RELATÓRIO DE EXPERIÊNCIAS DE ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA EM PERSPECTIVA COMPARADA: OS CASOS DE RIO DE JANEIRO, SALVADOR, CURITIBA E CIDADE DO PANAMÁ

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1 2014 RELATÓRIO DE EXPERIÊNCIAS DE ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA EM PERSPECTIVA COMPARADA: OS CASOS DE RIO DE JANEIRO, SALVADOR, CURITIBA E CIDADE DO PANAMÁ Segurança Humana Viva Rio 10/09/2014

2 RELATÓRIO DE EXPERIÊNCIAS DE ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA EM PERSPECTIVA COMPARADA: OS CASOS DE RIO DE JANEIRO, SALVADOR, CURITIBA E CIDADE DO PANAMÁ Diretor Executivo Rubem Cesar Fernandes Coordenador da Área de Segurança Humana Cel. PM Ubiratan Ângelo Subcoordenador da Área de Segurança Humana Capitão PM Ref. Sandro Costa Coordenador de Conteúdo e Pesquisa Fabiano Monteiro Equipe Técnica Fernanda Mattos Laís Martins Jonas Araujo Roberta Correa 2

3 SUMÁRIO RELATÓRIO DE EXPERIÊNCIAS DE ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA EM PERSPECTIVA COMPARADA: OS CASOS DE RIO DE JANEIRO, SALVADOR, CURITIBA E CIDADE DO PANAMÁ I) APRESENTAÇÃO...4 II) O MODELO DAS UPPS E AS EXPERIÊNCIAS DE CURITIBA, SALVADOR E CIDADE DO PANAMÁ: O DISCURSO DA AUSÊNCIA DO ESTADO E SEUS REVEZES...7 III) QUATRO EXPERIÊNCIAS EM PERSPECTIVA COMPARADA...11 a. Instalação de bases de policiamento comunitário...11 b. Estratégias de policiamento comunitário e formação policial...28 c. Projetos de desenvolvimento social (perfis) participação...33 d. Projetos de atenção à juventude e prevenção da violência...42 d.1 Da relação dos participantes com os instrutores...44 d.2 Da relação dos participantes com a polícia...44 d.3 Da evasão...45 d.4 Da burocracia estatal...45 d.5 Da seleção...45 d.6 Da dificuldade de encontrar profissionais com os perfis de trabalhador social ou animador cultural...46 d.7 Da dificuldade de trabalhar com jovens violentos...46 d.8 Da dificuldade de implementação de uma filosofia de coaching...46 d.9 Da relação com a família...48 d.10 Da relação com Deus...49 d.11 Das limitações do projeto e do sicariato...50 IV) CONCLUSÕES...52 V) BIBLIOGRAFIA...54 VI) ANEXO (FOTOGRÁFICO)

4 I) APRESENTAÇÃO O presente relatório visa a delinear aspectos comparativos de iniciativas de enfrentamento da violência em quatro cidades da América Latina (três no Brasil e uma no Panamá). O traço que une estes quatro objetos está na adoção comum de um método específico de enfrentamento da violência, baseado na ocupação permanente, por parte da polícia, de territórios ditos (ou tidos) marcados por níveis preocupantes de criminalidade violenta. Operando há mais de vinte anos no combate da violência urbana e em defesa da sedimentação da cultura de paz em regiões violentas do Rio de Janeiro, a ONG Viva Rio, em parceria e com financiamento do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), foi encarregada de realizar uma sistematização de suas ações práticas, incluindo suas atividades no campo da segurança pública em cooperação com a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Enquanto pesquisadores da área de Segurança Humana do Viva Rio e coordenadores deste projeto de sistematização, travamos contato com esta temática e com essas experiências movidos por tais propósitos. Mais do que um objeto de pesquisa (no sentido mais ortodoxo que este termo possa adquirir), essa empreitada postou-se defronte a nós como alvo de uma futura intervenção. Este relatório é fruto de parte dessa sistematização, centrado, especificamente, nas ações erigidas no campo do que veio a ser chamado processo de pacificação, conduzido pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro desde o ano de O primeiro passo do chamado processo de pacificação 1 foi dado entre os meses de novembro e dezembro de 2008, quando a Polícia Militar ocupou a favela Santa Marta (Zona Sul do Rio), em uma operação de repressão ao tráfico de drogas. 1 Segundo a Diretriz Geral de Polícia de Proximidade publicada no Bol. PM 139 de 04 de agosto de 2014, o conceito de polícia pacificadora consubstancia-se em uma estratégia de atuação policial ampla, que contempla as fases de intervenção tática, estabilização, implantação de Unidade de Polícia de Proximidade (UPP), monitoramento, avaliação e integração progressiva ao policiamento ordinário, realizados pela ação simultânea ou não de outros policiamentos especializados e de proximidade que variam conforme a fase e as demandas do território, permitindo a articulação entre ações policiais especiais e ações de aproximação, a fim de criar ambiência favorável para o desenvolvimento da cidadania (p. 55). 4

5 Se, por um lado, as operações policiais em favelas nas últimas décadas se caracterizaram por um caráter repressivo e intermitente (ações pontuais de repressão ao tráfico), a operação do Santa Marta, por seu turno, se caracterizava pela promessa de uma ocupação da comunidade pela Polícia Militar, sem prazo de término. Um mês após a entrada dos policiais na comunidade foi inaugurada a primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), com direito à presença do Governador (Sérgio Cabral) e do Prefeito (Eduardo Paes), que ratificaram o interesse do poder público em replicar a experiência em outras favelas do Rio de Janeiro. Com o tempo, as UPPs foram se multiplicando, cobrindo praticamente todas as favelas da Zona Sul e um número significativo das comunidades do Centro (Providência e adjacências do bairro de Santa Teresa) e do Maciço da Tijuca. Mesmo com a sua ampliação e com o reconhecimento de sua relevância pelo poder público, o processo de pacificação permaneceu carente de uma sistematização metodológica que pudesse esclarecer questões ainda hoje presentes. O que definiria a ocupação de um dado território? Qual o peso dos indicadores de criminalidade violenta neste processo? O que definiria o efetivo policial a ser empregado em uma dada comunidade? Qual o perfil dos policiais empregados neste processo? Mesmo sem essa sistematização operacional, o discurso oficial (do Estado) nos induz a perceber algumas etapas gerais do chamado processo de pacificação : (1) ocupação do território com o empenho de força capaz de inibir a reação dos traficantes armados; (2) instalação da unidade de polícia pacificadora e tentativa de aproximação da comunidade; e (3) viabilização das rotinas de atendimento das necessidades básicas da população residente (normalização dos serviços de assistência, água, coleta de lixo, energia elétrica etc.) e o desenvolvimento social. Conforme apontam pesquisadores do tema (RODRIGUES et. al., 2012), esta divisão em etapas está sujeita a diversas adaptações feitas caso a caso. Em síntese, estes trabalhos nos informam que é difícil montar um esquema que dê conta das rotinas das 38 unidades existentes hoje. Existem comandantes que valorizam mais as reuniões comunitárias, outros menos; existem UPPs onde há um espaço reservado na unidade para a realização de mediação de conflitos, outras não; existem UPPs onde há projetos de integração entre policiais e jovens, em outras a sensação obtida é que este recurso é visto como algo quase impensável. Por fim, basta 5

6 talvez dizer que existem UPPs com sedes devidamente estruturadas, com recursos bem sofisticados (internet, câmeras de monitoramento etc.), havendo, contudo, unidades que funcionam em containers e que chegam a passar a sensação de improviso. Em resumo, não seria exagero dizer que há UPPs e UPPs. Em maior ou menor grau, estas questões permaneceram em aberto até o atual momento. Fato que, curiosamente, não impediu que o modelo fosse replicado, com maiores ou menores adaptações, em outras regiões do país e mesmo no exterior. 6

7 II) O MODELO DAS UPPS 2 E AS EXPERIÊNCIAS DE CURITIBA, SALVADOR E CIDADE DO PANAMÁ: O DISCURSO DA AUSÊNCIA DO ESTADO E SEUS REVEZES O discurso adotado pelo Estado, pela mídia e absorvido por parte da opinião pública é de que as UPPs (mesmo sem se poder qualificá-las, exatamente, como um projeto, uma política pública ou mesmo um programa de governo) funcionam como uma resposta do Estado a uma negligência histórica cometida com a população moradora de favelas do Rio de Janeiro. Um dos tantos resultados nefastos de tal omissão seria o alto nível de violência presente nestes territórios, inseridos no circuito do comércio de drogas. Assim, esquematicamente, este discurso da ausência do Estado se operacionalizaria pela seguinte lógica: 1. O Estado não foi capaz de promover o desenvolvimento social em diversas regiões da cidade; 2. Essas regiões teriam se tornado extremamente violentas, sendo a entrada no mundo do crime um recurso possível, sobretudo para os jovens lá residentes; 3. A violência teria afastado e/ou dificultado os serviços públicos básicos e os investimentos da iniciativa privada; Ergo... 2 Faz-se mister frisar que o termo policiamento de proximidade refere-se a um conceito usado pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro totalmente antenado aos princípios do policiamento comunitário, mas que evita tal nomenclatura por conta de uma possível carga pejorativa que o mesmo pudesse trazer, tendo em vista que no estado o termo comunidade tem sido usado como um eufemismo para favela (slum). A perspectiva é superar a ideia de um policiamento diferenciado para uma população diferenciada (perigosa, seria o termo que nos vem à mente a partir da leitura de autores como Foucault, Howard Becker e L. Waqcuant), buscando ratificar as premissas democráticas e includentes da segurança pública como ela é preconizada no plano formal. Conforme passagem ipisis literis: Assim, a polícia de proximidade, inspirada pelos mesmos princípios da polícia comunitária, vai atuar sobre o fenômeno criminal, aproximando-se do cidadão, esteja ele onde estiver, trazendo consigo uma proposta sociológica inclusiva poderosamente transformadora, à medida que não reproduz através de sua denominação a ideia de uma polícia especial para uma determinada comunidade, o que reforçaria a lógica de segregação que justamente é a que se deseja evitar (...) (POLÍCIA MILITAR DO RIO DE JANEIRO, 2014, p.55). Voltaremos ao tema à frente. 7

8 4. Para reativar esses serviços e tais investimentos seria necessário combater fortemente os traficantes armados presentes nas favelas, principal fonte geradora da violência; Recorrendo à contribuição do clássico do pensamento social brasileiro Coronelismo, Enxada e Voto, de Victor Nunes Leal (1976), temos a crítica a uma matriz analítica semelhante à descrita anteriormente. Em seu trabalho, Leal argumenta que um paradigma na compreensão do fenômeno do coronelismo, desenvolvido nas zonas rurais brasileiras, pautava-se pela ideia de que o poder dos coronéis derivaria, principalmente, das fragilidades do Estado em capilarizar suas ações nas regiões não centrais do Brasil. Onde não havia o braço do Estado para propiciar o desenvolvimento da população e de suas condições mínimas de existência (incluindo questões como segurança alimentar e proteção), existiria a figura do coronel, sempre pronto a se beneficiar egoisticamente das fragilidades da população local. O que Leal procura demonstrar é que o poder econômico de muitos proprietários de terras do nordeste brasileiro já se encontrava abalado por conta de crises produtivas e do êxodo rural, fazendo com que os coronéis procurassem manter seu poder através de contatos com o campo da política partidária e da máquina administrativa, migrando, destarte, para dentro do Estado, representando-o, incorporando-o, por intermédio de uma rede de relações de prestígio e dependência já construída. Essa breve passagem de um clássico do pensamento social brasileiro que deve parecer um tanto deslocada para o leitor serve de inspiração para revermos o convite (um tanto sedutor, é verdade) de pensarmos estruturas de poder erigidas na ausência do Estado. Melhor do que pensarmos sistemas de dominação e poder, instituídos na ausência ou presença do Estado, talvez seja percebermos como operadores e instituições do poder público terminam por se relacionar com forças locais que podem situar-se ambiguamente no campo do legal ou do ilegal. Já entrando no campo dos estudos sobre segurança pública no contexto urbano, temos a contribuição da socióloga Vera Telles (2010), no artigo As dobras do legal e do ilegal, em que a mesma procura demonstrar, a partir da descrição de cenários da cidade de São Paulo, como operações do cotidiano consideradas formais (comércio e produção de produtos), informais (comércio informal) e ilegais (tráfico de drogas, por ex.) entrelaçam-se numa complexa teia de 8

9 definições de espaços e de poderes, em que se fazem presentes forças como o poder repressivo do Estado, a ação de trabalhadores mal remunerados que oscilam entre o mundo formal, o informal, o ilícito e o crime propriamente dito. Usando a contribuição de Michel Foucault, a autora procura fugir da dicotomia legal-ilegal para buscar compreender o dinamismo urbano, no contexto da circulação de riquezas, serviços e segurança pública, como um fenômeno marcado por atuações ambíguas e de organização êmica do que é ou não é permitido nas práticas cotidianas. Nas palavras da autora: Não se trata de universos paralelos, muito menos de oposição entre o formal e o informal, legal e ilegal. Na verdade, é nas suas dobras que se circunscrevem jogos de poder, relações de força e campos de disputa. São campos de força que se deslocam, se redefinem e se refazem conforme a vigência de formas variadas de controle e também, ou sobretudo, os critérios, procedimentos e incriminação dessas práticas e atividades, oscilando entre a tolerância, a transgressão consentida e a repressão conforme contextos, micro-conjunturas políticas e relações de poder que se configuram em cada qual (TELLES, 2010, p. 102). Neste sentido, o presente relatório procurará se distanciar do discurso que apela para a dicotomia presença/ausência do Estado, para tentar perspectivar os processos de instalação de bases fixas de policiamento nas quatro cidades focadas a partir de um mosaico de atores que passa não só pela polícia (e pelo policiamento de proximidade) e por operadores do Estado (ou investidores) que chegam no território após a redução dos índices de violência, mas também por personagens que já se encontravam lá e já produziam ações voltadas para a garantia de direitos individuais e sociais (Conselho Tutelar, Centro de Referência de Assistência Social, postos de saúde, ONGs, lideranças religiosas, escolas etc.). Assim, os aspectos dos processos de instalação das unidades de policiamento comunitário (daqui em diante em tópicos) que serão tratados em perspectiva comparativa nos quatro casos serão: 9

10 (a) Instalação de bases de policiamento comunitário; (b) Estratégias de policiamento comunitário e formação policial; (c) Projetos de desenvolvimento social (perfis) e participação; (d) Projetos de atenção à juventude e prevenção da violência. 10

11 III) QUATRO EXPERIÊNCIAS EM PERSPECTIVA COMPARADA a.a Instalação das Bases de Policiamento Comunitário Rio de Janeiro Conforme já fora dito na Introdução deste relatório, no levantamento realizado, não ficaram claros os fatores de escolha, pelo Estado, dos territórios a serem pacificados. Como pontos em comum na instalação das UPPs temos a escolha de territórios marcados pela presença de traficantes armados, marcados pela ocorrência de enfrentamento armado entre estes e a(s) polícia(s) (predominantemente a Polícia Militar, mas também com ocorrências envolvendo a Polícia Civil) e também entre facções rivais 3. A verdade, contudo, é que tais fatores dizem muito pouco em termos de critério. Há um universo vasto de comunidades não pacificadas que apresentam características muito similares às pacificadas, sendo possível citar, de forma mais evidente, a situação das favelas da Baixada Fluminense, onde até o momento, há apenas uma unidade instalada (37ª UPP Mangueirinha, no município de Duque de Caxias) e duas unidades de menor porte, chamadas Cias. Destacadas (Cia. Destacada da Favela da Chatuba - Mesquita e Cia. Destacada da Favela do Cabuçu - Nova Iguaçu). Se não há clareza, no que diz respeito ao papel dos indicadores de criminalidade violenta nos processos de instalação das UPPs, não podemos nos furtar de observar o histórico de tentativas de desenvolvimento de policiamento comunitário na região metropolitana do Rio de Janeiro, inclusive como resposta à ação de traficantes em áreas conflagradas. 3 Tomemos a definição já sedimentada pela mídia de três grandes facções criminosas no Rio de Janeiro: Comando Vermelho (derivação histórica da Falange Vermelha dos anos 1970/80), Terceiro Comando Puro (consolidação da dissidência Terceiro Comando, proveniente do Comando Vermelho) e Amigos dos Amigos (ADA). Para mais detalhes, ver Misse (2011). 11

12 Destarte, a abordagem do caso do Rio de Janeiro talvez possa ser incrementada se empreendermos uma análise diacrônica da segurança pública no estado e não nos atermos, apenas, em elementos de caráter sincrônico. Em entrevistas realizadas com coronéis reformados da Polícia Militar do Rio de Janeiro, observamos alguns aspectos históricos importantes para a compreensão da formatação das UPPs tal como ela se deu. Uma das narrativas remetia aos anos 1980/90, em particular às passagens do Cel. Carlos Magno Nazareth Cerqueira pelo Comando Geral da PMERJ. Nazareth Cerqueira tem sido reconhecido por pesquisadores do campo da segurança pública fluminense como um personagem marcante na busca por uma aproximação entre a polícia militar e setores da sociedade, como a academia e os movimentos sociais, tendo sido suas ações marcadas por uma espécie de vanguardismo no que diz respeito à superação do perfil intramuros de nossa polícia (CARUSO et al., 2007). Nas entrevistas, o interesse pelo policiamento comunitário e a preocupação com uma atuação preventiva (em detrimento de uma performance eminentemente reativa por parte da polícia) aparecem como elementos inovadores e que teriam, em certo sentido, propiciado sobretudo pela influência exercida sobre alguns oficiais que, ao longo do tempo, foram galgando postos de comando na corporação a ocorrência de experiências que poderiam se apresentar como uma espécie de ancestrais das UPPs. Uma dessas experiências seria o Grupamento de Aplicação Prática Escolar (GAPE). Surgido entre os anos de 1991/94, consistia em uma espécie de estágio prático de policiais recémformados ou em formação em comunidades violentas marcadas pela presença do tráfico. Seu objetivo era promover uma aproximação entre as práticas policiais e a realidade das favelas do Rio de Janeiro, no sentido de produzir um conhecimento acerca das regras de sociabilidade, histórias de vida, trajetórias e condições de existência, ou seja, fatores que permitissem a compreensão do fenômeno da criminalidade local e suas condicionantes sociais e, por extensão, a sua superação ou diminuição. Este estágio apresentava-se como a segunda etapa de um processo iniciado no Batalhão Escola de Polícia Comunitária (BEPC), situado na Ilha do Governador, e tinha como meta funcionar como um Batalhão convencional (voltado para o policiamento ostensivo) e, ao mesmo tempo, 12

13 operar como um centro de difusão da filosofia do policiamento comunitário para policiais recém-formados (LOPES RIBEIRO; MONTADON, 2014). Outra experiência importante neste processo se deu com os Grupamentos de Policiamento de Áreas Especiais (GPAE), surgidos em meados do ano Sobre o GPAE, temos a partir de entrevista realizada com o diretor Executivo da ONG Viva Rio, o antropólogo Rubem Cesar Fernandes, uma versão interessante acerca da influência de experiências externas sobre os programas de policiamento comunitário fluminense. Segundo este, em uma visita técnica-profissional a Boston (EUA), alguns oficiais da polícia militar do Rio de Janeiro teriam travado contato com o programa ceasefire (cessar fogo), empreendido, sobretudo, junto a jovens afiliados ou assediados por gangues. Tal experiência teria ratificado a importância de uma filosofia preventiva no que diz respeito à segurança pública, havendo um conhecimento, por parte dos policiais, do cotidiano e da vida desses jovens em flerte com o crime, sendo a polícia a responsável pela interface de programas de inclusão social juvenil. O GPAE floresce como experiência tendo, teoricamente (frise-se), o suporte do que veio a ser chamado de Centro de Referência de Áreas Especiais (CERAES). Esse seria um órgão ligado à Secretaria de Estado de Segurança Pública, que contaria com a participação de lideranças comunitárias de diversas favelas da região metropolitana, e, paralelamente, a outros órgãos similares ligados à defesa de grupos tidos como vulneráveis (Disque Racismo, Disque Defesa Homossexual, Conselho Estadual dos Direitos da Mulher etc.), perspectivando-se a formação de uma rede de atenção a cidadãos cujos direitos individuais se encontrassem mais tangivelmente ameaçados (MONTEIRO, 2003). Este grupamento teria como metas imediatas, segundo um de nossos policiais entrevistados, a presença permanente da PMERJ em favelas do Rio e Grande Rio; a desmobilização de traficantes armados; a produção de uma cultura de intolerância ao ingresso de menores em atividades criminosas; e a produção de uma cultura de intolerância em relação à corrupção de policiais pelo tráfico de drogas. Em linhas gerais, nossos entrevistados perceberam o GPAE como uma experiência bem sucedida em sua fase inicial, em particular as ocupações do Morro do Cavalão (Niterói) e do Morro do Cantagalo (Ipanema). 13

14 Contudo este êxito não se sustentaria com a ampliação do projeto, sendo o esvaziamento do efetivo a principal razão apontada por nossos entrevistados. A queda do número de policiais envolvidos nesta modalidade de policiamento seria a expressão da falta de organicidade do projeto que deveria contar com incremento da geração de novos quadros, viabilizados pelo deslocamento de efetivo ou pela realização de concursos para a formação de novos policiais que teria vindo a constituir-se mais como uma iniciativa de alas mais progressistas da Polícia Militar do que como uma política de governo (ou de Estado) propriamente dita. Tal fato também se expressa na estrutura administrativa dos GPAEs. Somente em 2006, seis anos depois do início das atividades, é instituído o Comando de Policiamento de Áreas Especiais (CPAE). [Tal recurso de coordenação] pretendia unificar e organizar a atuação do GPAE, facilitando a comunicação entre eles e a ação em conjunto nas comunidades atendidas (LOPES RIBEIRO; MONTADON, op. cit., p. 250). A demora na unificação de procedimentos e orientações teria provocado uma gestão demasiadamente autônoma, dificultando que as rotinas que se tornaram exitosas nas primeiras experiências do projeto viessem a ser replicadas em outras regiões. Assim, poderíamos dizer que as UPPs, e não foi identificável em nossa sondagem com que grau de intencionalidade, perfazem um caminho bastante similar ao do GPAE, procurando corrigir algumas das supostas falhas do passado. Se nos fogem as condicionantes para a instalação das bases de policiamento comunitário, poderíamos trilhar um caminho menos árduo em determinar quais as etapas de instalação comuns às 38 unidades existentes até o momento. Ao longo da elaboração deste relatório, as diretrizes do Policiamento de Proximidade foram, é bem verdade, sistematizadas de forma mais consistente, de acordo com o documento Bol. da PM. 139, de 04 de agosto de 2014, que determina que as estruturas básicas das UPPs no Rio de Janeiro constituir-se-iam a partir da determinação dos seguintes elementos: IV Área de Policiamento de Proximidade É o espaço físico que representa a área territorial da cidade, sujeito a responsabilidade da Unidade Policial de Proximidade; V - Setor de patrulhamento (St Ptr) 14

15 Trecho ou extensão da área, compatível com a capacidade e eficácia de policiamento de uma patrulha motorizada. É uma divisão da área. Dentro do St Ptr podem ser executadas todas as formas de policiamento, orientadas pela Polícia de Proximidade, de maneira integrada e comandada; VI - Subsetor de patrulhamento (Sbst Ptr) É um trecho do setor de patrulhamento compatível com a capacidade e eficácia de policiamento de uma patrulha a pé, montada ou em bicicleta; VII - Roteiro de patrulhamento Constitui em trajeto previamente traçado dentro de um setor de patrulhamento de proximidade, em que constam os pontos a serem percorridos a pé ou motorizado; VIII - Pontos vulneráveis São pontos determinados da área de policiamento que, por sua vulnerabilidade, necessitem de segurança ou reforço do policiamento de proximidade; IX - Sede Administrativa Constitui-se de uma estrutura física que atenda ao efetivo da Unidade Policial de Proximidade, com os serviços essenciais a administração e o desdobramento do policiamento na área de policiamento de proximidade; X - Base de Proximidade A Base de Proximidade constitui-se em uma estrutura física de pequeno porte que tem como objetivo servir de base operacional para uma Unidade Policial Militar, com o escopo de atender a comunidade local, facilitando o policiamento de proximidade e ao mesmo tempo sendo uma referência em pontos de grande visibilidade; XI - Base Avançada de Proximidade A Base Avançada de Proximidade constituir-se-á numa base operacional da Unidade de Polícia Militar, situando-se em determinados pontos na comunidade,considerados espaços estratégicos ou de difícil acesso, realizando o controle da área, possibilitando rápida mobilização do efetivo de serviço; XII - Grupo de Policiamento de Proximidade (GPP) É a denominação que recebe os policiais militares que desempenham as atividades de polícia ostensiva e atuam na área da Unidade Policial Militar, realizando ações proativas e estratégicas de polícia de proximidade; XIII - Grupo Tático de Policiamento de Proximidade (GTPP) É a denominação que recebe o efetivo de uma patrulha, com treinamento operacional especializado e munida de equipamento especial, empregada em ações de Polícia Ostensiva específicas que demandam ação rápida e repressão qualificada. Exemplos de sua atuação: controle de tumultos e ações para restauração da ordem pública de maior magnitude. Por suas características de natureza e emprego possuem base territorial 15

16 ampla, atuando em toda área da Unidade Policial de Proximidade, respondendo diretamente ao Comandante desta; XIV - Policiamento de Ações Especiais É o policiamento realizado pelas Unidades Operacionais Especiais, durante a Intervenção Tática, ou quando se fizer necessário, dadas circunstância que imponham isso. XV - Método SARA ou IARA Modelo de solução de problemas que pode ser utilizado para lidar com o problema do crime e da desordem. É de simples compreensão para policiais e líderes comunitários, não contradizendo outros métodos similares (PMERJ, 2014, p ). Realização de forte campanha governamental que fortalece a ideia da UPP como um programa de governo dotado de perenidade; Alimentação e reposição de efetivo, através de sucessivos concursos públicos para a Polícia Militar, realizados, em sequencia, desde o ano de Salvador BA As Bases comunitárias de segurança (BCS), incorporadas à estratégia de segurança do estado da Bahia no ano de 2011, integram um conjunto de projetos e ações do Programa de Estado Pacto pela Vida (PPV), instituído pela Lei /11, e constituem-se numa estrutura celular dedicada ao policiamento comunitário, tendo por objetivo promover a segurança e a convivência pacífica em localidades identificadas como críticas. Segundo os documentos oficiais do Governo do Estado da Bahia e dos Boletins Oficiais, foi possível observar que as localidades escolhidas para a instalação das bases foram espaços marcados por índices elevados de criminalidade violenta (Crimes Violentos Letais Intencionais), atrelados principalmente ao tráfico de drogas. O modelo adotado no Estado da Bahia remete a experiências diversas, como o programa Pacto pela Vida (de Recife-PE), o sistema de policiamento comunitário Koban 4, no qual os oficiais receberam treinamento no estado de São Paulo, e as UPPs do Rio de Janeiro. 4 A diferenciação dos conceitos de policiamento comunitário e suas variações pelo mundo (Reino Unido, Austrália, Japão, EUA e países da América Latina) é reconhecidamente vasta, sendo difícil chegar-se a um conceito universal para além das idiossincrasias locais. O Koban aparece na fala de nossos entrevistados como o modelo japonês (pautado na ideia de assistência não emergencial e de laços de 16

17 A respeito da implantação das bases, temos o BGO (Boletim Geral Ostensivo), de 27 de setembro de 2012: Os locais estabelecidos pela área sistêmica da Segurança pública do Estado da Bahia, e informados pelo comandante Geral da PMBA e pelo Comandante de Operações Policiais Militares - COPPM para a criação e efetivação das BCS serão previamente estudados quanto aos índices de ocorrências criminais e aos dados estatísticos sociais relativos à população. As BCS serão estrategicamente fixadas, de forma que estejam em perfeitas condições físicas e em localização favorável à sua atuação dentro da respectiva área de abrangência tendo a sua área de responsabilidade, preferencialmente, delimitada num espaço de até 04 (quatro) Km 2, divididos em 04 (quatro) setores (POLÍCIA MILITAR DA BAHIA, 2012, p. 7599). Ainda sobre os critérios de escolha das áreas, temos: Através de órgãos de inteligência, será feito o levantamento de dados estatísticos sociais, índices criminais e atuação delituosa, a fim de subsidiar o processo de intervenção. A intervenção promoverá a ação direta de desarticulação e repressão qualificada da criminalidade existente no local. Esta fase será realizada pelas Unidades Operacionais Especializadas, em conjunto com a Unidade Operacional da área, sob a coordenação do respectivo Comando Policiamento Regional (Idem). E segue: A ocupação dar-se-á pela incursão e permanência das forças reativas da PMBA, a fim de impedir que criminosos retornem para o local ocupado. Esta fase terá a duração de três meses, momento em que a BCS estará com suas atividades consolidadas; A instalação propriamente dita dar-se-á através da implementação da BCS, em que, efetivamente, o policiamento comunitário será desenvolvido, de acordo com as rotinas e formas pautadas no manual do Curso Nacional de Gestor e operador do Policiamento comunitário Sistema koban, do Ministério da Justiça MJ/Secretaria Nacional de Segurança pública - SENASP (Ibdem, p. 7600). Neste sentido, observamos a intenção do poder público de criar uma normatização para a implementação do programa de policiamento comunitário, havendo uma perspectiva em confiança entre polícia e sociedade) adaptado para a cidade de São Paulo (regiões desta), onde os policiais baianos integrantes das primeiras bases receberam treinamento. Sobre policiamento comunitário e seus conceitos fundamentais, ver Skolnick; Bailey (2002). 17

18 relação à área de cobertura do policiamento, ao tempo de permanência, ao escalonamento das regiões segundo índices de criminalidade (hot spots) etc. Contudo, o resgate da história deste processo, feito a partir da memória de alguns dos oficiais envolvidos nos primeiros momentos da empreitada, alerta para algumas dificuldades logísticas e de planejamento que terminariam por pesar no estabelecimento das BCSs. A não estruturação das diretrizes lógicas do projeto, a falta de incentivo para o engajamento de oficiais e praças no policiamento comunitário (no Rio de Janeiro, por exemplo, há o pagamento de gratificações para os policiais das UPPs, realizado pelo governo municipal), a falta de estruturação física das unidades e a ausência de interlocução com os moradores que receberiam a nova modalidade de policiamento seriam algumas das dificuldades apontadas pelos entrevistados. Relata-nos um oficial: quando foi inaugurada esta base (...) a gente não tinha nenhum órgão, nenhum departamento, nenhuma coordenadoria [ao qual] eu estivesse [subordinado] para tratar do policiamento comunitário. Assim, podemos observar que algumas das dificuldades apresentadas no processo de instalação das UPPs no Rio de Janeiro se reproduzem na experiência da Bahia, sobretudo no que diz respeito à definição dos marcadores lógicos que orientariam a alocação das bases, sua inserção no organograma da segurança pública e o estabelecimento das metas a serem atingidas (com quais tipos e níveis de criminalidade podemos trabalhar até realizar alguma alteração no projeto? Que tipo de reação pode ser esperada por parte dos moradores e como lidar com ela, quando a mesma não é positiva?). Há de se ressaltar, é verdade, que os processos de desenvolvimento de experiências de policiamento comunitário em grandes cidades como Rio e Salvador encontram-se subordinados a uma complexa organização do espaço urbano brasileiro tal como ela se deu historicamente: não planejada e sujeita a acomodações de grandes contrastes sociais. Neste sentido, a variação da realidade de comunidade para comunidade termina por se traduzir numa variação de unidade para unidade. Nesta sondagem, identificamos uma forte concordância entre os pesquisados (fossem policiais, fossem pesquisadores, fossem gestores) de que as favelas (ou comunidades) são muito diferentes entre si. Isso, sem dúvida, se apresenta como um desafio para o poder público, quando se trata de compactar uma pluralidade de ações, experiências e contextos em um só projeto. Em maior ou menor grau, 18

19 este foi um ponto destacável nas quatro experiências pesquisadas. Tomemos, agora, os casos de Curitiba e da Cidade do Panamá. Curitiba PR O programa de policiamento comunitário do estado do Paraná desenvolveu-se, recentemente, no âmbito do Programa Paraná Seguro, concebido como uma série de ações e intervenções que, integradas e articuladas, teriam o poder de contribuir para a redução da violência e da criminalidade no estado do Paraná. Em termos de ação operacional da Polícia Militar, o ponto central deste programa seria a instalação de UPS (Unidades Paraná Seguro), distribuídas, territorialmente, a partir de critérios como índice de criminalidade violenta, medidos a partir do indicador CVLI, tal como na Bahia; índice de desenvolvimento humano (IDH); capilaridade de ações sociais no território (e sua possível obliteração pela violência); e estruturação/organização urbanística. Conclui-se que os fatores norteadores para o desenvolvimento da experiência neste estado são muito semelhantes aos observados no Rio de Janeiro e na Bahia. Todavia, existiriam diferenças sensíveis, no que tange ao nível de enfrentamento entre polícia e criminosos, nesse estado, principalmente em relação à permeabilidade das forças do estado no território, quando comparadas ao caso do Rio de Janeiro, em particular. Sobre a ação policial no território, um dos oficiais paranaenses entrevistados nos esclarece: A primeira foi a UPS do Uberaba. Que na realidade não é Uberaba toda. Nós temos Uberaba, que é um bairro gigante, e a UPS está num ponto aqui. Entre a Vila Icaraí, Reno e Vila União, que são três vilas dentro do Uberaba. Não é um bairro todo, é uma área delimitada. Mas, pela falta de efetivo, o que é natural em todas as polícias do Brasil, o efetivo da UPC não atende só aquela região. Atende o seu entorno também. E isso é característico da maioria das UPS em Curitiba. Atende a área circunscricional da UPS e o seu entorno. (Entrevistador) Já tinha presença policial lá antes da UPS? Em todas as áreas onde foram montadas UPS, a polícia do Paraná entrava sem problemas. Claro que havia confrontos armados, havia problemas com o tráfico, mas nunca houve na história do Paraná nenhuma área onde a Polícia Militar não entrasse. Isso nós não temos. 19

20 Outro oficial, comandante de uma das unidades alocadas numa das regiões consideradas como mais violentas de Curitiba, complementa: É como a gente tava falando, aqui a gente não tem essa questão como vocês (do Rio). ( ) O tráfico que a gente tem aqui não é esse tráfico armado como vocês têm lá, então não é uma coisa visível, então depois que a gente vai descer, lógico, os policiais que trabalham aqui muito tempo, eles conhecem quem são [os possíveis traficantes], então o que acontece? Eles são abordados e nunca são pegos com nada, então aí é uma grande dificuldade nossa (...). Ao contrário de hordas de traficantes fortemente armados (cenário do Rio) orientados por uma lógica de domínio territorial para a venda de drogas, o comércio de entorpecentes no Paraná parece mais inclinado a um tipo de venda atomizada, com o transporte de pequenas quantidades de psicoativos e transações dissimuladas, que podem ocorrer em bares, restaurantes, discotecas, a qualquer hora do dia e da noite. Assim, nosso entrevistado também destaca o papel dos serviços de inteligência da polícia que fazendo, por exemplo, o mapeamento dos pontos de venda de droga, prepara a entrada de uma força tática capaz de inibir a reação violenta de criminosos. A partir daí é instalada a unidade e adotada uma rotina típica daquilo que é (ou seria) o trabalho de policiamento comunitário. Afirma ele, sobre os primeiros passos da instalação das UPS: (...) Então do mesmo jeito é no Paraná. A gente sabe que a polícia tem que ser descentralizada. E onde, o que os americanos chamam de hot spot, nós temos que saber. Três lugares em Curitiba têm pontos quentes. Então vamos tratar esses pontos quentes. 'E qual o primeiro passo?' Vamos descentralizar. Fazer a polícia ficar mais perto das pessoas. 'Precisa pacificar?' Não. 'Tem traficante lá?' Tem. 'Tem gente pedida pelo sistema judicial?' Tem. Então a primeira coisa: congelamento de área; planejamento de inteligência; identificação de quem deve ser preso; cumprimento dos mandados de busca e de prisão; limpa! Aí entram os policiais para fazer visita comunitária, fazer relações com a comunidade e manter o policiamento. (Entrevistador) Eu vi, pelo menos na primeira vez daqui, que a entrada da polícia, melhor dizendo, a entrada para firmar esse novo período [de] UPSs teve semelhança com a nossa entrada lá [no Rio], porque aqui também houve um emprego maciço de força. As equipes táticas aqui entraram também! Achei muito parecido. 20

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