Conhecer e analisar as práticas de ensino, a fim de formular propostas de formação de professores, com o objetivo de atuar como formadores na parte final de nossa pesquisa, contribuindo com o desenvolvimento das realidades pesquisadas. Objetivos específicos são: Conhecer e analisar a visão dos professores sobre suas práticas de ensino com a tecnologia. Conhecer as condições de que efetivamente os professores dispõem em suas escolas para realizar atividades significativas com uso de tecnologia. Identificar as características da formação que os professores receberam e o seu conhecimento das tecnologias. Identificar se as TIC são contempladas como recursos pedagógicos no planejamento escolar. Analisar as principais dificuldades apontadas pelos professores para o uso efetivo das tecnologias em sala de aula. Analisar se o projeto político-pedagógico de cada escola aponta, valoriza e encaminha ações de formação para o uso das tecnologias em sala de aula. Formular propostas de formação metodológica para os professores, como apoio a sua prática pedagógica. Nessa perspectiva, propõe-se uma reflexão sobre a ação docente que possibilite, a partir dessas observações, a formulação de propostas para a formação de professores, para desenvolver o capital humano e valorizar o capital social nas realidades escolares pesquisadas. Por isso, a pesquisa caracteriza-se como pesquisa-ação (DEMO, 996; ELLIOTT, 2000, ENGEL, 2000). Metodologia Para a coleta de dados foi utilizada uma abordagem qualitativa com uso de distintos instrumentos metodológicos: observações de campo nas escolas escolas municipais que foram indicadas pela própria SME por sua relevância no âmbito de projetos que envolvessem diferentes tipos de mídias e tecnologias, seu uso interdisciplinar e o aspecto da continuidade do projeto no tempo e entrevistas individuais

3 Aliado a isso seguindo o caminho indicado por Pedro Demo (996) propõe-se adotar uma metodologia de pesquisa-ação, apontando a formação de professores na última etapa do trabalho que será realizada a partir do segundo semestre do ano de 205. A característica principal da pesquisa-ação é a possibilidade de, por meio dela, intervir concretamente e de modo inovador no contexto durante o próprio processo de pesquisa e não apenas como possível consequência de uma recomendação final (ELLIOTT, 2000; ENGEL, 2000). Na área educacional, esta metodologia adquire um valor adicional, devido à possibilidade de gerar uma reflexão sobre os complexos intercâmbios em situações práticas da sala de aula e afetar, em alguma medida, os processos de desenvolvimento profissional dos professores. Resultado Parcial A primeira fase da pesquisa foi realizada por meio dos seguintes procedimentos: a) Elaboração metodológica do projeto e formulação dos instrumentos de pesquisa. - Pauta de entrevista para gestão e para os professores. - Planejamento dos roteiros de observação; b) Entrevistas individuais com professores das escolas com o objetivo de aprofundar as questões relacionadas a forma com que as escolas se apropriam das mídias. c) Observação da gestão e dos professores em diferentes turmas das escolas selecionadas, com o objetivo de observar o incentivo e a prática docente com o uso das mídias; Cronograma de Execução Planejamento das atividades realizadas no grupo FORTEC considerando o desenvolvimento da pesquisa em 24 meses: Atividades Meses Discussão do plano de pesquisa com outros pesquisadores ANO I Formação e integração da equipe de pesquisa Busca da bibliografia relevante Revisão da bibliografia levantada Contato com o campo (8 a 0 escolas municipais e 2 a 4 escolas estaduais). Levantamento e análise de documentos sobre o campo Elaboração dos instrumentos de pesquisa: roteiro de observação, questionário (alunos), entrevistas (diretores/coordenadores) e grupos focais (professores) Observação participante periódica na sala de aula. Período de entrevistas com diretores/coordenadores

4 Atividades Discussão do plano de pesquisa com outros pesquisadores Meses ANO II Formação e integração da equipe de pesquisa Busca da bibliografia relevante Revisão da bibliografia levantada Contato com o campo (8 a 0 escolas municipais e 2 a 4 escolas estaduais). Levantamento e análise de documentos sobre o campo Elaboração dos instrumentos de pesquisa: roteiro de observação, questionário (alunos), entrevistas (diretores/coordenadores) e grupos focais (professores) Observação participante periódica na sala de aula. Subministração de questionário aos alunos Período de entrevistas com diretores/coordenadores Período de grupos focais com os professores Construção das categorias de análise Análise dos dados coletados Elaboração de relatório parcial baseado na análise preliminar dos dados coletados Preparação das atividades de formação Desenvolvimento das atividades de formação Elaboração do relatório final Com o material das 6 entrevistas, realizadas nas escolas municipais Rivadavia Correia e Ciep Agostinho Neto, transcrito e as observações em andamento foi possível dar início a análise de dados e estabelecer as primeiras impressões. Para tentar entender como os professores se apropriam das mídias no contexto escolar recorri destaquei a primeira pergunta da entrevista, Qual é a relação entre mídia e a escola? para elucidar o pensamento dos docentes a respeito desta relação. Sendo assim, transcrevo pedaços das entrevistas que me ajudaram a compreender a ideia que estes professores tem sobre a função da mídia na educação. - Favorecer a escolarização dos alunos, acho que essa é a principal relação. 2- Para mim é a relação entre mídia com tudo, né? Porque a mídia permeia escola, família, sociedade. As crianças estão imersas nisso então eu acho que não tem como separar muito uma coisa de outra. Eu acho que mídia é mais um recurso que a gente pode usar para trazer a realidade deles para dentro da

5 escola e ajudar a gente no andamento do nosso dia a dia, do nosso conteúdo, em tudo pode ser usado. 3- Eu acho que a escola assim como a mídia, ela é produtora de cultura, então as crianças estão inseridas na cultura aqui da escola, a mídia traz muita coisa para elas e não tem como a escola fugir do que a mídia traz, a gente quer entrar em uma cultura escolar em que as crianças ajam daquela forma como a gente acha que tem que ser, mas a gente não pode fugir daquilo que faz parte do dia a dia delas e a mídia hoje está muito presente. E eu acho que na escola a gente têm que ajudar as crianças a ter um olhar crítico sobre a mídia, pra elas se darem conta do que a mídia está dizendo para elas, e daquilo ali, o que elas podem aproveitar ou não, e que elas tenham consciência do que é que a mídia está dizendo e do que realmente é, para que elas passam a olhar o mundo com outros olhos, se não elas acabam olhando o mundo só com os olhos através mídia.[...]e eu acho que nosso papel é esse, de questionar, para que eles possam olhar.[...]eu acho que é uma cultura. Na nossa sociedade hoje, ela é uma ferramenta, mas ela também faz parte da cultura, porque as crianças de hoje, não conheceram o mundo sem a informação em tempo real, o mundo para elas é em tempo real, o mundo para elas é globalizado, então elas não conseguem imaginar, como seria o mundo sem isso, porque elas cresceram no mundo onde aconteceu um negócio do outro lado do mundo e você já está sabendo na mesma hora. A estrutura mental deles se forma de uma forma completamente diferente, na minha opinião. [...]É eu tenho usado como apoio mas eu gostaria de usar de uma forma que as crianças pudessem usar junto mas a gente esbarra um pouco na infraestrutura. 4- Olha, no momento, a gente nem têm. Na sala de aula eu nem tenho ainda esta relação. A tecnologia é um suporte, não é um projeto que esteja trabalhando comigo ali juntinho 5- Olha, eu acho que é importante que exista. Nem sempre a gente consegue aplicar. Nem sempre a gente consegue colocar isso na prática, mas ela é importante que exista sim. Para o aluno sempre facilita. Qualquer mecanismo que você traga, novo, para o aluno é sempre um facilitador da aprendizagem. 6- Eu acho que chama atenção. Facilita a aprendizagem. Eu acho que a gente pode ter um relação muito boa com a tecnologia em sala de aula. Eu gosto muito de usar televisão. Quando o material não vem com DVD eu gosto de baixar vídeos em Inglês, que tenha a ver com que eles estão aprendendo. Isso é sempre uma motivação a mais. Uma forma de fixar o conteúdo, de motivar para introduzir um conteúdo novo. Eu gosto também de usar o Datashow. 7- É sempre uma grande ferramenta. Tem muito a acrescentar nos trabalhos. 8- Para mim é muito importante. Porque eu sou professora de Inglês, né? Eu tenho que estar sempre usando um áudio. Se eu puder usar o vídeo também ajuda, né. 9- Para mim acho que atualmente é muito importante, na verdade é um dos elementos que faz com que a aula seja estimulante para os alunos. Eu acho que hoje em dia ter uma aula sem qualquer tipo de mídia é muito complicado para os alunos atuais, pois eles são muito ligados a tecnologia, eles trazem celulares, eles usam o tempo todo, então seria estranho não atualizar a sala de aula também, e a parte da modernidade é uma atualização na minha opinião. 0- para mim a mídia sempre foi uma ferramenta. E têm vários outros professores que sei que utilizam. - Como material didático mesmo. Material de apoio. Você tem tanto os vídeos que são divulgados pela prefeitura pra gente. Vídeos divulgados, no caderno de orientações. Como a pesquisa que você faz. É possível encontrar vários materiais de

6 vídeos, áudios. Que você usa, na aula, dentro do seu planejamento. Tem que estar dentro do seu planejamento. 2- é a maneira que eu encontrei de aproximá-los dos temas que eu trabalho, transversais a outras matérias. 3- Eu trago o meu computador, sintonizado no telão que a gente têm. A gente têm o Datashow para eles irem vendo aos poucos. 4- Mídia de uma forma geral, é isso? Televisão, internet, datashow...bom, eu acho muito bom, porque facilita o trabalho do professor demais. Eu não sei, por exemplo, mais dar aula de cuspe e giz. Eu não sei. Sento na minha sala e todas minhas aulas são projetadas na tela, no quadro. Não sei mais fazer esse tipo de trabalho. Eu acho muito importante porque facilita muito a gente. Por outro lado, teoricamente, era para despertar maior interesse no aluno. Mas efetivamente não desperta, porque aquilo que está ali não interessa a eles. Você pode usar mídias diferentes, mas aquilo que está ali não interessa a eles. Em outras palavras, você pode se vestir de ----Miranda, dançar o Babalu, que se aquele assunto não os interessar, e efetivamente não os interessa o saber acadêmico não interessa ao aluno ele não vai estar interessado. 5- Eu acho que tem muito a ver com o mundo que a gente vive. As modificações que a gente sofreu no mundo estão meio que entrando nas modificações que a gente tem que fazer na escola. Eu acho que essa mudança na sala de aula está começando a ser feita agora, meio que dando os primeiros passos.(cara triste). É... meio que já tivemos um avanço nisso, mas ainda é um tabu para alguns professores, algumas escolas, de um modo geral. Eu acredito. 6- Eu acho que a mídia é um dos mecanismos para trazer o aluno. De incentivo para esse aluno... Eu não sei se é a única, mas eu acho que é a principal. Na minha opinião. Com a seleção desses apontamentos, aliada as observações feitas nas instituições mencionadas, pude perceber que dos 8 professores entrevistados, 0 encaram a mídia como ferramenta e 5 percebem que se trata de uma cultura mas na prática utilizam-na apenas como ferramenta. Apenas dois tratam a mídia como cultura em sua prática. Análise parcial das observaçoes e entrevistas feitas com os professores Professores que encaram as midias como ferrementa. Professores que encaram as mídias como cultura Professores que reconhecem a mídia como cultura mas na prática, a utilizam com ferramenta.

7 O gráfico acima foi baseado na análise dos dados obtidos nas entrevistas individuais e nas observações realizadas em ambas as escolas deixando forte indício de que os educadores priorizam a utilização das mídias como ferramenta, deixando em segundo plano o aspecto cultural e as discussões sobre os temas trazidos pelos alunos. A maioria dos entrevistados afirma que os jovens já conhecem a tecnologia, e são capazes de utilizá-la com facilidade. Porém, os professores e gestores alegam, que os alunos não sabem fazer uso adequado dos instrumentos de busca e conteúdo, proporcionados pelas TICs, demonstrando assim a carência da perspectiva cultural. Muitos Professores não se sentem responsabilizados por ensinar aos jovens a fazer seleção de conteúdo e utilizar a internet, atribuindo apenas a família a responsabilidade por tal tarefa. Esquecendo que educação é uma forma de intervenção no mundo que implica tanto o esforço de reprodução e utilização da ferramenta tecnológica, quanto o seu desmascaramento através de questionamentos e debates a respeito do que esta sendo reproduzido culturalmente (FREIRE, 205). A pesquisa feita até aqui confirmou a necessidade de destacar no processo de formação de professores, que será realizado na segunda etapa da pesquisa-ação, debates e conscientização dos envolvidos à respeito da importância da apropriação da tecnologia sob uma ótica mais cultural e menos funcional. Essas atividades serão executadas ao longo do segundo semestre de 205, por todos os membros do FORTEC juntamente com duas professoras do Ciep Agostinho Neto que no decorrer da pesquisa se juntaram ao grupo tornando-se bolsistas da FAPERJ. Sendo assim, de acordo com a proposta do Fortec, confirma-se a necessidade propor atividades de formação docente para o fortalecimento do capital humano e valorização do capital social. Com atividades focadas nas etapas que envolvam a participação dos professores no planejamento, no desenvolvimento e na avaliação das estratégias de mudança, em relação ao conceito de inclusão digital e à integração das TIC na metodologia didática. Propõe-se, então, valorizar os espaços de questionamento mútuo entre professor e aluno, alimentando a reflexão crítica sobre o ensino e ao mesmo tempo conscientizando o aluno. Com essa proposta pensamos trabalhar um conceito de inclusão digital em que a prática se converte no meio adequado para a própria transformação das condições que a limitam. Nessa perspectiva, podem ser pensadas atividades de formação docente em sala de aula, junto aos alunos.

8 Referências [] DEMO, P. Educar pela pesquisa. São Paulo: Autores Associados, 996. [2] ELLIOTT, J. Recolocando a pesquisa-ação em seu lugar original e próprio. In: GERALDI, ENGEL, G. I. Pesquisa-ação. Educar. Curitiba: Editora da UFPR, n. 6, 2000, pp [3] FREIRE, P. A pedagogia da autonomia - saberes necessários à pratica educativa, 50 ed. Rio de Janeiro e São Paulo: Paz e Terra, 205. [4] PISCHETOLA, M. Desafios à sustentabilidade dos programas de inclusão digital para a educação básica: Formação de professores e apoio à pratica pedagógica. Disponível em: Acesso em: 29 jun. 205

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