Camille Flammarion. Deus na Natureza

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1 Camille Flammarion Deus na Natureza Camille Flammarion - Dieu Dans La Nature Didier Et Compagnie, Ledoyen Paris (1867) William Turner - Arco Íris Conteúdo resumido Esta é uma das mais significativas obras clássicas do Espiritismo e, sem dúvida, a obra-prima de Camille Flammarion. O autor apóia-se em princípios da natureza para demonstrar a existência de Deus. Entre os assuntos magnos, tratados com alta visão, contam-se: ateísmo, força e matéria, idéia inata e Deus, instinto e inteligência, leis do Universo e origem dos seres. São estudos que transmitem conhecimentos basilares aos espíritas. Revelando profundo conhecimento científico, Flammarion utiliza, na presente obra, os próprios argumentos científicos dos materialistas (sobre Biologia, Fisiologia, Antropologia, Botânica, etc.), para demonstrar a existência do Ser Soberano, criador e sustentador do Universo. Por esse motivo, a obra poderia, perfeitamente, ser também denominada Deus na Ciência. 1

2 Sumário Introdução...3 Primeira Parte A Força e a Matéria Posição do Problema O Céu A Terra...49 Segunda Parte A Vida Circulação da Matéria A Origem dos Seres Terceira Parte A Alma O Cérebro A Personalidade Humana A Vontade do Homem Quarta Parte Destino dos Seres e das Coisas Plano da Natureza - Construção dos Seres Vivos Plano da Natureza - Instinto e Inteligência Quinta Parte Deus

3 Introdução Destina-se esta obra a representar o estado atual dos nossos conhecimentos precisos, sobre a Natureza e o homem. A exposição dos últimos resultados a que atingiu a inteligência humana no estudo da Criação é, ao nosso ver, a verdadeira base sobre a qual se há de fundar doravante toda a convicção filosófica e religiosa. Em nome das leis da razão, tão solidamente justificadas pelo progresso contemporâneo e por força dos inelutáveis princípios constituintes da lógica e do método, pareceunos que só através das ciências positivas deveremos prosseguir na pesquisa da verdade. Se temos, de fato, a ambição de chegar pessoalmente à solução do maior dos problemas; se estamos sôfregos de atingir, por nós mesmos, uma crença na qual encontremos repouso e pábulo de vida; se nos anima, ao demais, o legítimo desejo de transmitir ao próximo a consolação que já encontramos; não temamos nunca afirmá-lo ser na ciência experimental que devemos procurar os elementos de cognição, só com ela devendo marchar. O cepticismo e a dúvida universal imperam no âmago de nossa alma e nosso olhar escrutador, que nenhuma ilusão fascina, vigila na cripta dos nossos pensamentos. Não nos despraz que assim seja. Não lastimemos que Deus não nos houvesse tudo revelado ao criar-nos, dando-nos contudo o direito de discutir. Essa prerrogativa do nosso ser é ótima em si mesma, como condição maior de progresso. Mas, se o cepticismo nos atalaia vigilante, também a necessidade de crença nos atrai. Podemos duvidar, certo, sem por isso nos isentarmos do insaciável desejo de conhecer e saber. Uma crença torna-se-nos imprescindível. Os espíritos que se vangloriam de não a possuírem são os mais ameaçados de cair na superstição ou de anularse na indiferença. O homem tem, por natureza, uma necessidade tão imperiosa de firmar-se numa convicção, particularmente quanto à existência de um coordenador do mundo e da destinação dos seres que, quando não encontra uma fé satisfatória, experimenta a 3

4 necessidade de se demonstrar a si mesmo que esse Deus não existe e busca, então, repousar o espírito no ateísmo e no niilismo. Diga-se, também, já não ser a questão que ora nos apaixona, a de sabermos qual a forma do Criador, o caráter da mediação, a influência da graça, nem discutir, tampouco, o valor de argumentos teológicos. A verdadeira questão é saber se Deus existe ou não. Note-se que, em geral, a negativa é patrocinada pelos experimentalistas da ciência positiva, enquanto a afirmativa se ampara nos indivíduos estranhos ao movimento científico. Qualquer observador atento pode, ao presente, apreciar no mundo pensante duas tendências diametralmente opostas. De um lado, químicos ocupados em tratar e triturar, nos seus laboratórios, os fatos materiais da ciência moderna, por lhes extrair a essência e quinta-essência, a declararem que a presença de Deus jamais se manifesta em suas manipulações. Doutro lado, teólogos acocorados entre poeirentos manuscritos de bibliotecas góticas compulsando, folheando, interrogando, traduzindo, compilando, citando e recitando versículos dogmáticos, e declarando, com o anjo Rafael, que da pupila esquerda à pupila direita do Padre-Eterno medeiam trinta mil léguas de um milhão de varas, cada qual equivalente a quatro e meia vezes o comprimento da mão. Queremos crer que de ambos os lados haja boa fé, que os segundos, como os primeiros, estejam animados do propósito de conhecer a verdade. Pretendem os primeiros representar a Filosofia do século 20, enquanto os segundos guardam, respeitosos, a do século 15. Os primeiros, passam por Deus sem O ver, como o aeronauta que sulca o espaço celeste, enquanto os segundos focalizam um prisma que retrai a imagem, colorindo-a. O observador imparcial e independente que procura explicarlhes suas tendências contrárias, admira-se de os ver obstinados no seu sistema particular e pergunta a si mesmo se será verdadeiramente impossível interrogar, de um modo direto, este vasto Universo e chegar a ver Deus na Natureza. 4

5 Por nós, isentos de qualquer sectarismo, sentimo-nos à vontade em equacionar o problema. Diante do panorama da vida terrestre; no âmbito da Natureza radiosa à luz do Sol, beirando mares bravios ou fontes múrmuras; entre paisagens de Outono ou florações de Abril; tanto quanto no silêncio das noites estreladas, temos procurado Deus. A Natureza, interpretada com a Ciência, foi quem no-lo demonstrou num caráter particular. De fato, Ele está nela, visível, como a força íntima de todas as coisas. Temos considerado na Natureza as relações harmônicas que constituem a beleza real do mundo e, na estética das coisas, encontramos a manifestação gloriosa do pensamento supremo. Nenhuma poesia humana se nos figurou comparável à verdade natural, e o Verbo eterno nos falou com mais eloqüência nas mais modestas obras da Natureza, do que o pudera fazer o homem com seus cantos mais pomposos. Seja qual for a oportunidade dos estudos que este trabalho objetiva, não esperamos agradar a toda a gente, certo de haver muitos incapazes de acordar do seu sono e outros tantos a quem longe estamos de lhes corresponder aos pendores. Acusa-se de indiferentismo a nossa época. A acusação é merecida. Onde estão, com efeito, os corações palpitantes de puro amor à verdade? Em que alma perguntamos ainda reina a fé? Não diremos, já, a fé cristã, mas uma crença sincera, seja no que for. Aonde se vão os tempos em que as forças da Natureza, divinizadas, recebiam homenagens universais? Tempos nos quais o homem, contemplativo e deslumbrado, saudava com fervor a potência eterna e manifesta na Criação? Que é feito daqueles tempos em que os homens eram capazes de derramar o sangue por um princípio, quando as repúblicas tinham à sua testa um ideal e não uma ambição? Quem se lembra dos tempos em que o gênio de um povo, esculpido em Notre Dame ou em São Pedro de Roma, ajoelhava-se e pedia, conchegado aos seus muros de pedra? Que é feito da virtude patriótica dos nossos antepassados a- brindo as portas do Panteão para acolher as cinzas dos heróis do 5

6 pensamento, e relegando à noite do olvido a falsa glória da ociosidade e das almas? Não coremos de o confessar, já que temos a franqueza de suportar um tal aviltamento: saturados de egoísmo, nossa alma não alimenta outra ambição que a do interesse pessoal. Riqueza cuja origem permanece equívoca, louros surpreendidos, antes que conquistados, uma doce quietação, uma profunda indiferença pelos princípios, quem não verá nisso o nosso galardão? À parte, contudo, fora do mundanismo empolgante e rumoroso, vivem os que não se conformam em baixar a fronte diante da hipocrisia. Esses trabalham na solidão e esquadrinham em silenciosa meditação os abismos da Filosofia e, se se mantêm fortes, é porque não se atrofiam ao contacto das sombras. Na verdade, é um contraste penoso de assinalar, quando vemos que o progresso magnífico, sem precedentes, das ciências positivas, que a conquista sucessiva do homem sobre a Natureza, ao mesmo tempo em que tão alto nos elevaram a inteligência, deixaram resvalar o sentimento a níveis tão baixos. Doloroso sentir que, enquanto por um lado a inteligência mais demonstra a sua capacidade, extingue-se por outro lado o sentimento, e a vida íntima da alma mais se embota na geena da carne. A causa da nossa decadência social (passageira, de vez que a História não pode mentir a si mesma) deve-se à nossa falta de fé. A primeira hora deste nosso século 1 marcou o derradeiro alento da religião de nossos pais. Baldos serão quaisquer esforços de restauração e reconstrução. Tudo o que se fizer não passará de simulacro, pois o que está morto não pode ressurgir. O sopro de uma revolução imensa passou sobre as nossas cabeças deitando por terra nossas velhas crenças, mas, entretanto, fecundando um mundo novo. Estamos, ao presente, atravessando a fase crítica que precede a toda renovação. O mundo progride. É em vão que homens políticos e homens eclesiásticos imaginam, cada qual do seu lado, prosseguir na representação do passado, num proscênio em ruínas. Impossível impedir que o progresso nos conduza a todos para uma fé superior, que ainda não possuímos, mas para a qual já caminhamos. E essa fé não será outra que a convicção científi- 6

7 ca da existência de Deus; numa escalada à verdade pelo estudo da Criação. É preciso ser cego, ou ter interesse em iludir-se a si e aos outros (quantos neste caso se encontram!), para não ver e não ajuizar a nossa atualidade pensante. Foi por ter a superstição matado o culto religioso, que nós o menosprezamos e abandonamos. E foi porque as características do verdadeiro se nos revelaram mais claramente, que a nossa alma aspira a um culto mais puro. E não foi senão por se haverem afirmado diante de nós os imperativos da justiça, que hoje reprovamos institutos bárbaros, tais como a guerra, que, ainda recentemente, recebia a homenagem dos homens. É, enfim, porque o pensamento rompeu os grilhões que o prendiam à gleba, que não mais admitimos, de boamente, quaisquer tentativas que nos aproximem de qualquer espécie de servilismo. Nada obstante, há em tudo, e sempre, um progresso. Na incerteza, porém, em que ainda permanecemos, entre as perturbações que nos agitam, a maior parte dos homens, ao perceberem que as suas impressões e tendências esbarram fatalmente na inércia do passado, ou se afastam silenciosos se lhes sobra força e coragem de o fazerem, ou se deixam arrastar na corrente geral, pela atração vigorosa da fortuna. É nas épocas críticas que as lutas se intensificam, intermitentes, sobre os eternos problemas cuja forma varia à feição dos tempos, a revestirem-se de um aspecto característico. Nesta nossa época de observação e experimentação, os materialistas procuram apoiar-se em trabalhos científicos e pretendem deduzir da ciência positiva o seu sistema. Os espiritualistas, em geral, acreditam, ao invés, poderem pairar acima da esfera experimental e assomar aos píncaros da razão pura. Ao nosso ver, o espiritualismo para triunfar deve medir-se com o adversário no mesmo terreno e com as mesmas armas deste. Ele não perderá nada do seu caráter, condescendendo em baixar à arena, e nada terá a recear nessa justa com a ciência experimental. As lutas empenhadas e os erros a combater longe estão de se tornarem perigosos para a causa da verdade. Com o exigirem um 7

8 exame mais rigoroso das questões versadas, essas lutas nos ensejam a preparação de uma vitória mais completa. A Ciência não é materialista, nem pode servir ao erro. Como e por que, pois, haveriam de temê-la o espiritualismo e a verdadeira religião? Duas verdades não se podem opor a uma terceira. Se Deus existe, sua existência não poderia ser suspeitada nem combatida pela Ciência. Para nós, temos a convicção íntima de que, muito pelo contrário, no estabelecimento de conhecimentos exatos sobre a construção do Universo, sobre a vida e o pensamento, propiciase atualmente o único método eficiente ao aclaramento do problema. Só assim poderemos saber se devemos admitir a soberania da matéria universal ou se importa reconhecer uma inteligência organizadora, um plano e um destino imanentes. Tal, pelo menos, a forma por que o debate se nos apresenta e impõe à mente, neste nosso trabalho. Esperamos que esta tentativa de versar a existência de Deus pelo método experimental aproveite ao progresso de nossa época, por estar de acordo com as suas tendências características. Ficaremos satisfeitos se a leitura deste livro deixar cair uma fagulha luminosa nos espíritos indecisos. Mais ainda, se depois de haver meditado fundo estes nossos estudos, alguma fronte se levantar cônscia de sua legítima dignidade. Se, regra geral, os ideólogos franceses não têm aplicado o método científico aos problemas da filosofia natural, em compensação alguns sábios trataram o assunto do ponto de vista das relações gerais manifestadas no mundo e que lhe constituem a unidade viva. Com prazer assinalamos, entre as obras deste gênero, os diversos trabalhos do Sr. A. Langel, aqui mesmo utilizados várias vezes. Problemas da Natureza e problemas da vida não conduzem eles, efetivamente, ao máximo problema? Examinar as forças ativas no organismo universal não será o mesmo que examinar as diversas modalidades da força essencial e original? As investigações que focalizam o estudo da Natureza podem aproveitar à Filosofia com maior segurança, às vezes, do que os 8

9 tratados ou os ditirambos especialmente consagrados à Metafísica. Os próprios escritos dos senhores Moleschott e Büchner nos ofereceram elementos de refutação. A circulação da vida, qual a expõe o primeiro, mostra na vida uma força independente e transmissível, dirigindo os átomos, mediante leis determinadas e conforme o tipo das espécies. O exame da Força e da Matéria estabelece, por outro lado, a soberania da Força e a inércia da Matéria. Sendo a Força e a extensão os primeiros princípios do conhecimento, e sendo a Filosofia a ciência dos princípios, poderia esta obra ser considerada antes como um estudo filosófico, se não houvéssemos resolvido limitar-nos a uma discussão puramente científica. Este, efetivamente, o seu fim precípuo e que, por bem dizer, oferece mais atrativos, mau grado à aridez aparente do trabalho. Pensamos que o único meio eficaz de combater o negativismo contemporâneo é voltar contra ele o materialismo científico e utilizar as suas próprias armas para derrotá-lo. Esse discrime compete antes à Ciência que à Filosofia. A Ideologia, a Metafísica, a Teologia, mesmo a Psicologia, dele se afastaram quanto possível. Nós não razoamos com palavras, mas com fatos. As verdades significativas da Astronomia, da Física e da Química, como da Fisiologia, são, de si mesmas, as defensoras intrépidas da realidade essencial do mundo. Por mais difícil que à primeira vista pareça a refutação científica do Materialismo contemporâneo, nossa posição é belíssima, desde que nos colocamos no mesmo plano dos nossos adversários. E nesta guerra eminentemente pacífica, estamos, de antemão, seguros da vitória. Basta-nos, com efeito, de vez que o inimigo está em falsa posição, descobrir a fraqueza dessa posição e desequilibrá-lo. O método é simples e infalível, tão seguro que não o escondemos: deslocado o centro de gravidade, sabe qualquer mecânico 9

10 que o individuo colhido de surpresa cai, imediatamente, a procurá-lo no solo. Eis o quadro que se nos vai deparar. Críticos houve que pretenderam ver em nosso método laivos de sorriso e um tanto de ironia. Não podemos ser juiz em causa própria, mas, ainda que a a- cusação tivesse fundamento, não nos caberia culpa alguma e sim, e só, aos acontecimentos, nos quais o grotesco teria momentaneamente empanado o sério, graças aos adversários tantas vezes arrastados às conseqüências mais curiosas. Referindo-nos à forma, devemos pedir ao leitor acredite, que, se por acaso tratarmos mais asperamente um que outro adversário, não é a nós que a falta deve ser imputada, visto não utilizarmos esses recursos extremos senão nos casos (muito freqüentes talvez para eles) em que os adversários se obstinam em não se deixarem vencer. Somos, então, bem a nosso pesar, levados a feri-los com uma tática mais rude, forçando-os a convir, pelos argumentos irresistíveis do mais forte, que são eles de fato os mais fracos nesta guerra de princípios. De resto, não há necessidade de acrescentar que são sempre esses princípios que atacamos, e nunca a personalidade dos que os advogam. Assim, considerando-se a índole mesma da questão, exclusas ficam as pessoas do campo de batalha. Além disso, em consciência, não acreditamos pratiquem os adversários o materialismo absoluto o dos seus interesses e das paixões egoístas e, portanto, não temos outra intenção que discutir as suas teorias. Dividiremos nossa argumentação geral em cinco partes, no intuito de demonstrar em cada uma a proposição diametralmente contrária à sustentada pelos eminentes advogados do ateísmo. Assim, na primeira, lidaremos por estabelecer, preliminarmente, pelo movimento dos astros e depois pela observação do mundo inorgânico terrestre, que a Força não é atributo da Matéria, mas, ao contrário, a sua soberana, a sua causa diretora. Na segunda parte verificaremos, pelo estudo fisiológico dos seres, que a vida não é propriedade fortuita das moléculas que a compõem e sim uma força especial a governar átomos, conforme 10

11 o tipo das espécies. O estudo da origem e progressão das espécies também aproveitará à nossa doutrina. Na terceira parte observaremos, examinando as relações do pensamento com o cérebro, que há no homem algo mais que a matéria e que as faculdades intelectuais distinguem-se das afinidades químicas. A personalidade da alma afirmará o seu caráter e a sua independência. A quarta evidenciará na Natureza um plano, uma destinação geral e particular, um sistema de combinações inteligentes, no seio das quais o olhar desprevenido não pode deixar de admirar, mediante sadia concepção das causas finais, o poder, a sabedoria e a previdência que coordenam o Universo. A quinta parte, enfim, como centro de convergência das vias precedentes, nos colocará na posição científica mais favorável para julgar simultaneamente a misteriosa grandeza do Ente Supremo e a cegueira inconteste dos que fecham os olhos para se convencerem de que Ele não existe. O verdadeiro título desta obra deveria ser: A contemplação de Deus através da Natureza. Há alguns anos que se anuncia, como estando no prelo, este trabalho e nós lhe temos modificado várias vezes o título, que, de início era puramente científico. (Da Força, no Universo.) Acabamos, finalmente, por nos fixarmos neste. Sem dúvida, um título não tem essencial importância para que o autor se explique tão formalmente a respeito. Mas, no caso vertente, julgamos útil declarar desde logo que todos quantos vissem nas quatro palavras da capa a expressão de uma doutrina, errariam completamente. Aqui não há panteísmo, nem dogma. Nosso objetivo é expor uma filosofia positiva das ciências, que, em si mesma, comporta uma refutação não teológica do materialismo contemporâneo. É, talvez, imprudentíssima ousadia o tentar assim uma senda isolada, entre os dois extremos, que sempre aliciaram poderosos sufrágios; mas, de vez que nos sentimos impelidos e sustentados por uma convicção particular, tanto quanto por ardente amor a um novo aspecto da verdade, podemos, porventura, resistir ao impulso interior que nos inspira? 11

12 Ao leitor compete examinar a obra e decidir se alguma ilusão nos seduz e se nos oculta, sob o prestígio da verdade. Não podemos, todavia, eximir-nos de confessar que, desde que lemos em Augusto Comte que a Ciência aposentara o Pai da Natureza e acabava de reconduzir Deus às suas fronteiras, agradecendo os seus serviços provisórios sentimo-nos algo ofendidos com a vaidade do deus-comte e nos deixamos empolgar pelo prazer de discutir o fundo científico de semelhante pretensão. Verificamos, então, que o ateísmo científico é um erro e que a ilusão religiosa é outro erro. (De passagem digamos, o Cristianismo nos parece ainda esotérico.) Nossos atuais conhecimentos da Natureza e da vida nos representaram a idéia de Deus sob um prisma cujo valor a teodicéia, como o ateísmo, não podem menosprezar. Aos nossos olhos, o homem que nega simplesmente a existência de Deus e o que definiu esse Desconhecido e lhe debita em conta a explicação embaraçante, são ambos criaturas ingênuas, equivalentes na erronia. Mas também não compete nos engajarmos aqui assim no método antinômico e, sobretudo, não queremos revestir-nos de aparências misteriosas. Entremos, portanto, sem mais detença no âmago do assunto, declarando que nos esforçamos por explanar com a mais sincera independência o que acreditamos ser a verdade. Possam estes estudos ajudar a escalada na trilha do conhecimento, a quantos tomam a sério a sua passagem pela Terra e o progresso da Humanidade. Paris, Maio

13 Primeira Parte A Força e a Matéria 1 - Posição do Problema SUMÁRIO Papel da Ciência na sociedade moderna. Sua potência e grandeza. Seus limites e tendências a ultrapassá-los. As ciências não podem dar nenhuma definição de Deus. Processo geral do ateísmo contemporâneo. Objeções à existência divina, inferidas da imutabilidade das leis e da íntima união entre a força e a matéria. Ilusão dos que afirmam ou negam. Erros de raciocínio. A questão geral resume-se em estabelecer as relações recíprocas da força e da substância. O século que vivemos está desde já inscrito com caracteres indeléveis nas páginas da História. A partir dos mais remotos tempos, das velhas civilizações, nenhuma época viu, qual a nossa, esse magnífico despertar do espírito humano, para simultaneamente afirmar os seus direitos e a sua força. O mundo já não é o vale de lágrimas medieval, onde a alma vinha expiar a falta do primitivo pai e, confundindo-se no isolamento e na oração, acreditava conquistar um lugar no paraíso, ciliciando o corpo e cobrindo-se de cinzas. Os frutos da inteligência já não atestam as longas, abstrusas e infindáveis discussões de estéril metafísica, construídas de palitos e escoradas em sutilezas escolásticas, a que se entregaram cegamente poderosos gênios, consagrando-lhes uma preciosa vida de estudos e despercebidos de assim perderem não apenas o seu tempo, mas o de algumas gerações. Lá, onde em murados claustros se concentravam monges e oratórios, ouve-se agora o ruído das máquinas, o ranger das engrenagens e o silvo do vapor das caldeiras combustas. Se as instituições monásticas tiveram o seu papel no período das invasões bárbaras, nem por isso deixou de soar a sua hora extrema, como sucede a todas as coisas perecíveis: o trabalho 13

14 fecundo do operário e do agricultor substitui a decadência senil pela juvenilidade operosa e fecunda. No anfiteatro das Sorbonnes, onde se discutiam exaustivamente os seis dias da Criação, as línguas de fogo da Pentecoste, o milagre de Josué, a passagem do Mar Vermelho, a forma da graça atual, a consubstancialidade, as indulgências parciais ou plenárias, etc., etc., e mil assuntos outros difíceis de profundar, vemos hoje instalar-se o laboratório químico, no ambiente do qual a Matéria se faz docilmente pesar e mensurar; a mesa do anatomista, sobre cujo mármore se desvendam o mecanismo orgânico e as funções vitais; o microscópio do botânico, que surpreende os primeiros, oscilantes passos da esfinge da vida; o telescópio do astrônomo, que deixa entrever, para além dos céus transparentes, o movimento majestoso dos sóis gigantescos, regulados pelas mesmas leis que acionam a queda de um fruto; a cátedra de ensinamento experimental, à volta da qual as inteligências populares vêm grupar suas filas atentas. O próprio globo terrestre transformou-se. Circunavegaramno, mediram-no, e já não haverá Carlos Magnos que pretendam enfeixá-lo na mão. O compasso do geômetra destituiu o cetro imperial. Oceanos e mares, em todas as latitudes, fendem-se ao impulso das quilhas levadas por velas pandas ou pela rotação das hélices potentes e trepidantes. Também dragão flamívomo a locomotiva percorre célere os continentes e, graças ao telégrafo, podemos falar de um a outro hemisfério. O vapor deu vida nova e inesperada a inúmeros motores; a eletricidade nos permite auscultar, num momento e de conjunto, as pulsações da Humanidade inteira. Certo, a Humanidade jamais conheceu fase como esta; jamais se repletou em seu seio, de tanta vida e tanta força; jamais seu coração enviou, com tamanha pujança, a luz e o calor às mais longínquas artérias. Nem nunca o seu olhar se iluminou de um tal clarão. Por mais vastos que se deparem os progressos ainda conquistáveis, nossos descendentes serão sempre forçados a reconhecer que a Ciência deve à nossa época o estribo do seu 14

15 Pégaso e que, embora engrandecendo-se e vendo o Sol ascender ao zênite, brilhante não lhes fora o dia se o não precedera a nossa aurora. Mas, o que à Ciência outorga força e poder, convém sabê-lo, é ter por base de estudo elementos determinados, que não abstrações e fantasmas. Assim é que, na Química, ela investe com o volume e peso dos corpos, examina-lhes as combinações, determina-lhes as relações; na Física, investiga-lhes as propriedades, observa-lhes as relações e as leis que as regem; na Botânica, aborda o estudo das primeiras condições da vida; na Zoologia, acompanha as formas existenciais e registra as funções orgânicas peculiares, os princípios da circulação da matéria nos seres vivos, sua manutenção e metamorfoses; na Antropologia, constata as leis fisiológicas em atividade no organismo humano e determina o papel dos diversos aparelhos que o compõem; na Astronomia, inscreve o movimento dos corpos celestes e daí deduz a noção de leis diretivas universais; e na Matemática, finalmente, formula essas leis e reconduz à unidade as relações numéricas das coisas. Essa exata determinação de objetivo dos seus estudos é que dá valor e autoridade à Ciência. Aí temos como e porque a Ciência se engrandece. Mas, esses títulos também lhe acarretam um imperioso dever. Se, deslembrada dessa condição de poderio ela se desvia desses objetivos fundamentais para divagar no vácuo imaginário, perde simultaneamente o seu caráter e a sua razão de ser. E, desde então, os argumentos que pretende impor, nesses domínios exorbitantes do seu alcance e finalidades, deixam de ter valor científico, e mais ainda do que isso, porque ela se desqualifica e já não pode reivindicar o nome de ciência. Tornase, por assim dizer, em soberana que acaba de abdicar e não é mais a ela que se ouve, mas aos sábios que peroram, o que nem sempre é a mesma coisa. E estes sábios, seja qual for o seu valor, já não serão mais intérpretes da Ciência, uma vez operando fora da sua esfera. Ora, esta é, precisamente, a situação dos defensores do Materialismo contemporâneo, aplicando a Astronomia, a Química, a 15

16 Física, a Fisiologia, a problemas que elas não podem resolver. E note-se que tais sábios não só constrangem essas ciências a responderem a problemas que lhes escapam à alçada, como ainda as torturam, quais pobres servas, para que confessem a seu mau grado, e falsamente, proposições de que jamais cogitaram. São, assim, inquisidores do fato, e não da palavra. Mas, dessarte, não é a Ciência, é um simulacro de ciência que manejam. Nas seguintes controvérsias, demonstraremos que esses cientistas se encontram absolutamente fora da Ciência, que se enganam e nos enganam, que os seus raciocínios, deduções e conseqüências são ilegítimos e que no seu louco amor por essa virginal ciência eles a comprometem simplesmente e chegariam a lhe alienar de todo a estima pública, se não houvesse o cuidado de mostrar que, ao invés da realidade, eles não possuem dela mais que uma ilusória sombra. A circunstância mais penosa e a razão predominante que nos impelem a protestar contra as explorações de um falso rótulo radicam-se ao fato de estarmos vivendo um tempo em que se sente, ou pelo menos se pressente, universalmente, o papel e a finalidade da Ciência. Compreende-se que fora dela é que não há salvação e que a Humanidade, tanto tempo balouçada no oceano do ignorantismo, só tem um porto a proejar o da terra firme do saber. Também por isso, o espírito público se volta, convicto e esperançoso, para a Ciência. Tantas provas de seu poder e riqueza tem ele recebido, de um século a esta parte, que se predispôs a acatar-lhe, com simpatia e reconhecimento, todos os ensinos e teorias. Mas, nisso está, precisamente uma armadilha para o Espiritualismo. É que um certo número de cultores da Ciência, que a representam ou que se fazem dela intérpretes, ensinam falsas e funestas doutrinas. Os espíritos sôfregos e despercebidos, que procuram em seus livros os conhecimentos de que necessitam, absorvem neles um tóxico pernicioso e suscetível de lhes destruir no âmago uma parte dos benefícios do saber. Eis porque se impõe sobrestar um tão deplorável arrastamento, aliás, tendente a universalizar-se. 16

17 Eis porque se torna absolutamente indispensável discutir essas doutrinas e demonstrar que longe estão elas de entrosar na Ciência, com tanto rigor e facilidade, quanto pregoam, mas, ao invés, que são o produto grosseiro de pensamentos sistemáticos, que, perpetuamente voltados sobre si mesmos, têm a ilusão de se crerem fecundados pela Ciência, embora do radioso sol que ela simboliza não hajam recebido mais que um tênue raio desviado de sua direção natural. Há umas tantas questões profundas que, no curso da vida humana, nas horas de silêncio e solitude, se nos apresentam como outros tantos pontos de interrogação, inquietantes e misteriosos. Tais os problemas da existência da alma, do seu futuro destino, da existência de Deus e das suas relações com a Criação. Vastos e imponentes problemas, estes nos envolvem e dominam em sua imensidade, pois sentimos que nos aguardam, e na ignorância deles não poderemos razoavelmente alienar um tal ou qual temor do desconhecido. Assim é que, já o dizia Pascal, um desses problemas o da mortalidade da alma é tão importante, que é preciso haver perdido toda a consciência para ficar indiferente ao conhecimento de si mesmo. O mesmo se poderá dizer quanto à existência de Deus. Quando meditamos essas verdades, ou apenas na possibilidade da sua existência, elas nos aparecem sob aspecto tão grandioso que a nós mesmos interrogamos como podem criaturas inteligentes, seres racionais, pensantes, entregar-se uma vida inteira a interesses transitórios, sem se abstraírem uma que outra vez da sua apatia para atender a essas interrogativas preciosas. Se é verdade, qual o temos observado, que há neste mundo homens absolutamente indiferentes, que jamais sentiram a magnitude desses problemas, menos não é que eles nos inspiram verdadeira piedade. Aqueles que, no entanto, mais agravam a bruteza da indiferença e, de caso pensado, desdenham alçar-se ao nível destes assuntos importantes, preferindo-lhes os doces gozos da vida material, esses, declaramo-lo em alto e bom som nós os deixamos sem pesar, entregues à sua inércia, para considerálos fora da esfera intelectual. 17

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