A Iniciativa das Américas, lançada em Miami, em Dezembro de 1994, por ocasião da Cimeira de Chefes de Estado e de Governo das Américas não deixava

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1 INTRODUÇÃO 1

2 A Iniciativa das Américas, lançada em Miami, em Dezembro de 1994, por ocasião da Cimeira de Chefes de Estado e de Governo das Américas não deixava antever a amplitude nem as repercussões que viria a ter, não apenas nos Estados Unidos da América (EUA) e nos países da América Latina, mas também e, quiçá sobretudo, na constituição de blocos de âmbito continental. Aquela Iniciativa constituiu a recuperação de uma proposta feita pelo Presidente George Bush (pai) em 27 de Junho de 1990, poucos dias após a abertura de negociações entre os EUA e o México para a criação do North American Free Trade Agreement (NAFTA), em reacção ao impasse das negociações do Uruguay Round. A Iniciativa das Américas é um projecto de natureza comercial, tendo em vista englobar num espaço económico único, até 2005, os 34 países das Américas, com excepção de Cuba. A concretização do referido espaço económico traduzir-se-á, na prática, no prolongamento do NAFTA, que desta feita passará a estender-se desde o Alasca, no Norte, até à Terra de Fogo, no extremo Sul da Argentina, constituindo o mais amplo bloco comercial do mundo, com mais de 800 milhões de pessoas, gerador de trocas superiores a dois biliões de dólares anuais. As consequências de tal empreendimento, consubstanciado na criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), afiguram-se de grande importância para a generalidade das economias latino-americanas, em virtude de serem economicamente mais pequenas relativamente à do grande país do Norte. A isto acrescem as respectivas implicações na União Europeia (UE) e no futuro dos actuais espaços económicos da América Latina, particularmente no Mercado Comum do Sul (Mercosul). Considerando o peso das relações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia e também a rivalidade comercial que tem caracterizado as relações comerciais entre os EUA e o agrupamento europeu, a criação da ALCA tem gerado grande inquietude, quer nos países do Mercosul, quer na UE e na generalidade dos países que a integram. Neste trabalho propomo-nos demonstrar que a criação da ALCA implicará prejuízos económicos para a União Europeia não só em razão dos vultosos investimentos comunitários já realizados no Mercosul que serão substituídos pelos 2

3 dos EUA, mas também dos fluxos comerciais entre os dois agrupamentos que sofrerão forte retracção; concomitantemente verificar-se-á uma perda de peso económico e político da UE em detrimento do fortalecimento dos EUA naquela região. Propomo-nos também provar que a constituição de uma área de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul serve tanto os interesses comunitários nos domínios económico e político acima referidos, como é determinante para a própria sobrevivência do Mercosul e para os interesses dos seus países, designadamente do Brasil, que assim poderá continuar a afirmar-se como potência sub-regional menos sujeita à forte pressão económica e política dos EUA. Neste contexto, trata-se de uma abordagem eclética (Gilpin, 2002), na medida em que se procuram identificar as razões económicas e políticas que determinam a aproximação da União Europeia e do Mercosul numa área de comércio livre, bem como aqueloutras razões que concorrem para a formação ALCA; por fim avaliamos as consequências económicas e políticas que resultam da concretização dos dois projectos de integração. No quadro das referidas dinâmicas vamos dar particular atenção às relações económicas entre os países ibéricos e os países da América Latina, com especial destaque nos investimentos efectuados por Portugal no Brasil a partir da segunda metade dos anos 90, atendendo ao significado que a sua expressão quantitativa e qualitativa tem assumido no contexto das relações entre os dois povos. A análise que se faz ao desempenho das economias ibéricas no Mercosul e à de Portugal em particular, tem em vista provar que a intensidade de tais relações vaticinam maior intercâmbio após o estabelecimento de uma área de comércio livre entre a UE e o Mercosul e levam-nos a concluir do interesse politico-económico destes países e da UE em criar um espaço de integração económica. No tocante às possíveis consequências da ALCA no sistema internacional, abordar-se o seu efeito na formação dos designados super-blocos de comércio e da consequente redefinição da Tríade de Kenichi Ohmae 1, questionando-nos sobre como se processarão as relações comerciais e políticas entre os super-blocos e os blocos de menor dimensão e sobre o papel que ficará reservado aos países em 1 Ohmae (1989) referiu que a CEE, EUA e o Japão constituíam a Tríade da economia mundial; esta Tríade é agora redefinida passando a ser constituída pela UE alargada, pelo NAFTA e pelo Japão juntamente com os NICs asiáticos. 3

4 desenvolvimento, tendo em conta o seu atraso económico relativamente aos países industrializados. Face ao exposto, este trabalho enquadra-se no domínio da economia política internacional, particularmente na área da integração. Quanto à metodologia adoptada privilegiou-se a análise qualitativa e quantitativa. Os dados foram recolhidos em publicações de universidades e instituições nacionais e internacionais, recorrendo-se também à Internet para obter os dados mais recentes publicados por essas instituições. As maiores dificuldades encontradas relacionam-se com a informação inconsistente com que por vezes nos deparámos, as quantificações em moedas diferentes e por vezes inexistência de dados capazes de permitirem a demonstração directa das nossas proposições. No primeiro capítulo faz-se uma breve abordagem às teorias económicas e políticas da integração. A revisão das teorias das áreas de comércio livre e das uniões aduaneiras decorem do seu interesse para o presente trabalho, quer por causa da ênfase com que tratamos a integração UE-Mercosul e ALCA (que visam criar áreas de comércio livre), quer em razão da referência que constitui o aprofundamento do modelo europeu para os dois processos de integração acima referidos (assente na formação de uma União Aduaneira). No tocante às teorias económicas da integração, tratam-se as causas e os efeitos que derivam do fenómeno integracionista, designadamente os efeitos criação e desvio de comércio, pois servirão de referência para análise destes efeitos na eventual formação de uma área de comércio livre UE-Mercosul e da ALCA. Analisam-se também os efeitos decorrentes da proximidade geográfica nas relações comerciais entre os países da União Europeia e do Mercosul, particularmente no que respeita aos países ibéricos, para concluir que os laços históricos, linguísticos e outros anulam em muitos casos o efeito distância geográfica quanto à intensidade das relações comerciais entre países. No segundo capítulo caracterizam-se os diferentes movimentos regionalistas do pós-guerra, bem assim como os diversos tipos de regionalismo, com incidência no designado regionalismo financeiro. Pretendemos por uma lado salientar a importância do regionalismo europeu no contexto da integração económica e no surgimento das duas vagas de regionalismo. Por outro lado pretendemos enfatizar a importância do regionalismo financeiro, dada a crescente pertinência dos movimentos de capitais, particularmente aqueles que assumem a forma de 4

5 investimento directo estrangeiro, e dada a sua conexão com as trocas comerciais, designadamente no contexto das relações UE-Mercosul. O terceiro capítulo aborda a integração dos países em desenvolvimento, especialmente os da América Latina. As razões principais deste capítulo fundam-se, por um lado, nos efeitos que a constituição da ALCA pode provocar nos países latino-americanos, países em níveis diferenciados de desenvolvimento e nos investimentos ibéricos naquela região. Por outro lado, considerando o grande número de PVD na América Latina questiona-se o seu posicionamento no sistema internacional no caso de virem a concretizar-se a constituição de três super-blocos continentais (UE, ALCA e Japão em conjunto com os NICs asiáticos). O quarto capítulo centra-se no impacto da integração europeia no regionalismo americano e no seu alargamento a Sul para a constituição da ALCA, salientando-se os prejuízos da criação da ALCA, tanto para a UE como para os países do Mercosul, particularmente para o Brasil. A nossa proposição é a de que a criação de uma área de comércio livre UE-Mercosul é fundamental para impedir que os EUA assumam maior poder económico e político, não apenas na região, mas também no sistema político-económico internacional. Esta maior integração económica que preconizamos, não deve no entanto prejudicar o relacionamento UE- EUA. A cooperação transatlântica, apesar de ter sofrido algumas vicissitudes decorrentes do derrube do Muro de Berlim, não pode ser menosprezada pois há interesses comuns aos EUA e à Europa que devem prevalecer. O quinto capítulo assume grande significado, por estar na origem da motivação para o presente trabalho. É aqui que expandimos sobre a criação de uma área de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul e suas repercussões. Sendo estreitas e intensas as relações comerciais entre a União Europeia e o Mercosul, a nossa proposição é a de que um eventual fracasso na criação da projectada área de comércio livre entre os dois agrupamentos traduzir-se-ia em enormes prejuízos para a generalidade dos países europeus, com particular relevo para os países ibéricos. Tal fracasso facilitaria, por outro lado, o alargamento do NAFTA a toda a América Latina, provocando um desequilíbrio acentuado no sistema internacional entre o poder económico dos EUA e o da União Europeia, situação que argumentamos não é do interesse da UE. 5

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