Educação Integral no Brasil: Avaliação da Implementação do Programa Federal Mais Educação em uma Unidade de Ensino

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1 Educação Integral no Brasil: Avaliação da Implementação do Programa Federal Mais Educação em uma Unidade de Ensino ÁREA TEÓRICA: Psicologia EIXO TEMÁTICO: Lo institucional - análisis/intervención FORMA DE APRESENTAÇÃO: Mesa de Trabajos Libres (MTL) AUTORES: 1. Dinaê Espíndola Martins Graduanda em Psicologia e Estagiária de Psicologia Escolar e Educacional Telefone: +55 (48) Allan Kenji Seki Graduando em Psicologia e Estagiário de Psicologia Escolar e Educacional Telefone: +55 (48) Fábio Henrique Medeiros Bogo Graduando em Psicologia e Estagiário de Psicologia Escolar e Educacional Telefone: +55 (48) Profª. Dra. Denise Cord Instituição: Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina & Coordenadora do Laboratório de Estudos em Educação, Comunidades e Semiótica Social (LECSSO), Florianópolis, SC, Brasil. Telefone: +55 (48)

2 Introdução A perspectiva da Educação Integral no Brasil está sendo foco de inúmeras discussões, que englobam questões importantes acerca da concepção de educação, de escola e de sujeito escolar. Nosso objetivo com esse trabalho é apresentar uma avaliação parcial da implementação do Programa Federal Mais Educação, o qual integra as ações do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), desenvolvido pelo Ministério da Educação (MEC) em parceria com SECAD 1 e DEIDHUC 2. A proposta de avaliar a implementação desta Política Pública surge a partir de uma experiência de estágio em Psicologia Escolar realizada em 2010, onde estudantes de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina buscaram levantar dados para avaliar o alcance das mudanças advindas com o Programa no cotidiano da prática pedagógica e nos processos de ensino e aprendizagem em uma Unidade Escolar específica, alocada no município de São José, Santa Catarina (Brasil). Esta avaliação, portanto, não se propõe a englobar a implementação e o desenvolvimento do Programa Mais Educação a nível nacional, mas apenas a avaliar como se deu este processo em uma Unidade de Ensino do sul do Brasil, analisando as conseqüências estruturais, políticas e pedagógicas advindas desse Programa. Consideraremos, todavia, as especificidades regionais e locais, bem como todas as características próprias da Unidade de Ensino e dos profissionais envolvidos com o Programa Mais Educação nesta escola. Discussão e Avaliação Inicial O Programa Mais Educação, apresentado pelo Governo Federal em 2007, traz como estratégias a ampliação da jornada escolar e a modificação da organização curricular, segundo a perspectiva da Educação Integral. A partir dessa proposta, os alunos permanecem mais tempo na escola, participando de rotinas extra-turno, englobando um total de 7 horas no ambiente escolar, desenvolvendo atividades de apoio pedagógico de disciplinas básicas como português e matemática e extracurriculares como informática, esportes, artes, meio-ambiente, etc (MEC, 2009). 1 SECAD: Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade 2 DEIDHUC: Diretoria de Educação Integral, Direitos Humanos e Cidadania

3 A seleção das escolas atendidas pelo Programa se dá prioritariamente pelas avaliações do IDEB 3 e pelas indicações de regiões de vulnerabilidade social. Com relação aos alunos atendidos, são indicados estudantes do ensino fundamental e médio de escolas públicas do país que apresentam defasagem idade/série, dificuldades relacionadas ao processo de ensino e aprendizagem e riscos de evasão escolar (MEC, 2009). Na Unidade de Ensino analisada neste trabalho, o Programa iniciou-se em 2010 e gerou várias mudanças na rotina escolar, desde a organização dos espaços até a alocação de profissionais. Quatro salas de aula foram direcionadas para a realização do programa, além de outros espaços como salas de dança, quadras de esportes e sala de vídeo e recreação. Vários educadores e demais profissionais e professores foram contratados para desenvolver oficinas no programa. Além disso, uma professora se deslocou integralmente das atividades habituais para fazer frente à coordenação do projeto, já que este propõe que um professor comunitário seja o agente da execução das atividades. Neste espaço escolar, a proposta de Educação Integral do Governo Federal vem se desenvolvendo de forma isolada e com pouca participação da gestão e dos outros educadores, visto que somente a professora coordenadora organiza cotidianamente todo o programa, que já compreende cerca de 80 alunos e mais de 10 professores e oficineiros. Mesmo com todos os esforços da coordenação, o Programa acabou constituindo-se nesta escola em um espaço avulso de atividades que ocupa as crianças no período extra-turno, e que se deslocou da rotina geral da escola, passando despercebido diante do movimento do corpo escolar. Ainda que a implementação deste Programa de Educação Integral contemple as especificidades de cada região e escola do país e auxilie no desenvolvimento de atividades para além do currículo escolar obrigatório, podemos indicar alguns pontos necessários à análise com base na experiência acompanhada em uma Unidade Escolar específica. Em primeiro lugar, o exemplo deste Programa nos dá indícios significativos da problemática que se coloca quando uma Política Pública é implementada verticalmente pelos Poderes Públicos, neste caso pelo Ministério da Educação, impedindo a participação efetiva da base popular da comunidade escolar. Vemos que a tomada de decisões sobre os rumos que a escola e a educação devem tomar no nosso País concentram-se nas mãos de gestores e políticos, e que 3 IDEB: Índice de desenvolvimento da Educação Básica.

4 nossos educadores, no entanto, permanecem recolhidos em suas escolas, recebendo e desenvolvendo atividades designadas verticalmente pelos órgãos gestores e que sequer foram planejadas e apropriadas significativamente pelo corpo escolar. Neste sentido, o Programa Mais Educação nesta escola, por ser desenvolvido da mesma forma, carrega em si todas essas problemáticas, por ser mais uma decisão colocada sobre a escola, acarretando inúmeras mudanças repentinas na estrutura e dinâmica de funcionamento de toda a comunidade escolar. Conclusão Os dados colhidos durante nosso trabalho nesta Unidade Escolar dão indícios de como essas proposições verticais disseminadas a partir de políticas federais chegam de maneira atravessada no cotidiano escolar, acarretando inúmeras alterações na rotina, na estrutura e no modelo de educação desenvolvido nas escolas. Esse Programa Federal, como tantos outros implementados no Brasil, são decididos sem a participação efetiva daqueles que constroem diuturnamente os espaços, exatamente por se constituírem e serem designados para a base sem discussão e reflexão de qualidade. Entendemos que Políticas Públicas Educacionais como esta proposta pelo Governo Federal, embora representem um esforço necessário em benefício da ampliação do acesso e da qualidade da educação Brasileira, não podem ser designadas às escolas sem que o próprio corpo escolar reflita sobre sua implementação. As decisões específicas precisam ser discutidas com a base, que é a própria comunidade escolar, para que toda a Unidade Escolar e a Rede Municipal de Ensino possam de fato elaborar programas à semelhança do Mais Educação ou diferentes dele conforme for identificada a demanda, e para que não se esvaziem jamais os momentos de reflexão importantes para a educação. Como um modelo alternativo a essas políticas públicas e à maneira como elas são consolidadas no Brasil, indicamos a necessidade de criação de novas formas de implementação de políticas públicas, principalmente no campo educacional. É preciso que os Projetos sejam discutidos, propostos e construídos por aqueles que estão cotidianamente envolvidos no processo de escolarização como um todo, e que possam, de fato, refletir o modelo de sujeito, de política e de educação pautado pelo povo brasileiro. Referências MEC/SECAD/DEIDHUC. Mais Educação Passo a Passo. Brasília: 2009

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