TEXTO PARA DISCUSSÃO N9 26 A DETERMINAÇÃO DO LUCRO EM KALECKI: A1:'TÁLISE EMPÍRICA DOS ESTADOS UNIDOS I Ednaldo Araquém da Silva

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1 TEXTO PARA DISCUSSÃO N9 6 A DETERMINAÇÃO DO LUCRO EM KALECKI: A1:'TÁLISE EMPÍRICA DOS ESTADOS UNIDOS I Ednaldo Araquém da Silva Junho de 1986

2 CENTRO DE DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO REGIONAL CEDEPLAR A DETERMINAÇÃO DO LUCRO EM KALECKI: ANÁLISE EMPíRICA DOS ESTADOS UNIDOS, Edna1do Araquém da Si1vé Junho de ],.986

3 A DETERMINACAO DO LUCRO EM KALECKI: ANALISE EMPIRICA DOS ESTADOS UNIDOS ~~ Ednaldo Araquém da Silva ** Apesar do ineresse desperado pela macrodinimica de Kaleck i (veja Migl iol i. i985; ~;awyer. (f8~j). o selj modelo de deermina~~q do lucro nao em sido u il izado na análise de dados de conas nacionais. Tenando minimizar esa lacuna. o objeivo dese rabalho e es imal' a func;:ao de lucl'.ode Kaleck í (1983. pp )para os Esados Unidos no PEríodo pcis guerra a Kaleck i d~senvolveu modelos parcimoniosos. conendo rela jvamene poucos par~meros a serem Es imados, embora com elevado poder explicaivo. o lucro bruo em Kaleck i (1983, p.43) é calculado. a parir da igualdade do Produo Nacional Bruo (PNB). es imado ar~vés da despesa n~cional:.. (i ) P NB - C + w C k + Ei + I + B b e aravés da renda nacional~ ( 1.) P NB == W + p' + D + (T - S ) b (*) Agradeço os comenários de Rodolfo Hoffmann e Alk imar Moura. C**) Professor da GraduaE Faculy, New School for Social Research. Nova Iorque. Professor Visiane no CEDEPLAR/UFMG pela Comissao Fulbrigh.

4 onde: c = consumo dos rabalhadores; w c = consumo dos capial iscas; k G = gasos do governo em bens e servi~os~ I = inves imeno,bruo b B = ransa,~es correnes (menos ransferincias unilaerais); W = remunera,io do rabalho; p' = lucro dos cap i al isas; o = deprecia,io de capial fixo T = ribuos indireos; S = subs{dios. b Igualando (1) e (1') e,supondo que os rabalhadores,., nao im poupança (C = W) verifica-se que o lucro é igual ao consumo w dos capial isas e ao inves imeno bruo, acrescido do défici governamenal em bens e serviços e das r~nsa~~es correnes (menos as ransferincias unilaerais). Porano, em-se uma equa~~o r dedefiniçio do lucro bruo para uma economia abera, incluindo, ambém, o seor públ ico: -onde (1' ) p = : c + k I' p = p' + O e I' = I + (G - T + S) + B. b A equaçio Ci,,) levou ao conhecido diado que 05 rabalhadores gasam o que ganham, enquano os capial isas ganham o que gasam.uassim, os capial isas, como um odo, deerminam seus

5 3 próprios lucros, na medida de seus invesimenos e consumo pespessoa l. De cer o modo, eles são os donos de seu pr.ópr.jo des i no", (Kalecki, 1977, p. 40). A e1ria de lucro de Kaleck;j é semelhane ~ eoria de "widow's cruse" (poe da vijva) de Keynes, referene 1 a par~bola do poe inesgo~ve1 da vijva de Sarepa. Ao conr~rio do enfoque do excedene econbmico (Ricardo, Marx), a eoria de disribui,io de renda de Kalecki considera a remunera,io do rabalho, E nio o lucro dos capial isas, como o resíduo nas conas nacionais (veja Kaldor, 1956, pp ). I<alecki (1983, p. 4U posulou que em um dado período, o consulno dos capialisas consise' em uma consane A e em IJma pare proporcional ao lucro defasado de h períodos. Des.a maneira, em-se.uma equa,io de comporameno, esabelecendo a fun- ~io de consumo dos capial isas: onde () c = I< A > 0 A + q P -h e 0 <: q < i. Inroduz indo () em (i"), pode-se observar que o lljcro dos capial isas é deerminado pelo invesimeno correne E pelo lucr~ no empo - h= (3) P = A + q P -h + r' (1) Refere-se a vi~va que ai imenava E1 ias de um poe inesgo~vel (I Reis, ). De acordo com esa eoria, o lucro bruo al.1menar~ por.uma magniude idin ica ao aumeno do consu~o dos capial isas (Keynes, 1930, pp ; Kaldor,1956, pp.94, 96; Kregel, 1971, pp. 10-).

6 4 A vanagem da expressio (3), com a vari~vel endógena defasada, é ql.1ese em uma eql.lac;:ioe:m di ferenç:as de pr i me ira.o,'dem, possibil iando, assim, a anál ise da e:sabilidadedinâmica do lucro bruo (veja Chiang, 198, pp ). Sabe-se que um sisema com a variável enddgema defasada em propriedade dinâmica, porque a variável endógema correne depe:nde nio somene dos parâmeros, variáveis exógenas, e dos disurbios aleaórios, mas, ambém, de sua hisória passada. Porano, o lucro no período -h é deerminado pe:lo inves ime:no no mesmo período e pelo lucro do período - h, e assim por diane: C3a) p = -h A + q P -h + l' -h C3b) P -h = A + q P -3h + l' -h ec. C3c ) Inroduzindo (3a) e C3b) na (3), obem-se: P = A + qa + q A + + I' + q l' +q -h I' + -h C3d) P = ACi + q + q + ) + lo + q I' + q -h I' + -h Sabe-se que com q posiivo e menor do que: i, a série geomérica (1 + q + q + ) é igual a i/c1 - q), como o mulipl icador de: inves imeno de.keynes. Por-ano, a relaç:io "(3d) ransforma-se: (3e) p = A l' + q i - q lo + q -h l' + -h Posulando-se que o inves"im~no se maném esável por n anos, COR10 Kalecki <l983, p. 4), em-se: C3f) I = 1 -h = I -h =.

7 5 Assim, das equa,&es (3e) e (3~) ob~m a equa~io do lucro bruo, em forma reduzida: (4 ) p = ") :.. m (A + I' ) -h onde presume-se que o mul ipl icador do lucro m = 1/(1 - q) enha o seu valor um pouco maior do que a unidade (Kaleck i, 1977, pp ). A defasagem em (4) nio ~ necessariamene igual a defasagem daequaçio (). Em Kalek i (1983, pp.41-4) a defasagem do consumo dos capial isas em rela~io ao lucro bruo real ~ À e a defasagem do lucro buro real em rela,io ao inves imeno bruo acrescido é w Na sua esimaiva emp(rica, Kalecki (1983, P. 44) escolheu w = 1/4. Na equa,io (4) escolhe-se a defasagem h porque sendo q menor que 1, a s~rie de coeficienes (1 + q + q + ) será decrescene; enio, enre I', I', I', ec, somene os coefi -h -h ciene, rela ivamene prdximos no empo, deerminaria o lucro bruo P (Kalecki, 1983, p. 4). A equa,io (4) foi es imada, u il izando-se os dados anuais para os Esados Unidos do per(odo enre 1947 e Os dados relevanes esio reproduzidos no Apêndice. Todos os dados foram -calculados, usando como deflaor o {ndice impl{cjo dos pre~os dos bens de invesimeno (producers' durable equipmen). Assim, o lucro bruo real mede a capacidade dos capial isas de comprar bens de capial. () Rodolfo Hoffmann, em M i 91 i01 i (1983, pp ), dedljz i u (4) sem o aux{l io de (3f).

8 6 Os resulados econom~ricos da equa~~o (~) foram es"imados com o m~odo ieraivo de Cochrane-Orcur poi~ as es"im~ivas com o m~odo dos mlnimos q1ladrados ordinários r~ye~aram uma fore auocorrela~io nos res{duos (veja Kmenar1978~ PP >~ Desa formar O n~mero de observa~;es se reduz a - h. Na suposi~io de que h = ir com o coeficiene de auocorrela~ão (p> convergido após see iera~;es r ob~m-se os seguines resulados para a regressao do lucro bruo realr após os imposos direos e indireos (com os erros-padrio es imados enre parêneses): s = i33r ir0676 I' P = 0r631 ". -i (68,485) (0riii97) R = 0r9594 DW = 1,7i onde S denoa os valores ajusados do lucro bruo ~eal após os ". imposos direos e indireos. O coeficiene de regressior mas não o inercepar é significai~amene diferenfe de zero ao nlvel de 5~ enquano querme- dido pelo coeficiene de deermina~ão ou R r 96~ da varia~áo do lucro brio realr em orno de sua m~dia, nos Esados Unidos enre.1947 e 1948r esá sendo explicada pela ~egressão do model~ de Kalecki. Pela equa~ão (4}r o mulipl icador que mede ~ efeio da varia~~o do invesimeno no lucro é ~ = i/(1 - q)r sendo que o coeficiene q indica a propor~ão do aumeno do lucro uilizado para o consumo dos capial isas. O valor de qr obido da re-

9 7 gressio, é baixo, comparado com ouras esimaivas. 3 i/(1 - q) = 1,0676; q = 0,0633 Assim, o coeficiene de regressao indica que o aumeno de 1 bilhio de dólares, a pre~os de 198, no nível de inves imeno bruo, faria aumenar o lucro bruo de 1,0676 bllhao de dólares, e o consumo dos capial isas, em 63,3 milh~es de dólares. Mas se o lucro bruo aumenar de 1067,6 milhaes de dólares o consumo dos capial isas aumenar~ 67,6 milh~es. o Gr~fico 1, que reproduz os dados da regressao, compara o compo'rameno da equaç:ao de lucro' de Kaleck i (4) com a sér ie observada de lucro bruo real nos Esados Unidos enre 19A (além do primeiro ano er sido perdido devido a premissa de que h = 1, o segundo ano foi, ambém, perdido pela es imaiva com o méodo iera ivo de Cochrane-Orcu). Aé 1973, o ano da primeira crise do peróleo, o modelo de Kaleck i expl ica basane bem a evoluç:io do lucro bruo~real. Depois desa daa, o lucro bruo real es imado apresena um desvio médio de 3,4% do lucro bruo r.eal observado. Resumindo os resulado, enou-se mosrar que o lucro bruo real é deerminado pelo inves imeno bruo real ac~escido, como foi demonsrado eórica e empiricamene por Kalecki (1983, (3) Durane ~ Grande Depressao nos Esados Unidos, enre 199 e 1940, Kaleck i (1983, p. 4~) es imou q = 0,487, com h = 0,5. Veja, ambém, da Silva (1986) P. 9).

10 8 pp.41-45). O poder expl ica Ivo do modelo de deermina~io db lucro de Kaleck i pode ser medido pelo elevado grau de exp] ica~io da varia~io do lucro bruo real. ao redor de sua m~dia, apds a corre- ~io da auocorrela~ão nos'resld1los, com o coeficiene de expl ica- ~io chegando a 96%. Al~m de expl icar o comporameno do lacro bruo real nos Esados Unidos enl~e.1947 e 1985, a regressao aqui esimada serve para a previsão ou es ima~ao de novos valores do lucro bruo real. APENDICE ESTATISTICO A es ima;ao do Produo Nacional Bruo nos Esados Unidos, arav~s da renda nacional, inclui o erro esaísico (saisical discrepancy) que represena a diferen~a em rela~ão ao produo es imado, com base na despesa nacional. Seguindo Kalecki (1983, p. 141), o lucro bruo depois dos imposos ~ a dif~ren~a enre o PNB ajusado PE.'~Oerro esaísico, mais o.s sllbsídios. menos a somadria da remunera~io do rabalho, dos ribuos indireos e dos ribuos direos sobre o lucro (corporae profis ax). Ainda seguindo Kalecki (1983, p. 43, 141>, o in.vesimeno bruo ~ acrescido do d~fici governamenal em behs e servi- ~os e da balan~a exerna em bens E servi;os. O d~fici governamenal em bens E servi;os ~ igual aos gasos do governo em bens e servi~os, adicionado aos subsldios, menos os ribuos indireos e merios os ribuos direos sobre o lucro.

11 9 o lucro bruo após os ribuos direos e indireos, S e o inves imeno bruo acrescido, I', foram deflacionados pelo {ndice impl (cio dos pre~os dos bens de inves imeno, com o anobase em 198. Todos os dados esio sazonalmene ajusados e provim da publ icaçio anual, Council of Economic Advisors (CEA), Economic Repor of he Presiden, fevereiro de 1986, que incorpora a r visio das Conas Nacionais dos Esados Unidos, descria na revisa Mensal, Survey of Curren Business, dezembro de 1985.

12 10 ABSTRACT In conras wih he l.lsl..lal e:.:egesis fol.lnd in he lieral..lrer Kalecki's profi modp.l has been eslmaed I..lsingU.S. annual daa beween Assl..lming one-year invesmen lag, Kalecki 's model e:-:plains 96:r. of he variaion in real gross U.S. profis in he period analyzed. According o he esimaed profimul ipl ierr one bill ion i98 dol1ars increase in real gross invesmen (augmen~d by he goyernmen and e~ernal deficis) would increase real gross profis by 1.i bill ion dollars and capial is consump ion by 63.3 mil1 ion dol1ars. However, he esimaed profiml..ll ipl ier is fairly low when compared wih Kalecki's own esimae for he U.S. during.he Grea Depression.

13 11 LUCRO BRUTO APÓS OS IMPOSTOS NOS E.U.A., (A preços de 198) B i h o 1008 e s 908 d e 808 d o a r 508 e s Anos

14 1 LUCRO BRUTO APOS OS IMPOSTOS E INVESTIMENTO BRUTO ACRESCIDO DO DEFICIT GOVERNAMENTAL E DA BALAN;A COMERCIAL NOS ESTADOS UNIDOS, (Bilhies de dólares a preços de 198) _.-._ S Obervado b Es imado I' _..._--_._-_... _ ~~56,0 09, ,7 04, ó0,4 406, 09, 1950 :M6,8 330,5 19, ,5 366,7 93, ,6 451,3 316, ,7 434, j. 319, ,3 40,0 97, ,3 397,1 30, ,5 453,6 37, ,5 44,5 33, , 49,1 311, ,4 4,1 39, ,6 463, 38, ,6' 446,9 344, B8,i 473,3 385, ,7 58,8 401, ~i48, : 53,8 49, , ;.;~ 575,6 474, :3 r 3 638,8 519, ,1 670,1 551, _.._...._ _._

15 13 LUCRO BRUTO APOS OS IMPOSTOS E INVESTIMENTO BRUTO ACRESCIDO DO DEFICIT GOVERNAMENTAL E DA BALANCA C~MERCIAL NOS ESTADOS UNIDOS, (BilhoES de dólares a prp.~os de 198) ObSErvado S',. Es imado I' ,6 (:'76, 560, ,6 671,4 583, ,1 693,9 578, ,1 671,7 599, ,3 70, 653, , 804,1 751, ,7 95,1 737, ,3 831, 665, ,4 756,7 68, ,6 841,8 78, ,5 94,5 804, , ,1 849, , ,6 8, ,6 968,1 866, , 1.059,8 80,1 j ,3 943,7 89, , ,6 96, ,4 1.85, 1.007,3 s = P (1 - Z ), onde P denoa o lucro bruo real E Z denga a axa de incidgncia dos ribuos direos sobre o lucro.

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