A Estrutura na Psicanálise de criança

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1 A Estrutura na Psicanálise de criança Maria de Lourdes T. R. Sampaio O que está na cabeça do filho depende de seu desejo 1 Esta frase de Alfredo Jerusalinsky, que se refere à ilusão de alguns pais de que lendo um livro que os ensine sobre crianças, conhecerão o próprio filho, nos remete à contundência da sobredeterminação do significante na constituição do sujeito e seu destino. Em se tratando da Psicanálise com crianças, este saber da incondicional existência de um OUTRO como instância primordial, ali mesmo onde se funda o humano, conduz a questões importantes que estão no lastro da sua clínica: Em que momento a clínica psicanalítica com crianças é passível de produzir efeitos, a partir dos traços que a criança deixou atrás de si, em sua curta existência? O que poderíamos considerar como específico de uma intervenção analítica com crianças? No Projeto para uma Psicologia Científica, texto de Freud rejeitado por ele porque temia ter proposto aí uma psicologia biologizante demais, encontramos o esboço pioneiro da dinâmica das primeiras instaurações do aparelho psíquico. Ao falar sobre a primeira experiência de satisfação, diz Freud: Nesse caso, a estimulação só é capaz de ser abolida por meio de uma intervenção que suspenda provisoriamente a descarga de Q n no interior do corpo; e uma intervenção dessa ordem requer uma alteração no mundo externo (fornecimento de víveres, aproximação do objeto sexual), que como ação específica, só pode ser conseguida através de determinadas maneiras. O organismo humano é, a princípio, incapaz de levar a cabo essa ação específica. Ela se efetua por meio de assistência alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é atraída para o estado em que se encontra a criança... Essa via de descarga adquire assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais. 2 Reconhecendo a preciosidade do PROJETO Lacan o resgata e, a partir do que nele encontra, o ultrapassa, forjando com precisão o conceito de pulsão, até então confundida por Freud com o conceito de necessidade. Ao distingui-los radicalmente, caracteriza a necessidade como orgânica e diz sobre a 1 Jerusalinsk, Alfredo texto: Como a linguagem é transmitida? Revista nº 4 Psicanálise e clínica de bebês Associação Psicanalítica de Curitiba 2 Freud, Sigmund Obras Completas Vol.I Edição Standard Brasileira. 1

2 pulsão: (...) nenhum objeto de nenhum Not, necessidade, pode satisfazer a pulsão. 3 Com Freud aprendemos que são três os tempos da pulsão e com Lacan, que o circuito pulsional se fecha em seu ponto de partida, momento mítico no qual surgirá o outro para o qual a criança se faz objeto. Os desdobramentos da releitura lacaniana desse texto de Freud ampliou consideravelmente as possibilidades da clínica psicanalítica na infância, permitindo acompanhar o movimento dos primeiros tempos da vida de um bebê, no que concerne às inscrições psíquicas. Marcado pelo desamparo e pela solidão, o ser humano ao nascer, expressa com o seu grito o desconforto de uma separação que o retira das entranhas da mãe e o coloca numa nova modalidade de vida, desconhecida e inquietante, a partir da qual será um necessitado de amor, segurança e alimento. Deste momento em diante, será a relação estabelecida com este bebê nos primeiros dias e meses de sua vida, particularmente com a mãe, e depois com o pai e outros parentes, na tentativa de atender as suas necessidades biológicas (necessidades) e psíquicas (pulsionais), que definirá as referências asseguradoras ou não, conferidas ao lactente, que durante muito tempo ficará submetido e dependente dos seus cuidados. É, portanto, em conformidade com as respostas dadas às demandas de um bebê, nesse tempo mítico inicial de sua vida, que poderão surgir patologias que apontem para a exigência e às vezes, urgência, da intervenção psicanalítica precoce, seja no autismo, psicose, neurose ou perversão. Atender demandas para análise de crianças requer o manejo dos instrumentos que a clínica psicanalítica forjou, de maneira particular a clínica lacaniana, para uma intervenção própria a cada estrutura. Sabemos, com Lacan, que a confirmação de uma estrutura psíquica só se define no tempo lógico da subjetivação do sujeito, por volta da adolescência, tomada como o tempo onde o anodamento do Real, Simbólico e Imaginário articula a ordenação dos complexos ideais. No entanto, não é verdade que as crianças que chegam à análise, não apresentem uma posição subjetiva referente às estruturas freudianas ou ao autismo. Nas palavras de Marie-Christine Laznik, o autismo é uma patologia do laço com o outro 4, cujos sinais clínicos principais são o não-olhar entre o bebê e sua mãe, principalmente se a mãe não se apercebe disso, e o fracasso do circuito pulsional. 3 Lacan, Jacques Seminário 11 Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise, pg.159. Jorge Zahar Editor. 4 Laznik, Marie-Christine texto: Poderia a teoria lacaniana da pulsão fazer avançar a pesquisa sobre o autismo? revista nº 4 Psicanálise e clínica de bebês Associação Psicanalítica de Curitiba. 2

3 O olhar materno que constitui o eu e a imagem corporal não se confunde com a visão. Ele é um tipo especial de investimento libidinal que permite aos pais reconhecerem o real do corpo do seu bebê, aureolado pelo que aí se representa 5, bem como escutar os seus balbucios dando-lhes sentido. Fazem parte desse investimento todas as corujices da mãe, que ao reconhecer e tocar amorosamente no corpo do filho, interpretando as mensagens significantes por ele transmitidas, o erotizam, para que assim, ele possa advir como sujeito. No que concerne ao não fechamento do terceiro tempo da pulsão, isto equivale a dizer que não foi atingida a satisfação pulsional, momento indispensável à radical e necessária alienação do ser humano a um Outro, nesse tempo inaugural da vida. Alienação que não acontece num tempo passivo como dizia Freud, mas num tempo de se fazer, como nos diz Lacan. Efetivamente, o bebê que tem uma evolução psíquica saudável, ele se faz olhar, beijar, ouvir, etc, ou seja, ele provoca a atenção da mãe, o seu contato e se delicia com a esperada resposta de um olhar amoroso, de um toque carinhoso, de palavras doces. A criança autista, ao contrário, não instiga e não suporta esse contato, características clínicas que tendem a se acentuar progressivamente. Vale ressaltar que nem sempre, o não-olhar da mãe conduz necessariamente, ao autismo. Podemos, entretanto, afirmar que, inevitavelmente, ele repercutirá em inadequações no estágio do espelho, provocando fendas ou arranhões na unidade corporal na qual se sustenta a relação do bebê com seus semelhantes. Logo, intervir junto a crianças para as quais se supõe uma evolução autística é intervir no laço pais-criança e quanto mais cedo melhor, pois maiores as possibilidades de novas articulações que instaurem ou restaurem, conforme o caso, as estruturas psíquicas básicas. Em se tratando da psicose, a etiologia dos sintomas se altera completamente, embora algumas conseqüências psíquicas se apresentem, nessa estrutura, semelhantes a dificuldades identificadas no quadro autístico, particularmente no que concerne ao estágio do espelho. Na criança que está situada numa psicose infantil, o terceiro tempo pulsional se completa e o bebê se assujeita a esse Outro sem dificuldades. Podemos afirmar que o problema que daí se estabelece, se origina na mãe, que não consegue pôr limites no gozo ao qual esse recém-nascido se oferece e por isso mesmo, não faz uma leitura, ou o faz precariamente, das letras significantes 5 Laznik, Marie-Christine texto: Poderíamos pensar numa prevenção da síndrome autística? Palavras em torno do berço (organizado por Daniele de Brito Wanderley) Editora Ágalma 3

4 transmitidas pelos sons emitidos pelo seu bebê. Compõe-se gradativamente uma relação simbiótica mãe-filho, que impede a entrada em cena, de um terceiro mediador dos desejos circulantes no triângulo edípico o pai simbólico que interditaria a relação incestuosa. O que fracassa então, na psicose, é a Metáfora Paterna, este outro pólo fundamental da subjetivação, fracasso chamado por Lacan, de foraclusão do Nome-do-Pai. É justamente a anulação do significante Nome-do-Pai que Lacan enfatiza ao escolher este termo foraclusão, que na terminologia jurídica de onde provém, significa a abolição simbólica de um direito que não foi exercido no prazo previsto. 6 Essa anulação, que decorre da renegação desse significante no discurso materno, não acontece de uma única vez. Ela só se efetiva se nenhum dos significantes convocados a substituir o significante originário do desejo da mãe se apresentar, o que ensejará a configuração dessa nova realidade psíquica, em que o acesso à dimensão do simbólico estará comprometido. Pensar a psicose nessa perspectiva nos permite orientar com mais pertinência uma intervenção nessa estrutura, no sentido da constituição do sujeito no registro simbólico. Na psicose e no autismo, onde o sujeito está por se constituir, o psicanalista trabalha contra o relógio, vez que na adolescência a estrutura se afirmará no caso da psicose e os prejuízos psíquicos e cognitivos no autismo poderão ter se tornado irreversíveis. Voltemos ao Projeto, no ponto em que Freud explicita a primeira expressão da inserção simbólica no humano. Diz Freud: A totalidade desse processo representa, então, uma experiência de satisfação que tem as conseqüências mais decisivas para o desenvolvimento das funções individuais. (...) Ora, com o restabelecimento do estágio de urgência ou de desejo, a catexia também passa para as duas lembranças, reativando-as. É provável que a imagem mnêmica do objeto seja a primeira a ser afetada pela ativação de desejo. Não tenho a menor dúvida de que no primeiro caso essa ativação de desejo produza algo idêntico a uma percepção, uma alucinação 7. Esta primeira alucinação, decisiva porque fundante do simbólico, é o início do deslizamento metafórico e metonímico criador, que confere sentido à existência humana. 6 Dör, Joel O pai e sua função em Psicanálise. Jorge Zahar Editor- transmissão da Psicanálise. 7 Freud, Sigmund Obras Completas Vol.I Edição Standard Brasileira. 4

5 Agora nos reportaremos ao circuito da trama edípica, e ao fazê-lo, estaremos sempre partindo de um ponto inteiramente distinto daqueles a partir dos quais abordamos o autismo e a psicose, porque estaremos lidando com o sujeito confrontado com a dialética da castração. Quando uma mãe é devidamente marcada pela castração simbólica, a função paterna se faz operar, seja pelos limites impostos por ela mesma ao gozo do filho na sua relação com ele, seja pelo lugar de promotor da lei que confere ao pai, no seu discurso. Lei que ao se inscrever, retira a criança do lugar de objeto para o desejo materno e a faz ascender à condição de desejante. É de acordo com a dialética da atribuição fálica na trama edípica, que a realidade psíquica de cada sujeito se organizará e o fará em estruturas: histérica, obsessiva ou perversa. Estruturas que dizem dos avatares da metáfora paterna que determinam a posição de cada falante, ante a ordem simbólica. Cada família tem uma estrutura própria, marcada de uma anterioridade histórica que se presentifica na repetição de significantes e sintomas, o que Lacan chamou de insistência da cadeia significante. Essa anterioridade é que vai conotar de forma positiva ou negativa as provações da realidade com as quais todas as crianças se defrontam. O conjunto das experiências vividas por uma criança num determinado espaço/tempo da sua vida, desde a sua assumpção subjetiva, constituirá o imaginário a partir do qual estabelecerá seu fantasma e responderá ao Outro, se situando no mundo. Se esse espaço/tempo não se articula pela incoação significante advinda do Outro (pais), que encarnam a função de apontar um lugar para que o sujeito exista, quadros sintomáticos poderão requerer uma intervenção analítica. A análise de crianças acontece concomitantemente às operações que circunscrevem a inserção no simbólico, logo, no tempo da construção da alteridade e do próprio fantasma. A alternativa estrutural presença/ausência, o fort-da de Freud, se apresenta aí concretamente nas brincadeiras e jogos através dos quais elas imaginarizam o objeto e sua topologia, até o momento em que se articula a narrativa do seu lugar no complexo. Isto significa que a referência da intervenção deverá ser a estrutura que se configura, então, na economia da dialética edipiana, e o seu destino será o de fazer um retorno que produza um saber que possibilite desanodar o que ficou preso ao fantasma, através da leitura das letras não decifradas ou esquecidas que irão compor o texto de sua vida. Como muito bem nos diz Lacan: É a carta desviada que nos ocupa, aquela cujo trajeto foi alongado 8, e ainda: Nós nos fazemos emissários de todas as 8 Lacan, Jacques Escritos Jorge Zahar Editor Campo freudiano no Brasil. 5

6 cartas/letras roubadas, que ao menos por algum tempo, ficam conosco en souffrance (à espera,em sofrimento), sem serem retiradas na transferência 9. Esse texto, essas letras, endereçadas a um Outro na transferência, darão estatuto de desejo àquilo que por efeito do automatismo de repetição seria destinado a ouvidos surdos Lacan, Jacques Escritos Jorge Zahar Editor Campo freudiano no Brasil. 10 Bernardino, Leda Mariza Fischer texto: Bases psicanalíticas para uma escuta de bebês e de seus pais, a partir do seminário sobre A carta roubada. Revista nº 4 Psicanálise e clínica de bebês. Associação Psicanalítica de Curitiba 6

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