DECISÃO MONOCRÁTICA. Trata-se de ação revisional proposta por FÁTIMA EUNICE ALVES DOS SANTOS em face do BRADESCO SAÚDE S.A

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1 Primeira Câmara Cível Apelante: BRADESCO SAÚDE S.A. Apelado: FÁTIMA EUNICE ALVES DOS SANTOS Relator: Des. MALDONADO DE CARVALHO SEGURO SAÚDE. ASSISTÊNCIA MÉDICO- HOSPITALAR. RELAÇÃO DE CONSUMO. REAJUSTE DE MENSALIDADE EM PERCENTUAL ABUSIVO E NÃO PREVISTO NO CONTRATO. ONEROSIDADE EXCESSIVA. ESTATUTO DO IDOSO. O percentual a ser aplicado nas mensalidades altera, de forma significante, a equação econômica do contrato, provocando um real desequilíbrio econômicofinanceiro, violando, assim, as legítimas expectativas do consumidor-aderente. O ordenamento constitucional, reproduzido nas normas da Lei nº 8.078/90, assegura os direitos do consumidor, sendo indevido o aumento unilateral e abusivo de mensalidade em percentual não previsto no momento da contratação, por violar os princípios da boa-fé e da confiança. Aplicação do artigo 15, 3º Lei /03. RECURSO QUE SE NEGA SEGUIMENTO. DECISÃO MONOCRÁTICA Trata-se de ação revisional proposta por FÁTIMA EUNICE ALVES DOS SANTOS em face do BRADESCO SAÚDE S.A Alega a autora, em síntese, que, desde 1999, é titular do plano de saúde administrado pelo réu, tendo completado 60 anos em abril de 2008; que pagava, até então, R$ 633,73 de mensalidade; que o réu promoveu o reajuste da mensalidade para R$ 1.200,79, em razão da mudança da faixa etária; que tal aumento é abusivo e infringe o Estatuto do Idoso que veda qualquer aumento em função da mudança da idade, sendo lícito, apenas, o reajuste autorizado pela ANS; que o reajuste máximo seria 11,69%; que necessita dos serviços médicos em razão da operação de câncer de tireóide. Requer a decretação da nulidade da cláusula que prevê reajuste em razão da idade, determinando que os índices de reajustes futuros correspondam apenas à variação da correção monetária autorizada pela ANS.

2 2 Às fls. 115, decisão que deferiu a antecipação dos efeitos da tutela. A sentença de fls. 131/136 julgou procedente o pedido formulado na ação ordinária para declarar nula a cláusula que prevê o reajuste da mensalidade unicamente com base no advento da idade de 60 anos (sessenta anos) ou mais, determinando que os índices de futuros reajustes por variação de custo, únicos cabíveis, observem os percentuais máximos fixados pela ANS. Julgou procedente, também, o pedido formulado na ação de consignação em pagamento, liberando a autora de sua obrigação até o mês de abril de 2008, considerando os depósitos feitos às fls. 34, 36, 40, 45, 47, 83, 87/88, 92/93, 94/95, 101, 103 e 104, que correspondem ao período de abril de 2008 a abril de Considerando, contudo, que, aplicado o percentual de reajuste por variação de custo autorizado pela ANS no período, os depósitos foram feitos a maior, autorizou a compensação em relação ao mês de maio, observando o percentual de reajuste incidente a partir deste mês, devendo o saldo, se houver, ser devolvido à autora. Condenou o réu, ainda, ao pagamento das custas e dos honorários advocatícios, fixados em R$ 3.000,00 (três mil reais), na forma do artigo 20, 4º, do CPC. Na sua apelação, arrazoada às fls. 138/145, aduz o réu, preliminarmente, a falta de interesse de agir. No mérito, sustenta, em resumo, que o cancelamento do plano de saúde ocorreu por conta da inadimplência da autora e por expressa previsão contratual e legal; que o reajuste é lícito. Requer a reforma total da sentença. Contra-razões às fls. 151/159, pela manutenção da sentença. 166/167). A Procuradoria de Justiça manifestou o seu desinteresse no feito (fls. Sem razão o recorrente. Insta de pronto o exame da preliminar de falta de interesse de agir, argüida pelo réu-apelante. Não merece prosperar. Com efeito, como bem salientou a douta Juíza de primeiro grau, está presente o binômio necessidade da tutela jurisdicional e adequação do provimento pleiteado. Ademais, segundo o documento de fls. 56, o seguro teria sido cancelado em 03/07/2008, porém, a autora não estava mais em mora nesta data, pois já havia consignado os valores que entendia devidos (fls. 34 e 36). Quanto ao mérito, dúvidas não pairam de que a relação entre as partes litigantes é de consumo, submetendo-se, pois, ao regramento do Código de Defesa do Consumidor. E mais, em razão da idade da apelada, aplica-se também o Estatuto do Idoso (Lei /2003), que, de forma expressa, veda a discriminação destes nos planos de saúde por cobrança de valores diferenciados em razão da idade, (artigo 15, 3º). Justiça: Também é neste mesmo sentido a jurisprudência do E. Superior Tribunal de

3 3 Direito civil e processual civil. Estatuto do Idoso. Planos de Saúde. Reajuste de mensalidades em razão de mudança de faixa etária. Vedação. - O plano de assistência à saúde é contrato de trato sucessivo, por prazo indeterminado, a envolver transferência onerosa de riscos, que possam afetar futuramente a saúde do consumidor e seus dependentes, mediante a prestação de serviços de assistência médicoambulatorial e hospitalar, diretamente ou por meio de rede credenciada, ou ainda pelo simples reembolso das despesas. - Como característica principal, sobressai o fato de envolver execução periódica ou continuada, por se tratar de contrato de fazer de longa duração, que se prolonga no tempo; os direitos e obrigações dele decorrentes são exercidos por tempo indeterminado e sucessivamente. - Ao firmar contrato de plano de saúde, o consumidor tem como objetivo primordial a garantia de que, no futuro, quando ele e sua família necessitarem, obterá a cobertura nos termos em contratada. - O interesse social que subjaz do Estatuto do Idoso, exige sua incidência aos contratos de trato sucessivo, assim considerados os planos de saúde, ainda que firmados anteriormente à vigência do Estatuto Protetivo. - Deve ser declarada a abusividade e conseqüente nulidade de cláusula contratual que prevê reajuste de mensalidade de plano de saúde calcada exclusivamente na mudança de faixa etária de 60 e 70 anos respectivamente, no percentual de 100% e 200%, ambas inseridas no âmbito de proteção do Estatuto do Idoso. - Veda-se a discriminação do idoso em razão da idade, nos termos do art. 15, 3º, do Estatuto do Idoso, o que impede especificamente o reajuste das mensalidades dos planos de saúde que se derem por mudança de faixa etária; tal vedação não envolve,portanto, os demais reajustes permitidos em lei, os quais ficam garantidos às empresas prestadoras de planos de saúde, sempre ressalvada a abusividade. Recurso especial conhecido e provido. RESP /RN, Relatora, Ministra NANCY ANDRIGHI. (Grifo nosso) Ao arrepio desses ordenamentos, vê-se que o percentual a ser aplicado nas mensalidades do plano da autora altera, de forma significante, a equação econômica do contrato, provocando um real desequilíbrio econômico-financeiro, violando, assim, as legítimas expectativas do consumidor-aderente. Tal aumento constitui, portanto, afronta ao art. 51, inciso X, do Código de Defesa do Consumidor, por caracterizar incremento unilateral da prestação na parte em que supera, abusivamente, o reajuste autorizado pelo Órgão regular da prestação do contrato.

4 4 Aliás, o ordenamento constitucional, reproduzido nas normas da Lei nº 8.078/90, assegura os direitos do consumidor, sendo indevido o aumento unilateral e abusivo de mensalidade em percentual não previsto, por violar os princípios da boa-fé e da confiança. Eis aí a razão, como pontua a douta Juíza sentenciante, de ter sido o aumento abusivo, pois chegou ao percentual de quase 100%. Justiça: Também é neste mesmo sentido a jurisprudência do E. Superior Tribunal de Direito civil e processual civil. Recurso especial. Ação revisional de contrato de plano de saúde. Reajuste em decorrência de mudança de faixa etária. Estatuto do idoso. Vedada a discriminação em razão da idade. - O Estatuto do Idoso veda a discriminação da pessoa idosa com a cobrança de valores diferenciados em razão da idade (art. 15, 3º). - Se o implemento da idade, que confere à pessoa a condição jurídica de idosa, realizou-se sob a égide do Estatuto do Idoso, não estará o consumidor usuário do plano de saúde sujeito ao reajuste estipulado no contrato, por mudança de faixa etária. - A previsão de reajuste contida na cláusula depende de um elemento básico prescrito na lei e o contrato só poderá operar seus efeitos no tocante à majoração das mensalidades do plano de saúde, quando satisfeita a condição contratual e legal, qual seja, o implemento da idade de 60 anos. - Enquanto o contratante não atinge o patamar etário preestabelecido, os efeitos da cláusula permanecem condicionados a evento futuro e incerto, não se caracterizando o ato jurídico perfeito, tampouco se configurando o direito adquirido da empresa seguradora, qual seja, de receber os valores de acordo com o reajuste predefinido. - Apenas como reforço argumentativo, porquanto não prequestionada a matéria jurídica, ressalte-se que o art. 15 da Lei n.º 9.656/98 faculta a variação das contraprestações pecuniárias estabelecidas nos contratos de planos saúde em razão da idade do consumidor, desde que estejam previstas no contrato inicial as faixas etárias e percentuais de reajuste incidentes em cada uma delas, conforme normas expedidas pela ANS. No entanto, o próprio parágrafo único do aludido dispositivo legal veda tal variação para consumidores com idade superior a 60 anos. - E mesmo para os contratos celebrados anteriormente à vigência da Lei n.º 9.656/98, qualquer variação na contraprestação pecuniária para consumidores com mais de 60 anos de idade está sujeita à autorização prévia da ANS (art. 35-E da Lei n.º 9.656/98).

5 5 - Sob tal encadeamento lógico, o consumidor que atingiu a idade de 60 anos, quer seja antes da vigência do Estatuto do Idoso, quer seja a partir de sua vigência (1º de janeiro de 2004), está sempre amparado contra a abusividade de reajustes das mensalidades com base exclusivamente no alçar da idade de 60 anos, pela própria proteção oferecida pela Lei dos Planos de Saúde e, ainda, por efeito reflexo da Constituição Federal que estabelece norma de defesa do idoso no art A abusividade na variação das contraprestações pecuniárias deverá ser aferida em cada caso concreto, diante dos elementos que o Tribunal de origem dispuser. - Por fim, destaque-se que não se está aqui alçando o idoso a condição que o coloque à margem do sistema privado de planos de assistência à saúde, porquanto estará ele sujeito a todo o regramento emanado em lei e decorrente das estipulações em contratos que entabular, ressalvada a constatação de abusividade que, como em qualquer contrato de consumo que busca primordialmente o equilíbrio entre as partes, restará afastada por norma de ordem pública. Recurso especial não conhecido. RESP /RJ, Relatora Ministra NANCY ANDRIGHI. A espécie é, pois, de recurso manifestamente improcedente. Pelo exposto, autorizado pelos artigos 557, caput do CPC e 31, inciso VIII, do Regimento Interno do Tribunal, NEGO SEGUIMENTO à apelação. Rio de Janeiro, 11 de dezembro de Desembargador MALDONADO DE CARVALHO Relator Certificado por DES. MALDONADO DE CARVALHO A cópia impressa deste documento poderá ser conferida com o original eletrônico no endereço Data: 15/12/ :47:20Local: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro - Processo: ( ) - Tot. Pag.: 5

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