Relações dialógicas entre professor e aluno na sala de aula a partir das contribuições de Paulo Freire

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE METODOLOGIA DE ENSINO Relações dialógicas entre professor e aluno na sala de aula a partir das contribuições de Paulo Freire Renata Paschoalino RA: São Carlos 2009

2 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE METODOLOGIA DE ENSINO Relações dialógicas entre professor e aluno na sala de aula a partir das contribuições de Paulo Freire Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade Federal de São Carlos, orientado pela Professora Dra. Maria Waldenez de Oliveira. Renata Paschoalino RA: São Carlos

3 Agradecimentos Ao Daniel e ao Heitor, pelo carinho, apóio e incentivo. À minha mãe Maria José, com carinho. À minha professora orientadora Maria Waldenez de Oliveira, por ter representado uma referência importante durante minha formação universitária. Agradeço gentilmente a Fabiana e a Raquel, que muito contribuíram para a realização deste trabalho. Agradeço à Rosa e a Elenice, pela participação na banca. 3

4 Resumo Este trabalho teve como objetivo compreender a construção de relações dialógicas entre professor e aluno na sala de aula a partir da teoria da ação dialógica de Paulo Freire. Para isso, foi realizada uma revisão bibliográfica de trabalhos que tratam sobre o tema e também entrevistas com duas professoras que tiveram formação e atuam na perspectiva do referencial teórico da dialogicidade de Paulo Freire. Os resultados mostram a dialogicidade na sala de aula entre professores e alunos e também oferece propostas para a construção de ações dialógicas que visam à humanização das pessoas, a transformação de relações de opressão em relações democráticas, de diálogo, solidariedade, de amor ao próximo, ao mundo e a vida. Palavras chaves: relação professor-aluno, sala de aula, diálogo. 4

5 Sumário Apresentação... Trajetória da estudante... Quem foi Paulo Freire... Revisão bibliográfica ( /09)... Questão da pesquisa e objetivos Referencial teórico... Ação dialógica... Ação anti-dialógica... Relação professor aluno na sala de aula Metodologia Análise dos dados Considerações finais Referências bibliográficas Anexos... Resultados da revisão bibliográfica.... Modelo de Termo de consentimento das professoras... Roteiro de Entrevista

6 Apresentação Este tema de pesquisa originou-se em experiências que vivenciei durante estágios no curso de Pedagogia em escolas da rede municipal junto às crianças de diferentes faixas etárias, podendo perceber a dificuldade de entendimento, de diálogo e respeito que havia entre elas e seus professores. Essas relações entre professores e alunos se mostravam conflituosas, nas quais ambos eram desrespeitados enquanto seres humanos. Alguns professores verbalizavam que para educar era necessário estabelecer uma prática autoritária, traduzido como falar com as crianças em voz alta, brava, estabelecer uma hierarquia entre eles e os alunos. Alguns profissionais lidavam com os alunos a partir de uma categorização das crianças entre aquelas que já sabiam e eram consideradas capazes de aprender e aquelas que eram excluídas. Ao comentarem sobre estas situações, os professores com os quais pude conversar diziam que muitas crianças tinham famílias desestruturadas. Durante uma conversa informal houve o seguinte relato: fulano é repetente, já foi para o NAI (Núcleo de Atendimento Integrado), a professora do ano passado não alfabetizou, agora não dá mais tempo; tenho que ensinar as outras crianças e ele não vai conseguir aprender mesmo. Esse quadro me inquietava por se tratar de relações conflituosas e me trazia a questão sobre porque as crianças eram tratadas dessa forma? Seria por serem menos favorecidas economicamente? Buscava interagir considerando o que já havia estudado sobre a dialogicidade de Paulo Freire que traz considerações sobre relações mais humanas, democráticas e dialógicas, podendo perceber a dificuldade de entendimento e compreensão que estava sendo estabelecida na sala de aula. Qual o impacto de uma prática pedagógica que corrobora com a negação do respeito, do diálogo? Quais as conseqüências de uma relação professor-aluno em que há desqualificação, como se algumas, crianças significassem menos que outras. A partir dessas experiências o presente Trabalho de Conclusão de Curso tornouse uma oportunidade para estudar a dialogicidade baseada em Paulo Freire a fim de aprofundar meus estudos acerca da construção de outros tipos de relações que valorizem a humanização das pessoas. A escolha do referencial teórico de Paulo Freire está atrelada às considerações que este autor oferece sobre a ação dialógica durante sua carreira como educador, tornando-se uma referência muito importante, nacional e internacionalmente, pelas suas grandes contribuições à educação em geral. 6

7 A partir das informações obtidas no site 1 do Instituto Paulo Freire torna-se possível expor uma breve apresentação acerca do autor. Paulo Freire nasceu em Recife no dia 19 de setembro de Destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltado tanto para a escolarização como para a tomada de consciência crítica da realidade. Publicou várias obras que foram traduzidas e comentadas em vários países. Suas primeiras experiências educacionais foram realizadas em 1962 em Angicos, no Rio Grande do Norte, onde 300 trabalhadores que se alfabetizaram em 45 dias. Suas atividades foram interrompidas com o golpe militar de 1964, que determinou sua prisão. Exilou-se por 14 anos no Chile. Com sua participação, o Chile recebeu uma distinção da UNESCO, por ser um dos países que mais contribuíu para a superação do analfabetismo. Em 1970, junto a outros brasileiros exilados, em Genebra, Suíça, cria o IDAC (Instituto de Ação Cultural), que assessora diversos movimentos populares, em vários locais do mundo. Retornando do exílio, Paulo Freire continuou com suas atividades de escritor e debatedor, assumiu cargos em universidades, como também ocupou o cargo de secretário Municipal de Educação da prefeitura de São Paulo, na gestão de Luiza Erundina, do Partido dos Trabalhadores (PT). Faleceu em 1997 deixando grandes contribuições para a educação nacional e internacional. 1 Centro de referência Paulo Freire: 7

8 Revisão bibliográfica Para buscar informações sobre outros trabalhos científicos que tratam sobre a temática desta pesquisa, foi realizado um breve levantamento acerca da produção científica sobre o tema: A construção de relações dialógicas na relação professor-aluno na sala de aula, sobretudo na área da educação. Este estudo recorreu às publicações de 2007 a 2008 disponíveis nas seguintes fontes: RBE - Revista Brasileira de Educação, na ANPED - Associação Nacional de Pesquisa em Educação a partir do Grupo de Trabalho GT/06 de Educação Popular e no Grupo de Trabalho GT/08 de Formação de Professores e no banco de teses e dissertações vinculado ao IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia. A busca se orientou pelas seguintes palavras chaves: relação professor-aluno em sala de aula, diálogo/dialogicidade e Paulo Freire, considerando o ensino infantil e as séries iniciais do ensino fundamental na RBE, ANPED e IBICT. Os artigos oferecem elementos para compreender o cotidiano escolar e a partir deles refletir acerca da construção de relações dialógicas na sala de aula. Na Revista Brasileira de Educação, considerando o ano de 2007, encontra-se um total de 39 artigos publicados. Em dois destes, encontra-se o tema relação professoraluno em sala de aula. O primeiro artigo, de Sommer (2007) trata da relação professor aluno visando problematizar conceitos que circulam na escola de ensino fundamental nos últimos anos, a fim de identificar as implicações no ordenamento das salas e na regulação das práticas docentes sendo fundamentado pelo discurso foucaultiano. Fischer (2007) expõe a relação professor-aluno atrelada à mídia, às máquinas de imagens e práticas pedagógicas na prática escolar, visando criar um saber fazer como ferramenta diferenciadora para pensar de outro modo a realidade que vivemos. Um dos artigos analisados refere-se ao diálogo, no qual Souza e Motta (2007) tratam sobre o espaço destinado à oralidade na pedagogia da EJA - Educação de Jovens e Adultos; estudam até que ponto o discurso pedagógico promove ou reprime o diálogo interação. Nas referências bibliográficas, Paulo Freire aparece em 4 dos 39 artigos analisados e estão em anexo na página 42, que não tratam do tema desta pesquisa. Considerando a RBE referente ao ano de 2008, há 34 artigos disponíveis. Entre os 34 artigos pesquisados, há quatro que tratam sobre relação professor aluno em sala de aula. O primeiro trabalho de Pais (2008) lança a hipótese sobre a violência 8

9 protagonizada por alguns alunos nas escolas como sendo máscara, dado a ocultar formas de violência a que esses jovens se encontram sujeitos cotidianamente, oferecendo elementos para a reflexão da relação professor-aluno na sala de aula. O artigo de Albuquerque, Morais e Ferreira (2008) trazem contribuições para reflexões acerca da relação professor-aluno por analisar como as práticas de leitura e escrita se concretizam atualmente na sala de aula, tendo como eixo a investigação da fabricação do cotidiano escolar por professoras alfabetizadoras. Silva (2008) investiga a questão da relação do professor-aluno acerca do saber matemático atrelado às práticas educativas e da importância da didática na formação de professores do ensino fundamental de 1º a 4º série. Entre os 34 artigos, dois tratam sobre o diálogo: Fleuri (2008) ressalta o diálogo de Freire. O autor retoma conceitos de Michel Foucault para indicar como os processos de resistência podem se configurar como formas de rebeldia ou delinqüências. Trata da construção da democracia na escola e indica, por fim, as propostas pedagógicas de Freire e Freinet para a superação dos dispositivos disciplinares. Junior (2008) traz o estudo acerca do cinema na conquista da América sobre um filme e seus diálogos com a história, referindo ao diálogo, mas não baseado em Freire. Paulo Freire aparece em 5 dos 34 trabalhos considerando as referências bibliográficas que estão anexadas na página 42, já que não tratam sobre o tema desta pesquisa. Pode-se concluir através da pesquisa realizada na Revista Brasileira de Educação durante o ano de 2007 e 2008, que dos 73 artigos analisados, seis tratam da relação professor-aluno na sala de aula e três tratam sobre diálogo. Destes 73 artigos analisados, nove utilizam Paulo Freire nas referências bibliográficas. Na ANPED, a busca se orientou a partir da reunião anual do Grupo de Trabalho GT/06 de Educação Popular e no Grupo de Trabalho GT/08 de Formação de Professores. No GT/06 de Educação Popular, na 30º reunião anual de 2007, de 19 artigos analisados, quatro tratam sobre o tema diálogo. Brayner (2007) oferece apresentações de diferentes concepções do diálogo a partir de diferentes autores, entre eles Paulo Freire. Em seguida faz uma breve avaliação pedagógica em torno do diálogo. Kavaya (2007) aborda uma discussão mirando a experiência de Freire com o mundo africano. Refere-se ao ato dialógico na busca de caminhos que levem a tomada de consciência. Neves (2007) expõe uma experiência em uma escola pública rural da cidade do Rio de Janeiro avaliada pelo seu bom 9

10 desempenho das notas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Aponta questionamentos sobre o ofício docente e conduz reflexões sobre a cultura escolar, nas maneiras de ensinar de seus professores e de aprender de seus alunos visando compreender o cotidiano escolar. Pinheiro (2007) trata da universidade e das camadas populares como sendo um diálogo necessário, sem recorrer às contribuições de Freire. Quatro entre os 19 trabalhos analisados, tratam da relação professor aluno em sala de aula. Oliveira e Santos (2007), oferecem contribuições acerca da cultura amazônica em práticas de educação popular. Neves (2007), que faz uma pesquisa atrelada ao trabalho do professor em um contexto rural. Bedin (2007), que expõe a escola como magia da criação ressaltando as éticas que sustentam a escola pública. Menezes (2007), que levanta questionamentos sobre a interdição que fazem com nossas crianças. Trata sobre o poder sobre as vidas e o discurso que dele nasce. Entre os 19 trabalhos, dez usam Paulo Freire nas referências bibliográficas que estão em anexo na página 43 já que não tratam do tema desta pesquisa. No GT/06 de Educação Popular, na 31º reunião anual de 2008, de 10 artigos analisados, um trata sobre a relação professor-aluno na sala de aula: Silva (2008) parte de uma visão de educação numa perspectiva freireana articulando com o conceito de cidadania. Visa compreender como educadores e educandos se educam para o reconhecimento e respeito das diferenças e potencialidades. Entre os 10 artigos, um trata sobre diálogo: Sampaio (2008) analisa as relações de poder e a possibilidade de diálogo, visando trazer contribuições para a prática pedagógica. Seis entre os 10 artigos analisados, utilizam Paulo Freire nas referências bibliográficas que estão disponíveis em anexo na página 43. Pode-se concluir através da pesquisa realizada na ANPED durante o ano de 2007 e 2008 no GT-06 de Educação Popular, a qual soma-se um total de 29 artigos analisados, temos entre eles, cinco que tratam diálogo. Cinco tratam da relação professor-aluno em sala de aula. Entre os 29 trabalhos, 16 utilizam Paulo Freire nas referências bibliográficas. No Grupo de Trabalho GT/08 de Formação de Professores, a 30º reunião anual de 2007, encontra-se um total de 24 artigos, sendo que 3 tratam o tema relação professor-aluno na sala de aula que foram os seguintes: Araújo (2007) expõe discussões acerca do corpo na condição docente, pelas interações entre docentes e discentes, nos espaços da escola e da sala de aula. Albuquerque (2007) apresenta razões da 10

11 (im)possibilidade de inovações na prática pedagógica de alfabetização em decorrência da participação dos docentes em formação continuada. Araújo (2007) aponta para uma investigação a fim de tornar evidente o processo do pensamento do professor atrelado a ação pedagógica em sua atuação na sala de aula. Entre os 24 artigos, um trata do diálogo, no qual Miranda (2007) investiga o mal estar do professor frente à criança tida como problema. Ressalta que existe na realidade escolar um conflito produtor do mal estar, o que induz as professoras a aprisionar alguns alunos no estatuto das impossibilidades escolares nomeados pelos professores como os desinteressados, indisciplinados, agressivos e sem limites. A autora indaga sobre as competências destes mestres. Entre os 24 artigos analisados, Paulo Freire aparece em quatro referências bibliográficas que estão em anexo na página 43, porém, não tratam do tema desta pesquisa. No Grupo de Trabalho GT/08 de Formação de Professores, a 31º reunião anual de 2008, encontra-se um total de 18 artigos, sendo que 2 tratam da relação professoraluno na sala de aula, no qual um entre esses dois também se refere ao diálogo: Chaluh (2008) trata do processo de formação na escola de ensino fundamental, colaborando com o trabalho pedagógico de duas professoras em sala de aula. Discute a complexidade do cotidiano escolar. Pensa na formação do outro como desencadeador do processo formativo pautado na importância do diálogo e da alteridade baseada em Bakhtin (1992). Monteiro e Nunes (2008), analisam o trabalho docente em escola do campo em classes multisseriadas. Entre os 18 artigos analisados, dois utilizam Paulo Freire nas referências bibliográficas que estão anexados na página 43 e não tratam do tema desta pesquisa. Vale ressaltar através da pesquisa realizada no GT-08 de Formação de Professores referentes ao ano de 2007 e 2008 as seguintes conclusões: soma-se um total de 42 artigos analisados, quatro tratam da relação professor-aluno na sala de aula. Dois tratam sobre o diálogo. Seis utilizam Paulo Freire nas referências bibliográficas. Pode-se concluir que o índice de trabalhos que utilizam Paulo Freire nas referências bibliográficas entre os anos de 2007 e 2008 no GT de educação popular é maior que no GT de formação de professores, pois entre os 29 artigos analisado no GT 06, 16 usam Freire nas referências bibliográficas, enquanto no GT de formação de professores Freire aparece em seis trabalhos entre os 42 trabalhos analisados. 11

12 A pesquisa realizada no banco de teses e dissertações vinculado ao IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia durante os anos de 2007 a 2009 oferece contribuições para o tema desta pesquisa. Sua realização guiou-se por grupos temáticos contendo três palavras chaves em nível de pesquisa avançada que foram as seguintes: Sala de aula (resumo), relação professor-aluno (resumo) e ensino fundamental (resumo). Encontram-se 23 trabalhos disponíveis. Entre eles, quatro tratam sobre sala de aula. Poffo (2007) refere-se à construção de autorias acerca de olhares para os movimentos de produção textual em sala de aula. Wilerich (2007) traz reflexões acerca da autoridade na sala de aula no ensino superior. Machado (2007) oferece contribuições sobre a produção escrita na sala de aula. Pereira (2007) trata sobre a interação na sala de aula a partir de conceitos baseados no letramento e na alfabetização no primeiro ciclo do ensino fundamental. Dois trabalhos tratam sobre a relação professor-aluno: Pacheco (2008) expõe o processo de ensino-aprendizagem de matemática e a relação entre professores e alunos no ensino fundamental. Medeiros (2008) trata sobre a afetividade na prática educativa entre professores e alunos. Entre os 23 trabalhos, 11 artigos utilizam Freire nas referências bibliográficas que estão anexados na página 43 por que não trazem relações com o tema desta pesquisa. Outra pesquisa realizou-se pelas seguintes palavras chaves: Sala de aula (resumo), relação professor-aluno (resumo) e ensino infantil (resumo). Encontram-se dois trabalhos disponíveis sobre a busca e ambos tratam da sala de aula. O primeiro refere-se a uma dissertação de mestrado de Luz (2008). Tal pesquisa versa sobre a relação professor aluno em sala de aula e foi realizada em uma escola particular de Goiás no contexto de duas turmas de jardim de infância. Teve por objetivo obter indicadores das subjetividades envolvidas na relação professor-aluno vinculado ao processo de ensino e aprendizagem como um todo. Tassoni (2008) visa identificar a afetividade na dinâmica interativa da sala de aula, envolvendo alunos em quatro diferentes momentos do processo de escolarização. A intenção é discutir o papel da afetividade neste processo, identificando suas diferentes formas de manifestação, demonstrando o processo de transformação pelo qual ela passa. Fundamenta-se na abordagem histórico-cultural, discutindo a natureza social dos processos psíquicos, o entrelaçamento entre processos afetivos e cognitivos, como também a perspectiva de desenvolvimento que os acompanha. 12

13 Entre os dois trabalhos encontrados, nenhum dos trabalhos analisados faz referências a Paulo Freire. O próximo grupo temático foi pesquisado a partir das seguintes palavras chaves: Paulo Freire (Resumo), diálogo (resumo) e sala de aula (resumo). Encontram-se sete trabalhos disponíveis. Entre eles, quatro tratam sobre o diálogo: Lomar (2007) em sua dissertação de mestrado estuda o diálogo na prática docente buscando conhecer como o diálogo situado na prática educativa em sala de aula é compreendido por professoras de uma escola pública do município de São Paulo, na qual está sendo implementado um projeto de educação em tempo integral, segundo a perspectiva dialógica de ensino. Gicoreano (2008) faz um estudo acerca da caracterização do diálogo significativo na sala de aula. Santos (2008) salienta o dialogismo e o letramento para perspectivas para a leitura significativa na educação de jovens e adultos. Batista (2008) ressalta a mediação do diálogo e da reflexão na prática do supervisor pedagógico no município de São Bernardo do Campo. Após a revisão bibliográfica, com o estudo na íntegra de artigos, dissertações e teses selecionados que estavam mais relacionados à pesquisa, foi possível identificar que há uma carência de estudos que tratam sobre a relação professor aluno em sala de aula a partir da perspectiva dialógica pautada na perspectiva de Paulo Freire. Considerando um total de 149 trabalhos analisados na RBE, ANPED e IBICT, apenas 42 tratam acerca das palavras chaves vinculadas ao tema desta pesquisa. Um entre os 149 trabalhos analisados refere-se ao tema de construções dialógicas na sala da aula a partir das contribuições de Paulo Freire. O trabalho é de Lomar (2007) que estuda o diálogo na sala de aula em uma escola pública. Frente aos dados encontrados no decorrer da pesquisa, pode-se concluir que Paulo Freire está citado em 49 referências bibliográficas considerado os 149 trabalhos estudados. Cabe ressaltar que os estudos de Paulo Freire oferecem uma aplicabilidade muito grande acerca de diferentes temas, podendo perceber que o autor é muito citado em diferentes trabalhos. Espera-se que este estudo possa contribuir para a reflexão acerca da dialogicidade na sala de aula entre professores e alunos e também oferecer propostas para a construção de ações dialógicas que visam à humanização das pessoas, a transformação de relações de opressão em relações democráticas, de diálogo, solidariedade, de amor ao próximo, ao mundo e a vida. 13

14 Referencial teórico: Este capítulo tem por finalidade oferecer contribuições teóricas para que se possa compreender a construção do diálogo na relação entre professor e aluno na sala de aula a partir de uma educação problematizadora, que visa à humanização das pessoas, a transformação de relações de opressão em relações democráticas, de diálogo, solidariedade, de amor ao próximo, ao mundo e a vida. Compreender como o diálogo pode ser construído na relação professor-aluno na sala de aula implica ressaltar a concepção de educação para Freire. Para o autor (1987), a finalidade da educação está atrelada ao desenvolvimento do processo de humanização das pessoas, que se efetiva através do diálogo, já que este se constitui como elemento fundamental para a humanização. Para Freire (1987) o diálogo torna-se a essência de uma educação humanizadora 2 e se constitui como um fenômeno essencialmente humano, realizado pelas pessoas por meio da palavra, a partir de duas dimensões: a ação, para a transformação e não alienação e a reflexão, atrelada à conscientização crítica e não alienante. Assim, a palavra não deve ser um privilégio de poucas pessoas, mas direito de todos os homens e mulheres, já que como diz o autor: Os homens se fazem pela palavra, no trabalho, na ação-reflexão (FREIRE, 1987, p.78). A seguir, haverá a análise de duas possibilidades de relações: a dialógica e a anti-dialógica. 2 Freire (1996) expõe duas viabilidades possíveis de estar no mundo: a humanização e a desumanização como possibilidades do seres humanos, inconclusos e conscientes de sua inconclusão. A Humanização é a vocação inata das pessoas como ser mais, às vezes negada pela injustiça, exploração, opressão e violência dos opressores e a desumanização como a distorção da humanização, não como destino dado, mas como resultado de uma ordem injusta que gera muitas desigualdades. 14

15 Ação Dialógica Freire (1987, p.93) ressalta o diálogo como o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo para pronunciá-lo, Desenvolve uma pedagogia baseada no processo de conscientização crítica da realidade. Para o autor, a essência de uma educação problematizadora, humanista e crítica pode ser construída pelo compromisso entre as pessoas, que se efetiva pelo amor, pela humildade, pela fé nos homens, pela esperança, pelo pensar crítico, pela conscientização crítica da realidade. Dessa forma, Paulo Freire refere-se ao amor: ao próximo, à vida, ao mundo como elemento fundamental para que haja o diálogo, essencialmente realizado na tarefa entre os sujeitos, pautado por uma relação harmoniosa, livre de qualquer tipo de dominação, opressão, injustiça e de manipulação. Trata a humildade para aprender com os outros. Assim, valoriza os saberes escolarizados e não escolarizados de todas as pessoas, já que todas sabem muitas coisas, sendo necessário para isto, romper com valores estereotipados como de superioridade, de dono de verdades e de saberes, que por vezes, se relaciona com as pessoas como ser superior, auto-suficiente, de maneira anti-dialógica, dominadora e opressora. Propõe uma relação horizontal entre companheiros para a pronúncia e transformação do mundo. Trata da necessária fé nos homens, em seu poder de fazer e refazer-se, em sua vocação para ser mais. Por isso salienta o diálogo como uma ferramenta imprescindível nas relações humanas, que atrelada à esperança se pautam em uma eterna busca de restaurar a humanidade esmagada pelas injustiças sociais, econômicas, educativas, entre outras. Significa participar e fazer a própria história como ser histórico, capaz de reconhecer os condicionamentos que estão postos na realidade, buscando transformá-los criticamente. Refere-se ao ser humano - homem e mulher, dialógico, crítico, capaz de fazer, criar, transformar como um poder dos homens, mesmo que por vezes negado em situações concretas. O pensar crítico não aceita a dicotomia mundo/pessoas, pois capta a realidade como processo em constante devenir e não como algo pré-estabelecido. Opõe-se criticamente ao pensar ingênuo que vê o tempo histórico como um peso, pré-dado pelo destino já escrito, pautado na acomodação e adaptação. Já o pensar 15

16 crítico requer a transformação permanente da realidade para a permanente humanização das pessoas. Frente a isso, Freire (1996) expõe um grande desafio a tarefa humanista e histórica: superar a contradição entre opressor-oprimido, já que muitas vezes, o oprimido tende a hospedar em si a ideologia do opressor, de um dia se parecer com ele, aderir seus costumes, gostos, etc. Ressalta a necessidade de uma conscientização crítica da realidade, na qual o oprimido precisa descobrir-se nessa relação e entender que o opressor é quem mantém essa dicotomia de desumanização, de injustiças e exclusões, sendo necessário superá-las a partir de uma relação humana, dialógica e democrática. Essa conscientização permite colocar em discussão o status quo, abrindo o caminho à expressão das insatisfações sociais, econômicas, culturais, das situações de opressões, etc. A teoria da ação dialógica supõe uma conscientização da realidade para combater o naturalismo que desconhece a historicidade do ser humano como fazedor de sua própria história. Implica a convicção de que a mudança é possível e necessária para a transformação das inúmeras desigualdades que nos cercam. A construção de relações dialógicas sob os fundamentos da ética universal dos seres humanos, enquanto prática especifica humana implica a conscientização dos seres humanos, para que possam de fato inserir-se no processo histórico como sujeitos fazedores de sua própria história. (FREIRE, 1996, p10.) Com essa descoberta crítica da realidade torna-se viável reconhecer a desumanização como realidade histórica. A conscientização é um compromisso histórico (...), implica que os homens assumam seu papel de sujeitos que fazem e refazem o mundo. Exige que os homens criem sua existência com um material que a vida lhes oferece (...), está baseada na relação consciênciamundo,. (FREIRE, 1996, p.12) Como salienta Freire (1996, p19) Só torna viável o homem novo pela superação da contradição entre opressor-oprimido, que significa a libertação de todos. 16

17 Dessa forma, uma relação dialógica entre professores e alunos na sala de aula está vinculada à concepção de educação humanizadora que permite a tomada de consciência crítica da realidade como seres históricos. Para Freire, (1996), ser dialógico implica tornar-se ético para uma verdadeira dialogicidade, faz parte da natureza humana e supõe uma escolha política entre as pessoas, que unidas, compartilham de um mesmo sonho, de uma mesma utopia, de interesse comum para que juntas possam construir uma sociedade justa e igualitária. Implica a luta pela restauração dos direitos roubados, pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação. Lomar (2007) a partir de seus estudos em Freire salienta que através do diálogo o homem ultrapassa sua condição de objeto e realiza-se plenamente como sujeito crítico frente aos condicionamentos sociais, culturais, econômicos, entre outros, porém, consciente de suas possibilidades enquanto ser histórico, fazedor ativo de seu destino. Assim, a teoria da ação dialógica mostra o papel fundamental do diálogo como elemento norteador para uma educação que visa à humanização das pessoas. Oliveira e Santos (2007) tratam sobre o conceito do diálogo a partir das práticas pedagógicas de educação popular que desenvolveram na cultura amazônica. Está associada ao contexto social e emerge da expressão oral e escrita dos educandos apontando para a utilização do diálogo e da autonomia do sujeito na perspectiva freireana que norteia a prática alfabetizadora dos educadores. O diálogo em Paulo Freire está relacionado à autonomia dos sujeitos. Ele tem significação precisamente porque os sujeitos dialógicos não apenas conservam sua identidade, mas a defendem e assim crescem um com o outro. O diálogo, por isso mesmo, não nivela, não reduz um ao outro. Nem é favor que um faz ao outro. Nem é tática manhosa, envolvente, que um usa para confundir o outro. Implica, ao contrário, um respeito aos sujeitos nele engajados (Oliveira e Santos 2007, p. 118). 17

18 Ação anti-dialógica Para Freire (1996) a teoria da ação anti-dialógica está atrelada à concepção de opressores que negam a humanização e a vocação ontológica de algumas pessoas Ser Mais, mantendo um sistema manutenção de dominação e exploração entre dominadores e dominados. Freire parte da concepção de mundo considerando a existência de uma dicotomia entre opressores e oprimidos, na qual uma minoria, ou seja, os opressores detêm o poder econômico, cultural, social, etc. e também os meios para mantê-los intactos. E os outros, os oprimidos, que se vêem obrigados a se submeterem aos opressores que não valorizam seus trabalhos pagando-lhes misérias. Para Freire (1996), esta realidade é extremamente desumanizadora, nega o acesso aos direitos essenciais das pessoas para com a vida. O autor critica a concepção bancária da educação que considera os educandos meros receptores, sujeitos passivos de suas aprendizagens. Essa realidade doutrina e adapta a realidade como algo dado, pré-determinado que deva permanecer intocado, realizado por uma relação de opressor/oprimido, na qual o aluno torna-se mero objeto de sua aprendizagem, na qual o professor é considerado o detentor do conhecimento e os transfere aos seus alunos como um depósito. O professor, nesta concepção é o detentor da palavra, é aquele que pensa e tudo sabe para depositar nos alunos, os quais devem permanecer calados para tal recepção de informações, que deve escutar docilmente a palavra sem contestar. Esse professor não considera o conhecimento que os alunos trazem de suas experiências já vividas, o que para Freire (1996) é fundamental já que aprendemos muito por meio de nossas vivências, sendo que todas as pessoas, alunos ou professores sabem muitas coisas, diferentes e juntos podem aprofundar maiores conhecimentos. No diálogo, deve-se valorizar os conhecimentos dos educandos, considerar suas visões de mundo e jamais opor-se como dono dos saberes. A educação problematizadora fundamentada pelo diálogo tem por objetivo superar a contradição da relação de opressor-oprimido entre aluno e professor já que é chamado a conhecer e a participar da elaboração dos conhecimentos. Assim, significa que não existe um saber acabado e definitivo, mas construído junto, entre o professor e o aluno. 18

19 A educação problematizadora desafia o aluno a compreender criticamente o contexto em que vive, já que a educação possui papel imprescindível para a libertação consciente e crítica da realidade. Segundo Freire (1983, p79) Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo. O autor considera o ser inacabado, que consciente de sua inconclusão busca aprimorar-se para se tornar ser mais. Ser mais, nesta concepção só é possível quando uma pessoa reconhece a outra como ser livre, responsável, ético, esperançoso, capaz de inventar e recriar o cotidiano e não se adaptar a ele, mas se inserindo e intervindo ativamente. 19

20 Relação professor-aluno em sala de aula Muitos fatores influenciam as relações entre os alunos e o professor no cotidiano da sala de aula. A visão sobre o papel da educação que o professor e os alunos possuem torna-se uma orientação primordial para o trabalho desenvolvido na sala de aula. Para Freire (1987), a educação deve estar a serviço da humanização das pessoas, já que a educação é uma forma de intervenção no mundo. Nem somos, mulheres e homens, seres simplesmente determinados nem tampouco livres de condicionamentos sociais, econômicos, genéticos, culturais, históricos, de classe, gênero. (FREIRE, 1996, p.38). Sommer (2007) salienta concepções postas no cotidiano escolar e traz reflexões sobre o papel do professor, como sendo o responsável por organizar o ambiente de aprendizagem, por administrar as aprendizagens dos alunos e garantir a produção da aprendizagem. Para Freire (1996), o papel do professor é de desafiador, capaz de promover a educação como prática de liberdade tem como função combater um naturalismo histórico que desconhece a historicidade do homem como fazedor de sua própria história. O professor é aquele que possui uma prática progressista que tende a desenvolver junto aos alunos uma capacidade crítica, a curiosidade para perguntar, conhecer, atuar, reconhecer, estimular a insubmissão, a indocilidade. Esse professor caminha por uma direção emancipadora, consciente de constituirse constantemente a partir de uma curiosidade epistemológica 3 construída pela superação de sua curiosidade ingênua 4, capaz de compreender sua função e o mundo criticamente, visando romper com verdades rotuladas socialmente que podem gerar preconceitos, discriminações e estereótipos. Sua postura ética deve ser compatível com suas palavras e práticas na sala de aula, já que aprendemos uns com os outros, pelo próprio exemplo. 3 Curiosidade epistemológica, para Freire (1996) é quando a curiosidade oriunda do senso comum se reconstrói tornando-se crítica. 4 Curiosidade ingênua, para Freire (1996) são as concepções de mundo oriundas do senso comum. 20

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