Marco Conceitual de Educação de Jovens e Adultos. Aprendizagem ao longo da vida para sociedades sustentáveis e responsabilidade global

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1 Marco Conceitual de Educação de Jovens e Adultos Aprendizagem ao longo da vida para sociedades sustentáveis e responsabilidade global

2 Eliane Ribeiro (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio - Coordenadora) Diógenes Pinheiro (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio) Miguel Farah Neto (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio) Severine Macedo (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio) Timothy Ireland (Universidade Federal da Paraíba UFPB - Colaborador Especial) Rosilaine Fonseca (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - Unirio - Pesquisadora assistente)

3 Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações. (Carta da Terra, 2000) 3

4 Apresentação A Fundação Vale tem a educação como um dos principais pilares de sua atuação social, com base na premissa de que o ensino gratuito e de qualidade é um direito de todos os cidadãos. No âmbito da Educação de Jovens e Adultos (EJA), o Brasil passou nas últimas décadas por um processo de amadurecimento que provocou uma transformação na compreensão sobre as questões centrais que envolvem essa modalidade de ensino. Dentre elas, estão na linha de frente das ações a defesa do direito de todos à educação ao longo da vida e a construção das identidades de jovens e adultos como sujeitos de conhecimentos e aprendizagens. Por isso, a Fundação Vale considera fundamental contribuir para a estruturação da Educação de Jovens e Adultos nos municípios onde a Vale está presente. Com isso, aumentam-se as chances de retorno aos estudos de pessoas que, por diversas questões sociais, evadiram da escola regular. Além disso, educar para o fortalecimento do Estado Democrático de Direito e para a construção de uma sociedade mais justa, equitativa e democrática fazem parte dos objetivos da Fundação. Este material, fruto da escuta dos municípios envolvidos em projetos de EJA da Fundação Vale nos últimos anos Canaã dos Carajás, Açailândia e São Luís, foi realizado em parceria com professores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e integra os esforços para o fortalecimento da EJA. São reflexões sobre a nossa atuação e apresentam as orientações sobre formas de atuação social que fortaleçam as políticas públicas para a Educação. Esperamos que esse material contribua para o fortalecimento dessa modalidade de ensino em nosso país. Desejamos também, que seja fonte de apoio e inspiração na busca por novas estratégias que levem à redução da evasão escolar e à desconstrução de estereótipos, por meio de metodologias que valorizem sempre os saberes e as trajetórias pessoais desses alunos. Boa Leitura! Fundação Vale 4

5 O objetivo deste documento é expor um conjunto de fundamentos conceituais que devem orientar o trabalho desenvolvido pela Fundação Vale na área da Educação de Jovens e Adultos. O marco conceitual norteador, aqui apresentado, é uma etapa importante do processo de elaboração da agenda de desenvolvimento da Fundação, no sentido de dar continuidade e fomentar as ações públicas de Educação de Jovens e Adultos EJA implementadas e apoiadas pela instituição, no âmbito dos compromissos da sua Responsabilidade Social, com ênfase nos territórios em que atua. 1Introdução Para tanto, propõe-se um debate sobre os referenciais que configuram o campo da EJA, com a finalidade de revelar, reforçar e atualizar conceitos, metodologias e princípios de abordagens que possam produzir suportes para novas práticas (e vice-versa), reafirmando, sobretudo, que a educação é um processo dinâmico, ao longo da vida, em permanente construção, em constante movimento, impactando e sendo impactado por complexas dimensões da vida social e que, portanto, necessita ser sistematicamente repensado. Nessa direção, expõe-se o debate contemporâneo sobre os temas em questão, disputando sentidos em torno do que é a Educação de Jovens e Adultos no Brasil hoje, reconhecendo a complexa e rica diversidade do país. Assim, reúnem-se aqui, esforços no sentido de alinhar conceitos, compromissos e desafios no âmbito da atuação de uma instituição como a Fundação Vale, que tem operado na área educacional com o propósito de promover a educação integral, identificando oportunidades de aprendizagem que contribuam para o engajamento e o protagonismo da comunidade e das famílias no seu desenvolvimento. O objetivo é perseguido por meio da promoção da leitura e do livro, da melhoria dos espaços de educação infantil e do fortalecimento da Educação de Jovens e Adultos (Relatório de Sustentabilidade, Vale, 2016). A Fundação atua há mais de 15 anos com a modalidade de Educação de Jovens e Adultos, buscando, principalmente, potencializar projetos e práticas que tenham como meta a elevação da escolaridade e a ampliação da cidadania, na perspectiva da inclusão educacional, nos territórios em que a instituição opera em parceria social com o setor público, no caso, prioritariamente, as Redes de Ensino locais, em especial, as Secretarias Municipais de 5

6 Educação, responsáveis diretas pela garantia do direito público da educação e parceiras basilares para a formação de novos conceitos e valores. A opção em investir na modalidade de Educação de Jovens e Adultos responde não só a uma expressiva demanda dos municípios como, também, à constatação de que a baixa escolaridade impacta todos os setores da vida social, incidindo fortemente nos processos produtivos e na vida comunitária. Nesse sentido, a Fundação Vale tem buscado criar suportes para a consolidação de uma institucionalidade qualificada no âmbito da Educação e, sobretudo, na EJA, seguindo os princípios estabelecidos pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394/96) e pelo Plano Nacional de Educação (2014/2024). A Fundação Vale tem procurado apoiar as políticas públicas de Educação, na perspectiva de desempenhar, de forma dialógica, a sua Responsabilidade Social, com a preocupação central em aliar o desenvolvimento econômico, humano e social. Acredita-se, de tal modo, que esse é o caminho para efetivar-se uma ação mais eficiente, buscando gerar processos de sustentabilidade das ações e incentivando formas mais integradas de gestão, na expectativa de delinear uma articulação intersetorial que potencialize a EJA nesses territórios. Nesse sentido, a parceria central devem ser os governos, por meio de seus órgãos de educação e seus projetos políticos-pedagógicos. Cabe ainda destacar, que os conceitos aqui expostos estão alinhados com os objetivos divulgados pelo Relatório de Política Global de Sustentabilidade de 2016 da Vale: estabelecer diretrizes e princípios para a sustentabilidade em nossos projetos e operações, explicitando o compromisso com a vida em primeiro lugar e a nossa responsabilidade social, ambiental e econômica e a missão anunciada de transformar recursos naturais em prosperidade e desenvolvimento sustentável, na perspectiva de ser a empresa de recursos naturais global número um em criação de valor de longo prazo, com excelência, paixão pelas pessoas e pelo planeta; como também com os resultados dos debates realizados pela Fundação Vale, no Seminário Educação de Jovens e Adultos: suas concepções, práticas e institucionalidade na perspectiva da articulação intersetorial, que ocorreu em São Luís do Maranhão, entre os dias 06 e 07 de junho de 2017, reunindo especialistas, gestores, professores e estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). 6

7 O marco conceitual foi pensado, prioritariamente, a partir da necessidade de se construir uma identidade para a Educação de Jovens e Adultos implementada e apoiada pela Fundação Vale. Assim, optou-se em pensar a EJA na relação com questões que possam contribuir para a formação de sujeitos e comunidades no âmbito do debate sobre Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, sobretudo, pela atualidade dessa temática no mundo em que vivemos. 2Princípios Dessa forma, o marco conceitual está focado na implementação de uma EJA cidadã, na qual o debate crítico sobre esse paradigma constitui o núcleo do trabalho educativo, formando homens e mulheres que impactem seus grupos sociais como partícipes da construção desse horizonte de sociedade pautado no sentido da defesa, recuperação e melhoria do meio ambiente e da qualidade de vida de todos. Isto porque a educação das novas gerações passa, necessariamente, por uma educação capaz de influenciar, compreender e formar os sujeitos no âmbito desses novos paradigmas. Com essas preocupações, a EJA deve inaugurar e impulsionar debates sobre as distintas realidades socioambientais, locais e globais, e ações voltadas à aprendizagem participativa sobre desenvolvimento, meio ambiente e qualidade de vida, tendo como referência uma concepção ampla de Desenvolvimento Sustentável, que faz sentido direto para as populações que vivem nas regiões de atuação da empresa. Vale ressaltar o fato de que essa visão sobre Sustentabilidade já se encontra ancorada em um amplo debate público, consubstanciado nos marcos legais que normatizam a educação brasileira. Entretanto, apesar do amplo arcabouço legal existente, a concretização da perspectiva das Sociedades Sustentáveis e da Responsabilidade Global ainda permanece pouco difundida, muito mais presente no discurso do que na prática e, portanto, demanda investimento em ações capazes de materializar seus propósitos. Nesse sentido, são abordados, a seguir, conceitos e debates pertinentes à delimitação de programas, estratégias e políticas de Educação de Jovens e Adultos comprometidos com a aprendizagem ao longo da vida, na perspectiva das Sociedades Sustentáveis e da Responsabilidade Global, capazes de afirmar os valores que regem esse paradigma. 7

8 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB (Lei 9394/1996) Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do aluno, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. 2º O poder público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si. 3º A educação de jovens e adultos deverá articular-se, preferencialmente, com a educação profissional, na forma do regulamento. (Incluído pela Lei nº , de 2008) Art. 38. Os sistemas de ensino manterão cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular. Plano Nacional de Educação PNE (2014/2024). Lei nº /2014 Diretrizes: Art. 2 X - Promoção dos princípios do respeito aos direitos humanos, à diversidade e à sustentabilidade socioambiental. Meta 9: elevar a taxa de alfabetização da população com 15 (quinze) anos ou mais para 93,5% (noventa e três inteiros e cinco décimos por cento) até 2015 e, até o final da vigência deste PNE, erradicar o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% (cinquenta por cento) a taxa de analfabetismo funcional. Estratégias: 9.1) assegurar a oferta gratuita da educação de jovens e adultos a todos os que não tiveram acesso à educação básica na idade própria; 9.2) realizar diagnóstico dos jovens e adultos com ensino fundamental e médio incompletos, para identificar a demanda ativa por vagas na educação de jovens e adultos; 9.3) implementar ações de alfabetização de jovens e adultos com garantia de continuidade da escolarização básica; 9.4) criar benefício adicional no programa nacional de transferência de renda para jovens e adultos que frequentarem cursos de alfabetização; 8

9 9.5) realizar chamadas públicas regulares para educação de jovens e adultos, promovendo-se busca ativa em regime de colaboração entre entes federados e em parceria com organizações da sociedade civil; 9.6) realizar avaliação, por meio de exames específicos, que permita aferir o grau de alfabetização de jovens e adultos com mais de 15 (quinze) anos de idade; 9.7) executar ações de atendimento ao (à) estudante da educação de jovens e adultos por meio de programas suplementares de transporte, alimentação e saúde, inclusive atendimento oftalmológico e fornecimento gratuito de óculos, em articulação com a área da saúde; 9.8) assegurar a oferta de educação de jovens e adultos, nas etapas de ensino fundamental e médio, às pessoas privadas de liberdade em todos os estabelecimentos penais, assegurando-se formação específica dos professores e das professoras e implementação de diretrizes nacionais em regime de colaboração; 9.9) apoiar técnica e financeiramente projetos inovadores na educação de jovens e adultos que visem ao desenvolvimento de modelos adequados às necessidades específicas desses (as) alunos (as); 9.10) estabelecer mecanismos e incentivos que integrem os segmentos empregadores, públicos e privados, e os sistemas de ensino, para promover a compatibilização da jornada de trabalho dos empregados e das empregadas com a oferta das ações de alfabetização e de educação de jovens e adultos; 9.11) implementar programas de capacitação tecnológica da população jovem e adulta, direcionados para os segmentos com baixos níveis de escolarização formal e para os (as) alunos (as) com deficiência, articulando os sistemas de ensino, a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, as universidades, as cooperativas e as associações, por meio de ações de extensão desenvolvidas em centros vocacionais tecnológicos, com tecnologias assistivas que favoreçam a efetiva inclusão social e produtiva dessa população; 9.12) considerar, nas políticas públicas de jovens e adultos, as necessidades dos idosos, com vistas à promoção de políticas de erradicação do analfabetismo, ao acesso a tecnologias educacionais e atividades recreativas, culturais e esportivas, à implementação de programas de valorização e compartilhamento dos conhecimentos e experiência dos idosos e à inclusão dos temas do envelhecimento e da velhice nas escolas. Meta 10: oferecer, no mínimo, 25% (vinte e cinco por cento) das matrículas de educação de jovens e adultos, nos ensinos fundamental e médio, na forma integrada à educação profissional. Estratégias: 10.1) manter programa nacional de educação de jovens e adultos voltado à conclusão do ensino fundamental e à formação profissional inicial, de forma a estimular a conclusão da educação básica; 10.2) expandir as matrículas na educação de jovens e adultos, de modo a articular a formação inicial e continuada de trabalhadores com a educação profissional, objetivando a elevação do nível de escolaridade do trabalhador e da trabalhadora; 10.3) fomentar a integração da educação de jovens e adultos com a educação profissional, em cursos planejados, de acordo com as características do público da educação de jovens e adultos e 9

10 considerando as especificidades das populações itinerantes e do campo e das comunidades indígenas e quilombolas, inclusive na modalidade de educação a distância; 10.4) ampliar as oportunidades profissionais dos jovens e adultos com deficiência e baixo nível de escolaridade, por meio do acesso à educação de jovens e adultos articulada à educação profissional; 10.5) implantar programa nacional de reestruturação e aquisição de equipamentos voltados à expansão e à melhoria da rede física de escolas públicas que atuam na educação de jovens e adultos integrada à educação profissional, garantindo acessibilidade à pessoa com deficiência; 10.6) estimular a diversificação curricular da educação de jovens e adultos, articulando a formação básica e a preparação para o mundo do trabalho e estabelecendo inter-relações entre teoria e prática, nos eixos da ciência, do trabalho, da tecnologia e da cultura e cidadania, de forma a organizar o tempo e o espaço pedagógicos adequados às características desses alunos e alunas; 10.9) institucionalizar programa nacional de assistência ao estudante, compreendendo ações de assistência social, financeira e de apoio psicopedagógico que contribuam para garantir o acesso, a permanência, a aprendizagem e a conclusão com êxito da educação de jovens e adultos articulada à educação profissional; 10.10) orientar a expansão da oferta de educação de jovens e adultos articulada à educação profissional, de modo a atender às pessoas privadas de liberdade nos estabelecimentos penais, assegurando-se formação específica dos professores e das professoras e implementação de diretrizes nacionais em regime de colaboração; 10.11) implementar mecanismos de reconhecimento de saberes dos jovens e adultos trabalhadores, a serem considerados na articulação curricular dos cursos de formação inicial e continuada e dos cursos técnicos de nível médio. 10.7) fomentar a produção de material didático, o desenvolvimento de currículos e metodologias específicas, os instrumentos de avaliação, o acesso a equipamentos e laboratórios e a formação continuada de docentes das redes públicas que atuam na educação de jovens e adultos articulada à educação profissional; 10.8) fomentar a oferta pública de formação inicial e continuada para trabalhadores e trabalhadoras articulada à educação de jovens e adultos, em regime de colaboração e com apoio de entidades privadas de formação profissional vinculadas ao sistema sindical e de entidades sem fins lucrativos de atendimento à pessoa com deficiência, com atuação exclusiva na modalidade; 10

11 3.1 Desenvolvimento e sustentabilidade: a sociedade que queremos Todos nós sabemos que a nossa época é profundamente bárbara, embora se trate de uma barbárie ligada ao máximo de civilização. Penso que o movimento pelos direitos humanos se entronca aí, pois somos a primeira era da história em que teoricamente é possível entrever uma solução para as grandes desarmonias que geram a injustiça contra qual lutam os homens de boa vontade à busca, se não mais do estado ideal sonhado pelos utopistas racionais que nos antecederam, mas do máximo viável de igualdade e justiça em correlação a cada momento da história. 3Conceitos e Debates-Chave Para se Pensar a EJA (Antônio Candido, 2011). Pensar a EJA com relação ao desenvolvimento sustentável e à responsabilidade global é pensar o desenvolvimento como garantia da ampliação das capacidades individuais e coletivas, centrado na ideia de que homem e natureza são parte de um mesmo ecossistema e que as atividades econômicas devem partir do princípio de preservação do meio ambiente e de geração de oportunidades equânimes para todos. Do mesmo modo, sustentabilidade implica estimular solidariedade, igualdade e respeito aos direitos humanos, valendo-se de estratégias democráticas e da interação entre as culturas, ou seja, a EJA na perspectiva da Educação para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. O debate sobre desenvolvimento ganha novos contornos a partir da metade do século XX, quando os efeitos da industrialização se apresentam na forma da desigualdade social e da destruição ambiental, que se tornariam as agendas mais importantes também do século XXI. Tal quadro levou a se rever a importância atribuída a certos fatores que definiam o modelo vigente, tanto no que se refere à relação entre os homens quanto à relação homem/natureza. O conceito de desenvolvimento deixa de estar associado unicamente a crescimento econômico e passa a incorporar, progressivamente, indicadores de bem-estar social e cuidado com o meio ambiente. Trata-se de uma mudança paradigmática que é consequência de inúmeros fatores, desde lutas sociais e avanços da ciência até a maior conscientização planetária, passando a estar associado à expansão das capacidades e liberdades individuais e coletivas. Como afirma o economista indiano Amartya Sen, ganhador 11

12 do Prêmio Nobel (1998), saímos de uma visão restrita para uma visão ampliada de desenvolvimento, pois o enfoque das liberdades humanas contrasta com visões mais restritas de desenvolvimento, como as que identificam desenvolvimento com crescimento do Produto Nacional Bruto, aumento das rendas pessoais, industrialização, avanço tecnológico ou modernização social (2000, p. 17). Refletir sobre o desenvolvimento sob a perspectiva das liberdades e capacidades humanas significa considerar que a liberdade está na base do processo de desenvolvimento e o seu resultado é a expansão das liberdades individuais e coletivas. Liberdade pensada como livre expressão do pensamento, livre manifestação da palavra e possibilidade irrestrita de associação e organização coletiva visando o Bem Comum. A circularidade que envolve a associação entre liberdade e desenvolvimento é, assim, proposital, pois a liberdade está no início e no final de qualquer processo de desenvolvimento. Para existir desenvolvimento, não apenas crescimento econômico, é necessário que os indivíduos usufruam de um ambiente pleno de liberdade, pois aí se encontram os principais meios para o desenvolvimento, presente na promoção das capacidades individuais, cujo principal fim é a expansão das liberdades existentes para todos. Nesta perspectiva, cabe à sociedade prover os meios necessários, em termos da oferta de educação, saúde, segurança social etc., capazes de influenciar as possibilidades de o indivíduo viver melhor. A dissociação entre crescimento e desenvolvimento começa a se manifestar no debate público em 1972, no relatório do Clube de Roma, intitulado Os limites do Crescimento, pioneiro ao alertar sobre a crescente desigualdade e destruição geradas pelo crescimento econômico. Reunindo intelectuais, cientistas de diversas áreas do conhecimento e lideranças mundiais, o Clube de Roma tornou-se o primeiro movimento a chamar a atenção para o caráter global da questão ambiental e da necessidade de se pensar em modelos de desenvolvimento sustentável. Conforme a própria ideia de globalização foi se consolidando, o debate sobre a relação entre desenvolvimento e sustentabilidade foi adquirindo novos contornos, onde a preservação da natureza deixava de ser uma questão secundária, vinculada a uma agenda progressista de alguns grupos sociais, e se articulava às estratégias de enfrentamento da desigualdade social, sempre agravada pelas crises ambientais ou pela exploração predatória dos recursos naturais, questões que afetam enormes contingentes populacionais em todo o mundo. O debate sobre sustentabilidade adquiriu ampla visibilidade quando da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (UNCHE), realizada pela ONU no ano de 1972, em Estocolmo. No Brasil, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a ECO-92, que teve lugar em 1992, no Rio de Janeiro, veio fortalecer a associação entre a agenda ambiental e a agenda do desenvolvimento, colocando a necessidade do enfrentamento das desigualdades sociais que marcam o país. A abertura de horizontes promovida por essa conferência ressoaria no desenho de inúmeras estratégias voltadas para o combate dos problemas ambientais e vulnerabilidades sociais. Em comum a todas elas, está o papel preponderante atribuído à educação, nas suas múltiplas formas, como ferramenta essencial de reversão da desigualdade, de promoção da sustentabilidade e do desenvolvimento. Em 2012, 20 anos após a RIO ECO-92, a ONU organizou a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio + 20, reafirmando uma série de princípios que buscam colocar o mundo em um caminho mais sustentável e resiliente, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), com base nos avanços dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). No encontro elaborou-se a Agenda 2030, que consiste em um plano de ação para as pessoas, o planeta e a prosperidade. A Agenda é composta por uma Declaração, 17 Objetivos 12

13 de Desenvolvimento Sustentável (os ODS) e suas 169 metas, bem como uma seção sobre meios de implementação e de parcerias globais, e um roteiro para acompanhamento e revisão. Os ODS foram adotados por 193 paísesmembros das Nações Unidas, inclusive o Brasil, na Cúpula de Desenvolvimento Sustentável, em setembro de No entanto, a despeito de todo o conhecimento acumulado, os últimos relatórios mundiais que tratam do meio ambiente alertam para o muito que ainda deve ser feito para se alcançar patamares sustentáveis de vida no planeta e as estratégias implementadas até então parecem surtir efeitos restritos. Assim, os desafios continuam: como combinar crescimento econômico e justiça social gerando um desenvolvimento sustentável? Desse modo, considerando a natureza da Fundação Vale e sua responsabilidade com a formação de sociedades socialmente justas e ambientalmente equilibradas, que conservam entre si relação de interdependência e diversidade, no respeito a todas as formas de vida, a contribuição significativa está na construção de uma EJA centrada no desenvolvimento sustentável, entendido como um processo de aprendizagem permanente, por toda a vida, articulado com um conjunto de instituições e pessoas que vivem e atuam em cada território. 13

14 Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável 17 objetivos do desenvolvimento do sustentável Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio Objetivo 1. Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. Objetivo 2. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável. Objetivo 3. Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. Objetivo 4. Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Objetivo 5. Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Objetivo 6. Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos. Objetivo 7. Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos. Objetivo 9. Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação. Objetivo 10. Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles. Objetivo 11. Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Objetivo 12. Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis. Objetivo 13. Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos (*) 18 Objetivo 14. Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. Objetivo 15. Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade. Objetivo 16. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. Objetivo 17. Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável. (ONU, 2012) Objetivo 8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos. 14

15 3.2 Território: Nosso quadro de vida É a partir da realidade local que precisa ser exercitada constante e continuadamente nossa solidariedade sincrônica e diacrônica, ou seja, a solidariedade com a manutenção e melhoria da vida de todas e todos os que agora compartilham este planeta e com aqueles que ainda virão a habitá-lo. (Sorrentino, Portugal e Viezzer, 2009) O desenvolvimento sustentável concretiza-se em um determinado território, onde vivem ou circulam seus sujeitos. Um território que, como bem destacou o geógrafo Milton Santos (1987), para além de seus atributos físicos, se caracteriza por ser nosso quadro de vida, um espaço de relações, construído pelos diversos grupos sociais que ali produzem sua existência. Portanto, a Educação de Jovens e Adultos deve ser pensada e implementada nessa direção. O direito ao território, ou seja, ao desenvolvimento pleno da vida naquele espaço traduzido em acesso ao trabalho, à moradia, à educação, à saúde, ao transporte e ao lazer, entre outros torna-se uma questão fundamental para aqueles que se encontram em posição de desvantagem, como é o caso da quase totalidade dos estudantes da EJA. Portanto, as desigualdades de acesso e usufruto do território, da mesma forma que a precariedade de seus equipamentos sociais, constituem mecanismos de exclusão de grande parte de seus habitantes. Como afirma o geógrafo Rogério Haesbaert (2004), a cidadania é, também, uma questão territorial, mas uma questão de territórios exclusivos e de territórios excludentes. Qualquer possibilidade de mudança nesse quadro passa, necessariamente, pela consideração do enfoque territorial na implementação de ações pautadas na intersetorialidade e na diversidade, pois é no território que se conectam os diferentes setores, serviços e atividades de cuja integração depende a viabilidade de tais políticas. Nesse caminho a Educação ganha profunda relevância, sobretudo, por não poder ser concebida de forma isolada, devendo ser pensada na relação com outros setores da vida social e na integração com demais políticas públicas. Do ponto de vista pedagógico, conforme aponta Jacobi (2003), há que se investir na ampliação e na interdependência dos conhecimentos de que o educando necessita para melhor compreender a complexidade que caracteriza a constituição do território e nele poder atuar: o entendimento sobre os problemas ambientais se dá por uma visão do meio ambiente como um campo de conhecimento e significados socialmente construído, que é perpassado pela diversidade cultural e ideológica e pelos conflitos de interesse. Jacobi ressalta a urgência de se refletir sobre os desafios que se colocam para mudar as formas de pensar e agir em relação à questão ambiental, sobretudo numa sociedade como a brasileira, na qual o aumento da população nas áreas urbanas se associa a uma crescente degradação das condições de vida. Tal perspectiva sugere um processo educativo que reconheça e aborde o território a partir da ótica desses jovens e adultos, educandos e educadores, considerando a história e a cultura de cada lugar, suas vulnerabilidades e potencialidades, os diferentes habitantes e suas relações, reconhecendo e valorizando as diferentes culturas que compartilham um mesmo território. A Educação de Jovens e Adultos tem um papel fundamental na ampliação do universo cultural do território, contribuindo decisivamente para o processo de afirmação, apropriação e usufruto do mesmo por seus sujeitos. Tal educação fundamento do marco conceitual deve afirmar valores e ações que cooperem para a transformação humana e social e para a preservação dos territórios. Para tanto, é necessário formar os sujeitos para uma responsabilidade 15

16 individual e coletiva em níveis local, nacional e planetário, investindo na relação entre o ser humano, a natureza e o universo, de forma interdisciplinar, estimulando a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, priorizando aspectos primordiais relacionados ao desenvolvimento sustentável, tais como educação, população, saúde, paz, direitos humanos, consumo, detritos, cuidado da flora e fauna etc. (Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, ECO-92) Nos territórios localizados nas áreas de influência da Vale, essa perspectiva é de fundamental importância, no sentido de potencializar ainda mais os resultados de suas intervenções sociais, visto que suas ações impactam os territórios onde atua e por eles são igualmente impactadas. Para tanto, conforme recomenda a UNESCO, a construção de uma agenda territorial, com distintos setores da sociedade, e a formação de comunidades de aprendizagem constituem importantes estratégias de conexão. O conceito de Comunidades de Aprendizagem diz respeito a um conjunto de práticas educativas que extrapolam os limites da escola, envolvendo toda a comunidade no processo de formação de seus indivíduos. Aqui, parte-se do princípio de que ninguém se educa sozinho, ou seja, ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo (Freire, 1987). A COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM é um projeto de transformação social e cultural do espaço educativo e de seu entorno para conseguir uma sociedade da informação para todas as pessoas baseada na aprendizagem dialógica mediante uma educação participativa da comunidade que se concretiza em todos seus espaços, incluída a classe. Como território é uma comunidade humana e territorial (urbana ou rural) que assume um projeto educativo e cultural próprio, marcado e orientado para o bem comum, o desenvolvimento local e o desenvolvimento humano, para educar-se a si mesma, às suas crianças, jovens e adultos, graças a um esforço endógeno, cooperativo e solidário, baseado em um diagnóstico não só de suas carências, mas, sobretudo, de suas fortalezas para superar tais carências (Valdéz et al., 2014). 16

17 A AGENDA TERRITORIAL é uma estratégia de ação conjunta do poder público e da sociedade civil em favor da garantia do direito à educação. Instrumento para fortalecer as articulações de alfabetização e de educação de jovens e adultos nos territórios. Mecanismo de apoio para estruturação e institucionalização das ações de educação de jovens e adultos. DIRETRIZES: Promover a articulação entre as demandas sociais e ofertas de políticas públicas e Educação de Jovens e Adultos a educação como ação articuladora das políticas sociais. Estimular a constituição de redes sociais de cooperação visando ao protagonismo dos atores sociais na construção de políticas públicas de Educação de Jovens e Adultos rede que se consubstancia por meio das Comissões Estaduais. Estimular a integração das políticas de educação formal e não formal, no âmbito da política de Educação de Jovens e Adultos. Apoiar processos educativos que favoreçam a produção do conhecimento, sistematização, socialização das experiências, a partir da realidade local e do respeito à diversidade cultural, de gênero, etnia e de ecossistemas. Apoiar experiências inovadoras de Educação de Jovens e Adultos no âmbito da economia solidária e sustentável. Nessa direção, a EJA deve recuperar, reconhecer, respeitar, refletir e utilizar a história dos povos e das culturas locais, assim como valorizar a diversidade cultural, linguística, a memória popular e diferentes formas de conhecimento, sem distinções étnicas, físicas, de gênero, idade, religião ou classe. Deve ajudar a desenvolver uma consciência ética sobre todas as formas de vida com as quais compartilhamos este planeta, respeitar seus ciclos vitais e impor limites à exploração dessas formas de vida pelos seres humanos (Declaração de Hamburgo de Educação de Adultos, Marco da Ação de Belém para a EJA, Unesco, 2010). A partir dessas realidades, devem ser estabelecidas as devidas conexões com a realidade planetária, objetivando a conscientização para a transformação, incentivando a produção de conhecimentos, políticas, metodologias e práticas de educação sustentável em todos os espaços de educação formal, informal e não formal, para todas as faixas etárias. Tal proposta está alinhada com as orientações emanadas da VI Conferência Internacional de Educação de Adultos (VI CONFINTEA UNESCO Belém, 2009). 17

18 3.2.1 A valorização do Campo e do Desenvolvimento Sustentável Considerando as principais áreas de atuação da Fundação Vale, com fortes características rurais, destaca-se no marco conceitual a importância de serem repensadas as singularidades do campo nas ações de EJA. Ao se analisarem as desigualdades territoriais brasileiras, ficam extremamente evidentes as diferenças entre o mundo urbano e o rural, refletidas, de pronto, nos resultados, sujeitos e práticas dessa modalidade educacional. A desigualdade de oportunidades também está presente na EJA, cujo público é majoritariamente fruto da dinâmica excludente da sociedade brasileira. Sendo assim, é fundamental que se tenha um olhar especial para a realidade do campo, considerando que as desigualdades encontradas nos territórios impactam o rural para além do econômico e do social, fixando-se no imaginário de forma a identificar o campo como sinônimo de atraso e desvalorização, em oposição ao meio urbano, o que afeta os diversos processos educativos. Os desdobramentos desta visão impactaram, sobremaneira, as políticas educacionais ou a ausência destas no meio rural durante décadas. Houve, portanto, a construção de uma visão do campo subordinada à cidade, desconsiderando suas profundas transformações e o papel de seus atores sociais. Hoje, com os desafios socioambientais e a ascensão das abordagens etnoecológica e agroecológica, começa a ser reconhecida a importância dos saberes do campo, dos saberes locais, também chamados de tradicionais, para a manutenção de paisagens e sistemas que conservam a biodiversidade e as águas do planeta (Mazzetto Silva, 2012). Noções como desenvolvimento local e desenvolvimento sustentável e solidário têm sido chaves importantes na discussão de um outro olhar para o campo, que atente não somente ao econômico, mas também ao social, ao ambiental e ao cultural e que respeite e promova os saberes locais e historicamente construídos pelos povos que habitam tais territórios. Em tal contexto, as políticas públicas, sobretudo as políticas de Educação de Educação de Jovens e Adultos voltadas para o campo ganham centralidade para a promoção dessa outra visão de desenvolvimento e para a ampliação dos direitos dos sujeitos do campo, historicamente relegados a segundo plano nas políticas educacionais, apesar de alguns avanços, fomentados pela luta dessas populações e pela implementação das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica do Campo a partir da década de 2000 (Resolução CNE/CEB Nº. 01 de 03 de abril de 2002). Educação do Campo A escolaridade média das pessoas com mais de 15 anos no meio rural é de 4,5 anos; no meio urbano, chega aos 7,8 anos e as maiores taxas de analfabetismo estão concentradas em municípios do Norte e do Nordeste brasileiros. Um contingente de 19,8% da população do campo ainda é analfabeto. Tais indicadores apontam para a necessidade de mais e melhores políticas educacionais e para a demanda por iniciativas de educação de jovens e adultos no meio rural, de modo a assegurar o direito à escolarização de sujeitos que não tiveram esta oportunidade em sua idade escolar, por conta das dificuldades de acesso à escola, pelas distâncias percorridas, pela renda e, muitas vezes, por diversas discriminações. 18

19 Taxa de alfabetização da população de 15 anos ou mais de idade Urbana/Rural (Em %) População Urbana 90,5 90,9 91,1 91,3 91,5 92,1 92,4 92,5 92,6 93,5 93,4 93,6 93,7 94,1 Rural 71,3 72,3 72,8 74,2 75,0 75,8 76,7 76,6 77,4 78,8 78,9 79,2 79,9 80,2 Fonte: IBGE/Pnad - Elaboração: Todos Pela Educação. Notas 4, 5 e 6. Os dados de alfabetização da população são autodeclarados. A importância da intersetorialidade na EJA e na educação do campo constitui, também, um desafio permanente. Construir parcerias com outras áreas da gestão pública local e com atores sociais, como os que atuam em saúde, trabalho, agricultura pode contribuir na aprendizagem, mas também na abertura de outras possibilidades de inclusão para os sujeitos do meio rural. Deve-se atentar, ainda, para a relação com o mundo do trabalho como uma dimensão central a ser incorporada. Trabalhar os conteúdos a partir da realidade destes sujeitos deve ser constitutivo das políticas de educação de jovens e adultos. A sustentabilidade e a relação do trabalho com a conservação ambiental podem ser chaves importantes no processo de ensino aprendizagem, pois é a agricultura familiar, camponesa e os povos e comunidades tradicionais que, comprovadamente, constroem uma relação de maior sustentabilidade econômica, ambiental e cultura no campo brasileiro. Portanto, assegurar o enfoque da EJA articulado com o conceito de educação do campo é fundamental. Caldart (2002) afirma que a defesa de uma educação do campo implica duas lutas combinadas: pela ampliação do direito à educação e à escolarização; e pela construção de uma escola que esteja no campo, uma escola política e pedagogicamente vinculada à história, à cultura e às causas sociais e humanas dos sujeitos do campo, não mero apêndice da escola pensada para a cidade. Esses são desafios importantes da ação política e pedagógica da EJA no campo. 19

20 3.3 Intersetorialidade: Articulação necessária para o fortalecimento da EJA No debate aqui apresentado, o termo intersetorialidade aparece de forma recorrente no vocabulário que conforma sentidos e significados da Educação de Jovens e Adultos. Sem dúvida, o termo ganha destaque, quando a ação está sendo proposta por uma instituição social, que reconhece, sobretudo, que o responsável pela Educação de Jovens e Adultos no Brasil é o Poder Público, conforme a LDB. Dessa forma, a intersetorialidade ganha especial relevância para a construção de um marco conceitual para a atuação da Fundação Vale na EJA. A Fundação Vale atualmente tem como principal função dar suporte à construção do legado positivo que a Vale se propõe a deixar nos territórios em que está presente, contribuindo para o desenvolvimento local e para a melhoria da qualidade de vida das comunidades beneficiadas por suas ações e programas sociais voluntários, que buscam uma aplicação mais eficaz e qualificada dos investimentos realizados nos territórios. O desenvolvimento de seus investimentos sociais se apoia em base técnica, buscando obter o máximo de efetividade e legitimidade. O principal referencial é a Parceria Social Público-Privada (PSPP), que pressupõe a união de esforços, recursos e conhecimento da sociedade civil, governos e setor empresarial em torno de uma agenda comum de desenvolvimento territorial. A proposta é que a PSPP seja uma estratégia efetiva para o estabelecimento de uma governança integrada, constituindo-se em um pacto de cooperação para o desenvolvimento territorial, articulando ações e programas de desenvolvimento econômico e social, estruturantes e de longo prazo, por meio da construção de alianças intersetoriais estratégicas. Cabe, então, perguntar: qual o papel e a função social de empresas, como a Vale e Fundações Coorporativas, na garantia de institucionalidade e sustentabilidade dos projetos sociais, no caso a Educação de Jovens e Adultos, em apoio às redes de ensino? De início, cabe notar que nenhuma empresa ou instituição circula sozinha pelo espaço social, ela depende de um conjunto de atores das esferas pública e privada, como de sujeitos individuais e coletivos (funcionários, público-alvo, fornecedores, a comunidade do seu entorno e a sociedade em geral). Em tal processo, esses atores também são dependentes dela, constituindo-se em redes complexas que se atravessam na realidade do dia a dia e nas marcas de cada território. Nesse contexto, traçar um paralelo entre desenvolvimento sustentável, econômico e melhoria das condições de vida da população é fundamental. Incrementar mudanças tecnológicas, por exemplo, depende, diretamente, da educação e da ampliação do universo cultural de toda uma população. Essa ideia-força, que tem circulado pelo campo empresarial, é identificada como desenvolvimento sustentável: social, econômico e ambiental. No que se refere à educação, a baixa escolaridade tem impactado, sobremaneira, a vida social e a economia do país. A desigualdade entre as regiões, as disparidades de renda, os baixos níveis de cidadania e os indicadores de bem-estar podem ser agravados pelo diferencial de escolaridade da população. É fato que as marcas de uma trajetória escolar precária, altos índices de analfabetismo, analfabetismo funcional e baixa escolaridade acabam por oferecer a essa população um campo de atividade restrito e precário, onde apenas sua mão de obra, desvalorizada, explorada e barata, pode ser municiada. Nesse sentido, a escolaridade ganha força e evidência, mas sempre devendo estar relacionada com distintos fatores de vulnerabilidade, como a expectativa de vida e a pobreza dos habitantes, fatores étnico-raciais e de gênero, estrutura etária da população, qualidade da infraestrutura existente, presença/ausência de estímulos ao desenvolvimento e fatores históricos. Deve-se considerar, também, que o impacto da escolarização depende de efeitos da estrutura econômica e ocupacional de um determinado território. 20

21 Contudo, é necessário não esquecer que os sujeitos têm trajetórias de vida multidimensionais, o que torna fundamental voltar a vigilância para fatores que gerem equidade social, como, por exemplo, a melhora dos níveis de escolaridade da população, entrelaçada com um conjunto de outras questões sociais, considerando, especialmente, que mudanças mais estruturantes e permanentes é que podem fazer o país alcançar um desenvolvimento social digno. Nesse sentido, integrar e reunir condições para potencializar ações educativas em um dado território é básico, já que todas as etapas de ensino e de vida (trabalho, cultura, saúde, meio ambiente etc.) estão intimamente conectadas e que todos - poder público, empresas, sociedade civil etc. - têm extraordinário papel e responsabilidade social em construir suportes e alavancar o universo cultural e social das populações. Para tanto, o fomento a Comunidades de Aprendizagem e a construção de Agendas Territoriais podem facilitar a complexa relação entre setores, instituições e organizações governamentais e não governamentais, na perspectiva de construir um mínimo de racionalidade na oferta e implantação de EJA, minimizando, por exemplo, a duplicidade de projetos nos territórios. 21

22 O direito à educação de pessoas jovens e adultas implica, por parte das nações, um maior compromisso para garantir seu pleno cumprimento, com igualdade de oportunidades para todas as pessoas, independentemente da idade, etnia, sexo, capacidades e da área geográfica onde habitam. Este se cumprirá se a educação estiver disponível, se for acessível, se for aceitável, e se responder e dialogar com as especificidades e contextos dos educandos, o que exige debates e o desenvolvimento de melhores políticas públicas de EJA. (Valdés, 2014) 4A Educação de Jovens e Adultos na Perspectiva do Desenvolvimento Sustentável Ao se analisar a trajetória da Educação de Jovens e Adultos no Brasil, é possível identificar avanços importantes na direção de seu reconhecimento como direito para um conjunto expressivo de sujeitos que, por motivos diversos, não tiveram acesso - ou possibilidade de permanência - a um dos bens públicos mais valorizados em nossa sociedade, a educação. Nas últimas duas décadas, a EJA foi incluída nas pautas e agendas governamentais, na legislação (como uma modalidade da Educação Básica, na LDB 9.394/96) e no financiamento público (no Fundeb). Pode-se verificar uma expressiva ampliação da oferta nas redes locais de ensino (municípios e estados), aproximando governos municipais, estaduais e federal, além das organizações não governamentais e dos movimentos sociais, que acumulam longa trajetória de práticas na área. É possível perceber, também, um ganho de quantidade e qualidade na elaboração de propostas e projetos, materiais didáticos (inclusão no PNLD), metodologias e no âmbito da formação inicial e continuada realizada pelas universidades (ensino, pesquisa e extensão). Alguns resultados positivos foram obtidos de forma indireta, como, por exemplo, a percebida mobilidade educacional de muitos professores que vivenciaram distintos programas e projetos de EJA, especialmente aqueles voltados para a alfabetização. Pesquisas recentes têm demonstrado que a participação dos educadores em tais projetos tem acionado novos desejos, demandas e necessidades, inclusive de elevação e qualificação educacional. Outro aspecto de extrema relevância a ser considerado é a ampliação da concepção de EJA para além da alfabetização e escolarização stricto sensu, situando-se na perspectiva do direito à aprendizagem ao longo da vida (V CONFINTEA, Hamburgo, 1997) e no âmbito do 22

23 direito de todos à educação (Jomtien, 1990). Tal concepção está intimamente relacionada com o processo de democratização, que tem pressionando, por meio de um conjunto de lutas sociais, o reconhecimento e a visibilidade, social e política, de distintos grupos e sujeitos, que, historicamente, estiveram à margem dos direitos e, consequentemente, das políticas públicas, dentre eles os sujeitos da EJA. Contudo, apesar de respeitáveis conquistas, é possível observar que, material e simbolicamente, a EJA continua transitando nas margens da educação, ocupando, na tradicional hierarquia do sistema educacional brasileiro, um lugar de pouco valor, o que, sem dúvida, guarda estreita relação com o lugar social dos sujeitos aos quais se destina. A despeito do recorte por idade, ou seja, jovens e adultos - basicamente, não crianças, conforme alerta Oliveira (1999) - esse espeço da educação não diz respeito a reflexões e ações educativas dirigidas a qualquer jovem ou adulto, mas demarca um determinado grupo de pessoas que carregam, de um lado, semelhanças profundas no que se refere a aspectos socioeconômicos, com marcas nas trajetórias educacionais e laborais, mas, de outro, diferenças significativas por conta da diversidade cultural, do capital herdado do grupo social de origem (Bourdieu, 2002) e das diferentes experiências de vida, relacionadas com dinâmicas de inserção e redes de circulação. Nesse sentido, pensar os sujeitos da EJA é trabalhar com e na diversidade, apostando na produção de uma política pública de Estado centrada em sujeitos jovens e adultos, com a expressão de toda essa diversidade. Na EJA, transitam sujeitos e grupos que carregam diferenças e especificidades, como negros, indígenas, pescadores, ribeirinhos, população do campo, mulheres, jovens, idosos, pessoas em privação de liberdade, pessoas com necessidades educacionais especiais, povos tradicionais, populações de periferia urbana, trabalhadores com inserção precária no mercado etc. Designados de forma genérica, são pensados de maneira idealizada pelos projetos educacionais e por seus agentes. É importante conhecer e reconhecer as diferenças para pensar em políticas públicas e abordagens pedagógicas que caibam na vida desses sujeitos. Nesse sentido, há um longo caminho a percorrer para garantir o direito da população à Educação de Jovens e Adultos, que não se pauta na execução de programas isolados e, em muitos casos, descontínuos. Por isso, ganha destaque a construção de uma institucionalidade da EJA. Ou seja, de início, ela precisa existir, efetivamente, para que se possa pensar sobre a relevância de uma oferta qualificada do serviço nos distintos territórios para seus diversos sujeitos. Nessa perspectiva, é preciso agregar esforços junto aos poderes públicos, em corresponsabilidade, para se efetivar tal oferta. Cabe, então, tornar possível a construção de uma ação educativa que promova, entre os seus sujeitos, redes de cooperação, ações que gerem oportunidades de inserção profissional, societária e cultural, como também a participação no processo de gestão. Essa tarefa é de todos: gestores, professores, estudantes, comunidade e empresas. 4.1 A EJA como Aprendizagem ao longo da vida O princípio da educação permanente, que evoluiu para a educação ao longo da vida e que, por sua vez, se tornou aprendizagem ao longo da vida, propagou-se como um princípio organizador para toda a educação, seja ela formal ou não formal. Nesse processo, a práxis da educação de jovens e adultos, como componente integral da aprendizagem e educação ao longo da vida, também adquiriu uma abrangência maior. (Timothy D. Ireland, 2012) 23